Twin Peaks – Segunda temporada (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

A segunda temporada de Twin Peaks inicia com um episódio excelente – dirigido por David Lynch –, no qual o agente Cooper (Kyle MacLachlan) é visitado por um senhor atendente do hotel, Senhor Droolcup (Hank Worden), e, em seguida, por um gigante (Carel Struycken), que lhe dá novas pistas, enquanto se encontra baleado no chão. Vários personagens procuram ainda se recuperar do que aconteceu ao final da primeira temporada: Shelley Johnson (Mädchen Amick) e seu marido Leo (Eric DaRe), Pete Martell (Jack Nance), Dr. Jacoby (Russ Tamblyn) e Ronette Pulaski (Phoebe Augustine) são alguns que estão no hospital da cidade. Shelley passa a cuidar de Leo, junto com Bobby (Dana Ashbrook), enquanto Donna Hayward (Lara Flynn Boyle) começa a trabalhar entregando almoços para Norma Jennings (Peggy Lipton), função de Laura Palmer antes de sua morte, e vai à casa dos Tremond: uma avó (Frances Bay) e seu neto, Pierre (Austin Jack Lynch, filho de David), peças-chaves do filme Twin Peaks – Fire walk with me e que são do Black Lodge. Ambos falam do amigo de Laura, Harold Smith (Lenny von Dohlen), que guarda seu diário secreto e mora na casa ao lado. Mais segredos se pronunciam quando o pai de Laura diz a Cooper e ao xerife conhecer o homem retratado por Philip Gerard (Al Strobel), chamado Bob; seria um antigo vizinho da praia aonde ia com a família, na infância, e o assustava jogando fósforos acesos nele. Mas não apenas com o caso de Laura Palmer Cooper está preocupado: ele teme pelo desaparecimento de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), embora tenha pistas de que possa estar no Jack Caolho’s.

O Great Northern se transforma numa espécie de Overlook de O iluminado (há, inclusive, uma arquitetura indígena e Ben Horne (Richard Beymer) encenando a Guerra Civil norte-americana, enquanto seu filho lança flechas contra imagens de búfalos), com fantasmas eventualmente andando pelo hotel, tentando ajudar Dale Cooper e nesse sentido a série deriva para o terror e suspense.
Só isso explica por que no episódio 15, ao mesmo tempo em que vemos Cooper, o xerife Truman (Michael Ontkean) e a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) na Roadhouse, ouvindo Julee Cruise contra uma cortina vermelha e sob uma luz em tom amarelo, descobrimos o assassino – numa das sequências mais violentas já filmadas para a TV. O mesmo gigante que ofereceu pistas a Cooper surge no palco e avisa: “está acontecendo de novo”. Essa revelação, segundo os planos originais de Lynch, não seria feita, pois ele gostaria de ter conservado o segredo, sem os espectadores saberem a identidade do assassino.
A partir dessa nova tragédia, a luta de Cooper e do xerife Truman (Michael Ontkean) é para descobrir qual espécie de mal ameaça Twin Peaks, fazendo-os se aproximar do Major Briggs (Don S. Davis) – pai de Bobby –, que diz haver na floresta da cidade um Black Lodge, com uma passagem para outra dimensão. As pistas do Major levam Cooper e o xerife à Caverna da Coruja, que ajuda a solucionar a ligação com esse universo paralelo à cidade. Neste ponto, a série se direciona a um contexto mais surreal, pois, ao mesmo tempo, chega à cidade Windom Earle (Kenneth Welsh), um ex-agente federal enlouquecido, querendo se vingar de Cooper.

As críticas a esta segunda temporada em relação à primeira aconteceram sobretudo porque David Lynch teria deixado muitos episódios nas mãos de outros roteiristas e diretores. É visível que seus substitutos tentaram desenvolver tramas paralelas – Nadine (Wendy Robie) se apaixonando por Mike Nelson (Gary Herschenberg), amigo de Bobby; o próprio James Hurley (James Marshall) indefinido entre se envolver com Donna e com uma mulher misteriosa, Evelyn Marsh (Annette McCarthy); negócios escusos de Benjamin Horne com um presidiário, Hank (Chris Mulkey), marido de Norma (Peggy Lipton); a paixão de Audrey Horne por um milionário que chega ao hotel, John Justice Wheeler (Billy Zane); o casamento do prefeito Dwayne Milford (John Boylan) com uma jovem, Lana (Robyn Lively); o triângulo entre Lucy (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e Dick Tremayne (Ian Buchanan), entre outras –, mas o fizeram com uma combinação entre drama, surrealismo e comédia. São essas tramas aparentemente deslocadas, criadas na maior parte por Robert Engels, Harley Peyton, Barry Pullman, Scott Frost e Tricia Brock que conseguem revitalizar o interesse pela trama depois da descoberta de quem assassinou Laura Palmer. Mais do que a primeira, a segunda temporada revela alguns lugares-comuns de uma pequena cidade, mas que adquirem grande significado. Tudo nos faz sentir ser mais uma investigação sobre o comportamento dos habitantes do que exatamente uma procura do FBI em desvendar um crime.

O clima também supera em muitos momentos os defeitos possíveis (a fotografia irretocável de Frank Byers, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete na qual os personagens se reúnem, e ajuda a desenhar boa parte da série. Temos, com esse clima, o desenvolvimento de novas tramas interessantes: a chegada de um novo agente federal, Denise Byrson (feito por David Duchovny, de Arquivo X); do chefe de Dale Cooper, Gordon Cole (em ótima participação do próprio David Lynch); a descoberta do xerife de que Josie (Joan Chen) tem segredos e que o marido dela, Andrew Packard (Dan O’Herlihy), não morreu como se imaginava; a investigação da chegada de drogas em Twin Peaks, fazendo com que Jean Renault (Michael Parks) aponte Cooper como o responsável pelo “pesadelo em que se transformou Twin Peaks”; o encontro do agente do FBI com uma nova atendente da lanchonete, Annie Blackburn (Heather Graham), irmã de Norma Jennings, por quem se apaixona e é peça-chave no final da série. Blackburn surge na série num momento em que Cooper precisa enfrentar seu passado, por meio da figura de Earle, e é uma personagem complexa. Ela estava num convento antes de sair e tentou cometer suicídio, sendo uma espécie de representação feminina do próprio agente Cooper, à procura da beleza novamente de Twin Peaks depois de passagens tão nebulosas, da paixão que teve pela esposa de Windom Earle e do pesadelo a que se referiu Renault. O interessante é que Annie adentra a série sendo enquadrada junto ao Major Briggs no Double R, como se a figura dela adiantasse o que acontecerá ao final. É Annie também que vai falar a Cooper que o desenho dele, baseado em alguns sinais, lembra o da Caverna da Coruja, que fica na cidade.

Os personagens visivelmente ganham intensidade de uma temporada para outra, como Albert Rosenfield, feito por Miguel Ferrer (um dos melhores da série, e talvez esquecido, em comparação com os demais), embora se perca um pouco o lado juvenil – com um interesse forçado entre Audrey e Bobby Briggs, por exemplo –, não diminuindo, porém, o impacto de vermos essa história contada em detalhes. Nisso tudo, a atuação do elenco, mesmo quando o roteiro não se mostra tão interessante, é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, James Marshall, Heather Graham, Billy Zane – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas ficaram marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).
As imagens dos semáforos, dos bosques da cidade e da coruja ameaçadora (e da Caverna da Coruja, que ajuda a criar mais elementos para a mitologia da série e se corresponde com o filme e a terceira temporada) intensificam a percepção de medo, assim como o destino de alguns personagens (como o de Leo).

Twin Peaks atravessa um terreno, da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acabou afastando muitos espectadores que não conseguiram à época do lançamento desses episódios associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não por acaso, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, embora o distúrbio seja de origem desconhecida (alguns personagens começam a sentir seus braços dormentes, o que se reproduzirá no filme, com Teresa Banks e Laura Palmer e na terceira temporada com Dougie Jones). Nesse sentido, esta segunda temporada ajuda a estabelecer a terceira, com seus temas misteriosos ligados ao Major Briggs, envolvido com o projeto “Rosa Azul”, do FBI: o White Lodge e o Black Lodge são temas suscitados no acampamento de Cooper com o Major, quando este desaparece, e por Hawk, ligando-os aos temas indígenas da cidade.

Quando Windom Earle (numa ótima atuação de Walsh) surge na perseguição a Cooper tudo parece uma desculpa exatamente para descobrir esses dois lugares que se encontram em Twin Peaks. “O amor e o medo abrem os portais”, diz Briggs em determinado momento, para Cooper entender que o amor abre o White Lodge e o medo o Black Lodge. Quando, em alucinação depois de capturado por Earle, ouve seu nome Garland, o Major Briggs se pergunta: “Judy Garland?”. Lembremos que Philip Jeffries falava em Judy em Twin Peaks – Fire walk with me e o duplo mal de Cooper quer saber quem é ela na terceira temporada. Ou seja, se alguns dos temas apresentados na segunda temporada pareciam deslocados e mesmo mal encaixados, se fazem mais fortes numa revisão. Nesse sentido, os temas que teriam desvirtuado Twin Peaks são exatamente os que mantêm o seu retorno. Do mesmo modo, embora David Lynch tenha dirigido os episódios 9, 10, 15 e 30 (alguns dos melhores das três temporadas), deve-se destacar as direções de Caleb Deschanel (conhecido diretor de fotografia, pai de Zoe), Diane Keaton, James Foley, Tim Hunter (diretor de Tex), Uli Endel (diretor alemão) e Lesli Linka Glatter (que seria reconhecida recentemente pela série Homeland), entre outros, em alguns deles. Esses diretores ajudam a dar uma ambientação clássica à série, mas, ao mesmo tempo, completamente nova, em meio a cenários campestres ou do Greath Northern, sugerindo uma espécie de viagem aos anos 50.

E deve-se dizer que o episódio final da série, dirigido por David Lynch, é, por mais estranho que pareça, o mais fiel ao que vimos antes. Há pelo menos em torno de 20 minutos com material completamente imprevisto para a televisão – quando Cooper entra na sala vermelha do Black Lodge, no Bosque Glastonbury (que Cooper liga ao Rei Arthur), da Floresta Ghostwood, em meio aos sicômoros, e tenta salvar Annie, precisando se deparar com o anão/Braço, com Laura, seu pai, Leland, Bob e seu outro eu. Essas imagens são excepcionalmente fotografadas por Frank Byers (num dos trabalhos mais exitosos da história da TV), e criam um laço direto com o filme de 1992, pois este poderia também ser parte do final daquele, e a terceira temporada. Este episódio final praticamente adianta a questão dos duplos que acompanhamos na terceira temporada, além do surrealismo muito mais explícito e bem dosado que caracterizaria também o retorno da série. Há um diálogo principalmente com o estilo de Coração selvagem, com o qual Lynch havia recebido a Palma de Ouro em Cannes um ano antes, mais exatamente nas sequências do protesto de Audrey no banco de Twin Peaks, contra Ghostwood, da reunião entre o Dr. Jacoby com Big Ed, Nadine e Mike, além do confronto de Dr. Hayward e Ben Horne. Também se destaca que As peças que faltam, extras de Twin Peaks – Fire walk with me, mostram o que acontece exatamente depois do final da segunda temporada, fazendo parte mais uma vez da mitologia que cerca esses personagens de uma série primorosa.

Twin Peaks – Season 2, EUA, 1991 Diretores: David Lynch, Graeme Clifford, Caleb Deschanel, Duwayne Dunham, Uli Edel, James Foley, Mark Frost, Lesli Linka Glatter, Stephen Gyllenhaal, Todd Holland, Tim Hunter, Diane Keaton, Tina Rathborne, Jonathan Sanger Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Miguel Ferrer, Warren Frost, Russ Tamblyn, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Catherine E. Coulson, Eric DaRe, Peggy Lipton, Don S. Davis, David Patrick Kelly, Russ Tamblyn, Victoria Catalin, Wendy Robie, Gary Hershberger, Michael J. Anderson, Frank Silva, Al Strobel, Heather Graham, Frances Bay, Austin Jack Lynch, Kenneth Walsh, Annette McCarthy, Chris Mulkey, Billy Zane, John Boylan, Robyn Lively, Ian Buchanan, Michael Parks, David Duchovny, Lenny von Dohlen, Hank Worden, Carel Struycken, Dan O’Herlihy Roteiro: David Lynch, Robert Engels, Mark Frost, Harley Peyton, Jerry Stahl, Barry Pullman, Scott Frost, Tricia Brock Fotografia: Frank Byers Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração (Temporadas 1 e 2): 1670 min.

Twin Peaks – As peças que faltam (2014)

Por André Dick

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Este texto contém spoilers

Depois do anúncio feito no ano passado, de que Twin Peaks estaria de volta em 2016, com nove episódios dirigidos por David Lynch, os rumos se modificaram com a notícia de que o cineasta estaria de fora da empreitada; no dia 15 de maio, no entanto, ele confirmou novamente sua presença, o que volta a criar expectativa. No ano passado, as duas primeiras temporadas já haviam sido lançadas em Blu-ray, trazendo também o filme, Twin Peaks – Fire walk with me (no Brasil, Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer). O material vem numa bela caixa, para os fãs da série, num item raro, basicamente utilizando a mesma confecção estrangeira, com cuidado sobretudo na apresentação das imagens icônicas da série e uma remasterização realmente impressionante (a imagem é irretocável).
O filme, por sua vez, é acompanhado ainda de um material extra, intitulado Twin Peaks – As peças que faltam (The missing pieces), que reserva 91 minutos de cenas estendidas ou deletadas, ou seja, compõe basicamente outra obra. Desde 1992, depois de David Lynch afirmar que teve de excluir muito material da versão final preparada para ser exibida no Festival de Cannes, há uma grande expectativa em conhecê-lo, e seu lançamento sempre foi adiado por questão de direitos autorais. No entanto, fotografias dispersas de algumas dessas cenas deram origem a petições para que fossem liberadas.
A exibição em Cannes, seguida por vaias, foi a primeira polêmica despertada pelo filme. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.

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Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de obras que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terrence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador. O interessante é como a peça de David Lynch foi recebendo mais atenção do que todos esses filmes, reunindo um culto não apenas por sua ligação com uma série referencial, mas sim por sua importância. Apesar de Lynch defendê-lo, o filme rendeu um hiato ao diretor de cinco anos, até A estrada perdida, período em que se questionou seu talento, como depois da realização de Duna.
Nesse sentido, As peças que faltam é uma espécie de homenagem aos fãs de Twin Peaks e um grande acréscimo para quem gosta de materiais complementares de uma obra. Nos últimos anos, não são poucas as experiências e materiais que cresceram com uma versão estendida do diretor: O portal do paraíso, de Michael Cimino; Cruzada, de Ridley Scott; Era uma vez na América, de Sergio Leone, O barco, de Wolfgang Petersen, e Vidas sem rumo, de Francis Ford Coppola, são alguns, além da trilogia O senhor dos anéis (ainda melhor em sua versão estendida). David Lynch preferiu não fazer uma versão estendida do filme, considerando que este já tem a metragem que gostaria, deixando os 91 minutos de extras como um material complementar, assim como fez com Veludo azul há alguns anos, que contém quase outro filme também em extras. Ele chegou, inclusive, a fazer uma festa de lançamento no cinema, em Los Angeles, para As peças que faltam. No entanto, o caso de Twin Peaks é mais interessante: Lynch precisou cortar o material que não se encaixava bem no filme do cinema, com as participações de personagens queridos da série de TV. Mas não apenas.

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Se o material com entrevistas reserva um encontro memorável de David Lynch com os atores Ray Wise (Leland Palmer), Sheryl Lee (Laura Palmer) e Grace Zabriskie (Sarah Palmer), com um humor corrosivo e relatos interessantes sobre a convivência nas filmagens, As peças que faltam inicia com imagens da investigação dos agentes Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) em Deer Meadow. Há uma ida estendida deles ao Hap’s Diner e depois a briga de Desmond com o xerife da cidade, Cable (Gary Bullock). Para os fãs de Chris Isaak, aqui tem uma participação mais longa dele, e esta briga, apesar de se entender por que foi excluída do filme, tem uma atmosfera típica da série, mais bem-humorada. Em seguida, Sam Stanley aparece com o agente Cooper, que ganha uma cena de acréscimo, uma conversa com Diane. Dessas cenas, o encontro com Sam Stanley é certamente a melhor; a de Cooper conversando à porta com Diane, sem que o espectador a veja, parece mais uma brincadeira de bastidores, embora Kyle MacLachlan faça valer sua presença.
Melhor é a participação mais detalhada do agente do FBI Phillip Jeffries, feito por David Bowie, que aparecia de relance no filme e aqui tem um destaque maior, transportando-se de um hotel na Argentina para a sede do FBI na Filadélfia; é um dos grandes momentos aterrorizantes da obra de David Lynch, e Bowie sabe como lançar um personagem surpreendente, como já fez em outras experiências suas no cinema, como Fome de viver e Furyo – Em nome da honra. Também interessante é quando o agente lembra de sua passagem pelo Black Lodge, atrás da misteriosa Judy, onde estão Bob (Frank Silva) e o anão (Michael J. Anderson), e fala, com o rosto sobre a mesa, exatamente a data em que Laura Palmer será morta. Essas sequências transformam o material num item necessário para a compreensão de alguns detalhes, e principalmente a reunião no Black Lodge mostra que Twin Peaks envereda pelo gênero do terror, como parte da segunda temporada da série.

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Quando a história chega a Twin Peaks, temos sequências de Laura Palmer em convivência mais normal com seus pais – o que não acontece no filme oficial –, inclusive uma reunião em que Leland Palmer quer ensinar à mulher (Zabriskie, finalmente com maior oportunidade de aparecer) e a Laura como falar algumas palavras em norueguês, lembrando que é um comitiva da Noruega que está no Great Northern Hotel no início da série de TV. Leland adentra a sala como se fosse o personagem de Jack Nicholson em O iluminado. Também mostra Laura tendo um encontro mais demorado com Donna Hayward (Moira Kelly) e seus pais, o Dr. Will (Warren Frost) e Eileen (Mary Jo Deschanel), revelando uma normalidade familiar que não encontra em sua casa. Essas cenas são muito importantes tanto para a mitologia de Twin Peaks quanto para a compreensão do filme lançado nos cinemas: Dr. Hayward fala da figura do anjo a Laura – símbolo que será determinante a seu final – e faz um truque de mágica ligado à aparição de uma rosa vermelha (outro símbolo do roteiro, ligado à personagem de Lil); ele diz que a mágica havia dado certo no trecho da estrada em que Laura, afinal, virá a desaparecer (um detalhe colocado discretamente por Lynch). Nessas cenas, deve-se destacar não apenas a presença de Kelly, mas, principalmente, a atuação excelente de Frost.
Há também sequências de Laura com o namorado Bobby Briggs, editadas no filme oficial. Uma delas mostra Laura chegando à casa de Bobby, enquanto a mãe e o pai deste estão sentados na sala. O Major Briggs (Don S. Davis) lembra passagens bíblicas do Apocalipse, que remetem também à figura do anjo, fundamental para entender a narrativa de Twin Peaks – Fire walk with me. Além de David Lynch dar mais espaço ao cenário da casa – que no filme se restringe ao porão onde está Bobby (em mais uma excelente participação de Dana Ashbrook) –, e filmar exatamente como em algumas sequências do piloto da série (a câmera mais estática), ele novamente desenvolve esse encontro ou afastamento de Laura da vida familiar.
O contato de Laura com Donna rende igualmente uma sequência de ida das duas ao Canadá que dialoga certamente com o material que Lynch apresentaria anos depois em A estrada perdida. Não só a atriz Sheryl Lee, injustamente esquecida, e que depois faria pequenas participações em obras como Inverno da alma e Pássaro branco na nevasca, consegue mesclar diferentes tons em sua atuação como Laura. Ela divide a cena principalmente com Donna Hayward – e, ao contrário de muitos admiradores da série, não acredito que Lara Flynn Boyle faça exatamente falta. A atriz Moira Kelly, que no mesmo ano, 1992, fazia a namorada de Charlie Chaplin no filme biográfico com Robert Downey Jr., traz um certo ar de ingenuidade que Flynn Boyle não possui e se imagina como o personagem de Donna, na série de TV, teria crescido com sua participação. Se em Twin Peaks – Fire walk with me a sua participação era marcante, aqui, principalmente na conversa que tem com Laura, mais extensa do que no filme, ela ainda traz mais interesse para a dualidade que trava com a amiga. O clima noturno da sequência que desemboca no Canadá dialoga com aquele visto no início de Cidade dos sonhos.

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E temos, em determinado momento, Laura Palmer sendo hipnotizada pelo ventilador de teto, reproduzindo uma sequência que se encaixaria perfeitamente em Império dos sonhos. Ou seja, como realmente Twin Peaks sempre anunciou, esta obra antecipa o David Lynch do final dos anos 90 e início dos anos 2000.
Do mesmo modo, há sequências mais longas do relacionamento entre Teresa Banks (Pamela Gidley) e Leland Palmer – que no filme se mostram com uma edição bastante concentrada. Nos extras, Lynch destaca mais o Blue Diamond Motel, onde está Teresa, fazendo, inclusive, uma analogia entre o anel da coruja carregado por alguns personagens e o diamante que caracteriza a fachada do Motel. Em meio a essas conversas entre Banks e Leland, temos outra participação de Jacques Renault (Walter Olkewicz).
Há outras passagens que conferem uma lembrança justa aos personagens da cidade, mas não se sentiriam encaixadas de maneira clara no filme: a ligação de Ed Hurley (Everett McGill) com Nadine (Wendy Robie) e Norma Jennings (Peggy Lipton); o xerife Harry Truman (Michael Otkean), preparando-se para apanhar um traficante com Andy Brennan (Harry Goaz), Tommy (Michael Horse) e a assessoria de Lucy Moran (Kimmy Robertson); uma conversa na madeireira entre Pete (Jack Nance) e Josie (Joan Chen) com o senhor que trabalha no banco no último episódio de Twin Peaks, Dell Mibbler (Ed Wright); os atritos entre Leo (Eric Da Re) e Shelly (Mädchen Amick). E do mesmo modo temos, numa breve aparição, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson). São particularmente boas aquelas sequências em que Ed escuta com Norma a música de Angelo Badalamenti na caminhonete, e a conversa na madeireira, de extrato surreal próprio da série. A maneira como Lynch os traz de volta mostra seu carinho com esses personagens e complementa o filme, mesmo que de forma menos clara.

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De modo geral, acredita-se que todas as cenas em que Laura Palmer aparece – inclusive aquela em que recebe o telefonema do psiquiatra, Dr. Lawrence Jacoby (Russ Tamblyn) – deveriam ter sido mantidas no filme oficial, assim como a participação estendida de Phillip Jeffries, que traria acréscimos à história, e o encontro de Cooper com o agente Stanley. Outras poderiam ter mescladas, talvez não com a mesma duração, pois o ritmo de Twin Peaks – Fire walk with me tem uma falsa lentidão, sendo, na verdade, muito ágil (apesar de seus 135 minutos). O importante de As peças que faltam, além de ser um complemento vital de Twin Peaks, é o cuidado com que David Lynch retomou este material: além de as cenas inéditas terem a mesma qualidade de imagem do filme oficial, receberam um tratamento sonoro, musical (com a colaboração sempre vital de Angelo Badalamenti) e visual claramente de acordo com os tempos atuais, como o teletransporte de Jeffries ou a imagem em que Laura Palmer se encontra embaixo do ventilador. Mostram como David Lynch tinha uma noção exata de que o filme não era apenas a continuação da série, e sim uma outra linguagem. Mais pesado do que a série, Twin Peaks – Fire walk with me também conserva experimentos poucas vezes visto, acentuados com este material, como na passagem de Jeffries, a reunião no Black Lodge e as sequências surrealistas com Laura Palmer. E existe ainda, ao final, algumas cenas que se passam depois do final da série de TV, com Annie Blackburn (Heather Graham), que dialogam, no entanto, com um símbolo existente apenas no filme. Twin Peaks – As peças que faltam só não é tão excelente, principalmente para os fãs, quanto a volta da série no ano que vem.

Twin Peaks – The missing pieces, EUA, 2014 Diretor: David Lynch Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Dana Ashbrook, Kyle MacLachlan, Madchen Amick, James Marshall, Mary Jo Deschanel, Warren Frost, David Bowie, Chris Isaak, Kiefer Sutherland, Everett McGill, Wendy Robie, Peggy Lipton, Michael Otkean, Harry Goaz, Michael Horse, Kimmy Robertson, Jack Nance, Joan Chen, Ed Wright, Don S. Davis, Russ Tamblyn, Catherine E. Coulson, Heather Graham, Gary Bullock, Pamela Gidley Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron Garcia Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 91 min.

Cotação 5 estrelas