A favorita (2018)

Por André Dick

O melhor de O sacrifício do cervo sagrado, filme imediatamente anterior de Yorgos Lanthimos ao mais recente A favorita, era a sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes pode desconstruir em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Em O sacrifício, ele se limitava a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Ainda utilizando uma espécie de estilo de teatro filmado com diálogos lentos e atores quase estáticos, esses elementos não se encontram em A favorita.

Vendedor do Grande prêmio do júri e de melhor atriz (Olivia Colman) no Festival de Veneza e com várias indicações ao Oscar, A favorita se passa na Inglaterra, no início do século XVIII, quando a rainha Anne (Colman) tem uma amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz), governando na realidade em seu lugar. Surge uma nova serva, Abigail Masham (Emma Stone), que é prima de Sarah e passa a ser a nova favorita da rainha. Em linhas gerais, a narrativa foca na relação de inimizade entre Sarah e Abigail, mas se estende também à tentativa de Robert Harley (Nicholas Hoult) influenciar nas decisões relacionadas à política e à guerra com a França. Essas relações, no entanto, servem mais a exibir como uma rainha entra num jogo de espelhos com duas mulheres que desejam conquistar o poder, cada uma à sua maneira. Sarah manipula Anne para que seu marido, Lorde Marlborough (Mark Gatiss), se destaque à frente da guerra. Por sua vez, Abigail flerta com Samuel Masham (Joe Alwyn). Esse flerte, porém, é gélido, quase como a relação do personagem de Nicole Kidman com seu marido médico em O sacrifício do cervo sagrado.

O design de produção de Fione Crombie é fabuloso, lembrando Barry Lindon e Maria Antonieta, o figurino de Sandy Powell notável e a fotografia de Robbie Ryan usa a lente olho de peixe, como Emmanuel Lubezki nos trabalhos de Iñárritu e Malick, para captar uma certa grandeza palaciana, em contraposição aos humanos mesquinhos e reduzidos quase a indivíduos sem nenhuma personalidade. Lanthimos sempre foi muito próximo da ideia de um estilo estranho e em A favorita ele consegue, de certo modo, inserir elementos de humor onde costuma não haver. No entanto, parte de sua estranheza é evidentemente tornada mais popular e palatável, para que o público possa se aproximar mais dos personagens. Enquanto Stone opta por uma variação de humor correspondente ao roteiro que recebe, sendo de fato a intérprete principal (embora na temporada de premiações seja incluída como coadjuvante), Weisz se comporta como na maior parte de sua filmografia recente, não chegando a ter uma grande interpretação, no entanto com sua habitual competência, enquanto Colman aparece bem em seu papel, principalmente na sua demonstração de desgaste com a dor física imposta por problemas de saúde.

Com roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, o primeiro filme de Lanthimos sem trabalhar sua própria história, A favorita flutua entre episódios distintos, quase como contos da realeza, e corridas de pato em meio a punições a criadas que ousam buscar um tratamento médico para os problemas de saúde da rainha. Suas características podem ser descobertas em meio aos percalços existenciais de cada um e na futilidade de Sarah, atendida prontamente por todos. Lanthimos insere mais suas propriedades quando transforma Abigail no centro da história, e Stone consegue reproduzir sua estranheza de maneira por vezes impactante. A utilização dos cenários para representar os sentimentos de cada uma dessas mulheres constrói um contraste interessante. O Palácio de Kensington representa uma redoma de solidão e, ao mesmo tempo, de lugar onde muitas personalidades vão se revelar de modo contundente. Se no início o humor está mais presente (com uma personagem, por exemplo, sendo jogada de uma carruagem diretamente na lama), a dramaticidade e mesmo certos elementos soturnos aos poucos vão consumindo a história, chegando a um último ato anticlimático, em relação à filmografia de Lanthimos, embore funcione simbolicamente. Ainda assim, a figura do homem, como aquela vista por meio do primeiro-ministro Sidney Godolphin (James Smith), é, não raras vezes, patética.

Volta e meia, Lanthimos faz com que os cenários sejam escuros, quase como se tudo fosse um subterfúgio, assim como deixa as luzes das janelas em determinados momentos fazerem o contrário. Os bastidores se aproximam da realidade e o que se mostra diante dos olhos de todos lembra mais uma peça teatral encenada, em que as personagens precisam disfarçar aquilo que realmente pensam. Quando a rainha brinca com os dezessete coelhos que possui, eles estão na parte iluminada do seu quarto, ao contrário de quando ela precisa esconder sua sexualidade. Whit Stillman havia tentado alguns desses movimentos em Amor & amizade, sem a concretização vista aqui. Para Lanthimos, esconder a sexualidade faz parte da própria ordem do poder enfocado por A favorita. Este, no entanto, atua como um eixo de coordenação entre figuras que podem ser vistas como vítimas, no caso de Abigail, e extremamente poderosas, no caso da rainha. É aí que o diretor conduz tudo a uma espécie de tragédia geral: a história se repete mesmo que sejam figuras diferentes a vivê-la.

The favourite, EUA/IRL/ING, 2018 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn Roteiro: Deborah Davis, Tony McNamara Fotografia: Robbie Ryan Produção: Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday, Yorgos Lanthimos Duração: 120 min. Estúdio: Scarlet Films, Element Pictures, Arcana, Film4 Productions, Waypoint Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight PicturesRelease date

La La Land – Cantando estações (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar de melhor filme, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, vem com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, La La Land traz uma história que pode ser considerada romântica em seu limite.
A jovem Mia Dolan (Emma Stone) se encontra numa estrada congestionada de Los Angeles quando as pessoas saem de seus carros e se põem a cantar “Another day of sun”, num número musical realmente notável e que Chazelle filma praticamente sem cortes. Ela trabalha como barista no café da Warner Bros e deseja ser atriz, sempre participando de audições. Por sua vez, preso no mesmo engarrafamento, está Sebastian Wilder (Ryan Gosling), um dedicado pianista de jazz, que não consegue se manter com tranquilidade e isso provoca conflitos com sua irmã Laura (Rosemarie DeWitt). No restaurante onde toca, seu chefe, Bill (JK Simmons), diz que ele não deve tocar jazz, apenas canções de Natal. Por sua vez, Mia está preocupada com seu futuro, pois as audições não estão dando certo, enquanto convive com três colegas de apartamento (Callie Hernandez, Jessica Rothe e Sonoya Mizuno), e ainda assim se motiva a ir a uma festa.

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Este início de La La Land é acelerado, pois encadeia dois números musicais quase seguidos em que há um trabalho de cores nos figurinos e luzes, mas também um estilo que não se localiza no restante da narrativa que apresenta. Alguns apontam justamente que há uma queda onde, na realidade, La La Land ingressa em seu verdadeiro tributo à maneira como se enxerga a arte e a vida. La La Land não tenta ser espetacular em termos de figurinos e design de produção como Moulin Rouge, Chicago ou Os miseráveis, para citar três musicais recentes: ele utiliza a música para tratar de relações.
Depois de Mia encontrar Sebastian pela terceira vez – a segunda evoca Mesmo se nada der certo –, tocando músicas dos anos 80 numa mansão de Hollywood, ambos passam a se aproximar e, graças a Emma Stone e Ryan Gosling, o filme adquire uma carga não apenas romântica como também nostálgica e cortante. Por um momento, temos a Stone de A mentira e o Gosling de Dois caras legais: ambos já formaram casais no ótimo Amor a toda prova e no irregular Caça aos gângsteres, e Chazelle sabia claramente que tinham uma química evidente de atuação. Eles não precisam de muitos diálogos para desenhar o arco de seus personagens e é isso que La La Land revela à medida que a relação entre os dois é trabalhada. Sebastian tenta criar em Mia um interesse pelo jazz (ela não aprecia este gênero musical) e tem o sonho de criar um clube, o que já era tema em Whiplash, mas aqui pode soar, para alguns, um tanto facilitado. Mais do que personagens, são símbolos e, por causa das atuações, eles se transformam em figuras críveis.

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La La Land talvez não tenha nada de muito novo a falar sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tem muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia e Sebastian são figuras que, como aparecem no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividem entre o que pretendem ser e o que se mostra realmente viável. Isso confere ao filme uma camada que Chazelle torna encantadora pela maneira como a revela, aos poucos. Não há nada de novo nesse romance; o novo se concentra justamente na maneira como essa mensagem de busca pelo sonho é passada.
Quando Sebastian encontra um colega de escola, Keith (John Legend), Chazelle não descarta o que vinha mostrando. Sebastian não é apenas pianista como Ray, de O fundo do coração, que podia conceder os sonhos à personagem central do filme de Coppola; é também uma espécie de tributo ao personagem que James Dean faz em Juventude transviada, cuja noite de sonhos visualiza uma vida realmente tranquila, sem os conflitos em que é inserido às vezes à força, além daquela referência de local, que é o Griffith Observatory, numa sequência que evoca outro filme com Stone, Magia ao luar, de Woody Allen.

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Não por acaso, Chazelle situa esse clássico como o ponto de encontro entre Sebastian e Mia: esses são personagens que não vivem longe de seus sonhos. Chazelle, porém, não é condescendente e, mais do que O fundo do coração, de Coppola, inspiração clara para muitas cenas (e mesmo nos postes de luz das ruas), e muito mais do que o cinema francês de Jacques Demy – presente nas cores de alguns figurinos –, ele traz a lembrança do cortante New York, New York, de Scorsese, que mostrava uma relação conturbada entre um músico feito por De Niro e uma cantora feita por Liza Minelli e os conflitos entre ambos na busca pelo sucesso. Chazelle não transforma esses personagens em figuras apenas ligadas pelo sonho – e sim como símbolos capazes de representar a solidão de Los Angeles, em que o sol não brilha para todos, na carreira, mas os sonhos definitivamente podem brilhar. Isso já aparecia em seu filme de estreia, Guy and Madeline on a park beach, no qual um jovem admirador de jazz se encontrava entre idas e vindas com uma jovem, marcado pelo estilo nouvelle vague de Godard, a começar por sua fotografia em preto e branco. Em La La Land, o diretor pergunta constantemente: nos sonhos realizados há perfeição e não existe a melancolia que se almeja não ter em nenhum momento?
Stone e Gosling não são exímios cantores (embora não cheguem nunca a desafinar, como Crowe em Os miseráveis), mas cantam bem e é isso que ajuda o tornar o filme tão próximo do espectador: estamos diante de pessoas reais e que podem se mostrar mais pelo que não transparecem aos outros. Os números musicais são bem feitos, embora nenhum tão encantador quando um em que Stone e Gosling trocam passos de dança e ele usa o sapateado numa das colinas de Hollywood, com as luzes de Los Angeles ao fundo – que remete imediatamente a Las Vegas de O fundo do coração, de Coppola. Nesses números, Chazelle desenha a aproximação entre os personagens, que se concretiza nos gestos e olhares trocados entre os personagens.

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São justamente por meio desses gestos, que Chazelle colheu principalmente de Amor a toda prova, em que o casal atuou junto pela primeira vez e de maneira excepcional, que La La Land caminha para ser um triunfo não musical, mas de reflexão sobre os momentos em que os indivíduos estão afastados do palco e dos holofotes. Ele não grava os sonhos majestosos como algo que confere uma alegria adicional ao ser humano, e sim os pequenos gestos e os sonhos mais íntimos, compartilhados apenas com uma determinada pessoa. Mesmo que Mia viva com três amigas pretendentes a atriz, e Sebastian seja um pianista de clubes, eles dificilmente são vistos em interação com outros: a cidade se reduz a eles, porque ambos são símbolos de Los Angeles. Tanto parece ser isso que, quando o filme se move para a autodescoberta dos personagens, a noite se esvai um pouco e aparece o dia sem retoques fotográficos do trabalho impecável de Linus Sandgren, habitual colaborador de David O. Russell. Por isso, de forma até paradoxal, o filme funciona mais como um drama e romance do que exatamente como um musical: quem espera grandes coreografias ou canções intermitentes vai se deparar com um filme que praticamente não pertence a nenhum gênero, sendo essa uma de suas qualidades.
Nesse sentido, Chazelle considera que, para que se possa viver um sonho, não necessariamente deva ser desfeita alguma glória passada. Para ele, os números musicais e as relações românticas são o próprio cinema e o que se vê na tela e fora dela: é quando La La Land aproxima a todos, como um grande número musical, mas longe de tudo, apenas sob um facho de estrelas ou se vendo a cidade cintilante do alto de uma colina à noite. É emocionante e arrebatador.

La La Land, EUA, 2016 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, JK Simmons, John Legend, Rosemarie DeWitt Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Fred Berger, Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Marc Platt Duração: 127 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Gilbert Films / Impostor Pictures / Marc Platt Productions

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Homem irracional (2015)

Por André Dick

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O diretor Woody Allen sempre teve uma trajetória voltada à mescla entre humor e drama, o que pode se constatar mais uma vez em Homem irracional, tendo à frente Joaquin Phoenix e Emma Stone. Se os seus projetos anteriores já mostravam um roteiro se adaptando a essa mistura, em Homem irracional é possível dizer que Allen incorre numa tentativa de repetir dois filmes que já lhe trouxeram grandes críticas: Crimes e pecados, dos anos 80, com Alan Alda, e Match Point, do início dos anos 2000, em seu início de turnê de filmagens pela Inglaterra. De ambos, Allen extrai algumas características marcantes: de Crimes e pecados, Homem irracional possui um certo humor negro mesclado a aspectos trágicos, enquanto de Match Point ele conserva uma certa dúvida sobre quais são as pretensões do ser humano ao procurar uma reviravolta em sua vida.
Phoenix interpreta Abe Lucas, um professor com problemas etílicos que chega para dar aula de Filosofia numa pequena cidade de Rhode Island, na faculdade do campus de Braylin, onde imediatamente conhece uma de suas alunas, Jill Pollard (Emma Stone). Namorada de Roy (Jamie Blackley), ela passa a se encantar pelas histórias do professor, sempre preocupado em satisfazer aos outros com suas idiossincrasias, sendo perseguido por uma professora casada, Rita (Parker Posey), interessada em ter casos extraconjugais. O ambiente universitário não alegra mais ao professor, até o dia em que Abe e Jill estão numa lanchonete e ouvem uma mulher contar a amigos que será prejudicada por um juiz a princípio amigo de seu marido para obter a custódia de seus filhos. Abe passa a se interessar pela solução deste caso, o que pode implicar fazer algo com este juiz.

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Um dos comentários mais conturbados, mas não desprezível, que li sobre Homem irracional é de que ele poderia representar a vontade de Woody Allen em relação ao que fazer com a justiça, sobretudo em razão dos problemas familiares em que volta e meia é envolvido. Isso pode ser, por um lado, reducionista, pois é evidente que Allen sempre teve uma postura em relação a personagens frustrados – e muitas vezes incorre no limite da solução para desvendá-los, seja por meio de uma loucura pessoal, seja por meio da aceitação de que não há outra saída a não ser essa loucura. Trata-se de um personagem que, em outro nível, dialoga com aquele da esposa solitária vista em Blue Jasmine – e as atuações de Phoenix e Blanchett se equivalem na sua extrema facilidade em mostrar um estranhamento.
Também há, como lembra minha esposa, mais leitora do que eu desse universo, uma influência notável da literatura russa, sobretudo de Crime e castigo, de Dostoiévski – a qual eu, pessoalmente, não poderia oferecer em mais detalhes, mesmo para evitar spoilers. Essa influência literária, acompanhada pelos conflitos da filosofia que Lucas ensina na faculdade, que vai de Kant a Hegel, passando por Schopenhauer, é certamente o convite que Allen faz para ver tudo com olhos de um literato. Há uma grande recorrência de Allen em relação a esse universo que cerca a literatura e a filosofia. Para ele, os personagens sofredores na verdade estão jogando com os outros, sem dó ou piedade, e o mesmo acontece com Lucas. O seu estilo melancólico, e sempre acompanhado por uma dose etílica, proporciona momentos de humor com os personagens femininos, principalmente porque não consegue ver mais razão na vida que não seja conta-la para os outros, sempre aumentando suas histórias ou se mostrando cada vez com tendências a dar cabo de sua vida mesmo em ambientes nos quais os jovens parecem querer cada vez mais se divertir.

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Nesse sentido, Jill se torna a maquinação perfeita para que ele possa introduzir uma compreensão para suas loucuras. Emma Stone consegue ser muito agradável no papel, numa nova parceria com Allen logo depois de Magia ao luar, em que dividia a cena com Colin Firth. É justamente Stone que estabelece uma ligação com um plano de entendimento mais agradável – e deve-se imaginar que Allen a selecionou a partir de três filmes em que ela se mostra com a melhor verve, A mentira, Zumbilândia e Amor a toda prova. Talvez seja neste ponto que o roteiro de Allen acabe destoando um pouco do restante, pois Joaquin Phoenix ingressa numa espécie de obsessão pessoal por se modificar de acordo com os planos que passa a traçar a fim de que haja mais sentido em sua vida, enquanto Emma se encontra mais num filme que retrata uma fuga do primeiro amor para uma relação arriscada com o professor de filosofia que tanto admira.
Fazendo o equilíbrio entre os dois, Parker Posey é nunca menos do que excelente, principalmente depois de uma determinada situação amorosa, extraindo a parte mais divertida de Homem irracional e rendendo os melhores momentos para Phoenix. Mais uma vez, no entanto, em relação a possíveis problemas de narrativa – e o roteiro nunca estabelece adequadamente a comédia e o thriller –, Allen trabalha minuciosamente com as imagens de seu habitual colaborador Darius Khondji, iluminando as manhãs e tardes e especialmente um parque com iluminação que remete a uma das cenas em night club de New York, New York, de Scorsese, como algo que foge à realidade mais imediata evitada por Abe Lucas e sua tentativa de se desligar dos relacionamentos que insistem em se fazer e se manter à sua volta. É inegável, de qualquer modo, como Allen, mesmo em filmes não tão grandes, consegue manter a qualidade que dizem ter perdido a partir do início do século, quando entregou desde então obras realmente divertidas e menosprezadas, como Igual a tudo na vida, O escorpião de Jade, Dirigindo no escuro e outras elogiadas, como Vicky Cristina Barcelona, Melinda e Melinda, Tudo pode dar certo e Meia-noite em Paris. Homem irracional fica num meio-termo, mas nunca soa dispensável como obra; pelo contrário, é atrevido e original.

Irrational man, EUA, 2015 Diretor: Woody Allen Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley, Betsy Aidem, Ethan Phillips Roteiro: Woody Allen Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: William Barrett Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gravier Productions  

Cotação 3 estrelas e meia

 

Sob o mesmo céu (2015)

Por André Dick

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Quando o diretor atinge o estágio de possuir um público particular, talvez seja o momento em que comecem os problemas. No caso de Cameron Crowe, diretor de filmes como Vida de solteiro, Quase famosos, Jerry Maguire e Tudo acontece em Elizabethtown, banhados pela cultura pop e, principalmente, por trilhas sonoras elaboradas, o problema é sair um pouco desta rota. Se ele conseguiu adotar momentos diferentes em obras como Vanilla Sky – principalmente por sua visão perturbadora do amor dividido entre dois caminhos – e Compramos um zoológico – com sua visão familiar mesclada à preservação de um habitat para animais –, pode-se dizer que Sob o mesmo céu inaugura uma nova etapa na carreira de Crowe. Não que ele não tenha algumas das características próprias do diretor: lá estão a trilha sonora com vários hits, o romantismo e a busca de um homem pelo amor.
Temos a história de Brian Gilcrest (Bradley Cooper), que, depois de uma passagem pelo Oriente Médio, volta ao Havaí, na época do Natal, onde se encontra imediatamente com sua antiga namorada, Tracy Woodside (Rachel McAdams), a quem abandonou, agora mãe de dois filhos e casada com rei Woody (John Krasinski). Ele passa a ser acompanhado por uma militar, piloto de caças, chamada Allison Ng (Emma Stone), que se encanta em lhe dar “alohas” quentes, como ela mesmo se refere. O objetivo de Brian é ter de tratar com os nativos do local, principalmente com o líder Bumpy (Dennis “Bumpy” Kanahele), a fim de receber permissão para colocar sobre o céu do Havaí um satélite, planejado pelo milionário Carson Welch (Bill Murray), o homem mais rico da América. No meio de tudo isso, ainda aparecem o General Dixon (Alec Baldwin) e o Coronel ‘Fingers’ Lacy (Danny McBride).

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Sob o mesmo céu tem recebido críticas tenebrosas desde seu lançamento – e isso é realmente uma grande vergonha. A sensação é de que Crowe apresentaria todos os problemas do cinema contemporâneo em sua obra. Não apenas o filme traz atuações excepcionais de todo o elenco (com destaque para as de Emma Stone e Bradley Cooper), como possui alguns diálogos plenamente espirituosos, também para tratar das influências do Havaí em sua narrativa. O filme tem uma divisão clara entre o mundo projetado e moderno, sobretudo pela presença de satélites e referências a viagens espaciais, por meio da figura do filho de Tracy, Mitchell (Jaeden Lieberher), e o mundo natural, com a crença em lendas do espaço havaiano – aqui, uma breve influência de A última onda, de Peter Weir –, além da cultura da dança, representada pela filha, também de Tracy, Grace (Danielle Rose Russell), e da música, cantada em rodas.
No início desta década, Alexander Payne havia trazido às telas uma visão muito interessante sobre uma família havaiana no excelente Os descendentes. Por sua vez, Sob o mesmo céu traz um clima de que os personagens se alimentam, para suas vidas, desse ambiente – esclarecido principalmente quando Brian e Allison se encontram com Bumpy. Nisso, há uma abordagem sobre as pessoas nascidas no Havaí ou não – Allison se diz ¼ havaiana, Brian tenta se aproveitar que nasceu no arquipélago para convencer Bumpy a respeito do satélite – , e se sentir ou não norte-americano ou parte do mundo contemporâneo diante das lendas locais. Para Brian, tudo se resume a trocar favores; para Allison, não.

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Embora seja uma referência talvez distante, há semelhanças entre detalhes de Sob o mesmo céu com Síndromes e um século, sobretudo na maneira como Crowe preferiu captar seu filme, com cenários bastante simples, por meio das lentes de Eric Gautier (Na estrada), mostrando um senso autoral do ambiente em que a história se insere bastante eficiente, revelando os parques e lugares de dança havaiana. Isso sem comentar em seu tratamento surrealista de determinadas ocasiões, quando Carson encontra Brian e Allison numa festa na qual a música de fundo é Tears for Fears, que diz que todos querem governar o mundo, e as atuações de Murray e Stone se destacam pela despretensão e um certo improviso, também presente em outras cenas. As críticas dirigidas a Sob o mesmo céu parecem endereçadas a essas características, acompanhadas de  uma certa quebra ao cinema linear a que estamos acostumados.
Ao contrário dos filmes anteriores de Crowe, principalmente Compramos um zoológico, não há uma reiteração do que a história se propõe; é mais fácil perceber, em Sob o mesmo céu, uma opção pela sugestão e por comportamentos estranhos e, algumas vezes, inexplicáveis. Ainda assim, esse caminho não se sente deslocado, mas parte de uma narrativa que se permite a discutir questões românticas e familiares sob o ponto de vista de condução do mundo, ou seja, procurando descobrir para onde ele segue. Perceba-se, por exemplo, a relação de Woody com sua família e com a chegada de Brian ao lar onde encontra sua ex-namorada, o que rende algumas das melhores sequências da história, principalmente diálogos nos quais as palavras faltam e o espectador tem acesso ao que eles queriam dizer por legendas (um diálogo criativo com Noivo neurótico, noiva nervosa).

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Um dos maiores equívocos é aproximar este Sob o mesmo céu de Elizabethtown, uma das obras mais falhas de Crowe, também pela ineficiência de Orlando Bloom e Kirsten Durnst, o que não ocorre aqui. Ainda: Sob o mesmo céu não se apoia numa simpatia exagerada de Crowe, em que os personagens ficam sorrindo de maneira forçada. Mesmo em suas obras mais acertadas, como Quase famosos e Jerry Maguire, fazia-se presente um sentimento em parte pouco natural. Isso não acontece em Sob o mesmo céu: todos os personagens soam, ao mesmo tempo que cotidianos, bastante humanos. Há realmente um grande sentimento na maneira como Crowe os revela, assim como suas ações no espaço do Havaí. O principal é, sem dúvida, Brian, com sua tentativa de não soar como alguém inconfiável; o segundo é Allison, em sua tentativa de conviver com as mudanças que podem ser trazidas ao arquipélago. Não parece haver dúvida, depois disso, que se trata do melhor casal escolhido pelo diretor desde aquele composto por Tom Cruise e Renee Zellweger em Jerry Maguire. Crowe, desta vez, se não adota mudanças no entrelaçamento amoroso entre os personagens, evita a todo instante colocar tudo seguido por uma obviedade romântica: a simplicidade está em todo canto, mas não o tratamento. Daí a aversão de fãs fiéis ao novo Crowe: ele simplesmente não utiliza a maior parte de seus maneirismos em Sob o mesmo céu. Ele visivelmente está procurando por algo novo, influenciado por certo cinema oriental e europeu, além de deixar indefinido o gênero. Veja-se, sob esse ponto de vista, sua cena final, um verdadeiro primor não apenas na trajetória de Crowe, como do cinema norte-americano, pouco afeito a algumas discrições emotivas. Se Crowe tivesse incluído “Hawaii Aloha”, dos Strokes, em sua extensa trilha sonora, a alegria estaria completa.

Aloha, EUA, 2015 Diretor: Cameron Crowe Elenco: Bradley Cooper, Emma Stone, Bill Murray, Rachel McAdams, Alec Baldwin, Danny McBride, John Krasinski, Bill Camp, Dennis Bumpy Kanahele, Jaeden Lieberher, Danielle Rose Russell, Ivana Milicevic Roteiro: Cameron Crowe Fotografia: Éric Gautier Trilha Sonora: Jon Thor Birgisson Produção: Cameron Crowe, Scott Rudin Duração: 105 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Columbia Pictures / LStar Capital / Regency Enterprises / Scott Rudin Productions / Sony Pictures Entertainment / Vinyl Films

Cotação 4 estrelas e meia

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (2014)

Por André Dick

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Antes de assistira Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), é natural que se espere mais um filme superestimado, em razão do número de críticas prontas para apontar inúmeras virtudes, sobretudo numa época em que muitos filmes são lançados com o objetivo de participar de alguma premiação. O mexicano Alejandro González Iñárritu é um diretor que agradava à Academia de Hollywood, depois das indicações de 21 gramas e Babel, mas não havia lidado até agora com um material que não envolvesse um drama caracterizado até mesmo pela tragédia, como vimos em Biutiful, na interpretação de Javier Bardem. Com a colaboração do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade e dos filmes mais recentes de Terrence Malick), ele provoca uma espécie de deslocamento em sua carreira, mesmo que não se afaste completamente de características da sua trajetória, e consegue apresentar Birdman como se fosse um único plano-sequência, mostrando os ensaios de uma peça teatral adaptada de Raymond Carver, no Teatro St. James de Nova York.
Esta peça tem à frente da adaptação e do elenco o ex-ator de sucessos de Hollywood Riggan Thomson (Michael Keaton), que interpretava o super-herói Birdman até 1992 (como o próprio Keaton quando fez Batman) e deixou de fazê-lo no terceiro filme da franquia. Longe dos holofotes, Thomson está em conflito com alguns integrantes do elenco, como Mike Shiner (Edward Norton), e sua tentativa de estabelecer um relacionamento com a filha, Sam (Emma Stone), enquanto tenta lidar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan). Ele ainda precisa buscar o equilíbrio na relação com duas atrizes: Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), mas ainda enfrenta o pior: a voz de Birdman – que lembra tanto a de Batman quanto a de Beetlejuice – em sua mente, ditando o que deve fazer. A questão é se seus poderes o ajudarão a se livrar de um ator que está jogando a peça para baixo.
Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

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Misturando o movimento nos bastidores da peça e os arredores do teatro, na Times Square, as tomadas de Lubezki conseguem envolver o espectador numa atmosfera ao mesmo tempo familiar e enigmática, e o uso de luzes nos bastidores e no palco desempenha quase um elemento narrativo, principalmente porque algumas luzes representam situações ou sensações dos personagens. Não há muitos filmes, como Birdman, que apresentem a sensação de estarmos num teatro e na vida real (A viagem do Capitão Tornado, filme italiano de Ettore Scola, e Sinédoque, Nova York podem ser mais lembrados). Ele talvez soasse pretensioso, mas não é sentido desta maneira: Birdman consegue unir vida “real” e teatro de uma maneira criativa, por meio do plano-sequência adotado por Iñárritu, intercalado pelos solos de bateria e das trocas de roupa, maquiagem e uso de perucas de Riggan.
Diante de críticas a este estilo de filmagem, pode-se imaginar se há uma espécie de surpresa em relação a ele e Lubezki terem conseguido, por efeitos especiais, essa ilusão, ou imperícia crítica de acreditar que ele existe apenas para uma espécie de enfeite: a sensação é de que Birdman tenta costurar aquele ambiente teatral que havia nos filmes de Robert Altman, sobretudo um filme bastante esquecido de 1976, Oeste selvagem, em que Paul Newman interpretava Buffalo Bill e o fazia como se estivesse em um teatro ao ar livre.
Para dar a impressão de acompanharmos os movimentos dos bastidores, da peça e da vida “real” de cada personagem, Iñárritu filma longas sequências com diálogos, obtendo um sentido de continuidade e de variações de cada um e os duplos de cada personagem, nos bastidores e à frente do público. Trabalha-se com os duplos a todo instante, não apenas dentro da narrativa apresentada, como também em relação a outras obras, numa sucessão de piadas culturais, mesmo que possam ser vistas como descartáveis: enquanto Keaton já foi Batman, Norton atuou como Hulk, mas substancialmente, e isso se relaciona com a questão da duplicidade de Riggan, esteve em Clube da luta (também evocado em determinada sequência), enquanto Naomi Watts homenageia Cidade dos sonhos e seu papel no King Kong de Peter Jackson, como atriz selecionada por Jack Black. Por sua vez, Emma já fez par com Ryan Gosling, a quem o personagem de Norton se compara em Birdman, em dois filmes. Nesse sentido, esses atores não estão desempenhando apenas personagens, como também satirizando a própria carreira, além de remeterem às inúmeras histórias de outro livro de Carver, este adaptado para o cinema, pelo próprio Altman: Short Cuts – Cenas da vida.

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Lembrando-se que o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan filma diálogos de 15 a 20 minutos em Winter sleep, vendedor em Cannes no ano passado, tendo como personagem central um ex-ator, Iñárritu emprega um filme que parece não ter cortes e onde tudo deve ser ensaiado, mas que quase nunca resulta no que se ensaiou. As conversas entre Riggan e seu agente, Jake (Zach Galifianakis), são divertidas porque justamente abordam essa linha de abordagem – os imprevistos da montagem teatral -, enquanto a atriz Lesley tenta obter seu primeiro sucesso na Broadway e não raramente costura algumas brigas nos bastidores, mesmo tentando, em seguida, a reconciliação. E Shiner se torna o principal ponto de provocação para Riggan, pois atrai o público para as bilheterias, a principal lembrança guardada pelo ex-Birdman dos tempos de fama e seu calcanhar de Aquiles.
Num instante em que Keaton entra num estabelecimento tomado de luzes aparentemente natalinas, mas no formato de pimentas mexicanas, Birdman também tenta voar como Enter the void, de Gaspar Noé. O espectador sente a profundidade dos ambientes, embora haja a opção, na maior parte do tempo, do diretor e de Lubezki pelos closes. É muito interessante a cena em que Keaton precisa enfrentar o Times Square (está no trailer) e as pessoas na multidão fazem comentários sobre seu estado físico ou querendo aparecer com ele em câmeras de celulares. Trata-se de uma sequência que poderia ser previsível, com sua evidente sátira ao show business, mas recebe um tratamento tão interessante por Iñárritu e Lubezki, como apoio de Keaton, que se torna quase uma síntese da narrativa. Do mesmo modo quando os personagens entram e saem do teatro como se fôssemos conhecendo diferentes níveis de consciência de cada um, sobretudo nos encontros entre Sam e Shiner no alto do teatro, de onde se pode ver a Broadway. Se, por um lado, Birdman é uma ode ao mundo do teatro e das múltiplas interpretações, ele também é um palco aberto para figuras bastante solitárias, com seus dramas de rotina.

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É a solidão de Riggan que se torna o diálogo perfeito para O fantasma da ópera, que aparece em propagandas, na Broadway, pois o personagem de Keaton não deixa de habitar os bastidores e sua persona dupla não deixa de ser um fantasma do seu eu, sobretudo por sua tentativa de conviver com as mulheres ao redor que, como aparece na peça de Carver, o abandonam ou se afastam por seu comportamento ambíguo. No entanto, é um fantasma menos taciturno, e algumas falas dele com uma crítica de teatro, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), são bastante engraçadas, à medida que o desabafo se torna uma metalinguagem descompromissada. Como grande diretor de atores,  Iñárritu extrai de Keaton uma excelente interpretação (no ano passado, ele já estava bem no mais recente RoboCop), assim como do elenco coadjuvante, cumprindo à risca as mudanças de tom e direcionamentos (com destaque para os ótimos Norton, Watts e Stone) e se o filme tem um problema é não dar um desfecho à altura para cada um dos personagens.
Por meio da figura de Dickinson, Iñárritu faz, com certeza, algumas provocações pessoais ao universo da crítica, assim como leva Keaton também a falar contra quem o vê apenas como Batman, e ainda sobram referências cômicas a atores que fazem super-heróis, além da sátira às redes sociais (pela qual Jason Reitman pagou por todos em Homens, mulheres e filhos). Destacado por seu visual atrativo, Birdman é uma mescla entre estilo e substância e torna-se melhor quando o espectador se surpreende com a mudança de ambientes, mesmo dentro de um mesmo espaço, ou de situações, sempre com o ritmo de um ator que precisa jogar suas falas para a plateia de uma peça, com o calor das luzes do teatro St. James chegando também ao espectador. Há emoção nele, traduzida pelo elenco com interesse e, ainda que em seu plano mais emocional tenha elementos claros de outros filmes (como Cisne negro Asas da liberdade), é uma peça muito calibrada de cinema. Mesmo o final, aparentemente rápido demais, é capaz de estabelecer a passagem da natureza interna para a externa que o cineasta deseja mostrar, formando, com seu elenco estelar, um filme estranhamente de arte sem deixar de lembrar Hollywood. Uma obra sobre a própria vida e os clichês que costumam movimentá-la, mas não sem emoção, por meio da representação e do desejo de nunca ser o mesmo.

Birdman or (The unexpected virtue of ignorance), EUA, 2014 Diretor: Alejandro González Iñárritu Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Antonio Sánchez Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher Duração: 119 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Regency Enterprises / Worldview Entertainment

Cotação 5 estrelas

Amor a toda prova (2011)

Por André Dick

Amor a toda prova

É muito raro, no cinema recente, existirem comédias românticas que não sejam apenas passatempo, em que o espectador se sente envolvido com os personagens e com a narrativa. Por isso, Amor a toda prova é uma alternativa bastante interessante, sobretudo em razão do elenco (Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Kevin Bacon, Marisa Tomei…), que torna sua história menos previsível e mais próxima da humanidade, com a colaboração decisiva do trabalho de fotografia de Andrew Dunn (As vantagens de ser invisível), contrastando lugares claros e escuros, como a situação de cada personagem. Cal Weaver (Carell) e Emily (Moore) são casados, mas, logo no início, ela lhe pede o divórcio, pois o teria traído com um companheiro da empresa, David Lindhagen (Bacon). Desolado, ele leva a babá de seus filhos, Jessica (Analeigh Tipton), para casa. Ela gosta dele, sem saber que na família Weaver já há quem goste dela, Robbie (Jonah Bobo), um dos filhos. Cal vai para um bar tentar esquecer o que aconteceu.
Já neste momento, percebemos que o filme tem um elemento dramático, ou seja, ele não deseja mostrar relacionamentos da maneira mais debochada, como em O virgem de 40 anos (com o próprio Carell) ou Missão madrinha de casamento (que, de qualquer modo, insere sensibilidade em meio às piadas). Tudo direciona Amor a toda prova para um meio-termo entre gêneros. Em seguida, ao conhecer um rapaz, Jacob (Gosling), no bar, que pretende transformá-lo novamente em alguém capaz de conquistar as mulheres, há um momento de Hitch (com Will Smith), entretanto o filme não se mantém nessa linha, o que faria com que se perdesse. Gosling não tem uma tendência para o humor mais óbvio; é mais discreto, e seu personagem acaba oscilando entre a necessidade de companhia incessante e a solidão de sua grande mansão. Carell segue o mesmo caminho; é um ator de comédia que possui talento quando precisa se envolver numa situação dramática, como Jim Carrey de O show de Truman e O mundo de Andy (não parece por acaso que ambos fizeram a franquia Todo poderoso). Nesse sentido, apesar de ser uma situação estranha, nem Gosling nem Carell a transformam em algo previsível ou banal. Eles podem ter até um material não tão bom às mãos, e ainda assim conseguem jogar com as cenas.

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O filme prefere se concentrar mais na dificuldade de amor entre idades diferentes, como aquele do menino Robbie pela babá. Enquanto isso, ela pede conselhos a uma colega mais experiente de como sair com homens mais velhos. Já Cal está perdido num universo no qual não se sente mais à vontade: da conquista. E, mesmo assim, ele se envolve com Kate (Marisa Tomei), durante uma noite, o que mais adiante resultará em uma surpresa. É interessante que o filme mostre a ex-mulher de Cal como uma pessoa ainda insegura, diante de um possível compromisso com o colega de trabalho. Julianne Moore é uma atriz que mostra, como poucas, a vulnerabilidade. Sabemos, ao olhar seus gestos, que ela está sofrendo com determinada circunstância, nunca deixando seus personagens caírem no lugar-comum (a cena em que ela liga para Cal, inventando que precisa de ajuda, enquanto ele está no pátio e consegue vê-la pela janela, é muito bem interpretada).
Ainda assim, a interpretação de Jonah Bobo é a melhor do elenco, pois ele justapõe essa ligação entre gerações – o momento em que tenta se declarar para a babá no colégio é um dos melhores – e coloca em dúvida a ideia de que um adulto entenderia melhor uma questão amorosa por ser mais velho. Trata-se, claro, de um elemento clichê, que os diretores Glenn Ficarra e John Requa conseguem traduzir em humanidade. Da mesma maneira, quando mostra a jovem Hannah (Emma Stone), que sonha em ser pedida em casamento pelo namorado e reluta em se envolver com Jacob, e quando os dois vão para casa dele se brinca com Dirty Dancing, dos anos 80, mostrando uma ingenuidade da conquista.
Neste sentido, Amor a toda prova mostra a dificuldade de se fugir à rotina – Cal volta às noites para casa, sem que a família veja, para poder molhar a grama –, de uma maneira bastante sensível, sem nunca colocar os personagens em descrédito. É evidente que, como em outras comédias românticas, em alguns pontos o filme não consegue sair da previsibilidade (o desfecho talvez seja ligeiro demais), mas, ao mesmo tempo, o espectador não se sente assistindo a apenas uma história em que homens e mulheres tentam se entender – ele consegue transformar a loucura e a estupidez do amor do título original em um encontro para a compreensão entre gerações.

Crazy, stupid, love, EUA, 2011 Diretor: Glenn Ficarra, John Requa Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Steve Carell, Kevin Bacon, Julianne Moore, Marisa Tomei, Jonah Bobo, John Carroll Lynch, Josh Groban Produção: Steve Carell, Denise Di Novi Roteiro: Dan Fogelman Fotografia: Andrew Dunn Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Carousel Productions

Cotação 4 estrelas

Histórias cruzadas (2011)

Por André Dick

Este drama, baseado em romance de Kathryn Stockett, possui alguns méritos evidentes: tem um elenco competente (sobretudo Viola Davis, Octavia Spencer, premiada com o Oscar de atriz coadjuvante, e Jessica Chastain, que surgiu em A árvore da vida) e uma reconstituição notável (com uma direção de arte e figurinos destacáveis, além de uma fotografia detalhada).
Ao lidar com o preconceito existente na sociedade norte-americana dos anos 60, o filme evidencia esse panorama, mostrando o dia a dia de algumas empregadas domésticas negras, Abileen (Viola) e Minny (Octavia Spencer), e o afastamento que elas sofrem, por não terem direitos iguais – há cenas que tratam do problema muito bem filmadas pelo diretor, Tate Taylor. Essas empregadas acabam contando suas histórias a uma jornalista, Skeeter Phelan (Emma Stone), que volta à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, e, entre reuniões com mulheres que se encontram para comer bolo e tomar chá, pretende escrever um livro sobre elas, a pedido de uma editora (Mary Steenburgen) de Nova York. Além disso, ela foi criada por Constantino (Cicely Tyson), demitida de forma injusta por sua mãe (Allison Janney, numa grande atuação), motivo que a faz se dedicar ainda mais ao trabalho – um dos melhores momentos é quando ela se lembra de uma passagem na infância, em que Taylor melhor consegue conciliar tempos diferentes e estabelecer um vínculo entre as personagens.
Abileen cuida de uma menina que a chama de verdadeira mãe, e Minny, apesar de sofrer violência doméstica do marido e ser demitida por uma dona de casa maquiavélica, Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), filha de Sra. Walters (Sissy Spacek), encontra uma mulher ignorada pelas mulheres da sociedade de Jackson, Celia Foote (Jessica Chaston) – e a relação entre as duas, primeiro escondida, torna-se mais próxima com o passar do tempo e se dá, a princípio, a partir da descoberta, por parte de Celia, de novas receitas culinárias para o marido dela. Em meio aos acontecimentos, transcorre o surgimento da Lei dos Direitos Civis (há uma menção à Marcha sobre Washington, de 1963) e esta trama acaba ficando um tanto deslocada em relação à principal, servindo mais como pano de fundo histórico.

O diretor Tate Taylor não consegue efetuar a dramaticidade que vemos Spielberg conduzir, por exemplo, no clássico A cor púrpura, nem desenha a amizade comovente entre uma idosa e seu motorista, como havia em Conduzindo miss Daisy, ou a de uma dona de casa com um jardineiro, no belo Longe do paraíso. Assim, o filme não deslancha como poderia. Faltam conflitos entre as personagens e, de maneira geral, parece que existe uma aceitação de determinados comportamentos.
Há, nisso uma certa infantilidade no tratamento dado, o que repercute a tendência maniqueísta: as mulheres brancas são cruéis, e o espectador é atendido em sua vontade de puni-las – mas os personagens parecem receber novamente sua punição mecanicamente, nunca alçando realmente uma dramaticidade. E a vilã, por ser exagerada, acaba tirando do filme a proporção exata da gravidade de suas ações – tornando algumas situações quase cômicas, quando na verdade não o são, ou invariavelmente em clichês. Nesse sentido, a reabilitação de alguns personagens soa, em parte, esquemática, pois não há conflito dramático entre personagens que chegue até ela. É de se desconfiar se é a presença de Chris Columbus (que escreveu grandes sucessos nos anos 80, como Os Goonies e Gremlins, mas nunca emplacou como diretor, a exemplo de suas tentativas em Harry Potter e, quando fez um drama, Lado a lado, não foi efetivo) como produtor do filme.
Porém, a visão de Taylor não é superficial: a  jornalista – cercada por copos de café e datilogrando sua máquina à noite – ajuda a mostrar a contundência de ações que havia em relação às empregadas.
Pode-se dizer que isso acarreta outro significado possível: o de que personagem da jornalista quer fazer sua carreira decolar. No entanto, Tate Taylor reverte isso pela lembrança que ela tem de Constantino e, afinal, pela relação que ela estabelece entre as personagens, tornando “A ajuda” do título original em “histórias cruzadas” do título brasileiro.
Trata-se de uma história, aqui, quase exclusivamente de mulheres: ou homens têm pouca participação, a não ser quando um policial resolve ir atrás de uma empregada ou quando um dos maridos, grosseiramente, levanta da mesa quando a empregada decide, depois de muito relutar, pedir ajuda; ou quando um jovem tenta conquistar a jornalista. Não há o posicionamento deles em relação às situações de racismo ou ao contexto: parecem figuras que não sabem o que estava se passando, o que prejudica a narrativa, mesmo que não chegue a desmerecê-la. O filme, nesse sentido, acaba crescendo – e muito – com o depoimento de Abileen e Minny, pois são personagens mais complexos do que aquelas mulheres de classe rica que o filme enfoca.
Também não parece haver dúvida de que a semelhança física entre as atrizes Jessica Chaston e Bruce Dallas Howard (filha do cineasta Ron Howard) ajuda a criar um paralelo de comportamento – mesmo porque ambas teriam outra coisa em comum, o que descobrimos ao final do filme, numa festa que guarda outra surpresa em relação também ao restante da trama.
A atuação das atrizes, reitera-se, merece destaque: Viola, apesar de não estar melhor do que em outras oportunidades, é uma atriz de grande talento; Spencer mereceu o Oscar de atriz coadjuvante; e Chaston faz uma interpretação bastante agradável, aproveitando um personagem até certo ponto superficial. Infelizmente, o papel central é desempenhado por Emma Stone, uma atriz simpática (principalmente em Amor a toda prova), mas que não confere peso dramático às cenas, como se exigiria neste caso.
Se os personagens não se enlaçam como deveriam e alguns deles são mal desenvolvidos, além de ter, pelo menos, mais tempo do que deveria – um corte na montagem deixaria a história mais ágil, sem prejuízo da narrativa –, não resta dúvida de que se trata de um filme efetuado com cuidado. Não se vê, em Taylor, um desejo de contar uma história definitiva, e sim de mostrar com delicadeza essas personagens e colocá-las num contexto grave, o que ele desempenha bem, tornando o filme atrativo.

The help, EUA, 2011 Diretor: Tate Taylor Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green Roteiro: Tate Taylor Fotografia: Stephen Goldblatt Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 146 min. Distribuidora: Disney Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Cotação 3 estrelas