Logan (2017)

Por André Dick

Desde a trilogia X-Men, iniciada por Bryan Singer no início dos anos 2000, até a mais recente, com um elenco jovem, passando pelos filmes de Wolverine, a Fox sempre apostou nesses personagens da Marvel com um apuro temático e visual, tentando criar novas referências para o gênero, com maior ou menos êxito. O personagem estrelado por Hugh Jackman ganhou um filme solo em 2009, com um primeiro ato muito bem feito, para se perder depois em tramas paralelas que não correspondiam à expectativa. A continuação se deu em 2013, com um trabalho visual que remetia a Refn, pelo trabalho com cores e o cenário oriental. Agora, o mesmo James Mangold propõe um encerramento para a trilogia de Wolverine com uma homenagem ao gênero do faroeste. Se A qualquer custo era quase um filme de assalto no qual poderia aparecer Clint Eastwood como justiceiro, Logan homenageia o gênero com seus cenários isolados e empoeirados, que ganham destaque na fotografia de John Mathieson, colaborador de Ridley Scott em obras como Gladiador, Cruzada e Robin Hood e que trabalhou em X-Men – Primeira classe.
O filme se passa em 2029, quando os mutantes estão quase extintos. James “Logan” Howlett, mais conhecido como Wolverine, está morrendo devido ao adamantium em seu organismo. Trabalhando como motorista de uma limousine no Texas, ele vive na fronteira mexicana numa fábrica abandonada, onde também se encontram o mutante albino Caliban (Stephen Merchant) e o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), cuja idade faz com que ele não tenha mais domínio sobre seus poderes telepáticos. Caliban precisa se manter afastado dos raios de sol e, com seu rosto protegido, ele parece mais alguém preparado para assaltar uma diligência.

Certo dia, Logan se depara com uma moça, Gabriela Lopez (Elizabeth Rodriguez), que trabalhou num projeto chamado Transigen, em que conheceu a menina Laura (Dafne Keen). Logo se colocam em seu encalço, sem saber exatamente os motivos, Donald Pierce (Boyd Holbrook), com os Reavers, seus agentes, e Zander Rice (Richard E. Grant), o criador de Transigen.
Este é o mote inicial para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características que remetem, aqui, igualmente a George Miller, de Mad Max, com sua crueza na abordagem das perseguições de carro e nas cenas de violência. Impressiona o quanto Mangold não evita o traço de violência, embora Wolverine – O filme fosse igualmente impactante nesse quesito.
O roteiro, escrito por Mangold em parceria com Scott Frank e Michael Green, é inteligente ao mostrar o Professor Xavier na posição de um pai de Wolverine e, sobretudo, ao desenvolver sua relação com Laura. Desta vez, Wolverine parece uma espécie de Josey Wales (embora em determinado momento Mangold use imagens de Os brutos também amam, faroeste dos anos 1950), personagem de Eastwood dos anos 70, perseguido depois de perder toda sua família.

Seu sentimento em relação à família obviamente está comprometido pela passagem dos anos e por todos os acontecimentos que o cercaram, mas é quando ele precisa de demonstrar afeto que surge a atuação notável de Hugh Jackman, seu melhor momento no cinema ao lado de Os miseráveis. Não ficam para trás Stewart, numa atuação exemplar, e a menina Dafne Keen, ótima em uma atuação minimalista.
É de se lamentar, perto dessas atuações, que aquelas dos vilões feitos por Holbrook e Grant se sintam tão esvaziadas e com poucas cenas para realmente contribuir com um embate entre partes completamente distintas, que poderia render momentos mais épicos. Tendo sido um apreciador do normalmente menosprezado X-Men – Apocalipse, do ano passado, tende-se a ver Logan apenas por suas indiscutíveis qualidades, sem ao certo ver que ele estabelece um novo parâmetro para esses personagens que não necessariamente está de acordo com o universo em geral da Marvel (a HQ em que o filme se baseia em parte tem personagens como Hulk, que não puderam ser utilizados), o que pode se constituir numa qualidade e num problema.
Logan tem um início extremamente violento – num estacionamento – que logo anteciparia uma adaptação radical dos quadrinhos e, ao longo da narrativa, não atenua seu ímpeto, quebrado apenas por algumas passagens mais demoradas. As garras do “super-herói” estão afiadas como a sua vontade de encontrar uma saída para a situação em que se encontra, e ela pode existir tanto em si quanto nas pessoas que o cercam. Em determinado momento, ele é impelido a buscar o “Éden”, um lugar onde se esclareceriam algumas questões – e este “Éden” parece uma impossibilidade diante de seus percalços.

Curioso como Mangold também insere as histórias em quadrinhos na explicação da narrativa do filme, buscando um interessante contraponto entre “ficção” e “realidade”, um traço metalinguístico, apesar de em nenhum momento escolher um design de produção que proporcione algum elemento de fantasia, sendo justamente sua tentativa a de trazer a fantasia para um espaço visto como plenamente real.
A menina Laura acaba proporcionando uma viagem nos moldes do recente Destino especial, de Jeff Nichols, em que a infância se misturava a poderes não explicados pelo olhar comum, com um intervalo que dá espaço a uma família tendo à frente Will (Eriq LaSalle) e Kathryn Munson (Elise Neal), com inevitável empatia junto ao espectador. Mangold, no entanto, centraliza essa busca com um apelo dramático dificilmente encontrado em filmes que adaptam quadrinhos e, quando tentam fazê-lo, são vistos como inevitavelmente soturnos. A paisagem solar do Texas não esconde a vulnerabilidade do personagem central desde o início: ele parece escondido por trás das paisagens que se erguem no deserto como sucata, sendo a sua limousine um contraponto a essa decadência que observa neste futuro que habita. É ele, no entanto, que de algum modo ainda se sente próximo de algo a ser reencontrado além das montanhas que evocam o seu início em 2009, quando trabalhava numa madeireira canadense, com a possibilidade de se proliferar novamente para que uns se sintam menos afastados dos outros, carregando um verdadeiro sentido de família.

Logan, EUA, 2017 Diretor: James Mangold Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Richard E. Grant, Boyd Holbrook, Stephen Merchant Roteiro: James Mangold, Scott Frank, Michael Green Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 135 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Twentieth Century Fox Animation

 

Peter Pan (2015)

Por André Dick

Peter Pan 6Se o espectador acompanha adaptações para o cinema de obras literárias, sabe que uma das que mais receberam esse bônus foi Peter Pan, de James Matthew Barrie. Ela já foi lançada em diferentes vertentes, embora a mais conhecida seja a clássica animação dos estúdios Walt Disney feita nos anos 50. Nos anos 90, Spielberg procurou renová-la trazendo-a para o universo moderno, em Hook – A volta do Capitão Gancho e em 2003 quem a adaptou foi o australiano P.J. Hogan.
Na adaptação de Joe Wright, o criador de peças como Desejo e reparação e o ótimo Anna Karenina, a história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Londres está sob ataque frequente. Num orfanato coordenado por freiras pouco acolhedoras, Peter (Levi Miller) é cuidado depois de ser abandonado pela mãe, Mary (Amanda Seyfried), e tem como melhor amigo Nibs (Lewis MacDougall). A rotina do lugar e a constante falta de comida, devido ao racionamento provocado pela guerra ou, segundo Peter, por uma das freiras, Madre Barnabas (Kathy Burke), estar estocando os alimentos num lugar escondido, fazem com que se imagine um universo à parte e, principalmente, em reencontrar a mãe.  Daí é um passo para que surja um navio de piratas no céu de Londres, em meio aos ataques, para capturar algumas crianças do lugar. Possivelmente não seja preciso muito conhecimento do mundo da fantasia de Barrie para perceber que este filme eleva à máxima potência a estranheza do universo de Peter Pan.

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Quando todos, finalmente, vão para a Terra do Nunca, e o menino herói precisa enfrentar a exploração numa mina, num diálogo claro com Indiana Jones e o templo da perdição, sob o comando de Barba Negra (Hugh Jackman), com o auxílio de Bishop (Nonso Anozie), o filme traz até mesmo um determinado hino do Nirvana à cena. As crianças, trabalhando como mineradores, devem encontrar o pó de pixum, que seria o pó das fadas. No lugar, Peter faz amizade, mesmo que forçada, com James Hook (Garrett Hedlund), sempre acompanhado pelo braço direito Sam Smiegel (Adeel Akhtar).
O que se tem dito, com base neste conjunto de cenas, é que a narrativa se perde. Se há, no entanto, fantasia capaz de misturar As aventuras do Barão de Münchausen (de modo geral, do universo de Terry Gilliam), Avatar e a profusão de cores que Wright já apresentava em Anna Karenina, é esta. Dificilmente se percebe em outras obras uma tentativa de fazer com que um clássico se reproduza em sua essência, mesmo que com liberdades evidentes, constuindo-se num prólogo. Este Peter Pan não apenas inicia com uma homenagem a um dos clássicos de Guillermo del Toro, passado num orfanato durante a Guerra Civil Espanhola, com suas bombas ameaçadoras caindo do céu, como leva o espectador a um encontro com uma certa indefinição entre gêneros que proporciona suas melhores características.

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Além disso, temos o elenco, sustentado pela revelação infantil Levi Miller, que convence durante todo o filme e nunca soa um personagem sob encomenda para tentativa de venda de brinquedos, assim como Jackman está particularmente bem como o vilão, e Garrett Hedlund finalmente tem uma nova chance de mostrar o talento comprovado como Dean Moriarty em Na estrada, desta vez com elementos de humor e um certo overacting sem prejudicá-lo no contexto. E Rooney Mara, que surge no papel coadjuvante de Tiger Lily, não desaponta por sua qualidade dramática já revelada em outro registro no ótimo Millennium, apesar de estar visivelmente desconfortável com sua premissa entre ser uma guerreira e um interesse amoroso. Wright põe em movimento esse elenco com a colaboração de seu diretor de fotografia habitual Seamus McGarvey e da trilha sonora excelente de John Powell, que evoca o alcance da imaginação proporcionada pelos figurinos, design de produção e efeitos especiais não menos do que notáveis.
Peter Pan contrapõe, de forma elegante, o ambiente cinza da Segunda Guerra Mundial com um universo de imaginação em grande escala de cores e variações. Há, igualmente, uma opção de Wright em fazer as cenas sem violência, mas sem abdicar de uma imaginação própria – principalmente numa determinada cena de confronto do Barba Negra. Claro que Peter Pan também tem outra qualidade bastante atrativa: embora não adapte Barrie de forma fiel, servindo tudo como um prólogo da história oficial, ele consegue estabelecer uma conexão entre o drama pessoal do personagem de querer reencontrar a mãe. Não deixa de ter uma clara relação com o perturbador Hanna, em que Wright expunha uma jovem aos experimentos que a transformaram numa máquina de guerra.

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Toda a história de Peter Pan gira em torno do menino querendo encontrar a sua mãe. O fato de a história de Barrie ser conhecida como a do menino que não queria crescer mostra que, na verdade, ele está sempre ligado a uma infância e à figura materna. No entanto, ao localizar este filme durante a Segunda Guerra e as crianças serem transformadas em mineradoras por um pirata explorador, e mesmo quando estão na Terra serem punidas, mostra que Wright indica a infância eterna como uma espécie de fuga aos problemas do dia a dia. É uma espécie de elogio localizado ao escapismo, que Wright explora por meio de cores e formas extraordinárias. Há três anos, John Carter foi rechaçado e fazia as mesmas tentativas de entregar um material diferenciado.
Se em alguns momentos o roteiro de Jason Fuchs não tem os diálogos mais explorados, pelo menos na caracterização dos personagens, nunca o faz por falta e sim por um ritmo contínuo – e avaliar que Peter Pan nesse sentido teria problemas de montagem ou seria tedioso é inevitavelmente uma surpresa. Do mesmo modo, ele tem algumas soluções criativas de plasticidade belíssima, como a memória que traz uma árvore (e não se trata de um ent) ou o momento em que por um lado temos a ameaça de um crocodilo e a presença tranquila de uma sereia (Cara Delevingne). Assim, num escopo abrangente, Wright trabalha com imagens como se fossem resquícios de uma infância perdida, seja no vislumbre de um navio de pirata encalhado ou em pássaros gigantes que parecem trazer apenas seu esqueleto como se fossem esboços inacabados, ou simples caravelas que flutuam no espaço e parecem vigiar com luzes à noite como se estivéssemos numa versão adiantada do novo Blade Runner, além de mostrar batalhas entre elas e aviões da Segunda Guerra com a profundidade daquelas que vemos em Invencível, e cenas no fundo das águas capazes de evocar um lugar desconhecido – quando as águas recuperam, para Wright, todas as lembranças, remetendo ao fio da corda em que Peter Pan fica em determinado momento preso no espaço, como se estivesse renascendo. Nesse sentido, esta visão para o clássico de Barrie se transforma numa fantasia memorável.

Pan, EUA/Reino Unido, 2015 Diretor: Joe Wright Elenco: Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Levi Miller, Amanda Seyfried, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Cara Delevingne Roteiro: Jason Fuchs Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: John Powell Produção: Greg Berlanti, Paul Webster, Sarah Schechter Duração: 111 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Berlanti Productions

Cotação 4 estrelas

 

Os suspeitos (2013)

Por André Dick

Os suspeitos

Independente de se admirar David Fincher, parece inevitável, em algum momento, seja pelo estilo narrativo, seja pelo aspecto visual, reconhecer que o thriller sobre caça a psicopatas não seria o mesmo sem a sua contribuição oferecida em Seven, Zodíaco e Millennium. Hoje, mais do que se buscar a influência de nomes clássicos, como Hitchcock, é em Fincher que os cineastas contemporâneos, e os diretores de TV do gênero policial, parecem buscar inspiração, mesmo que o débito em relação a Hitchcock exista no próprio Fincher. Podemos ver isso este ano em Terapia de risco, de Soderbergh, e agora em Os suspeitos, de Denis Villeneuve, comparado com Zodíaco e Seven. Contando com o trabalho de fotografia do exímio Roger Deakins, colaborador habitual dos irmãos Coen e responsável pelo visual extraordinário de 007 – Operação Skyfall, Os suspeitos ainda possui um elenco de primeira linha. Seu cenário, por sua vez, é uma mistura entre Seven (pela chuva constante) e Millennium, e a trama busca criar várias trilhas, partindo de uma determinada situação que lembra aquele que vemos em A caça.
No Dia de Ação de Graças, Keller (Jackman) e Grace Dover (Bello) vão se encontrar com um casal amigo, Franklin (Howard) e Nancy Birch (Davis). Por desatenção, deixam suas filhas saírem sozinhas, Anna (Erin Gerasimovich) e Joy (Kyla Drew Simmons), respectivamente. Havia um trailer na rua em frente, segundo o filho dos Dover, Ralph (Dylan Minnette), e todos desconfiam que a evidência aponta para o responsável pelo consequente desaparecimento delas. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal), numa lanchonete, é alertado sobre o caso e logo chega, com um grupo de policiais, ao veículo, onde descobrem Alex Jones (Dano, excelente mais uma vez, mesmo que com poucas linhas de diálogo). Trata-se de um rapaz com QI de uma criança de 10 anos, cuidado por uma tia, Holly (Melissa Leo), depois de ter perdido os pais. Villeneuve coloca o personagem de Keller querendo vingar o desaparecimento da filha, e daí por diante o seu conflito com a polícia e o detetive Loki se torna cada vez mais crescente.  Um grupo de personagens instigante poderia resultar num thriller policial de primeira grandeza, e Os suspeitos entrega pelo menos uma primeira meia hora fascinante, com uma boa colocação dos personagens e criação de um universo isolado, perdido no interior, de onde nada parece ter saída – e este ano tivemos a sensação em O lugar onde tudo termina –, mas com o passar do tempo parece se perder em algum ponto.

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Se o clima criado é realmente tenso e assustador em alguns momentos, e as pistas falsas, bem-vindas, o diretor parece um pouco surpreso ao lidar com este elenco. Hugh Jackman parece adotar um overacting sempre que está em exposição, como se quisesse uma indicação ao Oscar (evidente em suas explosões repentinas, sobretudo aquela em que segue, passo a passo, a atuação de Sean Penn em Sobre meninos e lobos), e o excelente casal de atores Terrence Howard e Viola Davis, deslocado da narrativa, tenta se encontrar em meio a dores de consciência diante de ações equivocadas que se perdem, demorando a criar algum tipo de ligação (e quase 150 minutos permitiriam isso), assim como quando a personagem de Maria Bello se torna acamada. Há, inclusive, algumas questões morais e religiosas colocadas de forma apressada, sem o devido peso, como se fossem inseridas para dar uma espécie de verniz (o que acontecia de forma orgânica em Seven), como a conversa inicial, que não se desenvolve ao longo do filme.
Este é o principal problema do filme longo, como Os suspeitos: é preciso, sobretudo, um trabalho de direção exato para ligar as pontas, mesmo que os personagens pareçam dispersos. Este é o talento de David Fincher, mas não de Villeneuve, que adota, em alguns momentos, movimentos de câmera querendo dar impacto a momentos mais comuns, como uma sequência em que filma um rio para se chegar ao grupo que está em busca das crianças, descuidando-se de detalhes que poderiam ser esclarecedores – e os símbolos que ele coloca à disposição do espectador na meia hora final dão a impressão de atender, na verdade, uma necessidade de soar mais hermético, sem nunca encontrar o ponto exato –, embora em outros surpreenda, quando, por exemplo, filma dois troncos de árvores para assinalar que as meninas desapareceram de casa, criando uma estranha fusão entre a natureza e o ser humano.

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Villeneuve tem uma noção bastante clara do cenário que dirige, criando momentos fantasmagóricos, mas ele não consegue delinear os personagens, talvez porque o roteiro de Aaron Guzikowski não tenha lhe permitido isso. Por isso, a presença de Jack Gyllenhaal chega a ser surpreendente. Mesmo com alguns cacoetes visando o Oscar e um enchimento na barriga para dar aspecto de homem mais velho, Gyllenhaal mostra que desde sempre foi um ator subestimado (está irrepreensível em Zodíaco e O segredo de Brokeback Mountain, para citar dois filmes). Os momentos em que ele está em cena, na pele de um detetive que parece tão congelado como o cenário que o cerca, quando não atrapalhado em sua investigação, tornam Os suspeitos um suspense mais interessante de ser assistido, com destaque para uma perseguição noturna, em que ele se vê exposto de maneira decisiva e para o momento em que precisa enfrentar Keller num carro.
O Festival de Toronto tem sido reconhecido por antecipar possíveis favoritos ao Oscar, e não por acaso recebeu Os suspeitos com euforia. Levando-se em conta que Argo, no ano passado, foi recebido com esse ânimo e recebeu o Oscar de melhor filme este ano, não parece, neste caso, que tenham novamente acertado. Os suspeitos é um thriller cujo diferencial está apenas no clima criado pela fotografia de Roger Deakins e nas atuações de Gyllenhaal e Dano. Embora tenso e perfeitamente assistível, quanto a suas surpresas e desfecho excessivamente expositivo, quando não constrangedor – com o roteiro querendo encobrir inúmeras falhas, e citá-las seria entrar em spoilers –, trata-se de mais uma thriller que tenta ser grande apenas na duração. Mas, de fato, compará-lo a Seven ou Zodíaco, seu maior objetivo, passa a ser, desde já, mais uma pista falsa.

Prisoners, EUA, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jack Gyllenhaal, Hugh Jackman, Maria Bello, Melissa Leo, Paul Dano, Terrence Howard, Viola Davis, Wayne Duvall, Zoe Borde, Dylan Minnett, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons  Roteiro: Aaron Guzikowski Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Kira Davis  Duração: 146 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: 8:38 Productions / Alcon Entertainment / Madhouse Entertainment

Cotação 3 estrelas

Os miseráveis (2012)

Por André Dick

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O fato de Tom Hooper ter recebido um Oscar precipitado de melhor diretor por O discurso do rei, com um dos filmes menos merecedores do prêmio principal, pode trazer uma desconfiança inicial para Os miseráveis. Em segundo, o fato de o gênero musical sofrer um declínio desde os anos 1970, quando foram feitos Um violinista no telhado e Hair, nos quais a história e as canções envolviam o espectador de forma inegável, e se pode ouvir as trilhas de forma quase independente, tamanho o seu alcance. No entanto, recentemente, torna-se difícil não lembrar da experiência desgastante que Baz Luhrmann nos proporcionou em Moulin Rouge, com sua montanha-russa de imagens, Rob Marshall, em Chicago, apesar dos bons atores, e Tim Burton, no excessivamente soturno Sweeney Todd. Além disso, os atores selecionados para Os miseráveis estavam prontos para entregar uma atuação dramática de ponta, capaz de ser credenciada para o Oscar, e isso, muitas vezes, compromete o resultado, pois soa artifical.
Tom Hooper por trás das câmeras, Anne Hathaway em lágrimas, Russell Crowe tentando cantar e Hugh Jackman na pele de um homem frágil e perseguido: eis os quesitos que podiam ter aniquilado Os miseráveis, baseado não apenas no histórico romance de Victor Hugo, de 1862, mas na adaptação feita inicialmente para a Broadway por Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer. Não se sabe exatamente, ao final, a contribuição de cada um para o resultado, mas é inegável dizer que Os miseráveis é um alento (incapaz de agradar a todos), podendo ser identificado como espetáculo teatral traduzido para o cinema. Close-ups no rosto dos artistas, câmeras em movimento constante, e ainda assim Hooper foi um dos poucos diretores a traduzir para o cinema uma encenação musical e tornar canções que poderiam simplesmente soar piegas (algumas o são) em algo que merece ser visto e apreciado. A sensação é de que estamos diante de um palco, mas um palco não estável, que nos permite nos aproximarmos das feições e gestos mais imperceptíveis dos atores, tentando vê-los cantar com a própria voz, nem que às vezes isso não aconteça (um tratamento depois da filmagem é visível), os acordes soem imperfeitos e os movimentos, frenéticos. Mas há certamente um propósito: Hooper não conseguiria captar o movimento dos personagens e encobrir o fato de que eles cantam (muito), e não dançam, com planos estáticos ou afastados dos personagens, à medida que cada canto se constitui numa espécie de monólogo e substitui, quase sempre, a sua parte falada.

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Desde o início, Os miseráveis impressiona por sua qualidade justamente na direção de Hooper, quando, com um movimento espetacular de câmera, ele mostra um grupo de prisioneiros, em meio à chuva e às ondas do mar, condenado a trabalhar em embarcações (que à época era a condenação por crimes contra a igreja), fazendo um trabalho braçal, sob o olhar de Javert (Russell Crowe). Ele ordena um dos homens, Jean Valjean (Hugh Jackman), preso por 19 anos por ter roubado um pedaço de pão, a erguer um mastro de navio e, em seguida, entrega sua liberdade condicional. Crowe, obviamente, não sabe cantar, mas Os miseráveis consegue justamente por isso (pelo menos na maior parte das vezes, os atores não parecem ter um canto aperfeiçoado depois em estúdio) transparecer a encenação teatral de cada situação. Em contrapartida, Jackman apresenta-se como um ator que consegue se desvencilhar de seus papéis anteriores, e sua peregrinação até ser acolhido numa igreja acontece em poucos minutos, nos quais Hooper emprega uma estética de videoclipe,  sem cair numa superficialidade, ou seja, as imagens continuam parecendo de um filme histórico. Ao roubar algumas pratarias do padre que o acolhe, ele é preso, mas, ao ser entregue por policiais, o religioso o protege. Prepara-se para se transformar em outro homem. E, com a câmera seguindo os olhos de Valjean, somos transportados para anos depois, quando ele já se transformou em dono de uma fábrica e prefeito de uma cidezinha. Uma de suas empregadas, Fantine (Anne Hathaway), precisa ser ajudada, depois de atravessar a prostituição, levando-o à sua filha, Cosette (primeiro, Isabelle Allen, depois Amanda Seyfried, de Mamma mia), e a um casal de oportunistas, os Thénardier (Sasha Bara Cohen e Helena Bonham Carter), a porção Sweeney Todd desta adaptação, sempre perseguido, noite adentro, por Javert. Cada um dos personagens é um símbolo sem dúvida, mas Fantine alcança um poder emocional maior quando canta de “I Dreamed a Dream”. De modo geral, esta é a história de Os miseráveis, e ela se passa, a partir de determinado momento, durante a Revolução dos estudantes contra a monarquia, em Paris, em que se insere o personagem do revolucionário Marius (Eddie Redmayne, de Sete Dias com Marilyn), Gavroche (a revelação Daniel Huttlestone) e Éponine, filha dos Thénardier (Samantha Barks).

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Trata-se, desse modo, ao mesmo tempo, um filme com uma reconstituição de época impressionante, desde a fotografia, passando pelo desenho de produção até o figurino, que soam em harmonia o tempo todo. Destaca-se a mescla do azul (como no teto da Igreja do início do filme, das roupas de vários personagens) com o branco da neve e o escuro da noite, o amarelo das velas e o vermelho das bandeiras e uniformes, iluminados por velas ou candelabros (veja Delacroix).
Particularmente, embora o poder vocal de cada ator varie em intensidade, há exatamente em Os miseráveis, com sua impressionante reconstituição de época e com a direção ousada de Hooper (como Bigelow, Wes e Paul Thomas Anderson, Peter Jackson, os irmãos Wachowski e Tom Tykwer, ele foi desta vez esquecido pelo Oscar), sustentado pela fotografia de Danny Cohen (parceiro do diretor na série John Adams e em O discurso do rei) e uma seleção de músicas que ora conseguem traduzir a experiência de cada personagem, ora simplesmente soam exageradas aos ouvidos, uma ausência de artificialidade, exatamente aquilo que costuma relegar muitos musicais ao esquecimento. Por mais que haja uma quantidade de câmeras em dispersão, em momento algum isso incomoda a ponto de diminuir a obra; pelo contrário, é a partir dessa maneira de registro que o filme ganha uma potência inesperada e realça o pano de fundo dos personagens de Os miseráveis: a miséria do povo, o trabalho escravo, o sofrimento. Não se pode esquecer que Victor Hugo é um autor romântico, e muitas de suas ideias, nesse sentido, realçam o sublime, o contato fervoroso com uma imagem divina. Não por acaso, o personagem Valjean está sempre cercado por imagens religiosas ou de crucifixos, e os cenários parecem sempre assustadores e grandiosos, tornando menor a presença do homem neles – Javert, em específico, está sempre andando em coberturas de prédios, como se fosse quase cair. É, sem dúvida, um elemento básico para a compreensão do filme, ou seja, suas especificações narrativas também pertencem a um determinado período, que o diretor Hooper consegue traduzir para a vertente contemporânea, sem apagar seu elemento histórico.
É bem verdade que exatamente este romantismo exacerbado acaba diminuindo a intensidade da segunda metade, quando Cosette e Marius se apaixonam e, em meio à Revolução de 1832, cantam declarações de amor, enquanto Varjean se conscientiza de que poderá perder sua filha adotiva para outro homem. Nesses momentos, Hooper não consegue contrabalançar da maneira mais coesa o canto de amor com as cenas de revolução (aliás, apesar de apressadas, muito bem feitas), tirando um pouco Os miseráveis do caminho que adotara até então, assinalado ainda por um final um tanto abrupto, embora o filme tenha 158 minutos. Mas não se trata de um equívoco capaz de atrapalhar o filme, pois não se percebe a duração. Pelo contrário: como poucos musicais desde os anos 70, Os miseráveis convida a um novo olhar.

Les misérables, Reino Unido, 2012 Diretor: Tom Hooper  Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson Roteiro: William Nicholson, baseado na obra de Victor Hugo Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Claude-Michel Schönberg Duração: 158 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Working Title Films / Cameron Mackintosh Ltd.

Cotação 4 estrelas