La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

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Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

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La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

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Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

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São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

cotacao-5-estrelas

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O contador (2016)

Por André Dick

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Há poucos thrillers que merecem ser chamados assim, ou seja, a maioria deles têm características de um gênero que sobrevive quase dos mesmos lugares-comuns. Nos últimos anos, todos possuem como referência a série de Jason Bourne e como diretor Paul Greengrass (e não estou levando em conta como outra referência John Wick, com Keanu Reeves). Em O contador, Ben Affleck atua como Christian Wolff, que tem uma espécie de autismo que o permite ter talento com cálculos como se fosse o menino de Mentes que brilham. Ele trabalha num escritório em Plainfield, Illinois, alternando os jantares em casa, com a comida hermeticamente colocada no prato, e tiros a alvo pela vizinhança, que assustam os moradores mais próximos. Deve-se dizer que em sua infância ele viveu um tempo no Instituto de Neurociência Harbor em New Hampshire.
Ele recebe orientação pelo telefone sobre novas missões, pois seu escritório pode ser apenas um motivo para não explicitar quem realmente é. Trata-se de uma vida dupla, com toda clareza e sem spoilers. Há algo estranho: ele mexe com números e atende clientes normalmente, mas parece estar preparado para a guerra. Para completar, seu pai (Robert C. Treveiler) era um militar que pode ter lhe ensinado artes marciais e outras técnicas desconhecidas de grande parte das pessoas, sem querer que seu filho (quando criança interpretado por Seth Lee) tivesse uma vida sob tratamento específico, como havia recomendado um neurologista (Jason Davis). Agora Wolff é perseguido por Raymond King (JK Simmons), o diretor de crimes financeiros para o Departamento do Tesouro, que chantageia uma candidata, Marybeth Medina (Cynthia Addai-Robinson), a descobrir informações sobre ele.

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Enquanto isso, ele vai fazer uma auditoria numa companhia de investigação na área de robótica e próteses, com o auxílio da contadora Dana Cummings (Anna Kendrick), que encontrou finanças suspeitas. Lamar Blackburn (John Lithgow) e sua irmã e associada Rita Blackburn (Jean Smart) cooperam com a investigação de Wolff, mas surgem novos problemas pelo caminho, envolvendo um homem chamado Braxton (Jon Bernthal) e outro chamado Francis Silverberg (Jeffrey Tambor). Será que ele está sozinho?
O contador possui um roteiro instigante de Bill Dubuque, baseado num material da DC, com algumas nuances não encontradas em filmes do gênero e algumas subnarrativas sinuosas e que acabam muitas vezes escapando ao controle do espectador. A fotografia elaborada de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright (Desejo e reparação, Anna Karenina, Peter Pan), acompanha cenas de ação coreografadas com raro talento pelo diretor Gavin O’Connor, e se destaca aqui a mescla com elementos de humor involuntários que não tornam a trama excessivamente pretensiosa, como indicaria no seu início. Affleck está em seu segundo momento de ação do ano, depois de Batman vs Superman, enquanto se aguarda A lei da noite, o próximo dirigido por ele. Esta obra, assim como o personagem de Affleck, possui uma dupla camada: por um lado, trata-se de um thriller, por outro de um drama focado na infância e nos enigmas de um passado que não se resolve – e isso fica claro por meio da figura de King. Os flashbacks da história são pontuais e não cansam, e o diretor consegue minimizar o drama familiar ao contrário do que acontecia no seu filme mais conhecido até então, Guerreiro, sobre o universo do MMA.

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As relações do personagem central se estabelecem por meio da distância e do seu afastamento do que seria mais comum, e Affleck consegue desenhar essas facetas de modo inteligente. Os momentos em que ele fica solitário são genuinamente perturbadores, incomodando o espectador a ponto de as imagens adquirirem uma força que talvez não possuíssem. Não concordo com o fato de que o autismo, por exemplo, estaria sendo desrespeitado pela narrativa: trata-se de uma visão sobre ele, assim como o foi nos anos 80 Rain Man. Não há uma discussão exatamente sobre as características do autismo, porém Affleck tenta por meio do gestual, acima de tudo, incorporar elementos que possam traduzir a sensação do personagem central.
E as referências à pintura de Pollock, mestre do expressionismo abstrato, são essenciais para a compreensão de Wolff. Do mesmo modo, temos uma pintura de Jean Renoir (de uma mãe, figura ausente de sua vida, com seu filho ao fundo), um mestre em reproduzir imagens da infância, à qual Wolff está ligado de maneira decisiva, tanto para explicar seu passado quanto seu presente. Mais interessante é a tranquilidade que surge dessas pinturas em oposição ao que ele vivencia. Em alguns momentos, a narrativa lembra Três dias do condor, dos anos 70, em que um agente do governo feito por Robert Redford se via em meio a uma perseguição sanguinária.

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É permitido dizer que a própria trama incursiona por alguns elementos de abstração, não revelando ao certo os personagens, mantendo-os a certa distância, como o do próprio King. Com os personagens, parece existir uma crítica à cultura norte-americana: o prato feito por Wolff, por exemplo, ou a música que ele escuta, como se estivesse numa área de guerra. O’Connor segue essa linha com certa discrição que diferencia seu thriller dos mais habituais: as sequências de ação se mostram quase parte de um policial arthouse, não fossem os acréscimos pop trazidos à trilha sonora e à relação de Wolff com sua parceira de contabilidade. A fotografia traz imagens que alternam o inverno e o outono, pelos tons, esclarecidos pelas mudanças dos personagens. Apenas se lamenta que não sejam dadas a Kendrick as cenas necessárias para que seu personagem seja mais do que coadjuvante, assim como a JK Simmons, com um papel misterioso na medida certa, e John Lithgow, excelente ator, aqui subaproveitado. Para uma produção de 44 milhões, o filme já obteve retorno de 144 milhões e, a partir disso, pode-se até esperar uma franquia: seria uma maneira de explorar melhor esses personagens que não tiveram seu potencial desenvolvido plenamente aqui.

The accountant, EUA, 2016 Diretor: Gavin O’Connor Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, JK Simmons, Jon Bernthal, Jean Smart, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, John Lithgow Roteiro: Bill Dubuque Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Mark Isham Produção: Lynette Howell, Mark Williams Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Electric City Entertainment / Zero Gravity Management 

cotacao-4-estrelas

 

Zootopia (2016)

Por André Dick

Zootopia

Este novo desenho da Walt Disney foi incensado pela crítica e pelo público (que deixou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias!) e pode-se achar, antes de assisti-lo, que é mais um produto de marketing superestimado. Nos últimos anos, há uma sequência de animações que se caracterizam por um grande apoio da crítica especializada, vendo nelas, sobretudo, temas que agradam mais a adultos do que a crianças. Passam a ser animações inteligentes, paradoxalmente consideradas “não infantis”, como se este público não as entendesse de fato. Esses temas não raramente são inseridos em meio ao que se considera politicamente correto, tendo como mensagem exatamente lições que podem ser interpretadas sob o ponto de vista de manifestações vistas com mais respeito. Estamos aqui diante de uma animação que pode lidar com tais temas, mas parte do pressuposto de que é dirigida realmente a todas as idades, sem facilitar ou complicar para um determinado público.
Zootopia (que tem um dispensável subtítulo em português, Essa cidade é o bicho) inicia mostrando a infância de Judy Hopss (Ginnifer Goodwin), filha de Stu (Don Lake) e Bonnie (Bonnie Hunt), da zona rural de Bunnyburrow, cujo sonho é se transformar na primeira coelha a ser policial e se dedica a uma peça teatral, numa breve homenagem a Rushmore, de Wes Anderson. Em seguida, ela é confrontada por uma raposa, Gideon Gray (Phil Johnston), deixando-a traumatizada. Os pais, obviamente, não querem que ela siga este caminho, pois pretendem que ela se transforme, como eles e seus irmãos, numa fazendeira.

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Quando cresce, ela vai parar exatamente no departamento de polícia da cidade vizinha, Zootopia. Excluída pelo chefe, Bogo (Idris Elba), da tarefa de investigar crimes – a princípio, pelo seu pequeno porte –, ela passa a ser controladora de trânsito. No meio do serviço, ela conhece Nick Wilde (Jason Bateman), exatamente outra raposa, e Finnick (Tommy ‘Tiny’ Lister), que aprontam fazendo trabalhos suspeitos. Num deles, Nick pretende comprar um picolé num estabelecimento que vende apenas para elefantes para o que seria seu filho, até que a coelha descobre que tudo não passa de uma grande invenção. Ainda incansável com a ideia de que deve também ser uma investigadora, ela recebe o apoio da vice-prefeita, Dawn Bellwether (Jenny Slate), maltratada pelo prefeito Lionheart (J.K. Simmons), ao querer ajudar a Sra. Otterton (Octavia Spencer).
Tudo é início de uma aventura que transformará Zootopia, onde todos os animais deveriam conviver em harmonia, o que lembra um pouco Uma cilada para Roger Rabbit. No filme de Zemeckis, havia Toontown, a cidade onde os desenhos viviam em comunidade. Em Zootopia, também convivem diferentes épocas: há cenários futuristas com outros que lembram os de dias atuais e até aqueles que lembram um passado mais imediato.

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Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, diretores do filme, conseguem compor uma personagem central muito interessante e mesmo original no universo da animação, e coloca como parceiro dela uma figura das mais empáticas do universo animado recente, graças, também, à voz do ótimo Bateman. Ambos têm ligações também pelo passado em comum, mesmo um sendo associado à tranquilidade e outro à vilania. Em razão do talento dos diretores em compor um design visual atrativo, com uma cidade que lembra, em diferentes momentos, a de Tomorrowland e De volta para o futuro 2, junto com influências visíveis de O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, e uma homenagem bem-humorada a O poderoso chefão, Zootopia demarca uma atmosfera realmente original. Poucos desenhos recentes conseguem demarcar um cenário amplo, a partir do qual o espectador pode visualizar os personagens, e a sua cidade se caracteriza, além de pela diversidade, por uma ideia realmente consistente de cotidiano, não apenas de um meio urbano, como também do meio rural.
Além disso, o filme traz como temas a identidade, o estereótipo, a discussão de gêneros e liberdade entre diferentes, no entanto sem se basear nisso o sucesso. Nesse sentido, ele me parece desenvolver melhor tais temas do que outros desenhos animações, mesmo o recente Detona Ralph, dirigido por Moore, um dos codiretores deste, e atua num plano em que Universidade Monstros, lamentavelmente desvalorizado, se arrisca: o de que a infância possui medos que devem ser colocados à prova, não exatamente original, mas poucas vezes tão bem trabalhado quanto aqui.

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É difícil dizer se, em alguns momentos, Zootopia não aplica uma certa vontade de rotular o que exatamente critica – mesmo que haja ótimas gags, como a do elefante na sala. Os pequenos animais são vistos sempre sob o ponto de vista de que são bons ou inofensivos (os coelhos, as ovelhas), em relação aos maiores, e os diretores brincam com essa ideia. Sob outro ângulo, eles colocam um tigre atendendo no departamento de polícia que está mais interessado em acompanhar a trajetória de uma cantora de Zootopia, Gazelle, que parece uma homenagem a Adele, mesmo tendo a voz de Shakira. Além de tudo, há uma sequência de cenas de ações bem feitas e bem-humoradas (como o encontro com os funcionários de trânsito, que são bichos-preguiça) e uma transição natural, nada forçada, entre as cenas. É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável. De maneira mais ampla, este desenho me parece o maior acerto do selo da Disney (não contando o departamento da Pixar) desde Aladdin, de 1992, muito superior a sucessos recentes da companhia.

Zootopia, EUA, 2016 Direção: Byron Howard, Jared Bush, Rich Moore Elenco: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, JK Simmons Roteiro: Jared Bush, Phillip Johnston Trilha Sonora: John Powell Produção: Clark Spencer Duração: 108 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

Kung fu panda 3 (2016)

Por André Dick

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Uma das tentativas de estabelecer confronto com a Pixar por parte da Dream Works foi, em 2008, a realização de Kung fu panda. Visto como um desenho mais popular do que os da Pixar, nunca chegou, apesar de sua qualidade, a receber a atenção merecida. Se a Dream Works tem como uma de suas características as séries de animação (a exemplo de Shreck, Madagascar e Como treinar o seu dragão), pode-se dizer que Kung fu panda é a principal no sentido de tentar elaborar uma saga com personagens bem definidos e que se correspondem ao longo dos filmes, com histórias particulares. Pode-se avaliar que ele não possui a reflexão de alguns desenhos considerados mais experimentais – principalmente aqueles vindos exatamente do Oriente –, mas dentro do que se propõe torna-se uma referência e não fica a dever para outros considerados superiores. Tudo circula em torno de um mestre, Shifu, e os cinco furiosos: Tigresa, Víbora, Macaco, Garça e Louva-Deus (com as vozes, no original, respectivamente, de Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, Jackie Chan, Seth Rogen e David Cross). No início, eles não podem acreditar que Po (voz de Jack Black), um panda que trabalha servindo comida com seu pai adotivo, Sr. Pong, possa se transformar no Dragão Guerreiro, escolhido pelo mestre Oogway, uma sábia tartaruga, capaz de manter a tranquilidade no vale onde mora.

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Kung-fu panda 10Depois de um primeiro filme com ótima apresentação de cada personagem – e ainda com os melhores momentos da série –, a continuação se destacou por uma belíssima direção de arte. O personagem estava mais maduro em relação ao anterior, mas é na questão familiar que o desenho se direcionava, mesmo com os toques de humor já presentes no original, para o drama: ele quer saber de onde veio e quem é sua família original. Po precisa libertar a China de uma terrível ameaça – para ele, não para os espectadores, que se deparam com um pavão terrível e ameaçador, Lord Shen –, e para isso conta com a ajuda de seus amigos do primeiro. Lá está novamente seu mestre, Shifu, a duvidar de seu potencial, mas acredita que ele deva buscar o “equilíbrio interior”, e o panda se sente ainda mais atrapalhado em muitos momentos, mas é certo que ele está amadurecendo e olhando para o passado. Nesse ponto, ele parece nos trazer toda uma certa ideia de infância de volta.
Neste terceiro filme, a busca pelo pai biológico continua, com a presença do seu pai adotivo, o ganso Sr. Pong a seu lado, e surge uma nova ameaça para os cinco furiosos e a tranquilidade do vale: a chegada do touro Kai (com voz de JK Simmons no original), que pretende se vingar tanto dos treinados por Shifu quanto atacar o vale secreto onde moram os pandas e, consequentemente, os familiares de Po. É mais exatamente o Tai Lung do primeiro filme com um acréscimo explicativo que desenvolve outra linhagem da série – e faz com que este se feche com o primeiro mais exatamente.

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Para isso, ele reencontra o seu pai, Li (voz de Bryan Cranston no original). Novamente o panda deve colocar à prova os seus talentos com a arte marcial, sempre sob o olhar de dúvida dos amigos. É esta a característica principal dessa série muito bem feita: o personagem principal é um herói apenas para os outros, pois em nenhum momento ele se considera como tal. Para ele, tudo não passa de uma grande honra, já que seus ídolos, os cinco furiosos, são considerados menos tarimbados do que ele para a missão que precisam enfrentar. Para uma nova sequência de imagens fantásticas do Oriente, que dialogam claramente com Akira Kurosawa desde o primeiro, assim como com as obras de Zhang Yimou, na profusão de cores dos cenários e figurinos, além de lutas bem coreografadas, tudo isso é suficiente – e minha esposa e meu sobrinho de 9 anos acharam o mesmo.
Os diretores da nova empreitada são Alessandro Carloni e Jennifer Yuh (também realizadora do segundo) e se percebe, pela presença também de Guillermo del Toro na produção executiva, o quanto Kung fu panda continua sendo um exemplo de animação com atenção a todos os detalhes. A versão em 3D desta terceira parte é particularmente muito bom, realçando, sobretudo, o pano de fundo da história e as belas paisagens do vale onde moram o panda e os cinco furiosos.

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Se o roteiro desta vez tenta mesclar os conceitos dos dois filmes anteriores – um vilão que ameaça destruir os cinco furiosos e a faceta de busca pela paternidade do segundo –, pode-se dizer que os melhores momentos são os da convivência de Po com o ambiente de seus familiares, excluindo um tanto a participação de seus antigos companheiros. São momentos em que os Carloni e Yuh exercem um dos melhores elementos que vemos no primeiro e no segundo filme: uma mescla interessante entre humor e drama, em que a discussão sobre as origens fica mais interessante quando se tenta assumir responsabilidades do presente, desta vez com Po tentando ser encarregado por seu mestre Shifu de continuar o treinamento dos companheiros. Há também uma nova personagem, Mei Mei (Kate Hudson no original), embora visivelmente subaproveitada. As ações de Po continuam no limite (com a dublagem, feita de modo exitoso, por Lúcio Mauro Filho), e é bem feita a nova participação de seu pai adotivo, S. Pong (James Hong no original e Pietro Mário na excelente dublagem). Não apenas pela temática de relação pai e filho como pela própria relação com seu mestre Shifu, Kung fu panda pode não encantar mais em razão de não ser mais original – o triunfo do primeiro –, mas chega a emocionar seus admiradores.

Kung fu panda 3, EUA, 2016 Diretor: Alessandro Carloni, Jennifer Yuh Elenco: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, James Hong, Bryan Cranston, Kate Hudson, JK Simmons Roteiro: Gleen Berger, Jonathan Aibel Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 95 min. Distribuidora: Fox Film Produção: Melissa Cobb Estúdio: DreamWorks Animation / Oriental DreamWorks

Cotação 4 estrelas