Hitchcock (2012)

Por André Dick

Hitchcock.Filmagem

Existem alguns filmes que visivelmente são feitos com o intuito de apenas divertir, mesmo tendo possivelmente um fundo mais sério, que poderia servir para discussões. Um deles é, sem dúvida, Hitchcock, uma espécie de homenagem ao “mestre do suspense”. Colocar Anthony Hopkins no papel do diretor genial de Intriga internacional e Janela indiscreta antecipa uma possível seriedade e um adensamento emocional. Infelizmente, não é o que vemos no filme de Sacha Gervasi (roteirista de O terminal): Alfred Hitchcock (feito por Anthony Hopkins) é visto mais como um homem de idiossincrasias, sempre atrás de um determinado projeto para filmar e fugir da sua vida comum, com suas características de querer determinar a vida de seus atores e atrizes, além de seu bom humor amargo em muitas circunstâncias. É, acima de tudo, uma referência pop, atraída por holofotes, fotógrafos e fãs histéricos. Quando perguntado se Intriga internacional é o seu limite como diretor, sabemos que Hitchcock tentará surpreender mais uma vez, mas Gervasi, ao contrário dos filmes do mestre, apresenta quase tudo sem surpresas.
É a personagem de Alma Reville (Helen Mirren), mulher de Hitchcock, que acaba conectando as pontas do filme. Tendo de suportar a obsessão de Hitchcock em adaptar um romance que a Paramount e ela consideram de mau gosto, Psicose, de Robert Bloch, Alma consegue levar adiante inclusive uma subtrama previsível, envolvendo um escritor, Whitfield Cook (Danny Huston), roteirista de alguns filmes do marido. Gervasi mostra o que teria acontecido antes, durante e depois das filmagens de Psicose: a escolha do elenco (como Janeth Leigh, em boa atuação, embora curta, de Scarlett Johansson, e Anthony Perkins, interpretado por James D’Arcy, de Cloud Atlas, subaproveitado), a relação ligeira com o roteirista, Joseph Stefano (Ralph Macchio, de Karatê Kid), e os cenários da produção. Há também o conflito entre Hitchcock e a estrela Vera Miles (Jessica Biel). Hitchcock tem seus devaneios com as imagens de loiras que poderá tornar possíveis estrelas, mas não fica claro até que ponto ele não era visto apenas como alguém que gostava de fazer marketing em cima de suas histórias e até que ponto isso podia comprometer sua vida pessoal. Para quem não acompanhou a trajetória de Hitchcock, não deixa de ser curiosa sua relação com a mulher Alma e o quanto ela interferiu diretamente numa das suas obras-primas. A relação entre os personagens é superficial e se restringe a alguns poucos diálogos, nunca existindo um verdadeiro vínculo entre eles.

Hitchcock.Imagem

O diretor Gervasi torna tudo muito leve de se assistir, quase uma sessão da tarde, com Hitchcock acordando às vezes com pesadelos noturnos e tendo visões do assassino Ed Gein, em ritmo do programa Insônia, de que participou. Também seus cafés da manhã, sua ida para o estúdio, a relação com uma secretária, Peggy Robertson (Toni Collette), com Barney Balaban (Richard Portnow), diretor da Paramount, com a censura, que desejava vigiar pretensas cenas polêmicas, por meio de Geoffrey Shurlock (Kurtwood Smith), e piadas deslocadas com Dean Martin e Jerry Lewis. De modo geral, é interessante ver filmes sobre bastidores, independentes de sua qualidade, até porque conseguem dar acesso a filmes às vezes afastados de gerações mais novas – e não se duvida que Psicose terá novos espectadores a partir deste filme. O problema é quando se tinha um material de qualidade, uma produção sofisticada. A direção de arte e a fotografia de Jeff Cronenweth (habitual colaborador de David Fincher), além da trilha sonora de Danny Elfman, para Hitchcock, são de raros filmes. Esses elementos ajudam a tornar a obra perfeitamente assistível, agradável e mesmo divertida.
Mas, lamentavelmente, a maquiagem (indicada surpreendentemente ao Oscar) para Hopkins ficar parecido com Hitchcock impede o ator de ter uma interpretação natural e orgânica – ela é melhor em Biel, Macchio e D’Arcy. Em nenhum momento, Hopkins incorpora Hitchcock; ele visivelmente está tentando interpretar o diretor, com alguns trejeitos e posturas, afetado pela maneira de falar que tinha o diretor, sem convencer, parecendo mais uma caricatura. Sua imagem em fotografias que precederam o lançamento do filme é mais fiel à imagem do diretor do que aquela que vemos em movimento. A artificialidade lembra a de DiCaprio como J.Edgar, com a diferença de que aqui Hopkins é realmente um senhor e poderia ter se saído dessa com alguns despistes no roteiro e alguns de seus artifícios de excelente ator. Ele, infelizmente, não consegue, na maior parte do tempo, e o filme acaba perdendo seu trunfo central.

Hitchcock.Imagem.Elenco

Sua atuação fica bastante diminuída sobretudo em relação à de Helen Mirren, como sua mulher e parceira de projetos Alma. Também por não aparecer maquiada ou tentando representar um tipo, Mirren tem uma desenvoltura de grande atriz e consegue sobressair-se ao roteiro leve com uma postura de quem já conseguiu interpretar a rainha da Inglaterra de maneira plausível. E atrizes como Scarlett Johansson e Jessica Biel fazem o máximo com seus papéis, além do eficiente Kurtwood Smith. A questão é quando o diretor Sacha Gervasi não parece querer alçar todos esses elementos a um grande filme. Pode ser uma qualidade a despretensão e o divertimento simples de um telefilme. Em Hitchcock, ela soa apenas comodismo. Tínhamos um grande filme embaixo deste, como aquele que Hitchcock descobriu no romance pouco considerado de Robert Bloch.

Hitchcock, EUA, 2012 Diretor: Sacha Gervasi Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Toni Collette, Michael Stuhlbarg, Michael Wincott, Jessica Biel, James D’Arcy, Richard Portnow, Kurtwood Smith, Ralph Macchio Produção: Joe Medjuck, Ivan Reitman, Tom Thayer, Alan Barnette Roteiro: John J. McLaughlin, Stephen Rebello Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 98 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Montecito Picture Company / Fox Searchlight Pictures / Cold Spring Pictures

Cotação 2 estrelas e meia