Cobra Kai II (2019)

Por André Dick

No ano passado, o YouTube lançou Cobra Kai, dando continuidade à série Karatê Kid, dos anos 80, ampliando um universo que conecta Ocidente e Oriente. Tudo teve início em Karatê Kid – A hora da verdade, de John G. Avildsen, que ganhou um Oscar surpreendente por Rocky – Um lutador. Como o filme de Stallone dos anos 70, a obra de 1984 tinha uma mensagem válida, cenas de luta interessantes e personagens acessíveis, assim como os dois episódios seguintes e ainda um quarto, com Hilary Swank.
O protagonista era o jovem Daniel LaRusso (Ralph Macchio, bom ator) , que chegava a Reseda, bairro de Los Angeles, vindos de Newark, New Jersey, e passava a ser perseguido por Johnny Lawrence (William Zabka), isso porque se envolvia com a ex-namorada desse, Ali Mills (Elizabeth Shue). LaRusso era ajudado pelo Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), um zelador do seu condomínio, depois que começava a sofrer violência. Na primeira temporada de Cobra Kai, Johnny reerguia o dojo Cobra Kai, do sensei John Creese (Martin Kove), enquanto Daniel se mostrava um competente vendedor de carros, ao lado da esposa Amanda (Courtney Henggeler). Nesta segunda, o próprio Creese reaparece para tentar reviver guerras antigas.

Cobra Kai, como o primeiro Karatê Kid, funcionava de maneira quase perfeita. Cobra Kai II atrai o espectador para a ligação entre Lawrence e Creese, que o ajudou desde quando era pequeno e tinha problemas familiares. Creese sempre incentivou seus alunos a um karatê violento, enquanto os ensinamentos do Sr. Miyagi se baseiam num contato com a natureza, seja no mar ou num lago. O mesmo acontece na segunda temporada, quando Daniel abre seu dojo Miyagi-Do, tendo como seus dois primeiros alunos a filha, Samantha (Mary Mouser), e o filho de Johnny, Robby Keene (Tanner Buchanam), praticamente abandonado pela mãe e com problemas de relacionamento com o pai. Este se dedica a ajudar principalmente seu melhor aluno, Miguel (Xolo Maridueña, ótimo), enquanto nutre um interesse secreto pela mãe do aluno, Carmen (Vanessa Rubio). A série volta a trabalhar com as classes sociais de Daniel e Johnny: no filme, o primeiro morava na periferia e o segundo na parte de classe alta da cidade. As coisas se invertem, e o espectador, por vezes, se vê compadecido com a situação de Lawrence, mesmo que ele às vezes pareça não ter mudado muito em sua personalidade.

Ele admite a volta do antigo sensei e não consegue ter domínio sobre os alunos mais violentos, especificamente Hawk (Jacob Bertrand), que também sofria bullying. Hawk, no entanto, abandonou o antigo amigo nerd, Demetri (Gianni Decenzo), que tem dificuldades de se adaptar ao Cobra Kai e parte em busca da ajuda de Daniel no dojo Miyagi-Do. A maneira como os personagens vão mudando conforme a situação é o melhor elemento dessas duas temporadas e um exemplo de fan service sem cair na previsibilidade. Lawrence se vê sob conflito quando descobre que seu antigo sensei passa por dificuldades, no entanto também sente ausência de uma companheira e não compreende por que o filho não quer seu contato e sim com seu maior inimigo.
Cobra Kai II mostra que as decepções e mágoas temporais estão em discussão e o tempo vai trazendo novas lições para, inclusive, esclarecer o passado. O diálogo com os episódios do cinema é muito bem trabalhado, desta vez quando Daniel, por exemplo, lembra de quando foi ludibriado por um amigo de John Creese, Terry (Thomas Ian Griffith), na terceira parte da série de cinema. Do mesmo modo, as lembranças do Sr. Miyagi, por meio, por exemplo, de uma medalha de guerra dele, são exitosas. As tentativas de Daniel ensinar a seus alunos as técnicas do karatê também replicam memórias dos anos 80, assim como os carros no pátio da mesma casa de Miyagi onde ele organiza o seu dojo.

Igual à primeira temporada, é  interessante os limites entre o que é certo e o que é errado se tornarem um pouco menos claros. As vidas de LaRusso e Johnny se cruzam como aquelas que vemos no ótimo filme O lugar onde tudo termina, sobre a ligação entre diferentes gerações. Se os conhecíamos jovens, a sua versão mais velha e experiente leva a uma reavaliação do que os levou aonde estão. O momento em que dividem um restaurante com seus interesses amorosos, a exemplo de uma conversa de bar no primeiro, é um dos melhores. No entanto, Cobra Kai II acentua a figura da violência escolar desta vez por meio de Tori (Peyton List), uma nova aluna do Cobra Kai, que se desentende com a filha de LaRusso e se aproxima de Aisha (Nichole Brown), até então melhor amiga daquela. Tudo pode acabar no entendimento e em aprendizados interiores ou em lutas realmente violentas – e em Cobra Kai II estão as melhores do universo de Karatê Kid, principalmente aquelas que desencadeiam um grande final da temporada, excepcionais em sua coreografia.

Josh Heald, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg, que criaram a série Cobra Kai a partir do filme original, voltam a mostrar um trabalho de roteiro simples, mas notável, mesmo em sua introdução de personagens apenas para divertir, como o de Raymond (Paul Walter Hauser), aproveitando referências oitentistas sem cair no lugar-comum (talvez as melhores sejam aquelas que lembram um videoclipe e A garota de rosa shocking). E, apesar do ótimo elenco juvenil e de Macchio, Henggeler e Kove apresentarem boas atuações, é William Zabka novamente que se destaca no papel de Johnny Lawrence, numa atuação por vezes comovente, quando se encontra, por exemplo, com os antigos amigos. Cobra Kai II ajuda não apenas a ver as coisas menos estáticas, como mostra que o tempo ainda pode trazer o melhor da sabedoria, seja em qual parte o indivíduo se encontra de sua vida. Na maior parte de sua narrativa despretensioso, por vezes bem-humorado, ele consegue alcançar pontos dramáticos que mesmo os filmes de cinema não atingiam.

Cobra Kai II, EUA, 2018 Diretores: Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Michael Grossman, Josh Heald, Jennifer Celotta Criadores: Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg Roteiristas: Jason Belleville, Stacey Harman, Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg, Kevin McManus, Matthew McManus, Luan Thomas, Joe Piarulli, Michael Jonathan Smith Elenco: Ralph Macchio, William Zabka, Courtney Henggeler, Xolo Maridueña, Mary Mouser, Tanner Buchanan, Jacob Bertrand, Gianni Decenzo, Peyton List, Nichole Brown Fotografia: Cameron Duncan Trilha Sonora: Leo Birenberg e Zach Robinson Duração: entre 22-36 minutos (10 episódios) Distribuidora: YouTube Red

Donnie Darko (2001)

Por André Dick

Este filme de Richard Kelly virou cult. Parece um filme de jovens rodado por David Lynch – tendo como assistente de direção Tim Burton –, com uma fotografia muito parecida com a dos filmes dele. Mas tem personalidade própria e um humor negro eficiente e atrativo. Além disso, apresenta, no elenco, alguns nomes conhecidos no elenco (Mary McDonnell, de Dança com lobos, Drew Barrymore e Patrick Swayze) e revelações (o casal de irmãos Jake Gyllenhaal e Maggie Gyllenhaal, também irmãos no filme), ao som de uma trilha sonora de bandas dos anos 80 (como Eccho and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran), que cria um contraste, muitas vezes, em relação ao que vemos.
Donnie Darko (Jack, com uma atuação que conseguiria repetir poucas vezes nos filmes seguintes) é um jovem estranho, sonâmbulo (o filme já inicia com ele numa estrada deserta, com uma atmosfera de pesadelo, apenas interrompida pela trilha sonora) e tem visões de um coelho assustador, chamado Frank, cercado de acontecimentos estranhos: como uma turbina de avião cair em seu quarto quando ele sai de casa. Não se sabe por que ele imagina esse coelho, mas ele frequenta a psicóloga (a pedido sobretudo da mãe, que se preocupa com seu comportamento) e é bastante temido no colégio por professores, pois questiona várias ordens e mensagens. A escola é um ambiente opressivo – e as cores alternando entre o azul e o verde conferem ainda mais gravidade ao contexto, diferenciando-se dos filmes dos anos 80 (mesmo que tenha uma trilha sonora bastante semelhante). Ele vive deprimido – mas é nesta depressão que ele parece alcançar vigor para o que pretende questionar, sem, entretanto, o filme fazer qualquer apologia a qualquer ideal ou algo parecido. Os seus professores utilizam também as mensagens de um autor de livros de autoajuda da cidade (Patrick Swayze), com o qual se confronta o personagem. No colégio, ele se apaixona por uma menina e faz amizade com um professor, que fala em viagens no tempo (o filme deve certamente ter inspirado Damon Lindelof e J.J.Abrams para a criação de Lost), entregando a ele um livro de sua vizinha, uma velha que passa o filme indo ver se há alguma carta em sua caixa de correio (e parece alguma figura saída de um filme de Tim Burton), atravessando uma estrada quase deserta da região.
Temos, pelo filme, vários símbolos espalhados (o coelho é um deles; o quadro negro da escola é outro, além de um sofá em meio a um capinzal onde Darko e seus amigos se encontram, mostrando a tentativa de inserção da casa em um cenário externo) e uma atmosfera lúgubre (como no momento em que o personagem vai ao cinema com a namorada e vê o coelho sentado a seu lado – no que remete a Império dos sonhos, uma retribuição de Lynch). Este coelho, mesmo com o final, continua um mistério. Talvez seja um símbolo que remete também a Alice no país das maravihas – era perseguindo um coelho que ela chegava ao universo paralelo.
Em A caixa, um dos filmes seguintes de  de Kelly, o diretor também ia para uma espécie de universo paralelo, em outra trama misteriosa, mostrando um casal que recebe certo dia a visita de um homem misterioso (Frank Langella), que lhes entrega uma caixa e diz que, se eles a apertarem, ganharão 1 milhão de dólares e uma pessoa morrerá. Isso é motivo para Jenkins se arriscar em algumas cenas surreais, como a da festa, em que o homem vê sempre um sujeito, que é garçom, sorrindo para ele. Trata-se de uma história fantástica, que envolve a Nasa, viagens ao espaço e lembranças infantojuvenis – sendo a disposição de tudo bastante assustadora. A professora feita por Cameron Diaz dialoga com a professora Karen (Drew Barrymore), de Donnie Darko. É bastante discreta, mas o filme não: ele investe no fantástico e pretensioso, com bela fotografia e cenas de suspense aterradores (como as do hotel e da biblioteca), que aprofundam o que é entrevisto neste, sobretudo com suas casas pretensamente tranquilas, com árvores nas calçadas.
Ademais, Donnie Darko quer subverter as casas simétricas dessa cidade, ver a escuridão onde há jardins verdejantes, campos de golfe e porões escondidos, e o personagem central é essencial para que isso aconteça; é, como se diria, a ponte entre a realidade e o onírico. O personagem parece nunca estar totalmente desperto (no momento em que visualiza, por exemplo, o movimento das pessoas ao redor, fazendo uma trajetória previsível) e as discussões dele sobre viagens temporais suspendem qualquer realidade – embora Donnie não vivencie uma experiência divertida e excêntrica como a do Marty McFly oitentista de De volta para o futuro –, e o diretor vai soltando algumas falas como se dispersas, porém que num todo fazem sentido, pela maneira como o espectador as monta, pois o intuito é distribuir as sequências de modo que elas façam mais sentido ao final. Diante da composição familiar – representada também pela irmãzinha de Donnie, que se apresenta no colégio, numa peça tipicamente infantil – infundada para Donnie, até determinado momento, vemos que seu objetivo não é afundar a adolescência ou a vida adulta, mas salvar a infância. Para Donnie, ela não sobreviverá a seus próprios pesadelos e ao coelho que o visita (não deixando de estabelecer uma ligação com A caixa, sobretudo com a situação do filho do casal no clímax). Depois de uma festa das bruxas com toques de anos 80, mas ao som de Joy Division (com sua sonoridade melancólica), e com o figurino que lembra o Daniel Larusso da festa inicial de Karatê Kid, embora com um viés mais dark, Donnie, ao avistar do alto da montanha (onde se inicia o filme) o futuro, parece que deseja regressar e não vivenciar todas as experiências desagradáveis será o melhor caminho, entretanto, acima de tudo, o faz por amor – não aquele, porém, solicitado pelo escritor de autoajuda que pode esconder, num realidade verdadeira ou paralela, a antítese de tudo o que diz.
O clima do filme, assim como o cuidado com as imagens, acaba deixando o espectador bastante atento ao que se desenrola. Transformou-se num merecido cult, sobretudo entre jovens, e merece ser assistido pela contundente crítica a certo comportamento social, mesmo que não apenas por isso, pois também inova na temática de idas e vindas no tempo, com uma narrativa definitivamente original.

Donnie Darko, EUA, 2001 Diretor: Richard Kelly Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Noah Wyle, Drew Barrymore Produção: Adam Fields, Sean McKittrick Roteiro: Richard Kelly Fotografia: Steven B. Poster Trilha Sonora: Michael Andrews Duração: 112 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Flower Films

Cotação 4 estrelas e meia