Cobra Kai II (2019)

Por André Dick

No ano passado, o YouTube lançou Cobra Kai, dando continuidade à série Karatê Kid, dos anos 80, ampliando um universo que conecta Ocidente e Oriente. Tudo teve início em Karatê Kid – A hora da verdade, de John G. Avildsen, que ganhou um Oscar surpreendente por Rocky – Um lutador. Como o filme de Stallone dos anos 70, a obra de 1984 tinha uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis, assim como os dois episódios seguintes e ainda um quarto, com Hilary Swank.
O protagonista era o jovem Daniel LaRusso (Ralph Macchio, bom ator) , que chegava a Reseda, bairro de Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey, e passava a ser perseguido por Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque se envolvia com a ex-namorada desse, Ali Mills (Elizabeth Shue). LaRusso era ajudado pelo Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do seu condomínio, depois que começava a sofrer violência. Na primeira temporada de Cobra Kai, Johnny reerguia o dojo Cobra Kai, do sensei John Creese (Martin Kove), enquanto Daniel se mostrava um competente vendedor de carros, ao lado da esposa Amanda (Courtney Henggeler). Nesta segunda, o próprio Creese reaparece para tentar reviver guerras antigas.

Cobra Kai, como o primeiro Karatê Kid, funcionava de maneira quase perfeita. Cobra Kai II atrai o espectador para a ligação entre Lawrence e Creese, que o ajudou desde quando era pequeno e tinha problemas familiares. Creese sempre incentivou seus alunos a um karatê violento, enquanto os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. O mesmo acontece na segunda temporada, quando Daniel abre seu dojo Miyagi-Do, tendo como seus dois primeiros alunos a filha, Samantha (Mary Mouser), e o filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), praticamente abandonado pela mãe e com problemas de relacionamento com o pai. Este se dedica a ajudar principalmente seu melhor aluno, Miguel (Xolo Maridueña, ótimo), enquanto nutre um interesse secreto pela mãe do aluno, Carmen (Vanessa Rubio). A série volta a trabalhar com as classes sociais de Daniel e Johnny: no filme, o primeiro morava na periferia e o segundo na parte de classe alta da cidade. As coisas se invertem, e o espectador, por vezes, se vê compadecido com a situação de Lawrence, mesmo que ele às vezes pareça não ter mudado muito em sua personalidade.

Ele admite a volta do antigo sensei e não consegue ter domínio sobre os alunos mais violentos, especificamente Hawk (Jacob Bertrand), que também sofria bullying. Hawk, no entanto, abandonou o antigo amigo nerd, Demetri (Gianni Decenzo), que tem dificuldades de se adaptar ao Cobra Kai e parte em busca da ajuda de Daniel no dojo Miyagi-Do. A maneira como os personagens vão mudando conforme a situação é o melhor elemento dessas duas temporadas e um exemplo de fan service sem cair na previsibilidade. Lawrence se vê sob conflito quando descobre que seu antigo sensei passa por dificuldades, no entanto também sente ausência de uma companheira e não compreende por que o filho não quer seu contato e sim com seu maior inimigo.
Cobra Kai II mostra que as decepções e mágoas temporais estão em discussão e o tempo vai trazendo novas lições para, inclusive, esclarecer o passado. O diálogo com os episódios do cinema é muito bem trabalhado, desta vez quando Daniel, por exemplo, lembra de quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema. Do mesmo modo, as lembranças do Sr. Miyagi, por meio, por exemplo, de uma medalha de guerra dele, são exitosas. As tentativas de Daniel ensinar a seus alunos as técnicas do karatê também replicam memórias dos anos 80, assim como os carros no pátio da mesma casa de Miyagi onde ele organiza o seu dojo.

Igual à primeira temporada, é  interessante os limites entre o que é certo e o que é errado se tornarem um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem um restaurante com seus interesses amorosos, a exemplo de uma conversa de bar no primeiro, é um dos melhores. No entanto, Cobra Kai II acentua a figura da violência escolar desta vez por meio de Tori (Peyton List), uma nova aluna do Cobra Kai, que se desentende com a filha de LaRusso e se aproxima de Aisha (Nichole Brown), até então melhor amiga daquela. Tudo pode acabar no entendimento e em aprendizados interiores ou em lutas realmente violentas – e em Cobra Kai II estão as melhores do universo de Karatê Kid, principalmente aquelas que desencadeiam um grande final da temporada, excepcionais em sua coreografia.

Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, voltam a mostrar um trabalho de roteiro simples, mas notável, mesmo em sua introdução de personagens apenas para divertir, como o de Raymond (Paul Walter Hauser), aproveitando referências oitentistas sem cair no lugar-comum (talvez as melhores sejam aquelas que lembram um videoclipe e A garota de rosa shocking). E, apesar do ótimo elenco juvenil e de Macchio, Henggeler e Kove apresentarem boas atuações, é William Zabka novamente que se destaca no papel de Johnny Lawrence, numa atuação por vezes comovente, quando se encontra, por exemplo, com os antigos amigos. Cobra Kai II ajuda não apenas a ver as coisas menos estáticas, como mostra que o tempo ainda pode trazer o melhor da sabedoria, seja em qual parte o indivíduo se encontra de sua vida. Na maior parte de sua narrativa despretensioso, por vezes bem-humorado, ele consegue alcançar pontos dramáticos que mesmo os filmes de cinema não atingiam.

Cobra Kai II, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Michael Grossman, Josh Heald, Jennifer Celotta Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Kevin McManus, Matthew McManus, Luan Thomas, Joe Piarulli, Michael Jonathan Smith Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan, Jacob Bertrand, Gianni Decenzo, Peyton List, Nichole Brown Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984)/Cobra Kai (2018)

Por André Dick

Um dos grandes sucessos dos anos 80, que deu origem a três continuações (uma inclusive com Hilary Swank), um remake e uma série lançada este ano pelo YouTube Red – constituindo um universo amplo, em diferentes mídias, que lembra os de Arquivo X e Twin Peaks –, Karatê Kid – A hora da verdade é uma das obras que representam o imaginário infantojuvenil de uma época fundada por filmes de fantasia. É preciso, antes de tudo, gostar de histórias simples, ou seja, que coloquem os personagens de maneira humana, como já havia feito o mesmo diretor John G. Avildsen em Rocky – O lutador, pelo qual recebeu um surpreendente Oscar, para gostar da narrativa. Como o filme de Stallone, esse tem uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis. Esses elementos estariam presentes em suas duas sequências com os mesmos personagens principais, uma de 1986 e outra de 1989, mas sem a mesma autenticidade (possíveis spoilers a partir daqui).

O jovem Daniel LaRusso (Macchio, bom ator) chega com a mãe, Lucille (Randee Heller), a uma nova cidade, Reseda, em Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey. Depois de um dia na praia com novos amigos, ele desperta a raiva de uma gangue de motoqueiros e que luta karatê, cujo líder, de família rica, é Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque Daniel se envolve com a ex-namorada de Johnny, Ali Mills (Elizabeth Shue). Após um baile de Halloween, no qual tenta se vingar de Johnny e gangue, vestidos com um figurino de esqueleto, LaRusso é perseguido por eles, até que o Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do condomínio onde mora, resolve ensiná-lo a lutar também. Para impedir que a turma de Johnny continue a cercá-lo, Miyagi combina com o dono do dojo Cobra Kai, o sensei John Creese (Martin Kove), que Daniel vai enfrentar seus desafetos no torneio de karatê de All Valley. É exatamente Creese aquele que movimenta esses jovens em direção a uma ideia de que o esporte deve servir para o ataque e a vingança pessoal.

Por vezes, Karatê Kid parece um conto de fadas bem-humorado e possui uma narrativa simples e linear, mas inteligente. Parte da funcionalidade reside não apenas no fato de a amizade de Daniel evoluir depois de uma sessão em que poda um bonsai sob o olhar de Miyagi, mas o treinamento que recebe, por meio de atividades alheias ao esporte, como pintar cercas ou encerar carros. Enquanto Creese incentiva seus alunos a um karatê violento, os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. Do mesmo modo, o relacionamento de Daniel com Ali é eficiente, não apenas pela química entre os personagens, como pelas atuações de Macchio e de Shue. Agora que a série Cobra Kai traz alguns desses personagens de volta e mostra LaRusso e Johnny sob um novo ponto de vista, mesclando uma nova versão para a vida do segundo, Karatê Kid revela que não era um filme comum e sim à frente de sua época. Daniel obviamente era um jovem que sofria bullying, mas tentava enfrentá-lo do seu modo: ele encarava seus opositores como fazem os jovens na série Cobra Kai.

Lawrence, pela nova ótica da série, parece um injustiçado, quando, na verdade, ele teve apenas sua complexidade acentuada. Nem os ensinamentos de Miyagi passaram a ser ultrapassados, nem os de Johnny ou de seu mestre Creese passaram a ser mais modernos ou aceitáveis – a violência continua violência, o bullying apenas se espalhou para novas plataformas, no caso o mundo digital moderno, especificamente com Samantha (Mary Mouser), filha de LaRusso. O que se destaca é Johnny também fazer trabalhos manuais como fazia o Sr. Miyagi e morar num condomínio de periferia, assim como Daniel no original, em Reseda. LaRusso, por sua vez, é dono de uma concessionária famosa de automóveis e mora no bairro padrão de vida sofisticada. É como se as vidas de ambos andassem em círculos complementares. Ao ver o dojo Cobra Kai reaberto por Johnny, Daniel não lembra apenas dos problemas de sua chegada, mas os posteriores, quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema.
Ao retornarmos a este Karatê Kid dos anos 80, é justamente esse olhar sobre a perseguição de um grupo a um jovem que acentua o interesse pela história dele. O Miguel (Xolo Maridueña, ótimo) da série Cobra Kai é uma espécie de LaRusso ensinado sob os dogmas da Cobra Kai. O filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), possui o temperamento que tinha o pai na juventude e se transforma também numa espécie de LaRusso, mas sob os ensinamentos propagados por Miyagi. Johnny não era a figura maléfica – e sim seu sensei. No entanto, como mostra a história de Cobra Kai, é desvirtuado por um padrasto de instinto violento e a localização nos preceitos do dojo do antigo mestre como um mapa para suas escolhas de vida.

É interessante como os limites entre o que é certo e o que é errado se tornam um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha  e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem uma mesa de bar, superados vários desentendimentos (o primeiro na loja de carros de LaRusso), é especificamente revelador do apego a um passado: mais do que a nostalgia, a juventude representou o que os levaria até ali. Do mesmo modo, a ligação entre Samantha e Miguel remete à de LaRusso e Ali, inclusive com os dois indo ao mesmo parque de diversões do original. Daniel agora é casado com Amanda (Courtney Henggeler), sua parceira de negócios, que lembra Ali em certos termos.
De maneira geral, a série do cinema de Karatê Kid não existiria sem a figura do Sr. Miyagi. Indicado merecidamente ao Oscar de ator coadjuvante, Pat Morita, escolhido para o papel fundamental do mestre, ocupou o lugar que seria de Toshiro Mifune, grande ator japonês de filmes de Kurosawa. Se Mifune tem um humor acentuado, como em Sanjuro, é certo que o roteirista Robert Mark Harmen, que não o queria no papel, deve ter gostado do acerto com a escolha de Morita. Ele parece frágil também como Daniel, além de mais baixo do que Macchio, e isso cria um diálogo entre os dois também neste quesito. A maneira como os ensinamentos são apresentados se situa entre o bom humor e a conquista pessoal. Avildsen tem um olhar muito bom para a relação entre aluno e mestre, como em Rocky mostrava o lutador sendo treinado por Mickey, e demonstraria esse talento ainda mais no ótimo Meu mestre, minha vida, com Morgan Freeman, curiosamente no mesmo ano em que apresentou a fraca terceira parte de Karatê Kid.

Miyagi, apesar de ausente em Cobra Kai, é a referência em todos os momentos desse crescimento já na vida adulta de Daniel. Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, colocam não apenas LaRusso com a complexidade do antigo mestre, como também Johnny Lawrence. Este, envolto por problemas alcóolicos (na obra de 1984, Miyagi, especialmente, se embebedava ao lembrar da antiga namorada de Okinawa) e fixado nas reprises de Águia de aço na TV (exatamente sobre a ligação entre um filho piloto da Força Aérea e seu pai sequestrado), não deixa de representar um ponto de superação – a família de Miguel se torna aquela que nunca teve. E se torna também uma superação para o ator: William Zabka, reduzido nos anos 80 a participações de fundo em filmes como De volta às aulas e Férias frustradas na Europa, se mostra surpreendente. No fundo, Karatê Kid fala de indivíduos constituindo, por meio do esporte, uma família que não possuem e talvez nisto resida sua universalidade e interesse. E Cobra Kai investe nessa ideia com rara autenticidade e êxito, resultando tão atraente quanto o filme original.

Karate Kid, EUA, 1984 Diretor: John G. Avildsen Elenco: Ralph Macchio, Noriyuki “Pat” Morita, Elisabeth Shue, Randee Heller, William Zabka, Martin Kove Roteiro: Robert Mark Kamen Fotografia: James Crabe Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Jerry Weintraub Duração: 127 min. Estúdio: Delphi II Productions, Jerry Weintraub Productions Distribuidora: Columbia Pictures

 

Cobra Kai, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Jennifer Celotta, Josh Heald, Steve Pink Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Robert Mark Kamen, Joe Piarulli, Hayden Schlossberg, Michael Jonathan Smith, Luan Thomas Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

Vidas sem rumo (1983)

Por André Dick

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Antes de John Hughes compor boa parte da visão do universo adolescente nos anos 80, com Gatinhas e gatões, O clube dos cinco e A garota de rosa shocking, o diretor Francis Ford Coppola, recém-saído dos problemas financeiros trazidos por sua obra-prima O fundo do coração, realizou a adaptação para o cinema de Outsiders, de Susan E. Hinton, com a revelação de um elenco de jovens estelar, que teria novos projetos de destaque, sobretudo naquela década (Estevez e Lowe se reencontrariam em O primeiro ano do resto de nossas vidas). Isso aconteceu depois de receber uma carta de uma bibliotecária que, em nome de alguns alunos (ver carta e respostas), lhe pedia para que fizesse a adaptação. Envolvido desde os anos 1970 com cenários mafiosos (de O poderoso chefão) e de guerra (Apocalypse now), caracterizados pela grandiosidade, não parecia adequado esperar que Coppola gostaria de adaptar uma história de brigas entre gangues, com jovens problemáticos, material menos ambicioso do que suas obras anteriores. A história se passa em Oklahoma, Tulsa, em 1965, quando vemos uma gangue – os Greasers – formada por Ponyboy (Howell),seus irmãos Darrel (Swayze) e Sodapop (Lowe), além de Johnny Cade (Macchio), Two-Bit Matthews (Estevez), Dallas Winston (Dillon) e Steve Randle (Cruise). Eles são rivais de outra gangue, composta por jovens da classe rica, que se autointitula Socs.

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Na versão estendida do filme (de 109 minutos, encontrada em Blu-Ray, enquanto a versão lançada nos cinemas era de 91 minutos), logo no início, quando vemos Ponyboy quase se envolver em confusão, sendo salvo por amigos, ao som de Elvis Presley (que ocupa a trilha de Carmine, pai de Francis, no original), já sabemos que Vidas sem rumo terá um ritmo de pressão adolescente. Essa gangue tem, por um lado, a liderança de Darrel, o mais velho, e por outro lado a rebeldia de Dallas. É esta rebeldia que levará ao primeiro desentendimento do filme com o universo feminino, quando ele, Ponyboy e Johnny estão num cinema drive-in e encontram duas jovens, Cherry (Lane) e Marcia (Meyrink). Após Cherry se desentender com Dallas, ela aceita a conversa dos outros dois, mas eles são perseguidos por dois integrantes dos Socs, Bob Sheldon (Garrett) e Randy Adderson (Dalton). Apenas aparentemente as coisas se resolvem, pois, quando estão à noite, numa praça, Ponyboy e Johnny são atacados por eles.
As consequências os levam a fugir da cidade, indo se refugiar numa igreja abandonada numa cidade vizinha. Ponyboy ponta o cabelo de loiro e, influenciado por …E o vento levou e um poema de Robert Frost, imagina um horizonte igual ao filme de Fleming. São dois jovens refugiados tanto da condição de se afastarem do universo de gangues quanto da sua verdadeira personalidade. A versão estendida de Coppola sugere uma ligação estrita entre esses dois personagens, também pela amizade de Ponnyboy com o irmão, Sodapop (personagem que pouco aparece na versão menor). Esta relação se estabelece com mais força depois que ambos são expostos a um acontecimento que pode transformar suas vidas e fazer com que se depare com uma situação mais grave.
Acostumado a mostrar os vínculos entre os mafiosos de O poderoso chefão e a relação apaixonada do casal central de O fundo do coração, Coppola visualiza esses jovens como afastados de uma cultura norte-americana. Suas origens são misturadas, e são melancólicos em não conseguir fazer parte diretamente desta cultura, também pelo estereótipo firmado de classes sociais afastadas umas das outras. Quando a fotografia excepcional de Stephen H. Burum parece reproduzir flashes de …E o vento levou, é sempre sob esse ponto de vista, de que os personagens gostariam de pertencer a algo maior, mais transcendente, do que a condição em que são colocados. Com uma vontade explícita também de dialogar com Terrence Malick de Terra de ninguém e Dias de paraíso, Coppola filma esses bairros e ruas em que os jovens se movimentam quase totalmente vazios, afastados de qualquer movimento e perspectiva. A noite no parque tem apenas a companhia do vento e as casas parecem sempre com as luzes apagadas ou enfraquecidas. Não se avista ninguém pelas janelas ou cortinas, como se não houvesse ninguém para ajudá-los, apenas com a ameaça invisível da polícia.

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O mesmo acontece quando Ponnyboy e Johnny precisam se refugiar em outra cidade e viajam de trem, chegando a um descampado. Coppola filma com cuidado essas imagens, embora não consiga estabelecer um vínculo entre os personagens do mesmo modo que acontece com esses dois. De qualquer modo, o elenco é de grande talento. Dillon, que vinha de outro belo filme com jovens, Tex, entrega uma atuação exemplar, assim como Macchio mostra que sua carreira ter praticamente encerrado depois dos anos 80 (voltou recentemente numa ponta em Hitchcock) foi uma injustiça. Thomas Howell é um bom ator, que faria depois o ótimo A morte pede carona, e Diane Lane tem uma participação curta, mas marcante, demonstrando a boa atriz que viria a ser. Já os demais são bastante convincentes: Lowe e Swayze formam uma boa dupla de irmãos para Howell, Cruise já mostra o que viria a explorar mais em Nascido em 4 de julho, e Estevez adianta sua participação talentosa em filmes como O primeiro ano do resto de nossas vidas e Tocaia.
Mas o primeiro nome a rejuvenescer a sua filmografia, aqui, é mesmo Coppola. Pouco afeito a este universo, que viria a adentrar novamente com interesse em O selvagem da motocicleta, do mesmo ano (com Dillon, Lane e o acréscimo de Mickey Rourke), plasticamente tão interessante quanto este filme, mas com uma força dramática menos intensa, Coppola tenta refazer sua história com uma narrativa mais simples em vários pontos, sem as repetições e fugas de um longa-metragem mais largo como os que fez nos anos 70. Se isso prejudica o desenvolvimento de alguns personagens e situações, mostra um desprendimento maior em relação a lances narrativos que desviem a sensibilidade do espectador. Embora muitos prefiram a versão original, a versão estendida de Coppola, com um prólogo e um desfecho mais elaborados, além da trilha sonora com canções da época, tornando a narrativa menos melancólica, mostram realmente a melhor adaptação do livro de Hinton. Os personagens têm uma carga maior de personalidade, o que lhes concede mais vida, mantendo Vidas sem rumo como um cult movie sólido.

The outsiders, EUA, 1983 Diretor: Francis Ford Coppola Elenco: C. Thomas Howell, Ralph Macchio, Diane Lane, Emilio Estevez, Tom Cruise, Matt Dillon, Patrick Swayze, Rob Lowe, Sofia Coppola, Tom Waits, Michelle Meyrink, Leif Garrett, Darren Dalton Roteiro: Kathleen Rowell Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Carmine Coppola  Produção: Francis Ford Coppola, Fred Roos, Gray Fredrickson Duração: 91 min. (versão original); 109 min. (versão estendida) Estúdio: Pony Boy / Zoetrope Studios

Cotação 4 estrelas

Hitchcock (2012)

Por André Dick

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Existem alguns filmes que visivelmente são feitos com o intuito de apenas divertir, mesmo tendo possivelmente um fundo mais sério, que poderia servir para discussões. Um deles é, sem dúvida, Hitchcock, uma espécie de homenagem ao “mestre do suspense”. Colocar Anthony Hopkins no papel do diretor genial de Intriga internacional e Janela indiscreta antecipa uma possível seriedade e um adensamento emocional. Infelizmente, não é o que vemos no filme de Sacha Gervasi (roteirista de O terminal): Alfred Hitchcock (feito por Anthony Hopkins) é visto mais como um homem de idiossincrasias, sempre atrás de um determinado projeto para filmar e fugir da sua vida comum, com suas características de querer determinar a vida de seus atores e atrizes, além de seu bom humor amargo em muitas circunstâncias. É, acima de tudo, uma referência pop, atraída por holofotes, fotógrafos e fãs histéricos. Quando perguntado se Intriga internacional é o seu limite como diretor, sabemos que Hitchcock tentará surpreender mais uma vez, mas Gervasi, ao contrário dos filmes do mestre, apresenta quase tudo sem surpresas.
É a personagem de Alma Reville (Helen Mirren), mulher de Hitchcock, que acaba conectando as pontas do filme. Tendo de suportar a obsessão de Hitchcock em adaptar um romance que a Paramount e ela consideram de mau gosto, Psicose, de Robert Bloch, Alma consegue levar adiante inclusive uma subtrama previsível, envolvendo um escritor, Whitfield Cook (Danny Huston), roteirista de alguns filmes do marido. Gervasi mostra o que teria acontecido antes, durante e depois das filmagens de Psicose: a escolha do elenco (como Janeth Leigh, em boa atuação, embora curta, de Scarlett Johansson, e Anthony Perkins, interpretado por James D’Arcy, de Cloud Atlas, subaproveitado), a relação ligeira com o roteirista, Joseph Stefano (Ralph Macchio, de Karatê Kid), e os cenários da produção. Há também o conflito entre Hitchcock e a estrela Vera Miles (Jessica Biel). Hitchcock tem seus devaneios com as imagens de loiras que poderá tornar possíveis estrelas, mas não fica claro até que ponto ele não era visto apenas como alguém que gostava de fazer marketing em cima de suas histórias e até que ponto isso podia comprometer sua vida pessoal. Para quem não acompanhou a trajetória de Hitchcock, não deixa de ser curiosa sua relação com a mulher Alma e o quanto ela interferiu diretamente numa das suas obras-primas. A relação entre os personagens é superficial e se restringe a alguns poucos diálogos, nunca existindo um verdadeiro vínculo entre eles.

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O diretor Gervasi torna tudo muito leve de se assistir, quase uma sessão da tarde, com Hitchcock acordando às vezes com pesadelos noturnos e tendo visões do assassino Ed Gein, em ritmo do programa Insônia, de que participou. Também seus cafés da manhã, sua ida para o estúdio, a relação com uma secretária, Peggy Robertson (Toni Collette), com Barney Balaban (Richard Portnow), diretor da Paramount, com a censura, que desejava vigiar pretensas cenas polêmicas, por meio de Geoffrey Shurlock (Kurtwood Smith), e piadas deslocadas com Dean Martin e Jerry Lewis. De modo geral, é interessante ver filmes sobre bastidores, independentes de sua qualidade, até porque conseguem dar acesso a filmes às vezes afastados de gerações mais novas – e não se duvida que Psicose terá novos espectadores a partir deste filme. O problema é quando se tinha um material de qualidade, uma produção sofisticada. A direção de arte e a fotografia de Jeff Cronenweth (habitual colaborador de David Fincher), além da trilha sonora de Danny Elfman, para Hitchcock, são de raros filmes. Esses elementos ajudam a tornar a obra perfeitamente assistível, agradável e mesmo divertida.
Mas, lamentavelmente, a maquiagem (indicada surpreendentemente ao Oscar) para Hopkins ficar parecido com Hitchcock impede o ator de ter uma interpretação natural e orgânica – ela é melhor em Biel, Macchio e D’Arcy. Em nenhum momento, Hopkins incorpora Hitchcock; ele visivelmente está tentando interpretar o diretor, com alguns trejeitos e posturas, afetado pela maneira de falar que tinha o diretor, sem convencer, parecendo mais uma caricatura. Sua imagem em fotografias que precederam o lançamento do filme é mais fiel à imagem do diretor do que aquela que vemos em movimento. A artificialidade lembra a de DiCaprio como J.Edgar, com a diferença de que aqui Hopkins é realmente um senhor e poderia ter se saído dessa com alguns despistes no roteiro e alguns de seus artifícios de excelente ator. Ele, infelizmente, não consegue, na maior parte do tempo, e o filme acaba perdendo seu trunfo central.

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Sua atuação fica bastante diminuída sobretudo em relação à de Helen Mirren, como sua mulher e parceira de projetos Alma. Também por não aparecer maquiada ou tentando representar um tipo, Mirren tem uma desenvoltura de grande atriz e consegue sobressair-se ao roteiro leve com uma postura de quem já conseguiu interpretar a rainha da Inglaterra de maneira plausível. E atrizes como Scarlett Johansson e Jessica Biel fazem o máximo com seus papéis, além do eficiente Kurtwood Smith. A questão é quando o diretor Sacha Gervasi não parece querer alçar todos esses elementos a um grande filme. Pode ser uma qualidade a despretensão e o divertimento simples de um telefilme. Em Hitchcock, ela soa apenas comodismo. Tínhamos um grande filme embaixo deste, como aquele que Hitchcock descobriu no romance pouco considerado de Robert Bloch.

Hitchcock, EUA, 2012 Diretor: Sacha Gervasi Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Toni Collette, Michael Stuhlbarg, Michael Wincott, Jessica Biel, James D’Arcy, Richard Portnow, Kurtwood Smith, Ralph Macchio Produção: Joe Medjuck, Ivan Reitman, Tom Thayer, Alan Barnette Roteiro: John J. McLaughlin, Stephen Rebello Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 98 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Montecito Picture Company / Fox Searchlight Pictures / Cold Spring Pictures

Cotação 2 estrelas e meia