O primeiro homem (2018)

Por André Dick

Em 2014, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar principal, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, veio com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, apresentou uma história que podia ser considerada romântica em seu limite. Talvez ele não apresentasse nada de muito novo sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tinha muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) eram figuras que, como no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividiam entre o que pretendem ser e o que se mostrava realmente viável. Isso conferia ao filme uma camada que Chazelle tornava encantadora pela maneira como a revelava, aos poucos.

Depois do grande desempenho junto ao crítico e à pública de La La Land, recebendo seis Oscars, a nova obra do diretor, O primeiro homem, mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), a partir de 1961, e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua em 1969. Esses são personagens que realmente existiram e próximos de um contexto do qual La La Land se afastava: o da tentativa de ser fiel aos fatos. Chazelle sofre uma transformação por trás das câmeras. Se em Whiplash e La La Land, ele utilizava um estilo simples e ambientes arejados, nada disso se repete em O primeiro homem.
Com uma notável tentativa estética, por meio da fotografia de Linus Sandgren, de remeter ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida, assim como àquele visto em Interestelar, de Christopher Nolan, e ao clássico 2001, de Kubrick – na iluminação dos capacetes dos astronautas, sobretudo –, a dicção de Chazelle quase desaparece. Temos a sensação de assistir a uma busca de estilo que ressoa uma determinada emulação de outros artistas. Chazelle não está preocupado com o sentimento, a exemplo do que víamos em La La Land, apenas com a técnica e em criar enquadramentos diferenciados. Por sua vez, a tentativa de ir à Lua se torna menos intensa e o personagem de Neil Armstrong é emblemático nesse sentido.

Não apenas desenhado com um sujeito frio e distante da família e da esposa, por causa de uma perda marcante, mal percebemos o quanto ele pouco interage com outros personagens, como seus companheiros de aventura Buzz Aldrin (Corey Stoll) e Michael Collins (Lucas Haas), além dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) e Gus Grissom (Shea Whigham) e o diretor de operações de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), reunindo um grande elenco. Nas cenas em que brinca com os filhos, a lembrança imediata é o estilo de Malick em A árvore da vida, porém o que o cerca é uma sensação permanente de luto.
Por isso, talvez esse sentimento se estenda ao restante da história. As reuniões na Nasa, que eram tão interessantes em Os eleitos, de Philip Kaufman, o qual certamente influenciou também Chazelle, são passageiras. A câmera de Sandgren treme como se estivéssemos num filme de guerra de Kathryn Bigelow, porém isso não guarda relação com os sonhos desses personagens. Há um verniz documental sobre um fundo de mundo de transformação, mas as duas características não se fundem como poderia. Isso tudo parece proposital por parte de Chazelle, tornando os fatos históricos preenchidos por um ar de certa insegurança e mesmo espanto (os voos dos astronautas antes da missão final são, de certo modo, assustadores, sobretudo no uso da câmera). Não há elementos retumbantes; tudo parece em suspenso, contido.

O primeiro homem é um filme levemente autocentrado e desprovido de certa emoção que faz Gravidade e Perdido em Marte, por exemplo, parecerem playgrounds de desenvolvimento de personagens – e mesmo oferece certa ausência do clima de rotina e mudança histórica encontrados em Estrelas além do tempo. E impacta a maneira como Gosling e Foy, um par de grande talento, fica às vezes sem sustentação do roteiro. Gosling parecia um ator perfeito para esse papel, no entanto seu olhar vago é muito diferente daquele que utiliza em Drive, O lugar onde tudo termina e Blade Runner 2049, nos quais possui um roteiro para trabalhar; aqui ele aparenta estar apenas entre momentos marcantes para a humanidade, mas dos quais ele se aproxima apenas por um interesse remoto e baseado em efeitos visuais muito bem realizados. Ainda assim, Gosling entrega uma atuação que ajuda O primeiro homem a não ser um filme plenamente comercial. Há uma sequência no início de choro que remete à atuação dele impecável em De canção em canção e sua presença sintetiza um certo olhar distante da humanidade.
Isso se deve muito ao roteiro de Josh Singer, que ganhou um Oscar inexplicável por Spotlight e escreveu The Post, baseado no livro de James R. Hansen, que não consegue tecer um elo real entre os personagens – principalmente de Neil com seus parceiros de voo – e faz com que Chazelle tente concentrar a expectativa e suspense nas engrenagens de um foguete indo ao espaço. O que não tinham Spotlight e The Post? Exatamente relações efetivas entre os personagens (difícil recordar, ao longo do filme, uma fala de Lukas Haas, por exemplo). A questão é que este elemento se encaixa com a proposta da narrativa, que visa exatamente um sentimento constante de deslocamento do mundo, percebido nos flashbacks e na visão que o filme entrega da vida dos filhos dos astronautas, sempre próximos de um abandono anunciado. E, nessa linha, os pátios das casas mostrados por Chazelle mesclam uma alegria e um desconforto em igual escala.

O curioso é que a missão da Nasa na Apollo 11 em direção à Lua é uma reminiscência de infância, dos sonhos de cada criança quando descobrimos que o homem chegou a ela, e teve sua transmissão ao vivo desse acontecimento. Tudo isso desperta uma grande nostalgia. O primeiro homem faz o contrário. O que ele consegue é reverter essa espécie de sonho coletivo numa espécie de conto sobre um homem solitário e como a chegada à Lua, na verdade, foi apenas uma extensão do vazio que o preenche toda a narrativa, com a trilha sonora introspectiva de Justin Hurwitz. Essa sequência do pouso (imaginamos não ser um spoiler) é um registro da secura da paisagem diante a qual Neil se mostra sempre, mesmo quando visualiza a Lua à noite no céu.
Muitas críticas avaliam que o filme de Chazelle falharia ao ser um tanto antiamericano: não é o caso, apenas não sendo patriótico ou com sentimentos retumbantes pelo êxito do país na corrida espacial, que seriam incoerentes com a figura mostrada de Neil Armstrong na narrativa, na qual o luto é definidor mesmo para um discurso de John Kennedy sobre a Lua e com um instante-chave da personagem de Foy. É, por alguns instantes, bastante profundo. O seu problema é não ser uma obra com a grandeza do acontecimento enfocado, apesar de sua parte técnica notável, deixando no espectador a sensação de que muitos elementos estavam prontos para funcionar, sem serem, ao fim, totalmente colocados em prática. O que temos ainda, porém, é uma obra bastante interessante de um gênero que não cansa de receber novos exemplares de impacto.

First man, EUA, 2018 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit, Lukas Haas Roteiro: Josh Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Wyck Godfrey, Marty Bowen, Isaac Klausner, Damien Chazelle Duração: 142 min. Estúdio: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Temple Hill Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Universal Pictures

La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

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Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

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La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

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Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

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São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

cotacao-5-estrelas

Whiplash – Em busca da perfeição (2014)

Por André Dick

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As proximidades da temporada de premiações em Hollywood costumam anunciar uma série de filmes com predisposição a conquistar prêmios e a crítica. No ano passado, tivemos talvez a melhor safra desde que o Oscar começou a selecionar nove ou dez títulos na categoria principal. Mas, entre eles, há sempre obras superestimadas, com uma qualidade inferior à recepção que atingem. Em 2013, este era o caso de O lado bom da vida e em 2014 de Trapaça, ambos curiosamente de David O. Russell e com qualidade, mas não a ponto de serem indicados a todos os prêmios principais.
Este ano o filme independente com força para estar em inúmeras listas e premiações é Whiplash – Em busca da perfeição. Seu tema não é corrente no universo cinematográfico – o mundo dos alunos de jazz – e não é comum a parceria existente entre Miles Teller e J.K. Simmons. Teller faz Andrew Neiman, que entra no Conservatório Schaffer. Ele deseja ser um baterista reconhecido e nos horários de folga costuma ir ao cinema com o pai Jim (Paul Reiser), enquanto se interessa por uma universitária que trabalha nele, Nicole (Melissa Benoist). É também observado pelo exigente professor Terence Fletcher (Simmons), que o convoca a participar de sua banda, para tocar, entre outras composições, aquela que dá nome ao filme e cuja altura da voz ultrapassa a dos solos de bateria. Enquanto tenta participar do melhor modo da banda, Andrew é constantemente pressionado a melhorar – e cadeiras podem voar na sua direção se não atender ao que o professor exige.
O diretor Damien Chazelle soube tocar as plateias que assistiram a Whiplash, e isso lhe rendeu inicialmente prêmios no Festival de Sundance. Depois, ele soube selecionar dois grandes nomes para os papéis principais: Teller se afirmou, depois do interessantíssimo Reencontrando a felicidade, no ótimo e quase esquecido O maravilhoso agora, no qual tem seu melhor momento como ator, e Simmons é um dos nomes preferidos de Jason Reitman, curiosamente o produtor executivo deste sucesso de público e crítica nos Estados Unidos quando dirigiu esta temporada o superior Homens, mulheres e filhos (em que aparece Simmons). Whiplash tem um roteiro com elementos interessantes, como o duelo interno entre as personalidades de Andrew e Fletcher.

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Mas Chazelle não esconde a sua inexperiência e, se há excelentes enquadramentos no momento em que os músicos se reúnem, e a montagem é satisfatória o bastante para que nunca percamos de vista os personagens centrais (auxiliada pelo fato de que Teller realmente tem experiência como baterista), falta a ele o que havia em Alan Parker quando dirigiu o excepcional Fama, do qual Whiplash extrai muito, desde o sonho de ser artista e reconhecido até seus momentos em que a plateia entra em simbiose com o personagem principal e a torcida é voltada para seu sucesso, além da primeira meia hora, com a disposição dos integrantes em estúdios de música. Parece não haver uma tentativa maior de estabelecer ligações entre os personagens e analisar a fundo o que exige a fama e como músicos a exemplo de Andrew querem se transformar em ídolos para, então, combater os próprios ídolos num patamar exigente de competição entre aqueles que não são considerados menos do que geniais. Para Whiplash, a arte é uma maneira apenas de sobrepujar o outro e os gênios não compõem, são apenas intérpretes com força e devem ser acordados de preferência com um balde de gelo ao lado. Não pode haver amizade entre quem investe na competição e para se atingir o sucesso é preciso não dar espaço (nisso, quem derrama lágrimas deve se lembrar de que não sofreu nada). Ao mesmo tempo, as comparações que o filme faz do personagem com o saxofonista Charlie Parker, cuja cinebiografia, Bird, foi feita por Clint Eastwood nos anos 8o, não são corretas, pois este foi um criador musical incomum, e não alguém dedicado puramente à virtuose.
Em meio à trama central, Whiplash necessitaria de um roteiro mais interessante, com personagens coadjuvantes mais expressivos. A utilização de Nicole como interesse amoroso e do pai são caminhos aceitáveis, mas em Whiplash eles não são sequer elaborados. Há uma fala de Nicole numa lanchonete em que ela menciona o que o roteiro deveria desenvolver, mas não consegue, por isso coloca em sua personagem uma espécie de síntese. São detalhes que apenas circulam ao redor da trama principal, mas eles parecem subitamente expostos, assim como uma reunião em que Andrew quer deixar claro a todos que está sendo colocado em segundo plano.

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Impressiona, neste caso, não que Whiplash seja visto como um representante de qualidade do cinema independente, mas que outros filmes potencialmente superiores nesse campo sejam deixados em segundo plano. Também em razão das atuações vigorosas de Teller e Simmons, há uma constante vontade em Whiplash de estabelecer agrados por meio dos personagens centrais, evitando que Andrew e Fletcher sejam mais do que iguais ou opostos; havia realmente complexidade nesta relação, que o diretor reduz a solos de bateria não apenas pelo tema, mas porque não tem real interesse em ver tudo além de um embate entre mestre e aluno. Mais interessante é ver como Andrew vai mostrando sua aversão a críticas alheias e comportamentos capazes de ignorar seu talento; se no início Teller faz um jovem recém-saído da adolescência com receio de demonstrar suas habilidades como músico, Whiplash mostra, aos poucos, como é possível buscar crescimento em sua própria aversão ao receio de demonstrar sua explosão pessoal. Este é um filme sobre um personagem que surge de uma determinada maneira e progressivamente piora, em busca da homenagem à virtuose – e parece ser aqui que a história é basicamente sobre um indivíduo autocentrado. A música, em Whiplash, não representa uma libertação, mas sim aquilo que irá prender seu personagem; é uma sensação estranha, mas parece ser o que mais agrada ao espectador.
No entanto, os caminhos adotados pela narrativa não são o bastante para transformar o filme numa referência como os músicos do jazz são para Andrew, ou seja, os conflitos entre aprendiz e mestre nunca trazem algo de realmente original – e Fletcher dirá impropérios contra o pai de seu pupilo por este não ser o que sonhou, numa espécie de verniz psicológico desnecessário. Não chega a haver intensidade nos conflitos que não tenha sido vista antes com mais propriedade em Cisne negro (entre os personagens de Vincent Cassel e Natalie Portman) ou Sociedade dos poetas mortos (embora Simmons não tente ser agradável como o professor feito por Robin Williams).
Ainda assim, há algo nele profundamente sincero, em meio aos seus problemas narrativos: assim como o próprio diretor, embora pareça, os personagens de Whiplash não estão interessados no que a plateia vai considerar de seu talento ou não; eles simplesmente se entregam ao momento para obterem a rivalidade a ser buscada em qualquer situação. É exatamente o que a plateia tem em mãos: Whiplash parece ter um monte de talento guardado, mas ele pouco está interessado na sua recepção. É, na verdade, uma história sobre um mentor e um aprendiz que se unem para ignorar o público. Para eles, esta é a perfeição a ser buscada.

Whiplash, EUA, 2014 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Sharone Meir Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: David Lancaster, Helen Estabrook, Jason Blum, Michel Litvak Duração: 106 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blumhouse Productions / Bold Films / Right of Way Films

Cotação 2 estrelas e meia