Okja (2017)

Por André Dick

O diretor Bong Joon-ho tem um clássico incontestável chamado Memórias de um assassino, de 2003, que inspirou diretamente Zodíaco, de David Fincher. Em Okja, lançado no Festival de Cannes sob protesto, em razão de ser distribuído pela Netflix, ele parece querer uma mescla entre O hospedeiro, sua obra mais cultuada, e a fantasia de filmes norte-americanos, além de referências a animações orientais. Em 2013, com O expresso do amanhã, o cineasta já tentava um salto para Hollywood, o que acontece plenamente aqui: este é um filme, apesar de não aparentar, extremamente comercial, e de modo algum é seu problema.
Começa mostrando em 2007 Lucy Mirando (Tilda Swinton), da Mirando Corporation, que faz um anúncio: sua empresa está criando um concurso cuja finalidade é escolher um super-porco. Vinte e seis dos melhores porcos são enviados a diferentes partes do mundo para que sejam criados por diferentes pessoas e culturas. Passam-se 10 anos e conhecemos Mija (Ahn Seo-hyun). Ela vive feliz com seu amigo animal, chamado Okja, no alto de uma montanha na Coreia do Sul, junto com seu avô (Byun Hee-bong). Esses momentos lembram as melhores peças sobre o cotidiano familiar de Hirokazu Koreeda, com um aproveitamento da natureza de maneira efetiva – e a cena na qual Mija corre perigo é especialmente bem feita, com auxílio da fotografia sempre excelente de Darius Khondji.

Eles recebem a visita do zoólogo e apresentador de TV a serviço da Mirando Corporation, Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal), que declara Okja como o ganhador do prêmio, um pequeno porco de ouro. Como o avô dizia que iria comprar o animal para Mija, ela fica desapontada e resolve seguir seu melhor amigo até Nova York. No entanto, ainda em Seul, um grupo chamado Frente de Libertação Animal, liderado por Jay (Paul Dano), tenta salvar a rara criação numa sequência de ação muito bem feita. Esta FLA tem todo o histórico de um grupo do gênero: denunciar a violência que se praticamente contra animais, e se vê a raridade desse tema, pois pouquíssimos filmes o apresentam da maneira que surge aqui, e trata-se de um ponto interessante.
Bong Joon-ho tem um humor excêntrico em seus filmes e não é diferente em sua nova obra. Os vinte minutos iniciais são certamente os melhores, mostrando a convivência de Mija e Okja. No entanto, à medida que a trama progride e entram novos personagens, não há um bom desenvolvimento. O diretor sempre teve alguns problemas em dosar drama e humor e aqui ele pende para o lado excêntrico, subutilizando Swinton e Gyllenhaal, ambos talvez em seus piores momentos.

Swinton, particularmente, exagera de forma desmedida e, sendo uma das coprodutoras do filme (ao lado de Brad Pitt), tem mais participação do que merecia sua personagem (em que ela aparenta tentar uma semelhança com o Willy Wonka de Johnny Deep), o que prejudica muito a história. Por sua vez, Gyllenhaal tenta uma caricatura que seja engraçada, no entanto o roteiro que recebe não é bom e sua alternativa acaba sendo a saída menos exitosa. Ahn Seo-hyun, para compensar, tem uma excelente atuação, embora a ligação com o avô ganhe pouco espaço (e Byun Hee-bong está ótimo) e Paul Dano, apesar de um personagem oscilante, também convence. Apenas não é dosada sua participação: uma cena específica quase tira o espectador do filme, completamente deslocada. A talentosa Lily Collins, entretanto, é desperdiçada como Red, uma das integrantes do grupo de proteção aos animais.
Claro que a mensagem está evidente a cada minuto e é inspiradora num universo em que os animais são submetidos a maus tratos inaceitáveis. No entanto, o diretor não consegue mesclar o pano de fundo sério com a comédia que tenta fazer em algumas situações: tudo soa excessivamente forçado e desgastante para o espectador. O tom é certamente o grande problema da narrativa, saltando do drama para a comédia sem nuances e um trabalho de elaboração dos personagens. Nisso, a violência, se não é forte como a de Fast food nation, de Linklater – sobre matadouros na fronteira com o México –, ou do recente terror Raw – que mostra estudantes de veterinária sem muita compaixão pelos animais –, soa pouco encaixada e como uma tentativa de esclarecer o que o espectador já entende em relação aos personagens maléficos. Isso já acontecia em O hospedeiro, no qual o suspense se diluía com um bom humor intruso.

A figura de Okja é extraordinária, parecendo um hipopótamo com agilidade de um cão, extremamente marcante, e os efeitos visuais muito bons, mas se sente desperdiçada, quase como um personagem central que realmente não tem destaque – concentrando-se tudo nos humanos. A crítica às corporações e às mídias sociais soa caricato e apressado, nivelando tudo com uma excentricidade que não cabe na narrativa e tentando ser didático demais para o espectador. A ironia é melhor aproveitada: “O inglês abre portas. Aprenda”, diz um integrante do FLA a Mija, sendo que os norte-americanos são os vilões explícitos. Okja era um dos filmes que eu mais esperava no ano – e sua decepção é lamentável. Ele tinha potencial para ser excelente e não chega, particularmente, a ser bom. No entanto, ele tem todas as características para se tornar um cult realmente apreciado e lembrado por causa de seus temas. Ou seja, Okja funciona mais em seu diálogo com a realidade, mesmo com elementos de fantasia, do que como obra cinematográfica.

Okja, EUA, 2017 Diretor: Bong Joon-ho Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Ahn Seo-hyun, Byun Hee-bong, Steven Yeun, Lily Collins, Yoon Je-moon, Shirley Henderson, Daniel Henshall, Devon Bostick, Choi Woo-shik, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal Roteiro: Bong Joon-ho, Jon Ronson Trilha Sonora: Jaeil Jung Fotografia: Darius Khondji Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Lewis Taewan Kim, Dooho Choi, Seo Woo-sik, Bong Joon-ho, Ted Sarandos Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Lewis Pictures, Kate Street Picture Company Distribuidora: Netflix

 

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