Twin Peaks – O retorno (Episódio 10) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Revendo a primeira temporada de Twin Peaks na semana passada, ficaram mais claras as diferenças em relação à terceira: 1) enredo mais clássico, no bom sentido; 2) humor mais direto; 3) paralelos com a novela “Invitation to love”, com metalinguagem mais acessível; 4) montagem mais ágil e cenas curtas, mostrando que a nova temporada diz muito sobre o amadurecimento de Lynch, sem querer explicitar nada; 5) intrigas sobre a serraria e tráficos de drogas na cidade como tópicos centrais, além da investigação de quem matou Laura Palmer. Finalmente o motivo pelo qual pedem a volta do verdadeiro agente Cooper e de Audrey Horne: eles se destacam acima de todos. Dana Ashbrook, como Bobby Briggs, também está ótimo e mostra por que Lynch o destaca nesta terceira, em relação aos demais personagens antigos.
E finalmente o motivo pelo qual Lynch não se concentra em tramas envolvendo personagens jovens: ele não conseguiria repetir o que já mostrou. Embora eu aposte – mesmo com índices de exibição abaixo do esperado – numa quarta temporada, em que ou Lynch vai explorar os mistérios investigados pelo FBI ou vai se concentrar apenas na cidade, com o agente Cooper indo morar nela e trabalhando na polícia local. Uma dúvida é certa: o agente Cooper ficará com Janey-E ou Audrey Horne? Difícil escolha. Naomi Watts e Sherilyn Fenn são grandes atrizes.

Dito isso, o décimo episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) mostra que David Lynch também tem direito a suas falhas: trata-se, pela minha lembrança, talvez do episódio mais fraco das três temporadas (incluindo em relação àqueles da segunda que muitos criticam). Se até então ele estava desinteressado em prosseguir definitivamente com o estilo apresentado na primeira temporada e, até agora, preferia dialogar com os episódios mais importantes da segunda – do 9º ao 15º e do 22º ao 29º, com as referências ao Black Lodge – e com Twin Peaks – Fire walk with me, parece que desta vez ele tenta retomar a agilidade das duas primeiras temporadas, com cenas curtas. O resultado: não se compara em efetividade e se torna bastante confuso. Falta o trabalho de edição de Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, que participou das duas primeiras temporadas e do filme.
Janey-E (Naomi Watts) finalmente consegue levar Dougie Jones (Kyle MacLachlan) ao médico, Dr. Ben (John Billingsley), e, quando se depara com o físico da nova versão de seu marido, parece que há uma atração imediata. Lynch mostra com desenvoltura o resultado da atração de Janey-E, numa das cenas cômicas melhor resolvidas, em razão das ótimas atuações de Watts e de MacLachlan. Como em outros episódios dessa temporada, o tempo com os Jones vale a visão, e Janey-E é o melhor personagem novo dessa temporada.

Anthony Sinclair (Tom Sizemore) encontra os irmãos Bradley (James Belushi) e Robert Mitchum (Robert Knepper), observado pelas pin-ups que apareciam no quinto episódio, a mando de Duncan Todd (Patrick Fischler). Ele quer que Anthony diga aos Mitchum que Douglas Jones quis prejudicá-los no recebimento pelo seguro do incêndio de um dos seus hotéis. Os Mitchum já estavam desconfiados depois de verem a matéria na TV em que Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek) é preso depois de ter sido enfrentado por Dougie, o mesmo que saiu com mais de 400 mil dólares do cassino deles. Lynch tenta destacar uma das pin-ups que acompanham os Mitchum, Candie (Amy Shiels), mas o humor, de forma notável, não funciona. Tampouco a participação das outras duas, Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).
Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), depois de procurar emprego em Twin Peaks, violenta Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Eles moram no mesmo parque de trailers administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton), que tenta cantar uma música de sua autoria, “Red river valley”, mas é interrompido pela briga dos dois. “É um pesadelo”, reclama ele, lembrando sua participação em Twin Peaks – Fire walk with me e dando o tom cômico certo que falta ao restante do episódio. A briga de Becky parece revelar que o passado de Shelly, o violento Leo, está no encalço também de sua filha. A cena, no entanto, é tão rápida que nada parece justificá-la. Há, claro, uma tentativa de Lynch em contrapor a violência contra a mulher com a atitude de Candie em relação a seu Robert Mitchum e como as vibrações positivas, na música de Rodd, podem ser quebradas.

No entanto, o episódio parece ser mais de Richard Horne (Eamon Farren), que primeiro mata Miriam (Sarah Jean Long), testemunha do atropelamento no sexto episódio. A composição da cena é impressionante – e repare-se numa estátua de anjo à frente do trailer de Miriam, dialogando com o anjo de Laura Palmer –, entretanto há um erro de continuidade grave também. A polícia não estava investigando o responsável? Como Miriam preferiu escrever uma carta ao xerife contando a história? Claro que Richard entra em contato com Chad Broxford (John Pirruccello), o policial corrupto, para impedir a chegada da carta às mãos do xerife. E Chad engana Lucy (Kimmy Robertson), conseguindo esconder a carta.
Depois, Richard vai à casa da avó, Sylvia Horne (Jan D’Arcy), para assaltá-la, sendo observado por Johnny Horne (Eric Rondell). Lynch tenta claramente estabelecer um vínculo com Laranja mecânica nessa sequência, mas soa desconjuntado e falha, apesar das atuações de Farren, D’Arcy e Rondell.
Tammy Preston (Chysta Bell) e o agente Gordon Cole (David Lynch) estão felizes com Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) jantando com a legista Constance Talbot (Jane Adams). Depois de rabiscar um desenho que lembra a mão de Bob saindo do Black Lodge ao final da segunda temporada, Gordon atende à porta de seu quarto de hotel e vislumbra a imagem de Laura Palmer chorando (é uma imagem extraída de Twin Peaks – Fire walk with me, quando Laura vai pedir ajuda à Donna Hayward depois de ter visto Bob em sua casa e considerar que seria seu pai, Leland, na segunda fotografia abaixo). Albert alerta sobre uma mensagem que Diane teria respondido ao duplo mal de Cooper, colocando-a sob desconfiança, e Tammy mostra uma imagem do Mr. C em frente ao cubo de vidro de Nova York, do primeiro episódio desta temporada.

Outras passagens parecem sobras de material de cenas já vistas: o doutor Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) brada em seu programa de internet observado por Nadine (Wendy Robbie), e Hawk (Michael Horse) conversa com Senhora do Tronco (Catherine Coulson), e esta diz que Laura é única. São cenas gravadas com a mesma fotografia e figurino daquelas apresentadas no primeiro e quinto episódios, respectivamente. Pela rapidez, a cena com a Senhora do Tronco, apesar de bela, não parece ter o peso que deveria pela edição excessivamente rápida do episódio, sem a aura de mistério habitual: Laura é a escolhida conforme o oitavo episódio? Possivelmente, no entanto não há o cuidado habitual de Lynch em não mostrar isso com certa obviedade. Algo muito interessante: a Senhora do Tronco fala no som da eletricidade, certamente aquele do Great Northern, onde está Ben (Richard Beymer) sabendo o que aconteceu à sua ex-mulher.
Se havia um episódio que poderia significar uma fraqueza na estrutura pode ser exatamente este. Cenas soltas ou, quando mais longas, sem uma substância real, com personagens estabelecidos de forma fraca, como os Mitchum, parecem trazer um dos problemas da série: ou ela segue o ritmo lento e trabalhado ou vai parecer uma sucessão de encadeamentos remotos. É difícil acompanharmos Jerry Horne (David Patrick Kelly) há três episódios perdido na floresta e não vermos a trama caminhando em outros pontos, ou mesmo na volta de alguns personagens, a exemplo de Audrey Horne, para dar espaço a outros não tão interessantes, como o de Candie. E como aceitar um episódio mais fragmentado como este depois do oitavo, um divisor de águas? Lynch é um grande artista e provocador, porém se sente, pelo menos aqui, que está sendo autoindulgente, além de querer destacar Gordon Cole mais do que Dale Cooper (que, a partir daqui, talvez apareça em apenas meia dúzia de episódios como de fato é, com a ressalva de que Dougie Jones é uma ótima criação). E, fazendo referência clara a Cidade dos sonhos, temos Rebekah Del Rio cantando na Roadhouse, ao lado de Moby (!). Ela tem um vestido que lembra o chão do Black Lodge. Seria espetacular, não fosse num episódio tão irremediavelmente estranho na filmografia de Lynch e que claramente destoa da qualidade da série.

Twin Peaks – Episode 10, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Amanda Seyfried, Eamon Farren, James Belushi, Robert Knepper, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Harry Dean Stanton, Richard Beymer, Eric Rondell, John Billingsley, Christophe Zajac-Denek, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Kimmy Robertson, Jan D’Arcy, Rebekah Del Rio, Moby Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 53 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 5) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

O quinto episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) amplia o que Lynch vinha mostrando no terceiro e quarto episódios, com a vinda do agente Cooper (Kyle MacLachlan) para a nossa dimensão na forma de Dougie Jones. Agora ficamos sabendo que ele trabalha numa agência de seguros, Lucky 7 Insurance, mas, ao ser deixado na frente do prédio onde ela fica pela esposa Janey-E (Naomi Watts), o que o guia até o escritório é o jovem Reynaldo (Juan Carlos Cantu), carregando uma porção considerável de café para os funcionários. O agente Cooper na pele de Dougie está, claro, completamente desencontrado – e apesar de um parceiro seu, Anthony Sinclair (Tom Sizemore), dizer que o auxiliou na última escapada de casa (possivelmente com Jade, que vimos no terceiro episódio), ele não sabe o que ocorre, assim como desconhece que em outra parte da cidade seu antigo carro está sendo vigiado por duas gangues.
No entanto, é inevitável perceber a tristeza de seu olhar antes de sair de casa ao ver Sonny Jim (Pierce Gagnon), filho de Dougie e provisoriamente dele, Cooper, enquanto uma lágrima escorre do seu rosto, o que remete a alguns momentos do personagem de MacLachlan em Veludo azul. Imagens em David Lynch transcendem as analogias: são códigos e pistas, assim como as impressões que o Cooper/Dougie vai tendo quando visualiza uma estátua de um cowboy ou quando escuta a palavra “agente”. Para quem queria uma volta imediata do principal personagem da série, tudo parece estar sendo preparado para algo ainda mais surpreendente. É preciso reconhecer como admirador da série original: não imaginava os caminhos que estão sendo adotados por Lynch, e isso demonstra sua originalidade de maneira determinante.

O espectador continua recebendo as informações de Lynch aos poucos e, quando vemos um jovem, Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), procurando emprego em Twin Peaks, para ser repreendido por Mike Nelson (Gary Hershberger), o antigo amigo de Bobby Briggs, por causa de seu currículo, vamos saber cenas mais adiante que ele é namorado de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Ela ainda trabalha na lanchonete Double R, de Norma Jennings (Peggy Lipton).
Esta cena antecede uma na qual ambos experimentam drogas no carro, e a filha de Shelly é levada a uma viagem por meio da música que toca no carro, “I Love How You Love Me” (The Paris Sisters) – recordando alguns dos momentos mais trágicos de Twin Peaks – Fire walk with me e também a representação que, além da permanência dos personagens, alguns problemas se repetem. Na cidade, também acompanhamos o xerife Truman (Robert Forster) sendo visitado por sua esposa, Doris (Candy Clark), cobrando agilidade nos consertos caseiros, e a contínua busca de Hawk (Michael Horse) e Andy (Harry Goaz) daquilo que está faltando na investigação de Laura Palmer a fim de se encontrar Cooper. Mais ainda: na Roadhouse, temos a primeira aparição de Richard Horne (Eamon Farren), da família Horne, capaz de lembrar outros psicopatas da filmografia de Lynch, ameaçando uma garota, Charlotte (Grace Victoria Cox), e sua amiga (Jane Levy, a atriz sósia de Emma Stone). Ele entrega um dinheiro (possivelmente relacionado a drogas) a Chad Broxford (John Pirruccello), um dos policiais da cidade que se desentendia com Andy no quarto episódio – e cujo modus operandi cria um paralelo com um policial de Twin Peaks – Fire walk with me, responsável por vender drogas a Laura Palmer e Bobby Briggs. A cena tem um significado para o inveterado fumante Lynch: nunca peça cigarros a um desconhecido.

O episódio transita entre o desencontro de Dougie e o lado violento de peças como A estrada perdida. No cassino onde Dougie/Cooper embolsou 425 mil dólares, Lynch apresenta os irmãos Bradley (James Belushi) e Robert Knepper (Robert Mitchum), que expulsam o Supervisor Burns (Brett Gelman) com uma dose de violência incontrolável – observados por meninas vestidas de pin-ups (cf. Cidade dos sonhos (ver última imagem acima) e Império dos sonhos), como se estivessem no Jack Caolho’s da antiga série. Vemos, nisso, uma analogia entre o cassino de Las Vegas e o cassino onde Cooper precisou buscar pistas para o assassino de Laura Palmer na série original. E, como nas demais sequências, são símbolos lançados por Lynch para atingir sua finalidade maior.
Novas pontes com a série original são traçadas: o psiquiatra Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) agora transmite um programa pela internet por meio do qual tenta vender as pás que pintava de ouro no terceiro episódio depois de bradar palavras sobre liberdade na América, enquanto é visto por Jerry Horne (David Patrick Kelly) e Nadine (Wendy Robbie). Nesta breve sequência, temos uma influência de outro diretor contemporâneo (no primeiro episódio, algumas tomadas lembravam de Nicolas Winding Refn): Wes Anderson (perceba os objetos utilizados por Dr. Jacoby). Mas temos, acima de tudo, o que está acontecendo com o lado mal de Cooper (também MacLachlan), preso numa cadeia de Dakota do Sul.

Ao se olhar no espelho, ele lembra a cena de encerramento da segunda temporada e, quando vai dar o telefonema permitido, acontece uma pane elétrica na cadeia – um elemento tipicamente lynchiano –, que remete imediatamente a Buenos Aires, onde estava Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. Em meio a isso, a agente Tammy Preston (Chysta Bell), assistente do agente Gordon Cole (David Lynch), descobre mais sobre as digitais da versão maléfica do agente Cooper. Além de tudo, o início e o final do episódio entrelaçam o assassinato de Ruth Davenport, a bibliotecária encontrada em seu apartamento no primeiro episódio. A legista Constance Talbot (Jane Adams) descobre no corpo encontrado no local (não pertencente a Ruth) o anel de casamento de Dougie Jones.
Este é um dos pontos de partida para o enigma em que vai se constituindo Twin Peaks a cada episódio, envolto por surrealismo e elementos típicos da antiga série sob um ponto de vista completamente novo e, ao mesmo tempo, classicamente lynchiano. Como nos primeiros episódios, os personagens vão sendo apresentados em ritmo totalmente diferente de uma série de TV e cada episódio não se apresenta por si só e sim como parte de um conjunto maior. É essencialmente uma mescla, acrescida de novos elementos, de todos os filmes feitos por Lynch, principalmente de Veludo azul em diante, mas neste episódio há essencialmente uma presença de elementos trabalhados em A estrada perdida, na apresentação dos carros vermelho e preto que vigiam o de Dougie, na violência dos irmãos Mitchum e nas cenas da cadeia, que remetem à troca de corpo do personagem, naquele filme, de Bill Pullman. Lynch também traz seu interesse em mostrar a violência ao corpo como a oposição imediata a uma possível atração entre personagens. Veja-se o relacionamento entre os colegas de Dougie Jones ou a maneira como Lynch revela o parente mais novo dos Horne, ou quando coloca pin-ups testemunhando um ato de violência. Como Dr. Jacoby, David Lynch busca elementos que possam desvendar a própria América. Vinte e cinco anos depois de ter encontrado a maioria desses personagens, o cineasta não é mais o mesmo e a sua série também não. Esta continua imprevisível.

Twin Peaks – Episode 5, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts Michael Horse, Harry Goaz, Nafessa Williams, Robert Forster, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Gary Hershberger, Amanda Seyfried, Mädchen Amick, Peggy Lipton, Eamon Farren, Grace Victoria Cox, Jane Levy, James Belushi, Robert Knepper, Brett Gelman, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Juan Carlos Cantu Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – Piloto – Versão europeia (1990)

Por André Dick

Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV como Twin Peaks. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer (Sheryl Lee), que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern.

Designado para a investigação, o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel) parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, e ganha a parceria do xerife Truman (Michael Ontkean), o qual passa a apresentá-lo aos envolvidos com Laura Palmer. Cooper tenta desvendar o quebra-cabeças, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Diane) e interesse por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.
Nisso tudo, a atuação do elenco é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick e James Marshall – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas que ficam marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).

Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo (Eric Da Re) e alguns desses personagens referidos. No entanto, particularmente seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para a Europa, um pouco mais extenso, com 19 minutos a mais) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores escuras da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward no episódio-piloto, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série. Há um misto de seriedade e ironia em cada ação dos personagens, mas o humor é incorporado à ação de cada um, o que não torna nada pesado. Na versão europeia do piloto, vemos, por exemplo, uma sequência estranhíssima com Lucy Moran (Kimmy Robertson) e o policial Andy Brennan (Harry Goaz), que, ao longo da série, nunca seriam vistos em sua casa como aqui, assim como a presença de duas figuras-chave para a explicação da trama.

É interessante porque se trata do piloto, excepcional, acrescido de um tom surreal, matéria-prima do restante da série. É David Lynch em seu grande momento como diretor. De qualquer modo, é o clima (a fotografia de Ron García, que colaborou com Vittorio Storaro em O fundo do coração, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete em que os personagens se reúnem, que ajuda a constituir boa parte da série.
Twin Peaks atravessa um terreno da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acaba afastando muitos espectadores que não conseguem associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não é à toa que, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. De qualquer modo, o universo de Twin Peaks é muito mais sintético, voltado a uma única cidade e a inter-relação entre seus habitantes, dentro ou fora de uma investigação policial. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, mesmo que o distúrbio seja de origem desconhecida. Importante reconhecer como o piloto da série já anunciava tanto as características dos capítulos seguintes como ganha mais interesse ainda em razão do filme que se passa justamente antes dele, embora lançado depois.

Há muitos detalhes aqui que seriam reconhecidos no filme feito para o cinema Twin Peaks – Fire walk with me, remetendo a Ronette Pulaski (Phoebe Augustini), por exemplo, ao fato de Bobby Briggs ter se envolvido num problema, junto com Laura, e, principalmente, à relação conflituosa entre Laura, Donna e James Hurley e a Laura trabalhar entregando refeições no Double R. E a versão europeia do piloto traz as imagens do Black Lodge, o quarto vermelho, onde estão Cooper, Laura Palmer e o anão que dança ao som de Angelo Badalamenti deixando pistas (Lynch apreciou tanto essas cenas realizadas para a Europa que resolveu incluí-las no terceiro episódio da série). O filme para o cinema mostra onde tudo começou, com Teresa Banks numa cidade vizinha, e esta personagem também é lembrada aqui pelo agente Cooper. Daí o piloto de Twin Peaks ser praticamente uma continuação (em estilo cinematográfico) realmente de Twin Peaks – Fire walk with me. O mais interessante é que ele foi lançado no Miami Film Festival, em fevereiro de 1990, antes de estrear na BBC. Num momento em que se quer determinar que o “real cinema” só se vê nos cinemas, Twin Peaks é precursor e mostra que a qualidade vem em primeiro lugar.

Twin Peaks, EUA, 1990 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Russ Tamblyn, Eric Da Re, Kimmy Roberts, Harry Goaz, Peggy Lipton, Don S. Davis Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração: 113 min.

 

Twin Peaks – As peças que faltam (2014)

Por André Dick

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Este texto contém spoilers

Depois do anúncio feito no ano passado, de que Twin Peaks estaria de volta em 2016, com nove episódios dirigidos por David Lynch, os rumos se modificaram com a notícia de que o cineasta estaria de fora da empreitada; no dia 15 de maio, no entanto, ele confirmou novamente sua presença, o que volta a criar expectativa. No ano passado, as duas primeiras temporadas já haviam sido lançadas em Blu-ray, trazendo também o filme, Twin Peaks – Fire walk with me (no Brasil, Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer). O material vem numa bela caixa, para os fãs da série, num item raro, basicamente utilizando a mesma confecção estrangeira, com cuidado sobretudo na apresentação das imagens icônicas da série e uma remasterização realmente impressionante (a imagem é irretocável).
O filme, por sua vez, é acompanhado ainda de um material extra, intitulado Twin Peaks – As peças que faltam (The missing pieces), que reserva 91 minutos de cenas estendidas ou deletadas, ou seja, compõe basicamente outra obra. Desde 1992, depois de David Lynch afirmar que teve de excluir muito material da versão final preparada para ser exibida no Festival de Cannes, há uma grande expectativa em conhecê-lo, e seu lançamento sempre foi adiado por questão de direitos autorais. No entanto, fotografias dispersas de algumas dessas cenas deram origem a petições para que fossem liberadas.
A exibição em Cannes, seguida por vaias, foi a primeira polêmica despertada pelo filme. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.

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Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de obras que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terrence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador. O interessante é como a peça de David Lynch foi recebendo mais atenção do que todos esses filmes, reunindo um culto não apenas por sua ligação com uma série referencial, mas sim por sua importância. Apesar de Lynch defendê-lo, o filme rendeu um hiato ao diretor de cinco anos, até A estrada perdida, período em que se questionou seu talento, como depois da realização de Duna.
Nesse sentido, As peças que faltam é uma espécie de homenagem aos fãs de Twin Peaks e um grande acréscimo para quem gosta de materiais complementares de uma obra. Nos últimos anos, não são poucas as experiências e materiais que cresceram com uma versão estendida do diretor: O portal do paraíso, de Michael Cimino; Cruzada, de Ridley Scott; Era uma vez na América, de Sergio Leone, O barco, de Wolfgang Petersen, e Vidas sem rumo, de Francis Ford Coppola, são alguns, além da trilogia O senhor dos anéis (ainda melhor em sua versão estendida). David Lynch preferiu não fazer uma versão estendida do filme, considerando que este já tem a metragem que gostaria, deixando os 91 minutos de extras como um material complementar, assim como fez com Veludo azul há alguns anos, que contém quase outro filme também em extras. Ele chegou, inclusive, a fazer uma festa de lançamento no cinema, em Los Angeles, para As peças que faltam. No entanto, o caso de Twin Peaks é mais interessante: Lynch precisou cortar o material que não se encaixava bem no filme do cinema, com as participações de personagens queridos da série de TV. Mas não apenas.

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Se o material com entrevistas reserva um encontro memorável de David Lynch com os atores Ray Wise (Leland Palmer), Sheryl Lee (Laura Palmer) e Grace Zabriskie (Sarah Palmer), com um humor corrosivo e relatos interessantes sobre a convivência nas filmagens, As peças que faltam inicia com imagens da investigação dos agentes Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) em Deer Meadow. Há uma ida estendida deles ao Hap’s Diner e depois a briga de Desmond com o xerife da cidade, Cable (Gary Bullock). Para os fãs de Chris Isaak, aqui tem uma participação mais longa dele, e esta briga, apesar de se entender por que foi excluída do filme, tem uma atmosfera típica da série, mais bem-humorada. Em seguida, Sam Stanley aparece com o agente Cooper, que ganha uma cena de acréscimo, uma conversa com Diane. Dessas cenas, o encontro com Sam Stanley é certamente a melhor; a de Cooper conversando à porta com Diane, sem que o espectador a veja, parece mais uma brincadeira de bastidores, embora Kyle MacLachlan faça valer sua presença.
Melhor é a participação mais detalhada do agente do FBI Phillip Jeffries, feito por David Bowie, que aparecia de relance no filme e aqui tem um destaque maior, transportando-se de um hotel na Argentina para a sede do FBI na Filadélfia; é um dos grandes momentos aterrorizantes da obra de David Lynch, e Bowie sabe como lançar um personagem surpreendente, como já fez em outras experiências suas no cinema, como Fome de viver e Furyo – Em nome da honra. Também interessante é quando o agente lembra de sua passagem pelo Black Lodge, atrás da misteriosa Judy, onde estão Bob (Frank Silva) e o anão (Michael J. Anderson), e fala, com o rosto sobre a mesa, exatamente a data em que Laura Palmer será morta. Essas sequências transformam o material num item necessário para a compreensão de alguns detalhes, e principalmente a reunião no Black Lodge mostra que Twin Peaks envereda pelo gênero do terror, como parte da segunda temporada da série.

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Quando a história chega a Twin Peaks, temos sequências de Laura Palmer em convivência mais normal com seus pais – o que não acontece no filme oficial –, inclusive uma reunião em que Leland Palmer quer ensinar à mulher (Zabriskie, finalmente com maior oportunidade de aparecer) e a Laura como falar algumas palavras em norueguês, lembrando que é um comitiva da Noruega que está no Great Northern Hotel no início da série de TV. Leland adentra a sala como se fosse o personagem de Jack Nicholson em O iluminado. Também mostra Laura tendo um encontro mais demorado com Donna Hayward (Moira Kelly) e seus pais, o Dr. Will (Warren Frost) e Eileen (Mary Jo Deschanel), revelando uma normalidade familiar que não encontra em sua casa. Essas cenas são muito importantes tanto para a mitologia de Twin Peaks quanto para a compreensão do filme lançado nos cinemas: Dr. Hayward fala da figura do anjo a Laura – símbolo que será determinante a seu final – e faz um truque de mágica ligado à aparição de uma rosa vermelha (outro símbolo do roteiro, ligado à personagem de Lil); ele diz que a mágica havia dado certo no trecho da estrada em que Laura, afinal, virá a desaparecer (um detalhe colocado discretamente por Lynch). Nessas cenas, deve-se destacar não apenas a presença de Kelly, mas, principalmente, a atuação excelente de Frost.
Há também sequências de Laura com o namorado Bobby Briggs, editadas no filme oficial. Uma delas mostra Laura chegando à casa de Bobby, enquanto a mãe e o pai deste estão sentados na sala. O Major Briggs (Don S. Davis) lembra passagens bíblicas do Apocalipse, que remetem também à figura do anjo, fundamental para entender a narrativa de Twin Peaks – Fire walk with me. Além de David Lynch dar mais espaço ao cenário da casa – que no filme se restringe ao porão onde está Bobby (em mais uma excelente participação de Dana Ashbrook) –, e filmar exatamente como em algumas sequências do piloto da série (a câmera mais estática), ele novamente desenvolve esse encontro ou afastamento de Laura da vida familiar.
O contato de Laura com Donna rende igualmente uma sequência de ida das duas ao Canadá que dialoga certamente com o material que Lynch apresentaria anos depois em A estrada perdida. Não só a atriz Sheryl Lee, injustamente esquecida, e que depois faria pequenas participações em obras como Inverno da alma e Pássaro branco na nevasca, consegue mesclar diferentes tons em sua atuação como Laura. Ela divide a cena principalmente com Donna Hayward – e, ao contrário de muitos admiradores da série, não acredito que Lara Flynn Boyle faça exatamente falta. A atriz Moira Kelly, que no mesmo ano, 1992, fazia a namorada de Charlie Chaplin no filme biográfico com Robert Downey Jr., traz um certo ar de ingenuidade que Flynn Boyle não possui e se imagina como o personagem de Donna, na série de TV, teria crescido com sua participação. Se em Twin Peaks – Fire walk with me a sua participação era marcante, aqui, principalmente na conversa que tem com Laura, mais extensa do que no filme, ela ainda traz mais interesse para a dualidade que trava com a amiga. O clima noturno da sequência que desemboca no Canadá dialoga com aquele visto no início de Cidade dos sonhos.

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E temos, em determinado momento, Laura Palmer sendo hipnotizada pelo ventilador de teto, reproduzindo uma sequência que se encaixaria perfeitamente em Império dos sonhos. Ou seja, como realmente Twin Peaks sempre anunciou, esta obra antecipa o David Lynch do final dos anos 90 e início dos anos 2000.
Do mesmo modo, há sequências mais longas do relacionamento entre Teresa Banks (Pamela Gidley) e Leland Palmer – que no filme se mostram com uma edição bastante concentrada. Nos extras, Lynch destaca mais o Blue Diamond Motel, onde está Teresa, fazendo, inclusive, uma analogia entre o anel da coruja carregado por alguns personagens e o diamante que caracteriza a fachada do Motel. Em meio a essas conversas entre Banks e Leland, temos outra participação de Jacques Renault (Walter Olkewicz).
Há outras passagens que conferem uma lembrança justa aos personagens da cidade, mas não se sentiriam encaixadas de maneira clara no filme: a ligação de Ed Hurley (Everett McGill) com Nadine (Wendy Robie) e Norma Jennings (Peggy Lipton); o xerife Harry Truman (Michael Otkean), preparando-se para apanhar um traficante com Andy Brennan (Harry Goaz), Tommy (Michael Horse) e a assessoria de Lucy Moran (Kimmy Robertson); uma conversa na madeireira entre Pete (Jack Nance) e Josie (Joan Chen) com o senhor que trabalha no banco no último episódio de Twin Peaks, Dell Mibbler (Ed Wright); os atritos entre Leo (Eric Da Re) e Shelly (Mädchen Amick). E do mesmo modo temos, numa breve aparição, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). São particularmente boas aquelas sequências em que Ed escuta com Norma a música de Angelo Badalamenti na caminhonete, e a conversa na madeireira, de extrato surreal próprio da série. A maneira como Lynch os traz de volta mostra seu carinho com esses personagens e complementa o filme, mesmo que de forma menos clara.

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De modo geral, acredita-se que todas as cenas em que Laura Palmer aparece – inclusive aquela em que recebe o telefonema do psiquiatra, Dr. Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) – deveriam ter sido mantidas no filme oficial, assim como a participação estendida de Phillip Jeffries, que traria acréscimos à história, e o encontro de Cooper com o agente Stanley. Outras poderiam ter mescladas, talvez não com a mesma duração, pois o ritmo de Twin Peaks – Fire walk with me tem uma falsa lentidão, sendo, na verdade, muito ágil (apesar de seus 135 minutos). O importante de As peças que faltam, além de ser um complemento vital de Twin Peaks, é o cuidado com que David Lynch retomou este material: além de as cenas inéditas terem a mesma qualidade de imagem do filme oficial, receberam um tratamento sonoro, musical (com a colaboração sempre vital de Angelo Badalamenti) e visual claramente de acordo com os tempos atuais, como o teletransporte de Jeffries ou a imagem em que Laura Palmer se encontra embaixo do ventilador. Mostram como David Lynch tinha uma noção exata de que o filme não era apenas a continuação da série, e sim uma outra linguagem. Mais pesado do que a série, Twin Peaks – Fire walk with me também conserva experimentos poucas vezes visto, acentuados com este material, como na passagem de Jeffries, a reunião no Black Lodge e as sequências surrealistas com Laura Palmer. E existe ainda, ao final, algumas cenas que se passam depois do final da série de TV, com Annie Blackburn (Heather Graham), que dialogam, no entanto, com um símbolo existente apenas no filme. Twin Peaks – As peças que faltam só não é tão excelente, principalmente para os fãs, quanto a volta da série no ano que vem.

Twin Peaks – The missing pieces, EUA, 2014 Diretor: David Lynch Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Dana Ashbrook, Kyle MacLachlan, Madchen Amick, James Marshall, Mary Jo Deschanel, Warren Frost, David Bowie, Chris Isaak, Kiefer Sutherland, Everett McGill, Wendy Robie, Peggy Lipton, Michael Otkean, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Jack Nance, Joan Chen, Ed Wright, Don S. Davis, Russ Tamblyn, Catherine E. Coulson, Heather Graham, Gary Bullock, Pamela Gidley Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron Garcia Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 91 min.

Cotação 5 estrelas