O rei leão (2019)

Por André Dick

A sucessão de live actions lançada pelos estúdios Disney vem proporcionando uma onda de nostalgia para quem gosta de animações clássicas, do mesmo modo que bilheterias bilionárias. Neste ano, tivemos Dumbo, que desapontou financeiramente, e Aladdin, que está quase repetindo o feito financeiro de Mogli – O menino lobo, embora fique um pouco atrás de A bela e a fera. Apenas live actions menos comerciais (Christopher Robin, Meu amigo, o dragão) realmente não têm encontrado seu público. Dirigido pelo mesmo Jon Favreau da versão mais recente de Mogli, O rei leão é uma nova adaptação da história já levada às telas em 1994, que foi um grande sucesso, assim como venceu os Oscars de melhor trilha sonora (Hans Zimmer) e canção (“Can You Feel the Love Tonight”, de Tim Rice e Elton John).

A história mostra o nascimento de Simba (quando filhote JD McCrary e na vida adulta Donald Glover), filhote do leão Mufasa (James Earl Jones, também do original), que lidera uma determinada região da África do Sul, e da rainha Sarabi (Alfre Woodard). Ele é apresentado aos animais por um madril, Rafiki (John Kani), ao som de “The circle of life”, de Elton John, construindo um diálogo direto com o obra dos anos 90 e de maneira impactante. O trono de Mufasa, no entanto, é cobiçado por Scar (Chiwetel Ejiofor), um leão mais velho e amargurado, que procura um grupo de hienas, tendo à frente Shenzi (Florence Kasumba), para colocar um plano em ação. A melhor amiga de Simba é Nala (primeiro Shahadi Wright Joseph e depois Beyoncé Knowles-Carter) e o pássaro Zazu (John Oliver), ajudante de Mufasa, ajuda a vigiá-lo. Quando fica curioso com uma determinada indicação do seu tio, Simba irá se envolver numa complicação determinada, que o leva a conhecer o suricato Timon (Billy Eichner) e o javali Pumba (Seth Rogen). O roteiro de Jeff Nathanson, responsável pela escrita de alguns trabalhos de Spielberg (Prenda-me se for capaz, O terminal, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), é absolutamente fiel ao filme dos anos 90, com uma diferença na abordagem.

A dificuldade de fazer uma nova versão desse clássico era clara para Favreau. Responsável também pelos dois primeiros Homem de Ferro e por Cowboys e aliens, uma curiosa mescla entre ficção científica e faroeste, Favreau não tem a originalidade como uma de suas características. No entanto, no plano visual, ele consegue produzir peças diferenciadas, mesmo sem possuir as cores notáveis da obra que o inspirou. Este O rei leão talvez seja o maior filme live action já realizado, com uma aproximação da realidade tão grande que fica difícil separar o que é a própria natureza e o que é computação gráfica, acompanhado de uma direção de fotografia de Caleb Deschanel espetacular. É um trabalho irrepreensível, melhor, inclusive, do que Mogli e um antecipado vencedor do Oscar de efeitos visuais se não houver outro trabalho assim de destaque no ano. Os detalhes visuais de cada animal é impressionante, incluindo girafas, insetos, pássaros e antílopes: destaque-se a sequência em que Pumba e Timon encontram pela primeira vez Simba, num deserto inalcançável, lembrando a imensidão de Lawrence da Arábia, e cada detalhe facial é bem exprimido.
Favreau não segue exatamente os passos do diretor da animação, Rob Minkoff e Roger Allers, preferindo adotar um tom mais soturno para tratar dos passos da dinastia proclamada por Mufasa. A relação de amizade com seu pequeno filhote é muito interessante, com ensinamentos, mas aqui Favreau se atém a um tom menos infantil, mesmo com a clássica “Hakuna Matata”. O vasto cenário amplia, muitas vezes, a solidão do personagem central a partir de determinado momento, incorrendo em instantes sensíveis.

Ou seja, em certos momentos, este O rei leão é realmente mais para adultos e confere certamente seu diálogo com a peça Hamlet, de Shakespeare, mais do que o original. Há muitas sequências passadas à noite ou em cavernas escuras, além de uma homenagem evidente a trabalhos como Os dez mandamentos, dos anos 50, em determinadas passagens nas quais anteriormente já buscava seguir esse caminho – e os personagens só têm algum alívio quando estão seguindo o roteiro de canções já esperado. As hienas, as vilãs, soam muito mais ameaçadoras e filmadas com rara sagacidade. E, mesmo que suas expressões não sejam de uma animação, a movimentação deles é irretocável, um verdadeiro primor na transposição da realidade para a fantasia, acentuada pela trilha sonora emocionante de Hans Zimmer.
Como não especial admirador da animação, tendo a considerar este O rei leão uma peça mais bem acabada e, apesar de menos colorida, mais eficiente em sua mescla de drama e humor. Ainda existe, na metade, uma lacuna de roteiro que pode soar estranha já no original, além do final excessivamente apressado, elementos não resolvidos por Favreau, porém este consegue imagens mesmo mais poéticas do que o de 1994, lembrando um pouco o filme O elo perdido, dos anos 80, com uma recriação da savana africana tão milimétrica quanto expansiva. Há blockbusters de grande qualidade e este O rei leão é um deles. Que ele vai encontrar seu público é certo – e desta vez com grande justiça.

The lion king, EUA, 2019 Diretor: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani, John Oliver, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Florence Kasumba Roteiro: Jeff Nathanson Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Jon Favreau, Jeffrey Silver, Karen Gilchrist Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Fairview Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios

12 anos de escravidão (2013)

Por André Dick

12 anos de escravidão 16

Em razão de sua força histórica, os filmes sobre a escravidão costumam despertar polêmica. No ano passado, por exemplo, regressando a um embate da época de Pulp Fiction, Spike Lee disse que Tarantino desrespeitava a história com seu Django livre. Nele, Jamie Foxx interpretava um ex-escravo que fazia uma visita, com o dr. Schultz, à fazenda de Calvie Candie, na persona de Leonardo DiCaprio, acostumado a cometer os mais diversos tipos de violência contra seus escravos. Este ano o novo filme de Steve McQueen, 12 anos de escravidão, é recebido por alguns como o filme definitivo sobre o tema e como uma resposta inconsciente ao filme de Tarantino, que teria, de certa maneira, atenuado os acontecimentos reais. Tarantino, no entanto, tem um discurso muito mais contundente do que aparenta e não poupa o espectador, inclusive superando, nesse sentido, a abordagem de Bastardos inglórios, sua fascinante viagem pela II Guerra Mundial.
Pode-se desconfiar a abordagem de “filme definitivo” sobre o assunto, no entanto é preciso considerar que realmente o tema da escravidão foi mais abordado como pano de fundo do que como peça central. Mesmo em Lincoln, com seus méritos, ela é apenas um mote para que se falasse dos bastidores da política dos Estados Unidos no período enfocado. De qualquer modo, Spielberg realizou Amistad, filme subestimado, e A cor púrpura, no qual se faziam presentes as reminiscências da escravidão numa comunidade da Geórgia, com grandes atuações de Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey. No ano passado ainda, os irmãos Wachawski e Tom Tkywer focaram, numa das histórias de Cloud Atlas, a amizade entre um escravo e um homem cujo ouro interessava a outro passageiro de um navio, entrelaçando a história com a de outros períodos (no presente ou no futuro) em que outros seres humanos viviam situações parecidas em seu cotidiano.

12 anos de escravidão 17

12 anos de escravidão

12 anos de escravidão 6

O diretor inglês é ambicioso ao contar, a partir de 1841, a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que mora com sua família em Saratoga, Nova York, e, ao excursionar com dois homens brancos (Scoot McNairy e Taran Killam) a Washington, imaginando fazer uma tour musical, como violinista, é atraído para uma prisão e vendido como escravo. McQueen, durante a primeira hora de filme, encadeia uma sequência impressionante de cenas em que a submissão forçada recebe um caráter de narrativa crua, contrastando com uma fotografia delicada de Sean Bobbitt, habitual colaborador do cineasta. O momento em que Solomon se vê acorrentado é de uma composição claustrofóbica, tanto pelo cenário reduzido como pela condição do personagem, e McQueen o faz rapidamente depois de um panorama idílico da vida de Solomon para expandir a sensação. Ele vai parar nas plantações de algodão na Louisiana, sendo chamada de Platt e identificado como um escravo que fugiu da Geórgia. A primeira fazenda para a qual Solomon é levado é a de William Ford (Benedict Cumberbatch), interessado em reunir os escravos em seu pátio para ler páginas da Bíblia – não interrompida nem com o choro de uma das escravas, Eliza (Adepero Oduye)  – e que tem como um de seus capatazes John Tibeats (Paul Dano). Mas é quando chega à fazenda de Edwin Epps (Michael Fassbender) que Solomon irá enfrentar não apenas a perseguição, como o sentimento de estar preso indefinidamente na situação. Casado com Mary (Sarah Paulson), Epps tem como amante a escrava Patsy (Lupita Nyong’o), resultando em conflitos.
A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Há trilhas conhecidas pelo lado emotivo, e a de Zimmer é uma delas.
Nesse ponto, não é difícil considerar a obra de McQueen como muito superior àquela anterior, Shame, com o mesmo Michael Fassbender. Não apenas pelo tratamento dado por McQueen aos personagens. Em 12 anos de escravidão, eles não são apenas símbolos do diretor; são densamente humanos, e a solidão que os afeta atinge o espectador da maneira mais forte. Do mesmo modo, neste cenário de desesperança, McQueen concede – e isto ele tem em comum com Spielberg, normalmente acusado, neste ponto, de excessivamente emotivo – um horizonte sempre próximo de saída. Ao mesmo tempo, ele consegue abordar essa história trágica com um olhar, como o de Solomon, voltado para o céu. No entanto, ao contrário de Spielberg, McQueen não esconde a violência mais crua que resultava da escravidão e importante dizer: ela não é moderada, ou apenas assustadora para quem desconhece os fatos históricos. Ele filma algumas das sequências mais fortes já retratadas pelo cinema nesse sentido, assim como encadeia personagens a exemplo de Theophilus Freeman (Paul Giamatti) – no entanto, certamente seria limitador que 12 anos de escravidão ficasse conhecido pela violência histórica que retrata.

12 anos de escravidão 2

12 anos de escravidão 7

12 anos de escravidão 12

McQueen lida, também, com um embate entre o que seria pecado e as possíveis pragas bíblicas a partir disso, colocando o algodão branco como um exemplo de materialidade desse conceito. E traça com competência a genealogia buscada entre os donos de fazendas e as escravas, trazendo à cena algumas discussões importantes, utilizando a personagem de Harriet Shaw (Alfre Woodard), e o que já explorava em Shame: o castigo imposto ao corpo alheio como uma espécie de perversidade incontrolável. Em 12 anos de escravidão, esse castigo ganha contornos mais históricos e nos confronta com a reflexão social. Ao longo do filme, chama a atenção como McQueen não vê divisão entre a casa e o espaço onde os escravos transitam, como se eles fossem realmente parte de um cenário absolutamente normal, em que aquilo que seria reservado passa a ser aceito como parte de uma amplitude social. Pode haver violência tanto fora quanto dentro da casa, e na mesma intensidade, independente se é por objetos ou chibatadas. As mãos de Solomon alternam entre o castigo e o violino, quando possível, e a infância de Patsy, depois de ser descartada, tenta ser revivida com bonecas feitas artesanalmente por ela mesma. Um pedido fortuito no meio da noite pode também limitar a liberdade ou se negar à entrega.
Menos aflitivo talvez o filme fosse sem as atuações notáveis de todo o elenco, a começar por Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o. O poder do olhar de cada um deles marca 12 anos de escravidão de modo irretocável. Há, especialmente, uma cena de canto arrebatadora de Solomon – e só por ela Ejiofor já mereceria ser lembrado. Em seu polo oposto, Michael Fassbender faz um Epps de forma perfeita. Conhecido por seus feitos de interpretação em Shame, Prometheus e Bastardos inglórios, Fassbender traz a revolta. Lamenta-se apenas que alguns coadjuvantes (dos personagens de Giamatti, Dano e Cumberbatch) não sejam explorados – o filme, como referido, tem uma montagem excepcional, e, embora não prejudique o resultado em nenhum momento, pois há as cenas de violência e elas criam uma intensidade que possivelmente traria a exasperação com o tempo, é possível perceber que originalmente deveria ter até 3 horas para desenvolver cada um deles. No entanto, a aposta de fazer com que tudo seja uma experiência de Solomon, criando um isolamento dos outros personagens, ou apenas sua existência em razão do personagem principal, representa também o maior acerto de McQueen, ou seja, nada impede que 12 anos de escravidão continue com seu fluxo capaz de colocar o espectador inserido no período retratado de maneira incontornável.

12 years a slave, ING/EUA, 2013 Direção: Steve McQueen Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Brad Pitt, Alfre Woodard, Adepero Oduye, Paul Giamatti, Sarah Paulson Roteiro: John Ridley, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Hans Zimmer  Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad Duração: 133 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures Estúdio: New Regency Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment

Cotação 5 estrelas