Jogo perigoso (2017)

Por André Dick

Adaptado de um livro de Stephen King, Jogo perigoso é um lançamento recente da Netflix, dirigido por Mike Flanagan, o mesmo do terror Hush. Se há alguns anos os livros de King não eram tão adaptados com tanta frequência, como nos anos 80 e 90, parece que em 2017 houve uma retomada das transposições para o cinema de obras do autor, a começar por It – A coisa, um dos grandes sucessos do ano. King tem uma variedade de histórias que vão desde a descoberta da juventude (Conta comigo), passando por homens lutando para escapar ao ambiente da cadeia (Um sonho de liberdade) até peças com o terror mais denso (O iluminado, para citar apenas um dentre vários).
Com uma premissa muito simples, Jogo perigoso mostra um casal, Jessie Burlingame (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood), um advogado, indo para sua casa de férias no Maine. Eles querem revitalizar o casamento e, para isso, Gerald tem a ideia de algemar as mãos de sua esposa à cama. O marido já não sente a mesma atração pela mulher e fingir que ela é uma desconhecida parece despertar nele um desejo mal explicado. O que poderia ser uma espécie de Instinto selvagem em forma de diálogo teatral logo se transforma num pesadelo, não apenas para Gerald como para Jessie.

Se o espectador está interessado em boas atuações, encontrará com certeza em Gugino e Greenwood presenças de qualidade em cena. Ambos conseguem desenvolver, principalmente no início, uma boa química, pela maneira como a história é contada, de maneira ágil. No entanto, isso não é o suficiente para sustentar o roteiro. Se a ida deles para a casa afastada é precedida pelo encontro com um cachorro abandonado à beira da estrada (ao qual Gerald, em determinado momento, vai se referir como “cujo”, que é o nome de outra obra de King adaptada para o cinema, num filme assustador de 1983) e lembre um pouco o clima de Violência gratuita, de Michael Haneke, parece que tudo que cerca essa cena misturando sexo e recordações desagradáveis não é tão bem dosada quanto poderia ou o diretor Flanagan imagina. Há uma base para discussão sobre o matrimônio e sobre a intimidade bastante interessante e mesmo inusual no cinema norte-americano, no qual a fantasia se mistura com a agressão física, contudo a expectativa logo vai se desaparecendo com o tratamento irregular e os diálogos distribuídos de maneira mais plana.

Excessivamente calcado em flashbacks (nos quais Flanagan traz Henry Thomas, atuando de forma estranha, talvez pela dificuldade do papel, também para o espectador, para quem se acostumou a assisti-lo em filmes como E.T.), o filme desliza por temas arriscados e seu tom nunca se sente sólido. Ele parte de um início em que o foco é o “jogo” de Gerald para escolher no passado a forma de explicar o presente e guiar a personagem central, com resultados duvidosos. Isso porque parece que o passado de Jessie, por pior que seja, pode sugerir em algum momento o jogo do marido (será ele até o momento antes em que o conhecemos alguém diferente?) e sua superação, sob um novo castigo. Por um lado, trata-se de uma ideia até interessante e podemos ver nesse aspecto uma circularidade da personagem, uma espécie de confronto dela com seus incômodos psicológicos mais graves, contudo a maneira com que se revela acaba sendo um pouco tortuosa para o espectador. Flanagan não consegue oferece o devido crescendo no sentido de desvendar e desmontar cada personagem, embora a atriz Chiara Aurelia se mostre excepcional numa participação de grande relevância para a trama.

Flanagan não tem uma direção criativa, preferindo utilizar a simbologia de uma eclipse para definir a personagem central. É excessivamente expositivo por meio dessa imagem, não deixando para o espectador qualquer tentativa de desvendar algo. Essa opção tomada é lamentável porque principalmente Gugino (um destaque em Watchmen e Sucker Punch, duas obras de Snyder) oferece uma atuação que, com um roteiro melhor e numa obra com melhor narrativa, seria propícia a indicações a prêmios. Nesse ponto, é talvez o filme mais comum em termos de produção da Netflix, não apenas porque utiliza poucos cenários, de acordo com o livro, como também pelo acabamento do eclipse em desacordo visualmente com o restante do design de produção, parecendo sempre algo à parte da trama. Jogo perigoso é também mais assustador do que dramático em algumas cenas, mas termina com um epílogo terrível, um dos piores do cinema recente. Quando Flanagan pretende acentuar o mistério ao redor de uma trama em parte bastante realista, chegando a um momento em que o espectador precisa enfrentar uma determinada imagem, acaba se perdendo, e de certo modo o espectador percebe que antes a trama já não se mostrava com a força devida. É esse final, de qualquer modo, que define a decepção: tão calculado quanto expositivo, mesmo Gugino vê sua atuação até então irretocável ser prejudicada pela direção de Flanagan.

Gerald’s game, EUA, 2017 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas, Carel Struycken, Kate Siegel, Chiara Aurelia Roteiro: Jeff Howard e Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy Duração: 103 min. Estúdio: Intrepid Pictures Distribuidora: Netflix

Twin Peaks – Terceira temporada (O retorno) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre a temporada e o filme O iluminado

Na terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix), David Lynch conseguiu algo realmente curioso, antes de tudo: utilizou o nome da cidade para tratar de um universo que se espalhou para Nova York, Buenos Aires, Novo México, Las Vegas, Washington e Dakota do Sul (e até Paris, num sonho, e Londres, num relato), voltando apenas algumas vezes às florestas da pacata cidade na fronteira com o Canadá. Isso formou um paradoxo: a série era Twin Peaks – em razão dos mistérios, de personagens que haviam participado das duas primeiras temporadas e por ter algumas cenas passadas na cidadezinha–, mas se passava mais em outros ambientes e num espaço conceitual.
É preciso dizer, no entanto, depois de assinalar essa surpresa (em parte) de pouco da história se passar realmente em Twin Peaks: houve episódios surpreendentes. O clima de Twin Peaks funcionou mesmo sem o semáforo noturno e os caminhões carregando madeira, ou sem vermos o salão do Greath Northern sendo transitado por turistas. Os primeiros seis, particularmente, são uma obra-prima; depois vieram o 8 (um marco), o 9, o 12 (no melhor momento de atuações do elenco), o 14, 16, 17 e 18. Ou seja, 14 episódios foram ótimos, uma média considerável em se tratando de uma temporada com 18.

De modo geral, Lynch explicou teorias subentendidas em Twin Peaks – Fire walk with me; utilizou o conceito do duplo (explorado em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, e na própria Twin Peaks por meio de Laura/Maddy; Bob/Leland), por meio de Cooper/Dougie Jones/Mr. C; analisou a terceira idade na vida de vários personagens; os efeitos do White Lodge e do Black Lodge; a relação entre sonho e realidade; e a influência da eletricidade na passagem a universos paralelos.
A trama principal pode ser resumida do seguinte modo: o agente Cooper (Kyle MacLachlan) sai do Black Lodge, depois de conversar com o Bombeiro (Carl Struycken), Laura Palmer (Sheryl Lee) e o Homem de um Braço Só (Al Strobel), passando pelo White Lodge, e toma o lugar de Dougie Jones, uma cópia que havia sido produzido pelo seu duplo do mal, Mr. C (também McLachlan), a fim de que este não voltasse para o Black Lodge. Enquanto isso, os antigos companheiros de Cooper, Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer), ao lado de Thammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern), vão no encalço de respostas sobre isso, a partir da prisão de Mr. C em Dakota do Sul. Já os integrantes da delegacia de Twin Peaks, xerife Frank Truman (Robert Forster), Andy (Harry Goaz) e Bobby Briggs (Dana Ashbrook) também buscam pistas sobre algo estar faltando na investigação do assassinato de Laura Palmer depois que Hawk (Michael Horse) recebe um comunicado da Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). Tudo, mais tarde, envolve pistas deixadas pelo Major Briggs.

O agente Cooper, na pele de Dougie, é casado com Janey-E (Naomi Watts), pai de Sonny Jim (Pierce Gagnon) e trabalha na agência de seguros de Bushnell Mullins (Don Murray) e algumas pessoas tendo o Mr. C por trás querem matá-lo. Outros, como os irmãos Mitchum, Bradley (James Belushi) e Rodney (Robert Knepper), sempre acompanhados por Candie (Amy Shiels), Sandie (Giselle Damier) e Mandie (Andrea Leal), querem descobrir por que ele faturou tanto em seu cassino de Las Vegas. Já em Twin Peaks, temos o filho de Audrey Horne, Richard (Eamon Farren) cometendo maldades; os efeitos da solidão de Sarah Palmer (Grace Zabriskie); algumas passagens pelo Double R e pelo Greath Northern; e apresentações musicais de ponta na Roadhouse. No episódio 8, os motivos da criação do Black Lodge, por meio do White Lodge, numa sequência de imagens fascinantes. Junto a inúmeras qualidades pictóricas captadas pela fotografia de Peter Deming, de atuação e roteiro, Lynch talvez pudesse ter colocado mais trama em Twin Peaks e mais inter-ligações entre os personagens. Os cenários de Las Vegas ou na Dakota do Sul não possuem o mistério das paisagens da cidadezinha: não evocam estranheza e beleza, uma volta a um passado longínquo que a vida urbana não pode captar. Era disso que Cooper tratava em muitos momentos nas temporadas iniciais, de um universo onde a contagem de vidas era realmente vital. Lynch não proporcionou isso em grande parte da temporada, preferindo utilizar o estilo de seus filmes mais experimentais a partir dos anos 90 e sem apostar na atmosfera do original. Por um lado, foi um acerto, não se curvando à expectativa e apresentando um trabalho muitas vezes extraordinário; por outro, às vezes se excedeu na escolha. Alguns dos grandes episódios foram cercados por essa sensação de mistério, de lugares isolados, principalmente os episódios 8, 9, 14, 16, 17 e 18. O último, por exemplo, localizado entre Odessa, Texas, e uma deserta Twin Peaks possui um clima semiapocalíptico.

Para alguns, a explicação para isso era recorrer ao fato de que David Lynch é um artista que não deve explicações a ninguém e que nunca entrega o que o espectador espera ou presta fan service. Foi interessante acompanhar esta temporada por redes sociais – já que nos anos 90 não havia além de jornais e revistas para ver a reação à série – por uma espécie de culto interessante a teorias. Nesses termos, a temporada em si teve boas bases de fan service, principalmente para quem é admirador de Twin Peaks – Fire walk with me. O fato de o filme ter sido um apoio da série não impediu algumas indagações: uma delas foi a própria exclusão completa de Annie Blackburn (Heather Graham), fundamental para o fechamento da segunda temporada e do filme e que aqui retornou apenas na referência às páginas do diário de Laura Palmer. Outra foi a ausência de Chester Desmond (Chris Isaak). Pode-se ter uma explicação para essa volta constante de Lynch ao filme, principalmente do episódio 8 em diante, além da tentativa de salvar Laura Palmer (Sheryl Lee). O diretor gosta de voltar a temas que teriam sido questionados em sua carreira. Foi assim com Duna, ao qual se refere sempre como projeto em que foi prejudicado, mais especificamente por não ter podido participar da montagem final. Toda sua carreira tem referências constantes a Duna, e a própria nova temporada de Twin Peaks. O personagem central de Duna, Paul Atreides, recebia um anel do pai que remete ao da Caverna da Coruja; as atrizes de Cidade dos sonhos lidam com uma caixa misteriosa, como a Bene Gesserit de Duna; os módulos de som dos Fremen em Duna adiantam o mistério a partir da descoberta de uma orelha em Veludo azul. Também a fala do Homem de um Braço Só ao ver Cooper levantando da cama do hospital (“Você está acordado. Finalmente”) é uma referência direta ao “O adormecido deve despertar” de Paul Atreides, feito pelo mesmo MacLachlan, em Duna. E foi assim com Twin Peaks – Fire walk with me: Lynch quis testar, por meio da série, o quanto havia sentido naquilo que não viram sentido à época do lançamento, nas vaias em Cannes, no fracasso de bilheteria e crítica. É como se ele desse uma resposta e ele a ofereceu do melhor modo: a terceira temporada foi um espetáculo sensorial e ajudou a desfazer outra lenda: de que não explica nada. É verdade que há muitas perguntas como resposta às respostas, mas pode-se mencionar nesta temporada inúmeros diálogos desvendando os mistérios relacionados ao Major Briggs.

O que mais fez Lynch, com a colaboração fundamental de Mark Frost, foi estabelecer pontas de explicação sobre o Black Lodge, o White Lodge, Blue Rose, a Loja de Conveniência, Phillip Jeffries, Judy, o creme de milho, o fogo, a origem de Bob, a ligação do Black Lodge com a eletricidade… Muito do mistério de Twin Peaks teve seu impacto aumentado, principalmente no antológico episódio 8. Gostei de várias soluções; outras poderiam ter sido apenas subentendidas, mas o saldo neste quesito foi extraordinário. E ainda com personagens enigmáticos: Freddie Sykes (Jake Wardle), o homem bêbado da delegacia (Jay Aaseng), Naido (Nae Yuuki) e o Bombeiro (Carl Struycken), além dos woodsmen no episódio 8.
Mais interessante é como Lynch e Mark Frost aproveitaram temas que teriam desvirtuado a segunda temporada. Esta, com todos seus problemas, tinha os competentes Harley Peyton e Robert Engels à frente de vários roteiros, com trabalhos algumas vezes superiores ao que Lynch e Frost, criadores da série, apresentaram nesta terceira, sobretudo a partir do momento em que os personagens precisavam ganhar desenvolvimento em inter-relações. E em termos de roteiro me refiro principalmente a diálogos, não em analogias ou imagens (nas quais Lynch se sobressai especialmente).

Robert Engels (que foi corroteirista do filme, ao lado de Lynch) assinou sozinho ou em parceria 10 episódios das duas primeiras temporadas, e Harley Peyton nada menos do que 13. Algumas simbologias referentes ao Major Briggs estão em episódios escritos por Engels e Peyton, mas, acima de tudo, assim como Frost (que participou do roteiro de 11 episódios), foram eles que desenharam esses personagens de Twin Peaks e também construíram o universo da cidade e dos personagens de Twin Peaks, sem o qual Lynch não teria conseguido trabalhar seus conceitos neste retorno. Em algumas resoluções desta temporada, o problema não foi a direção e sim o desenvolvimento de alguns personagens e a montagem de Duwayne Dunham, que colaborou com Lynch no piloto de Twin Peaks, em Veludo azul e Coração selvagem. A série original teve a montagem principalmente de um trio: Jonathan P. Shaw, Toni Morgan e Paul Trejo, que se revezou do início ao fim das temporadas, abrindo espaço apenas para Duwayne Dunham em dois episódios e Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch, em um. Apesar do apoio de P. Shaw e Lynch na edição desta temporada, ela foi hesitante em certos momentos. Lynch compensou com a direção e o grande design de som: ao mesmo tempo que aprimorou elementos já mostrados em sua carreira, ele se mostrou aberto a algumas influências – mais especificamente Nicolas Winding Refn nas cenas iniciais passadas em Nova York e Terrence Malick, no episódio 8 e na entrada do corpo policial de Twin Peaks no bosque da cidade no episódio 14, com os raios de sol entre as árvores, uma conquista estilística de Emmanuel Lubezki.

A montagem era decisiva para o dinamismo de Twin Peaks (independente de lenta ou ágil). O retorno alternou ótimos episódios – principalmente aqueles em que a montagem foi mais vagarosa, com cenas extensas e repletas de diálogos – e outros mais fracos – aqueles em que algumas cenas foram curtas demais e outras longas demais. Em certos momentos, a montagem desta nova temporada era em certa medida confusa que surgiram teorias falando de uma não linearidade; veja-se, por exemplo, o agente Cooper jogando beisebol com o filho no episódio 12 e no episódio seguinte, o 13, aparecer na manhã seguinte ao jantar dos irmãos Mitchum, acontecido no 11. Ou Dougie se livrar do ataque de Ike (Christophe Zajac-Denek) no episódio 7 e os irmãos Mitchum verem a matéria de TV sobre ele apenas no episódio 11. O dinamismo do original era ajudado pela trilha de Angelo Badalamenti, que praticamente se ausentou aqui, voltando mais ao final, com grande empatia e se destacando no episódio 8. O design de som – feito por David Lynch – esteve em todos os episódios como o som principal, junto às apresentações de bandas e artistas solo, um acerto, por um lado (pela qualidade deles, a exemplo de Chromatics, Au Revoir Simone, Nine Inch Nails, Lissie e Eddie Vedder, que fizeram minhas apresentações favoritas), e prejudicial, por outro, em razão de costurar o final de muitos episódios de maneira previsível.
No entanto, tudo isso ganha algum sentido se concluirmos que “vivemos dentro de um sonho”, palavras que o agente Cooper fala na delegacia no episódio 17 do mesmo modo que Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me. É a explicação para o limbo em que parece se encontrar Audrey Horne (Sherilyn Fenn), sempre em conversa com o marido Charlie (Clark Middleton) sobre o amante Billy (que acabamos não conhecendo ao fim da temporada). São situações que configuram um interesse incomum pelo surrealismo cotidiano. Este se mostrou especialmente presente nos episódios com passagens para universos paralelos (episódio 1, 2, 3, 8, 11, 14, 15, 17 e 18).

Esse surrealismo foi apoiado por personagens significativos: Carl Rodd (Harry Dean Stanton) e William Hustings (Matthew Lillard), realmente vitais para a trama, em polos que se complementam, um com certa sensibilidade para uma ligação com universos paralelos e o outro, um diretor de escola confuso e envolvido numa busca arriscada pela Zona. Albert Rosenfield (Miguel Ferrer) foi ótimo, funcionando muito bem em sua despedida em parceria com Gordon Cole (David Lynch), Tammy Preston (Chrysta Bell) e Diane (Laura Dern). Anthony Sinclair (Tom Sizemore) teve momentos – aquele em que ele vai conspirar contra Dougie aos irmãos Mitchum é excepcional (“Vocês têm um inimigo: Dougie Jones!”), assim como quando se esconde atrás da mesa quando surge o trenzinho dos mafiosos, suas assistentes e Dougie na agência de seguros. Bushnell Mullins (Don Murray) se inclui entre os grandes personagens da mitologia de Twin Peaks, com sua gentileza e decência, como diz Cooper ao acordar. Murray tem uma precisão cômica que tornou grandes as reuniões com Dougie ou sua ida à delegacia de Las Vegas para falar com os irmãos Fusco. Janey-E (Naomi Watts) destacou-se, particularmente o melhor personagem novo desta temporada, ao lado do filho Sonny Jim (Pierce Gagnon). Watts conseguiu desenhar uma personagem desapontada com o marido, mas amorosa e defensora do seu lar. A despedida dela de Cooper (ela já sabia que não se tratava de Dougie) no episódio 16 costurou toda uma simbologia para uma mulher de família que poderia ter sido a esposa de Cooper caso ele não fosse agente do FBI. A despedida dela comove porque ela queria ter aquela vida que já não Dougie e sim Cooper lhe prometia. Seu olhar triste é de alguém que estava gostando daquela vida, mas continuar nela seria tirar a vida que Cooper tinha antes de ocupar o lugar de Dougie.

Em Twin Peaks, Hawk (Michael Horse), Bobby Briggs (Dana Ashbrook) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) foram acertos. O arco desenhado pelo crescimento emocional de Bobby foi, sem dúvida, uma boa ponte com as temporadas anteriores, em companhia das mensagens misteriosas da Senhora do Tronco e a sabedoria de Hawk. Frank Truman (Robert Forster) tornou-se um substituto eficiente para Harry, nunca querendo substituir o êxito de Michael Ontkean. Não aproveitados o quanto se poderia, Andy (Harry Goaz) e Lucy (Kimmy Robertson) se mostraram um alívio nostálgico, mas a ponta de Michael Cera como seu filho Wally Brando é antológica. Chad Broxford (John Pirruccello) atuou como um bom vilão policial. Personagens introduzidos sem força, como os irmãos Mitchum, adquiriram uma importância fundamental – e alguns dos melhores momentos foram deles na parte final, numa recuperação extraordinária para Knepper e Belushi. Mesmo os eventos do episódio 11 (que pareciam forçados à primeira vista) ganham numa reavaliação, sobretudo o jantar com Dougie, seguido por torta de cereja. Achei muito engraçados os irmãos T. Fusco (Larry Clarke), “Smiley” Fusco (Eric Edelstein) e D. Fusco (David Koechner) – principalmente na cena em que eles são informados de que Dougie seria o agente Cooper ou quando prendem Ike – e Hutch e Chantal tiveram sua inclusão explicada pelo excepcional episódio 16, com atuações magníficas de Leigh e Roth. Steven Burnett (Caleb Landry Jones) tem um potencial não aproveitado totalmente, caso não tenha uma nova temporada, assim como Richard Horne (Eamon Farren) foi um vilão à altura pelo pouco roteiro que recebeu. Outros personagens ao redor do Mr. C não tiveram o mesmo êxito: falo de Duncan Todd (Patrick Fischler). Algumas vezes, Lynch impediu o prosseguimento mais ágil da série com cenas em que eles apareciam. Particularmente, todos os episódios que se concentraram na tentativa de matar Dougie Jones foram menos exitosos, excluindo o 16. Fiquei bastante surpreso como Clark Middleton, como Charlie, o “marido” de Audrey; é um ótimo ator e trava um diálogo de quatro episódios com desenvoltura. Sherilyn Fenn fez novamente uma misteriosa Audrey Horne, desta vez perturbada e num mundo paralelo, sobretudo em sua apresentação na Roadhouse. Grace Zabriskie, como Sarah Palmer, roubou a cena nos episódios em que apareceu. E o agente Dave Mackley feito por Brent Briscoe foi um personagem discreto, mas eficiente.

E houve elementos que ficaram sem explicação, o que era de se esperar. Sem saber se a série terá uma quarta temporada, alguns personagens novos ou antigos, quando (re)apresentados, não adquiriram desenvolvimento. Isso funcionou muito bem em episódios iniciais, mas quando a série não mostrou o desenvolvimento deles é claro que houve certa decepção. Não tivemos clareza sobre a vida de Becky (Amanda Seyfried), filha de Shelly (Mädchen Amick); a ligação entre Shelly e Red (Balthazar Getty), que teve ótima apresentação no episódio 6 e depois fez apenas uma ponta no episódio 11; quem de fato é Diane (Laura Dern), pois nem no encerramento parece que tivemos respostas suficientes, principalmente quando ela enxerga um duplo no hotel de beira de estrada e não fala a respeito ao agente Cooper, antes de ele se transformar em Richard e ela em Linda, agindo, de certo modo, como a Diane fabricada por Mr. C, que não avisa sobre o ataque de um woodsman a Hustings. Também merecia elaboração o interesse de Richard Horne (Richard Beymer, mais uma vez fora de série, principalmente no quase monólogo do capítulo 12) por Beverly Page (Ashley Judd), assim como a relação entre Big Ed Hurley (Everety McGill) e Norma Jennings (Peggy Lipton), que se resolve em menos de cinco minutos depois de décadas. Imagino que muitos se cansaram com Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) restrito apenas a algumas cenas de discurso no seu programa de internet, assim como Nadine (Wendy Robie) de espectadora dele. James Hurley (James Marshall) praticamente não teve participação, a não ser cantando “Just you” na Roadhouse e servindo de confidente para Freddie. Não ficou muito clara a relação entre Steven Burnett (Caleb Landry Jones) e Gersten Hayward (Alicia Witt).
Todas essas são tramas mais lineares, que talvez não coubessem no conceito da temporada, mas poderiam ter sido exploradas em determinados momentos, ao invés de Lynch se concentrar principalmente no que fazia sua equipe de FBI ou certas cenas mais conceituais (um homem varrendo o chão da Roadhouse, estabelecendo ligação com um Renault mais velho falando de uma sujeira que não pode ser escondida; uma francesa demorando a sair do quarto de Gordon; o excesso de intervenções de Candie no episódio 10; Jerry Horne perdido no bosque por três capítulos; a bad trip na floresta do episódio 15; algumas conversas de personagens desconhecidos na Roadhouse…), entre outras.

E temos as questões suscitadas pelo episódio 8, com sua referência à origem de uma maldade. Quem seria aquele casal em White Sands, no Novo México? Pode-se afirmar que não é ninguém que o espectador conhece, apenas representa de onde veio o mal sintetizado pelo Black Lodge e pela Loja de Conveniência. No episódio 17, o Bombeiro (Carel Struycken), que aparece no episódio 8, ressurge no White Lodge, com seus sinos de eletricidade, agora lembrando as fábricas soturnas de Eraserhead, com a cabeça do Major Briggs (Don S. Davis) flutuando no ar, depois de ter encontrado Andy no episódio 14. Esses momentos possuem uma força visual poucas vezes vista, inclusive na trajetória de Lynch. Audrey, que terminou o episódio 16, se olhando num espelho sem maquiagem, como se estivesse acordando como Cooper, não aparece mais nos dois últimos. E qual seria a ligação de Sarah Palmer com os woodsmen?
Também houve o polêmico Dougie Jones. Nos primeiros episódios (até o sexto e um tanto no episódio 11), ele funcionou muito bem, com cenas verdadeiramente cômicas e no ponto exato, graças à atuação excepcional de MacLachlan, também com o assessor de Bushnell, Phil Bisby (Josh Fadem); nos demais pouco foi desenvolvido e terminou como um personagem que fica num meio-termo. Lynch poderia, ao contrário, ter mostrado mais a rotina de Dougie junto à família, já que o motivo era mostrar principalmente o homem médio dos Estados Unidos. Não tenho clareza sobre o motivo de Lynch ter preferido colocar o personagem no lugar do agente Cooper até o episódio 15, mas tenho algumas hipóteses além daquela de que quis substituí-lo por Gordon Cole: 1) O agente Cooper não teria a parceria de Harry S. Truman (Michael Ontkean), que não voltou para a série; ambos foram decisivos para o ritmo da série original; 2) Frost e Lynch não conseguiriam reproduzir o ritmo de diálogos de Cooper das duas primeiras temporadas pelo excesso de ideias conceituais e porque queriam uma trama vagarosa, uma oposição às características do personagem; 3) Muitos episódios funcionaram no plano conceitual e o agente Cooper sempre estabeleceu uma ponte desse plano com o plano material, pelo qual Lynch não estava tão interessado; 4) Lynch não queria fazer uma série exatamente bem-humorada, apesar de momentos indicando esse caminho, e o agente Cooper prejudicaria isso. Hoje, a hipótese principal, no entanto, foi que Lynch manteve o personagem escondido para que o espectador pudesse testemunhar uma volta impressionante no capítulo 16, já histórico. Não haveria com certeza a mesma emoção de Cooper dizendo “Eu sou o FBI” se ele tivesse voltado logo no início. Sem dúvida, mas ainda se sente um pouco incômoda sua quase não presença (ou não existência, como diz o Braço no início da temporada), principalmente com tanta participação de Mr. C, principalmente nos episódios 7, 13 e 15, alguns dos mais problemáticos em termos de ritmo (mesmo que com grande performance novamente de MacLachlan). Não foi uma temporada, por isso, sem falhas, mas é difícil não considerar que foram vários filmes espetaculares prejudicados por alguns vazios (particularmente, os capítulos 10, 11, 13 e 15 se sentiram menos à altura do restante).

E os dois episódios finais mostram que, mais do que o retorno de Cooper a Twin Peaks, o que importava a Lynch e a Frost era mostrar como uma possível existência de duplos pode transformar o universo complexo e a narrativa mais aos moldes de Império dos sonhos e A estrada perdida. Depois do episódio 17, em que a ação se desenvolve em combater Mr. C e tentar voltar no tempo para salvar Laura Palmer de seu destino, além de se saber sobre uma presença ameaçadora (Judy), no episódio 18 o Homem de um Braço Só (Al Strobel), como havia pedido Cooper no episódio 16, faz uma nova versão de Dougie Jones para Janey-E e Sonny Jim. Enquanto Dougie chega de volta à Lancelot Court falando “Casa!”, ao fim de tudo, o agente Cooper procura uma casa para Laura Palmer, mas ela não existe mais ou é indefinida. Tudo volta às palavras da Senhora do Tronco, de que “a morte não é o fim, mas uma mudança”: é justamente o que Lynch apresenta nesse clímax. A emoção de ver a linha de tempo sendo alterada é muito marcante, principalmente na figura de Jack Nance, um dos melhores amigos de Lynch, que regressa à cena como Pete Martell, inclusive numa caminhada inédita, não utilizada no piloto da série, depois de sair de casa. É como se Lynch também quisesse reviver esses amigos (não apenas Nance, Davis, David Bowie e Frank Silva faleceram, como do elenco desta temporada Catherine Coulson, a Senhora do Tronco, Miguel Ferrer e Will Frost, que faz uma ponta como Dr. Hayward). Isso me leva à figura de minha mãe, que era uma grande fã da série original e faleceu há quatro anos. Este Twin Peaks, de maneira inesperada, apresenta com seu final uma sensibilidade especial de Lynch em relação aos anos que se passaram: gostaríamos que a linha de tempo fosse muitas vezes mudada. O diretor, claramente, sabe disso: ele compreende exatamente a nostalgia do espectador e o sentimento de perda durante tantos anos. Lynch é generoso quando não se esperava tanto dele, fazendo seus personagens se comportarem como o próprio público.
No episódio 18, Lynch busca seus duplos no cinema, mas moldando os conceitos num simbolismo rico, daí particularmente ter me agradado em especial: o agente Cooper e Diane dirigem como o casal Lila Crane (Vera Miles) e Sam Loomis (John Gavin), que busca Marion Crane (Janet Leigh) em Psicose. O interessante é que ele para de carro na beira da estrada e enxerga postes de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. Esta sequência dialoga com Intriga internacional, de Hitchcock, em que um agente de publicidade, Roger O. Thornhill (Cary Grant), era confundido com um agente secreto, George Kaplan (novamente os duplos), e em determinado momento se encontra numa estrada deserta, tendo de se esconder de um avião que quer matá-lo num milharal (garmonbozia?). No início deste episódio, o encontro de Cooper com Diane na saída do Black Lodge lembra um num bosque nas proximidades do Monte Rushmore do mesmo filme de Hitchcock, cuja título original é North by Northwest (lembrando que Twin Peaks fica no Northwest dos Estados Unidos), e Gordon Cole se refere ao Monte Rushmore no episódio 4 deste temporada, em diálogo com Albert.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Esta sequência também remete a Psicose, assim como o papel de parede da Loja de Conveniência do episódio 15 lembra a dos quartos do hotel de Norman Bates (que age como sua mãe).

Diane e Cooper fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para os anos 1950. No dia seguinte está num hotel da cidade, remetendo a Hitchcock e a A estrada perdida, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard. O quarto tem um papel de parede que remete ao formato que sai da chaleira de Phillip Jeffries e remete ao anel da Coruja (depois de selecionar essas imagens, vi que muitos no Twitter perceberam esse mesmo detalhe). Assim como dialoga com a tapeçaria onde brinca o menino Danny no Hotel Overlook de O iluminado (filme em que Kubrick teria se inspirado em Eraserhead, de Lynch).

Outro indício de que se trata de um universo em que Cooper não é mais exatamente o Cooper que conhecíamos é o número do quarto em que ele se hospeda, 7. Este número aparece em diferentes oportunidades sempre relacionada a duplos, sonhos ou universos paralelos: é o número do café de Tracey (Madeleine Zima) no primeiro episódio da terceira temporada; o número do quarto em que Mr. C encontra Chantal (Jennifer Jason Leigh); o número do andar em que Phillip Jeffries (David Bowie) chega para encontrar a equipe do FBI em Twin Peaks – Fire walk with me e o número que está no nome da Lucky 7 Insurance, a agência de seguros em que trabalha Dougie Jones.

Em sua busca (não se sabe ainda pelo quê) em Odessa (agora sabemos a cidade), no Texas, ele passa de carro por um trilho de trem (à frente do qual apareciam os Tremond/Chalfont no filme de 1992 para entregar o quadro de Laura e pelo qual passava o Homem de um Braço Só na perseguição ao carro onde estão Leland e Laura; destaca-se, ainda, que é num vagão de trem onde ocorre o assassinato de Laura).

Odessa está um universo paralelo: em frente à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca, há um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, quando Laura Palmer diz a Cooper: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, sugerindo uma ligação exatamente com o episódio 18. Dentro da cafeteria, há várias imagens de quadros com cavalos (estamos no Texas, mas aqui é simbólico).

Também há ao lado da porta de entrada da Cafeteria Judy uma guirlanda de rosas que remete a uma do quarto de Laura Palmer no filme de 92.

Do lado de fora da Cafeteria, temos, além dos postes de eletricidade, contêiners, que haviam também ao lado da casa com acesso à Zona, universo paralelo, no episódio 11. Tudo indica que há indícios do Black Lodge neste lugar.

Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Não parece coincidência que a atriz que faz a garçonete abordada pelos cowboys, Kristi, seja Francesca Eastwood, filha de Clint (conhecido por tantos filmes de faroeste). E a Odessa real, no Texas, tem como chamariz uma escultura chamada Jack Rabbit (como lembra o leitor do blog Alan nos comentários à crítica dos episódios 17 e 18), mesmo nome dado por Bobby Briggs ao lugar que serve de pista para chegar ao White Lodge no bosque de Twin Peaks. Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Perceba-se a semelhança do ator (infelizmente o nome dele não aparece nos créditos finais, isso se não for apenas um boneco, o que seria ainda mais proposital) com Jack Nicholson e como seu corpo parece congelado. Essa imagem remete ao final de O iluminado, de Stanley Kubrick. A roupa do morto também é parecida. Deve-se lembrar que naquele filme Jack Torrance era um duplo (ou reencarnação) de um zelador que havia matado a família anos antes no Hotel Overlook. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes. Repare-se, também, que na parede da casa há um pequeno cavalo branco.  Sabemos também que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa.

Também não se entende por que ela pergunta a ele se é agente no carro do mesmo modo (em olhar e voz) que ela pergunta se Leland, seu pai, estava em casa num determinado dia em que viu Bob, no filme Twin Peaks – Fire walk with me. No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores) e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Os faróis iluminando a estrada sintetizam a obra de Lynch e remetem à primeira perseguição a James Hurley e Donna Hayward no piloto da série e à estrada em que os woodsman aparecem assustando o casal de velhinhos no episódio 8, passado em 1956: “é passado ou futuro?”, mas também a filmes anteriores de Lynch, Coração selvagem, A estrada perdida e Veludo azul. Tudo se mescla, assim como o episódio 18 incorpora várias referências simbólicas e cinematográficas, sendo uma espécie de homenagem de Lynch a Hitchock e Kubrick principalmente. Se algumas vezes o retorno de Twin Peaks investiu em excesso de conceitos, Frost e Lynch o finalizam de maneira impressionante.

O episódio todo é construído por elementos simbólicos sobre a duplicidade tanto em Twin Peaks quanto no cinema e ambos sintetizam o universo da série por meio de detalhes que podem passar em branco. No plano narrativo, é como se Cooper e Laura tivessem uma simbiose, perdidos entre o passado e o futuro. Para Lynch, a casa de ambos é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Minha teoria é de que ela é realmente Laura Palmer, à medida que os pais de Carrie têm o mesmo nome: Leland e Sarah. Tanto que, quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo. No episódio 12, Sarah avisava na Loja de Conveniência: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy?) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. E Laura é, afinal, a escolhida: ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen. Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade. Não seria coincidência a passagem para a Loja de Conveniência também se dar no Greath Northern, em diálogo direto com o Bates Motel e o Overlook. São argumentos para uma possível quarta temporada, apenas uma entre inúmeras teorias, permitidas num universo de sonhos. Depois de toda uma temporada, finalmente chegamos a Twin Peaks.

Twin Peaks – The Return, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Ray Wise, Grace Zabriskie, Naomi Watts, Pierce Gagnon, Robert Knepper, James Belushi, Don Murray, David Lynch, Laura Dern, Miguel Ferrer, Richard Beymer, Chrysta Bell, Sherilyn Fenn, Clark Middleton, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh, Eamon Farren, Robert Forster, Michael Horse, Harry Goaz, James Marshall, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, David Bowie, Wendy Robie, Russ Tamblyn, Harry Dean Stanton, Everett McGill, Peggy Lipton, Catherine E. Coulson, Mädchen Amick, Josh Fadem, Caleb Landry Jones, Alicia Witt, Brent Briscoe, Balthazar Getty, Amanda Seyfried, Matthew Lillard, Patrick Fischler, Nathan Frizzel, John Pirruccello, Jay Aaseng, Nae Yuuki, Al Strobel, Jake Wardle, Amy Shiels, Giselle Damier, Andrea Leal, David Patrick Kelly, Eddie Vedder, Jonny Coyne, Michael Cera, Emily Stofle, Shane Lynch, Derek Mears, Sarah Jean Long, Christophe Zajac-Denek, Jane Adams, Charlotte Stewart, Ashley Judd, Larry Clarke, Frank Silva, Gary Hershberger, Joan Chen, Jack Nance, Don S. Davis, Eric Edelstein, David Koechner, Grant Goodeve, Eric Rondell, Sky Ferreira, Scott Coffey, David Duchovny, Richard Chamberlain, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, Francesca Eastwood, George Griffith, Carel Struycken, Nicole LaLiberte, Warren Frost, Adele René, Ernie Hudson, Walter Olkewicz, Nafessa Williams, Jeremy Davies, Ronnie Gene Blevins, Brett Gelman, Grace Victoria Cox, Jane Levy, Madeline Zima, Phoebe Augustine, Bérénice Marlohe, Julee Cruise, Ben Rosenfield, Mary Reber, Cornelia Guest Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 1080 min. Distribuidora: Showtime

 

Twin Peaks – Segunda temporada (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A segunda temporada de Twin Peaks inicia com um episódio excelente – dirigido por David Lynch –, no qual o agente Cooper (Kyle MacLachlan) é visitado por um senhor atendente do hotel, Senhor Droolcup (Hank Worden), e, em seguida, por um gigante (Carel Struycken), que lhe dá novas pistas, enquanto se encontra baleado no chão. Vários personagens procuram ainda se recuperar do que aconteceu ao final da primeira temporada: Shelley Johnson (Mädchen Amick) e seu marido Leo (Eric DaRe), Pete Martell (Jack Nance), Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) e Ronette Pulaski (Phoebe Augustine) são alguns que estão no hospital da cidade. Shelley passa a cuidar de Leo, junto com Bobby (Dana Ashbrook), enquanto Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) começa a trabalhar entregando almoços para Norma Jennings (Peggy Lipton), função de Laura Palmer antes de sua morte, e vai à casa dos Tremond: uma avó (Frances Bay) e seu neto, Pierre (Austin Jack Lynch, filho de David), peças-chaves do filme Twin Peaks – Fire walk with me e que são do Black Lodge. Ambos falam do amigo de Laura, Harold Smith (Lenny von Dohlen), que guarda seu diário secreto e mora na casa ao lado. Mais segredos se pronunciam quando o pai de Laura diz a Cooper e ao xerife conhecer o homem retratado por Philip Gerard (Al Strobel), chamado Bob; seria um antigo vizinho da praia aonde ia com a família, na infância, e o assustava jogando fósforos acesos nele. Mas não apenas com o caso de Laura Palmer Cooper está preocupado: ele teme pelo desaparecimento de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), embora tenha pistas de que possa estar no Jack Caolho’s.

O Great Northern se transforma numa espécie de Overlook de O iluminado (há, inclusive, uma arquitetura indígena e Ben Horne (Richard Beymer) encenando a Guerra Civil norte-americana, enquanto seu filho lança flechas contra imagens de búfalos), com fantasmas eventualmente andando pelo hotel, tentando ajudar Dale Cooper e nesse sentido a série deriva para o terror e suspense.
Só isso explica por que no episódio 15, ao mesmo tempo em que vemos Cooper, o xerife Truman (Michael Ontkean) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) na Roadhouse, ouvindo Julee Cruise contra uma cortina vermelha e sob uma luz em tom amarelo, descobrimos o assassino – numa das sequências mais violentas já filmadas para a TV. O mesmo gigante que ofereceu pistas a Cooper surge no palco e avisa: “está acontecendo de novo”. Essa revelação, segundo os planos originais de Lynch, não seria feita, pois ele gostaria de ter conservado o segredo, sem os espectadores saberem a identidade do assassino.
A partir dessa nova tragédia, a luta de Cooper e do xerife Truman (Michael Ontkean) é para descobrir qual espécie de mal ameaça Twin Peaks, fazendo-os se aproximar do Major Briggs (Don S. Davis) – pai de Bobby –, que diz haver na floresta da cidade um Black Lodge, com uma passagem para outra dimensão. As pistas do Major levam Cooper e o xerife à Caverna da Coruja, que ajuda a solucionar a ligação com esse universo paralelo à cidade. Neste ponto, a série se direciona a um contexto mais surreal, pois, ao mesmo tempo, chega à cidade Windom Earle (Kenneth Welsh), um ex-agente federal enlouquecido, querendo se vingar de Cooper.

As críticas a esta segunda temporada em relação à primeira aconteceram sobretudo porque David Lynch teria deixado muitos episódios nas mãos de outros roteiristas e diretores. É visível que seus substitutos tentaram desenvolver tramas paralelas – Nadine (Wendy Robie) se apaixonando por Mike Nelson (Gary Herschenberg), amigo de Bobby; o próprio James Hurley (James Marshall) indefinido entre se envolver com Donna e com uma mulher misteriosa, Evelyn Marsh (Annette McCarthy); negócios escusos de Benjamin Horne com um presidiário, Hank (Chris Mulkey), marido de Norma (Peggy Lipton); a paixão de Audrey Horne por um milionário que chega ao hotel, John Justice Wheeler (Billy Zane); o casamento do prefeito Dwayne Milford (John Boylan) com uma jovem, Lana (Robyn Lively); o triângulo entre Lucy (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e Dick Tremayne (Ian Buchanan), entre outras –, mas o fizeram com uma combinação entre drama, surrealismo e comédia. São essas tramas aparentemente deslocadas, criadas na maior parte por Robert Engels, Harley Peyton, Barry Pullman, Scott Frost e Tricia Brock que conseguem revitalizar o interesse pela trama depois da descoberta de quem assassinou Laura Palmer. Mais do que a primeira, a segunda temporada revela alguns lugares-comuns de uma pequena cidade, mas que adquirem grande significado. Tudo nos faz sentir ser mais uma investigação sobre o comportamento dos habitantes do que exatamente uma procura do FBI em desvendar um crime.

O clima também supera em muitos momentos os defeitos possíveis (a fotografia irretocável de Frank Byers, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete na qual os personagens se reúnem, e ajuda a desenhar boa parte da série. Temos, com esse clima, o desenvolvimento de novas tramas interessantes: a chegada de um novo agente federal, Denise Byrson (feito por David Duchovny, de Arquivo X); do chefe de Dale Cooper, Gordon Cole (em ótima participação do próprio David Lynch); a descoberta do xerife de que Josie (Joan Chen) tem segredos e que o marido dela, Andrew Packard (Dan O’Herlihy), não morreu como se imaginava; a investigação da chegada de drogas em Twin Peaks, fazendo com que Jean Renault (Michael Parks) aponte Cooper como o responsável pelo “pesadelo em que se transformou Twin Peaks”; o encontro do agente do FBI com uma nova atendente da lanchonete, Annie Blackburn (Heather Graham), irmã de Norma Jennings, por quem se apaixona e é peça-chave no final da série. Blackburn surge na série num momento em que Cooper precisa enfrentar seu passado, por meio da figura de Earle, e é uma personagem complexa. Ela estava num convento antes de sair e tentou cometer suicídio, sendo uma espécie de representação feminina do próprio agente Cooper, à procura da beleza novamente de Twin Peaks depois de passagens tão nebulosas, da paixão que teve pela esposa de Windom Earle e do pesadelo a que se referiu Renault. O interessante é que Annie adentra a série sendo enquadrada junto ao Major Briggs no Double R, como se a figura dela adiantasse o que acontecerá ao final. É Annie também que vai falar a Cooper que o desenho dele, baseado em alguns sinais, lembra o da Caverna da Coruja, que fica na cidade.

Os personagens visivelmente ganham intensidade de uma temporada para outra, como Albert Rosenfield, feito por Miguel Ferrer (um dos melhores da série, e talvez esquecido, em comparação com os demais), embora se perca um pouco o lado juvenil – com um interesse forçado entre Audrey e Bobby Briggs, por exemplo –, não diminuindo, porém, o impacto de vermos essa história contada em detalhes. Nisso tudo, a atuação do elenco, mesmo quando o roteiro não se mostra tão interessante, é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, James Marshall, Heather Graham, Billy Zane – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas ficaram marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).
As imagens dos semáforos, dos bosques da cidade e da coruja ameaçadora (e da Caverna da Coruja, que ajuda a criar mais elementos para a mitologia da série e se corresponde com o filme e a terceira temporada) intensificam a percepção de medo, assim como o destino de alguns personagens (como o de Leo).

Twin Peaks atravessa um terreno, da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acabou afastando muitos espectadores que não conseguiram à época do lançamento desses episódios associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não por acaso, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, embora o distúrbio seja de origem desconhecida (alguns personagens começam a sentir seus braços dormentes, o que se reproduzirá no filme, com Teresa Banks e Laura Palmer e na terceira temporada com Dougie Jones). Nesse sentido, esta segunda temporada ajuda a estabelecer a terceira, com seus temas misteriosos ligados ao Major Briggs, envolvido com o projeto “Rosa Azul”, do FBI: o White Lodge e o Black Lodge são temas suscitados no acampamento de Cooper com o Major, quando este desaparece, e por Hawk, ligando-os aos temas indígenas da cidade.

Quando Windom Earle (numa ótima atuação de Walsh) surge na perseguição a Cooper tudo parece uma desculpa exatamente para descobrir esses dois lugares que se encontram em Twin Peaks. “O amor e o medo abrem os portais”, diz Briggs em determinado momento, para Cooper entender que o amor abre o White Lodge e o medo o Black Lodge. Quando, em alucinação depois de capturado por Earle, ouve seu nome Garland, o Major Briggs se pergunta: “Judy Garland?”. Lembremos que Philip Jeffries falava em Judy em Twin Peaks – Fire walk with me e o duplo mal de Cooper quer saber quem é ela na terceira temporada. Ou seja, se alguns dos temas apresentados na segunda temporada pareciam deslocados e mesmo mal encaixados, se fazem mais fortes numa revisão. Nesse sentido, os temas que teriam desvirtuado Twin Peaks são exatamente os que mantêm o seu retorno. Do mesmo modo, embora David Lynch tenha dirigido os episódios 9, 10, 15 e 30 (alguns dos melhores das três temporadas), deve-se destacar as direções de Caleb Deschanel (conhecido diretor de fotografia, pai de Zoe), Diane Keaton, James Foley, Tim Hunter (diretor de Tex), Uli Endel (diretor alemão) e Lesli Linka Glatter (que seria reconhecida recentemente pela série Homeland), entre outros, em alguns deles. Esses diretores ajudam a dar uma ambientação clássica à série, mas, ao mesmo tempo, completamente nova, em meio a cenários campestres ou do Greath Northern, sugerindo uma espécie de viagem aos anos 50.

E deve-se dizer que o episódio final da série, dirigido por David Lynch, é, por mais estranho que pareça, o mais fiel ao que vimos antes. Há pelo menos em torno de 20 minutos com material completamente imprevisto para a televisão – quando Cooper entra na sala vermelha do Black Lodge, no Bosque Glastonbury (que Cooper liga ao Rei Arthur), da Floresta Ghostwood, em meio aos sicômoros, e tenta salvar Annie, precisando se deparar com o anão/Braço, com Laura, seu pai, Leland, Bob e seu outro eu. Essas imagens são excepcionalmente fotografadas por Frank Byers (num dos trabalhos mais exitosos da história da TV), e criam um laço direto com o filme de 1992, pois este poderia também ser parte do final daquele, e a terceira temporada. Este episódio final praticamente adianta a questão dos duplos que acompanhamos na terceira temporada, além do surrealismo muito mais explícito e bem dosado que caracterizaria também o retorno da série. Há um diálogo principalmente com o estilo de Coração selvagem, com o qual Lynch havia recebido a Palma de Ouro em Cannes um ano antes, mais exatamente nas sequências do protesto de Audrey no banco de Twin Peaks, contra Ghostwood, da reunião entre o Dr. Jacoby com Big Ed, Nadine e Mike, além do confronto de Dr. Hayward e Ben Horne. Também se destaca que As peças que faltam, extras de Twin Peaks – Fire walk with me, mostram o que acontece exatamente depois do final da segunda temporada, fazendo parte mais uma vez da mitologia que cerca esses personagens de uma série primorosa.

Twin Peaks – Season 2, EUA, 1991 Diretores: David Lynch, Graeme Clifford, Caleb Deschanel, Duwayne Dunham, Uli Edel, James Foley, Mark Frost, Lesli Linka Glatter, Stephen Gyllenhaal, Todd Holland, Tim Hunter, Diane Keaton, Tina Rathborne, Jonathan Sanger Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Miguel Ferrer, Warren Frost, Russ Tamblyn, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Catherine E. Coulson, Eric DaRe, Peggy Lipton, Don S. Davis, David Patrick Kelly, Russ Tamblyn, Victoria Catalin, Wendy Robie, Gary Hershberger, Michael J. Anderson, Frank Silva, Al Strobel, Heather Graham, Frances Bay, Austin Jack Lynch, Kenneth Walsh, Annette McCarthy, Chris Mulkey, Billy Zane, John Boylan, Robyn Lively, Ian Buchanan, Michael Parks, David Duchovny, Lenny von Dohlen, Hank Worden, Carel Struycken, Dan O’Herlihy Roteiro: David Lynch, Robert Engels, Mark Frost, Harley Peyton, Jerry Stahl, Barry Pullman, Scott Frost, Tricia Brock Fotografia: Frank Byers Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração (Temporadas 1 e 2): 1670 min.

Twin Peaks – O retorno (Episódio 8) (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A terceira temporada de Twin Peaks (disponível na Netflix) recebeu, em seu oitavo episódio, tudo que parecia faltar no anterior: cenas vagarosas e sem linearidade alguma. Para David Lynch, este sempre é o melhor caminho, em se tratando de ele não estar acostumado a histórias mais comuns ou um humor mais superficial, como aquele visto na personagem de Diane, em desempenho de Laura Dern, ainda a ser melhor avaliado com participações futuras.
O episódio anterior terminou com o duplo mal de Cooper (Kyle MacLachlan) e seu parceiro Ray Monroe (George Griffith) escapando da prisão, depois de o primeiro chantagear o diretor do lugar. O oitavo inicia com os dois na estrada – lembrando exatamente A estrada perdida – até que Sr. C. pede algumas informações que o outro possui. Este pede para parar o carro e quando o duplo mal de Cooper o ameaça com uma arma recebe disparos à queima-roupa. Em seguida, surgem, ao que parece, almas vindas da floresta (chamadas woodsmen) – homens que parecem escurecidos com carvão, sendo que um deles aparece no segundo episódio e outro no sétimo, quando a tenente Knox está avaliando o corpo do major Briggs – chegando até o corpo do duplo mal, até desentranhar dele a figura de Bob, para espanto de Ray, que foge, assustado, falando em seguida com Phillip Jeffries (que no filme era interpretado por David Bowie).

Corta para a Roadhouse, onde um senhor anuncia Nine Inch Nails, com uma canção de rock que remete também ao filme A estrada perdida, “She’s gone away”, e que parece dar uma nova vida ao duplo mal – lembre-se que a música é sempre, para Lynch, uma ligação entre almas e eletricidade – veja-se o episódio da segunda temporada em que se conhece o assassino de Laura Palmer por meio de outro crime e vários personagens na Roadhouse choram, como se houvesse uma tristeza no ar da cidade. A música da Roadhouse capta esse lado maligno de Cooper de alguma maneira.
Há uma volta no tempo para 1945, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica. Esta imagem é filmada de maneira tão impactante que se imagina o quanto Lynch faria com um filme de orçamento blockbuster: sua câmera vai se aproximando da bomba até captar dentro dela o fogo, lampejos, luzes desfocadas, partículas, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Deve-se lembrar que Gordon Cole tem uma imagem da bomba atômica em seu escritório, assim como um quadro com uma espiga de milho – milho que constitui o “garmonbozia”, mistura de “dor e tristeza”. Cole sabe de detalhes que não informa aos restantes do FBI? É uma espécie de cena da criação do mundo de A árvore da vida às avessas (como defini num tweet logo depois de assistir ao episódio na madrugada de domingo). Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma “loja de conveniência” no deserto. A “loja de conveniência” é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita – e aparece em Twin Peaks – Fire walk with me (primeira imagem abaixo). À frente dessa loja de conveniência, perambulam as almas que apareceram na primeira parte do episódio (no filme de 1992, era Jürgen Prochnow, sentado no fundo à direita). E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”.

A partir daí, Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, remetendo imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Gigante (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio. Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Gigante se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra.  Sendo tudo muito surreal, deve-se notar que essa sequência remete tanto a Duna – a mulher lembra o Barão Harkonnen, que também flutuava como o Gigante – quanto a Cidade dos sonhos – o teatro parece o Club Silencio – e Coração selvagem – na qual Sheryl Lee é a Bruxa Boa do Mágico de Oz nos dias atuais. O jogo de luzes adquire um grande impacto, com a trilha sonora emocional de Angelo Badalamenti, dando grandiosidade à encenação. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob?

A história volta ao Novo México, desta vez para 1956, quando as almas do mal perambulam numa estrada pedindo fogo para um cigarro e assustando um casal de velhinhos – imagem antológica que parece sintetizar todos os filmes de terror dos anos 50. Também vemos um casal de jovens caminhando por um posto de gasolina, com uma loja de conveniência, e será encontrada uma moeda no chão (um diálogo com as moedas mágicas do traficante Red e de Hawk no sexto episódio). O rapaz (Xolo Mariduen) acompanha a adolescente (Tikaeni Faircrest) até a porta de sua casa. Lynch, então, mostra uma alma do mal (Robert Broski) descendo do espaço e se dirigindo a uma estação de rádio do lugar, onde domina a cabine de transmissão, depois de matar a recepcionista (Tracy Philips) e o disc jockey (Cullen Douglas), para lançar uma mensagem… Um mecânico e uma senhora numa lanchonete a ouvem e desmaiam. A menina que era acompanhada pelo jovem a escuta, dorme, e de repente surge um inseto gigante que havia saído de um ovo no deserto, entrando em sua boca. Seria o início de Bob? Impressiona, nessa sequência, o quanto Lynch parece fazer um Veludo azul em forma de terror no Novo México. É simplesmente brilhante a composição de imagens e a maneira como essas almas assustam os incautos – inclusive o espectador. E a caminhada do jovem casal na noite escura parece remeter mais a Twin Peaks dos anos 90 do que todos os episódios desta terceira temporada até agora.

Lynch aproveita o oitavo episódio, nesse sentido, para desenvolver a mitologia de Twin Peaks. Há uma quebra quase completa com o que estava sendo mostrado nos anteriores e pode-se sentir que, se não fossem as referências a personagens vitais de Twin Peaks, este seria um episódio de outra série. Talvez seja este o intuito de Lynch: transformar a série numa espécie de canal para suas experimentações. Isso pode provocar certo desencanto – vários personagens ainda não apareceram ou não foram desenvolvidos, e o verdadeiro agente Cooper vaga no corpo de Dougie Jones – e, por outro, um grande respeito pelo que Lynch mostra e desenvolve: ele realmente faz um surrealismo nunca visto antes, no cinema ou na televisão. É verdadeiramente notável o que ele reproduz com poucas imagens e breves diálogos. Um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me (última imagem acima) aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação. Neste episódio, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação. Este episódio, que certamente será um dos mais lembrados de toda a série e da carreira de Lynch, confirma.

Twin Peaks – Episode 8, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Robert Broski, Tracy Philips, Cullen Douglas, Tikaeni Faircrest, Xolo Mariduen, Joy Nash, George Griffith, Carel Struycken Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Balalamenti Produção: David Lynch e Mark Frost Duração: 58 min. Distribuidora: Showtime

Twin Peaks – O retorno (Episódios 1 e 2) (2017)

Por André Dick

Assistir a uma nova temporada de Twin Peaks é, antes de tudo, uma realização para quem acompanhava a série nos anos 1990 e teve de aceitar seu encerramento com baixos índices de audiência e uma resposta inconclusiva ao final. O filme, Twin Peaks – Fire walk with me, com sua qualidade notável, ajudou a estabelecer a mitologia dos personagens. Também é uma peça de nostalgia: lembrar que há 25 anos nunca se imaginava que ela regressaria algum dia. Quantas vezes minha esposa – também fã da série – e eu conjecturamos a volta dela, sempre com as negativas públicas de David Lynch, até que… Normalmente, o Cinematographe não fala de séries de TV. Abre uma exceção para uma série que é, na verdade, antes de tudo, cinema e por causa do diretor, particularmente o mais ousado dos últimos 40 anos, ao lado de Terrence Malick.
Ontem, finalmente, os dois primeiros episódios foram lançados pelo Showtime e distribuídos no Brasil pela Netflix, em tempo recorde (em torno de 4 horas depois da estreia nos Estados Unidos). Com uma abertura diferente, mas a mesma música de Angelo Badalamenti, David Lynch regressa depois de 11 anos sem filmar: Império dos sonhos foi seu último projeto cinematográfico. Em sua companhia, o outro criador, Mark Frost. Recordo que em 1990, quando a primeira temporada estreou no Brasil, minha mãe e eu nos tornamos fãs assíduos (ela apreciava especialmente a trilha sonora, que à época lembro de ter comprado em LP, e a interação entre os personagens). Obviamente, não havia as redes sociais para as teorias se proliferarem e não lembro de colegas de escola falando da série, mas havia bastante divulgação nos jornais e cheguei a comprar os livros O diário secreto de Laura Palmer e aquele contendo gravações do agente Cooper desde a infância. Imagino que agora, com a nova temporada, os fãs para isso terão um prato cheio.

Em seus dois primeiros episódios, Twin Peaks é Twin Peaks sem de fato ser como a série antiga. A estranheza e o humor estão lá, mas modulados pela fase cinematográfica de Lynch iniciada em Twin Peaks – Fire walk with me e continuada em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos.

Para quem não quer nenhum spoiler, sugere-se não seguir adiante.

A série tem início com imagens do agente Cooper e Laura Palmer na série antiga e, em seguida, passa para imagens em preto e branco, recordando o primeiro filme de Lynch, Eraserhead. O agente (Kyle MacLachlan, excelente) conversa com o Gigante (Carel Struycken) no Black Lodge, enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. A partir daí, Lynch dispara em várias frentes: embora tenhamos a visualização de alguns personagens da série antiga, o episódio se concentra num diretor de escola, William Hastings (Matthew Lillard), de Buckhorn, Dakota do Sul. Ele é casado com Phyllis (Cornelia Guest), preocupada com o jantar, e não se lembra de um crime que teria cometido, o que remete ao filme A estrada perdida. O detetive Dave Mackley (Brent Briscoe), além de tudo, é seu amigo. Ainda vemos em Nova York um jovem, Sam Colby (Ben Rosenfield) filmando uma caixa de vidro com câmeras. Ele sempre recebe a visita de Tracy (Madeline Zima), interessada no que está fazendo.

Lynch obviamente andou vendo filmes de seu pupilo Nicolas Winding Refn – a primeira tomada área de Nova York é idêntica a uma de Refn sobre Los Angeles em Drive e essas sequências deixam claro isso, pela simetria e disposição de luzes no ambiente –, assim como evoca Cosmópolis e Videodrome, de David Cronenberg, diretor com o qual costuma ser comparado, embora ambos sejam muito diferentes. Também há um personagem surpreendente cuja camisa por baixo da jaqueta lembra Sailor de Coração selvagem e, junto com uma gangue, parece ser responsável por matar pessoas. Este primeiro episódio evoca bastante Cidade dos sonhos, principalmente na descoberta de um corpo, nas conversas absurdas entre alguns personagens e na imagem assustadora de uma espécie de mendigo numa cela de cadeia, que remete àquele do final da obra-prima de 2001.
No segundo episódio, Cooper trava novos diálogos com Laura Palmer (Sheryl Lee, extraordinária) e o espectador é reinserido no Black Lodge. Não há mais o anão, e sim uma árvore com uma cabeça de borracha que remete a Eraserhead e a pinturas que David Lynch expôs na Tilton Gallery em 2012. Vemos algumas figuras conhecidas. O policial Hawk (Michael Horse), de origem indígena, conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson, que fez suas cenas durante tratamento contra o câncer, o qual, infelizmente, veio a vitimá-la em 2015). Enquanto isso, a gangue do primeiro episódio tem uma cena-chave com Darya (Nicole LaLiberte). Não é bom dizer muito desta vez. É estranho. É puro David Lynch. Assim como o design de som, feito por ele mesmo.

Quando assistimos a esses dois episódios, fica claro que Lynch é um artista: ele não está interessado em apenas continuar as duas primeiras temporadas; ele quer reinserir novos elementos a partir dos antigos. O estilo é de uma elegância rara para os meios televisivos, pois é cinema em seu grau mais explorado. As cores, a colocação dos objetos em cena, as atuações – tudo é meticuloso. Os mais de dez anos de afastamento das câmeras não prejudicaram o talento do diretor. Ele também não está interessado, pelo menos ainda, a deixar claro o que está acontecendo – e quando ele esteve? Mesmo a ação da polícia para descobrir o que aconteceu dentro de um apartamento é atrasada pelo surrealismo dos personagens. Tendo seu fotógrafo Peter Deming, o que me deixava mais preocupado era o ritmo da série. Explico: Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch e montadora de seus filmes a partir de Twin Peaks – Fire walk with me, era uma parceira artística, embora Duwayne Dunham, o atual montador, tenha trabalhado com o diretor em Veludo azul e Coração selvagem e participado do piloto da série, assim como do antológico episódio inicial da segunda temporada. Aqui, não apenas pelo envelhecimento dos personagens, como pela estranheza geral, não há o mesmo ritmo, mas sim um ainda mais distinto, levando o surrealismo ao limite. Pode-se dizer que nada depois de Império dos sonhos tenha esta escala de originalidade que esses dois episódios possuem. Muitos vão confundir com maneirismos, mas costumam ser os mesmos que não gostam do Lynch mais experimental e consideram o filme de Twin Peaks do cinema uma traição à série. Esta nova série não pode ser entendida sem o espectador ter visto Twin Peaks – Fire walk with me; há referência, inclusive, a Phillip Jeffries, interpretado no filme por David Bowie. Os dois primeiros episódios lembram mais o terror desse filme, com algumas cenas ultraviolentas.

O que se constata aqui é que Lynch e Frost, seu parceiro de criação, querem estabelecer o Black Lodge como explicação para o mal que se comete no universo, e deve ser reparado pela bondade. Fica muito claro aqui o direcionamento que teria tido a série em 1992 se David Lynch não tivesse outros compromissos, tendo dirigido e escrito apenas alguns episódios da segunda temporada. Ou seja, Twin Peaks continua sendo uma série sobre os limites do ser humano e Lynch pretende contar esse retorno em 18 episódios, que ele considera como um filme (talvez o Decálogo desta década). Mas é claro também que quando a história se concentra exatamente na cidade-chave a atmosfera remete aos anos 90, mesmo com a passagem de tempo, principalmente quando mostra Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e os irmãos Ben (Richard Beymer) e Jerry Horne (David Patrick Kelly) no Greath Northern, estes num diálogo bem-humorado. E o final do segundo episódio evoca Julee Cruise cantando no Bang Bang Bar, desta vez com uma belíssima canção da banda The Chromatics, quando o espectador revê Shelly (Mädchen Amick) e James Hurley (James Marshall). David Lynch – e nunca se disse isso nos últimos 11 anos – está realmente de volta. O cinema (não apenas a TV, okay, Pedro Almodóvar?) agradece. Não duvide: baseando-se nesses episódios de retorno, em termos de cinema, não se verá nada como esta terceira temporada de Twin Peaks neste ano.

Twin Peaks – Episodes 1 & 2, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Kimmy Robertson, Richard Beymer, David Patrick Kelly, James Marshall, Matthew Lillard, Madeline Zima, Ben Rosenfield, Cornelia Guest, Michael Horse, Catherine E. Coulson, Harry Goaz, Carel Struycken, Brent Briscoe, Ray Wise Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Showtime