Boneco de neve (2017)

Por André Dick

Responsável por Deixa ela entrar e O espião que sabia demais, ambos considerados referenciais do cinema contemporâneo, o diretor sueco Tomas Alfredson enfrentou uma bateria de críticas pesadas a Boneco de neve, baseado em livro de Jo Nesbø. Ele mesmo veio a público se desculpar por não ter conseguido terminá-lo da maneia que gostaria. Não se sabe exatamente o que não deu certo junto ao público e à crítica, mas certamente nem mesmo a produção de Martin Scorsese e a montagem de sua habitual parceira, Thelma Schoonmaker, junto a Claire Simpson, tiraram o peso de decepção com que o filme foi recebido.
Basicamente, é a história de Harry Hole (Michael Fassbender), um detetive que investiga o desaparecimento de uma mulher no início do inverno numa cidade em torno de Oslo, na Noruega. O suspeito é um serial killer chamado “The Snowman” (“Boneco de Neve”, como o título brasileiro antecipa), que já esteve na ativa, pois deixa exatamente uma figura desse boneco no gelo indicando suas vítimas. A primeira a desaparecer é Birte Becker (Genevieve O’Reilly), casada com Filip (James D’Arcy), pais de Josephine (Jeté Laurence). Como ajudante, Hole recebe a chegada de Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), que diz ter estudado seus casos na academia. A aproximação entre os dois não chega a se consumar de fato, pois Hole está imerso em problemas alcóolicos e Bratt esconde um detalhe de seu passado que pode ajudar a explicar seu comportamento presente.

Se Deixa ela entrar tinha problemas, a fotografia não era um. Neste novo filme, ela novamente é um destaque. O trabalho de Dion Beebe carrega uma atmosfera que mescla referenciais claros, como os trabalhos de Atom Egoyan, e mesmo os filmes dos anos 80. O detetive feito por Fassbender lembra, pelo jeito e figurino, o Rick Deckard de Blade Runner. Ele tem relação com a ex-esposa, Rakel Fauke (Charlotte Gainsbourg), e seu filho adolescente, Oleg (Michael Yates). Ela namora Mathias (Jonas Karlsson), um médico que tenta ser agradável com Hole, a fim de evitar atritos familiares. E no meio da história ainda se insere uma espécie de ricaço e que tenta levar Oslo a sediar as Olimpíadas de Inverno, Arve Stop (J.K. Simmons). Alfredson mostra de modo interessante como o comportamento e o sistema familiar se intensificam em tempos diferentes e como podem perturbar a mente de um homem. Os personagens são desenvolvidos mais em seu aspecto enigmático e expositivo, e é muito diferente assistir a Boneco de neve: pouco existe aqui de cinema comercial. E o que se mostra de apelo mais popular é, ao mesmo tempo, misterioso, calcado em imagens diferenciadas.

Há alguns flashbacks que focam o personagem de outro detetive, Gert Rafto (Val Kilmer, quase irreconhecível), que investigou o serial killer do boneco de neve anos antes e, se este material certamente teria mais agilidade com outro diretor, há exatamente um certo fascínio em acompanhar essa história com a lentidão empregada, com toques ainda do Insônia, de Nolan, e o igualmente subestimado À procura, de Egoyan. Fassbender é um dos melhores atores da atualidade e ele confere uma presença determinada a cada cena, representando a frieza do lugar que o cerca: suas atitudes são mecânicas e remotas, mesmo por causa do seu problema com o álcool. No entanto, a investigação o leva, mais do que adotar métodos já utilizados em outras investigações, a enfrentar o que não gostaria: o passado, tanto representado por Rafto quanto pela casa onde se dão alguns momentos-chave do serial killer. A casa, para Hole e o criminoso, representa uma mudança de tempo e atitude.

Também há outro elemento interessante rondando suas peregrinações: Alfredson o pressiona dentro de ônibus, casas, escritórios, como se não tivesse uma saída adequada de seu problema central. Ferguson, como sua companheira, é muito interessante, com uma presença magnetizante, assim como Gainsbourg. É uma narrativa que poderia lembrar Millennium, de Fincher, caso tivesse mais subtramas e desenvolvimento; o que permanece, contudo, me parece estar muito acima do que vem sendo dito, sobretudo pela atmosfera construída, com planos abertos mostrando a solidão desses lugares enfocados da Noruega, que se estende a seus personagens. O que se fala de Boneco de neve se espalhou como acontece às vezes: basta a crítica inventar que um filme é fraco e muitos passam a considerar o mesmo. As críticas mais notáveis se baseiam em detalhes essenciais para a história: o personagem central ter problemas com a bebida e os crimes serem anunciados por um boneco de neve (este é o mote do romance, então não haveria motivo para mudanças, e Alfredson opta por um caminho correto ao mostrar a figura). Mal se sabe que, guardadas as comparações, este filme não fica a dever para outros do gênero.

The snowman, EUA, 2017 Diretor: Tomas Alfredson Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J. K. Simmons Roteiro: Hossein Amini, Peter Straughan, Søren Sveistrup Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Peter Gustafsson Duração: 119 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films, Another Park Film Distribuidora: Universal Pictures

De canção em canção (2017)

Por André Dick

Depois de A árvore da vida, Terrence Malick resolveu partir para um cinema baseado essencialmente na solidão da vida contemporânea, mesmo que busque, como em toda sua filmografia, a formação de casais. Foi assim em Amor pleno, Cavaleiro de copas e agora em De canção em canção. Se em Amor pleno, o personagem central casava com uma europeia e ambos iam morar no Texas edênico de Malick, em Cavaleiro de copas acompanhávamos um roteirista em Hollywood, Rick, que tinha problemas familiares e não conseguia nunca estabelecer ligações afetivas verdadeiras com as mulheres. Em De canção em canção, Malick apresenta quatro personagens centrais, embora o principal pareça ser Faye (Rooney Mara). Ela se apaixona inicialmente por BV (Ryan Gosling), um aspirante a músico igual a ela, bastante promissor, na cena musical do Texas.

Ambos se conhecem numa festa – no qual ela estende o fone de ouvido para BV ouvir a música que está ouvindo – e têm por perto o empresário Cook (Michael Fassbender), que se sente a ameaça, nesse sentido, para um amor que possa existir entre eles. Faye trabalhou desde a adolescência como assistente no escritório de Cook. As ligações entre eles são indefinidas, a não ser quando Cook e BV viajam com Faye para o México, e se subentende que possa haver um relacionamento entre eles – que se manifesta com clareza mais adiante. Cook, no entanto, tem inveja dos dois e parece haver uma separação. Quando ele entra em contato com a garçonete Rhonda (Natalie Portman, nunca tão bem fotografada e com uma atuação do nível de Cavaleiro de copas), junta-se uma figura que irá estabelecer a ligação entre o universo musical solto e uma tentativa de transcendê-lo, com suas frequentes idas à Igreja. Além disso, Rhonda busca a segurança material que Cook pode lhe conceder.

Novamente com fotografia do grande Emmanuel Lubezki, De canção em canção é, de longe, o filme mais difícil, em termos de estrutura, da trajetória de Malick: mesmo que nos anteriores não tivéssemos histórias lineares, o novo Malick se sente realmente um produto experimental da indústria. Quase ignorado em seu lançamento (não arrecadou sequer 450 mil dólares nos Estados Unidos) e desabonado pela crítica, cuja característica é lembrar de filosofia apenas quando escreve sobre filmes do diretor, esse é um cinema que não se preocupa com a recepção. Depois de mostrar um pôster gigante de Arthur Rimbaud na parede da casa de Faye, Malick está mais interessado no “desregramento dos sentidos” que pregava o poeta francês, uma visão simultânea desses personagens e de suas peregrinações pela vida. Rimbaud tem um livro de poemas em prosa chamado Illuminations, no qual registra diversas viagens que fez e Faye inicia dizendo que a ela importa qualquer experiência no lugar de nenhuma. Tudo se sente ao mesmo tempo desencaixado, solto e vinculado. Faye está à procura de um amor, mas não sabe exatamente o que deseja e há um núcleo do filme que trata da traição. Sozinha, procura numa artista francesa, Zoey (Bérénice Marlohe), como Rimbaud (em seu caso, era o poeta Verlaine), uma tentativa de se encontrar consigo mesma. Baseada em um verso do poeta, “Engoli uma notável poção de veneno”, ela diz em determinado momento a BV que Rimbaud esgotou todas as poções.

Embora haja participações do Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e Iggy Pop em diferentes momentos, De canção em canção não pretende construir um mosaico musical da vida moderna. Ele pretende mostrar mais como cada existência é governada por dissonantes acordes, que às vezes não seguem a mesma faixa. Mas, como a família musical, a Malick interessa a família em si. Rhonda tem uma relação próxima da mãe (Holly Hunter), assim como Gosling tem da sua (Linda Emond) – e em determinado momento precisa cuidar do pai (Neely Bingham) – e Faye do seu pai (Brady Coleman), todos sem nome próprio, como convém à tentativa de Malick em ser universal. O único que parece sem vínculos familiares é exatamente Cook. Esses personagens entram e saem do filme no mesmo fluxo contínuo da vida sendo revelada. As figuras dos pais eram determinantes em A árvore da vida e Cavaleiro de copas, quando se ausentavam particularmente em Amor pleno. Aqui, como em Cavaleiro de copas, BV troca ideias com um irmão (Tom Sturridge), sobre o pai, que parece ter prejudicado a sua família. Ainda assim, BV é visualizado entrando numa igreja no México, tentando se conectar com um ser superior que possa solucionar suas dúvidas, e é um traço que o aproxima dos personagens de Brad Pitt e Ben Affleck em A árvore da vida e Amor pleno.

Mesmo para um filme de Malick, De canção em canção se mostra surpreendentemente sem um eixo certo: ele não caminha estabelecendo pontos evidentes e sim sensações, como a entrada em determinado momento da personagem Amanda (Cate Blanchett), uma mulher solitária e que vê as pérolas de seu colar se espalharem no chão (e lembre-se que a pérola era um símbolo de Cavaleiro de copas).
Também se percebe que Ryan Gosling fez o filme em diferentes anos: em algumas passagens, ele aparenta estar com o visual de Drive e O lugar onde tudo termina, de seis, sete anos atrás, mais do que o restante do elenco – e comenta-se que Malick iniciou as filmagens de maneira aleatória, gravando concertos diferentes no Texas, e não oferecia nenhum roteiro concreto aos atores. Também confunde o espectador a maneira como a personagem de Faye vai mudando seus cortes de cabelo (no início, Mara parece ter o visual que usa em Millennium, de 2011), mas é como se Malick fosse registrando suas relações com BV e Cook em fases diferentes, talvez até mesmo antes do início dessa história. Ajuda saber que Faye, além de tentar carreira musical, “mostra apartamentos e passeia com cães”, como diz em determinado momento, por isso muitas vezes as locações mudam sem explicação.

Malick, como em Cavaleiro de copas e Amor pleno, usa a arquitetura das casas para falar dos personagens, cria analogias entre pássaros na natureza e de madeira pendurados no teto da sala, distribui uma porção de cenários em que os personagens se sentem ou mais solitários ou em busca de companhia: rios, piscinas de casas, estacionamentos, casas onde moram ou de suas famílias, o contraste entre interior e cidade, a tranquilidade da varanda e o caos dos shows. Todo o cuidado cênico se manifesta em cada sequência, e, além da referência a Rimbaud, em outro momento Malick filma uma parede com a palavra “Howl” gravada – o título do famoso poema de Allen Ginsberg da geração beat. Malick, aliás, faz algumas breves menções à geração beat, quando Cook e BV viajam com Faye para o México, com a mesma busca pela contracultura (e quando Cook se entrega finalmente aos experimentos alucinógenos já temos a outra face desse caminho), embora atenuada por imagens dos personagens ajudando pessoas nas ruas. Do mesmo modo, ele se entrega a uma viagem pessoal, mesmo sendo casado. Cook representa uma espécie de ameaça aos demais: ele personifica algo próximo da tentação, quando tenta separar Faye de BV, sugerindo um contrato de gravadora a ela, e oferece um cogumelo a Rhonda envolto em mel, por exemplo, ou quando usa sua piscina para festas particulares. Rhonda gostaria de ser professora infantil e, quando dialoga com uma garota de programa (Christin Sawyer Davis) e esta lhe fala que também gostaria de ser professora, parece que a personagem tem a consciência sobre o lugar para o qual Cook vai levá-la.

Temos os personagens novamente à procura de afeto: Malick utiliza sua obsessão em filmar o corpo humano em momentos descompromissados e atrativos, com narrações em “voice over” (muito bem utilizadas) que alternam a descrição de cada personagem para o que estão sentindo. Como em Cavaleiro de copas, Malick não está interessado exatamente pela indústria que serve de pano de fundo para tais personagens e seus comportamentos: tudo é motivo para vislumbrar fragmentos da tentativa de pessoas diferentes existirem. Trata sobretudo de escolhas sendo feitas, de como as pessoas lidam com suas perspectivas. Particularmente exitosa é a referência muito discreta de Malick ao filme Cada um vive como quer, com Jack Nicholson, de 1970. Lá, Nicholson interpretava um ex-pianista com problemas de relacionamento com o pai enfermo, justamente o que acontece com o personagem BV, feito por Gosling. Mara, para isso, tem uma contribuição notável para o filme, assim como Gosling, com quem mais contracena e se mostra em determinadas cenas um ator mais versátil ainda do que se mostrou em Drive e La La Land. Portman é tremendamente humana, numa atuação ao nível de Cisne negro e Jackie, e Fassbender, por sua vez, retrata o próprio vazio que parece cercá-lo. Um destaque também para o elenco coadjuvante de pais ou mães desses personagens, notável, mesmo com pouco tempo de atuação, e a inspirada Blanchett, embora com pouco roteiro (Christian Bale teria gravado cenas, mas foram descartadas, e Val Kilmer aparece brevemente como um roqueiro, lembrando um Jim Morrison que pretende integrar o Sonic Youth).

É notável que, mais do que em Amor pleno e Cavaleiro de copas, os atores se sintam numa espécie de jazz session de atuação, fazendo gestos e tendo comportamentos abertos para a história, sempre movimentando as peças para todos os lados possíveis. Percebe-se, também, como, desde A árvore da vida, Malick registra algumas cenas como parte de uma ficção científica cotidiana: quando Faye, BV e Cook voltam do México, Malick filma os dois últimos flutuando no jato, como astronautas; os estacionamentos vazios que Malick apresenta parecem pertencer a uma paisagem pós-apocalíptica, na qual todos estariam sozinhos; as montanhas onde Faye e BV caminham lembram aquelas de Cavaleiro de copas, afastadas de tudo. De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki. De canção em canção é uma obra-prima.

Song to song, EUA, 2017 Diretor: Terrence Malick Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Olivia Grace Applegate, Dana Falconberry, Linda Emond, Iggy Pop, Tom Sturridge, Neely Bingham, Brady Coleman Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Produção: Ken Kao, Sarah Green Duração: 129 min. Distribuidora: Supo Mungam Films Estúdio: Buckeye Pictures / FilmNation Entertainment / Waypoint Entertainment

Palo Alto (2013)

Por André Dick

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A realização de filmes baseados no universo jovem teve um decréscimo muito grande depois de John Hughes, nos anos 80, ocasionando apenas alguns títulos esparsos, embora a visualização sobre esse mundo não tenha sido interrompida em produções de Hollywood feitas apenas como passagem para mostrar confusões em festas de universidade. Não surpreende, portanto, que um filme como Palo Alto, com sua temática discreta, não tenha conseguido obter um lançamento nos cinemas brasileiros, saindo diretamente em home video.
Baseado num livro de contos do ator James Franco, que interpreta um professor de educação física, Palo Alto traz possivelmente o retrato mais sugestivo e entre o otimismo e o pessimismo da juventude depois de Paranoid park – e avaliar que se trata apenas de cenário específico, da cidade de Palo Alto, ou restringir a classes, não parece o mais adequado. Embora haja elementos de imagens que já vimos em Bling Ring e antes em As vantagens de ser invisível, Gia consegue, com a colaboração de um elenco jovem de grande qualidade, obter notas ao mesmo tempo de esperança e tristes, na medida em que a trama cresce. April (Emma Roberts), integrante do time de futebol de sua escola, gosta de Teddy (Jack Kilmer, filho de Val, que faz uma pequena participação como padastro de April), mas vive uma admiração especial pelo professor Sr. B (Franco), envolvendo-se em uma questão delicada quando aceita cuidar do filho dele como babá.

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Mergulhado numa espécie de vazio existencial, Teddy se envolve em problemas, também com a ajuda do amigo Fred (Nat Wolff), que normalmente se mostra agressivo por motivos desconhecidos e passa a sair com Emily (Zoe Levin). Basicamente, são essas histórias que sustentam a narrativa, principalmente a partir de uma festa, quando Teddy e April saem pela noite procurando desenhar gravuras em árvores e Emily tentará envolver todos com sua necessidade de afeto um tanto impensado.
Embora, como em Paranoid park, nada pareça acontecer de relevante, Gia dispõe nas entrelinhas um retrato do jovem e seu apego tanto à infância quanto ao fato de estar em um processo de análise diante dos acontecimentos. Esta estreia de Gia Coppola parece ser aquilo que a sua tia Sofia buscou, sem o mesmo êxito, a meu ver, em Bling Ring e As virgens suicidas. Isso porque Sofia está mais interessado, às vezes, em compor suas figuras como representações de algo que deseja dizer nas entrelinhas, enquanto Gia busca um caminho de conflitos iminentes. Neste caminho, destacam-se tanto April quanto Teddy, não apenas porque seus personagens obtêm algo além da superfície, mas porque Emma Roberts e Jack Kilmer se revelam intérpretes excelentes, assim como Nat Wolff (que se tornaria conhecido por A culpa é das estrelas e Cidades de papel) e Levin. Em 2013, Roberts já havia participado do risivelmente contestado Vida de adulto, um retrato bem-humorado dessa mesma juventude focada no filme de Gia, e ela consegue, em ambos os filmes, contrastar a passagem da adolescência para uma vida com compromissos mais estabelecidos.

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Por mais que pareça, não há, nessa leva recente de filmes, nenhum que lembre exatamente Palo Alto. Mesmo que haja uma influência na cenografia e na fotografia do cinema considerado indie e, consequentemente, de Sofia Coppola, uma referência, o filme de Gia navega muito mais num terreno de tristeza juvenil sem o alívio da estranheza ou do onirismo que há, por exemplo, que há em As virgens suicidas ou em Bling Ring. Também não há a exploração do universo juvenil com o intuito de apenas impactar como Harmony Korine, um estilo que dialoga com uma certa atmosfera de impacto premeditado, na tentativa de levar o espectador a um universo em que se sintará inadaptado por antecipação.
No mesmo caminho, seguem os momentos em que Teddy precisa prestar serviços comunitários, que revelam, além de tudo, esse caminho não para uma mudança, mas para a avaliação do que parece mais certo diante das advertências do universo adulto. Seu gosto pelas artes, principalmente pelo desenho, se contrapõe, de certo modo, no entanto, ao mesmo tempo, é um complemento de um universo com franca dificuldade de crescer para fora de seus perímetros. Não apenas a biblioteca representa isso, como também os quartos de April e Emily. Os personagens de Palo Alto se mostram sempre indefinidos entre seguir o vazio já programado em suas vidas ou modificar tudo num lance de simplesmente fugir ao descartável. Notório como Gia consegue, principalmente por meio dessas relações entre Teddy e April e entre Fred e Emily, definir uma passagem para o universo de afastamento, sem abrir uma condescendência capaz de apagar esses personagens em prol de alguma mensagem em tom edificante. Ao contrário do que aparenta, Palo Alto se mostra um filme muito mais complexo e talvez isso explique por que arrecadou menos de 1 milhão de dólares (o seu custo). Todos os temas que ele revela por trás da ideia de um filme sobre a adolescência são mais difíceis de lidar do que Hollywood insiste em dizer.

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Franco também se revela uma presença interessante, ainda sob o impacto de sua participação em Spring breakers, sob uma direção talentosa de Gia, que se apoia na fotografia de Autumn Durald para capturar cenários que servem de diálogo com os personagens, como os playgrounds quase vazios, assim como um sereno noturno e o amarelo das tardes e manhãs desse lugar na Califórnia. Gia desenha um ambiente de contrastes: os personagens se situam entre o dia e a noite, numa espécie de representação daquilo que atravessam, de suas próprias inseguranças. Trata-se, possivelmente, do projeto mais acertado de James Franco, ator que costuma considerar os riscos de sua carreira – em projetos como Sprink breakers ou É o fim – mais importantes do que aquelas obras nas quais pode mostrar realmente seu talento. Em certos momentos, o estilo de fotografia lembra o de Temporário 12, mas há em Palo Alto uma sensação mais definida de melancolia e ela acompanha o espectador à medida que vai descobrindo os personagens. Os Coppola têm se especializado em fazer o retrato de uma juventude (Francis em Vidas sem rumo e O selvagem da motocicleta; Sofia nos filmes mencionados; Roman em CQ) e pode-se dizer que, com virtudes e falhas, são obras referenciais para o gênero, ao qual Palo Alto, o mais melancólico de todos, se junta com bastante merecimento.

Palo Alto, EUA, 2013 Diretora: Gia Coppola Elenco: Jack Kilmer, Nat Wolff, Emma Roberts, Olivia Crocicchia, James Franco, Val Kilmer, Zoe Levin Roteiro: Gia Coppola Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Devonté Hynes, Robert Schwartzman Produção:  Vince Jolivette, Miles Levy Duração: 100 min. Distribuidora: Tribeca Film

Cotação 5 estrelas

Virgínia (2011)

Por André Dick

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Poucos nomes ficaram tão marcados por sua trajetória nos anos 1970 quanto Francis Ford Coppola. Se cineastas como Steven Spielberg, Terrence Malick e Martin Scorsese conseguiram se destacar nas décadas seguintes, Coppola teve certa dificuldade, mesmo com seus ótimos filmes dos anos 80 (O fundo do coração, Vidas sem rumo) e dos anos 90 (Drácula de Bram Stoker, a terceira parte subestimada de O poderoso chefão), de fugir do conceito de criador que nunca conseguirá repetir os dois O poderoso chefão e Apocalypse now. Chegando ao início do novo século e visto quase como um cineasta em fase emérita, Coppola fez Velha juventude e Tetro antes do que se considera um dos seus piores filmes, Virgínia (no original, Twixt), com exceção da Cahiers du Cinéma, que o colocou como terceiro melhor filme de 2012, atrás de Holy Motors e Cosmópolis.
Chegar a Virgínia com este conceito de “um dos piores filmes” de Coppola pode ajudar a distanciá-lo ainda mais de seus filmes dos anos 70. No entanto, não garante que aqui o olhar poderá ser melhor, a quem se habituou a considerar apenas o Coppola mais clássico. É difícil acompanhar uma narração inicial um tanto forçada de Tom Waits e Val Kilmer como o escritor, Hall Baltimore, que chega a uma cidade do interior, Swann Valley, para lançar seu novo livro de bruxas. Numa cidade em que a livraria se mistura com uma loja de materiais, ele se depara com um interessado por sua obra, o xerife Bobby LaGrange (Bruce Dern), que o leva à delegacia para ver um corpo morto com uma estaca, de uma série de crimes que ronda o lugar. O xerife perguntar se ele não aceita escrever um livro em parceria com ele.

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Há inúmeros filmes, atualmente, em que os problemas são vistos com menos interesse porque tratariam de uma metalinguagem. Em Virgínia, aos poucos, desde a narração inicial, passando pelos personagens, pela ligação conturbada de Val com a esposa, Denise (Joanna Whalley) – e os dois foram realmente casados, depois de se conhecerem nas filmagens de Willow –, discussões com o xerife e encontros noturnos com uma menina misteriosa, V. (Elle Fanning, da mesma época de Super 8, cujos créditos poderiam ter sido filmados por este Coppola) e o escritor Edgar Allan Poe (Ben Chaplin), que esteve durante uma época na cidade, a metalinguagem vai ficando cada vez mais presente. Quando notamos, Coppola não apenas realiza um filme com elementos autobiográficos, de entendimento da paternidade, como consegue apresentar uma homenagem aos filmes e livros de terror, mesclando realidade e onirismo com uma apenas aparente previsibilidade.
Coppola sabe, como poucos diretores, construir uma atmosfera própria, e Virgínia consegue trazer uma das mais fortes dos últimos anos – independente do baixo orçamento que ele teve, impedindo sua melhor distribuição (ele foi lançado em Blu-ray há poucos meses nos Estados Unidos).
Enquanto a chegada de Hall Baltimore a Swann Valley tem elementos da chegada de Chester Desmond e Sam Stanley em Twin Peaks – Fire walk with me, homenageado no filme de Coppola a partir do título, os cenários que aparecem daí por diante, com a fotografia rara de Mihai Malaimare (responsável pelo trabalho de O mestre, de Paul Thomas Anderson, e dos filmes mais recentes de Coppola), remetem à cidade de David Lynch: na delegacia, há cabeças de cervos nas paredes; as ruas são quase vazias; há uma biblioteca com uma janela para a igreja local; uma senhora dorme e não pode ser acordada (Eraserhead); e um hotel desperta dos sonhos com uma coleção de cortinas vermelhas. Mas não se trata de uma diluição: Virgínia tem uma atmosfera também particular, lembrando uma espécie de conto que leva a alguns lugares terrivelmente diferentes, uma espécie de Drácula de Bram Stoker em escala menos épica, além de um grupo de jovens à beira de um lago, remetendo a O selvagem da motocicleta. Numa cena em que é mostrada a engrenagem de relógios, há um diálogo indireto, ao mesmo tempo, com A invenção de Hugo Cabret, de Scorsese (os filmes tiveram seu lançamento quase na mesma época).

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A explicação de Virgínia parece estar no comportamento do escritor. Ele pretende sustentar sua carreira com histórias de bruxarias, mas resolve, por sugestão do xerife, se voltar para o universo dos vampiros e logo ingressa numa história que pode salvar sua carreira. De nada adianta, a princípio, ele sentar em frente à sua máquina: ele não consegue fugir a uma escrita literária, em que descreve um lago com sereno. Pressionado pelo editor, Sam Malkin (David Paymer), Coppola, daí por diante, brinca com sua própria condição, com o universo do escritor e a cidade onde se encontra. Se o escritor não poderá ser Edgar Allan Poe e Walt Whitman, nem produzir as Folhas de relva, ele procura por outras formas de imaginar uma eternidade. Não existe, em Virgínia, nenhum grande momento, e a linha da narrativa transcorre de maneira um pouco tortuosa, sendo este seu grande problema. Por outro lado, um de seus méritos, com isso, é não soar pretensioso, deixando o elenco à vontade para oferecer grandes atuações: Kilmer desempenha bem o tédio de Hall, porém é Fanning que se destaca e Bruce Dern (atualmente em destaque, em razão de Nebraska) está perfeito como o xerife inconveniente, assim como Ben Chaplin entrega um Poe melancólico. Embora em algum ponto os diálogos não consigam entrelaçar da melhor maneira esses personagens, e a edição misture estados diferentes de consciência, Virgínia ainda tem pontos muito interessantes.
Ao contrário dos colegas da Nova Hollywood, Coppola tem certa dificuldade de ser aceito em filmes que aparentam ser menores, pela pouca repercussão e críticas duras. Virgínia é a visão contemporânea de Coppola, que se arrisca a abandonar a grandiosidade de projetos que levaram sua Zoetrope à complicação financeira dos anos 80, como O fundo do coração e Cotton Club, mas é também a de um realizador que filma digitalmente um dos filmes mais bem fotografados dos últimos anos. As imagens de Virgínia gravam na memória como se fossem imagens de um livro distante, mas familiar, com uma espécie de relevo. É o bastante para torná-lo um filme a ser descoberto.

Twixt, EUA, 2011 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: Val Kilmer, Bruce Dern, Elle Fanning, Joanne Whalley,  Ben Chaplin, David Paymer, Alden Ehrenreich, Anthony Fusco, Bruce A. Miroglio, Don Novello, Lucas Rice Jordan, Ryan Simpkins Roteiro: Francis Ford Coppola Fotografia: Mihai Malaimare Jr. Trilha Sonora: Dan Deacon, Osvaldo Golijov Produção: Francis Ford Coppola Duração: 84 min. Estúdio: American Zoetrope

Cotação 3 estrelas e meia

Willow – Na terra da magia (1988)

Por André Dick

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Este filme foi a concretização de um dos maiores sonhos de George Lucas. Com um custo de 35 milhões de dólares (ainda mais significativos para sua época), e locações excepcionais na Nova Zelândia e País de Gales, Willow teve a desconfiança desde o seu lançamento, como se fosse uma espécie de continuação de Star Wars, passada numa Terra-média de Lucas. O marketing acabou pesando na expectativa de que o resultado correspondesse aos maiores sucessos de Lucas. E, lançado no mesmo verão de Uma cilada para Roger Rabbit, acabou por ficar em segundo plano. Depois de 25 anos e muitas críticas contrárias, é possível voltar a ele, com o olhar de um tempo passado, mas remetendo também ao presente, por meio da edição comemorativa em Blu-ray, que, assim se espera, também seja lançada no Brasil.
Assinado por Ron Howard, com fotografia primorosa e música excelente (de James Horner), um dos problemas normalmente apontados em Willow é o roteiro de Lucas, que mistura várias histórias, mas, fazendo uma releitura dele, isso não estraga o resultado. Olhar para este filme depois de um tempo considerável mostra que, mais do que trazer o peso da nostalgia, ele faz jus a uma década que trouxe filmes memoráveis de fantasia, como A história sem fim, Labirinto e A lenda, com suas falhas e virtudes, todos sem a mesma elaboração visual dos contemporâneos, como O senhor dos anéis, também pela época e pelos efeitos especiais serem feitos de forma quase artesanal, quase sem computadores, mas com uma genuína força própria e não raro cenários criativos.

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A história inicia com o nascimento de um bebê com uma marca determinada de nascença, que, segundo as profecias, destruirá a rainha Bavmorda (Jean Marsh). Ela manda persegui-lo, mas ele é jogado num rio, que o leva à aldeia dos Nelwyn (gente pequena), onde Willow Ugford (Warwick Davis) e sua família o encontram. Com o sonho de ser um feiticeiro de sua aldeia – e o cuidado que se tem com o desenho de produção do local é próprio de Lucas –, Willow tem receio de se manter com o bebê, justamente porque chegam ao seu vilarejo cachorros gigantes com cabeças de porcos tentando encontrá-lo. O feiticeiro líder, High Alwin (Billy Barty), coloca Willow na missão de entregar o bebê a um Daikini (no linguajar do filme, gente grande). Mas a fada Cherlindrea (Maria Holvöe), num momento que remete claramente à obra clássica Peter Pan, de John Barrie, vem avisá-lo que Elora Danan (feita pelas gêmeas Kate e Ruth Greenfield) tem poderes para destruir a rainha. Willow se junta a um herói debochado, Madmartigan (Val Kilmer), encontrado dentro de uma jaula para prisioneiros, e à feiticeira Raziel (Patricia Hayes) para destruir Bavmorda, enquanto precisa passar por bosques, montanhas e outros contratempos, com a parceria de dois brownies (Kevin Pollak e Rick Overton) – homenzinhos minúsculos, que parecem saídos das aventuras de Gulliver. No seu encalço, seguem Sorsha (Joanne Whalley) , filha de Bavmorda, e  General Kael (Pat Roach), que, parecendo um Darth Vader da Idade Média, é, na verdade, uma homenagem às avessas de Lucas a Pauline Kael, a crítica histórica de cinema.

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Acompanhada de um figurino elaborado, a direção de arte reproduz muito bem um tempo-espaço singular, e mesmo as referências à religião e a filmes (há uma perseguição com carroças como se fossem bigas, à la Ben-Hur; os personagens lembram Star Wars, do próprio Lucas), não tiram do filme um ar ingênuo cada vez mais raro. Mas o que realmente salta aos olhos em Willow é seu cuidado visual. Há, nele, uma espécie de resquício do cuidado que vemos em O retorno de Jedi, com as imagens de florestas e, nesse sentido, a sua fotografia, uma cortesia de Adrian Biddle, é uma das maiores conquistas do filme. As locações na Nova Zelândia, com montanhas, lagos, florestas e longas planícies, conseguem dar um pano de fundo notável, e não é por acaso que Jackson também filmou nesse país – além de ser o seu de origem – O senhor dos anéis e O hobbit. Willow, ao mesmo tempo em que se alimenta das jornadas de Tolkien – naquela época em livro –, consegue expandir o seu universo, povoando-o de elementos das mais variadas histórias, não apenas bíblicas, mas cinematográficas. A jornada em que Willow vai se encontrando com outros amigos não deixa de ter também um elo com O mágico de Oz, assim como as suas feitiçarias e mágicas têm um traço de Idade Média e as aldeias, algo que remete a uma idade muito antiga. No entanto, essa mistura feita por Lucas de fábulas e contos clássicos ressurge numa mescla de gêneros, tornando Willow num filme nem para crianças nem para adultos, mas com uma espécie de atmosfera que adota principalmente os elementos universais.

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Willow vai passar pela provação de exercer seu conhecimento sobre feitiçaria, e nisso Warwick Davis é, sem dúvida, excelente. Ele forma uma boa dupla com Kilmer, um ator naquele momento conhecido pela comédia Top Secret! e por ser rival de Tom Cruise em Top Gun. Na pele de Madmartigan, Kilmer tenta transparecer um elo de humor com o Han Solo de Harrison Ford, baseando-se no mesmo estilo de que ele seria apenas um fora da lei, muitas vezes pensando apenas no lado financeiro e de diversão, correspondido pela indefinição entre a atração e a agressividade da personagem de Sorsha, interpretada por Joanna Whaley como se estivesse nos anos 50. Temos alguns momentos que remetem a essa amizade construída depois da perseguição na taverna logo diante de uma cachoeira e depois na subida de uma montanha, uma das chaves da amizade elaborada por Willow.
Estruturado num roteiro com esquema definido, sem grandes intervalos temporais, mas com uma edição talentosa, Ron Howard revela aqui um dos seus trabalhos mais interessantes. É costume se dizer que Howard não sabe dirigir, mas ele tem sensibilidade e boa coordenação sobre os atores, certamente mais do que Lucas. Seus filmes costumam ter boas atuações, como Apollo 13, Uma mente brilhante, A luta pela esperança, Frost/Nixon e Rush e a aversão que se tem à sua obra, ao que parece, é justamente por se tratar de um diretor não autoral que consegue ser indicado seguidamente a prêmios importantes.Em Willow, ele consegue aliar o estilo que mostra em Splash e Cocoon, mesclando realidade e fantasia, com o carisma dos personagens de seus melhores filmes e acrescenta a esta fantasia projetada por Lucas um humor involuntário normalmente ausente em seu criador. Daí este filme de fantasia ser um dos mais antológicos já realizados.

Willow, EUA, 1988 Diretor: Ron Howard Elenco: Warwick Davis, Val Kilmer, Joanna Whalley, Billy Barty, Maria Holvöe, Patricia Hayes, Jean Marsh, Kevin Pollak, Rick Overton, Pat Roach, Kate e Ruth Greenfield Roteiro: Bob Dolman, George Lucas Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Produção: Nigel Wooll Duração: 130  min. Estúdio: Imagine Entertainment / Lucasfilm Ltd / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 5 estrelas