Ruby Sparks – A namorada perfeita (2012)

Por André Dick

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Um dos filmes mais comentados no final de 2012, com uma recepção de cult, embora tenha passado rapidamente pelos cinemas, é Ruby Sparks – A namorada perfeita. Dirigido pela mesma dupla do criativo e com ótimo elenco Pequena Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris, o filme consegue se manter entre o drama, o romance e a comédia mais irônica ao longo da sua narrativa, sem exatamente alçar voos mais altos, mas tampouco desapontando o espectador.
Calvin Weir-Fields (Paul Dano, que participou do primeiro filme da dupla), depois de publicar um romance que se transformou em best-seller aos 19 anos, tem vivido uma crise existencial, sem conseguir produzir novos livros, e sai de casa praticamente apenas para participar de debates com alunos em universidades e de sessões de terapia com Dr. Rosenthal (Elliot Gould). Ele detesta a palavra gênio, e é chamado assim durante várias vezes ao longo do filme, sem esboçar felicidade. Isso porque gênio é a palavra que caracteriza o escritor que se destaca, colocando-o acima dos demais – e Calvin não se sente assim, pelo menos à primeira vista e com uma simples troca de palavras num debate.
Obcecado por J.D. Salinger, o autor de O apanhador no campo de centeio, ele ainda escreve numa máquina antiga, ou seja, afastado dos computadores . Também mora num apartamento moderno, completamente limpo, sem cores, como se retratassem a página que insiste em colocar todo o dia, junto com o café, a fim de ter uma espécie de inspiração momentânea para conseguir produzir outra história, além de um abajur posicionado geometricamente seja qual for a hora do dia e a insegurança diante da escrita.

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Ruby Sparks

Mantém uma relação próxima com o irmão, Harry (Chris Messina), tenta fugir do seu agente, Langdom Tharp (Steve Coogan) e convive com o seu cachorro, Scotty (uma homenagem a F. Scott Fitzgerald). Até o dia em que começa a sonhar com uma moça, que passa a servir de inspiração para seu livro. Quando o psiquiatra lhe pede para escrever algo numa página, o livro começa a surgir. Ele a chama de Ruby Sparks. Seu intuito é contar sua história desde o nascimento, passando pela infância, adolescência, até a vida adulta. Ela também é fã de John Lennon e pintora. E, certo dia, Ruby de fato aparece realmente, para seu espanto. No entanto, a princípio, ele considera que ninguém a vê, que ela é fruto de sua imaginação, até o momento em que conhece Mabel (Alia Shawkat), admiradora de sua obra.
Se antes tínhamos elementos que remetem a Adaptação (em que Nicolas Cage fazia os irmãos gêmeos que querem escrever roteiros), agora temos lembranças de A rosa púrpura do Cairo (uma das inspirações do filme), e do Gil Pender de Meia-noite em Paris, e o filme cultiva a ideia de que o personagem precisa se manter afastado do verdadeiro mundo para “criar sua obra”. No entanto, Ruby Sparks não chega a ser previsível como pode parecer a partir de sua premissa, embora sempre se mantenha numa linha regular, sem provocações. O filme brinca com o fato de o universo literário ser visto como o ponto da compreensão humana, assim como Pequena Miss Sunshine brincava com as estranhezas de uma família em viagem para um concurso de beleza da filha menor e tinha no personagem de Steve Carell o maior especialista de Proust nos Estados Unidos.
Ruby ganha vida com Joe Kazan, autora do roteiro e namorada na vida real de Paul Dano. O escritor passa a vivenciar outras experiências, inclusive aquela que parece mais ameaçadora: sair de casa. Passa, inclusive, a frequentar a noite – onde precisa passar por indiscrições de Ruby. Ela também o obriga a visitar sua mãe, Gertrude (Annette Benning), e seu padrasto, Mort (Antonio Banderas, inesperadamente divertido, embora subaproveitado), um carpinteiro que tenta convencer Calvin a levar para sua casa uma cadeira pós-moderna. Nada exatamente fora do contexto, e menos diferenciado do que a obra anterior dos diretores, apesar de o filme ter um ambiente indie interessante, apoiado numa bela trilha sonora de Nick Urata (a melhor qualidade do filme, ao lado da atuação do sempre eficiente Dano). É no momento em que Calvin e Ruby viajam para a praia que a noção de abertura da piscina para o mar se abre no personagem.

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Ruby Sparks depende de se gostar, mais do que de Paul Dano, de Zoe Kazan (neta do diretor Elia). Embora natural, ela fica um pouco deslocada quando o filme se inclina para a comédia, mesmo tendo feito o roteiro. Quando ela consegue dosar o personagem criado por Calvin e seus atritos românticos, mesmo que apressados e que escapam a um olhar mais atento, o filme acaba tendo seu melhor resultado. Com eles, o personagem passa a ter a experiência da vida que, na verdade, não deseja, mas experimentá-la por meio de Ruby passa a lhe causar não apenas melancolia, mas também cansaço e dinamismo. A questão é se ela conseguirá fazer com que Calvin dê tanto valor a ela quanto ao que estava fora dele mesmo. Volta-se, então, à questão que percorre o personagem: de que ele é, de fato, um gênio. Pois, se ele imaginava um amor perfeito com Ruby, ou seja, aplicava o romantismo em sua visão de mundo, com seus parques iluminados e uma toalha estendida no gramado, ele passa a reconhecer que pode ter o controle absoluto sobre Ruby, mas ela sempre será seu espelho, ou seja, com partes a serem sempre reescritas. É nesta releitura que, afinal, Calvin baseia sua existência a partir da premissa desse encontro, consigo e com o livro que, na verdade, tentará reescrever toda a vida.

Ruby Sparks, EUA, 2012 Diretor: Jonathan Dayton, Valerie Faris Elenco: Zoe Kazan, Antonio Banderas, Paul Dano, Alia Shawkat, Deborah Ann Woll, Annette Bening, Steve Coogan, Chris Messina, Elliott Gould, Aasif Mandvi, Wallace Langham Produção: Albert Berger, Ron Yerxa Roteiro: Zoe Kazan Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Nick Urata Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Bona Fide Productions / Fox Searchlight Pictures

Cotação 3 estrelas

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