De canção em canção (2017)

Por André Dick

Depois de A árvore da vida, Terrence Malick resolveu partir para um cinema baseado essencialmente na solidão da vida contemporânea, mesmo que busque, como em toda sua filmografia, a formação de casais. Foi assim em Amor pleno, Cavaleiro de copas e agora em De canção em canção. Se em Amor pleno, o personagem central casava com uma europeia e ambos iam morar no Texas edênico de Malick, em Cavaleiro de copas acompanhávamos um roteirista em Hollywood, Rick, que tinha problemas familiares e não conseguia nunca estabelecer ligações afetivas verdadeiras com as mulheres. Em De canção em canção, Malick apresenta quatro personagens centrais, embora o principal pareça ser Faye (Rooney Mara). Ela se apaixona inicialmente por BV (Ryan Gosling), um aspirante a músico igual a ela, bastante promissor, na cena musical do Texas.

Ambos se conhecem numa festa – no qual ela estende o fone de ouvido para BV ouvir a música que está ouvindo – e têm por perto o empresário Cook (Michael Fassbender), que se sente a ameaça, nesse sentido, para um amor que possa existir entre eles. Faye trabalhou desde a adolescência como assistente no escritório de Cook. As ligações entre eles são indefinidas, a não ser quando Cook e BV viajam com Faye para o México, e se subentende que possa haver um relacionamento entre eles – que se manifesta com clareza mais adiante. Cook, no entanto, tem inveja dos dois e parece haver uma separação. Quando ele entra em contato com a garçonete Rhonda (Natalie Portman, nunca tão bem fotografada e com uma atuação do nível de Cavaleiro de copas), junta-se uma figura que irá estabelecer a ligação entre o universo musical solto e uma tentativa de transcendê-lo, com suas frequentes idas à Igreja. Além disso, Rhonda busca a segurança material que Cook pode lhe conceder.

Novamente com fotografia do grande Emmanuel Lubezki, De canção em canção é, de longe, o filme mais difícil, em termos de estrutura, da trajetória de Malick: mesmo que nos anteriores não tivéssemos histórias lineares, o novo Malick se sente realmente um produto experimental da indústria. Quase ignorado em seu lançamento (não arrecadou sequer 450 mil dólares nos Estados Unidos) e desabonado pela crítica, cuja característica é lembrar de filosofia apenas quando escreve sobre filmes do diretor, esse é um cinema que não se preocupa com a recepção. Depois de mostrar um pôster gigante de Arthur Rimbaud na parede da casa de Faye, Malick está mais interessado no “desregramento dos sentidos” que pregava o poeta francês, uma visão simultânea desses personagens e de suas peregrinações pela vida. Rimbaud tem um livro de poemas em prosa chamado Illuminations, no qual registra diversas viagens que fez e Faye inicia dizendo que a ela importa qualquer experiência no lugar de nenhuma. Tudo se sente ao mesmo tempo desencaixado, solto e vinculado. Faye está à procura de um amor, mas não sabe exatamente o que deseja e há um núcleo do filme que trata da traição. Sozinha, procura numa artista francesa, Zoey (Bérénice Marlohe), como Rimbaud (em seu caso, era o poeta Verlaine), uma tentativa de se encontrar consigo mesma. Baseada em um verso do poeta, “Engoli uma notável poção de veneno”, ela diz em determinado momento a BV que Rimbaud esgotou todas as poções.

Embora haja participações do Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e Iggy Pop em diferentes momentos, De canção em canção não pretende construir um mosaico musical da vida moderna. Ele pretende mostrar mais como cada existência é governada por dissonantes acordes, que às vezes não seguem a mesma faixa. Mas, como a família musical, a Malick interessa a família em si. Rhonda tem uma relação próxima da mãe (Holly Hunter), assim como Gosling tem da sua (Linda Emond) – e em determinado momento precisa cuidar do pai (Neely Bingham) – e Faye do seu pai (Brady Coleman), todos sem nome próprio, como convém à tentativa de Malick em ser universal. O único que parece sem vínculos familiares é exatamente Cook. Esses personagens entram e saem do filme no mesmo fluxo contínuo da vida sendo revelada. As figuras dos pais eram determinantes em A árvore da vida e Cavaleiro de copas, quando se ausentavam particularmente em Amor pleno. Aqui, como em Cavaleiro de copas, BV troca ideias com um irmão (Tom Sturridge), sobre o pai, que parece ter prejudicado a sua família. Ainda assim, BV é visualizado entrando numa igreja no México, tentando se conectar com um ser superior que possa solucionar suas dúvidas, e é um traço que o aproxima dos personagens de Brad Pitt e Ben Affleck em A árvore da vida e Amor pleno.

Mesmo para um filme de Malick, De canção em canção se mostra surpreendentemente sem um eixo certo: ele não caminha estabelecendo pontos evidentes e sim sensações, como a entrada em determinado momento da personagem Amanda (Cate Blanchett), uma mulher solitária e que vê as pérolas de seu colar se espalharem no chão (e lembre-se que a pérola era um símbolo de Cavaleiro de copas).
Também se percebe que Ryan Gosling fez o filme em diferentes anos: em algumas passagens, ele aparenta estar com o visual de Drive e O lugar onde tudo termina, de seis, sete anos atrás, mais do que o restante do elenco – e comenta-se que Malick iniciou as filmagens de maneira aleatória, gravando concertos diferentes no Texas, e não oferecia nenhum roteiro concreto aos atores. Também confunde o espectador a maneira como a personagem de Faye vai mudando seus cortes de cabelo (no início, Mara parece ter o visual que usa em Millennium, de 2011), mas é como se Malick fosse registrando suas relações com BV e Cook em fases diferentes, talvez até mesmo antes do início dessa história. Ajuda saber que Faye, além de tentar carreira musical, “mostra apartamentos e passeia com cães”, como diz em determinado momento, por isso muitas vezes as locações mudam sem explicação.

Malick, como em Cavaleiro de copas e Amor pleno, usa a arquitetura das casas para falar dos personagens, cria analogias entre pássaros na natureza e de madeira pendurados no teto da sala, distribui uma porção de cenários em que os personagens se sentem ou mais solitários ou em busca de companhia: rios, piscinas de casas, estacionamentos, casas onde moram ou de suas famílias, o contraste entre interior e cidade, a tranquilidade da varanda e o caos dos shows. Todo o cuidado cênico se manifesta em cada sequência, e, além da referência a Rimbaud, em outro momento Malick filma uma parede com a palavra “Howl” gravada – o título do famoso poema de Allen Ginsberg da geração beat. Malick, aliás, faz algumas breves menções à geração beat, quando Cook e BV viajam com Faye para o México, com a mesma busca pela contracultura (e quando Cook se entrega finalmente aos experimentos alucinógenos já temos a outra face desse caminho), embora atenuada por imagens dos personagens ajudando pessoas nas ruas. Do mesmo modo, ele se entrega a uma viagem pessoal, mesmo sendo casado. Cook representa uma espécie de ameaça aos demais: ele personifica algo próximo da tentação, quando tenta separar Faye de BV, sugerindo um contrato de gravadora a ela, e oferece um cogumelo a Rhonda envolto em mel, por exemplo, ou quando usa sua piscina para festas particulares. Rhonda gostaria de ser professora infantil e, quando dialoga com uma garota de programa (Christin Sawyer Davis) e esta lhe fala que também gostaria de ser professora, parece que a personagem tem a consciência sobre o lugar para o qual Cook vai levá-la.

Temos os personagens novamente à procura de afeto: Malick utiliza sua obsessão em filmar o corpo humano em momentos descompromissados e atrativos, com narrações em “voice over” (muito bem utilizadas) que alternam a descrição de cada personagem para o que estão sentindo. Como em Cavaleiro de copas, Malick não está interessado exatamente pela indústria que serve de pano de fundo para tais personagens e seus comportamentos: tudo é motivo para vislumbrar fragmentos da tentativa de pessoas diferentes existirem. Trata sobretudo de escolhas sendo feitas, de como as pessoas lidam com suas perspectivas. Particularmente exitosa é a referência muito discreta de Malick ao filme Cada um vive como quer, com Jack Nicholson, de 1970. Lá, Nicholson interpretava um ex-pianista com problemas de relacionamento com o pai enfermo, justamente o que acontece com o personagem BV, feito por Gosling. Mara, para isso, tem uma contribuição notável para o filme, assim como Gosling, com quem mais contracena e se mostra em determinadas cenas um ator mais versátil ainda do que se mostrou em Drive e La La Land. Portman é tremendamente humana, numa atuação ao nível de Cisne negro e Jackie, e Fassbender, por sua vez, retrata o próprio vazio que parece cercá-lo. Um destaque também para o elenco coadjuvante de pais ou mães desses personagens, notável, mesmo com pouco tempo de atuação, e a inspirada Blanchett, embora com pouco roteiro (Christian Bale teria gravado cenas, mas foram descartadas, e Val Kilmer aparece brevemente como um roqueiro, lembrando um Jim Morrison que pretende integrar o Sonic Youth).

É notável que, mais do que em Amor pleno e Cavaleiro de copas, os atores se sintam numa espécie de jazz session de atuação, fazendo gestos e tendo comportamentos abertos para a história, sempre movimentando as peças para todos os lados possíveis. Percebe-se, também, como, desde A árvore da vida, Malick registra algumas cenas como parte de uma ficção científica cotidiana: quando Faye, BV e Cook voltam do México, Malick filma os dois últimos flutuando no jato, como astronautas; os estacionamentos vazios que Malick apresenta parecem pertencer a uma paisagem pós-apocalíptica, na qual todos estariam sozinhos; as montanhas onde Faye e BV caminham lembram aquelas de Cavaleiro de copas, afastadas de tudo. De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki. De canção em canção é uma obra-prima.

Song to song, EUA, 2017 Diretor: Terrence Malick Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Olivia Grace Applegate, Dana Falconberry, Linda Emond, Iggy Pop, Tom Sturridge, Neely Bingham, Brady Coleman Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Produção: Ken Kao, Sarah Green Duração: 129 min. Distribuidora: Supo Mungam Films Estúdio: Buckeye Pictures / FilmNation Entertainment / Waypoint Entertainment

Lion – Uma jornada para casa (2016)

Por André Dick

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Este parecia ser, antes das indicações ao Oscar saírem, o filme que mais tinha iscas para o prêmio, pela comoção de mostrar um drama a partir da infância. Não à toa. Ele apresenta a trajetória de uma criança indiana, Saroo (o excepcional Sunny Pawar, numa atuação que lembra a de Jacob Tremblay em O quarto de Jack, pela naturalidade e competência), que se perde do seu irmão Guddu (Abhishek Bharate) depois de ficar numa estação de trem e embarcar num vagão que o leva para longe de casa, Madhya Pradesh, inclusive da sua mãe Kamla Munshi (Priyanka Bose). O início de Lion é realizado em movimento contínuo, como se estivesse acontecendo uma verdadeira transformação na vida desse indivíduo: a infância que tinha, com problemas ou não, está ficando para trás na velocidade de um trem sobre trilhos, e o espectador é levado junto.
Perdido, ele acaba se transformando num menino de rua, tentando escapar de pessoas que raptam crianças à noite na estação do trem, o que rende algumas sequências de tensão. Este início de filme pode remeter a Pixote – A lei do mais fraco, de Babenco, pela situação em que Saroo se encontra e a maneira como o espectador se angustia. Mas, se em Babenco a história é mais crua, em Lion tudo parece ser levado a uma alternativa. Depois de enfrentar uma situação ainda mais delicada, quando o espectador é levado a crer que ele não percebe o meio em que se encontra, ele é encaminhado para um reformatório de Calcutá, havendo a tentativa de reencontrar sua família.

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No entanto, ele é adotado por um casal australiano, Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham), assim como Mantosh (o ótimo Divian Ladwa). O diretor Garth Davis, com o apoio de uma fotografia exuberante de Greig Fraser (com elementos que já mostrava em A hora mais escura, como tomadas noturnas e diurnas captando o movimento ou isolamento de cenários), mostra a solidão de um indivíduo desde a infância, e quando ele cresce e vira Dev Patel a intensidade aumenta, pois se trata da grande atuação de sua carreira. Sua relação com a namorada Lucy (Rooney Mara, como sempre agradável e convincente) é autêntica, assim como com a mãe adotiva, em bela atuação, apesar de breve, de Nicole Kidman.
Todo o filme possui uma atmosfera situada entre a insegurança a que o personagem central é conduzido e a beleza de se ter uma nova oportunidade, de reencontrar pessoas que podem ter ficado num passado longínquo. A Calcutá com uma população enorme, que deixa as ruas abarrotadas, é um contraponto à costa australiana, onde o mar afasta o personagem de seu lugar de origem, assim como de agrupamentos. Saroo frequenta apenas alguns grupos de colegas, e isso parece deslocá-lo da realidade em que se encontra, pois não consegue se afastar das ruas pelas quais peregrinou.

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Sua tentativa inicialmente de se integrar vai, aos poucos, o afastando, fazendo com que fique distante de festas e encontros familiares. É como se cada vez mais que se intensificasse certa tranquilidade e alegria em seus afazeres mais ele despertasse para o fato de que, afinal, há familiares em outra parte do mundo certamente querendo saber do seu paradeiro.
É neste ponto que se acentua o conflito entre o que sente pela mãe verdadeira e pela mãe adotiva. E, quando se acentua a procura, o passado vai se infiltrando não apenas por meio das lembranças, como por meio de caminhadas, gestos e olhares, como se o personagem trouxesse dois dentro dele, divididos e juntos, distantes e próximos, compondo uma série de sensações por meio de imagens muitas vezes poéticas. O diretor atinge emoção por meio de imagens bastante objetivas, sem um excesso de camadas, mas que acabam dialogando com o espectador de modo a vê-las como parte de um grande mosaico destinado a compor o personagem central, assim como ele vai encaixando as informações que precisa num grande quadro, em que peças que lembram o colorido da infância se confundem com mapas que o levam a uma jornada mais interna do que externa.

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Isso porque, para o diretor, a jornada aqui é principalmente subjetiva. Uma das qualidades de Davis é também não rotular a cultura indiana como estamos acostumados a ver em outros filmes e programas de TV, não tentando vislumbrá-la sob um ponto de vista exótico ou excêntrico, como vemos, aliás, em outros filmes com Patel, Quem quer ser um milionário? e O exótico Hotel Marigold. Este é uma espécie de As aventuras de Pi localizado em centros urbanos, mas cuja lógica de mudança interna é repassada a todo instante para o personagem central. Como toda obra dividida em duas partes distintas, há alguns espectadores que irão preferir a primeira e outros a segunda. Particularmente, impressiona como Patel consegue replicar a densidade do olhar de Sunny Pawar: quando o vemos, identificamos claramente tudo aquilo que ele teria passado no início do filme. Um dos momentos mais tocantes, nesse sentido, é quando Saroo está esperando seu irmão adotivo acordar: para ele, este irmão que não desejaria é aquele que mais o leva de volta às ruas indianas das quais só saiu para ter uma oportunidade.
Pode-se apontar que Lion tem todos os elementos de um filme para o Oscar, inclusive uma mensagem edificante. Neste filme, ela não soa simplesmente forçada: é realmente bela, graças, particularmente, ao sentimento de angústia transmitido por Patel. Embora o roteiro se demore em alguns momentos ao final (privilegiando certos meios de busca), Lion tem um coração real.

Lion, AUS, 2016 Diretor: Garth Davis Elenco:Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman, David Wenham, Sunny Pawar, Divian Ladwa, Abhishek Bharate, Priyanka Bose Roteiro: Luke Davies Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Dustin O’Halloran, Volker Bertelmann Produção: Angie Fielder, Iain Canning Duração: 118 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Aquarius Films / Screen Australia / See-Saw Films / Sunstar Entertainment

cotacao-4-estrelas-e-meia

Carol (2015)

Por André Dick

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O diretor Todd Haynes é um dos nomes mais respeitados em Hollywood, um dos poucos vistos com características autorais, já demonstradas em larga escala, seja em Veneno, seja no estranhíssimo Velvet Goldmine ou na homenagem a Bob Dylan em Não estou lá. No entanto, seu grande filme até agora continua sendo Longe do paraíso, em que Dennis Haysbert interpreta Raymond Deagan, um jardineiro afroamericano que se torna próximo de Cathy Whitaker (Julianne Moore), o que causa um escândalo na sociedade conservadora dos Estados Unidos dos anos 1950. Casada com Frank (Dennis Quaid), o qual considera que precisa tratar sua homossexualidade com um psiquiatra, ela apresenta a Raymond a arte moderna por meio de pinturas. Lançado em 2002, Longe do paraíso possui uma maravilhosa atmosfera com a contribuição da fotografia de Edward Lachman.
É justamente ele que regressa para fotografar o novo filme de Haynes, Carol, baseado em livro de Patricia Highsmith, mais uma vez apostando no relacionamento proibido para a sociedade dos anos 50. Desta vez, é Carol Aird (Cate Blanchett), em processo de separação de Harge (Kyle Chandler, quase sempre fazendo personagens desajustados pela bebida), que se interessa por uma balconista de loja, Therese Belivet (Rooney Mara).

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O primeiro encontro se dá às vésperas do Natal, em Manhattan, quando as lojas estão repletas, mas Haynes já distribui seu olhar para o que deseja mostrar: uma jovem que não se decidiu ainda se irá se casar com o namorado, Richard Semco (Jack Lacy), o qual pretende levá-la para França, ou tentará vivenciar um amor com Carol. Estamos longe, claro, de qualquer tratamento mais moderno sobre a relação entre mulheres, nos moldes de Azul é a cor mais quente.
Carol é muitas vezes calculado e preciosista, como Longe do paraíso, se não fosse também bastante distanciado em termos de personagens e de como eles chegam ao espectador. As primeiras aproximações entre Carol e Therese se dão de tal maneira clássica que ficamos confusos à primeira vista se Haynes está querendo compor um painel meio neutro, colocando os personagens distantes uns dos outros para representar esse mundo em que poucos, afinal, conseguem se encontrar. O primeiro encontro que entre as duas acontece na loja em que Therese trabalha: ela observa Carol na vitrine, que parece também observá-la a distância; Carol se aproxima e finge esquecer uma luva para que Therese possa procurá-la. Nesse meio tempo, o espectador já tem informações de que ela tem severos desentendimentos com o marido. É Longe do paraíso visto sob o ponto de vista estritamente feminino, mas sem a mesma ênfase e o mesmo brilho de Haynes, apesar da belíssima parte técnica, uma reconstituição de época esforçada. Este é o Inside Lewyn Davis ou o Era uma vez em Nova York de Haynes.
Aos poucos, percebe-se que também não teremos muitas informações, a não ser o fato de que Therese deseja ser fotógrafa, e para isso estabelece contato com Dannie McElroy (John Magaro), que trabalha no The New York Times, e Carol quer brigar pela guarda de sua filha na justiça, Rindy (Kk Heim), com seu marido. São personagens deslocadas do seu período e de suas respectivas posições, e Haynes tem um talento, como em Longe do paraíso, a fornecer imagens que tratam desse deslocamento.

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Quando o filme passa a ser uma espécie de road movie clássico, parece que o filme tem um verdadeiro encanto em mostrar as paisagens de uma América perdida em beiras de estrada e de hotel, além de um personagem misterioso da vida de Carol se antecipar a alguns fatos, Abby Gerhard (Sarah Paulson, muito bem). Os personagens estão sempre querendo dizer algo, mas pouco o fazem, a não ser por olhares misteriosos e toques a distância, preenchidos pela trilha sonora agradável de Carter Burwell e a câmera da Canon levada por Therese é o ponto de aproximação mais direto de Carol: por meio de uma fotografia que tira dela escolhendo uma árvore de Natal, está o núcleo dramático do filme.
Haynes tem uma tendência em filmar rostos atrás de vidros, principalmente embaçados, confundido o espectador, e o máximo que essas pessoas trocam são toques querendo atrair algum tipo de afeto perdido. Nesse meio termo, as duas encontrarão um homem chamado Tommy Tucker (Cory Michael Smith) e percebe-se o quanto Rooney Mara ainda tem dificuldades de repetir o êxito interpretativo de Millennium (em Terapia de risco já não havia conseguido, embora em Peter Pan esteja bem): dificilmente ela funciona, e ter sido premiada como atriz principal em Cannes é um mistério (embora eu não tenha visto todas as atuações), sempre salva, nas cenas, por uma Blanchett impressionantemente contida e só não melhor do que em Cavaleiro de copas, o filme mais recente de Malick.

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Blanchett começa com uma determinada lentidão, quase sem roteiro, e ao final se vê uma implosão dramática difícil de ser alcançada, apesar dos classicismos de Haynes na maneira de filmar, imprimindo uma sutileza que extrai da carga dramática apenas lances de olhar. É Blanchett que, afinal, faz valer a sessão de Carol, um filme particularmente com uma emoção tão distanciada que não permite ao espectador se aproximar de qualquer um de seus personagens – principalmente com os arroubos, delicados para um drama dessa espécie, de Chandler.
É de se perguntar por que Haynes tem uma perícia muito grande em montar personagens femininos e fazer dos personagens masculinos apenas tolos em movimento. Um dos motivos de Carol ser tão pouco efetivo em sua parte dramática é justamente colocar quase todos os personagens masculinos com uma tendência apenas à incompreensão diante da mulher, afinal elas também estão enfrentando o posicionamento deles. Quando mais ao final Haynes coloca tudo num movimento mais interessante, e o receio da solidão como tema fundamental, o filme parece crescer. Torna mais claro o seu foco: a impossibilidade de duas pessoas terem uma relação numa época em que essa aproximação era ainda mais dificultosa e impedida por tudo ao redor.

Carol, EUA, 2015 Diretor: Todd Haynes Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Jake Lacy, Kyle Chandler, Sarah Paulson, John Magaro, Greg Violand, Kk Heim, Sadie Heim, Trent Rowland, Nik Pajic, Cory Michael Smith, Carrie Brownstein Roteiro: Phyllis Nagy Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Christine Vachon, Elizabeth Karlsen, Stephen Woolley, Tessa Ross Duração: 118 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Film4 / Killer Films / Number 9 Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

Peter Pan (2015)

Por André Dick

Peter Pan 6Se o espectador acompanha adaptações para o cinema de obras literárias, sabe que uma das que mais receberam esse bônus foi Peter Pan, de James Matthew Barrie. Ela já foi lançada em diferentes vertentes, embora a mais conhecida seja a clássica animação dos estúdios Walt Disney feita nos anos 50. Nos anos 90, Spielberg procurou renová-la trazendo-a para o universo moderno, em Hook – A volta do Capitão Gancho e em 2003 quem a adaptou foi o australiano P.J. Hogan.
Na adaptação de Joe Wright, o criador de peças como Desejo e reparação e o ótimo Anna Karenina, a história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Londres está sob ataque frequente. Num orfanato coordenado por freiras pouco acolhedoras, Peter (Levi Miller) é cuidado depois de ser abandonado pela mãe, Mary (Amanda Seyfried), e tem como melhor amigo Nibs (Lewis MacDougall). A rotina do lugar e a constante falta de comida, devido ao racionamento provocado pela guerra ou, segundo Peter, por uma das freiras, Madre Barnabas (Kathy Burke), estar estocando os alimentos num lugar escondido, fazem com que se imagine um universo à parte e, principalmente, em reencontrar a mãe.  Daí é um passo para que surja um navio de piratas no céu de Londres, em meio aos ataques, para capturar algumas crianças do lugar. Possivelmente não seja preciso muito conhecimento do mundo da fantasia de Barrie para perceber que este filme eleva à máxima potência a estranheza do universo de Peter Pan.

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Quando todos, finalmente, vão para a Terra do Nunca, e o menino herói precisa enfrentar a exploração numa mina, num diálogo claro com Indiana Jones e o templo da perdição, sob o comando de Barba Negra (Hugh Jackman), com o auxílio de Bishop (Nonso Anozie), o filme traz até mesmo um determinado hino do Nirvana à cena. As crianças, trabalhando como mineradores, devem encontrar o pó de pixum, que seria o pó das fadas. No lugar, Peter faz amizade, mesmo que forçada, com James Hook (Garrett Hedlund), sempre acompanhado pelo braço direito Sam Smiegel (Adeel Akhtar).
O que se tem dito, com base neste conjunto de cenas, é que a narrativa se perde. Se há, no entanto, fantasia capaz de misturar As aventuras do Barão de Münchausen (de modo geral, do universo de Terry Gilliam), Avatar e a profusão de cores que Wright já apresentava em Anna Karenina, é esta. Dificilmente se percebe em outras obras uma tentativa de fazer com que um clássico se reproduza em sua essência, mesmo que com liberdades evidentes, constuindo-se num prólogo. Este Peter Pan não apenas inicia com uma homenagem a um dos clássicos de Guillermo del Toro, passado num orfanato durante a Guerra Civil Espanhola, com suas bombas ameaçadoras caindo do céu, como leva o espectador a um encontro com uma certa indefinição entre gêneros que proporciona suas melhores características.

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Além disso, temos o elenco, sustentado pela revelação infantil Levi Miller, que convence durante todo o filme e nunca soa um personagem sob encomenda para tentativa de venda de brinquedos, assim como Jackman está particularmente bem como o vilão, e Garrett Hedlund finalmente tem uma nova chance de mostrar o talento comprovado como Dean Moriarty em Na estrada, desta vez com elementos de humor e um certo overacting sem prejudicá-lo no contexto. E Rooney Mara, que surge no papel coadjuvante de Tiger Lily, não desaponta por sua qualidade dramática já revelada em outro registro no ótimo Millennium, apesar de estar visivelmente desconfortável com sua premissa entre ser uma guerreira e um interesse amoroso. Wright põe em movimento esse elenco com a colaboração de seu diretor de fotografia habitual Seamus McGarvey e da trilha sonora excelente de John Powell, que evoca o alcance da imaginação proporcionada pelos figurinos, design de produção e efeitos especiais não menos do que notáveis.
Peter Pan contrapõe, de forma elegante, o ambiente cinza da Segunda Guerra Mundial com um universo de imaginação em grande escala de cores e variações. Há, igualmente, uma opção de Wright em fazer as cenas sem violência, mas sem abdicar de uma imaginação própria – principalmente numa determinada cena de confronto do Barba Negra. Claro que Peter Pan também tem outra qualidade bastante atrativa: embora não adapte Barrie de forma fiel, servindo tudo como um prólogo da história oficial, ele consegue estabelecer uma conexão entre o drama pessoal do personagem de querer reencontrar a mãe. Não deixa de ter uma clara relação com o perturbador Hanna, em que Wright expunha uma jovem aos experimentos que a transformaram numa máquina de guerra.

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Toda a história de Peter Pan gira em torno do menino querendo encontrar a sua mãe. O fato de a história de Barrie ser conhecida como a do menino que não queria crescer mostra que, na verdade, ele está sempre ligado a uma infância e à figura materna. No entanto, ao localizar este filme durante a Segunda Guerra e as crianças serem transformadas em mineradoras por um pirata explorador, e mesmo quando estão na Terra serem punidas, mostra que Wright indica a infância eterna como uma espécie de fuga aos problemas do dia a dia. É uma espécie de elogio localizado ao escapismo, que Wright explora por meio de cores e formas extraordinárias. Há três anos, John Carter foi rechaçado e fazia as mesmas tentativas de entregar um material diferenciado.
Se em alguns momentos o roteiro de Jason Fuchs não tem os diálogos mais explorados, pelo menos na caracterização dos personagens, nunca o faz por falta e sim por um ritmo contínuo – e avaliar que Peter Pan nesse sentido teria problemas de montagem ou seria tedioso é inevitavelmente uma surpresa. Do mesmo modo, ele tem algumas soluções criativas de plasticidade belíssima, como a memória que traz uma árvore (e não se trata de um ent) ou o momento em que por um lado temos a ameaça de um crocodilo e a presença tranquila de uma sereia (Cara Delevingne). Assim, num escopo abrangente, Wright trabalha com imagens como se fossem resquícios de uma infância perdida, seja no vislumbre de um navio de pirata encalhado ou em pássaros gigantes que parecem trazer apenas seu esqueleto como se fossem esboços inacabados, ou simples caravelas que flutuam no espaço e parecem vigiar com luzes à noite como se estivéssemos numa versão adiantada do novo Blade Runner, além de mostrar batalhas entre elas e aviões da Segunda Guerra com a profundidade daquelas que vemos em Invencível, e cenas no fundo das águas capazes de evocar um lugar desconhecido – quando as águas recuperam, para Wright, todas as lembranças, remetendo ao fio da corda em que Peter Pan fica em determinado momento preso no espaço, como se estivesse renascendo. Nesse sentido, esta visão para o clássico de Barrie se transforma numa fantasia memorável.

Pan, EUA/Reino Unido, 2015 Diretor: Joe Wright Elenco: Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Levi Miller, Amanda Seyfried, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Cara Delevingne Roteiro: Jason Fuchs Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: John Powell Produção: Greg Berlanti, Paul Webster, Sarah Schechter Duração: 111 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Berlanti Productions

Cotação 4 estrelas

 

Ela (2013)

Por André Dick

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O diretor Spike Jonze surgiu como uma das maiores revelações do cinema, à frente de Quero ser John Malkovich, uma experiência com John Cusack, e alguns anos depois fez o original Adaptação, com o melhor momento de Nicolas Cage. Desde então, Jonze só havia conseguido imprimir sua marca autoral no infantojuvenil com temática adulta Onde vivem os monstros. Alguns anos depois, ele finalmente volta ao cinema, com Ela, já sem a parceria no roteiro de Charlie Kaufman, trazendo novamente Joaquin Phoenix depois de sua atuação antológica em O mestre. Phoenix interpreta Theodore Twombly, nome próprio de alguma história infantil, que escreve cartões de amor numa empresa, BeautifulWrittenLetters.com, e se mantém solitário depois do casamento com Catherine (Rooney Mara). Até o dia em que ele decide adquirir um sistema operacional com inteligência artificial – cuja voz é de Scarlett Johansson (que substituiu Samantha Morton depois das filmagens).
Alguns têm falado que o filme apresenta elementos biográficos de Jonze e de sua relação com Sofia Coppola, e não por acaso temos Johansson, que havia feito Encontros e desencontros. Mas, se Sofia Coppola visualiza a solidão como uma espécie de artefato pop, Jonze a toma como uma espécie de síntese do ser humano. Em Ela, Theodore é um ser solitário, avesso aos relacionamentos, e Jonze não foge, neste ponto, a alguns clichês do gênero. Mesmo quando ele inicia o relacionamento de amizade com seu sistema operacional, chamado de Samantha, parece que há algo solto no filme e os personagens, de algum modo, não têm uma ligação estabelecida. Samantha organiza a agenda de Theodore e lhe repassa as informações de mensagens pessoais, tentando organizar não apenas a autoestima dele, como também sua vida profissional. No entanto, este é o preparo de uma narrativa com diversas nuances, que lidam com o afeto, a solidão e a companhia de maneira não tratada antes, e sob um ponto de vista moderno.

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O filme se passa num futuro não longínquo, mas as relações vistas nele já se mostram contemporâneas: a necessidade de, por meios tecnológicos, iniciar uma relação, e até que ponto ela será virtual ou verdadeira. Jonze discute essas questões num roteiro escrito com uma qualidade notável, em que o excelente Phoenix vai mostrando um crescente capaz de tornar detalhes mesmo banais em algo com sentimento. Jonze sempre soube também construir imagens que gravam na mente do espectador, com um sentido de lembrança e de conflitos inescapáveis. Mesmo os escritórios, as sacadas, os elevadores, corredores de estação de trem da cidade de Los Angeles no futuro (mas com várias cenas rodadas em Xangai) se mostram com uma sensação de que algo se perdeu, ou quando Theodore caminha pela rua mostrando as pessoas a Samantha. De elaboração a princípio simples, a direção de arte do filme mistura as suas cores com aquelas do figurino de Theodore, e há uma névoa em algumas imagens que lembram não apenas flashbacks, mas também uma atmosfera de sonho, o que empresta ainda mais ao filme uma sensação de conectar o espectador com lembranças dispersas. Se não soubéssemos que a história se passa no futuro, poderíamos imaginá-la num passado estilizado, pois tudo evoca algum tipo de lembrança. Ao mesmo tempo em que nos sentimos num local populoso, parece que estamos vagando, com o personagem, numa metrópole semiabandonada. A caracterização dos edifícios, as suas luzes e a imponência, também contrasta com a natureza (de árvores e do mar) em alguns trechos do filme – e deitar-se na areia da praia configura uma mudança da rotina.
Chama a atenção, também, como Ela, com seu bom humor em alguns momentos – sobretudo em seu início, quando mostra a relação de Theodore com seu videogame realista ou uma conversa sexual com uma mulher cuja voz é de Kristen Wiig –, consegue mesclar sentimentos variados em relação aos conflitos entre Theodore e Samantha. Se no início eles parecem corriqueiros, e às vezes não tão interessantes, Jonze faz com que o personagem central comece a materializar Samantha em uma figura humana, mesmo que sem rosto. Ela tem o comportamento de uma pessoa, com sentimentos em relação a Theodore e ao mundo, sente-se magoada e reage ao relacionamento, ou o possível abandono. Ela quer se transformar verdadeiramente num ser humano, interessada por livros e em valorizar as cartas escritas por Theodore – ditadas para um computador que vai desenhando a caligrafia das palavras. Ou seja, é notável como Jonze torna a atuação de Johansson naquela que é, talvez ironicamente (pois é uma atriz sempre acusada de chamar a atenção mais pela aparência do que pelo vigor dramático), a melhor de sua trajetória.

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A interação entre Phoenix (visível para o espectador) e ela (ausente de nossa visão) é memorável a partir de determinado momento, quando temos os mais variados sentimentos no que se refere a esta relação. Sobretudo porque Jonze nos lança na questão recorrente de que o ser humano vem se tornando mais frio e atento a programas de computador, e menos confortável em relações verdadeiras. O que ele nos lembra, mais do que tudo, é como a imaginação costuma ressoar mais forte mesmo quando parecemos nos entregar a uma distância com o contato humano. Mesmo os relacionamentos com Amy (Amy Adams, numa participação relativamente curta, mas eficiente), casada com Charles (Matt Letscher), com Paul (Chris Patt), colega que trabalha na empresa de Theodore, e a moça de um encontro às escuras (Olivia Wilde, deslocada como convém ao personagem), são um tanto evasivos, imersos num ambiente introspectivo. Nesse sentido, o sentimento se torna mais forte sobretudo pela capacidade que temos de, por meio da imaginação, delinear nossa concepção verdadeira de humanidade, e como ela acabará nos inserindo de verdade no mundo.
E o que Jonze faz é uma realização. Não era uma expectativa chegar a este filme de Jonze como um exemplo de cinema em que o escape se torna, na verdade, uma maneira de se encontrar de maneira tão elaborada, e cuja emoção vai repercutir na trilha da banda Arcade Fire (cujo clipe da canção “The Suburbs” foi feito por Jonze). Não que seus filmes anteriores, sobretudo Adaptação, não tivessem este elemento, mas não de maneira tão dosada quanto aqui. Há elementos que o afastam da metalinguagem de Charlie Kaufman, mas se aproximam do ato final de Sinédoque, Nova York, com a passagem do tempo e a mistura entre realidade e imaginação – como naquele instante extraordinário em que Theodore se insere numa paisagem invernal, com árvores, ou quando passeia com Samantha num dia de verão. Os cortes oferecidos por Jonze dessas imagens dialogam com nossa memória e aliam comoção e envolvimento. É interessante como, de algum modo, o diretor se expõe, com seu elenco, ao risco, no sentido de efetuar uma imagem ampla do que poderia ser apenas trazer a curiosidade do amor de um homem por um programa de computador. A ideia, que parece não oferecer a segurança para um filme, torna-se, aos poucos, cada vez mais plausível e, quando percebemos, estamos inseridos na história de amor talvez mais original já feita, não exatamente pela relação virtual, mas como ela é abordada de modo verdadeiro e sem artifícios. Quando Samantha diz a Theodore que ele a ajudou a se descobrir, não estamos mais lidando com um sentimento virtual, com uma fuga da realidade, desculpando-se pela solidão, e sim com o pleno entendimento do amor. É o que torna Ela um filme tão próximo, com seu universo aparentemente tão distante: ele nos lembra de nós mesmos.

Her, EUA, 2013 Direção: Spike Jonze Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Portia Doubleday Roteiro: Spike Jonze Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Owen Pallett Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas

Terapia de risco (2013)

Por André Dick

Terapia de risco.Filme

Há alguns anos, o diretor Steven Soderbergh vem comentando sobre o interesse em se aposentar, apesar de ser um dos cineastas mais produtivos de Hollywood. Desde 2011, ele realizou, entre outros, A toda prova, Contágio, Magic Mike, Behind the Candelabra (exibido no último Festival de Cannes) e este Terapia de risco. Conhecido por sua multiplicidade, capaz de fazer filmes esteticamente diferentes, como Traffic, e ganhar no mesmo ano o Oscar de melhor diretor pelo linear Erin Brockovich, passando por aqueles destinados aos multiplex, como a série Onze homens e um segredo, até os dois filmes sobre Che Guevara, Soderbergh talvez seja o que mais pretende: uma incógnita. Não é exatamente Terapia de risco que vai ajudar a esclarecer sua trajetória, iniciada com uma Palma de Ouro em Cannes por sexo, mentiras e videotape. O que se destaca é como ele, aqui, traz elementos que o assemelham a David Fincher. Com os filtros amarelados, as lâmpadas fosforescentes, abajures bem situados e o céu sempre ameaçando com temporais, e ainda com Rooney Mara no elenco (ela fez Millennium), Terapia de risco parece um suspense que parte de Hitchcock, mas com a maneira de filmar de Fincher.
Mara interpreta Emily Taylor, que recebe o marido, Martin (Channing Tatum, com a disponibilidade de atuação de quem está em visita às filmagens), depois de anos na cadeia, de volta à sua casa. Ela parece apresentar, no entanto, um quadro depressivo. Depois de tentar o suicídio, é atendida por um psiquiatra, Jonathan Banks (Jude Law), que, interessado no seu histórico, resolve tratar seu caso com atenção, receitando alguns remédios e indo consultar sua psiquiatra anterior, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). No início, eles parecem ajudá-la, inclusive a retomar seu relacionamento com o marido, até o dia em que, sem nenhuma explicação, acontece uma reviravolta. Imagina-se que o comportamento de Emily seja explicado pelo remédio recomendado para tratamento, o fatídico Ablixa, capaz de, ao mesmo tempo, despertar a sexualidade e causar sonambulismo. Banks começa a se ver prejudicado tanto no trabalho quanto com sua família, com a mulher, Deirdre (Vinessa Shaw), e um filho. Depois de um início trepidante e indefinido, Soderbergh vai apresentando os personagens e seus conflitos, a sua busca pela melhora através do tratamento, mas a questão é saber até que ponto tudo segue realmente a ordem que se imagina. Soderbergh, nesse ponto, estaria fazendo uma crítica à indústria farmacêutica ou às pessoas que dela se utilizam? Terapia de risco acaba sendo uma concentração interessante, em doses controladas, de um thriller que vai tomando forma, ficando grande, interessante, até optar em ter vários direcionamentos.

Terapia de risco

O elenco é apto para isso. Jude Law parece ter saído diretamente de Closer e, embora não apresente a mesma interpretação de Anna Karenina, uma surpresa em sua trajetória, consegue desenvolver bem seu psiquiatra. O mesmo se diz para as coadjuvantes Catherine Zeta-Jones (que trabalhou com Soderbergh em Traffic e na série Onze homens e um segredo) e Vinessa Shaw. Rooney Mara, no entanto, não consegue repetir sua atuação excelente de Millennium, e parece pouco encaixada no papel, também porque o roteiro dá alguns saltos de comportamento e extrai o clímax de cada cena a partir da parte final. Isso tira um pouco a consistência de algumas passagens de Terapia de risco. No entanto, trata-se de uma atriz que tem presença de cena. Desde sua participação inicial em A rede social, ela certamente é uma persona excêntrica, talvez à espera de um roteiro que, como o de Millennium, possa extrair o seu potencial.
O que mais se destaca em Terapia de risco (daqui em diante, possíveis spoilers) é sua aproximação com outros filmes do gênero, que retrata a relação entre psiquiatra e paciente. Já vimos o mesmo em Instinto selvagem e Desejos, dos anos 90, que acabaram, de alguma maneira, expandindo suas referências para o gênero no universo contemporâneo. Soderbergh abraça os caminhos do gênero, e, ao deixar os personagens, em determinados momentos, flutuando, torna sua finalidade menos oportuna. Em termos de atmosfera, de qualquer modo, também pela influência visível de Fincher, há uma espécie de atração, de clima indefinido entre os personagens, como o em que vemos em alguns filmes de Soderbergh, principalmente os despretensiosos, como Irresistível paixão (com George Clooney e Jennifer Lopez) e O desinformante (com Matt Damon). O diretor consegue atrair o espectador para sua narrativa sobretudo no meio do filme, em seu núcleo, quando o comportamento dos personagens mantém sempre um mistério incômodo, assim como a trama policial que se estabelece.

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Ao mesmo tempo em que essa trama se estabelece, de qualquer modo, Soderbergh vai se desinteressando pela questão da crítica à indústria farmacêutica, tornando os remédios mais como uma espécie de motivação para a ameaça e mesmo para desvendar uma verdade, e criando comportamentos que se justificam apenas para o espectador – nesse sentido, os personagens agem como se representassem para a plateia, e não conforme tenderiam a agir, dentro do filme (como a cena em que Emily, numa festa, se observa no espelho). Todos os personagens, de certo modo, estão inseridos nessa utilização do medicamento, com a finalidade certa ou errada. O diretor considera que a parte interessante do seu thriller são as reviravoltas a partir do uso dele, deixando de lado a discussão sobre a ética e o comportamento de quem lida com a medicina e com o equilíbrio orgânico de seus pacientes. Não que esse fosse o caminho mais adequado, mas, diante da maneira como o filme se apresenta em sua metade final, possivelmente teria uma abrangência mais interessante. Nesse sentido, alguns personagens, como o de Victoria Siebert, não chegam a ser desenvolvidos de maneira a provocar uma tensão maior e ressente-se, nesse sentido, justamente de uma metragem maior, tão importante para Fincher. Para que se crie uma história de suspense, e haja descobertas pouco a pouco, é preciso de tempo para que se analise o que viu. Os efeitos colaterais são sentidos, e a parte final nega o que Soderbergh constrói com competência nas duas primeiras partes. Não torna Terapia de risco dispensável, mas menos interessante do que poderia.

Side effects, EUA, 2013 Direção: Steven Soderbergh Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Vinessa Shaw, Polly Draper, David Costabile Roteiro: Scott Z. Burns Produção: Gregory Jacobs, Lorenzo di Bonaventura, Scott Z. Burns Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 114 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Di Bonaventura Pictures / Endgame Entertainment

Cotação 3 estrelas