Twin Peaks – O retorno (Episódio 10) (2017)

Por André Dick

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Revendo a primeira temporada de Twin Peaks na semana passada, ficaram mais claras as diferenças em relação à terceira: 1) enredo mais clássico, no bom sentido; 2) humor mais direto; 3) paralelos com a novela “Invitation to love”, com metalinguagem mais acessível; 4) montagem mais ágil e cenas curtas, mostrando que a nova temporada diz muito sobre o amadurecimento de Lynch, sem querer explicitar nada; 5) intrigas sobre a serraria e tráficos de drogas na cidade como tópicos centrais, além da investigação de quem matou Laura Palmer. Finalmente o motivo pelo qual pedem a volta do verdadeiro agente Cooper e de Audrey Horne: eles se destacam acima de todos. Dana Ashbrook, como Bobby Briggs, também está ótimo e mostra por que Lynch o destaca nesta terceira, em relação aos demais personagens antigos.
E finalmente o motivo pelo qual Lynch não se concentra em tramas envolvendo personagens jovens: ele não conseguiria repetir o que já mostrou. Embora eu aposte – mesmo com índices de exibição abaixo do esperado – numa quarta temporada, em que ou Lynch vai explorar os mistérios investigados pelo FBI ou vai se concentrar apenas na cidade, com o agente Cooper indo morar nela e trabalhando na polícia local. Uma dúvida é certa: o agente Cooper ficará com Janey-E ou Audrey Horne? Difícil escolha. Naomi Watts e Sherilyn Fenn são grandes atrizes.

Dito isso, o décimo episódio da terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) mostra que David Lynch também tem direito a suas falhas: trata-se, pela minha lembrança, talvez do episódio mais fraco das três temporadas (incluindo em relação àqueles da segunda que muitos criticam). Se até então ele estava desinteressado em prosseguir definitivamente com o estilo apresentado na primeira temporada e, até agora, preferia dialogar com os episódios mais importantes da segunda – do 9º ao 15º e do 22º ao 29º, com as referências ao Black Lodge – e com Twin Peaks – Fire walk with me, parece que desta vez ele tenta retomar a agilidade das duas primeiras temporadas, com cenas curtas. O resultado: não se compara em efetividade e se torna bastante confuso. Falta o trabalho de edição de Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, que participou das duas primeiras temporadas e do filme.
Janey-E (Naomi Watts) finalmente consegue levar Dougie Jones (Kyle MacLachlan) ao médico, Dr. Ben (John Billingsley), e, quando se depara com o físico da nova versão de seu marido, parece que há uma atração imediata. Lynch mostra com desenvoltura o resultado da atração de Janey-E, numa das cenas cômicas melhor resolvidas, em razão das ótimas atuações de Watts e de MacLachlan. Como em outros episódios dessa temporada, o tempo com os Jones vale a visão, e Janey-E é o melhor personagem novo dessa temporada.

Anthony Sinclair (Tom Sizemore) encontra os irmãos Bradley (James Belushi) e Robert Mitchum (Robert Knepper), observado pelas pin-ups que apareciam no quinto episódio, a mando de Duncan Todd (Patrick Fischler). Ele quer que Anthony diga aos Mitchum que Douglas Jones quis prejudicá-los no recebimento pelo seguro do incêndio de um dos seus hotéis. Os Mitchum já estavam desconfiados depois de verem a matéria na TV em que Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek) é preso depois de ter sido enfrentado por Dougie, o mesmo que saiu com mais de 400 mil dólares do cassino deles. Lynch tenta destacar uma das pin-ups que acompanham os Mitchum, Candie (Amy Shiels), mas o humor, de forma notável, não funciona. Tampouco a participação das outras duas, Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal).
Steven Burnett (Caleb Landry Jones, do recente Corra!), depois de procurar emprego em Twin Peaks, violenta Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick). Eles moram no mesmo parque de trailers administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton), que tenta cantar uma música de sua autoria, “Red river valley”, mas é interrompido pela briga dos dois. “É um pesadelo”, reclama ele, lembrando sua participação em Twin Peaks – Fire walk with me e dando o tom cômico certo que falta ao restante do episódio. A briga de Becky parece revelar que o passado de Shelly, o violento Leo, está no encalço também de sua filha. A cena, no entanto, é tão rápida que nada parece justificá-la. Há, claro, uma tentativa de Lynch em contrapor a violência contra a mulher com a atitude de Candie em relação a seu Robert Mitchum e como as vibrações positivas, na música de Rodd, podem ser quebradas.

No entanto, o episódio parece ser mais de Richard Horne (Eamon Farren), que primeiro mata Miriam (Sarah Jean Long), testemunha do atropelamento no sexto episódio. A composição da cena é impressionante – e repare-se numa estátua de anjo à frente do trailer de Miriam, dialogando com o anjo de Laura Palmer –, entretanto há um erro de continuidade grave também. A polícia não estava investigando o responsável? Como Miriam preferiu escrever uma carta ao xerife contando a história? Claro que Richard entra em contato com Chad Broxford (John Pirruccello), o policial corrupto, para impedir a chegada da carta às mãos do xerife. E Chad engana Lucy (Kimmy Robertson), conseguindo esconder a carta.
Depois, Richard vai à casa da avó, Sylvia Horne (Jan D’Arcy), para assaltá-la, sendo observado por Johnny Horne (Eric Rondell). Lynch tenta claramente estabelecer um vínculo com Laranja mecânica nessa sequência, mas soa desconjuntado e falha, apesar das atuações de Farren, D’Arcy e Rondell.
Tammy Preston (Chysta Bell) e o agente Gordon Cole (David Lynch) estão felizes com Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) jantando com a legista Constance Talbot (Jane Adams). Depois de rabiscar um desenho que lembra a mão de Bob saindo do Black Lodge ao final da segunda temporada, Gordon atende à porta de seu quarto de hotel e vislumbra a imagem de Laura Palmer chorando (é uma imagem extraída de Twin Peaks – Fire walk with me, quando Laura vai pedir ajuda à Donna Hayward depois de ter visto Bob em sua casa e considerar que seria seu pai, Leland, na segunda fotografia abaixo). Albert alerta sobre uma mensagem que Diane teria respondido ao duplo mal de Cooper, colocando-a sob desconfiança, e Tammy mostra uma imagem do Mr. C em frente ao cubo de vidro de Nova York, do primeiro episódio desta temporada.

Outras passagens parecem sobras de material de cenas já vistas: o doutor Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) brada em seu programa de internet observado por Nadine (Wendy Robbie), e Hawk (Michael Horse) conversa com Senhora do Tronco (Catherine Coulson), e esta diz que Laura é única. São cenas gravadas com a mesma fotografia e figurino daquelas apresentadas no primeiro e quinto episódios, respectivamente. Pela rapidez, a cena com a Senhora do Tronco, apesar de bela, não parece ter o peso que deveria pela edição excessivamente rápida do episódio, sem a aura de mistério habitual: Laura é a escolhida conforme o oitavo episódio? Possivelmente, no entanto não há o cuidado habitual de Lynch em não mostrar isso com certa obviedade. Algo muito interessante: a Senhora do Tronco fala no som da eletricidade, certamente aquele do Great Northern, onde está Ben (Richard Beymer) sabendo o que aconteceu à sua ex-mulher.
Se havia um episódio que poderia significar uma fraqueza na estrutura pode ser exatamente este. Cenas soltas ou, quando mais longas, sem uma substância real, com personagens estabelecidos de forma fraca, como os Mitchum, parecem trazer um dos problemas da série: ou ela segue o ritmo lento e trabalhado ou vai parecer uma sucessão de encadeamentos remotos. É difícil acompanharmos Jerry Horne (David Patrick Kelly) há três episódios perdido na floresta e não vermos a trama caminhando em outros pontos, ou mesmo na volta de alguns personagens, a exemplo de Audrey Horne, para dar espaço a outros não tão interessantes, como o de Candie. E como aceitar um episódio mais fragmentado como este depois do oitavo, um divisor de águas? Lynch é um grande artista e provocador, porém se sente, pelo menos aqui, que está sendo autoindulgente, além de querer destacar Gordon Cole mais do que Dale Cooper (que, a partir daqui, talvez apareça em apenas meia dúzia de episódios como de fato é, com a ressalva de que Dougie Jones é uma ótima criação). E, fazendo referência clara a Cidade dos sonhos, temos Rebekah Del Rio cantando na Roadhouse, ao lado de Moby (!). Ela tem um vestido que lembra o chão do Black Lodge. Seria espetacular, não fosse num episódio tão irremediavelmente estranho na filmografia de Lynch e que claramente destoa da qualidade da série.

Twin Peaks – Episode 10, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Chrysta Bell, Caleb Landry Jones, Amanda Seyfried, Eamon Farren, James Belushi, Robert Knepper, Russ Tamblyn, David Patrick Kelly, Wendy Robbie, Jane Adams, John Pirruccello, Pierce Gagnon, Harry Dean Stanton, Richard Beymer, Eric Rondell, John Billingsley, Christophe Zajac-Denek, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Kimmy Robertson, Jan D’Arcy, Rebekah Del Rio, Moby Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 53 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 9) (2017)

Por André Dick

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Depois do revolucionário oitavo episódio da série Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch volta, digamos assim, à narrativa mais estruturada que marcava os episódios iniciais. Não era possível imaginar que o mesmo tom experimental se mantivesse, embora não saibamos o que Lynch prepara para os próximos, talvez mesmo uma retomada. Desta vez, acompanhamos o Mr. C (Kyle MacLachlan), o duplo mal de Cooper, voltando da sua noite complicada por um tiro e pelos woodsmen para encontrar dois funcionários seus numa fazenda, Hutch (Tim Roth) e Chantal (Jennifer Jason Leigh). Ele liga para outro funcionário, Duncan Todd (Patrick Fischler), situado num cassino em Las Vegas, como já vimos em episódios anteriores, certamente cobrando pela morte não consumada de Dougie. Por sua vez, Hutch tenta agradar a Mr. C. cobrando de Chantal um tratamento mais íntimo. Enquanto isso, Gordon Cole (David Lynch) pede para o piloto do avião levar sua equipe, Diane (Laura Dern), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), para Buckhorn.

Eles ficam sabendo que encontraram o corpo do Major Briggs por meio da tenente Knox (Adele René). Coisas estranhas no ar. Em Las Vegas, os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), interrogam o chefe de Dougie Jones, Bushnell Mullins (Don Murray). Incomodado com a falta de reação dos detetives às suas dúvidas, Bushnell parece preparar seus punhos de tempos de boxeador. Dougie/Cooper (MacLachlan) e Janey-E (Naomi Watts) estão na sala de espera. “Será que é bom interrogá-lo?”, pergunta um dos irmãos. “É como falar com um cachorro”, responde D. Fusco. Bem, o espectador sabe que Dougie é mais divertido do que todos que tentam fazer rir nesta temporada. Eles descobrem quem tentou matar Dougie: foi Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), antigo conhecido. Os policiais conseguem localizar o quase anão. Já Dougie/Cooper observa a sala de espera da delegacia e nota que a haste que sustenta a bandeira dos Estados Unidos lembra uma haste que há no Black Lodge, assim como associa o vermelho do sapato de uma mulher que passa ali com as cortinas do lugar onde ficou preso 25 anos e olha fixamente para duas tomadas, talvez lembrando por onde passou até voltar.
Chegando a Buckhorn, a equipe de Gordon conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams) e ficam sabendo que encontraram o anel de Dougie Jones dentro do corpo do Major Briggs. Tammy Preston vai interrogar William Hastings (Matthew Lillard), o diretor da escola. Ele manteria um blog com a ajuda da bibliotecária que teria assassinado, Ruth Davenport – tema do primeiro e segundo episódios principalmente. Neste blog, ele trata de um universo alternativo, onde teria encontrado o Major Briggs. Esse universo possivelmente tem relação com o Black Lodge, apresentado desde a origem por Lynch no oitavo episódio. Mais do que em outros momentos desta temporada, este é um momento que dialoga com Arquivo X, sabendo-se que esta série foi influenciada por Twin Peaks. A atmosfera na sala de interrogatório é apresentada de modo irretocável por Lynch.

Em Twin Peaks, Bobby Briggs (Dana Ashbrook), o xerife Truman (Robert Forster) e Hawk (Michael Horse) vão à casa da mãe de Bobby, Betty (Charlotte Stewart). Ela relata que o Major havia lhe avisado que eles a procurariam para tratar do agente Cooper, antes de morrer. Ele teria deixado um objeto escondido numa cadeira. As palavras que Betty diz ao filho lembram as do major no primeiro episódio da segunda temporada, quando ele se encontra com Bobby no Double R. Indo à delegacia, descobrem que dentro do objeto há dois pedaços de papel com pistas para saber onde estaria o agente Cooper. Trata-se da indicação de um lugar apelidado quando criança por Bobby de Palácio de Jack Rabbit. A maneira como essa informação é descoberta lida com o som, tão presente de forma temática na obra de Lynch, desde os módulos usados pelos Fremen em Duna até a orelha encontrada em Veludo azul e que levava à descoberta de um universo subterrâneo na pequena cidade do personagem central.
Se Lucy (Kimmy Robertson) e Andy (Harry Goaz) discutem sobre a cor do sofá que pretendem comprar para sua casa e Chad Broxford (John Pirruccello) usa a sala de reuniões para almoçar e é repreendido, respondendo não saber o motivo, pois todos vivem comendo donuts ali, Jerry Horne (David Patrick Kelly) continua em viagem com psicotrópicos no bosque de Twin Peaks, tentando analisar sua perna, e seu irmão Ben (Richard Beymer) continua flertando com a secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram novamente identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório, agora muito parecido com o do objeto deixado pelo Major Briggs. Não parece haver dúvida de que o som está anunciando a volta de Cooper.

David Lynch insere, em meio a isso, duas passagens estranhíssimas: Johnny Horne (Eric Rondell), filho de Benjamin, correndo por uma casa até bater com a cabeça numa parede e, principalmente, duas jovens conversando na Roadhouse e uma delas (a cantora Sky Ferreira, surpreendentemente bem, parecendo uma junkie) com uma certa alergia inconveniente numa das axilas. Lembremos que no piloto da primeira temporada Johnny ficava batendo com a cabeça (sempre coberta por um cocar indígena) em sua casinha de madeira para brincar, pois Laura Palmer, que havia sido assassinada e era sua professora, não estava com ele.
Lynch retoma neste episódio a trama que se estende desde o primeiro, com a prisão de Hustings e a descoberta do corpo de Briggs. Ele extrai uma performance brilhante de Lillard como Hustings, mas aqui sobretudo confere grandes falas a Albert. Num dos momentos mais interessantes do episódio, quase caseiro, Gordon e Tammy vão fazer companhia a Diane, que está fumando, e ela compartilha o cigarro com o antigo chefe, que parou de fumar. É uma cena lenta, mas compensa pela intimidade entre Lynch e Dern, aqui mais comedida em relação ao episódio 7, no qual surgiu com mais destaque. Este episódio, assim como o primeiro, o quarto e quinto lidam mais com investigações por meio de interrogatórios, fazendo lembrar a segunda temporada da série, com um certo tom mais soturno, embora muitas vezes bem-humorado.

Para quem esperava mais explicações sobre os acontecimentos do episódio 8, esta nova etapa da série pode decepcionar, mas Lynch consegue extrair muito de pequenas situações, concretizando melhor o tom cômico de Diane nas suas passagens, assim como a estranheza dos irmãos Fusco na investigação sobre Dougie Jones/Cooper. Lamenta-se, porém, a pouca presença de Dougie e Janey-E, sempre propensos a bons momentos de comicidade. A maior presença de Bobby Briggs, assim como o ressurgimento de sua mãe, por outro lado, é uma bela retomada das primeiras temporadas de Twin Peaks (Dana Ashbrook está muito bem), embora ainda não tenhamos nenhum sinal de Audrey Horne. Onde ela estaria? Esperamos que David Lynch nos traga de volta uma das melhores personagens da série, o quanto antes. O que temos, ainda bem, é o prosseguimento de uma série que se mostra a cada episódio excelente, com ou sem surrealismo e a fotografia notável de Peter Deming, jogando com as luzes e sombras, de maneira muito sutil. Percebe-se que Lynch, pela maneira como apresenta a história, parece confiar numa quarta temporada: determinados personagens têm surgido e desaparecem com a clara proposta de que suas histórias serão desenvolvidas em novos episódios desta ou de uma próxima temporada. O Showtime, levando em conta a recepção da série, não pensará duas vezes.

Twin Peaks – Episode 9, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Patrick Fischler, David Lynch, Laura Dern, Chrysta Bell, Miguel Ferrer, Adele René, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Naomi Watts, Christophe Zajac-Denek, Brent Briscoe, Jane Adams, Matthew Lillard, Dana Ashbrook, Robert Forster, Michael Horse, Kimmy Robertson, Harry Goaz, John Pirruccello, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Ashley Judd, Eric Rondell, Sky Ferreira Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 7) (2017)

Por André Dick

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O sétimo episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix) marca o reencontro com alguns personagens de peças anteriores e a inclusão de novos. Se tudo começa com Jerry Horne (David Patrick Kelly) no bosque de Twin Peaks experimentando drogas enquanto fala ao telefone com o irmão Ben (Richard Beymer), no hotel, a história se transporta para a delegacia. Hawk (Michael Horse) conversa com o xerife Truman (Robert Forster) sobre os papéis que encontrou na porta do banheiro da delegacia. São páginas rasgadas do diário de Laura Palmer, que relatam um sonho que ela teve com Annie Blackburn (Heather Graham), a namorada de Cooper, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. Neste sonho, Annie avisa que Cooper está preso no Black Lodge e que é para Laura anotar isso em seu diário. O xerife, depois de conversar com seu irmão ao telefone, entra em contato com o Doutor Hayward (Warren Frost, falecido no início deste ano), um dos últimos a ter visto Cooper décadas atrás. Esse ingresso do Dr. Hayward traz uma aura de conversas sobre pescaria que remete às primeiras temporadas da série, contrastando com a tecnologia campestre do computador do xerife.

O corpo sem cabeça que se encontra na delegacia de Buckhorn, Dakota do Sul, é identificado como sendo do major Garland Briggs, depois que a tenente Knox (Adele René) conversa com o detetive Dave Mackley (Brent Briscoe) e a legista Constance Talbot (Jane Adams). Esta sequência lembra muito aquela dos agentes Stanley e Desmond no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No corredor em que ela liga para seu superior, Davis (Ernie Hudson), vemos passar o que se parece com o mendigo que se encontrava numa cela do segundo episódio. Há um momento de tensão e ameaça típico de Lynch que é cortado por Gordon Cole (David Lynch) assoviando com o retrato da bomba atômica ao fundo de sua sala (e repare-se que, antes, a câmera mostra outro quadro, com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” do Black Lodge). Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) adentra a sala dizendo que tentou falar com Diane (Laura Dern), sem êxito: ambos, então, depois de um pedido engraçado de Albert, vão visitá-la, tentando convencê-la a interrogar o agente Cooper do mal, Mr. C., na prisão de Dakota do Sul. Seguem todos para Dakota junto com Tammy Preston (Chysta Bell).
Os desentendimentos de Diane com os ex-companheiros dão um indicativo que pode se confirmar ou não: Laura Dern será uma das personagens centrais dessa temporada. Apesar de apreciar Dern, suas cenas neste episódio são levemente inclinadas ao exagero, o que descaracteriza o surrealismo despropositado de muitas passagens. O figurino e a peruca, que envelhecem a atriz, não se sentem orgânicos nas cenas em que aparece, além de o roteiro aplicar a técnica do “F***” para tentar uma comicidade forçada, pouco utilizada por Lynch em sua carreira (perceba-se como ela surge bem no recente Wilson, ao lado de Woody Harrelson, ao natural). É Diane, no entanto, que parece prever o que o Cooper do mal (Kyle MacLachlan) pode fazer, tanto que, logo depois, ele consegue uma reunião com o diretor da prisão de Yankton, Warden Dwight Murphy (James Morrison), e parece saber segredos suficientes dele para conseguir uma liberdade incondicional para ele e o parceiro Ray Monroe (George Griffith). Esta sequência é bem feita, mas talvez muito direta para os simbolismos que Lynch costuma entregar, nunca tão evidenciados.

Lynch trafega entre esses espaços com naturalidade, porém o personagem do Cooper mal não parece o melhor indicativo para o que se pode extrair com esta nova temporada: sua presença já parece suficientemente aproveitada. Será uma presença ainda muito ativa?
Enquanto Andy (Harry Goaz) tenta descobrir, de maneira estranha, o que houve com o acidente no episódio anterior, Ben Horne flerta com sua secretária Beverly Page (Ashley Judd) ao mesmo tempo que procuram identificar de onde vem um estranho barulho na eletricidade do escritório. Ele também recebe das mãos dela a chave que chegou do correio, do quarto em que Cooper estava hospedado vinte anos antes, enviada por Jade (Nafessa Williams), no quinto episódio. Nada mais interessante que a câmera se direcionar a uma das tapeçarias indígenas do Great Northern – simbolizando os enigmas da série e do bosque. E a eletricidade estaria avisando sobre a volta de Cooper?
Já a brava Janey-E Jones (Naomi Watts, em tempo exato de humor novamente) vai buscar o marido Dougie (também MacLachlan) no trabalho, quando ele é visitado por três detetives, T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner), por causa do seu carro, que explodiu do outro lado da cidade. Ele também é ajudado pelo chefe Bushnell Mullins (Don Murray), depois de ignorar o colega Anthony Sinclair (Tom Sizemore), a quem acusou de mentiroso no capítulo 5.

Na saída do trabalho, ele precisa enfrentar Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), enquanto aparece a árvore do Black Lodge, o Braço, dizendo o que ele deve fazer. Essa cena mescla estranheza e surrealismo em doses desproporcionais, e o que mais a engrandece é Cooper/Dougie ouvindo as sirenes da polícia como se estivesse recordando do passado. Ainda assim, o que seria um humor calibrado acaba se perdendo um pouco.
Há uma cena executada de forma impecável no Roadhouse, quando um homem varre o salão por alguns minutos, juntando minuciosamente a sujeira deixada pelos clientes no chão, ao som de “Green Onions”, quando ao fundo o parente de Renault (feito pelo mesmo ator, Walter Olkewicz), atende ao telefone e fala sobre negócios ilegais – o que mostra novamente a podridão da pequena cidade embaixo da tentativa de limpá-la.
Neste universo, o duplo mal de Cooper é mais do que uma ameaça: ele é realmente algo a ser combatido. David Lynch até o momento expôs uma história muito bem trabalhada em partes e misteriosa até seu cerne: resta saber o que ele pretende daqui em diante, e até que ponto ele vai utilizar a figura do duplo mal de Cooper e, principalmente, de Diane, que se sente, pelo menos neste episódio, fora do tom. Lynch diz a ela: “O microfone e a cortina são seus”, antes de ela falar com o duplo mal de Cooper, numa cena que parece saída de Império dos sonhos, sobretudo na maneira como ela é enfocada. Esperamos que ele não esteja dizendo a Laura Dern que o espetáculo é dela, como pareceu nesses primeiros momentos.

Sabe-se que desde Veludo azul, passando por Coração selvagem, até Império dos sonhos, Dern é sua atriz favorita, mas desconfia-se o que ele está pretendendo destacar nela que destoe do restante da série. Além disso, os episódios anteriores continham longas sequências primorosas – neste, Lynch parece adotar uma narrativa mais entrecortada, que remete à série antiga, entretanto sem a mesma agilidade de ligação em alguns pontos. É a primeira vez na série que ele estabelece mais de duas passagens para os mesmos personagens, de forma mais definida, e talvez este episódio se sinta mais linear, o que não é a melhor qualidade. Ou seja, até então o diferencial era exatamente esse estilo mais vagaroso, o que muda aqui, e não se sabe ainda se é necessariamente de acordo com o que virá. Não é sem explicação que a melhor cena seja aquela do flerte de Ben Horne, com uma precisão de tempo e movimentos de câmera por parte de Lynch. Perceba-se também que Lynch, além de lidar com duplos, mostra vários irmãos (os Horne, os detetives, os Truman conversando ao telefone), como se a genealogia da série fosse se estendendo. Do mesmo modo, é interessante que o diretor consiga, nos próximos episódios, trazer de volta personagens que apareceram e sumiram, como James Hurley (que teve apenas uma breve aparição ao final do segundo), Bobby Briggs (que apareceu apenas no quarto) e Lucy (Kimmy Robertson), ausente nos dois últimos, para que não percamos de vista o que está ocorrendo a eles. Isso acontece aqui com Ben Horne, que não aparecia desde o primeiro episódio. Audrey, sua filha, desta vez é mencionada. Até agora, do elenco, MacLachlan e Naomi Watts são os dois destaques, seguidos pelo próprio David Lynch, e a fotografia de Peter Deming continua irretocável. Tudo faz parte da ideia de um filme dividido em 18 episódios, mas Lynch não deve destacar alguns do seu elenco para desviar o foco do que realmente nos interessa: os enigmas de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 7, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Ashley Judd, Larry Clarke, Eric Edelstein, David Koechner, Don Murray, Tom Sizemore, David Patrick Kelly, Richard Beymer, Miguel Ferrer, David Lynch, Christophe Zajac-Denek, Warren Frost, Adele René, Brent Briscoe, Ernie Hudson, Jane Adams, Walter Olkewicz Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – O retorno (Episódio 6) (2017)

Por André Dick

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No sexto episódio de Twin Peaks – O retorno (disponível na Netflix), David Lynch retoma a história mostrando Dougie Jones/Agente Cooper (Kyle MacLachlan) ainda observando a estátua do caubói na saída de seu trabalho, tentando identificar o que ela lhe lembra de outra vida, exatamente a de um agente do FBI. Abordado por um policial que pede para sair do lugar, acaba sendo levado para casa, onde reencontra sua esposa Janey-E Jones (Naomi Watts, novamente no tempo certo de humor). Ela pede que fale com seu filho, Sonny Jim (Pierce Gagnon) antes de este dormir, e Dougie mal consegue calcular os passos para subir até o segundo andar da casa. Comendo batata frita, é chamado de volta pela esposa para explicar algumas fotos que estavam dentro de um envelope entregue por baixo da porta de sua casa nas quais aparece ao lado de Jade (Nafessa Williams). Mais do que ver em Jade apenas quem lhe deu carona, Dougie Jones/Agente Cooper precisa fazer a tarefa de casa: analisar os arquivos passados por seu chefe da companhia de seguros, Lucky 7 Insurance, para identificar possíveis erros. Depois de visualizar no chão de sua casa o Homem de Um Braço Só (Al Strobel) dizendo que ele precisa despertar – uma alusão clara a Paul Atreides de Duna, também interpretado por MacLachlan – e não morrer, Dougie Jones/Cooper começa a ver pontos luminosos do que precisa marcar em seus arquivos, e interessante também é ele ver no 7 do nome da empresa a mesma curva do piso do Black Lodge.

Se a polícia recolhe os escombros do carro de Dougie Jones que explodiu do outro lado da cidade, de pessoas para quem ele deve, Lynch vai juntando outros: apresenta o novo traficante da cidade de Twin Peaks, Red (Balthazar Getty). Ele estava flertando com Shelly no Road House ao final do segundo episódio e agora mostra drogas a Richard Horne (Eamon Farren), parente dos Horne. Balthazar estrelou A cidade perdida, de Lynch, e a estranheza do ator se manifesta ainda em seu comportamento e o gesto de mágica com uma moeda, que lembra alguns dos momentos surrealistas de Cidade dos sonhos.
Situada entre a realidade e o surrealismo é a ida de Carl Rodd (Harry Dean Stanton) de van de seu Ice Trout Trailer Park em Deer Meadow, Oregon, para Twin Peaks. Lembre-se que esse parque de trailers é administrado por ele já na época em que o FBI vem investigar o assassinato de Teresa Banks em Twin Peaks – Fire walk with me. Na mesma ida, um amigo do local, Mickey (Jeremy Lindholm), ganha carona e fala da esposa Linda, que acabou de receber uma cadeira de rodas do governo. Seriam Linda e Richard (Horne) os nomes mencionados pelo gigante a Cooper no primeiro episódio desta terceira temporada? Em Twin Peaks, sentado num banco de parque, como Dorothy Vallens ao final de Veludo azul, Carl vê uma mãe (Lisa Coronado) brincando com seu filho (Hunter Sanchez), enquanto parece ficar mais calmo olhando a copa das árvores acima.

No entanto, no mesmo cruzamento em que o Homem de um Braço Só aborda Laura Palmer e seu pai, Leland, no filme realizado para o cinema, acontecerá a morte trágica dessa criança. Rodd corre para ver o que aconteceu e visualiza uma chama de fogo subindo ao céu, quando o espectador visualiza a placa de seu parque de trailers, que era mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me com o som indígena feito pelo anão do Black Lodge. Lynch desenha essa metafísica de sensações por meio de imagens sensíveis e violentas, desde a beleza natural que Rodd presencia ao extremo oposto. Mais estranha ainda é a violência do motorista que atropela a criança. É como se tudo fosse interligado pela natureza e um sentimento que desequilibra isso remete à eletricidade que provém do Black Lodge. E perceba-se a falta de reação dos habitantes de Twin Peaks, como se não tivessem possibilidade de sequer amparar a mãe com seu filho, mostrando que a pequena cidade ainda vive sob um peso de ameaça inexplicável, mesmo com sua aparente tranquilidade.
Em algum lugar indeterminado, um rapaz quase anão, Ike “The Spike” Stadtler (Christophe Zajac-Denek), recebe as fotos de Dougie Jones e da telefonista que aparece ao início do quinto episódio, Lorraine (Tammy Baird), e Lynch, de forma assustadora, já mostra a morte dela a facadas em seguida. E ainda temos Janey-E tentando fazer com que os perseguidores de Dougie Jones, Jimmy (Jeremy Davies) e Tommy (Ronnie Gene Blevins), deixem seu marido em paz, entregando um maço polpudo de dinheiro em troca.

Enquanto Hawk (Michael Horse), na delegacia, descobre algo na porta do banheiro, sob a preocupação de Chad Broxford (John Pirruccello), o xerife Truman (Robert Forster) volta a receber sua esposa, Doris (Candy Clark), revoltada com o não conserto do carro do pai. No Double R, a garçonete Heidi (Andrea Hays), das primeiras temporadas de Twin Peaks, com sua risada característica, atende uma professora, Miriam (Sarah Jean Long), antes de conversar com Shelly (Mädchen Amick).
No entanto, talvez a sequência mais enigmática seja a de Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), depois de passar por uma chuva pesada – bradando palavras contra Gene Kelly e Cantando na chuva –, entrando num bar, onde chama por uma mulher bebendo no balcão de costas: é Diane (Laura Dern), a secretária para quem Cooper fazia suas gravações. A entrada de Dern no elenco de Twin Peaks é uma nostalgia pura de Veludo azul – e Dern, com uma peruca platinada, lembra a musa de Lynch à época de Coração selvagem, Isabella Rossellini.
E o que esperar de Dougie Jones quando reencontra seu chefe depois de novamente experimentar um café no elevador na ida para seu trabalho, ajudado por Reynaldo (o ótimo Juan Carlos Cantu)? Chamado a distância e assustado, em meio a um design da agência que remete a peças infantis, iguais a seus rascunhos, certamente, ele parece mais curioso com a imagem de seu chefe, Bushnell Mullins (Don Murray), como campeão de boxe quando mais jovem – o que remete ao agente Chester Desmond (Chris Isaak) vendo a imagem do xerife de Deer Meadow, Cable (Gary Bullock), dobrando um cabo de aço em Twin Peaks – Fire walk with me. Na hora do cumprimento, Lynch desliza sua nota cômica em um sentido mais surreal possível.

Lynch cada vez mais com a ajuda de uma fotografia belíssima de Peter Deming utiliza Kyle MacLachlan para extrair uma das atuações mais memoráveis que o espectador presencia nos últimos anos, mostrando o quanto este ator é subestimado, desde o início de sua trajetória, exatamente em Duna. Ele é impressionante na divisão entre Dougie e Agente Cooper, vivida a cada passo, literalmente, e cada gole de café. Tem a colaboração fundamental de coadjuvantes diretos, a exemplo de Watts e Murray, ou indiretos, como Dean Stanton numa participação extraordinária, com pausas no momento exato.
Em seu sexto episódio, David Lynch mostra mais uma vez que não está preocupado em contar uma história que se esclareça a cada sequência: este retorno precisa ser analisado em todos os pontos para ser essencialmente entendido. E mais: a cada episódio, expande a mitologia simbólica que era subentendida na série e explorada realmente no filme. No entanto, este episódio novamente se mantém com uma fascinação especial, com longas sequências, em que Lynch desenha um cinema de arte na televisão. É a verdadeira arthouse.

Twin Peaks – Episode 6, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Naomi Watts, Michael Horse, Laura Dern, Robert Forster, Mädchen Amick, Eamon Farren, Miguel Ferrer, David Lynch, Pierce Gagnon, Al Strobel, Harry Dean Stanton, Candy Clark, Balthazar Getty, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Tammy Baird, Don Murray, Juan Carlos Cantu, John Pirruccello, Hunter Sanchez, Lisa Coronado, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Jeremy Lindholm Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime