Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

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Twin Peaks – O retorno (Episódios 17 e 18) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, a terceira temporada e o filme de 1992

Numa entrevista durante o lançamento de Duna, David Lynch disse que sua infância foi marcada por “casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras”. Para ele, “era um mundo de sonho”, com a ressalva de que “sempre há formigas vermelhas por baixo”. Este universo foi explorado ao máximo em obras como Veludo azul – literalmente, com as formigas – e nas duas temporadas originais de Twin Peaks. Desta vez, na terceira (disponível na Netflix), Lynch utilizou algumas dessas imagens, mas seu foco foi muito mais conceitual, na exploração da realidade como um sonho. Ele expandiu bastante aquilo que ficava muitas vezes subentendido na série dos anos 90. No entanto, nos episódios finais (principalmente a partir do 12), Lynch foi voltando a esse universo de uma pequena cidade, à verdadeira Twin Peaks, às ruas arborizadas, ao céu azul, às cercas de pátios com grama verde, mesmo que fosse na Lancelot Court, rua onde morava Dougie Jones. Dougie passou a ser realmente o agente Cooper, tentando voltar no tempo, à antiga Twin Peaks e aos efeitos da última vez em que adentrou o bosque em busca de Annie Blackburn (Heather Graham).

Para uma série que se concentrou principalmente em personagens da terceira idade, principalmente com a figura vital da Senhora do Tronco, Lynch obteve uma certa ideia circular a respeito de alguns personagens, como se suas impressões estivessem congeladas no espelho, igual ao reflexo do duplo mal de Cooper. E com esse ambiente natural fomos levados, como no restante da série, por um surrealismo estranho e original.
Se no início da terceira temporada víamos o agente Cooper vir para nossa dimensão substituindo o pacato corretor de seguros Dougie Jones, ultrapassando cenários estranhos e chegando às máquinas de jogos de Las Vegas, aos poucos fomos conhecendo o que aconteceu com alguns personagens de Twin Peaks, o corpo policial da cidade, agora com Bobby Briggs e Frank Truman, irmão de Harry, Benjamin Horne, Doutor Hayward, Big Ed, Norma Jennings, Shelly… Também conhecemos personagens novos, como Janey-E e Sonny Jim, mulher e filho de Dougie Jones, seu chefe Bushnell Mullins e uma conspiração do mal organizada pelo duplo mal de Cooper para matá-lo, envolvendo até mesmo dois irmãos gângsteres, os Mitchum. Conhecemos os irmãos Fusco, policiais de Las Vegas, ao mesmo tempo que reencontramos Gordon Cole, Albert Rosenfield, ao lado de Tammy Preston e Diane. Outros personagens ficaram envoltos por um mistério, a exemplo de Sarah Palmer e Audrey Horne.

De modo geral, ao longo desse retorno, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em Estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland); e analisou os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens, a relação entre sonho e realidade e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos. Pode-se dizer que os dois episódios finais da terceira temporada costuram algumas dessas questões, mas se concentram na ideia do tempo como um círculo que se repete ao infinito.
No episódio 17, o agente Cooper é levado a Twin Peaks pelos irmãos Robert (Robert Knepper) e Bradley Mitchum (James Belushi), dos quais se tornou amigo – como se eles tivessem saído do Black Lodge para o White Lodge por meio de Cooper – e já chega à delegacia numa situação delicada. O seu duplo mal, Mr. C., estava pronto para balear Frank Truman (Robert Forster) quando é alvejado por nada mais nada menos que Lucy (Kimmy Robertson). Enquanto isso, o jovem Freddie Sykes (Jake Wardle) usa seu punho poderoso para derrubar o policial Chad Broxford (John Pirruccello) e ajuda Naido (Nae Yuuki), a moça sem olhos, junto com James Hurley (James Marshall), a chegar à sala principal do xerife. Enquanto os woodsmen cercam o Mr. C como no episódio 8, para reerguê-lo, surge novamente Bob dentro da mesma bola que o víamos ser expelido nesse episódio referido. O garoto de punho verde se coloca como adversário em potencial – e um grande adversário. Não há tempo para muito, apenas para vermos a chegada de Gordon Cole (David Lynch), Thammy Preston (Chrysta Bell), Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), além de Bobby Briggs (Dana Ashbrook) depois de uma sucessão de imagens que lembra um filme surrealista em seu grau extremo, embora envolva uma briga.
Cooper descobre que Naido é a verdadeira Diane (Laura Dern). Seu rosto se sobrepõe à imagem: será ele o “sonhador”? Junto com ela e Gordon Cole, Cooper segue pelos caminhos do forno do Greath Northern, que James Hurley visitava no episódio 14. Passando a porta que James olhava, ele se depara com o Homem de um Braço Só (Al Strobel), que o conduz até a Loja de Conveniência do episódio 15. Cooper encontra Philip Jeffries, em forma de sino/chaleira gigante e vai até o passado. “É futuro ou passado?”, perguntava o Homem de um Braço Só desde as primeiras temporadas. Sabemos que é passado e agente Cooper tenta salvar Laura Palmer (Sheryl Lee) de seu destino, mesclando sua participação com cenas incluídas em Twin Peaks – Fire walk with me em preto e branco e outras inéditas. “Eu o vi no meu sonho”, diz ela, referindo-se exatamente a uma passagem do filme, antes de encontrar Ronette Pulaski, Leo Johnson e Jacques Renault no bosque. Cooper atua como uma espécie de mensageiro de uma bondade.
Em uma sequência emocionante, vislumbra-se o início da série nos anos 1990 com Pete Martell (Jack Nance) saindo para pescar sem haver o corpo de Laura Palmer na beira do rio. Cooper teria conseguido mudar o destino de Laura? De volta ao bosque e com Cooper tentando conduzi-la até o portal que resultará no White Lodge, ela escapa de suas mãos e ele ouve gritos na floresta. O episódio se encerra com a nostálgica Julee Cruise cantando na Roadhouse.

O episódio 18 inicia com uma visão de Mr. C se desintegrando em chamas no Black Lodge. O Homem de um Braço Só produz uma nova versão de Dougie Jones para ele entrar pela porta vermelha para sempre – e vemos Janey-E (Naomi Watts) e Sonny Jim (Pierce Gagnon) de costas o recebendo alegremente. Cooper volta ao Black Lodge onde reencontra o Braço falando da menina do final da rua. Lembre-se que isto remete a um filme sobre abuso sexual com Jodie Foster dos anos 70: essa menina é Laura Palmer. O agente Cooper sai do Black Lodge pela cortina vermelha em que entrou no final da segunda temporada, em meio aos sicômoros, e se depara com Diane. Ele viaja com ela por uma estrada deserta, até chegar a vários postes de eletricidade. É ali que se passará, pelo que se entende, para outra dimensão. Chegando a um hotel de beira de estrada, o agente Cooper e Diane se hospedam. Ela vislumbra um duplo ao longe.
No quarto de hotel, Cooper e Diane fazem amor, numa sequência que remete muito a Coração selvagem, com Nicolas Cage e Laura Dern, dos anos 90. No dia seguinte, no entanto, ela lhe deixa um bilhete, referindo-se a ele como Richard e a ela como Linda – os nomes dados pelo Bombeiro no primeiro episódio desta temporada. Também não é mais o hotel de beira de estrada, e sim um na cidade, parecendo ter havido uma troca de corpo como em Estrada perdida. Numa espécie de tempo paralelo, mas ainda se considerando Cooper, o agente do FBI vai até uma cafeteria de nome Judy – o nome pronunciado no filme e no episódio 15 por Philip Jeffries. Ali, Cooper enfrenta alguns cowboys (Matt Bataghlia, Heath Hensley, Rob Mars) que mexem com uma garçonete, Kristi (Francesca Eastwood, filha de Clint). Ele pede o endereço de outra funcionária que atende ali e segue até uma casa em que há um poste com o número 6 à frente (o mesmo que aparecia no filme e no episódio 14).
Quem atende à porta é Carrie Page (Sheryl Lee), mas se trata de Laura Palmer. Cooper pergunta se o nome dos pais dela são Sarah e Leland e ela diz que sim. Repare-se na vida da moça: um homem baleado no sofá e detalhe para a imagem do cavalo branco (que Sarah Palmer enxergava em suas visões e também estava na fala do woodman do episódio 8) numa decoração da sala de estar. Cooper descobre estar em Odessa, no Texas, e dirige para Twin Peaks, para levá-la de volta ao lar. No entanto, na casa não se encontra Sarah, e sim uma mulher que se diz Alice Tremond (Mary Reber). Os Tremond são uma avó e o neto do Black Lodge que apareciam no filme Twin Peaks – Fire walk with me entregando um quadro a Laura Palmer, e na segunda temporada da série, na rota de entrega de refeições do Double R. Ele pergunta quem alugou a casa antes dela. E ela responda que foram os Chalfont. Os Chalfont são o outro nome dado aos Tremond. Eles moravam no parque de trailers de Twin Peaks – Fire walk with me, de Carl Rodd. É embaixo do trailer dos Chalfont que desaparece o agente Chester Desmond (Chris Isaak). A casa dos Palmer seria uma extensão do Black Lodge?

O que mais estabeleceu ligação com as duas primeiras temporadas foi o número de mistérios relacionados ao Major Briggs, justamente o ponto mais criticado da segunda temporada e que tomou outra dimensão aqui, com o propósito de Lynch compor um extenso universo sobre o universo do bem e do mal que rege a todos. Lynch estabeleceu explicações sobre o White Lodge, o Black Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… mesmo que tudo pareça igualmente enigmático ao fim de tudo. Muito do mistério de Twin Peaks, na verdade, ganhou uma especial consideração aqui nessa conclusão. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário.
Como se esperava (e também porque não sabemos se terá uma quarta temporada), o retorno de Twin Peaks deixou vários temas em aberto: as questões suscitadas pelo antológico episódio 8 ficaram pendentes. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. O Bombeiro (Carel Struycken) aparece novamente no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar. Audrey, que terminou o episódio anterior, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nesse episódio. Outros pontos não são claramente explicados: o que aconteceu, por exemplo, ao casal Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt) no bosque? Benjamin Horne (Richard Beymer) aparece no início do episódio 17 tendo informações do seu irmão, encontrado perdido e desnudo. Mas qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?

É interessante lembrar que, no último capítulo da segunda temporada, Cooper entra no Black Lodge para resgatar sua namorada, Annie Blackburn (Heather Graham). A temporada se encerra melancolicamente, com Bob possuindo o agente Cooper. No filme Twin Peaks – Fire walk with me, o corpo de Laura boia para ser descoberto pelos policiais da cidade, mas seu espírito está liberto. Na verdade, o filme se encerra com uma simbologia transcendental, própria de Lynch. Mais do que em Veludo azul ou no piloto da série e em seus melhores episódios da série dos anos 90, existe, aqui, uma trajetória em queda e, depois, em subida; existe o sonho de normalidade do personagem.
Para Lynch, um personagem como Laura, com duas personalidades, quando se encontra com Cooper em sonho (também na série), é um encontro sobretudo com a normalidade, apesar de estar imersa na estranheza. E, ao não se render à figura de Bob – que precisa enfrentar, conforme o episódio 8 desta temporada –, ou seja, resistir ao Black Lodge, consegue escapar dessa floresta estranha e perturbadora. O regresso da figura do anjo que havia desaparecido do quadro de seu quarto faz Lynch encerrar o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade. Na série, Cooper só se entrega a Bob para salvar sua amada Annie, ou seja, acima de tudo, a série e o filme de David Lynch tratam do amor mais intenso.
No fechamento da terceira temporada, esses temas são trazidos novamente à cena. Nos episódios 17 e 18, é como se Cooper estivesse num loop temporal, tentando mudar o destino de Laura, inclusive ao encontrar uma espécie de duplo dela, como Dougie Jones foi dele. E o duplo de Laura mora em Odessa, que provém da palavra “odisseya”, em grego, ou seja, uma “grande jornada”. David Lynch concebe um fechamento desta temporada inesquecível porque é, sem dúvida, o tema de Twin Peaks: não se pode voltar ao passado e corrigir os erros, mas numa espécie de circularidade, para Lynch, é possível tentar reviver e encontrar a bondade humana, mesmo onde ela pode não existir mais. É absolutamente comovente Cooper tentando conduzi-la à entrada do White Lodge, a fim de modificar o que aconteceu a ela. E, ao final, tentar encontrar sua casa, para que ela volte aos braços dos pais, mesmo que seja apenas um duplo. E em qual ano ele se encontra? Passado ou futuro? Sarah Palmer não estaria sendo escondida por Alice Tremond? A estrada se estende noturna, mas, ao mesmo tempo, carrega a existência, a grande jornada, desses personagens que se ligam: Laura e Cooper. Tudo sublinhado por uma atuação irretocável de Sheryl Lee. O passado e o grito se repetem (depois de Page/Laura ouvir a voz de sua mãe, Sarah, dentro da casa) – e o grito está ligado à humanidade e à eletricidade. Pelo final, tudo se entende que Lynch gostaria de uma quarta temporada – mas este tudo pode indicar também que ele tenha desejado novamente deixar a história em aberto. É fascinante, exatamente como foi desde os anos 90 e, por mais estranho e irresolvido que pareça às vezes, é fiel tanto à obra quanto ao conceito aplicado em Twin Peaks – O retorno, que acaba – esperamos que apenas por enquanto – de maneira realmente extraordinária.

Twin Peaks – Episodes 17 & 18, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 116 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 15) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Não parece ser mais surpresa que o pressuposto básico desta terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) é dialogar com o filme de 1992, cujo subtítulo é Fire walk with me, e explorar o conceito do duplo, já utilizado por Lynch em Estrada perdida, Cidade dos sonhos, Império dos sonhos e nas primeiras temporadas de Twin Peaks por meio de Laura/Maddie e Bob/Leland, além de ver os efeitos do White Lodge e do Black Lodge no dia a dia dos personagens. A cada episódio, Lynch vem lidando com esses temas numa linha tênue entre o surrealismo e o simbolismo, com uma profusão de diálogos conceituais e cenas com gênero indefinido. O episódio 14 marcou o lado mais potencial desta temporada: o mistério da série em diálogo com histórias surpreendentes.
Neste capítulo 15, tudo começa com Big Ed Hurley (Everett McGill) conversando com Nadine (Wendy Robie), com sua pá de ouro em punho e querendo libertar o marido (lá se vão 25 anos), antes de ir ao Double R se encontrar com Norma Jennings (Peggy Lipton), que parece dar as costas para Walter (Grant Goodeve), seu novo interesse amoroso. Esses momentos são condensados por Lynch para solucionar o que esses personagens já sentiam desde as primeiras temporadas. Norma apareceu esporadicamente desta temporada e Big Ed apenas no episódio 13. Lynch não se mostra muito interessado em retomar esses personagens, e a participação deles soa como um toque de nostalgia, apesar das ótimas atuações de McGill e Robie. Um acréscimo é o visual dessas cenas, com cores vibrantes.

Logo em seguida, acompanhamos o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) numa estrada deserta, com os faróis iluminando a noite, até chegar a uma Loja de Conveniência. Ele é recebido por um woodsman, que o conduz até o segundo andar, a partir de onde suas imagens desaparecem. Mr. C entra num espaço com papel de parede cheio de flores, que remete ao sonho de Laura Palmer no filme Twin Peaks – Fire walk with me com um woodsman utilizando um aparelho de eletricidade, que víamos no Hap’s Diner quando Chester Desmond e Sam Stanley investigavam a morte de Teresa Banks. Ele é conduzido pelo woodsman que matou Hustings até o quarto onde estaria Phillip Jeffries. Lá, numa atmosfera assustadora, ele pergunta sobre Judy, a respeito da qual falava Jeffries no filme. Quem lhe responde é um sino gigante (com a voz de  Nathan Frizzel), semelhante ao que aparece no White Lodge. Transportado para a cabine telefônica que fica em frente à Loja, Mr. C é abordado por Richard Horne (Eamon Farren), que fala ser ele o agente Cooper, conhecido de sua mãe, Audrey. Se o episódio tivesse esse clima e elaboração seria ótimo. A imagem da Loja de Conveniência se mescla com a do bosque de Twin Peaks, onde se encontram Steven Burnett (Caleb Landry Jones), marido de Becky (Amanda Seyfried), e Gersten Hayward (Alicia Witt), aparentemente afetados por uma bad trip. O bosque sinaliza que há algo errado acontecendo com os dois, mas esse era o arco desenhado para dois personagens que mal se apresentaram? O melhor a se dizer é que Caleb e Witt têm uma ótima atuação, lembrando o drama de Cobain em Últimos dias. Um homem vê os dois e avisa a Carl Rodd (Harry Dean Stanton) do parque de trailers. A partir daqui, o episódio vai se perdendo.
James Hurley (James Marshall) reencontra Renee (Jessica Szhor), sua pretensão amorosa e casada. Depois de 25 anos, ele não descobriu uma maneira mais discreta de participar de uma conversa. Parece uma sina de James: ele também era amante de Laura e depois de Evelyn Marsh, para quem consertava carros na segunda temporada. Desta vez, por causa disso, ele se envolve numa briga de bar na Roadhouse, sendo auxiliado pelo amigo Freddie Sykes (Jake Wardle), que, com seu punho de borracha, machuca quem tenta espancar James. Ambos são levados para a delegacia, onde se encontram Chad Broxford (John Pirruccello), um homem bêbado (Jay Aaseng) e a mulher sem olhos (Nae Yuuki)  do episódio anterior.

Duncan Todd (Patrick Fischler) é assassinado a sangue frio por Chantal (Jennifer Jason Leigh) em Las Vegas, antes de ela dividir hambúrgueres com seu parceiro Hutch (Tim Roth) numa van e observar que Marte pode ser visto no céu, acima de fios de eletricidade, um diálogo certamente com as referências espaciais do Major Briggs e com o tom desse episódio, bastante melancólico.
Já Dougie Jones (Kyle MacLachlan) recebe outro pedaço de bolo de Janey-E (Naomi Watts), mas o roteiro deles parece ter se esgotado praticamente desde o episódio 6, ou seja, há quase dez capítulos não há uma evolução coerente. Neste, a parte mais interessante é quando Dougie sintoniza Crepúsculo dos deuses na TV e vê a personagem central do filme, Norma Desmond (Gloria Swanson), falando do produtor de cinema Gordon Cole. Dougie associa o nome ao antigo colega e se aproxima de uma tomada com um garfo colocando-o nela, até que há um clarão, que remete sobretudo a Império dos sonhos.
Muito se vem debatendo sobre a volta ou não de agente Cooper, que ainda vaga no corpo de Dougie Jones, tentando acordar. Alguns indicam que isso seria exigir uma concessão de parte de David Lynch. Tenho ainda em mente que Lynch, como grande criador, quis substituir o agente Cooper por seu agente Cole. Faz parte dele como artista querer isso. Se deu certo? Em certos momentos – até o capítulo 6, principalmente –, muito: Dougie de fato funcionou e Cole teve tiradas ótimas, reiteradas por sua fabulosa aparição no episódio 14. Mas, aos poucos, Dougie foi sendo deixado de lado, aparecendo mais nos episódios 11 e 13 – com Cole bastante presente a maior parte do tempo.

Nos episódios 8 e 14, dois dos melhores desta temporada, não há nem sinal de Dougie, e a impressão que se tem é que Lynch não explorou esse duplo totalmente, com prejuízos também à ótima personagem de Janey-E, que sustentou algumas cenas bravamente por causa do talento insuspeito de Naomi Watts. Havia espaço para desenhar um homem médio dos Estados Unidos, mas ficou num meio-termo. E cada vez que Lynch mostra seu duplo mal faz o espectador lembrar da imagem desagradável de encerramento da segunda temporada, o que me parece um equívoco de Lynch: Cooper é a imagem do equilíbrio de Twin Peaks e vê-lo sem poder agir como tal, a exemplo do seu próprio duplo do mal, confere um estranho destaque a este em detrimento daquele. Como admirador da série, entendo ter sido uma escolha equivocada de Lynch.
Já na delegacia de Twin Peaks, Hawk (Michael Horse) conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson), que lhe diz que está morrendo. Trata-se da cena mais emocionante do episódio, e Hawk avisa Andy (Harry Goaz), o xerife Truman (Robert Forster) Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e Lucy (Kimmy Robertson) como se fosse a despedida da atriz.

O problema novamente é que, a três episódios agora do fim desta temporada ou de Twin Peaks, o personagem de Audrey Horne continua a sua conversa com Charlie (Clark Middleton), que iniciou no episódio 12, e Sarah Palmer voltou a descansar depois do momento de violência impactante do anterior. Muitas, muitas perguntas e se espera que haja, sim, uma quarta temporada caso não tenhamos o desenvolvimento adequado para as histórias se concretizarem nesta. Alguns dos grandes méritos são a fotografia de Peter Deming e a atuação de MacLachlan. Mas, em termos de roteiro (e aqui Mark Frost também é responsável) e montagem, este episódio novamente se mostra bastante falho. Impressiona a irregularidade de Lynch ao montar os episódios desta temporada, desde o décimo pelo menos, independente de ele tratar tudo como um filme só (do qual apenas as cenas musicais na Roadhouse já tirariam o ritmo). Se o anterior colocava a história para a frente, este novamente deixa quase tudo em círculos. A participação de alguns personagens (até mesmo Audrey Horne, tão esperada ao longo de vários capítulos) soa dispensável, pois não há acréscimos.
Tudo novamente é muito conceitual, mas sem a devida formulação. É preciso admitir que, mesmo com momentos excepcionais (e um marco, o episódio 8), esta temporada não está cumprindo sua expectativa inicial, e mesmo que encerre com três grandes partes ficará sempre a sensação de várias tramas deslocadas e sem o devido desenvolvimento. O mais estranho é que Lynch soube fazer peças excepcionais, mas em outras simplesmente não conseguiu mostrar seu melhor talento. Percebe-se que os melhores momentos de seu trabalho possuem cenas longas e substanciais, com diálogos bem feitos, o que se ausenta praticamente aqui, com uma miscelânea de acontecimentos com detalhes interessantes, mas no todo desconjuntado. Chega a ser estranho: parece que de semana a semana a série vai mudando, mas não é uma falta de rumo experimental e interessante, e sim apenas desencontrada. Neste episódio 15, especialmente, há muitos equívocos no desenvolvimento. Fica até difícil aceitar que tudo se trata da obra de um mesmo diretor (as duas primeiras temporadas, com vários diretores, se sentiam com mais unidade). Um mistério como o próprio universo de Twin Peaks.

Twin Peaks – Episode 15, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Peggy Lipton, Naomi Watts, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Everett McGill, Tim Roth, Kimmy Robertson, Jennifer Jason Leigh, Wendy Robie, Grant Goodeve, Catherine E. Coulson, Nathan Frizzel, Jessica Szhor, Eamon Farron, Harry Dean Stanton, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Patrick Fischler, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Charlyne Yi Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódio 14) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Na semana passada, depois do episódio 13 da nova temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), escrevi sobre a paciência do espectador sendo testada, principalmente ao final dele. Ao revê-lo, notei melhor a ordem de acontecimentos: Sarah Palmer (Grace Zabriskie) assiste a uma luta de boxe em preto e branco, com problemas na eletricidade da televisão, indicando alguma atividade paranormal na casa. Seriam os woodsmen? Em seguida, vemos Audrey Horne (Sherilyn Fenn) na mesma conversa com o marido, Charlie (Clark Middleton) do episódio 12,  referindo-se a Ghostwood, projeto contra o qual protestava quando ocorreu a explosão no banco no final da segunda temporada. Estaria Audrey num universo paralelo ou ainda no hospital, em coma, imaginando essa vida angustiante? Ela se pergunta como chegar à Roadhouse, pois parece não saber onde fica. Vemos, em seguida, um show de James Hurley (James Marshall) na Roadhouse, cantando a mesma música, “Just you”, que cantou na segunda temporada com Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) e a prima de Laura Palmer, Maddie (Shery Lee). Esta música antecipou a aparição de Bob para Maddie, na sala de estar dos Palmer. E como se encerra o episódio? Com Big Ed Hurley olhando o seu posto de gasolina vazio, ao lado de uma tapeçaria com a cabeça de um urso (com a inscrição “Bear with me”, em vez de “Fire walk with me”) e, em seguida, acende um fósforo para pôr fogo num papel para vê-lo queimar. Quem atirava fósforos acesos em Leland Palmer quando ele era criança? Exatamente Bob. David Lynch faz uma conexão de cenas inteligente sob um pano de fundo de analogias e tratando da repetição de tempo, assim como se repete a luta a que Sarah assiste. “Está acontecendo de novo”, os personagens parecem dizer.

Embora eu ainda considere a montagem desses momentos desequilibrada, em relação aos melhores momentos da série, isso de certo modo comprova o que escrevi em alguns textos sobre esta temporada de Twin Peaks: tudo se move mais num espaço conceitual do que na inter-ligação entre os personagens. São imagens que parecem aleatórias e muitas vezes não conversam entre si, mas que possuem um subtexto. Isso não releva os problemas de momentos como esses, apenas mostra que Lynch deseja em muitos momentos destacar conceitos, não os personagens.
A nova Twin Peaks alterna ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem é mais vagarosa, mas os diálogos e situações significativas – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas são curtas demais, apresentando personagens para não desenvolvê-los, e outras longas demais, com uma autoindulgência de se achar que tudo que é mostrado tem um significado incomum, e às vezes não tem, talvez para alimentar teorias. E o ponto principal: David Lynch fez do episódio 8 um marco. A partir daí, esperava-se mais dele.

O episódio 14 traz de volta elementos melhor desenvolvidos, fazendo com que o espectador acredite que Lynch poderia ter mantido desse modo todo o tempo. Gordon Cole (David Lynch) liga para a delegacia de Twin Peaks, sendo atendido por Lucy (Kimmy Robertson). Falando com o xerife Frank Truman (Robert Forster), este lhe passa a informação sobre o diário de Laura Palmer com a informação de que há “dois Coopers”. Enquanto isso, Thammy Preston (Chrysta Bell) se reúne com Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) para tratar de detalhes das investigações envolvendo a “Rosa Azul”. Ele comenta sobre o primeiro caso: Lois Duffy, que atirou e matou seu próprio duplo e antes de desaparecer teria dito: “Eu sou como a Rosa Azul”. Em seguida chegam Cole, incomodado pelo som de um homem limpando a janela, e Diane (Laura Dern). Sabendo das informações sobre Dougie Jones, a surpresa é Diane dizer que é irmã de Janey-E (Naomi Watts). Por sua vez, Cole recorda de um sonho que teve com a atriz Monica Bellucci, remetendo a uma passagem mostrada em Twin Peaks – Fire walk with me, no qual apareciam Phillip Jeffries (David Bowie)  e o agente Cooper (Kyle MacLachlan) em seu escritório no FBI. Um momento de grande tensão e mescla entre série e filme muito bem-sucedida, é ponto alto desse episódio, pela montagem empregada e pela fala de Bellucci: “Somos como o sonhador que sonha e vive dentro do sonho… mas quem é o sonhador?”.

Em Twin Peaks, Bobby Briggs (Dana Ashbrook), xerife Truman (Robert Forster), Hawk (Michael Horse) e Andy (Harry Goaz) vão até o Palácio de Jack Rabbit, lugar indicado por um das pistas do Major Briggs reveladas no episódio 9. Vejamos que depois de quatro episódios esta trama regressa, mesmo sendo mais importante do que outras. O resultado é um reencontro com o clima principalmente da segunda temporada, quando a equipe do xerife e o agente Cooper vão até a Caverna da Coruja, e a ação focada no bosque misterioso de Twin Peaks emprega uma boa mescla entre nostalgia e desenvolvimento da história, ausente, sobretudo, no episódio anterior. A última vez em que alguém da equipe policial esteve à procura de pistas no bosque foi Hawk no início desta temporada, depois da conversa com a Senhora do Tronco. A atmosfera da série se fortalece apenas por meio da paisagem misteriosa, fugindo ao cenário da delegacia e do escritório de Ben Horne no Greath Northern, que basicamente concentraram as ações de Twin Peaks até o momento. As pistas do Major Briggs levam à moça (Nae Yuuki) sem olhos do terceiro episódio, que o agente Cooper encontrava antes de ir até o cubo no espaço sideral, deitada no bosque, desnuda. Impressiona nesta sequência é a construção: Truman, Hawk, Bobby e Andy veem um portal no céu parecido com aquele vislumbrado por Gordon Cole no episódio 11. Andy é transportado, então, para o que entendemos ser o White Lodge, do episódio 8, onde se encontra com o Gigante, agora se intitulando Bombeiro (Carl Struycken). Com um espelho gigante no teto, ele visualiza várias cenas, como a da menina correndo quando é anunciada a morte de Laura Palmer no primeiro episódio, assim como Lucy, a imagem de Laura entre dois anjos (que remete ao filme), os woodsmen na loja de conveniência, o poste com o número 6 do parque de trailers de Carl Rodd (do episódio 6 e do filme), recordando a ligação do Black Lodge com a eletricidade, e os dois Coopers: do bem e do mal.

Andy e Lucy abrigam a jovem numa das celas da delegacia, enquanto Chad Broxford (John Pirruccello), preso por seu tráfico, está em outra, tentando calar um homem bêbado (Jay Aaseng) que sangra – numa cena tipicamente de terror. Recordando os latidos de Bobby no primeiro episódio de Twin Peaks, não parece ser o melhor lugar para Chad dormir pensando no que fez.
O relato do jovem Freddie Sykes (Jake Wardle) a James Hurley (James Marshall), seguranças no Greath Northern, envolve justamente o Bombeiro: ele teria recebido um recado dessa figura ao se deparar com esses portal visto por Cole e pelo corpo policial em Londres, tendo, a partir daí, de vestir uma luva de borracha verde cobrindo permanentemente a sua mão, o que sugere uma espécie de sátira aos filmes de super-heróis. Eles precisam aguardar o que está no forno do hotel, quando Hurley adentra um espaço de filme de terror.
Num episódio passado praticamente todo em Twin Peaks, pela primeira vez neste retorno, acompanhamos Sarah Palmer (Grace Zabriskie) entrando num bar para pedir um Bloody Mary quando é abordada por um homem. Pedindo que ele saia, sem ser atendida, Sarah retira seu rosto – como Laura faz no Black Lodge no início desta temporada – e, ao invés de vermos luz, há uma escuridão. Ela mata o homem com uma mordida que lembra A hora do espanto, mas sem deixar rastro. Isto não é Twin Peaks, é Dario Argento. Uma atmosfera aterradora e se pode notar que Sarah tem mais proximidade dos woodsmen do que imaginávamos. Logo vamos para a Roadhouse, onde duas mulheres conversam sobre Tina e Billy, as figuras a quem Audrey Horne se referia nos episódios anteriores. Uma delas é Megan (Shane Lynch), filha de Tina, e a outra Sophie (Emily Stofle, esposa de David Lynch). Billy não seria o homem que está na cela em Twin Peaks com uma poça de sangue a seus pés?
Este é um capítulo realmente incomum, mesmo em meio àqueles que já vimos nesta temporada, talvez o mais original, sem sair do tom, desde o oitavo e com uma inserção na análise dos sonhos, inclusive no relato de Freddie a James, e num surrealismo funcional e assustador. David Lynch desde sempre falou que seria um filme dividido em 18 episódios. Apenas se lamenta que o agente Cooper ainda seja Dougie Jones – cujos recursos cômicos infelizmente se esgotaram – a quatro partes do final, por outro lado representando uma sugestão de que haverá uma quarta temporada, enfim, com o personagem, justificando toda essa demora. Um episódio como esse realmente justificaria uma continuidade. É um dos mais interessantes da série e surge num momento em que tudo parecia indicar histórias circulares. Funcionando como um filme, insere Twin Peaks numa linhagem de Além da imaginação, com mistérios envolvendo a humanidade e tudo sendo traduzido em lendas de uma grande aldeia universal. Uma notável superioridade em relação aos quatro episódios anteriores e se unindo ao que de melhor foi apresentado nesta temporada.

Twin Peaks – Episode 14, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, David Bowie, Robert Forster, David Lynch, Michael Horse, Harry Goaz, Monica Bellucci, Grace Zabriskie, Miguel Ferrer, Chrysta Bell, Dana Ashbrook, James Marshall, Nae Yuuki, Carl Struycken, John Pirruccelli, Jay Aaseng, Jake Wardle, Emily Stofle, Shane Lynch Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime