Twin Peaks – Fire walk with me (1992)/Twin Peaks – O retorno (2017)

Por André Dick

Depois do capítulo 8 de Twin Peaks – O retorno, uma espécie de divisor de águas na série e na história da televisão, podemos traçar alguns paralelos entre o que está acontecendo nesta temporada e alguns elementos de Twin Peaks – Fire walk with me. Como se sabe, este filme de David Lynch foi lançado em 1992, no Festival de Cannes, sob vaias, um ano depois do cancelamento da série de televisão. Imagina-se que neste filme David Lynch também estava procurando convencer o público que a série deveria ter uma terceira temporada, pois há elementos nele que estão sendo recuperados/explicados melhor agora. As analogias mostradas aqui em tópicos não pretendem, claro, esclarecer a chave para os enigmas da série, e sim apenas notar como o universo de Lynch é arquitetado de modo surrealista, mas sempre com ligações interessantes.
1) No filme, o personagem de Phillip Jeffries (David Bowie) é um agente do FBI desaparecido há dois anos e que ressurge numa conversa em sonho com Cooper (Kyle MacLachlan), Gordon Cole (David Lynch) e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer). Ele diz ter participado de uma reunião em cima da Loja de Conveniência com Bob (Frank Silva) e o Braço/Anão (Michael Anderson). Nesta temporada, a Loja de Conveniência é exatamente onde se reúnem os woodsmen, as almas que estão ligadas ao primeiro experimento da bomba atômica, onde surge Bob, localizada em White Sands, no Novo México.

Jeffries tem uma participação estendida em Twin Peaks – As peças que faltam, uma coletânea de cenas excluídas da montagem final do filme, lançadas num Blu-ray com 91 minutos em 2014. Nessas cenas, vemos Jeffries na Argentina, exatamente o país para o qual são disparadas mensagens nesta terceira temporada e que resultam no encolhimento de uma caixa. Também vemos Jeffries, ao que parece, ser transportado por eletricidade e ele fala, com o rosto sobre a mesa de Cole, exatamente a data em que Laura Palmer será morta. Essas sequências transformam o material num item necessário para a compreensão de alguns detalhes, e principalmente a reunião no Black Lodge mostra que Twin Peaks envereda pelo gênero do terror, como parte da segunda temporada da série.
2) Em Twin Peaks – Fire walk with me, vemos aquelas estranhas figuras pintadas de carvão – os woodsmen –, que surgem com destaque na terceira temporada da série, principalmente no oitavo episódio, em dois momentos: um no Hap’s Diner, em que conversam com os agentes Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland). No segundo momento, eles aparecem nas imagens que se mesclam ao que Jeffries lembra da Loja de Conveniência. O woodsman em destaque está à direita e é interpretado por Jürgen Prochnow, que fez o Duque Leto em Duna. No oitavo episódio, enquanto o woodsman envia sua mensagem pelas ondas do rádio vemos um inseto entrar pela janela do quarto da jovem, assim como Bob entra pela janela em Twin Peaks – Fire walk with me.

3) Na reunião da Loja de Conveniência que Philip Jeffries testemunha, o Braço/Anão fala do “garmonbozia” (dor e tristeza). Trata-se de um creme de milho lembrado também pelo Homem de um Braço Só (Al Strobel) quando encontra Laura Palmer e seu pai perto de um avenida de Twin Peaks numa sequência do filme. Logo depois de Laura comentar sobre o cheiro de algo queimando, o que remete ao “fogo”, o Homem de um Braço Só revela, numa cena bastante intensa, que Leland (Ray Wise) roubou o “milho” da loja de conveniência. O creme de milho é justamente dado a Laura na mesma manhã do dia de sua morte, depois de ela ter descoberto quem era, afinal, Bob. No segundo episódio da segunda temporada, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) faz uma visita aos Tremond: eles são uma velhinha (Frances Bay, de Veludo azul) e seu neto (interpretado na série pelo filho de Lynch, Austin Jack Lynch; no filme, por Jonathan  J. Leppell), que fazem parte do Black Lodge. Donna substitui Laura Palmer na entrega de refeições da lanchonete, leva comida à senhora Tremond, e ela pergunta se há creme de milho em seu prato. Primeiro há; depois, não: o neto faz com que desapareça, reaparecendo em sua mão, pois seria um mágico. No terceiro episódio da nova temporada, lembremos que o milho intoxicante do duplo mal de Cooper manda alguns policiais para o hospital e faz Dougie Jones em seguida ir para o Black Lodge.

4) No filme, o Homem de Um Braço Só é um dos que portam o anel da Coruja. Este anel é usado por Teresa Banks (Pamela Gidley), a primeira vítima no filme, e entregue, num sonho, pelo Braço/Anão a Laura Palmer. Chester Desmond, quando investiga o assassinato de Teresa, desaparece depois de encontrar justamente esse anel embaixo do trailer dos Tremond (ou Chelfont). O anel vai ser entregue pelo Homem de um Braço Só a Laura Palmer no vagão de trem em que ocorre seu trágico desaparecimento, numa das sequências mais fortes da filmografia de Lynch. Em As peças que faltam, Annie Blackburn sairá do Black Lodge com este anel. Na terceira temporada, ele está sendo usado por Dougie Jones (MacLachlan) antes de dar espaço ao agente Cooper. No Black Lodge, quando Dougie desaparece, o anel é recolhido pelo Homem de Um Braço Só.

5) No início do sétimo episódio, Hawk (Michael Horse) e o xerife Truman (Robert Forster) analisam papéis encontradas numa porta do banheiro da delegacia. Eles são do diário de Laura Palmer, remetendo a uma passagem do filme. Depois de ter um sonho, Laura sente o braço adormecer, como aconteceu com Teresa Banks e, quando acorda, vê Annie Blackburn (Heather Graham) ao seu lado (Annie é a namorada de Dale Cooper na série, a qual ele tenta resgatar do Black Lodge), assim como o anel em sua mão (num close exatamente igual, em sua mão ao que Lynch faz na mão de Paul Atreides quando este segura o anel deixado pelo pai em Duna). Annie diz para Laura anotar em seu diário que o bom Cooper está preso no Black Lodge e é exatamente o que leem Hawk e Truman. Toda essa parte simboliza, não há dúvida, numa tentativa de Lynch vincular Laura com o agente que, no futuro, investigará sua morte, sem saber o que é futuro ou é passado.

6) Outro elemento interessante é que David Lynch utiliza a eletricidade como uma espécie de sinal de que há figuras do Black Lodge ou do White Lodge. Vejamos que no filme, quando Laura está indo para a escola, ela vê postes de luz com imagens em chuviscos de uma televisão. Também ela parece ficar sob domínio do ventilador de sua casa. Num determinado momento no qual os agentes do FBI Desmond e Stanley visitam o trailer de Teresa Banks e surge uma senhora quase anã cobrindo um dos olhos com uma bolsa-d’água, David Lynch destaca duas tomadas de luz – e é exatamente por uma tomada que o agente Cooper consegue sair do Black e do White Lodge. Nisso, surge um poste de eletricidade com o som indígena feito pelo Braço/Anão e na reunião da Loja de Conveniência Bob diz “Electricity”. Do mesmo modo, o agente Cooper e Gordon Cole veem que Philip Jeffries visitou realmente o FBI por meio de uma gravação em vídeo, sendo que numa das imagens ao lado aparece Chester Desmond: é como se os personagens estivessem presos na eletricidade do Black Lodge. Na terceira temporada, veja como David Lynch filma Richard Horne (Eamon Farren) depois de ter atropelado uma criança (com os postes de eletricidade logo acima de sua imagem).

7) Nesta terceira temporada, finalmente temos mais conhecimento do que seriam os casos encaixados na modalidade “Blue Rose”. Quando o agente Chester Desmond conhece Lil em Twin Peaks – Fire walk with me, ela traz em seu vestido uma rosa azul. Os casos “Blue Rose” são aqueles não explicados normalmente, ou seja, com elementos sobrenaturais. Gordon Cole e Albert Rosenfield falam disso ao final do quarto episódio. Já no terceiro episódio, o agente Cooper ainda não tomou o lugar de Dougie Jones, ele sobe num cubo suspenso no espaço sideral e vê a imagem do Major Briggs (Don S. Davis) passando nas estrelas e soletrando exatamente “Blue Rose”. Não há como ficar mais azul que isso, como diz Gordon Cole a Albert Rosenfield ao final do quarto episódio, em uma cena filmada apropriadamente com um tom da cor mencionada.

8) Na terceira temporada, temos o ressurgimento de Carl Rodd (Harry Dean Stanton), responsável pelo parque de trailers onde morava Teresa Banks e que é interrogado pelos agentes Chester Desmond e Sam Stanley e depois conhece o agente Cooper. No episódio 6, ele testemunha a alegria de uma mãe e seu filho antes de acontecer algo trágico na mesma esquina em que o Homem de um Braço Só, no filme Twin Peaks – Fire walk with me, avisa a Laura que o culpado é seu pai. Rodd enxerga a imagem de uma alma saindo da criança, mostrando que é um personagem-chave desse universo enigmático.

9) O White Lodge, no oitavo episódio da nova temporada, tem um cenário com um grande sino ligado à eletricidade. Em Twin Peaks – Fire walk with me, há a imagem de um sino na parede do escritório de Gordon Cole. Não se trata de coincidência, à medida que nessa temporada há tanto o quadro com a imagem da bomba atômica numa parede ao fundo quanto uma pintura com uma espiga de milho, remetendo ao “garmonbozia” (e não esqueçamos da fotografia de Franz Kafka).

10) Ainda tratando do episódio 8, um dos traços mais interessantes é o que nos revela o desenho da Caverna da Coruja, que aparece no episódio 20 da segunda temporada: 1) Gigante do White Lodge e o Braço/Anão do Black Lodge; 2) O mesmo círculo de woodsmen que vemos no episódio 8 ao redor do duplo mal de Cooper; 3) Os sinos de eletricidade do White Lodge; 4) A imagem do fogo; e 5) e 6) Imagens que remetem à bomba atômica que explode no oitavo episódio.

11) O misterioso cavalo branco, que aparece numa das alucinações de Sarah Palmer (Grace Zabriskie) em Twin Peaks – Fire walk with me, assim como na série dos anos 90, e reaparece na terceira temporada, uma vez no Black Lodge e outra na mensagem deixada pelo Woodsman na rádio de White Sands, México, em 1956, será um dos elementos que podem ajudar a explicar o que está acontecendo aqui?

12) Lynch mostra no episódio 8 a concepção de Laura Palmer a partir do White Lodge dentro de uma esfera dourada e que dialoga com a figura do anjo que ela vislumbra no final de Twin Peaks – Fire walk with me. É como se ela fosse destinada a barrar a imagem da maldade no mundo, mesmo sob o peso do que lhe aconteceu em vida. Trata-se do oposto do que acontece a Leland, suspenso no ar, e cujo “garmonbozia” o Braço/Anão exige da figura de Bob no filme. O sangue, ao final, transformando-se em creme de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do Braço/Anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o creme de milho. É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a Senhora do Tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. Numa das cenas deletadas de Twin Peaks – Fire walk with me incluídas em As peças que faltam, o Major Briggs lê passagens bíblicas do Apocalipse, que remetem ao mesmo tempo à figura do anjo, fundamental para entender a narrativa. Mostra como Lynch trabalha de maneira extremamente simbólica esse universo, respeitando o espectador na mesma medida em que não deixa nada muito explicado. É uma arte verdadeira, repleta de pontos de ligação.

Mais sobre Twin Peaks aqui.

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5 Comentários

  1. Eu mesmo

     /  3 de agosto de 2017

    Cara, muito do Raciocínio tá certo, mas tem cada forçada…

    Responder
  2. Eu mesmo

     /  3 de agosto de 2017

    Laura comendo cereal, virou milho.
    Sino da Filadélfia virou o equipamento do white logde, como vc afirma que o detetive desmonte tá entrando no FBI… Jeffrei conta o dia do assassinato da Laura? Bob entra bela boca, ou pela janela do quarto da Laura? Jeffrei conta numa conversa em sonho a Cole? Cara tá massa o texto mas tem muita bobagem junto…

    Responder
    • André Dick

       /  3 de agosto de 2017

      O cereal nesse caso simboliza o creme de milho. Por que Lynch filma o prato dela do mesmo modo que filma o prato de creme de milho na reunião entre Bob e o Anão/Braço no Black Lodge? O que vendem numa loja de conveniência? Cereal (com flocos de milho, para ser mais direto). Veja a cena dos irmãos Mitchum no capítulo 11 da nova temporada: um dos irmãos come milho com leite e o outro cereal. O sino da Filadélfia é uma ponte lógica com o White Lodge, na pintura (quando é uma versão possivelmente da arquitetura inicial, não a terminada) ou quando é visualizado na primeira vez antes de mostrar Cooper. Não por acaso há também a bomba atômica no escritório na terceira temporada: o FBI é uma extensão dos enigmas apresentados. Quanto ao detetive no vídeo ser Desmond, basta ver numa tela ampliada e não na tela do computador. Sim, Jeffries fala o dia do assassinato de Laura, em 1989 (quando a série começou a ser gravada), e caso se trate de um sonho ainda maior a ligação com esse universo. A analogia entre Bob e o inseto é que os dois entram pela janela. Não são bobagens; são analogias e requisitam ter visto a série e o filme, além de As peças que faltam (extras de Twin Peaks – Fire walk with me), com certa atenção, é claro.

      Responder
  3. Pedro Armindo

     /  7 de setembro de 2017

    Olá. Ótimo conteúdo esse artigo. Mas poderia fazer uma linha do tempo para eu entender e poder assistir na ordem. A temporada de 2017 então é a terceira? Precisa assistir as outras 2 pra entender, pq, pensa e um negócio complicado.

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