A melhor escolha (2017)

Por André Dick

Depois de Boyhood e Jovens, loucos e mais rebeldes!!, o imprevisível Richard Linklater volta seu olhar para a Guerra, seja a do passado, seja a do presente, em A melhor escolha. Para isso, adapta um romance de Darryl Ponicsan, com a ajuda do próprio autor, relatando a história de Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell), que primeiro vai ao encontro de um antigo amigo com quem serviu no Vietnã, Sal Nealon (Bryan Cranston), atualmente dono de um bar. Ambos viajam para encontrar outro companheiro, Richard Mueller (Laurence Fishburne), que se transformou num pastor. Num jantar na casa de Mueller, onde conhece a esposa dele, Ruth (Deanna Reed-Foster), Doc revela que precisará da ajuda emocional dos dois para que possa enterrar seu filho, que acabou de perder na Guerra do Iraque. Para isso, eles precisam ir para uma base aérea localizada em Dover. Doc pretende se insurgir contra a ideia de uma homenagem militar nos moldes padronizados antecipadamente.

Linklater utiliza um argumento bastante simples para mostrar a complexidade do sistema norte-americano, voltado a uma tradição de guerra, e seu filme é quase um complemento de A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, além de travar um diálogo com A última missão, de Hal Ashby, dos anos 70, adaptado de um livro também de Ponicsan e que serve como prelúdio desta história. Em 2017, o roteirista de Sniper americano, Jason Haal, também dirigiu o interessante Thank you for your service, ainda inédito no Brasil, com Miles Teller, sobre três jovens que regressam da Guerra do Iraque com traumas em suas vidas, e também esta obra pode dialogar com o de Linklater.
A melhor escolha cresce quando mostra Charlie Washington (J. Quinton Johnson), o amigo do filho de Doc, que está presente na chegada do corpo e tem revelações a fazer sobre o que teria acontecido, contra a vontade do tenente coronel Willits (o ótimo Yul Vazquez), mas ainda mais mostra seu êxito com a química entre Carell (ator múltiplo, capaz de na mesma temporada entregar essa atuação e a de A guerra dos sexos), Fishburne e Cranston, os três extraordinários, que valeriam o filme por si só. Interessante como Linklater mostra os militares norte-americanos, longe do bom humor com que normalmente revela em suas peças sobre a juventude. Também não há nenhum sinal de suas experimentações com o universo da animação ou alguma nostalgia romântica que vemos em sua trilogia com Hawke e Delpy. E, embora Boyhood tenha inclinações políticas bastante claras, elas eram sobrepujadas pela narrativa existencial. A interação entre esses personagens lembra os melhores momentos de qualquer obra de Linklater, seja em seu descompromisso, seja em seu rigor com um certo sentimento perdido no tempo.

O filme poderia muito bem ficar numa certa teatralidade, com um número considerável de diálogos, mas o elenco exerce um atrativo muito grande e consegue tornar os temas mais evocativos do que se imaginava. Os companheiros são diferentes e complementares: Doc é discreto, Sal é um falastrão e Richard não tem praticamente nenhuma característica de quando os conheceu. O passado aqui se repete em ações e sob um céu soturno, que abre, no entanto, espaço para uma amizade que foge aos limites de tempo. Há um aproveitamento de cenários internos como se vê em poucos filmes, assim como uma espécie de transição entre lugares diferentes que remete também ao modo como os personagens se sentem, um tanto desamparados, com o auxílio de Shane F. Kelly, habitual diretor de fotografia de Kelly.
Os conflitos no que se refere a questões cotidianas, sociais ou políticas se concentram na humanidade que muitas vezes passa sem que se note. Nesse sentido, A melhor escolha trabalha uma visão social sobre a sociedade dos Estados Unidos, em suas angústias e expectativas diante de uma tradição de guerra. Os personagens parecem resistir para passar esse bastão adiante, também por meio de seus filhos, e é quando o filme de Linklater talvez melhor se expresse em sua visão sobre a solidão de oportunidades para uma reconciliação. Possivelmente é o momento mais político do diretor ao lado de Nação fast food – A rede de corrupção, na qual mostrava como a indústria de carne se fazia no interior dos Estados Unidos. Essas duas obras dialogam não exatamente pelo tema e sim por seus personagens em busca de uma explicação para sua existência, o que traz sempre um material muito amplo no caso de um cineasta talentoso e que apenas nesta década entregou uma obra-prima como Boyhood. A melhor escolha foi um dos filmes mais subestimados da temporada do Oscar, um verdadeiro encontro entre amigos que precisam redescobrir seu rumo.

Last flag flying, EUA, 2017 Diretor: Richard Linklater Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Deanna Reed-Foster, J. Quinston Johnson,Yul Vazquez Roteiro: Richard Linklater e Darryl Ponicsan Fotografia: Shane F. Kelly Trilha Sonora: Graham Reynolds Produção: Ginger Sledge, John Sloss Duração: 124 min. Estúdio: Amazon Studios, Big Indie Pictures, Detour Filmproduction Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

Jovens, loucos e mais rebeldes!! (2016)

Por André Dick

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Houve uma dúvida quando o diretor Richard Linklater anunciou seu novo filme depois de Boyhood com uma temática calcada no seu clássico Jovens, loucos e rebeldes, dos anos 90, com Matthew McConaughey e Ben Affleck em início de carreira, que mostrava um jovem, Mitch Kramer (o ótimo Wiley Wiggins), ingressando na vida durante uma longa noite em que tentava encontrar seu grande amor. Parecia, sem dúvida, um regresso às raízes, mas talvez um passo atrás do que havia representado seu épico do cotidiano filmado em 12 anos e da trilogia que fez com Ethan Hawke e Julie Delpy sobre um casal que vai se conhecendo ao longo de diferentes anos. Mas, de certo modo, traz elementos já apresentados por Linklater mesmo em seus filmes menos expressivos (Escola do rock) ou subestimados (Fast food nation): um completo domínio sobre o fenômeno cotidiano das relações que podem se fortalecer, seja ao redor de um grupo composto pelo interesse musical ou por empuxes imigratórios para os Estados Unidos naquela que parece ainda a peça mais corrosiva sobre o universo ianque. Linklater sempre se destaca quando mostra núcleos, mais do que quando tenta experimentar na área de animações. Se poderia haver uma sequência para Boyhood (ainda não descartada pelo diretor), poderia ser exatamente esta obra.

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No que se adaptou para Jovens, loucos e mais rebeldes!! no Brasil, sem ser uma continuação direta, Linklater mostra um calouro de faculdade Jake (Blake Jenner), no Texas, em 1980, que se muda para uma casa onde ficará com seus futuros companheiros do time de beisebol: o companheiro de quarto Billy (Will Brittain), do interior texano, além de Finnegan (Glen Powell), Roper (Ryan Guzman), Dale (Quinton Johnson), e Plummer (Temple Baker). Esses personagens têm muito do personagem Randall “Pink” Floyd (Jason London), de Jovens, loucos e rebeldes, na sua indecisão de se tornar um jogador ou não. Desta vez, Linklater mostra essa parceria entre os potenciais jogadores de maneira calibrada, sem grande surpresa existencial para o que cada um pretende ser, e mesmo assim de forma elaborada. Eles estão ali simplesmente, para brincar ou não uns com os outros, para se fortalecer em cima de brigas forjadas, ataques à geladeira ou romances desacreditados. Em certos instantes, ele parece se fazer em cima de um roteiro livre, não fosse a arquitetura disfarçada pelo diretor nos momentos exatos.
Logo num passeio de carro pelo campus, Jake se encanta por uma jovem, Beverly (Zoey Deutch). Essa possibilidade de romance lembra muito o clima de Grease – Nos tempos da brilhantina, realçado pela fotografia excelente de Shane F. Kelly (um dos fotógrafos de Boyhood) e pelo design de produção e caracterização dos figurinos, características que diferenciam Linklater dos outros cineastas de sua geração, que parecem não ter a vivência necessária para reproduzi-los, o que se constata em outras obras suas dos anos 90, a exemplo de Slacker e SubUrbia. O romance de Linklater, nesse universo, vai além, contudo, da briga de gangues: esses são personagens que podem finalmente se encontrar e, quando se encontram, descobrir uma possibilidade de levar suas vidas adiante, nem que isso pertença apenas a uma fase.

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Numa reunião com o treinador, Gordon (Jonathan Breck), ainda são apresentados Brumley (Tanner Kalina), Jay (Juston Street) e Willoughby (Wyatt Russell), que parece saído diretamente de Woodstock. Nessa reunião, é determinado que eles não podem beber, usar drogas mais ilícitas nem levar mulheres ao lugar, o que não será seguido à risca. A casa vira um centro de diálogos das mais diversas espécies e troca de conhecimentos, LPs, vídeos de Além da imaginação e livros – e, em primeiro lugar, conversas que podem soar fúteis quando são parte da imaginação de Linklater e, sendo assim, muito boas. O fascinante uso do diretor de referências culturais sempre aumenta o interesse por seus filmes, não apenas na trilogia que fez com Hawke e Delpy (embora nela se exceda em alguns pontos), como também naqueles a princípio mais descompromissados e nos quais parece faltar justamente o que se consideraria uma cultura hermética.
A premissa do filme é muito simples, ao contrário da de Boyhood, mas o interessante é que a essência desse se mantém. Linklater novamente brinca com a cultura texana, de modo divertido e sem rótulos. A agilidade das relações é imensa, com uma espécie de visão iluminada do cotidiano, capturando uma atmosfera de mudança dos anos 70 para os 80, quase como se fosse uma continuação da série de TV Freaks and geeks (que, aliás, se inspirou muito nas obras iniciais de Linklater). Embora a trilha seja um tanto óbvia (devendo a Super 8), como é de praxe no cinema desse diretor, as atuações são ótimas, não apenas de Blake Jenner, como sobretudo de Glen Powell, bastante hilário em várias sequências, e Deutch, empregando uma graciosidade à sua personagem. Há, ao mesmo tempo, um uso de comédia sem ser forçado e de reflexão sem ser piegas nem dramática. Jovens, loucos e mais rebeldes!! é talvez o filme mais alto astral da década até agora, uma placa de otimismo em meio a tantas obras à procura apenas de melancolia. Quando tudo é uma contagem regressiva para o início das aulas, a alegria pode ser descobrir que justamente o início de tudo se deu muito antes e que fechar os olhos pode abarcar ainda mais vida do que novas lições.

Everybody wants some!!, EUA, 2016 Diretor: Richard Linklater Elenco: Blake Jenner, Tyler Hoechlin, Wyatt Russell, Ryan Guzman, Austin Amelio, Glen Powell, Zoey Deutch, Jonathan Breck, Will Brittain, Dora Madison, Jay Niles, Temple Baker, J Quinton Johnson, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Michael Monsour Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Shane F. Kelly Produção: Ginger Sledge, Megan Ellison, Richard Linklater Duração: 117 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Annapurna Pictures / Detour Filmproduction / Paramount Pictures

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Boyhood – Da infância à juventude (2014)

Por André Dick

Boyhood.Filme 7Desde sua passagem pelo Festival de Berlim, Boyhood – Da infância à juventude vem se tornando o filme mais comentado de 2014. Os comentários normalmente partem do fato de que ele foi filmado em diferentes períodos ao longo de 12 anos, para mostrar a vida de Mason. Mas, apesar da singularidade que essa ideia representa, não é ela que o define. Sua direção é de Richard Linklater, que desde os anos 90 apresenta trabalhos de grande qualidade, como Jovens, loucos e rebeldes e a trilogia Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol/Antes da meia-noite, ao mesmo tempo que fez algumas animações revolucionárias, como Walking life. Linklater sempre teve grande afetividade por seus personagens, mas em alguns momentos ele os tornava expressões culturais ou os colocava em ação com um certo grau de definição prévia, um certo rótulo. Isso fica bastante claro em alguns momentos do recente Antes da meia-noite, quando, junto com a sensibilidade de mostrar o avanço na idade do casal Jesse e Celine, Linklater tenta reproduzir, por meio de cada um, determinados aspectos culturais, não sendo mais tanto os personagens mais descompromissados das duas primeiras partes.
Em Boyhood, Linklater novamente tem essa questão, à medida que a cultura vai se movimentando assim como os personagens: vemos quando criança Mason e sua irmã na fila para compra de um exemplar de Harry Potter, há referências a músicos de períodos enfocados (The Vines, Coldplay, Britney Spears, Lady Gaga), fala-se da saga Crepúsculo. Embora este traço pareça didático demais, assim como as referências políticas, elas não atrapalham o andamento do filme, porque basicamente ele trata das relações entre pais e filhos, e com ela vem a carga existencial de cada personagem. Por meio de Mason e da atuação surpreendente de Ellar Coltrane (pelas críticas, poderia se imaginar que seria o ponto mais delicado do filme e talvez seja o mais forte, mesmo com as notáveis presenças de Hawke e Arquette), Linklater consegue mostrar como um indivíduo vai se situando em meio à família, diante da separação do pai (Ethan Hawke) e da mãe (Patricia Arquette), e seu percurso, junto à irmã Samantha (Lorei Linklater, filha do diretor e muito convincente), pela escola e por círculos sociais. Primeiramente, mostra a convivência com a família do professor que a mãe conhece na universidade; depois, mostra sua trajetória, por diferentes cidades, de acordo com as mudanças de rumo tomadas pela mãe.

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Linklater não trabalha o roteiro de modo a trazer núcleos determinados, que chamem especial atenção do espectador, ou que sejam demarcados, nem com pontos-chave que sejam recuperados ao longo dos anos, mas de uma forma aparentemente dispersa, no entanto bastante orgânica, sem grandes saltos no comportamento dos personagens. Esta aparente dispersão, no entanto, e ela poderia se explicar também pelos saltos temporais nas filmagens, não atinge o núcleo do filme, nem o impede de ter diálogos que fluem de maneira preciosa, mesmo que não estejam interligados com clareza. Boyhood é um filme feito de diversos fragmentos, nenhum a princípio grande para render a motivação de uma história, que vão se interligando mais pelo sentimento afetivo que o espectador pode ter ou não com esses personagens; há filmes que, infelizmente, não atingem a todos porque depende do grau de sugestão de cada um. Caso se tome como parâmetro o roteiro e as motivações do personagem, Boyhood é banal – no entanto isto, me parece, é para quem vê a história de uma forma superficial, como se ela tivesse de desenhar uma trama delimitada, quando lembra mais uma reunião de sensações, mas de forma estranha realista, sem recorrer a esquemas ou experimentalismos visuais nem estilo documental.
Coltrane consegue tornar Mason num indivíduo que tenta se adaptar a cada situação, como se antevesse, por exemplo, o que sempre aconteceria com a mãe – e seus diálogos com o pai são interessantes e, dentro do comedimento, até emocionantes. Mason passa o sentido que imagino seja aquele que Linklater quis proporcionar: de solidão. A aparente dispersão do personagem, de nunca apresentá-lo em relações que se mantêm ao longo do tempo, ao mesmo tempo que vai se enquadrando em questões tradicionais da sociedade, se mostra proposital, e muito bem realizada por Linklater. Boyhood, neste sentido, é um filme sobre feridas que vão cicatrizando sem que muitas vezes o indivíduo, de algum modo sempre solitário, as perceba ou tente expressá-las de algum modo. Mais do que trazer algo extraordinário, ele prefere o olhar da criança se distanciando do bairro em que passou anos fazendo amigos que nunca mais verá. Não há nenhum elemento capaz de destacar o personagem em meio a outros: ele apenas vai se inserindo ou não em determinados ambientes, relacionando-se ou não com as pessoas, e a extensão do filme é valiosa para que se sinta essa percepção de independência do personagem, assim como foi, ano passado, com Adèle em Azul é a cor mais quente. Boyhood, nesse sentido, se assemelha muito ao filme de Kechiche: sua pretensa banalidade só pode ser entendida por quem consegue ingressar na vida daquele personagem central; caso contrário, não há resposta para o espectador, nem que ele busque alguma explicação na história.

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E tudo isso certamente não seria possível sem o elenco: o ator favorito do cineasta, Ethan Hawke, é um dos atores mais subestimados de Hollywood, e aqui, como em Antes da meia-noite, ele se revela decisivo para a narrativa, no sentido sobretudo emocional. Há uma grande empatia entre sua figura e as dos filhos, e Hawke nunca aparenta ser exagerado, mesmo quando a circunstância exige, sem reduzir seu personagem à questão de um “pai andarilho”. Patricia Arquette, como a mãe, também está excelente, mostrando o zelo e o cuidado, ao mesmo tempo em que revela a sua insegurança diante de suas decisões. E os coadjuvantes (como Marco Perella e Brad Hawkins) fazem um grande trabalho, cada um a seu modo.
Com a colaboração decisiva desses atores e uma discreta crítica ao estilo de vida do Texas, onde se passa o filme, Boyhood atua mais na intimidade do que na superfície, e Linklater finalmente demarca que se trata de um cineasta em verdadeiro crescimento. Ele não tenta emular as características de Terrence Malick, de A árvore da vida, embora também o tenha como referência (sobretudo numa passagem por um lago), e torna a fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly num apoio para fazer com que seus personagens não sejam apagados por uma necessidade de estilo visual, assim como reserva a montagem como seu trunfo: embora tenha quase três horas, Boyhood é ser um filme sem sobras, pelo menos para quem se envolve com a trama. É difícil avaliar que um filme seria mais indicado para pessoas não tão jovens, mas Boyhood, apesar de claramente também atender a um público dessa faixa, parece ter temas que podem ser melhor sentidos por quem já tem uma certa experiência de tempo (inclusive, em termos de metragem). Há um determinado momento em que Mason faz uma indagação ao pai, mais ao final, que talvez defina o filme. É uma indagação que surge não apenas do personagem, mas do espectador em relação a tudo o que foi visto, e que de alguma forma diz respeito à trajetória de cada um, no entanto é preciso ter uma certa distância da fase que o filme enfoca para conseguir senti-la verdadeiramente. É quando se sente que onde deveria haver uma transformação completa e um entendimento irretocável da vida que se preserva a dúvida do que, de fato, constitui a experiência humana. A indagação se revela simples e ainda assim sintetiza a jornada e o lugar-comum excepcional em que cada um pode se transformar. Desse modo, muito mais do que experimental, Boyhood é, de fato, uma grande experiência.

Boyhood, EUA, 2014 Diretor: Richard Linklater Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Marco Perella, Brad Hawkins Roteiro: Richard Linklater Fotografia: Lee Daniel, Shane F. Kelly Produção: Cathleen Sutherland, John Sloss, Jonathan Sehring, Richard Linklater Duração: 165 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Detour Filmproduction / IFC Productions

Cotação 5 estrelas

Antes da meia-noite (2013)

Por André Dick

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O casal Celine e Jesse se tornou conhecido do público em Antes do amanhecer, durante uma viagem de trem pela Europa, entrecortada por uma série inesquecível de diálogos pelas ruas de Viena, e quando se reencontrou nove anos mais tarde, em Antes do pôr do sol, na Cidade das Luzes. Antes da meia-noite, a terceira parte, novamente com Ethan Hawke e Julie Delpy, ambos também coautores do roteiro, com o diretor Richard Linkater, volta a mostrar esse casal, um dos mais memoráveis do cinema, entrando na progressão de um relacionamento. Possivelmente, nos anos 90, nenhum do trio (Linkater e o casal) imaginava o sucesso que teriam os personagens, figuras próximas do cotidiano. Ethan Hawke era um dos atores jovens que fizeram sucesso ainda quando criança (em Viagem ao mundo dos sonhos, e depois como aluno em Sociedade dos poetas mortos) tentando encontrar um espaço entre os atores adultos (espaço em que se destacou principalmente em Gattaca, Grandes esperanças, Dia de treinamento e o aflitivo Antes que o diabo saiba que você está morto), enquanto Delpy recém havia sido revelada na Trilogia das Cores de Kieslowski. A série em que vivem Celine e Jesse se transformou numa espécie de marcação também de suas carreiras, e nunca ambos estiveram tão bem quanto nesses filmes.
Já fica claro no início de Antes da meia-noite que o casal finalmente pôde ficar junto, quando, depois de deixar o filho, Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), no aeroporto, em direção à América, Jesse entra no carro onde o esperam não apenas Celine, como as filhas gêmeas. Agora as conversas desviam para o fato de que Celine necessita de uma segurança financeira e de uma profissão e não quer que as meninas saibam que não quiseram parar num ponto turístico da Grécia, enquanto Jesse mastiga os restos de uma maçã de uma das duas. Se o casal nos filmes anteriores misturavam uma espécie de afeto e um desejo de ficarem juntos, mesmo que a distância os separasse, aqui o filme causa uma estranheza pela proximidade que ambos têm. O espectador reconhece as lembranças de ambos de um período que afinal não acompanhou (nove anos separaram um filme do outro), e se no anterior se sentia uma espécie de descoberta das lembranças dos anos em que eles não se viram, aqui se acompanha um casamento não oficializado entrando na rotina de criação dos filhos e de histórias para amigos que encontram ao redor de um escritor, Patrick (Walter Lassaly), do qual partiu o convite para Jesse e Celine estarem na península do Peloponeso, na Grécia.

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A paisagem grega é utilizada por Linkater de maneira discreta e Christos Voudoris (que substitui Lee Daniels, dos dois primeiros) evoca uma tranquilidade como naquela cena em que as filhas do casal entram no mar. Nada é trabalhado no sentido de destacar a paisagem, como seria um elemento até natural num filme passado nesse país, mas de dar ênfase nas conversas entre o casal e, nesse sentido, Celine parece ser, sem dúvida, a mais afetada pelo romantismo que já não existe, embora Jesse faça o possível para mantê-lo com sua faceta literária e de turnês em busca da vendagem.
Celine sempre foi, desde o primeiro filme, insegura e Jesse sempre foi a figura que tenta transmitir um vigor nas palavras e nas ações, mas que acaba sendo mais inseguro do que ela. Nos anteriores, havia uma expectativa, para Jesse, de que Celine seria a mulher perfeita para sua rotina; aqui, como que descobre, também pela proximidade, que ela não conseguirá reproduzir a perfeição que coloca também em seu romance que conta sobre o primeiro encontro – e tinha um dia de lançamentos no segundo filme. Ela sente o mesmo quanto à figura idealizada de um homem, e as cobranças surgem a partir de uma possibilidade de mudança de país, com a justificativa de haver uma proximidade maior com o passado de Jesse. E o peso que ele dá à literatura desta vez afeta mais Celine, pois nos dois primeiros filmes tratava-se de uma presença abstrata, pois não conviviam juntos (alguns diálogos são um pouco menos espontâneos neste contexto, pois excessivamente centrados na metalinguagem). O receio é justamente o de dedicar um tempo que não voltará mais a uma relação, que era almejada com tanta certeza e sem volta nos dois anteriores, com os personagens sendo pressionados por um sentimento de perda tanto de seu espaço quanto de sua rotina.
Há alguns elementos biográficos de Hawke no desenvolvimento da história, e chega a ser surpreendente que um ator normalmente discreto, embora talentoso, consiga apresentar, aqui, uma interpretação tão adequada, em todas as suas nuances, apoiado pela sensibilidade de Delpy em deixar a cena seguir seu ritmo, sem atropelos de ambas as partes. Hawke sempre atinge sua melhor atuação quando não precisa chamar a atenção para sua presença, mas aqui ele consegue dividir como poucos fariam o espaço de cena com Delpy, mais ainda do que no segundo filme. Ele consegue, como Delpy, mostrar a passagem dos anos (algo que um ator como Johnny Depp não consegue, por exemplo).

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Antes da meia-noite

Embora Linkater em momento algum pretenda desenhar um movimento especial de câmera e, como nos demais, prefira lugares em que a conversa soe o mais natural possível, sem haver nenhuma intromissão visual, em Antes da meia-noite os diálogos se dão em lugares mais apertados, como se mostrassem a falta de liberdade do casal. Eles surgem com ainda mais vigor do que nos anteriores, embora se ressintam do mesmo estilo de condução e já sem a melancolia do afastamento e a imaginação de um amor capaz de salvar a todos do desgaste de um divórcio ou de trocar a vida e as viagens pelo cuidado com as filhas. Alguns deles acabam pesando, no sentido de que, independente da idade, o casal não deve ter uma pausa de tranquilidade.
De qualquer modo, a narrativa se costura com uma série de sequências sugestivas. Depois (spoilers) de uma conversa sobre anos de casamento, eles vão a uma capela histórica da ilha, e, mesmo que aparentem estar próximos, num lugar apertado, Linkater filma como se eles estivessem tentando se distanciar, ou pelo menos fugir da conversa central; em outro momento, o quarto do hotel se mostra o local mais indicado para esclarecer cobranças de ambas as partes, na sequência mais difícil de Delpy em toda a série e um tour de force de Hawke, capturado numa série de contradições, mas tudo isso pode ser sintetizado pelo fato de o casal fazer uma viagem inicial num carro, tentando mediar os conflitos interiores, ao mesmo tempo em que parece querer ignorar a paisagem externa.
Hawke e Delpy, ao contrário daquilo a que a narrativa os conduz, nunca se afastam. É justamente a proximidade que tem dos personagens que os torna tão essenciais para o público. Antes da meia-noite não possui o senso de descoberta de Antes do amanhecer nem a voltagem entre o cômico e o trágico de Antes do pôr do sol, mas é um filme sem dúvida indispensável, que consegue arrematar a relação duradoura e não tem sequer receio de evidenciar as camadas de pele e intimidade que um casal acaba servindo ao espaço e tempo de sua relação.

Before midnight, EUA, 2013 Diretor: Richard Linklater Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Yannis Papadoulos, Panos Koronis, Walter Lassaly, Xenia Kalogeropoulou Produção: Christos V. Konstantakopoulos, Richard Linklater, Sara Woodhatch Roteiro: Ethan Hawke, Julie Delpy, Richard Linklater Fotografia: Christos Voudoris Trilha Sonora: Graham Reynolds Duração: 109 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Castle Rock Entertainment

Cotação 4 estrelas