Jovens, loucos e mais rebeldes!! (2016)

Por André Dick

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Houve uma dúvida quando o diretor Richard Linklater anunciou seu novo filme depois de Boyhood com uma temática calcada no seu clássico Jovens, loucos e rebeldes, dos anos 90, com Matthew McConaughey e Ben Affleck em início de carreira, que mostrava um jovem, Mitch Kramer (o ótimo Wiley Wiggins), ingressando na vida durante uma longa noite em que tentava encontrar seu grande amor. Parecia, sem dúvida, um regresso às raízes, mas talvez um passo atrás do que havia representado seu épico do cotidiano filmado em 12 anos e da trilogia que fez com Ethan Hawke e Julie Delpy sobre um casal que vai se conhecendo ao longo de diferentes anos. Mas, de certo modo, traz elementos já apresentados por Linklater mesmo em seus filmes menos expressivos (Escola do rock) ou subestimados (Fast food nation): um completo domínio sobre o fenômeno cotidiano das relações que podem se fortalecer, seja ao redor de um grupo composto pelo interesse musical ou por empuxes imigratórios para os Estados Unidos naquela que parece ainda a peça mais corrosiva sobre o universo ianque. Linklater sempre se destaca quando mostra núcleos, mais do que quando tenta experimentar na área de animações. Se poderia haver uma sequência para Boyhood (ainda não descartada pelo diretor), poderia ser exatamente esta obra.

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No que se adaptou para Jovens, loucos e mais rebeldes!! no Brasil, sem ser uma continuação direta, Linklater mostra um calouro de faculdade Jake (Blake Jenner), no Texas, em 1980, que se muda para uma casa onde ficará com seus futuros companheiros do time de beisebol: o companheiro de quarto Billy (Will Brittain), do interior texano, além de Finnegan (Glen Powell), Roper (Ryan Guzman), Dale (Quinton Johnson), e Plummer (Temple Baker). Esses personagens têm muito do personagem Randall “Pink” Floyd (Jason London), de Jovens, loucos e rebeldes, na sua indecisão de se tornar um jogador ou não. Desta vez, Linklater mostra essa parceria entre os potenciais jogadores de maneira calibrada, sem grande surpresa existencial para o que cada um pretende ser, e mesmo assim de forma elaborada. Eles estão ali simplesmente, para brincar ou não uns com os outros, para se fortalecer em cima de brigas forjadas, ataques à geladeira ou romances desacreditados. Em certos instantes, ele parece se fazer em cima de um roteiro livre, não fosse a arquitetura disfarçada pelo diretor nos momentos exatos.
Logo num passeio de carro pelo campus, Jake se encanta por uma jovem, Beverly (Zoey Deutch). Essa possibilidade de romance lembra muito o clima de Grease – Nos tempos da brilhantina, realçado pela fotografia excelente de Shane F. Kelly (um dos fotógrafos de Boyhood) e pelo design de produção e caracterização dos figurinos, características que diferenciam Linklater dos outros cineastas de sua geração, que parecem não ter a vivência necessária para reproduzi-los, o que se constata em outras obras suas dos anos 90, a exemplo de Slacker e SubUrbia. O romance de Linklater, nesse universo, vai além, contudo, da briga de gangues: esses são personagens que podem finalmente se encontrar e, quando se encontram, descobrir uma possibilidade de levar suas vidas adiante, nem que isso pertença apenas a uma fase.

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Numa reunião com o treinador, Gordon (Jonathan Breck), ainda são apresentados Brumley (Tanner Kalina), Jay (Juston Street) e Willoughby (Wyatt Russell), que parece saído diretamente de Woodstock. Nessa reunião, é determinado que eles não podem beber, usar drogas mais ilícitas nem levar mulheres ao lugar, o que não será seguido à risca. A casa vira um centro de diálogos das mais diversas espécies e troca de conhecimentos, LPs, vídeos de Além da imaginação e livros – e, em primeiro lugar, conversas que podem soar fúteis quando são parte da imaginação de Linklater e, sendo assim, muito boas. O fascinante uso do diretor de referências culturais sempre aumenta o interesse por seus filmes, não apenas na trilogia que fez com Hawke e Delpy (embora nela se exceda em alguns pontos), como também naqueles a princípio mais descompromissados e nos quais parece faltar justamente o que se consideraria uma cultura hermética.
A premissa do filme é muito simples, ao contrário da de Boyhood, mas o interessante é que a essência desse se mantém. Linklater novamente brinca com a cultura texana, de modo divertido e sem rótulos. A agilidade das relações é imensa, com uma espécie de visão iluminada do cotidiano, capturando uma atmosfera de mudança dos anos 70 para os 80, quase como se fosse uma continuação da série de TV Freaks and geeks (que, aliás, se inspirou muito nas obras iniciais de Linklater). Embora a trilha seja um tanto óbvia (devendo a Super 8), como é de praxe no cinema desse diretor, as atuações são ótimas, não apenas de Blake Jenner, como sobretudo de Glen Powell, bastante hilário em várias sequências, e Deutch, empregando uma graciosidade à sua personagem. Há, ao mesmo tempo, um uso de comédia sem ser forçado e de reflexão sem ser piegas nem dramática. Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

Everybody wants some!!, EUA, 2016 Diretor: Richard Linklater Elenco: Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Ryan Guzman, Austin Amelio, Glen Powell, Zoey Deutch, Jonathan Breck, Will Brittain, Dora Madison, Jay Niles, Temple Baker, J Quinton Johnson, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Michael Monsour Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Shane F. Kelly Produção: Ginger Sledge, Megan Ellison, Richard Linklater Duração: 117 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Annapurna Pictures / Detour Filmproduction / Paramount Pictures

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