Um limite entre nós (2016)

Por André Dick

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Em Um limite entre nós, ou simplesmente Fences (Cercas), seu título original, o ator e diretor Denzel Washington fez a adaptação para o cinema da própria peça que interpretou na Broadway, escrita por August Wilson (e que teve à frente num de seus primeiros elencos James Earl Jones). Nos últimos anos, Washington esteve mais dedicado a filmes de ação, mas sempre conseguiu, mesmo neles, desempenhar uma faceta dramática. Em O voo, por exemplo, mais um drama do que um filme de aventura, ele fazia um piloto de vilão com problemas alcóolicos. É um dos poucos astros que conseguem conciliar uma imagem de pessoa equilibrada com transtornos psicológicos, o que já lhe rendeu dois Oscars, de ator coadjuvante, por Tempo de glória, e de melhor ator, por Dia de treinamento, além de atuações subestimadas, como a que apresenta no notável filme de Ridley Scott O gângster. Indicado ao Oscar novamente por Um limite entre nós, acabou perdendo a estatueta para Casey Affleck.
A narrativa se passa em Pittsburg no ano de 1957, em que Troy Maxson (Denzel Washington) trabalha como lixeiro e é casado com Rose (Viola Davis, também parceira de Washington na versão da Broadway). Seu círculo ainda inclui os filhos Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby) e o grande amigo Jim Bono (Stephen McKinley Henderson). O irmão mais velho de Troy, Gabe Maxson (Mykelti Williamson), também faz parte da família, com as sequelas de uma lesão que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial.

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Esses personagens entram e saem de cena como se estivessem realmente numa peça de teatro, com a simplicidade imposta pela direção de Washington, que já havia demonstrado muito talento por trás das câmeras em Voltando a viver, aproveitando muito bem a fotografia de Charlotte Bruus Christensen para realizar um filme de época de classe.
O filho mais velho, Lyons, de outra mãe, sempre aparece para pedir dinheiro emprestado para sua carreira musical, enquanto o mais novo, Cory, pretende se dedicar ao beisebol, o que deixa Troy um pouco enciumado, já que quase foi jogador depois de uma passagem pela prisão. Ele exatamente é um homem quer construir cercas ao redor da sua casa para demarcar o que pode ser, o que conquistou ou não, suas falhas e virtudes. Trata-se de um personagem muito complexo, pois não inspira exatamente simpatia do espectador, preferindo se concentrar mais no que tem a dizer no que os outros têm a lhe falar ou responder, e nisso a personagem de Rose é vital para que o espectador se aproxime mais dessa família. Ela é o símbolo da mãe que tenta conciliar os filhos e o pai, cada um com suas características particularíssimas, e que tenta romper com os conflitos que surgem.

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Por não esconder sua origem claramente teatral, Um limite entre nós é levemente prejudicado pelo número (excessivo) de diálogos em sua primeira metade. Quando o filme passa a ter cenas menos exageradas nesse sentido, ou seja, quando Washington deixa de fazer grandes monólogos (e sua direção não ajuda a conter a própria atuação), a narrativa melhora e abre espaço para uma ótima atuação de Viola Davis, que consegue equilibrar o drama mais emocionado e contido de maneira realmente irrepreensível, o que lhe rendeu um Oscar merecido (embora ela seja atriz principal e não coadjuvante).
Entretanto, arrisca-se dizer que grandes atuações têm os coadjuvantes: Jovan Adepo, Russell Hornsby (mais conhecido pela série Grimm), Stephen McKinley Henderson e Mykelti Williamson, todos grandiosos em sua naturalidade e tão injustiçados na temporada de premiações quanto os atores que fazem Cherrie em Moonlight. Com eles, o filme de Washington atinge a ternura discreta que há em Loving, por exemplo. Com poucos diálogos cada um e cenas não tão longas, todos conseguem desempenhar bem esse conflito ou não com a figura de Troy. Os embates com essa figura paterna se dão tanto dentro de casa quanto no quintal, ou seja, no território delimitado por ele e onde acredita mandar mais do que todos, inclusive dando-se permissão a uma liberdade não normalmente concedida ao homem. O roteiro deixado por Wilson, falecido em 2005, é notável ao mostrar que o núcleo familiar é construído pela mulher e pelo homem, mas sobretudo por tudo aquilo que leva ao crescimento pessoal em prol do conjunto.

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Um limite entre nós cansa um pouco em razão desse número de diálogos e pela pouca variação nos cenários, apostando no orçamento limitado, no entanto Washington consegue desenhar os personagens de maneira interessante. Mesmo uma revelação em determinada parte justifica o brilho nervoso de Troy durante mais de uma hora, fingindo uma alegria incontida. Washington não está bem como em Dia de treinamento e O voo por alguns maneirismos excessivos, e ainda assim se mostra inegavelmente competente e mesmo emociona em alguns trechos. Pode-se dizer que a história começa cansativa (sua longa duração não ajuda em certas partes) e termina até arrebatador. É uma obra autenticamente clássica, mostrando um período da história dos Estados Unidos que levou a outros movimentos em seguida, que Washington representaria, por exemplo, no filme de Spike Lee Malcolm X. Os direitos, aqui, não chegam a ser de toda uma comunidade, mas o que pensa e deseja Troy, de certo modo, é o sonho do trabalhador muitas vezes deixado de lado e cuja falta de empatia esconde, na verdade, um grande apreço pela proteção máxima à família. Mesmo que tudo pareça, inclusive, indicar o contrário.

Fences, EUA, 2016 Diretor: Denzel Washington Elenco:Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Mykelti Williamson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Saniyya Sidney Roteiro: August Wilson Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Produção: Denzel Washington, Scott Rudin, Todd Black Duração: 139 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: MACRO / Scott Rudin Productions

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Esquadrão suicida (2016)

Por André Dick

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Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Esquadrão suicida se transformou na obra que poderia salvar a Warner/DC de novas críticas obtidas em larga escala por Batman vs Superman – o que, pela recepção em geral, acabou não acontecendo. O chamariz principal era a participação de Jared Leto, vencedor do Oscar de coadjuvante por Clube de compras Dallas, como Coringa, embora estejam no elenco nomes como Will Smith, Viola Davis e Margot Robbie.

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O roteiro de David Ayer, diretor de Corações de ferro, coloca Amanda Waller (Viola Davis) como aquela que irá reunir, com o apoio do presidente – isso em razão do destino de um dos personagens de Batman vs Superman –, uma equipe de criminosos: Pistoleiro (Will Smithy), o ex-gângster El Diabo (Jay Hernandez), o monstruoso Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), o mercenário Amarra (Adam Beach), e Arlequina (Margot Robbie), ex-psiquiatra do Asilo Arkham. Eles estão na penitenciária de Belle Reve, onde são reunidos por Rick Flag (Joel Kinnaman). Uma das figuras que Waller também seleciona é a Dra. June Moone (Cara Delevingne), que é possuída por uma bruxa, “Magia”, capaz de colocar Midway City em polvorosa com um grupo enorme de monstros. O grupo, Esquadrão Suicida, é vigiado por Katana (Karen Fukuhara), com uma espada, e, enquanto o Pistoleiro se lembra do passado com sua filha, sua real ponte com a humanidade, Arlequina só tem a se lamentar que não viu mais seu amado Coringa (Jared Leto) depois que foi presa. Curioso como um grupo de ameaças à sociedade acaba constituindo um filme, sinal de tempos em que Norman Bates é mostrado ainda adolescente ou Hannibal se transforma em peça-chave de uma série. No entanto, pode-se dizer que nenhum do Esquadrão suicida é tão ameaçador quanto foi Lex Luthor, interpretado por Jesse Eisenberg em Batman vs Superman.

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Ayer, que escreveu o roteiro de um dos melhores filmes policiais deste século, Dia de treinamento, com Ethan Hawke e Denzel Washington, imprime uma sequência caótica de imagens nos primeiros 40 minutos eletrizantes de Esquadrão suicida. Nessa introdução, há direito a chamadas de personagens que parecem dialogar com a pop art, entregando o mínimo de diálogos a cada um, mas com um sentido muito grande para a ação que remete a quadrinhos – e (spoiler) as participações de Batman são as melhores – e uma influência clara de Watchmen, de Snyder nas transições de cena e mesmo no uso de câmera lenta para dar dramaticidade, além de um uso impactante de flashbacks para demarcar a condição de cada um. E, mais do que a trilha pop que reúne, por exemplo, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, mais tensa é a trilha de Steven Price, o mesmo de Gravidade.
Quando o grupo se reúne, Ayer parte para uma homenagem evidente a Fuga de Nova York, de John Carpenter, com o uso do cenário urbano de forma incontestavelmente bem situado e um sentido de ameaça à espreita com os monstros que devem ser combatidos pelo esquadrão. O interessante do roteiro de Ayer é que os personagens não se sentem obviamente fazendo um favor à humanidade, apenas a si mesmos, e nisso não perdem, de qualquer modo, a referência que os une, principalmente nos casos do Pistoleiro e de Arlequina. Tanto por causa da atuação de Smith quanto pela de Robbie – uma parceria já exitosa em Golpe duplo –, eles entregam o que há de melhor em Esquadrão suicida, junto com Viola Davis, com o talento habitual, e mesmo Kinnaman (o novo RoboCop).

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E a tão falada atuação de Leto é visivelmente prejudicada pela montagem. Sua presença em cena é quase divida em vinhetas, mas Leto não entrega um Coringa óbvio: com seu ar de gângster, correntes e tatuagens, ele é ameaçador dentro do tempo que lhe permitiram, afastando-se tanto de Jack Nicholson quanto de Heath Ledger (que praticamente eram os personagens principais dos filmes em que apareciam) e fazendo algo mais estilizado e influenciado pelos quadrinhos. Pelo desinteresse de Ayer em desenhar uma violência explícita, o Coringa se sente às vezes excessivamente contido e sem ser agraciado por falas bem-humoradas, certamente um equívoco do roteiro. Há uma cena num clube que ele posa de Scarface, servindo praticamente de cafetão de Arlequina. De qualquer modo, a cena que melhor o representa é quando salta num caldeirão das indústrias Acme (onde se dá sua criação no Batman de Tim Burton), junto com Arlequina e as cores de ambos, diluídas, vão se misturando – enquanto em outra cena, de helicóptero, ele também homenageia o Coringa de Nicholson. O que se pode dizer é que Cara Delevingne prejudica terrivelmente Magia, com sua falta de senso interpretativo, disfarçada em Cidades de papel pela atuação excelente de seu parceiro de cena.
Porém, há um certo desvio de Ayer no terceiro ato, um problema de vários filmes de super-heróis e, aqui, de anti-heróis: a violência é incessante e caótica, sem um direcionamento definido, e se perde a tensão que havia até a sequência anterior, que acontece num lugar mais calmo, mesmo que a qualidade da fotografia de Roman Vasyanov seja preservada e o design de produção continue elaborado.

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Não há nenhuma influência, como vem se considerando talvez por se tratar de personagens à margem da lei, de Guardiões da galáxia: tudo é muito soturno, como na maior parte das vezes acontece em filmes da DC Comics (é difícil saber em que momento pode ter havido alguma refilmagem, como se comentou depois do lançamento, pois o filme tem o mesmo tom desde o início), e o gráfico de algumas cenas é às vezes mesmo desagradável para crianças. Dos anti-heróis, o mais assustador é Crocodilo, no entanto é El Diablo que coloca uma horda de inimigos em estado de combustão impressionante, remetendo a David Cronenberg. A Arlequina serve como um alívio cômico, embora mais trágico – e sua prisão é uma referência a Hannibal Lecter de O silêncio dos inocentes –, enquanto o Pistoleiro é realmente aquele que tenta sobreviver no cárcere guardando uma ideia de família, sustentada pela atuação de Smith, melhor do que no recente Um homem entre gigantes, prestando no início uma breve homenagem ao papel que interpretou em Ali. É interessante como ele visualiza em Arlequina apenas uma vítima, tão solitária como a sua filha, embora escondida por uma máscara de resistência e entregue feliz à psicopatia de Coringa. Se Esquadrão suicida não se equivale ao acerto Batman vs Superman, também por seu objetivo ser outro, ele consegue, de maneira ágil, apresentar esses personagens sem recorrer a diluir a essência deles na tentativa de agradar de maneira fácil. Dentro do que se propõe, é convincente e vigoroso.

Suicide squad, EUA, 2016 Diretor: David Ayer Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Cara Delevingne Roteiro: David Ayer Fotografia: Roman Vasyanov  Trilha Sonora: Steven Price Produção: Charles Roven, Richard Suckle Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures

Cotação 4 estrelas

Hacker (2015)

Por André Dick

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Se por um lado o diretor Michael Mann às vezes é cultuado por filmes que não chegam a me surpreender, como Fogo contra fogo e Colateral, por outro ele é recebido de maneira negativa pelo público e pela crítica. É o exemplo de Hacker, um grande fracasso nos Estados Unidos e que não chegou a estrear no Brasil (evitando se juntar com os grandes lançamentos que aportam no país às quinta-feiras). Estou longe de ser defensor de Mann, mas realmente gostei muito de Miami Vice e, principalmente, Inimigos públicos, seus filmes anteriores, com uma atmosfera impressionante, entendendo-se de antemão que ele vem se apropriando de um determinado tipo de narrativa em que o roteiro não fica muito claro em termos de construção e os personagens são definidos com poucas linhas de diálogo. Mann, de certo modo, opta pelo movimento, em que os personagens embarcam sem uma linha prévia de comportamento. Ao final de algumas obras de Mann, não é raro termos pouca certeza das características emocionais dos personagens, principalmente em Miami Vice, quando todas as ações parecem se misturar com o movimento da investigação e não há parada a fim de que conheçamos cada um deles.
No início de Hacker, uma usina nuclear em Wan Chai, Hong Kong, teve suas bombas de refrigeração detonadas, depois de um superaquecimento, por um hacker.Um oficial militar, o capitão Chen Dawai (Leehom Wang), toma o caso e convoca sua irmã Chen Lien (Tang Wei), que trabalha como engenheira de rede. A eles se junta a agente do FBI Carol Barrett (Viola Davis) em Los Angeles, acompanhada por Henry Pollack (John Ortiz) e Mark Jessup (Holt McCallany). A ferramenta utilizada no ataque foi feita por Chen e seu colega de faculdade Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth), que se encontra na prisão. Dawai pede que o FBI consiga a liberação de Hathaway, a fim de que ele possa ajudar no caso.

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Daí em diante, o caso se expande para vários lugares: em Hong Kong, a equipe liderada por Carol e Chen tenta chegar a Kassar (Ritchie Coster), um paramilitar, no entanto tudo pode esconder novas armadilhas para que não seja identificada a origem do ataque. Esta sequência é, particularmente, a mais acertada do filme, colocando o espectador no centro da ação, e antecipa aquela um pouco anterior à finalização. Os superiores de Dawai, da China, não querem se colocar contra os Estados Unidos, a partir de determinado momento, pois surgem ordens de se deter Hathaway. Este acaba, com Dawai e Lien, fazendo planos de deixar Hong Kong, quando são atacados novamente por Kassar.
O roteiro é fácil de ser solucionado, mas realmente não é possível conectar este filme com uma recepção negativa. Se há um Wong Kar-Wai da espionagem, pode ser encontrado neste filme, em que Mann eleva o suspense, a ação e o gênero policial ao status de arte (independente do exagero disso). Mann se mostra cada vez mais claramente um artesão, com um senso de filmagem poucas vezes visto em outros nomes antes dele e de sua geração. Suas obras sempre foram visualmente belíssimas, como O último dos moicanos e Ali, porém em alguns aspectos essa maravilha de percepção não se fechava com a emoção do que mostrava; muitas vezes, os personagens de Mann são excessivamente vagos. E o roteiro às vezes se constitui num esboço em que as imagens vão acrescentado o verdadeiro significado. Este talvez seja uma das características de Hacker, com Hathaway, Chen e Dawai sendo quase símbolos: o assaltante a bancos, o agente e sua irmã como interesse amoroso.

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No entanto, quando se reclama de um roteiro depois de um filme como Mad Max: Estrada da Fúria, realmente é de desconectar os chips e bits: Hacker não se importa de forma exagerada com o roteiro porque é uma perseguição incessante. Ainda assim, em meio a essa perseguição, Mann consegue revelar a humanidade de seus personagens – muito por causa de Hemsworth e Wi Tang, além de mostrar novamente um grande talento em filmar tiroteios, empregando uma realidade nessas ações incomum a outras obras de Hollywood. Esses personagens são ajudados pelo elenco, claramente funcional dentro do que Mann pretende – e Viola Davis, mais uma vez, se mostra uma atriz à altura da empreitada.
Por trás desses personagens e dessa linha de ação envolvendo o universo do poder da informática sobre as transformações suscetíveis no mundo, o filme de Mann se mostra extremamente feliz em atenuar a violência do universo contemporâneo por uma beleza de visão que fixa a tranquilidade de paisagens orientais e as cores alternando entre o verde e o vermelho dos neons noturnos e das luzes piscando quando se vê as cidades de maneira tão ampla. Por outro lado, o filme também encadeia sequências de imagens que remetem a uma espécie de labirinto de concreto, principalmente nas sequências em que os federais estão atrás de Nicholas, e as ruas enevoadas de fumaça de comida de Hong Kong.

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Trata-se, sem dúvida, de uma visão autoral, e ela atinge também o personagem de Hathaway, que se situa entre a ilegalidade e a tentativa real de dar sustentação a um objetivo que é atingir um criminoso. No filme imediatamente anterior de Mann, Inimigos públicos, o vilão, feito por Johnny Deep, tinha uma presença maior (acompanhada de seu romance) do que o herói, feito por Christian Bale. Os personagens aqui podem ameaçar o mundo diante de uma tela de computador, no entanto Mann é um autor perspicaz o bastante para mostrar que não há ingenuidade e que as relações humanas, se não acertadas, podem desencadear uma cadeia de terrorismo inescapável, o que já se mostrava em Miami Vice com sua temática de tráfico de drogas. Hathaway inicia o filme lendo Foucault na cela em que se encontra e pode ser que o governo que o segue, assim como a operação para a qual presta o serviço, tanto sirva sua condição quanto o puna.
Hacker também apresenta elementos que lembram Boarding gate, um dos melhores filmes de Olivier Assayas (e paradoxalmente o mais criticado) e uma fotografia espetacular de Stuart Dryburgh. Cada enquadramento de Hacker é um quadro de cores. Que este filme apanhe pessoas dormindo, é algo a se lamentar, pois está distante da maior parte do cinema moderno e das estreias que chegam no país às quinta-feiras.

Blackhat, EUA, 2015 Direção: Michael Mann Elenco: Chris Hemsworth, Leehom Wang, Wei Tang, Viola Davis, John Ortiz, Ritchie Coster, Yorick van Wageningen, Holt McCallany Roteiro: Morgan Davis Foehl Fotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Atticus Ross, Harry Gregson-Williams, Leopold Ross Produção: Jon Jashni, Michael Mann, Thomas Tull Duração: 133 min. Distribuidora: Universal Pictures mEstúdio: Forward Pass / Legendary Pictures

Cotação 5 estrelas

Os suspeitos (2013)

Por André Dick

Os suspeitos

Independente de se admirar David Fincher, parece inevitável, em algum momento, seja pelo estilo narrativo, seja pelo aspecto visual, reconhecer que o thriller sobre caça a psicopatas não seria o mesmo sem a sua contribuição oferecida em Seven, Zodíaco e Millennium. Hoje, mais do que se buscar a influência de nomes clássicos, como Hitchcock, é em Fincher que os cineastas contemporâneos, e os diretores de TV do gênero policial, parecem buscar inspiração, mesmo que o débito em relação a Hitchcock exista no próprio Fincher. Podemos ver isso este ano em Terapia de risco, de Soderbergh, e agora em Os suspeitos, de Denis Villeneuve, comparado com Zodíaco e Seven. Contando com o trabalho de fotografia do exímio Roger Deakins, colaborador habitual dos irmãos Coen e responsável pelo visual extraordinário de 007 – Operação Skyfall, Os suspeitos ainda possui um elenco de primeira linha. Seu cenário, por sua vez, é uma mistura entre Seven (pela chuva constante) e Millennium, e a trama busca criar várias trilhas, partindo de uma determinada situação que lembra aquele que vemos em A caça.
No Dia de Ação de Graças, Keller (Jackman) e Grace Dover (Bello) vão se encontrar com um casal amigo, Franklin (Howard) e Nancy Birch (Davis). Por desatenção, deixam suas filhas saírem sozinhas, Anna (Erin Gerasimovich) e Joy (Kyla Drew Simmons), respectivamente. Havia um trailer na rua em frente, segundo o filho dos Dover, Ralph (Dylan Minnette), e todos desconfiam que a evidência aponta para o responsável pelo consequente desaparecimento delas. O detetive Loki (Jake Gyllenhaal), numa lanchonete, é alertado sobre o caso e logo chega, com um grupo de policiais, ao veículo, onde descobrem Alex Jones (Dano, excelente mais uma vez, mesmo que com poucas linhas de diálogo). Trata-se de um rapaz com QI de uma criança de 10 anos, cuidado por uma tia, Holly (Melissa Leo), depois de ter perdido os pais. Villeneuve coloca o personagem de Keller querendo vingar o desaparecimento da filha, e daí por diante o seu conflito com a polícia e o detetive Loki se torna cada vez mais crescente.  Um grupo de personagens instigante poderia resultar num thriller policial de primeira grandeza, e Os suspeitos entrega pelo menos uma primeira meia hora fascinante, com uma boa colocação dos personagens e criação de um universo isolado, perdido no interior, de onde nada parece ter saída – e este ano tivemos a sensação em O lugar onde tudo termina –, mas com o passar do tempo parece se perder em algum ponto.

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Se o clima criado é realmente tenso e assustador em alguns momentos, e as pistas falsas, bem-vindas, o diretor parece um pouco surpreso ao lidar com este elenco. Hugh Jackman parece adotar um overacting sempre que está em exposição, como se quisesse uma indicação ao Oscar (evidente em suas explosões repentinas, sobretudo aquela em que segue, passo a passo, a atuação de Sean Penn em Sobre meninos e lobos), e o excelente casal de atores Terrence Howard e Viola Davis, deslocado da narrativa, tenta se encontrar em meio a dores de consciência diante de ações equivocadas que se perdem, demorando a criar algum tipo de ligação (e quase 150 minutos permitiriam isso), assim como quando a personagem de Maria Bello se torna acamada. Há, inclusive, algumas questões morais e religiosas colocadas de forma apressada, sem o devido peso, como se fossem inseridas para dar uma espécie de verniz (o que acontecia de forma orgânica em Seven), como a conversa inicial, que não se desenvolve ao longo do filme.
Este é o principal problema do filme longo, como Os suspeitos: é preciso, sobretudo, um trabalho de direção exato para ligar as pontas, mesmo que os personagens pareçam dispersos. Este é o talento de David Fincher, mas não de Villeneuve, que adota, em alguns momentos, movimentos de câmera querendo dar impacto a momentos mais comuns, como uma sequência em que filma um rio para se chegar ao grupo que está em busca das crianças, descuidando-se de detalhes que poderiam ser esclarecedores – e os símbolos que ele coloca à disposição do espectador na meia hora final dão a impressão de atender, na verdade, uma necessidade de soar mais hermético, sem nunca encontrar o ponto exato –, embora em outros surpreenda, quando, por exemplo, filma dois troncos de árvores para assinalar que as meninas desapareceram de casa, criando uma estranha fusão entre a natureza e o ser humano.

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Villeneuve tem uma noção bastante clara do cenário que dirige, criando momentos fantasmagóricos, mas ele não consegue delinear os personagens, talvez porque o roteiro de Aaron Guzikowski não tenha lhe permitido isso. Por isso, a presença de Jack Gyllenhaal chega a ser surpreendente. Mesmo com alguns cacoetes visando o Oscar e um enchimento na barriga para dar aspecto de homem mais velho, Gyllenhaal mostra que desde sempre foi um ator subestimado (está irrepreensível em Zodíaco e O segredo de Brokeback Mountain, para citar dois filmes). Os momentos em que ele está em cena, na pele de um detetive que parece tão congelado como o cenário que o cerca, quando não atrapalhado em sua investigação, tornam Os suspeitos um suspense mais interessante de ser assistido, com destaque para uma perseguição noturna, em que ele se vê exposto de maneira decisiva e para o momento em que precisa enfrentar Keller num carro.
O Festival de Toronto tem sido reconhecido por antecipar possíveis favoritos ao Oscar, e não por acaso recebeu Os suspeitos com euforia. Levando-se em conta que Argo, no ano passado, foi recebido com esse ânimo e recebeu o Oscar de melhor filme este ano, não parece, neste caso, que tenham novamente acertado. Os suspeitos é um thriller cujo diferencial está apenas no clima criado pela fotografia de Roger Deakins e nas atuações de Gyllenhaal e Dano. Embora tenso e perfeitamente assistível, quanto a suas surpresas e desfecho excessivamente expositivo, quando não constrangedor – com o roteiro querendo encobrir inúmeras falhas, e citá-las seria entrar em spoilers –, trata-se de mais uma thriller que tenta ser grande apenas na duração. Mas, de fato, compará-lo a Seven ou Zodíaco, seu maior objetivo, passa a ser, desde já, mais uma pista falsa.

Prisoners, EUA, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jack Gyllenhaal, Hugh Jackman, Maria Bello, Melissa Leo, Paul Dano, Terrence Howard, Viola Davis, Wayne Duvall, Zoe Borde, Dylan Minnett, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons  Roteiro: Aaron Guzikowski Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Kira Davis  Duração: 146 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: 8:38 Productions / Alcon Entertainment / Madhouse Entertainment

Cotação 3 estrelas

Histórias cruzadas (2011)

Por André Dick

Este drama, baseado em romance de Kathryn Stockett, possui alguns méritos evidentes: tem um elenco competente (sobretudo Viola Davis, Octavia Spencer, premiada com o Oscar de atriz coadjuvante, e Jessica Chastain, que surgiu em A árvore da vida) e uma reconstituição notável (com uma direção de arte e figurinos destacáveis, além de uma fotografia detalhada).
Ao lidar com o preconceito existente na sociedade norte-americana dos anos 60, o filme evidencia esse panorama, mostrando o dia a dia de algumas empregadas domésticas negras, Abileen (Viola) e Minny (Octavia Spencer), e o afastamento que elas sofrem, por não terem direitos iguais – há cenas que tratam do problema muito bem filmadas pelo diretor, Tate Taylor. Essas empregadas acabam contando suas histórias a uma jornalista, Skeeter Phelan (Emma Stone), que volta à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, e, entre reuniões com mulheres que se encontram para comer bolo e tomar chá, pretende escrever um livro sobre elas, a pedido de uma editora (Mary Steenburgen) de Nova York. Além disso, ela foi criada por Constantino (Cicely Tyson), demitida de forma injusta por sua mãe (Allison Janney, numa grande atuação), motivo que a faz se dedicar ainda mais ao trabalho – um dos melhores momentos é quando ela se lembra de uma passagem na infância, em que Taylor melhor consegue conciliar tempos diferentes e estabelecer um vínculo entre as personagens.
Abileen cuida de uma menina que a chama de verdadeira mãe, e Minny, apesar de sofrer violência doméstica do marido e ser demitida por uma dona de casa maquiavélica, Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), filha de Sra. Walters (Sissy Spacek), encontra uma mulher ignorada pelas mulheres da sociedade de Jackson, Celia Foote (Jessica Chaston) – e a relação entre as duas, primeiro escondida, torna-se mais próxima com o passar do tempo e se dá, a princípio, a partir da descoberta, por parte de Celia, de novas receitas culinárias para o marido dela. Em meio aos acontecimentos, transcorre o surgimento da Lei dos Direitos Civis (há uma menção à Marcha sobre Washington, de 1963) e esta trama acaba ficando um tanto deslocada em relação à principal, servindo mais como pano de fundo histórico.

O diretor Tate Taylor não consegue efetuar a dramaticidade que vemos Spielberg conduzir, por exemplo, no clássico A cor púrpura, nem desenha a amizade comovente entre uma idosa e seu motorista, como havia em Conduzindo miss Daisy, ou a de uma dona de casa com um jardineiro, no belo Longe do paraíso. Assim, o filme não deslancha como poderia. Faltam conflitos entre as personagens e, de maneira geral, parece que existe uma aceitação de determinados comportamentos.
Há, nisso uma certa infantilidade no tratamento dado, o que repercute a tendência maniqueísta: as mulheres brancas são cruéis, e o espectador é atendido em sua vontade de puni-las – mas os personagens parecem receber novamente sua punição mecanicamente, nunca alçando realmente uma dramaticidade. E a vilã, por ser exagerada, acaba tirando do filme a proporção exata da gravidade de suas ações – tornando algumas situações quase cômicas, quando na verdade não o são, ou invariavelmente em clichês. Nesse sentido, a reabilitação de alguns personagens soa, em parte, esquemática, pois não há conflito dramático entre personagens que chegue até ela. É de se desconfiar se é a presença de Chris Columbus (que escreveu grandes sucessos nos anos 80, como Os Goonies e Gremlins, mas nunca emplacou como diretor, a exemplo de suas tentativas em Harry Potter e, quando fez um drama, Lado a lado, não foi efetivo) como produtor do filme.
Porém, a visão de Taylor não é superficial: a  jornalista – cercada por copos de café e datilogrando sua máquina à noite – ajuda a mostrar a contundência de ações que havia em relação às empregadas.
Pode-se dizer que isso acarreta outro significado possível: o de que personagem da jornalista quer fazer sua carreira decolar. No entanto, Tate Taylor reverte isso pela lembrança que ela tem de Constantino e, afinal, pela relação que ela estabelece entre as personagens, tornando “A ajuda” do título original em “histórias cruzadas” do título brasileiro.
Trata-se de uma história, aqui, quase exclusivamente de mulheres: ou homens têm pouca participação, a não ser quando um policial resolve ir atrás de uma empregada ou quando um dos maridos, grosseiramente, levanta da mesa quando a empregada decide, depois de muito relutar, pedir ajuda; ou quando um jovem tenta conquistar a jornalista. Não há o posicionamento deles em relação às situações de racismo ou ao contexto: parecem figuras que não sabem o que estava se passando, o que prejudica a narrativa, mesmo que não chegue a desmerecê-la. O filme, nesse sentido, acaba crescendo – e muito – com o depoimento de Abileen e Minny, pois são personagens mais complexos do que aquelas mulheres de classe rica que o filme enfoca.
Também não parece haver dúvida de que a semelhança física entre as atrizes Jessica Chaston e Bruce Dallas Howard (filha do cineasta Ron Howard) ajuda a criar um paralelo de comportamento – mesmo porque ambas teriam outra coisa em comum, o que descobrimos ao final do filme, numa festa que guarda outra surpresa em relação também ao restante da trama.
A atuação das atrizes, reitera-se, merece destaque: Viola, apesar de não estar melhor do que em outras oportunidades, é uma atriz de grande talento; Spencer mereceu o Oscar de atriz coadjuvante; e Chaston faz uma interpretação bastante agradável, aproveitando um personagem até certo ponto superficial. Infelizmente, o papel central é desempenhado por Emma Stone, uma atriz simpática (principalmente em Amor a toda prova), mas que não confere peso dramático às cenas, como se exigiria neste caso.
Se os personagens não se enlaçam como deveriam e alguns deles são mal desenvolvidos, além de ter, pelo menos, mais tempo do que deveria – um corte na montagem deixaria a história mais ágil, sem prejuízo da narrativa –, não resta dúvida de que se trata de um filme efetuado com cuidado. Não se vê, em Taylor, um desejo de contar uma história definitiva, e sim de mostrar com delicadeza essas personagens e colocá-las num contexto grave, o que ele desempenha bem, tornando o filme atrativo.

The help, EUA, 2011 Diretor: Tate Taylor Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green Roteiro: Tate Taylor Fotografia: Stephen Goldblatt Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 146 min. Distribuidora: Disney Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Cotação 3 estrelas