La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

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Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

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La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

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Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

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São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

cotacao-5-estrelas

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2 Comentários

  1. fredmorsan

     /  19 de janeiro de 2017

    Parabéns por mais uma ótima crítica.

    Confesso que a cena de abertura, apesar de bem executada, não me agradou muito porque me pareceu um pouco como o diretor dizendo ao público: “Olha como eu sou bom”. E pensei que seria aquele o tom do filme. Ledo engano. Graças a Deus por isso.

    Quando o filme realmente começa, é tão sensorial, te evoca tantas emoções. Adorei o filme! E a canção “City of Stars” não sai da minha cabeça. É linda, merece muito o Oscar desse ano.

    Diferente de “O Artista” que se apóia muito na maneira como eram feitos filmes mudos, La La Land faz discretas referências aos musicais dos anos 50, mas tem sua própria identidade, sem ficar preso à fórmula.

    Achei sensacional!

    Responder
    • André Dick

       /  19 de janeiro de 2017

      Prezado Fred,

      agradeço novamente por sua mensagem sobre o filme e sobre a crítica. Na primeira vez em que assisti a La La Land, também achei a cena um tanto exagerada. Na segunda, gostei mais, no entanto, como observo, ainda me parece destoar do restante do filme, mais introspectivo. Ele provoca realmente isso: por ser sensorial, evoca emoções, com o acréscimo dessa “City of stars”, que, desde os trailers, já parecia destinada ao Oscar.

      Você traz uma boa lembrança de homenagem ao cinema antigo que é O artista. Minha impressão também é de que esse filme, do qual gosto, se apoia demais na fórmula em que se movimenta, e La La Land só aparenta ser de época, no entanto é mais contemporâneo (não apenas porque depois de um número musical toque um celular). Pelo início, na referência a Shakespeare apaixonado, o filme parece se situar no final dos anos 90; o restante, porém, não deixa clara sua época. E o seu estilo de filmagem me lembrou muito de Birdman: ambos têm um estilo que remete ao teatro e são extremamente ágeis.

      Finalmente, concordo que ache o filme sensacional. E o final é um dos mais emocionantes.

      Volte sempre!

      Um abraço!
      André

      Responder

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