O rei leão (2019)

Por André Dick

A sucessão de live actions lançada pelos estúdios Disney vem proporcionando uma onda de nostalgia para quem gosta de animações clássicas, do mesmo modo que bilheterias bilionárias. Neste ano, tivemos Dumbo, que desapontou financeiramente, e Aladdin, que está quase repetindo o feito financeiro de Mogli – O menino lobo, embora fique um pouco atrás de A bela e a fera. Apenas live actions menos comerciais (Christopher Robin, Meu amigo, o dragão) realmente não têm encontrado seu público. Dirigido pelo mesmo Jon Favreau da versão mais recente de Mogli, O rei leão é uma nova adaptação da história já levada às telas em 1994, que foi um grande sucesso, assim como venceu os Oscars de melhor trilha sonora (Hans Zimmer) e canção (“Can You Feel the Love Tonight”, de Tim Rice e Elton John).

A história mostra o nascimento de Simba (quando filhote JD McCrary e na vida adulta Donald Glover), filhote do leão Mufasa (James Earl Jones, também do original), que lidera uma determinada região da África do Sul, e da rainha Sarabi (Alfre Woodard). Ele é apresentado aos animais por um madril, Rafiki (John Kani), ao som de “The circle of life”, de Elton John, construindo um diálogo direto com o obra dos anos 90 e de maneira impactante. O trono de Mufasa, no entanto, é cobiçado por Scar (Chiwetel Ejiofor), um leão mais velho e amargurado, que procura um grupo de hienas, tendo à frente Shenzi (Florence Kasumba), para colocar um plano em ação. A melhor amiga de Simba é Nala (primeiro Shahadi Wright Joseph e depois Beyoncé Knowles-Carter) e o pássaro Zazu (John Oliver), ajudante de Mufasa, ajuda a vigiá-lo. Quando fica curioso com uma determinada indicação do seu tio, Simba irá se envolver numa complicação determinada, que o leva a conhecer o suricato Timon (Billy Eichner) e o javali Pumba (Seth Rogen). O roteiro de Jeff Nathanson, responsável pela escrita de alguns trabalhos de Spielberg (Prenda-me se for capaz, O terminal, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), é absolutamente fiel ao filme dos anos 90, com uma diferença na abordagem.

A dificuldade de fazer uma nova versão desse clássico era clara para Favreau. Responsável também pelos dois primeiros Homem de Ferro e por Cowboys e aliens, uma curiosa mescla entre ficção científica e faroeste, Favreau não tem a originalidade como uma de suas características. No entanto, no plano visual, ele consegue produzir peças diferenciadas, mesmo sem possuir as cores notáveis da obra que o inspirou. Este O rei leão talvez seja o maior filme live action já realizado, com uma aproximação da realidade tão grande que fica difícil separar o que é a própria natureza e o que é computação gráfica, acompanhado de uma direção de fotografia de Caleb Deschanel espetacular. É um trabalho irrepreensível, melhor, inclusive, do que Mogli e um antecipado vencedor do Oscar de efeitos visuais se não houver outro trabalho assim de destaque no ano. Os detalhes visuais de cada animal é impressionante, incluindo girafas, insetos, pássaros e antílopes: destaque-se a sequência em que Pumba e Timon encontram pela primeira vez Simba, num deserto inalcançável, lembrando a imensidão de Lawrence da Arábia, e cada detalhe facial é bem exprimido.
Favreau não segue exatamente os passos do diretor da animação, Rob Minkoff e Roger Allers, preferindo adotar um tom mais soturno para tratar dos passos da dinastia proclamada por Mufasa. A relação de amizade com seu pequeno filhote é muito interessante, com ensinamentos, mas aqui Favreau se atém a um tom menos infantil, mesmo com a clássica “Hakuna Matata”. O vasto cenário amplia, muitas vezes, a solidão do personagem central a partir de determinado momento, incorrendo em instantes sensíveis.

Ou seja, em certos momentos, este O rei leão é realmente mais para adultos e confere certamente seu diálogo com a peça Hamlet, de Shakespeare, mais do que o original. Há muitas sequências passadas à noite ou em cavernas escuras, além de uma homenagem evidente a trabalhos como Os dez mandamentos, dos anos 50, em determinadas passagens nas quais anteriormente já buscava seguir esse caminho – e os personagens só têm algum alívio quando estão seguindo o roteiro de canções já esperado. As hienas, as vilãs, soam muito mais ameaçadoras e filmadas com rara sagacidade. E, mesmo que suas expressões não sejam de uma animação, a movimentação deles é irretocável, um verdadeiro primor na transposição da realidade para a fantasia, acentuada pela trilha sonora emocionante de Hans Zimmer.
Como não especial admirador da animação, tendo a considerar este O rei leão uma peça mais bem acabada e, apesar de menos colorida, mais eficiente em sua mescla de drama e humor. Ainda existe, na metade, uma lacuna de roteiro que pode soar estranha já no original, além do final excessivamente apressado, elementos não resolvidos por Favreau, porém este consegue imagens mesmo mais poéticas do que o de 1994, lembrando um pouco o filme O elo perdido, dos anos 80, com uma recriação da savana africana tão milimétrica quanto expansiva. Há blockbusters de grande qualidade e este O rei leão é um deles. Que ele vai encontrar seu público é certo – e desta vez com grande justiça.

The lion king, EUA, 2019 Diretor: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani, John Oliver, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Florence Kasumba Roteiro: Jeff Nathanson Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Jon Favreau, Jeffrey Silver, Karen Gilchrist Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Fairview Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios

Doutor Estranho (2016)

Por André Dick

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O diretor Scott Derrickson, do remake de O dia em que a terra parou e de alguns filmes de terror, como A entidade, foi o escolhido para estar à frente da adaptação de Doutor Estranho, personagem criado por Stephen J. Ditko e Stan Lee, para as telas de cinema. Antes do lançamento, como ocorrem com os filmes de super-heróis, houve uma grande onda de marketing, levando à questão de que são eles que parecem manter o sistema financeiro de Hollywood girando, a fim de que se possam bancar outras produções. Nada menos do que cinco obras do gênero estão entre as dez maiores bilheterias do ano até o momento: Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, Esquadrão suicida e X-Men: Apocalipse. Tudo indica que Doutor Estranho irá entrar nessa lista.
O neurocirurgião Stephen Strange é brilhante e competente no que faz, embora ao mesmo tempo ambicioso. Tendo como interesse amoroso a médica e colega Christine Palmer (Rachel McAdams), ele sofre um acidente que o incapacita a trabalhar no campo a que se dedica com fidelidade e acaba viajando viajando para o Kathmandu, Nepal, a fim de descobrir uma cura. Nisso, já fomos introduzidos também ao grande vilão, feiticeiro Kaecilius (Mads Mikkelsen), que, depois de entrar em Kamar-Taj para roubar um livro proibido, luta com uma figura misteriosa em meio a prédios cuja envergadura e imponência, se desdobrando, remetem claramente ao filme A origem.

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Derrickson, porém, faz dessa experiência visual algo realmente reconfortante, como se a realidade fosse um jogo de espelhos desmontável. Ou seja, o que Doutor Estranho mais joga para o espectador é uma necessidade de questionar o que seria, afinal, a realidade: no filme, tudo passa a ser colocado em dúvida, inclusive a existência. Se na peça de Nolan havia uma inspiração filosófica, em Doutor Estranho Derrickson abre um leque mais pop. Quando o personagem se refugia no Oriente, e o filme incursiona numa linha de meditação, por meio dos personagens da Anciã e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o roteiro de Derrickson com Jon Spaihts e C. Robert Cargill apresenta uma amostra da discussão dos planos físico e material de modo delicado.
Há uma interessante busca de si mesmo que claramente dialoga com outras histórias, mas é o cuidado com que esse ambiente é introduzido que faz o espectador ficar agradecido pelas imagens em composição: no momento em que a Anciã leva Strange a uma viagem psicodélica, pode-se lembrar mesmo de Bowman em 2001 ou de Enter the void, de Noé: é, em suma, espetacular. Derrickson nunca chegou a ser um cineasta vistoso; aqui ele se torna competente com poucos elementos à mão, como quando insere o personagem na dimensão espelho, que lembra um pouco a aula de lutas de Paul Atreides em Duna.

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Eis que se deve dizer, ainda assim, que, a partir de determinado momento, alguns temas parecem se repetir, a sobreposição se acentua e as cenas de ação passam a existir em sequência, sem nenhuma lacuna entre elas e sem uma ligação orgânica. O Doutor Estranho não permanece a mesma figura interessante que Cumberbatch desenha em sua primeira parte. A entrada do personagem central na biblioteca protegida por Wong (Benedict Wong) passa a ser exemplo da necessidade de um humor inusitado e desperdiçado, com sua série de menções a nomes da música pop, que destoam da narrativa. Claro que existe toda uma condição em jogo: se Strange vai decidir usar sua energia para voltar a usar suas mãos como gostaria ou disponibilizá-las para um enfrentamento com Kaecilius, seguido por um grupo feroz e que pretende trazer ao cenário uma figura de dimensão assustadora.
Em meio a isso, também há uma grande competência em construir uma parte visual calcada em efeitos espetaculares. Deve-se lembrar que  eles não são apenas inspirados em A origem, como também o filtro da fotografia é o mesmo, embora nunca tenha a profundidade dada por Nolan no sentido de compor uma mente vagando, melancólica. Por sua vez, o desenho de produção se mostra pouco amplo, parecendo lembrar cenários de estúdio, principalmente na reconstituição de detalhes orientais, às vezes excessivamente fechados (talvez porque estejam todos dentro de uma caixa mental), o que contrasta com a amplitude das viagens proporcionadas pela Anciã e mesmo com as ruas cheias de população de Kathmandu.

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Com trilha sonora de Michael Giacchino, habitual colaborador de J.J. Abrams, aqui num momento menos inspirado e mais intrusivo, e competente fotografia de Ben Davis, de Guardiões das galáxia e Vingadores – Era de Ultron, Doutor Estranho é encarnado por um Cumberbatch indefinido entre empregar seu estilo reconhecido também em Sherlock e lidar com o roteiro repleto de frases de exposição. O ator, já reconhecido pelo vilão de Além da escuridão – Star Trek e por Alan Turing de O jogo da imitação, não consegue muitas vezes tornar Doutor Estranho numa figura que poderia: fascinante. Ele começa muito bem e transmite bem o sentimento de abandono e solidão, logo sendo prejudicado pela necessidade de o roteiro colocar o personagem em meio a gags deslocadas (outro ponto complicado é quando tenta se adequar a seu uniforme). No início, há uma espécie de tragicidade bem dosada e depois o roteiro esquece disso para transformá-lo, aos poucos, num super-herói que desenvolve poderes literalmente num passe de mágica – porém, não há um sentido de algo sendo descoberto, crescente, e sim apenas como parte do script. Com ele, o elenco extraordinário é subaproveitado, mesmo Swinton, McAdams e Ejiofor. O vilão, feito pelo grande ator Mikkelsen, não se sente em nenhum momento ameaçador e sua motivação é rasa, além de não receber um punhado de bons diálogos para rivalizar com o Doutor Estranho.

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Todos se sentem deslocados pelo roteiro desenvolvido rapidamente e sem se aprofundar. O bibliotecário Wong? Ele existe para os momentos de humor. A Anciã? Apenas para adiantar o que Doutor Estranho deve fazer. Onde o filme de Derrickson mais ganha é quando explora a espiritualidade e o plano físico de modo fundamental, como nas cenas do hospital e nos duelos que se expandem para novos edifícios, numa maravilha técnica de encantar os olhos, com exceção do CGI exagerado do terceiro ato. Porém, falta um elo humano, por exemplo, entre Doutor Estranho e a Anciã: tudo é projetado demais para ressonar uma verdadeira emoção e colocado em nome da franquia a ser iniciada (para ter um exemplo, mesmo com temas mais profundos, não chega perto do que acontece com o Groot ao final de Guardiões da galáxia). Doutor Estranho tenta mesclar discussões interessantíssimas sobre a vida e a morte, mas prefere, na maior parte das vezes, atenuar tudo com o humor e a exposição nos diálogos. Derrickson não consegue (ou não quer) expandir essa faceta que tornaria o personagem mais interessante; é como se temas complexos precisassem ser invariavelmente substituídos pelo programa a ser seguido. Quando vemos um elenco dessa estirpe (talvez o melhor reunido num filme da Marvel) e uma grandiosidade técnica ser diminuída por um roteiro pouco desenvolvido, nota-se que está em jogo a própria essência que a companhia desenvolveu tão bem em Os vingadores e Guardiões da galáxia, por exemplo: um misto entre humor, sentimentalismo e ação que poucas vezes se viu, sem pular de quadro em quadro para um filme totalmente diferente.

Doctor Strange, EUA, 2016 Diretor: Scott Derrickson Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige Duração: 115 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

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Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

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A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

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Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

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É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

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É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

12 anos de escravidão (2013)

Por André Dick

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Em razão de sua força histórica, os filmes sobre a escravidão costumam despertar polêmica. No ano passado, por exemplo, regressando a um embate da época de Pulp Fiction, Spike Lee disse que Tarantino desrespeitava a história com seu Django livre. Nele, Jamie Foxx interpretava um ex-escravo que fazia uma visita, com o dr. Schultz, à fazenda de Calvie Candie, na persona de Leonardo DiCaprio, acostumado a cometer os mais diversos tipos de violência contra seus escravos. Este ano o novo filme de Steve McQueen, 12 anos de escravidão, é recebido por alguns como o filme definitivo sobre o tema e como uma resposta inconsciente ao filme de Tarantino, que teria, de certa maneira, atenuado os acontecimentos reais. Tarantino, no entanto, tem um discurso muito mais contundente do que aparenta e não poupa o espectador, inclusive superando, nesse sentido, a abordagem de Bastardos inglórios, sua fascinante viagem pela II Guerra Mundial.
Pode-se desconfiar a abordagem de “filme definitivo” sobre o assunto, no entanto é preciso considerar que realmente o tema da escravidão foi mais abordado como pano de fundo do que como peça central. Mesmo em Lincoln, com seus méritos, ela é apenas um mote para que se falasse dos bastidores da política dos Estados Unidos no período enfocado. De qualquer modo, Spielberg realizou Amistad, filme subestimado, e A cor púrpura, no qual se faziam presentes as reminiscências da escravidão numa comunidade da Geórgia, com grandes atuações de Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey. No ano passado ainda, os irmãos Wachawski e Tom Tkywer focaram, numa das histórias de Cloud Atlas, a amizade entre um escravo e um homem cujo ouro interessava a outro passageiro de um navio, entrelaçando a história com a de outros períodos (no presente ou no futuro) em que outros seres humanos viviam situações parecidas em seu cotidiano.

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O diretor inglês é ambicioso ao contar, a partir de 1841, a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que mora com sua família em Saratoga, Nova York, e, ao excursionar com dois homens brancos (Scoot McNairy e Taran Killam) a Washington, imaginando fazer uma tour musical, como violinista, é atraído para uma prisão e vendido como escravo. McQueen, durante a primeira hora de filme, encadeia uma sequência impressionante de cenas em que a submissão forçada recebe um caráter de narrativa crua, contrastando com uma fotografia delicada de Sean Bobbitt, habitual colaborador do cineasta. O momento em que Solomon se vê acorrentado é de uma composição claustrofóbica, tanto pelo cenário reduzido como pela condição do personagem, e McQueen o faz rapidamente depois de um panorama idílico da vida de Solomon para expandir a sensação. Ele vai parar nas plantações de algodão na Louisiana, sendo chamada de Platt e identificado como um escravo que fugiu da Geórgia. A primeira fazenda para a qual Solomon é levado é a de William Ford (Benedict Cumberbatch), interessado em reunir os escravos em seu pátio para ler páginas da Bíblia – não interrompida nem com o choro de uma das escravas, Eliza (Adepero Oduye)  – e que tem como um de seus capatazes John Tibeats (Paul Dano). Mas é quando chega à fazenda de Edwin Epps (Michael Fassbender) que Solomon irá enfrentar não apenas a perseguição, como o sentimento de estar preso indefinidamente na situação. Casado com Mary (Sarah Paulson), Epps tem como amante a escrava Patsy (Lupita Nyong’o), resultando em conflitos.
A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Há trilhas conhecidas pelo lado emotivo, e a de Zimmer é uma delas.
Nesse ponto, não é difícil considerar a obra de McQueen como muito superior àquela anterior, Shame, com o mesmo Michael Fassbender. Não apenas pelo tratamento dado por McQueen aos personagens. Em 12 anos de escravidão, eles não são apenas símbolos do diretor; são densamente humanos, e a solidão que os afeta atinge o espectador da maneira mais forte. Do mesmo modo, neste cenário de desesperança, McQueen concede – e isto ele tem em comum com Spielberg, normalmente acusado, neste ponto, de excessivamente emotivo – um horizonte sempre próximo de saída. Ao mesmo tempo, ele consegue abordar essa história trágica com um olhar, como o de Solomon, voltado para o céu. No entanto, ao contrário de Spielberg, McQueen não esconde a violência mais crua que resultava da escravidão e importante dizer: ela não é moderada, ou apenas assustadora para quem desconhece os fatos históricos. Ele filma algumas das sequências mais fortes já retratadas pelo cinema nesse sentido, assim como encadeia personagens a exemplo de Theophilus Freeman (Paul Giamatti) – no entanto, certamente seria limitador que 12 anos de escravidão ficasse conhecido pela violência histórica que retrata.

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McQueen lida, também, com um embate entre o que seria pecado e as possíveis pragas bíblicas a partir disso, colocando o algodão branco como um exemplo de materialidade desse conceito. E traça com competência a genealogia buscada entre os donos de fazendas e as escravas, trazendo à cena algumas discussões importantes, utilizando a personagem de Harriet Shaw (Alfre Woodard), e o que já explorava em Shame: o castigo imposto ao corpo alheio como uma espécie de perversidade incontrolável. Em 12 anos de escravidão, esse castigo ganha contornos mais históricos e nos confronta com a reflexão social. Ao longo do filme, chama a atenção como McQueen não vê divisão entre a casa e o espaço onde os escravos transitam, como se eles fossem realmente parte de um cenário absolutamente normal, em que aquilo que seria reservado passa a ser aceito como parte de uma amplitude social. Pode haver violência tanto fora quanto dentro da casa, e na mesma intensidade, independente se é por objetos ou chibatadas. As mãos de Solomon alternam entre o castigo e o violino, quando possível, e a infância de Patsy, depois de ser descartada, tenta ser revivida com bonecas feitas artesanalmente por ela mesma. Um pedido fortuito no meio da noite pode também limitar a liberdade ou se negar à entrega.
Menos aflitivo talvez o filme fosse sem as atuações notáveis de todo o elenco, a começar por Chiwetel Ejiofor e Lupita Nyong’o. O poder do olhar de cada um deles marca 12 anos de escravidão de modo irretocável. Há, especialmente, uma cena de canto arrebatadora de Solomon – e só por ela Ejiofor já mereceria ser lembrado. Em seu polo oposto, Michael Fassbender faz um Epps de forma perfeita. Conhecido por seus feitos de interpretação em Shame, Prometheus e Bastardos inglórios, Fassbender traz a revolta. Lamenta-se apenas que alguns coadjuvantes (dos personagens de Giamatti, Dano e Cumberbatch) não sejam explorados – o filme, como referido, tem uma montagem excepcional, e, embora não prejudique o resultado em nenhum momento, pois há as cenas de violência e elas criam uma intensidade que possivelmente traria a exasperação com o tempo, é possível perceber que originalmente deveria ter até 3 horas para desenvolver cada um deles. No entanto, a aposta de fazer com que tudo seja uma experiência de Solomon, criando um isolamento dos outros personagens, ou apenas sua existência em razão do personagem principal, representa também o maior acerto de McQueen, ou seja, nada impede que 12 anos de escravidão continue com seu fluxo capaz de colocar o espectador inserido no período retratado de maneira incontornável.

12 years a slave, ING/EUA, 2013 Direção: Steve McQueen Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Brad Pitt, Alfre Woodard, Adepero Oduye, Paul Giamatti, Sarah Paulson Roteiro: John Ridley, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Hans Zimmer  Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt, Bill Pohlad Duração: 133 min. Distribuidora: Fox Searchlight Pictures Estúdio: New Regency Pictures / Plan B Entertainment / River Road Entertainment

Cotação 5 estrelas