Castelo de areia (2017)

Por André Dick

Depois de Guerra ao terror (mesmo que ele seja antecedido por Soldado anônimo), de Kathryn Bigelow, os filmes sobre a guerra no Iraque se tornaram cada vez mais comuns. Em Zona verde, Paul Greengrass tentou emular o estilo de Bigelow, que atingiu uma bela variação no excepcional A hora mais escura, assim como Clint Eastwood em Sniper americano. Eis que este ano, no projeto Castelo de areia, de Fernando Coimbra, distribuído pela Netflix, a Guerra do Iraque passa a ser um tema repetitivo e a abordagem feita aqui, segundo parte da crítica, é genérica.
Há três anos, Coimbra estreou à frente da direção com o superestimado O lobo atrás da porta, um thriller urbano com problemas de estrutura e, apesar do bom elenco, um tanto repetitivo. Castelo de areia, em que o diretor parte para um gênero completamente diferente, mostra a trajetória do soldado, Matt Ocre (Nicholas Hoult), que vai para o Iraque a fim de custear a sua universidade.

Depois do 11 de setembro, as tropas invadem palácios do governo (algumas cenas lembram Três reis) e, mais adiante, sob o comando do sargento Baker (Logan Marshall-Green), ele e alguns companheiros vão parar numa aldeia perigosa, Baquba, onde se encontra o capitão Syverson (Henry Cavill) e onde é preciso ajudar a população a ter água novamente, depois da destruição imposta pela invasão norte-americana. De todos, Ocre é o que mais não gostaria de estar ali – ele mesmo machucou sua mão a fim de ser dispensado –, e Castelo de areia mostra justamente seu verdadeiro ingresso na falta de sentido que constitui uma guerra. Eles são enviados ao lugar pelo sargento MacGregor (Tommy Flanagan) e pelo tenente Anthony (Sam Spruell), mas é o sargento Baker que prepara Ocre e seus companheiros, Chutsky (Glen Powell, em mais uma ótima atuação depois de Jovens, loucos e mais rebeldes!!), Enzo (Neil Brown Jr.) e Burton (Beau Knapp).
É estranho que Castelo de areia esteja sendo visto como um genérico, quando, a partir da figura humana de Ocre, numa atuação excepcional de Hoult, retrata mais os bastidores da guerra do que dela em si, sem nenhuma pretensão de ser revolucionário, e ainda assim entregando momentos de alta tensão, com embates verdadeiramente ameaçadores, no melhor estilo quase inventado por Bigelow. A ameaça dele surge de situações aparentemente tranquilas.

A fotografia de Ben Richardson (que já realizou belos trabalhos em A culpa é das estrelas e Indomável sonhadora) capta a paisagem iraquiana de modo desolada, mas é Coimbra que consegue desenvolver, em meio a ela, uma relação interessante entre os personagens. Não há também a presença de uma visão patriótica sobre os Estados Unidos: eles ingressam no Iraque a fim de instituir uma liberdade, entretanto o filme mostra que ajudou a constituir também, como se sabe, várias milícias que não apenas confrontavam os soldados norte-americanos como tentavam impedir qualquer maneira de se reerguer o que foi destruído, numa confusão completa entre habitantes e estrangeiros. O próprio símbolo do caminhão transportando água por um deserto, a fim de manter viva uma comunidade, é incomum, se levarmos em conta que estamos em uma guerra na qual não há diálogos evidentes.
O que mais chama atenção é o crescimento em pouco tempo como diretor de Fernando Coimbra. Seu trabalho de estreia se mostrava dotado de estilo, mas pouca substância: desta vez, estilo e substância se encontram, além de uma discrição na abordagem de um jovem que não queria estar na guerra, porém, finalmente, vê nela ideais de companheirismo que procura, no que dialoga bastante com A longa caminhada de Billy Lynn, filme mais recente de Ang Lee. Lá, Billy Lynn estava em dúvida justamente sobre seu papel na guerra, se deveria voltar a ela depois de estar em casa sendo homenageado por um gesto de batalha. Ocre trabalha no mesmo plano de insegurança e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento pessoal.

Há uma eficiência na transição de cenas e na parte técnica irretocável e, além da atuação de Hoult, Marshall-Green também tem outro desempenho ótimo, depois de encarnar um dos amantes de Madame Bovary, e Cavill, o atual Superman, se revela bem com certo bom humor. É uma pena que seu personagem não seja suficientemente desenvolvido. O roteiro de Chris Roessner, que participou da Guerra do Iraque, traz também uma boa ligação entre os personagens, sobretudo quando Ocre tem contato com o diretor de um colégio da região, Kadeer (Navid Negahban), mostrando menos maniqueísmo no tratamento de figuras iraquianas do que uma produção média de Hollywood, fazendo de Castelo de areia uma peça bastante especial do gênero. Ocre tem um comportamento autêntico de um jovem no campo de batalha: ele não quer ser Patton, um estrategista a fim de ganhar as batalhas mais improváveis, e sim sobreviver às ameaças que surgem, assim como proteger seus companheiros e permitir que se reconstrua uma parte do que foi destruído. Não se trata de enaltecer tropas norte-americanas e sim de reconhecer como a guerra apenas atrasa a verdadeira construção de qualquer país. Enxergar em Castelo de areia uma ode às tropas dos Estados Unidos contraria exatamente tudo o que o filme mostra ou deixa muitas vezes subentendido, reconhecendo a inteligência do espectador.

Sand castle, ING, 2017 Diretor: Fernando Coimbra Elenco: Nicholas Hoult, Henry Cavill, Logan Marshall-Green, Tommy Flanagan, Glen Powell, Beau Knapp, Neil Brown Jr. Roteiro: Chris Roessner Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Adam Peters Duração: 113 min. Produção: Mark Gordon, Justin Nappi, Ben Pugh Estúdio: 42, Treehouse Pictures Distribuidora: Netflix

Jovens, loucos e mais rebeldes!! (2016)

Por André Dick

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Houve uma dúvida quando o diretor Richard Linklater anunciou seu novo filme depois de Boyhood com uma temática calcada no seu clássico Jovens, loucos e rebeldes, dos anos 90, com Matthew McConaughey e Ben Affleck em início de carreira, que mostrava um jovem, Mitch Kramer (o ótimo Wiley Wiggins), ingressando na vida durante uma longa noite em que tentava encontrar seu grande amor. Parecia, sem dúvida, um regresso às raízes, mas talvez um passo atrás do que havia representado seu épico do cotidiano filmado em 12 anos e da trilogia que fez com Ethan Hawke e Julie Delpy sobre um casal que vai se conhecendo ao longo de diferentes anos. Mas, de certo modo, traz elementos já apresentados por Linklater mesmo em seus filmes menos expressivos (Escola do rock) ou subestimados (Fast food nation): um completo domínio sobre o fenômeno cotidiano das relações que podem se fortalecer, seja ao redor de um grupo composto pelo interesse musical ou por empuxes imigratórios para os Estados Unidos naquela que parece ainda a peça mais corrosiva sobre o universo ianque. Linklater sempre se destaca quando mostra núcleos, mais do que quando tenta experimentar na área de animações. Se poderia haver uma sequência para Boyhood (ainda não descartada pelo diretor), poderia ser exatamente esta obra.

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No que se adaptou para Jovens, loucos e mais rebeldes!! no Brasil, sem ser uma continuação direta, Linklater mostra um calouro de faculdade Jake (Blake Jenner), no Texas, em 1980, que se muda para uma casa onde ficará com seus futuros companheiros do time de beisebol: o companheiro de quarto Billy (Will Brittain), do interior texano, além de Finnegan (Glen Powell), Roper (Ryan Guzman), Dale (Quinton Johnson), e Plummer (Temple Baker). Esses personagens têm muito do personagem Randall “Pink” Floyd (Jason London), de Jovens, loucos e rebeldes, na sua indecisão de se tornar um jogador ou não. Desta vez, Linklater mostra essa parceria entre os potenciais jogadores de maneira calibrada, sem grande surpresa existencial para o que cada um pretende ser, e mesmo assim de forma elaborada. Eles estão ali simplesmente, para brincar ou não uns com os outros, para se fortalecer em cima de brigas forjadas, ataques à geladeira ou romances desacreditados. Em certos instantes, ele parece se fazer em cima de um roteiro livre, não fosse a arquitetura disfarçada pelo diretor nos momentos exatos.
Logo num passeio de carro pelo campus, Jake se encanta por uma jovem, Beverly (Zoey Deutch). Essa possibilidade de romance lembra muito o clima de Grease – Nos tempos da brilhantina, realçado pela fotografia excelente de Shane F. Kelly (um dos fotógrafos de Boyhood) e pelo design de produção e caracterização dos figurinos, características que diferenciam Linklater dos outros cineastas de sua geração, que parecem não ter a vivência necessária para reproduzi-los, o que se constata em outras obras suas dos anos 90, a exemplo de Slacker e SubUrbia. O romance de Linklater, nesse universo, vai além, contudo, da briga de gangues: esses são personagens que podem finalmente se encontrar e, quando se encontram, descobrir uma possibilidade de levar suas vidas adiante, nem que isso pertença apenas a uma fase.

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Numa reunião com o treinador, Gordon (Jonathan Breck), ainda são apresentados Brumley (Tanner Kalina), Jay (Juston Street) e Willoughby (Wyatt Russell), que parece saído diretamente de Woodstock. Nessa reunião, é determinado que eles não podem beber, usar drogas mais ilícitas nem levar mulheres ao lugar, o que não será seguido à risca. A casa vira um centro de diálogos das mais diversas espécies e troca de conhecimentos, LPs, vídeos de Além da imaginação e livros – e, em primeiro lugar, conversas que podem soar fúteis quando são parte da imaginação de Linklater e, sendo assim, muito boas. O fascinante uso do diretor de referências culturais sempre aumenta o interesse por seus filmes, não apenas na trilogia que fez com Hawke e Delpy (embora nela se exceda em alguns pontos), como também naqueles a princípio mais descompromissados e nos quais parece faltar justamente o que se consideraria uma cultura hermética.
A premissa do filme é muito simples, ao contrário da de Boyhood, mas o interessante é que a essência desse se mantém. Linklater novamente brinca com a cultura texana, de modo divertido e sem rótulos. A agilidade das relações é imensa, com uma espécie de visão iluminada do cotidiano, capturando uma atmosfera de mudança dos anos 70 para os 80, quase como se fosse uma continuação da série de TV Freaks and geeks (que, aliás, se inspirou muito nas obras iniciais de Linklater). Embora a trilha seja um tanto óbvia (devendo a Super 8), como é de praxe no cinema desse diretor, as atuações são ótimas, não apenas de Blake Jenner, como sobretudo de Glen Powell, bastante hilário em várias sequências, e Deutch, empregando uma graciosidade à sua personagem. Há, ao mesmo tempo, um uso de comédia sem ser forçado e de reflexão sem ser piegas nem dramática. Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

Everybody wants some!!, EUA, 2016 Diretor: Richard Linklater Elenco: Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Ryan Guzman, Austin Amelio, Glen Powell, Zoey Deutch, Jonathan Breck, Will Brittain, Dora Madison, Jay Niles, Temple Baker, J Quinton Johnson, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Michael Monsour Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Shane F. Kelly Produção: Ginger Sledge, Megan Ellison, Richard Linklater Duração: 117 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Annapurna Pictures / Detour Filmproduction / Paramount Pictures

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