O som ao redor (2012)

Por André Dick

O som ao redor 3

Ao assistir filmes como Holy Motors, Killer Joe e Indomável sonhadora, nos últimos meses, pôde-se ter uma ideia mais clara da palavra superestimado. Nenhum deles consegue trazer uma resposta ao que se espera, nem o que é comentado a partir de suas histórias corresponde às expectativas. Por isso, podia-se desconfiar também deste filme brasileiro, que começou a ganhar repercussão principalmente no fim do ano passado, quando fez parte de algumas listas dos melhores filmes (fala-se muito daquela do The New York Times, mas ele também está na lista da Slant). Fala-se também em sua participação de sucesso em festivais e em como o cineasta Kleber Mendonça Filho desenvolve, esteticamente, as propostas de alguns de seus curtas-metragens, como Eledrodoméstica e Recife frio por meio de uma nova narrativa. O próprio título, O som ao redor, se arrisca num terreno de estranheza – embora se saiba que o som ao redor, de certo modo, pode abranger tudo, mais ou menos como A árvore da vida, de Malick. Se para Mendonça somos reprodução também desses sons ao redor, é verdade que seu filme caminha num território das classes sociais.
E aí reside uma das surpresas de O som ao redor (daqui em diante, possíveis spoilers): Kleber Mendonça não faz um retrato específico de uma determinada classe média brasileira; ele sintetiza a sociedade brasileira (que tem pontos em comum com muitas outras). Desde o início, com as imagens em preto e branco de antigos engenhos de Pernambuco, para, então, chegar a um bairro de Recife, Kleber Mendonça traça um panorama complexo – apesar de sua aparente simplicidade – de como a vingança e a violência permanece em condições diferentes daquelas em que estamos acostumados a ouvir em histórias antigas ou de como era quando o país não havia entrado plenamente no século XXI, com seus computadores e pessoas escondidas atrás de grades e muros de condomínios. Kleber está interessado, antes de tudo, em traçar como a gênese da dominação e da violência do Engenho chega à cidade grande, no caso Recife, e de como ela é incontrolável e se alastra. Trata-se de um contexto bastante particular e, ao mesmo tempo, universal, sendo que O som ao redor lembra um pouco Short Cuts, de Altman, dentro de um perímetro urbano, dividido em capítulos como um bom filme de Tarantino (em determinado momento, vê-se o cartaz de Jackie Brown).

O som ao redor 8

O som ao redor

Com seus zooms de câmera para dar um ar semidocumental ao que se mostra, o diretor consegue equilibrar várias ações, com diferentes personagens, num curto espaço de tempo e território, mostrando personagens saindo de lugares onde outros chegam.
O personagem central, João (Gustavo Jahn), é um corretor imobiliário cansado, com um novo caso, Sofia (Irma Brown). No início, eles têm de se esconder da empregada, Mariá (Mauricéia Conceição), que chega em casa com suas crianças – passando desnudos da sala para o quarto –, e logo em seguida surge o mote da ameaça: o carro de Sofia teve seu vidro arrancado e o carro de som roubado. Como todos são conhecidos no bairro, João desconfia de que seu primo, Dinho (Yuri Holanda), está envolvido, já que cometeu diversos assaltos, comentando o caso com outro primo, Anco (Lula Terra). Chegam, nesse dia, à vizinhança seguranças oferecendo serviço, Clodoaldo (Irandhir Santos), e Fernando (Nivaldo Nascimento). Ambos são convidados a encontrar aquele que é uma espécie de dono da rua, Francisco Villa (WJ Solha, assustador na medida exata), que justamente veio do engenho – de uma fazenda que remete àquela que vemos em Tabu, avô de João, Dinho e Anco. É Francisco quem ordena aos seguranças que seu neto não seja importunado. A esses seguranças, junta-se Ronaldo (Albert Tenório). Ao mesmo tempo, vemos uma dona de casa, Bia (Maeve Jinkings), que tem problemas com o cão do vizinho, que não para de latir e uivar o dia inteiro, prejudicando, inclusive, as aulas de língua estrangeira dos filhos. Também vemos uma reunião em que se decide a demissão ou não por justa causa de um porteiro – na cena mais cômica do filme.
O som ao redor acaba ganhando um sentido maior exatamente quando a violência que antes parecia muito mais exposta agora acaba ficando reservada a situações do dia a dia e mesmo a tensão sexual se mostra opressiva – seja no beijo entre adolescentes no canto de um prédio, seja na relação entre uma mulher e um eletrodoméstico. Qualquer situação ganha uma aspereza, como a da mulher que avalia desconfiada o apartamento, ou o homem que discorda de João em relação ao porteiro, como se quisesse enfrentar a família de quem coordena a rua. O sentido do enfrentamento surge em momentos comuns, como aquele em que Francisco Villa adentra o mar, mesmo com a placa de que há perigo, pois pode haver um tubarão, ou quando um segurança liga do orelhão. Também na cena em que duas vizinhas precisam disputar por um determinado atendimento. Simples visualizações de celular ou por câmeras de vídeo de apartamento ganham um elemento de tensão. Esta nunca se reproduz por gritos, discussões quentes, mas por ameaças e olhares de desconfiança. Pode haver tensão mesmo em um casal descansando na rede de um engenho de interior. Ou no barulho de crianças cantando na varanda de uma escola. A disputa por território é anunciado por ameaças veladas, sem revelar o rosto. E a rua e os condomínios abrigam, ao mesmo tempo, segurança e insegurança – em determinado momento, a bola de um dos meninos cai no outro condomínio e, quando a jogam de volta, ele não está mais lá para recebê-la (lembrando a bolinha de tênis de O iluminado). Em outro, num apartamento que parece vazio, passa o vulto de um menino. Os sons também se reproduzem em todos os lugares, desde o cão latindo, a colisão de dois veículos até alguém riscando um carro, ou um construtor trabalhando numa obra ao lado de uma quadra de recreação.

O som ao redor 9

O som ao redor 4

É como se Kleber Mendonça mostrasse que há, nesse isolamento com inúmeras pessoas, uma ameaça fantasmagórica, uma ameaça daquele mesmo ambiente em que o dono do engenho se cercava de empregados e perseguia aqueles que colocavam em dúvida sua autoridade – ou seja, em O som ao redor, uma chamada não respondida pode ser converter num duelo mais adiante. A ascensão desse movimento nunca é interrompida; não surge nenhuma classe social nova, ela apenas se movimenta e se dilui em meio a novas tecnologias e promessas de novos eletrodomésticos não para cultivar um pretenso vazio consumista – afinal, a questão financeira é universal, não pertence exclusivamente à classe média brasileira -, mas para tentar encobrir justamente a falta da presença humana, como acontece em qualquer sociedade e país; em outros casos, ela é apenas prolongada com o registro de novas vítimas. O medo de se conviver com uma vingança no campo é o mesmo de ter de dividir o seu espaço com sons estranhos e com as favelas. As classes, no Brasil, de qualquer modo, tendem a se misturar, sejam quais forem seus objetivos e mesmo que não desejem ou temam umas às outras, afinal, como disse Sérgio Buarque de Holanda, há sempre uma cordialidade no ar e nunca se sabe onde o desejo de uma termina e o de outro começa, mesmo porque são aspirações gerais – e é isso o que acontece em O som ao redor. O próprio personagem central, João, é uma espécie de síntese disso: já devidamente filtrado pelo ambiente da cidade, ele não se nega, no entanto, a conservar uma preocupação indiferente com as vidas alheias (como na reunião de condomínio).
Chegando a noite, a ronda começa – e o dia não acaba. Kleber Mendonça mostra como a tranquilidade aparente do horário em que todos se recolhem está sempre à beira de uma sombra ameaçadora, seja num sonho, seja nos vultos de alguém correndo por telhados ou apartamentos. O apartamento é um espaço físico e interno, representando o medo dos personagens. Para essas cenas de tensão atmosférica, por mais que tenha visto elementos de John Carpenter (homenageado em determinado momento), vemos muito mais David Lynch e seu A estrada perdida. Todos os momentos em que são mostrados ambientes vazios e uma ameaça que paira no ar, estamos no apartamento em que vive o casal do filme de Lynch – ou seja, sob uma influência de Hitchock, mas já devidamente filtrada. Do mesmo modo, quando os personagens caminham por um corredor e pela rua (com as luzes acendendo e apagando), estamos num território de Lynch e sua eletricidade estranha e irregular. Ou seja, o medo proporcionado por lâmpadas é um elemento lynchiano, que Kleber Mendonça consegue costurar à narrativa sem diluí-la, mas incorporando elementos. Há ainda outra presença de Lynch, que é aquela em que personagens surgem de lugares onde não estavam – a primeira entrada de Francisco para conversar com os seguranças (há um corte exatamente quando surge sua sombra). Já as cenas do bairro e das ruas lembram, a meu ver, bastante Caché (de Michael Haneke). A atmosfera não seria a mesma sem os atores e, a despeito das muitas críticas, nesse sentido, todos fazem um trabalho competente, com destaque para as excepcionais participações de Solha, Jinkings, Irandhir, Holanda, Nascimento e, ao final, Sebastião Formiga. O estilo de interpretação é mais natural, e as falas soam próximas daquelas do cotidiano; embora isso prejudique em alguns momentos, pelo som um pouco confuso, dentro do contexto trata-se de um elemento narrativo interessante.

O som ao redor.Filme

O som ao redor 7

Não há apenas a influência de um gênero, pois O som ao redor é um híbrido. Temos, numa de suas partes, quase de cinema mudo (não fossem os sons ao redor), uma clara influência de Malick, quando João e Sofia e  viajam para o engenho de Francisco, e começam a abrir janelas, indo depois caminhar perto de uma escola – com um longo travelling – e nas ruínas de um cinema abandonado (ocasionando uma brincadeira com a ausência de som do lugar, mas também com os sons de filmes de terror que passaram ali, como eles fossem igualmente fantasmas). Finalmente, nesta parte, além da tranquilidade apenas aparente do engenho, escondida nos sorrisos de Sofia e João, temos a belíssima sequência de uma queda-d’água, fazendo os corpos deles e de Francisco brilharem contra a luz, o que cria uma analogia com a sequência em que João e Sofia voltam à casa de infância dela, que está para ser demolida e guarda uma piscina vazia. É nesta parte que se desenha a separação (e ao mesmo tempo a aproximação) entre a Recife de altos prédios, cobrindo as ruas de condomínios, e o verde arejado do interior com suas fontes-d’água – e o caminho para ele só poderia passar por um lodaçal.
Impressiona o senso de estética de Kleber Mendonça e do fotógrafo Pedro Sotero com auxílio de Fabrício Tadeu (os movimentos de câmera são sempre sutis), focalizando também objetos coloridos em meio a um cenário cinza, ou combinando cores de camisetas com cores de grades e vasos (no que lembra A separação), ou mesmo colocando fosforescentes numa barraca de rua. Este senso de Kleber Mendonça faz a trama ganhar em progressão, mesmo que repita algumas situações – como a da vizinha observando o cão pela janela ou angustiada pelo fato de que ele não faz silêncio. Nesse sentido, como Central do Brasil no final dos anos 90 e Cidade de Deus no início deste século, O som ao redor é uma obra universal e não restrita a um cenário específico (mesmo que também se alimente dele), que define uma espécie de divisão de águas na cinematografia brasileira. É de se pensar o que Kleber Mendonça Filho ainda fará.

O som ao redor, BRA, 2012 Diretor: Kleber Mendonça Filho Elenco: Gustavo Jahn, Irma Brown, WJ Solha, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Sebastião Formiga, Nivaldo Nascimento, Maria Luiza Tavares Produção: Emilie Lesclaux Roteiro: Kleber Mendonça Filho Fotografia: Pedro Sotero Trilha Sonora: DJ Dolores Duração: 131 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Cinemascópio

Cotação 5 estrelas

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: