Lion – Uma jornada para casa (2016)

Por André Dick

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Este parecia ser, antes das indicações ao Oscar saírem, o filme que mais tinha iscas para o prêmio, pela comoção de mostrar um drama a partir da infância. Não à toa. Ele apresenta a trajetória de uma criança indiana, Saroo (o excepcional Sunny Pawar, numa atuação que lembra a de Jacob Tremblay em O quarto de Jack, pela naturalidade e competência), que se perde do seu irmão Guddu (Abhishek Bharate) depois de ficar numa estação de trem e embarcar num vagão que o leva para longe de casa, Madhya Pradesh, inclusive da sua mãe Kamla Munshi (Priyanka Bose). O início de Lion é realizado em movimento contínuo, como se estivesse acontecendo uma verdadeira transformação na vida desse indivíduo: a infância que tinha, com problemas ou não, está ficando para trás na velocidade de um trem sobre trilhos, e o espectador é levado junto.
Perdido, ele acaba se transformando num menino de rua, tentando escapar de pessoas que raptam crianças à noite na estação do trem, o que rende algumas sequências de tensão. Este início de filme pode remeter a Pixote – A lei do mais fraco, de Babenco, pela situação em que Saroo se encontra e a maneira como o espectador se angustia. Mas, se em Babenco a história é mais crua, em Lion tudo parece ser levado a uma alternativa. Depois de enfrentar uma situação ainda mais delicada, quando o espectador é levado a crer que ele não percebe o meio em que se encontra, ele é encaminhado para um reformatório de Calcutá, havendo a tentativa de reencontrar sua família.

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No entanto, ele é adotado por um casal australiano, Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham), assim como Mantosh (o ótimo Divian Ladwa). O diretor Garth Davis, com o apoio de uma fotografia exuberante de Greig Fraser (com elementos que já mostrava em A hora mais escura, como tomadas noturnas e diurnas captando o movimento ou isolamento de cenários), mostra a solidão de um indivíduo desde a infância, e quando ele cresce e vira Dev Patel a intensidade aumenta, pois se trata da grande atuação de sua carreira. Sua relação com a namorada Lucy (Rooney Mara, como sempre agradável e convincente) é autêntica, assim como com a mãe adotiva, em bela atuação, apesar de breve, de Nicole Kidman.
Todo o filme possui uma atmosfera situada entre a insegurança a que o personagem central é conduzido e a beleza de se ter uma nova oportunidade, de reencontrar pessoas que podem ter ficado num passado longínquo. A Calcutá com uma população enorme, que deixa as ruas abarrotadas, é um contraponto à costa australiana, onde o mar afasta o personagem de seu lugar de origem, assim como de agrupamentos. Saroo frequenta apenas alguns grupos de colegas, e isso parece deslocá-lo da realidade em que se encontra, pois não consegue se afastar das ruas pelas quais peregrinou.

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Sua tentativa inicialmente de se integrar vai, aos poucos, o afastando, fazendo com que fique distante de festas e encontros familiares. É como se cada vez mais que se intensificasse certa tranquilidade e alegria em seus afazeres mais ele despertasse para o fato de que, afinal, há familiares em outra parte do mundo certamente querendo saber do seu paradeiro.
É neste ponto que se acentua o conflito entre o que sente pela mãe verdadeira e pela mãe adotiva. E, quando se acentua a procura, o passado vai se infiltrando não apenas por meio das lembranças, como por meio de caminhadas, gestos e olhares, como se o personagem trouxesse dois dentro dele, divididos e juntos, distantes e próximos, compondo uma série de sensações por meio de imagens muitas vezes poéticas. O diretor atinge emoção por meio de imagens bastante objetivas, sem um excesso de camadas, mas que acabam dialogando com o espectador de modo a vê-las como parte de um grande mosaico destinado a compor o personagem central, assim como ele vai encaixando as informações que precisa num grande quadro, em que peças que lembram o colorido da infância se confundem com mapas que o levam a uma jornada mais interna do que externa.

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Isso porque, para o diretor, a jornada aqui é principalmente subjetiva. Uma das qualidades de Davis é também não rotular a cultura indiana como estamos acostumados a ver em outros filmes e programas de TV, não tentando vislumbrá-la sob um ponto de vista exótico ou excêntrico, como vemos, aliás, em outros filmes com Patel, Quem quer ser um milionário? e O exótico Hotel Marigold. Este é uma espécie de As aventuras de Pi localizado em centros urbanos, mas cuja lógica de mudança interna é repassada a todo instante para o personagem central. Como toda obra dividida em duas partes distintas, há alguns espectadores que irão preferir a primeira e outros a segunda. Particularmente, impressiona como Patel consegue replicar a densidade do olhar de Sunny Pawar: quando o vemos, identificamos claramente tudo aquilo que ele teria passado no início do filme. Um dos momentos mais tocantes, nesse sentido, é quando Saroo está esperando seu irmão adotivo acordar: para ele, este irmão que não desejaria é aquele que mais o leva de volta às ruas indianas das quais só saiu para ter uma oportunidade.
Pode-se apontar que Lion tem todos os elementos de um filme para o Oscar, inclusive uma mensagem edificante. Neste filme, ela não soa simplesmente forçada: é realmente bela, graças, particularmente, ao sentimento de angústia transmitido por Patel. Embora o roteiro se demore em alguns momentos ao final (privilegiando certos meios de busca), Lion tem um coração real.

Lion, AUS, 2016 Diretor: Garth Davis Elenco:Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman, David Wenham, Sunny Pawar, Divian Ladwa, Abhishek Bharate, Priyanka Bose Roteiro: Luke Davies Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Dustin O’Halloran, Volker Bertelmann Produção: Angie Fielder, Iain Canning Duração: 118 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Aquarius Films / Screen Australia / See-Saw Films / Sunstar Entertainment

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2 Comentários

  1. anonimo

     /  5 de março de 2017

    Lindo filme!

    Responder

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