Twin Peaks – O retorno (Episódios 1 e 2) (2017)

Por André Dick

Assistir a uma nova temporada de Twin Peaks é, antes de tudo, uma realização para quem acompanhava a série nos anos 1990 e teve de aceitar seu encerramento com baixos índices de audiência e uma resposta inconclusiva ao final. O filme, Twin Peaks – Fire walk with me, com sua qualidade notável, ajudou a estabelecer a mitologia dos personagens. Também é uma peça de nostalgia: lembrar que há 25 anos atrás nunca se imaginava que ela regressaria algum dia. Quantas vezes minha esposa – também fã da série – e eu conjecturamos a volta dela, sempre com as negativas públicas de David Lynch, até que… Normalmente, o Cinematographe não fala de séries de TV. Abre uma exceção para uma série que é, na verdade, antes de tudo, cinema e por causa do diretor, particularmente o mais ousado dos últimos 40 anos, ao lado de Terrence Malick.
Ontem, finalmente, os dois primeiros episódios foram lançados pelo Showtime e distribuídos no Brasil pela Netflix, em tempo recorde (em torno de 4 horas depois da estreia nos Estados Unidos). Com uma abertura diferente, mas a mesma música de Angelo Badalamenti, David Lynch regressa depois de 11 anos sem filmar: Império dos sonhos foi seu último projeto cinematográfico. Em sua companhia, o outro criador, Mark Frost. Recordo que em 1990, quando a primeira temporada estreou no Brasil, minha mãe e eu nos tornamos fãs assíduos (ela apreciava especialmente a trilha sonora, que à época lembro de ter comprado em LP, e a interação entre os personagens). Obviamente, não havia as redes sociais para as teorias se proliferarem e não lembro de colegas de escola falando da série, mas havia bastante divulgação nos jornais e cheguei a comprar os livros O diário secreto de Laura Palmer e aquele contendo gravações do agente Cooper desde a infância. Imagino que agora, com a nova temporada, os fãs para isso terão um prato cheio.

Em seus dois primeiros episódios, Twin Peaks é Twin Peaks sem de fato ser como a série antiga. A estranheza e o humor estão lá, mas modulados pela fase cinematográfica de Lynch iniciada em Twin Peaks – Fire walk with me e continuada em A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos.

Para quem não quer nenhum spoiler, sugere-se não seguir adiante.

A série tem início com imagens de Laura e Palmer na série antiga e, em seguida, passa para imagens em preto e branco, recordando o primeiro filme de Lynch, Eraserhead. O agente Cooper (Kyle MacLachlan, excelente) conversa com o Gigante (Carel Struycken) no Black Lodge, enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. A partir daí, Lynch dispara em várias frentes: embora tenhamos a visualização de alguns personagens da série antiga, o episódio se concentra num diretor de escola, William Hastings (Matthew Lillard), de Buckhorn, Dakota do Sul. Ele é casado com Phyllis (Cornelia Guest), preocupada com o jantar, e não se lembra de um crime que teria cometido, o que remete ao filme A estrada perdida. O detetive Dave Mackley (Brent Briscoe), além de tudo, é seu amigo. Ainda vemos em Nova York um jovem, Sam Colby (Ben Rosenfield) filmando uma caixa de vidro com câmeras. Ele sempre recebe a visita de Tracy (Madeline Zima), interessada no que está fazendo.

Lynch obviamente andou vendo filmes de seu pupilo Nicolas Winding Refn – a primeira tomada área de Nova York é idêntica a uma de Refn sobre Los Angeles em Drive e essas sequências deixam claro isso, pela simetria e disposição de luzes no ambiente –, assim como evoca Cosmópolis e Videodrome, de David Cronenberg, diretor com o qual costuma ser comparado, embora ambos sejam muito diferentes. Também há um personagem surpreendente cuja camisa por baixo da jaqueta lembra Sailor de Coração selvagem e, junto com uma gangue, parece ser responsável por matar pessoas. Este primeiro episódio evoca bastante Cidade dos sonhos, principalmente na descoberta de um corpo, nas conversas absurdas entre alguns personagens e na imagem assustadora de uma espécie de mendigo numa cela de cadeia, que remete àquele do final da obra-prima de 2001.
No segundo episódio, Cooper trava novos diálogos com Laura Palmer (Sheryl Lee, extraordinária) e o espectador é reinserido no Black Lodge. Não há mais o anão, e sim uma árvore com uma cabeça de borracha que remete a Eraserhead e a pinturas que David Lynch expôs na Tilton Gallery em 2012. Vemos algumas figuras conhecidas. O policial Hawk (Michael Horse), de origem indígena, conversa com Margaret, a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson, que fez suas cenas durante tratamento contra o câncer, o qual, infelizmente, veio a vitimá-la em 2015). Enquanto isso, a gangue do primeiro episódio tem uma cena-chave com Darya (Nicole LaLiberte). Não é bom dizer muito desta vez. É estranho. É puro David Lynch. Assim como o design de som, feito por ele mesmo.

Quando assistimos a esses dois episódios, fica claro que Lynch é um artista: ele não está interessado em apenas continuar as duas primeiras temporadas; ele quer reinserir novos elementos a partir dos antigos. O estilo é de uma elegância rara para os meios televisivos, pois é cinema em seu grau mais explorado. As cores, a colocação dos objetos em cena, as atuações – tudo é meticuloso. Os mais de dez anos de afastamento das câmeras não prejudicaram o talento do diretor. Ele também não está interessado, pelo menos ainda, a deixar claro o que está acontecendo – e quando ele esteve? Mesmo a ação da polícia para descobrir o que aconteceu dentro de um apartamento é atrasada pelo surrealismo dos personagens. Tendo seu fotógrafo Peter Deming, o que me deixava mais preocupado era o ritmo da série. Explico: Mary Sweeney, ex-mulher de Lynch e montadora de seus filmes a partir de Coração selvagem, era uma parceira e certamente ajudou a emprestar a agilidade da série original. Aqui, não apenas pelo envelhecimento dos personagens, como pela estranheza geral, não há o mesmo ritmo, mas sim um ainda mais distinto, levando o surrealismo ao limite. Pode-se dizer que nada depois de Império dos sonhos tenha esta escala de originalidade que esses dois episódios possuem. Muitos vão confundir com maneirismos, mas costumam ser os mesmos que não gostam do Lynch mais experimental e consideram o filme de Twin Peaks do cinema uma traição à série. Esta nova série não pode ser entendida sem o espectador ter visto Twin Peaks – Fire walk with me; há referência, inclusive, a Phillip Jeffries, interpretado no filme por David Bowie. Os dois primeiros episódios lembram mais o terror desse filme, com algumas cenas ultraviolentas.

O que se constata aqui é que Lynch e Frost, seu parceiro de criação, querem estabelecer o Black Lodge como explicação para o mal que se comete no universo, e deve ser reparado pela bondade. Fica muito claro aqui o direcionamento que teria tido a série em 1992 se David Lynch não tivesse outros compromissos, tendo dirigido e escrito apenas alguns episódios da segunda temporada. Ou seja, Twin Peaks continua sendo uma série sobre os limites do ser humano e Lynch pretende contar esse retorno em 18 episódios, que ele considera como um filme (talvez o Decálogo desta década). Mas é claro também que quando a história se concentra exatamente na cidade-chave a atmosfera remete aos anos 90, mesmo com a passagem de tempo, principalmente quando mostra Lucy Moran (Kimmy Robertson), Andy (Harry Goaz) e os irmãos Ben (Richard Beymer) e Jerry Horne (David Patrick Kelly) no Greath Northern, estes num diálogo bem-humorado. E o final do segundo episódio evoca Julee Cruise cantando no Bang Bang Bar, desta vez com uma belíssima canção da banda The Chromatics, quando o espectador revê Shelly (Mädchen Amick) e James Hurley (James Marshall). David Lynch – e nunca se disse isso nos últimos 11 anos – está realmente de volta. O cinema (não apenas a TV, okay, Pedro Almodóvar?) agradece. Não duvide: baseando-se nesses episódios de retorno, em termos de cinema, não se verá nada como esta terceira temporada de Twin Peaks neste ano.

Twin Peaks – Episodes 1 & 2, EUA, 2017 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Kimmy Robertson, Richard Beymer, David Patrick Kelly, James Marshall, Matthew Lillard, Madeline Zima, Ben Rosenfield, Cornelia Guest, Michael Horse, Catherine E. Coulson, Harry Goaz, Carel Struycken, Brent Briscoe, Ray Wise Roteiro: David Lynch e Mark Frost Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 111 min. Distribuidora: Showtime

 

Pintura e cinema em David Lynch e Twin Peaks

Por André Dick

O cineasta David Keith Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946 em Missoula, Montana, filho de um cientista, Donald Walton Lynch, que servia o Departamento de Agricultura dos EUA, e de uma professora de inglês, Edwina “Sunny” Lynch. Depois de uma infância com várias mudanças de cidade, Lynch, em 1964, começou seus estudos na School of the Museum of Fine Arts, Boston. Voltando de uma viagem à Europa, foi estudar pintura, em 1965, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia, onde conheceu sua primeira esposa, Peggy Reavey, com quem teve Jennifer Lynch.
Em Lynch, as imagens valem por si e se autoexplicam. Se em Veludo azul e Twin Peaks, elas evocam as pinturas de Edward Hopper, em O homem elefante e Império dos sonhos podemos perceber a influência de Francis Bacon. E a cortina é um elemento-chave, pictórico: para revelar a mulher misteriosa de Eraserhead, ou para servir de pano de fundo às apresentações de Isabela Rossellini, como a cantora Dorothy Vallens, em Veludo azul, de Julee Cruise, em Twin Peaks, e de Rebekha del Rio, em Cidade dos sonhos, por exemplo, no Club Silencio (Lynch, inclusive, projetou um lugar com este nome em Paris, inaugurado em 2011).
Há algumas tomadas de Twin Peaks, sobretudo da parte externa do Double R, quando passam caminhões com toras, que lembram pinturas em movimento de Edward Hopper.

Isso quando não são quase bastante semelhantes: o posto de Big Ed (personagem de Twin Peaks) dialoga diretamente com a pintura “Gas”, de Hopper:

Além disso, entre 1982 e 1983, Lynch fez a história em quadrinhos intitulada O cão mais raivoso do mundo. Numa entrevista ao The Guardian, explica: “I always say Philadelphia, Pennsylvania is my biggest influence. But for painters, I like many, many painters but I love Francis Bacon the most, and Edward Hopper. Both really different, but Edward Hopper makes us all dream, take off from a painting. Magical stuff. And Bacon for a whole bunch of reasons, but those two are big, big, big inspirations”. Vejamos algumas pinturas expostas por Lynch na Tilton Gallery em 2012:

Perguntado por Ana Maria Bahiana (em entrevista intitulada “David Lynch, diretor, roteirista e escoteiro”, Revista SET, ed. 41, nov. 1990) por que faz filmes, David Lynch respondeu: “Bom, eu queria ser pintor e cheguei aos filmes através das pinturas, porque eu queria que as pinturas se mexessem. E eu ouvia pequenos sons vindos da tela, enquanto pintava, daí resolvi fazer filmes, em vez de pintar”.
Especificamente de René Magritte, difícil não perceber que Lil, que vem explicar, por meio de Gordon Cole, o modo como o agente do FBI Chester Desmond deve se comportar na cidade em que investigará o assassinato de Teresa Banks, no filme de Twin Peaks, é uma pintura em movimento de “Le tombeau des lutteurs”.

E a conversa de Chester Desmond e Sam Stanley com Irene no Hap’s Diner Café remete à pintura “Nighthawks”, de Edward Hopper. Como Hopper, Lynch retrata aquilo que era seu objetivo no início da carreira: falar da vida do interior norte-americano e o que se esconde sob ela.

A mãe de Laura, quando acorda à noite, em outro momento do filme, tem uma visão que evoca “The blank shake”, pintura de Magritte, explorando ainda mais o aspecto pictórico da narrativa e sua ligação com a floresta.

Num momento determinante para a história do filme, Laura sonha e entra no quadro dado de presente pelos Tremond, uma avô e seu neto que na série aparecem na agenda de entregas de almoço que a personagem fazia para o Double R. Dentro do quadro, surgem, exatamente, a velhinha Tremond e o neto fazendo um passe de mágica, como se eles representassem uma espécie de subconsciente. Ela, então, encontra o anão do Red Room e o agente Cooper. Depois, ela acorda dentro do sonho e vai até a porta; virando-se para trás, vê sua própria imagem à porta dentro do quadro; em seguida, realmente acorda. Perceba-se que na primeira imagem há o cenário do quarto dela por trás, mas, na última imagem desta sequência, aparece a cortina vermelha do Red Room, do seu sonho. Toda essa parte simboliza uma tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que investigará sua morte – mas sobretudo com a pintura e com os sonhos.

Podemos estabelecer uma relação entre a representação existente na pintura e a realidade da pintura “La condition humaine”, de Magritte, em que a janela é ao mesmo tempo uma pintura:

Em seu quarto, Laura também possui o quadro abaixo:

Em determinado momento do filme, quando sua angústia se acentua, a figura do anjo desaparece (spoiler em seguida). No final, ao fazer reaparecer o anjo – como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, Lynch encerra o filme com uma nota otimista, mostrando o encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

David Lynch é um dos raros cineastas que conseguiram isso: transformar pinturas em filmes.

* Esta é uma síntese do texto que abriu o “Especial David Lynch“, com algumas alterações, publicado em 29 de setembro de 2012.

Twin Peaks – Piloto – Versão europeia (1990)

Por André Dick

Como trama policial e narrativa de suspense, não foi feito ainda nada parecido na TV como Twin Peaks. A história da jovem rainha da escola Laura Palmer (Sheryl Lee), que aparece morta enrolada num plástico, na margem do rio de Twin Peaks, é um pretexto para descobrirmos, como em outras obras de David Lynch, o que acontece por trás de alguns habitantes de uma cidade do interior. A sequência de aviso da morte ao pai de Laura, Leland (Ray Wise), e à mãe, Sarah (Grace Zabriskie), é realizada em tom crescente e melancólico, em razão da música de Angelo Badalamenti, assim como o aviso dado pelo diretor da escola sobre o acontecimento, repercutindo entre os amigos de Laura. A partir daí, conhecemos Bobby Briggs (Dana Aschbrook), namorado de Laura, o motoqueiro James Hurley (James Marshall), amante dela, Donna Hayward (Lara Flynn Boyle), sua amiga, além de Audrey Horne (Sherilyn Fenn), filha de Ben Horne (Richard Beymer), dono do hotel da cidade, o Great Northern.

Designado para a investigação, o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan, em seu melhor papel) parece voltar a uma cidade da infância, dos anos 50, mas onde não há mais inocência, e ganha a parceria do xerife Truman (Michael Ontkean), o qual passa a apresentá-lo aos envolvidos com Laura Palmer. Cooper tenta desvendar o quebra-cabeças, em meio a perguntas sobre os pinheiros que existem na rota para a cidade, explicações para o seu gravador (para a secretária Diane) e interesse por rosquinhas e café preto – que não atenuam o pesadelo do cenário, contrastando com a beleza da paisagem.
Nisso tudo, a atuação do elenco é excepcional. É interessante perceber como Twin Peaks trouxe novos nomes, como Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Mädchen Amick e James Marshall – que apareceriam, mais tarde, em filmes, em maior ou menor escala, mas que ficam marcados por sua participação aqui (sobretudo Sherilyn Fenn, Sheryl Lee e Lara Flynn Boyle).

Toda essa teia de personagens tem várias extensões. A primeira temporada mostra, a partir disso, a perseguição aos principais suspeitos do assassinato de Laura, entre os quais estão também o caminhoneiro Leo (Eric Da Re) e alguns desses personagens referidos. No entanto, particularmente seu piloto (tanto o feito para a TV quanto o feito para a Europa, um pouco mais extenso, com 19 minutos a mais) tem uma condição de cinema como nada na TV, antes e depois. As cores escuras da cidade são trabalhadas em detalhes por Lynch: a perseguição a James Hurley e Donna Hayward no episódio-piloto, por exemplo, ajuda a determinar o clima de tensão da série. Há um misto de seriedade e ironia em cada ação dos personagens, mas o humor é incorporado à ação de cada um, o que não torna nada pesado. Na versão europeia do piloto, vemos, por exemplo, uma sequência estranhíssima com Lucy Moran (Kimmy Robertson) e o policial Andy Brennan (Harry Goaz), que, ao longo da série, nunca seriam vistos em sua casa como aqui, assim como a presença de duas figuras-chave para a explicação da trama.

É interessante porque se trata do piloto, excepcional, acrescido de um tom surreal, matéria-prima do restante da série. É David Lynch em seu grande momento como diretor. De qualquer modo, é o clima (a fotografia de Ron García, que colaborou com Vittorio Storaro em O fundo do coração, a direção de arte, a música de Badalamenti), sobretudo aquele que existe no Double R, a lanchonete em que os personagens se reúnem, que ajuda a constituir boa parte da série.
Twin Peaks atravessa um terreno da realidade para o simbólico e o metafórico, o que acaba afastando muitos espectadores que não conseguem associar o realismo de uma investigação do FBI  com fatos estranhos. Entretanto, não é à toa que, nesse sentido, a série ajudou a antecipar outras de mistério, como Arquivo X. De qualquer modo, o universo de Twin Peaks é muito mais sintético, voltado a uma única cidade e a inter-relação entre seus habitantes, dentro ou fora de uma investigação policial. As tortas e as rosquinhas da delegacia sempre escondem algo muito mais problemático, a ser enfrentado, mesmo que o distúrbio seja de origem desconhecida. Importante reconhecer como o piloto da série já anunciava tanto as características dos capítulos seguintes como ganha mais interesse ainda em razão do filme que se passa justamente antes dele, embora lançado depois.

Há muitos detalhes aqui que seriam reconhecidos no filme feito para o cinema Twin Peaks – Fire walk with me, remetendo a Ronette Pulaski (Phoebe Augustini), por exemplo, ao fato de Bobby Briggs ter se envolvido num problema, junto com Laura, e, principalmente, à relação conflituosa entre Laura, Donna e James Hurley e a Laura trabalhar entregando refeições no Double R. E a versão europeia do piloto traz as imagens do Black Lodge, o quarto vermelho, onde estão Cooper, Laura Palmer e o anão que dança ao som de Angelo Badalamenti deixando pistas (Lynch apreciou tanto essas cenas realizadas para a Europa que resolveu incluí-las no terceiro episódio da série). O filme para o cinema mostra onde tudo começou, com Teresa Banks numa cidade vizinha, e esta personagem também é lembrada aqui pelo agente Cooper. Daí o piloto de Twin Peaks ser praticamente uma continuação (em estilo cinematográfico) realmente de Twin Peaks – Fire walk with me. O mais interessante é que ele foi lançado no Miami Film Festival, em fevereiro de 1990, antes de estrear na BBC. Num momento em que se quer determinar que o “real cinema” só se vê nos cinemas, Twin Peaks é precursor e mostra que a qualidade vem em primeiro lugar.

Twin Peaks, EUA, 1990 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Joan Chen, Piper Laurie, Dana Ashbrook, Mädchen Amick, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Sheryl Lee, James Marshall, Russ Tamblyn, Eric Da Re, Kimmy Roberts, Harry Goaz, Peggy Lipton, Don S. Davis Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ron García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Duração: 113 min.

 

Corra! (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Jordan Peele tem tido uma recepção que lembra a de A bruxa ou The invitation, no ano passado. No entanto, ao contrário desses dois filmes, ele tenta um diálogo interessante com questões envolvendo uma sociedade fundada sobre um preconceito prévio, mesmo que, no caso dos Estados Unidos, Barack Obama tenha sido eleito presidente duas vezes (e afirma-se isso principalmente porque sua figura é lembrada textualmente durante a narrativa). Corra! parece o resultado de um encontro entre um filme de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg.
O fotógrafo afromericano Chris Washington (Daniel Kaluuya) viaja com a namorada branca Rose Armitage (Allison Williams) para conhecer os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra que trabalha com hipnose Missy (Catherine Keener), assim como o irmão Jeremy (Caleb Landry Jones). Eles moram numa casa de campo, com a criada Georgina (Betty Gabriel) e um ajudante braçal, Walter (Marcus Henderson). Chris está inseguro que os pais dela não saibam que ele é um afroamericano e tem como melhor amigo Rodney Williams (LilRel Howery); Rose, por sua vez, não dá importância, pois acredita que seus pais não terão nenhum preconceito.

Depois do primeiro encontro, em que tudo se passa bem, apesar de algumas conversas enviesadas, Missy (numa brilhante atuação de Keener) se oferece, à noite, para hipnotizar Chris, a fim de que ele consiga parar de fumar; o jovem acorda no dia seguinte como se tudo não tivesse passado de um sonho, envolvendo também sua mãe. Este é o ponto de partida para uma história bastante original. Chris não entende, sobretudo, por que os personagens com que se depara agem de maneira estranha. No entanto, a sua namorada é uma figura que mantém sua posição de não desconfiar do que está ocorrendo, e ela, sem dúvida, é muito bem desenhada pelo roteiro, pois indica toda a sensibilidade que parece faltar às demais pessoas, a começar por uma festa na casa de campo.
Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, já arrecadou 214. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Kelly se revela a principal influência de Peele, seguido por John Carpenter, Nicolas Winding Refn e David Cronenberg, aquele de Videodrome, pelo indie atmosférico de Ryan Gosling, Rio perdido, e pelo suspense Corrente do mal. Desse último, é extraída a qualidade do que se mostra como ponto de movimento ao fundo e sobretudo alguns sustos provocados por situações corriqueiras, que não representam ameaça alguma. Peele consegue lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parece saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remete a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dá a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera, e será lamentável se quiserem transformar esta peça no início de uma nova franquia.
Ele possui, além de tudo, um senso de estética muito forte, com auxílio da bela fotografia de Toby Oliver, trabalhando o jogo de luzes e sombras de maneira afiada, além de um jogo elaborado de plasticidade que lembra Sob a pele. Todo o elenco está em grande momento, com destaque para Kaluuya e uma convincente Williams, mostrando que Peele tem um domínio sobre o elenco. E há os sustos: Corra! rivaliza, até agora, com Vida como um dos filmes deste ano que realmente mais amedrontam o espectador e o colocam em uma posição permanente de insegurança, na maneira com que é filmado e nas situações verossímeis que vão se configurando.

Há certas referências a Tarantino e Amargo pesadelo, porém Peele conduz tudo como uma obra realmente original. Ele, inclusive, não se sente tão pretensioso como seu marketing sugere, querendo indicá-lo como uma obra-prima. Sob um ponto de vista mais metafórico, no qual trabalha em muitos momentos, pode-se indicar que ele está representando um certo domínio de uns em relação aos outros, mesmo por meio de seus ambientes (a sala de estar, depois um quarto no piso inferior), além de uma comunidade toda reunida com o objetivo talvez de manter as coisas como estão, ou, na opinião dela, sempre esteve. Em certos momentos, Corra! pode até ser visto como uma sátira, no entanto Peele parece saber exatamente que é neste limite que seu trabalho se dá do melhor modo: não está levando tão a sério o que mostra e isso concede a seu trabalho um insuspeito talento de concretizar uma ideia que normalmente estaria equivocada desde o início.

Get out, EUA, 2017 Direção: Jordan Peele Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, LilRel Howery, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Toby Oliver Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick Duração: 104 min. Estúdio: Blumhouse Productions / QC Entertainment

Twin Peaks no Festival de Cannes

Por André Dick

Twin Peaks.David Lynch.Filme

Nesta semana inicia o 70º Festival de Cannes, onde serão exibidos os dois primeiros episódios da terceira temporada de Twin Peaks, o acontecimento cinematográfico do ano que, talvez de forma estranha, se dará na TV (por meio do canal Showtime). O cineasta David Lynch teve, a partir da década de 90, mais reconhecimento na Europa do que nos Estados Unidos, e isso se deve sobretudo a Cannes. Coração selvagem foi seu primeiro filme exibido no Festival, no mesmo período em que o diretor fazia sucesso na televisão com Twin Peaks. Competindo com Coração de caçador, de Clint Eastwood, Nouvelle Vague, de Jean-Luc Godard, Cyrano de Bergerac, de Jean-Paul Rappeneau, Bem-vindos ao paraíso, de Alan Parker, e Estamos todos bem, de Giuseppe Tornatore, entre outros, Coração selvagem recebeu a Palma de Ouro principal. Neste filme (crítica completa aqui), mais do que em outros, Lynch tenta criar uma ligação com a cultura pop, mas, como em Veludo azul, na procura por um certo interior norte-americano. Para ele, as figuras perdida pela estrada – e elas são muitas em Coração selvagem – são estranhas e ajudam a definir a realidade para o casal Sailor (Nicolas Cage) e Lula (Laura Dern).
Se em 1999, Lynch voltou ao Festival de Cannes com o sensível História real (crítica completa aqui), que foi comprado pela Walt Disney para distribuição mundial, em 2001 ele recebeu a Palma de Ouro de melhor diretor com Cidade dos sonhos (crítica completa aqui), dividindo a cena com os irmãos Coen, por O homem que não estava lá. O prêmio de melhor filme foi para O quarto do filho, de Nano Moretti, e estavam na mostra competitiva A pianista, de Michael Haneke, Vou para casa, de Manoel de Oliveira, Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, e o desenho animado Shreck.

No entanto, o filme que rendeu mais polêmica da trajetória de Lynch foi exatamente a adaptação para o cinema de Twin Peaks, exibido na mostra competiva de Cannes em 1992. Tarantino, que estreava por lá com seu Cães de aluguel, saiu da sessão desapontado, dizendo que nunca mais veria um filme do diretor, do qual se dizia fã. Pedro Almodóvar – um dos integrantes do júri, que tinha como presidente Gérard Depardieu –, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.
Twin Peaks – Fire walk with me figurou ao lado de filmes que acabaram se tornando referências, como O jogador, de Robert Altman, Instinto selvagem, de Paul Verhoeven, Retorno a Howards End, de James Ivory, O fim de um longo dia, de Terence Davies, e Simples desejo, de Hal Hartley. Quem venceu foi As melhores intenções, de Bille August, que já havia recebido a Palma pelo ótimo Pelle – O conquistador.
É a melhor obra de Lynch e aquela que antecipa seus filmes mais recentes (como A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), sendo menos hermético do que todos eles. É, no entanto, o cineasta em estado bruto, uma paranoia visual em vermelho, com contrastes de verde, amarelo e azul.

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Laura Palmer é o foco deste filme, ao contrário da série, em que havia inúmeros personagens, e talvez esta seja a principal distância que o filme mantém da série (já que a fotografia de Ron García e a música arrebatadora de Angelo Badalamenti continuam iguais, senão melhores). Não há o hotel Great Northern, ou seja, não há também cenas de humor ou de encontros de estrangeiros pelos corredores do hotel; os conflitos da madeireira, os discursos estranhos do prefeito, também não vemos os relacionamentos amorosos do xerife e do dono do hotel ou as inúmeras passagens na lanchonete, onde aconteciam alguns dos momentos mais divertidos da série; nem tanta presença de Dale Cooper, cujo bom humor certamente mantinha boa parte da série; ou seja, de certo modo, é outra coisa.
Todavia, o clima da série está todo lá, com a inserção de jovens que tentam lidar com a proximidade de Laura com a morte (Bobby e James, seus amantes), o homem perturbado que guarda o diário de Laura (e que na série mora ao lado dos Tremond, suicidando-se em sua estufa); o cafetão Jaques Renault; a misteriosa casa de Laura Palmer; a dança do anão e a sala vermelha; os semáforos noturnos impedindo a passagem ou não dos motoqueiros; e mais: há um plano em negativo que conduz a outro universo, desencadeando um universo bom. O universo do filme se reduz especificamente à trajetória de Laura, à sua solidão; por isso, para uma série tão expansiva, cheia de personagens, fica um vazio, mas é o vazio a ser completado com a história dela, para que entendamos o que vem depois. Desse modo, o filme se sustenta sozinho, também pela qualidade da narrativa e a direção excepcionalmente concentrada de Lynch, mesmo que cenas extras com alguns dos personagens da série tenham sido cortadas e lançadas apenas num Blu-ray em 2014, chamado As peças que faltam (crítica completa aqui).

É importante dizer que o cineasta transforma vários símbolos (o anão, Bob, Mike) em figuras importantes para tentar esclarecer este filme. O sangue, ao final, transformando-se em cereal de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o cereal.
É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a Senhora do Tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. A cena em que Laura e Bobby recebem drogas no meio do bosque representa esse prenúncio de perigo. Laura vê as árvores, a floresta, como uma representação deste subterfúgio e de seu desaparecimento.
Do mesmo modo, entrar num quadro ou num sonho pode ser um perigo iminente em um universo onde se busca os amigos para fugir de casa, do sonho de vida. Lynch quer desenhar esta pintura, porém não especifica as cores, deixando que façamos a própria mistura.
E, ao fazer reaparecer o anjo que some num quadro de Laura Palmer – com o qual ela sonha, como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, ao final, Lynch encerra a série e o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

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Mas há, antes de tudo, o prólogo do filme. Depois da abordagem surreal a um ônibus escolar de Fargo pelo FBI, ele mostra a investigação de Chester Desmond (Chris Isaak), que, ao contrário do agente Cooper, prefere códigos por meio de Lil, vestida de vermelho, e Sam Stanley (Kiefer Sutherland), do assassinato de Teresa Banks, que antecede o de Laura Palmer, na série de TV. Depois de uma estranha passagem pela delegacia de Deer Meadow, onde aconteceu o crime, eles vão a uma lanchonete, Hap’s Diner, em frente da qual há a imagem de um palhaço em neon chorando, entrevistam a antiga chefe de Teresa, e no dia seguinte encontram o dono de um campo de trailers, Carl Rodd, feito por Harry Dean Stanton, com um curativo que não consegue cobrir totalmente o sangue na testa, quando são visitados por uma senhora quase anã, que cobre um dos olhos com um pedaço de pano. Em seguida, temos cenas de sonho e uma aparição surpreendente de David Bowie em meio a chuviscos de TV. Há mais: postes habitados por sons indígenas, um anel embaixo de um trailer que pode ser uma passagem para um universo paralelo e uma atmosfera que impressiona. Trata-se da meia hora mais estranha da trajetória de David Lynch e o definidor de que o filme para o cinema de Twin Peaks é uma obra-prima. Coração selvagem é um ótimo filme, mas é Twin Peaks – Fire walk with me (crítica completa aqui) que merecia a Palma de Ouro.

Personal shopper (2016)

Por André Dick

Uma das lendas propagadas por determinada crítica é de que Kristen Stewart se transformou numa boa atriz apenas quando iniciou sua parceria com Olivier Assayas em Acima das nuvens, justamente porque foi a primeira atriz norte-americana a receber o César, o Oscar do cinema francês. Pode-se lembrar, inclusive, das piadas feitas com ela numa cerimônia do Oscar, numa época em que poucos a consideravam como atriz. Outra lenda é de que ela se transformou numa atriz realmente após a série Crepúsculo. São avaliações equivocadas de quem certamente não assistiu a suas atuações em O quarto do pânico, Na natureza selvagemO silêncio de Melinda, feitos antes de Crepúsculo (série na qual tem a mesma base de interpretação, apenas com um roteiro de apelo mais pop), e em The Runaways, O lenço amarelo, Adventureland, Na estradaAmerican Ultra e Café Society, feitos ao mesmo tempo que ou após a série, nos quais apresenta atuações destacadas e de uma atriz que procura caminhos diferentes, embora mantenha um determinado estilo. Diante disso, a constatação é a seguinte: Stewart só teve seu talento valorizado quando destacada pelos franceses, igual a outros artistas desde o século passado.

Em Personal shopper, ela interpreta Maureen Cartwright, que perdeu o irmão gêmeo Lewis e tenta se conectar com ele por meio da mediunidade, elemento que ele também possuía. Ela trabalha exatamente como “personal shopper”, escolhendo roupas para uma celebridade, Kyra (Nora von Waldstätten), cujo namorado é Ingo (Lars Eidinger). O filme de Assayas mostra ela entre a tentativa de contactar o irmão, mas é muito mais sobre a falta de diálogo entre as pessoas vivas. Há um casal de amigos (Audrey Bonnet e Pascal Rambert), interessado em comprar a casa onde ela e Lewis viviam, mas Maureen quer primeiro reencontrar, de algum modo, o irmão. Essa tentativa de voltar à casa onde se morou retoma certamente um dos temas de Assayas em Horas de verão, sobre o reencontro de uma família, e as folhas amarelas de outono que caem na sacada do lugar representam essa mudança existencial.
Situado entre Paris e Londres, Personal shopper tem uma atmosfera muito interessante – uma mistura entre arthouse e obra sobre paranormalidade – e, além da belíssima fotografia de Yorick Le Saux, apresenta uma das melhores atuações de Stewart, atriz que certamente acrescentou a seu repertório um traço de atriz europeia, bem mais arriscado daquele a que o espectador está acostumado. É uma atuação comovente até determinado ponto, pois é sua busca pelo irmão a todo custo e contra qualquer vestígio material, mesmo tentando se manter ligada à ex-namorada dele, Lara (Sigrid Bouaziz).

Vaiado no Festival de Cannes de 2016, onde foi lançado e no qual recebeu o prêmio de melhor diretor (dividido com Cristian Mungiu, do excelente Graduation), Personal shopper talvez seja o filme mais estranho de Assayas. Ele está a todo momento contrapondo mundo material (roupas, joias) ao mundo espiritual (que se reflete em luzes e sombras, principalmente quando Maureen passa a noite numa casa vazia a fim de ver se recebe algum sinal do irmão), assim como usa smartphones e computadores como um meio de estabelecer relações com aqueles que existem (mas também inexistem), a exemplo de seu namorado Gary (Ty Olwin), que trabalha no Oriente Médio, ou não estão presentes e surgem a princípio como curiosidades para se transformarem em stalkers (as conversas durante uma viagem dela a Londres por meio de celular são especialmente bem feitas, utilizadas de maneira realmente funcional como no drama Homens, mulheres e filhos). A relação de Maureen com Kyra é tão fantasmagórica quanto qualquer matéria intangível: ao ser um manequim vivo da celebridade, Maureen vive de reflexos e de uma existência ao mesmo tempo vazia de vínculos. Ela se divide entre um ar resignado e sofrido (da mesma maneira que se apresenta no recente A longa caminhada de Billy Lynn) e procurando uma sexualidade que visualiza em Kyra.

O momento mais contundente neste sentido é quando ela resolve experimentar as roupas de Maureen no apartamento dela: é um diálogo com a tentativa de viver realmente como outra pessoa, embora seu drama pessoal seja não encontrar mais seu irmão. Com toques de suspense e assustador em determinadas sequências, Personal shopper tem características do melhor Assayas, aquele de Boarding gate, que também trazia a imagem de uma mulher solitária num universo do crime, e de Clean, sobre uma junkie que tem uma banda de rock com o marido e, depois de determinado acontecimento, encontra-se solitária. A obra de Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Personal shopper, FRA, 2016 Diretor: Olivier Assayas Elenco: Kristen Stewart, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Pascal Rambert, Lars Eidinger, Nora von Waldstätten, Ty Olwin, Audrey Bonnet Roteiro: Olivier Assayas Fotografia: Yorick Le Saux Produção: Charles Gillibert Duração: 105 min. Estúdio: arte France Cinéma / CG Cinéma / Detailfilm / Poisson Rouge Pictures / Scope Pictures / Sirena Film / Vortex Sutra

Guardiões da galáxia Vol. 2 (2017)

Por André Dick

A equipe da série de ficção científica com grande dose de humor retorna em Guardiões da galáxia Vol. 2, mais uma vez dirigido por James Gunn. A volta era previsível, principalmente pela recepção do original junto ao espectador e uma arrecadação de mais de 700 milhões nas bilheterias, uma surpresa, que antecedeu a de Deadpool pelo pouco conhecimento do público em relação aos personagens dos quadrinhos. E ainda mais surpreendente era que Gunn, autor dos roteiros de duas adaptações para o cinema de Scoby-Doo e da refilmagem de Madrugada dos mortos, havia se destacado na direção à frente apenas de Seres rastejantes e Super.
Na equipe, estão novamente Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), formando os Guardiões da galáxia. A Alta Sacerdotisa Ayesha (Elizabeth Debicki), da raça dos Soberanos, os convoca para proteger baterias de grande valor de um monstro ameaçador, chamado Abilisky, em troca da irmã de Gamora, Nebula (Karen Gillan), que estava tentando roubá-las. Esta sequência, que acontece ao som de “Mr. Blue Sky”, da Electric Light Orchestra, é realmente um dos acertos do universo Marvel: além da mescla entre som e imagens, há uma composição refinada dos ângulos do planeta que remetem ao início de Duna, de David Lynch.

Por causa da atitude de um dos guardiões, a Soberana ataca a nave deles com inúmeros drones, quando surge a figura de Ego (Kurt Russell), o pai de Quill, acompanhado de Mantis (Pom Klementieff). Enquanto isso, Ayesha contrata Yondu Udonta (Michael Rooker), o pai adotivo de Quill, para perseguir os Guardiões. É neste momento que Gunn desvia do humor habitual do primeiro, apesar de manter a trilha sonora, para mostrar algumas das cenas mais fortes do universo Marvel.
Ao contrário do primeiro filme, Guardiões da galáxia Vol. 2 tem uma tentativa de abordar uma relação significativa entre o que seria a origem de Quill e a amizade com seus companheiros. Se no primeiro a ligação era com a mãe, desta vez é com o pai, e Kurt Russell entrega um personagem ambíguo na medida certa, num traço de composição em que ele vem se especializando, desde Os oito odiados. O humor, usado em larga escala no primeiro, está presente, mas de maneira mais contida, principalmente por meio do Groot, a melhor participação da narrativa. É possível vislumbrar uma centelha mais dramática em Chris Pratt, assim como em Michael Rooker, embora Zoe Saldana novamente não ganhe o espaço necessário. Bautista novamente tem boa atuação como Drax, principalmente na sua ligação com Mantis, muito bem interpretada por Klementieff. Não temos aqui as presenças de Josh Brolin (Thanos), Glenn Close (Irani Rael/Nova Prime), John C. Reilly (Rhomann Dey) e Benicio Del Toro (Taneleer Tivan), que de certo modo enriqueciam o elenco original, mas as ausências são supridas não apenas pelas atuações do elenco central como pelos coadjuvantes e pela aparição de Sylvester Stallone.

Como no primeiro, há um padrão interessante de humor despertado por Gunn por meio de seus personagens, com um ritmo quase de animação mas sem se perder na caricatura e sim inserindo os personagens numa ação quase sempre surpreendente – no comportamento do Groot, por exemplo, quando ele precisa ativar uma bomba, embora seus olhos digam o contrário sobre essa atitude extrema diante de uma ameaça. Não apenas por meio de Quill, é visível que Gunn tenta inserir um caráter mais dramático na sua narrativa, principalmente nas expressões de Rocket e do Groot sendo, em determinado momento, colocado numa situação complicada, ou de Gamora e Nebula, sempre inseridas num conflito não solucionado. Há, inclusive, diálogos com uma conotação mais adulta do que o primeiro, de Drax e Quill em relação a Mantis. A mescla resulta interessante não apenas pela interação de elenco, como pelos bons diálogos de Gunn.
Além disso, ainda mais do que o primeiro, a direção de arte de Guardiões da galáxia Vol. 2 é um triunfo, até mesmo de simplicidade, com o design das naves feitos com uma mistura entre CGI e uma estranha coloração humana, aqui se destacando o amarelo fabuloso da raça dos Soberanos. E uma influência visível do Flash Gordon oitentista produzido por Dino de Laurentiis, mas, ainda mais, um cuidado visível com a ambientação fantástica, auxiliada pela fotografia de Henry Braham (A lenda de Tarzan).

O planeta em que a nave dos guardiões cai evoca também Endor de O retorno de Jedi e Pandora de Avatar, e Gunn desenha uma sequência ultraviolenta de maneira sintética apenas com o uso da trilha sonora. Percebe-se o cuidado que o diretor possui em relação aos cenários e à maneira como seus personagens interagem com eles. Como no primeiro, há uma certa profusão de CGI e uma competência técnica que às vezes se sobressai à emoção, mas ainda assim o salto do primeiro para o último ato é interessante.
Se o primeiro lidava com o conhecimento entre si dessa equipe, Gunn parece tentar neste segundo o conhecimento do que leva cada um a se sentir feliz junto uns dos outros. Isso não ocorre sem uma certa amargura e um punhado de decepção no que se refere ao passado. Isso é o que torna este segundo mais diferente do primeiro: mesmo sua trilha sonora mais desconhecida, embora muito boa, contribui para um afastamento do apelo mais pop do original, em que passos de dança podiam significar também um duelo para salvar o universo. Os personagens parecem estar em busca de uma explicação para o que mesmo fazem, e esta explicação pode estar dentro deles mesmos. Aparentemente, esta abordagem poderia ser melhor explorada em alguns momentos, mas mesmo assim se sobressem aqueles mais íntimos da trama, quase ausentes no original. Isso torna Guardiões da galáxia Vol. 2 surpreendentemente emotivo.

Guardians of the galaxy Vol. 2 Diretor: James Gunn Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Kurt Russell, Sylvester Stallone, Sean Gunn Roteiro: James Gunn Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Studios

 

Paterson (2016)

Por André Dick

Esta nova experiência de Jim Jarmusch na direção vem na sequência de seu filme cult de vampiros, Amantes eternos. Desta vez, o criador de obras singulares como Estranhos no paraíso, Daunbailó, Dead man e Flores partidas mostra a trajetória de Paterson (Adam Driver), motorista de ônibus da cidade de New Jersey com o mesmo nome seu. Ele escreve versos num caderno secreto e é ainda admirador especial de William Carlos Williams, que nasceu na cidade, trabalhou como médico e escreveu o longo poema intitulado Paterson.
Quando chega em casa, o poeta-motorista sempre leva o buldogue da sua amada Laura (Golshifteh Farahani), chamado Marvin, para passear. No trajeto, ele descansa num bar cujo proprietário é Doc (Barry Shabaka Henley), fã de Lou Costello, onde também conhece alguns outros frequentadores, inclusive o ator Everett (William Jackson Harper), que tenta reconquistar a ex-namorada, Marie (Chasten Harmon), evocando algo de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Também se depara, em alguns passeios, com um rapper (Cliff Smith, também conhecido como Method Man) e uma jovem poeta (Sterling Jerins), que lhe pergunta se gosta de Emily Dickinson depois de ler um poema no qual faz uma analogia entre a chuva e os cabelos de uma jovem.

Para quem não gosta de narrativas lentas, Paterson, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado, se torna especialmente difícil, mas Jarmusch consegue ser tão humano e sensível que se torna difícil não aceitar que é um dos maiores acertos de sua filmografia já rica. Há algo de estranho na relação entre Paterson e Laura: ela é uma sonhadora, que deseja seguir carreira de cantora country, mas, ao mesmo tempo, quem o prende à realidade. Querendo fazer também cupcakes, ela se transforma na referência dele para os horários marcados do cotidiano: seu interesse pela decoração da casa é um complemento a isso – e a atuação excepcional de Golshifteh Farahani, também música na vida real, colabora definitivamente para o andamento da narrativa.
Paterson retrata como as revelações do cotidiano, as simples perguntas feitas (“Como vai?”), as aspirações divididas, um encontro para jantar ou no cinema e a tentativa de descobrir por que a caixa de correio se encontra da mesma maneira todos os dias constituem um universo poético. Do mesmo modo, o personagem central se interessa em ouvir as conversas de seus passageiros: em determinado momento, aparecem Kara Hayward e Jared Gilman, o casal de Moonrise Kingdom. Neste filme de Wes Anderson, seus personagens tratavam de poesia e de rimas, o que acontece aqui quando Paterson dialoga com a menina que escreve versos em um livreto.

A maneira como o diretor mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach (sobretudo em relação à performance falha em Enquanto somos jovens): fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.
Aliado a essa simplicidade do personagem, Jarmusch trabalha de maneira interessante a ambientação do filme, seja nos locais por onde Paterson passa com seu ônibus quanto pelo bar que frequenta, com uma fotografia delicada de Frederick Elmes, colaborador de David Lynch em Veludo azul e Coração selvagem, por exemplo, assim como de Jarmusch, em Uma noite sobre a terra e Flores partidas.

Além disso, quando caminha por ruas vazias, sente-se a solidão do personagem: não tendo com quem falar sobre poesia, ele apenas tenta vivenciá-la por meio da experiência com os outros. Esta é uma característica pouco presente não apenas no cinema norte-americano, como também europeu: Paterson não se sente de nenhum lugar, sendo quase de um gênero à parte, indefinido. Tão interessante que acaba criando suspense sobre a possível publicação dos poemas do motorista de ônibus. Laura insiste que ele deve fazer uma cópia para que outros possam conhecer o que realiza.
É muito difícil haver um filme que não busca desvios na trama ou grandes acontecimentos para simplesmente acontecer diante dos olhos do espectador. Sempre foi uma característica de Jarmusch extrair momentos interessantes do lugar-comum, especialmente nos seus filmes dos anos 80, no “faroeste” Dead man, em que Johnny Depp fazia uma espécie de fantasma de um caubói, e em Flores partidas, mas talvez porque esteja mais amadurecido nunca as passagens que pareceriam tão modestas para o olhar do espectador se tornam tão intensas. No filme anterior a este, Amantes eternos, uma relação era estabelecida por séculos e as citações literárias se proliferavam, mas o resultado não era, na prática, tão interessante. Além disso, em alguns outros filmes Jarmusch estava mais interessado no tema da globalização, como em Os limites do controle e Trem mistério, o que o fazia perder por vezes o foco em que se sai melhor: o de pessoas que parecem pertencer a um bairro comum e universal. Paterson representa bem a temporada de filmes indicados para o Oscar em 2017 ou que fizeram campanha (como ele): notáveis, em qualidade de direção, elenco e roteiro. É um verdadeiro manifesto em prol da afetividade e do amor.

Paterson, EUA/FRA, 2016 Diretor: Jim Jarmusch Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Method Man, Jared Gilman, Kara Hayward Roteiro: Jim Jarmusch Fotografia: Frederick Elmes Produção: Carter Logan, Joshua Astrachan Duração: 113 min. Estúdio: Amazon Studios / Animal Kingdom / K5 Film

 

Castelo de areia (2017)

Por André Dick

Depois de Guerra ao terror (mesmo que ele seja antecedido por Soldado anônimo), de Kathryn Bigelow, os filmes sobre a guerra no Iraque se tornaram cada vez mais comuns. Em Zona verde, Paul Greengrass tentou emular o estilo de Bigelow, que atingiu uma bela variação no excepcional A hora mais escura, assim como Clint Eastwood em Sniper americano. Eis que este ano, no projeto Castelo de areia, de Fernando Coimbra, distribuído pela Netflix, a Guerra do Iraque passa a ser um tema repetitivo e a abordagem feita aqui, segundo parte da crítica, é genérica.
Há três anos, Coimbra estreou à frente da direção com o superestimado O lobo atrás da porta, um thriller urbano com problemas de estrutura e, apesar do bom elenco, um tanto repetitivo. Castelo de areia, em que o diretor parte para um gênero completamente diferente, mostra a trajetória do soldado, Matt Ocre (Nicholas Hoult), que vai para o Iraque a fim de custear a sua universidade.

Depois do 11 de setembro, as tropas invadem palácios do governo (algumas cenas lembram Três reis) e, mais adiante, sob o comando do sargento Baker (Logan Marshall-Green), ele e alguns companheiros vão parar numa aldeia perigosa, Baquba, onde se encontra o capitão Syverson (Henry Cavill) e onde é preciso ajudar a população a ter água novamente, depois da destruição imposta pela invasão norte-americana. De todos, Ocre é o que mais não gostaria de estar ali – ele mesmo machucou sua mão a fim de ser dispensado –, e Castelo de areia mostra justamente seu verdadeiro ingresso na falta de sentido que constitui uma guerra. Eles são enviados ao lugar pelo sargento MacGregor (Tommy Flanagan) e pelo tenente Anthony (Sam Spruell), mas é o sargento Baker que prepara Ocre e seus companheiros, Chutsky (Glen Powell, em mais uma ótima atuação depois de Jovens, loucos e mais rebeldes!!), Enzo (Neil Brown Jr.) e Burton (Beau Knapp).
É estranho que Castelo de areia esteja sendo visto como um genérico, quando, a partir da figura humana de Ocre, numa atuação excepcional de Hoult, retrata mais os bastidores da guerra do que dela em si, sem nenhuma pretensão de ser revolucionário, e ainda assim entregando momentos de alta tensão, com embates verdadeiramente ameaçadores, no melhor estilo quase inventado por Bigelow. A ameaça dele surge de situações aparentemente tranquilas.

A fotografia de Ben Richardson (que já realizou belos trabalhos em A culpa é das estrelas e Indomável sonhadora) capta a paisagem iraquiana de modo desolada, mas é Coimbra que consegue desenvolver, em meio a ela, uma relação interessante entre os personagens. Não há também a presença de uma visão patriótica sobre os Estados Unidos: eles ingressam no Iraque a fim de instituir uma liberdade, entretanto o filme mostra que ajudou a constituir também, como se sabe, várias milícias que não apenas confrontavam os soldados norte-americanos como tentavam impedir qualquer maneira de se reerguer o que foi destruído, numa confusão completa entre habitantes e estrangeiros. O próprio símbolo do caminhão transportando água por um deserto, a fim de manter viva uma comunidade, é incomum, se levarmos em conta que estamos em uma guerra na qual não há diálogos evidentes.
O que mais chama atenção é o crescimento em pouco tempo como diretor de Fernando Coimbra. Seu trabalho de estreia se mostrava dotado de estilo, mas pouca substância: desta vez, estilo e substância se encontram, além de uma discrição na abordagem de um jovem que não queria estar na guerra, porém, finalmente, vê nela ideais de companheirismo que procura, no que dialoga bastante com A longa caminhada de Billy Lynn, filme mais recente de Ang Lee. Lá, Billy Lynn estava em dúvida justamente sobre seu papel na guerra, se deveria voltar a ela depois de estar em casa sendo homenageado por um gesto de batalha. Ocre trabalha no mesmo plano de insegurança e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento pessoal.

Há uma eficiência na transição de cenas e na parte técnica irretocável e, além da atuação de Hoult, Marshall-Green também tem outro desempenho ótimo, depois de encarnar um dos amantes de Madame Bovary, e Cavill, o atual Superman, se revela bem com certo bom humor. É uma pena que seu personagem não seja suficientemente desenvolvido. O roteiro de Chris Roessner, que participou da Guerra do Iraque, traz também uma boa ligação entre os personagens, sobretudo quando Ocre tem contato com o diretor de um colégio da região, Kadeer (Navid Negahban), mostrando menos maniqueísmo no tratamento de figuras iraquianas do que uma produção média de Hollywood, fazendo de Castelo de areia uma peça bastante especial do gênero. Ocre tem um comportamento autêntico de um jovem no campo de batalha: ele não quer ser Patton, um estrategista a fim de ganhar as batalhas mais improváveis, e sim sobreviver às ameaças que surgem, assim como proteger seus companheiros e permitir que se reconstrua uma parte do que foi destruído. Não se trata de enaltecer tropas norte-americanas e sim de reconhecer como a guerra apenas atrasa a verdadeira construção de qualquer país. Enxergar em Castelo de areia uma ode às tropas dos Estados Unidos contraria exatamente tudo o que o filme mostra ou deixa muitas vezes subentendido, reconhecendo a inteligência do espectador.

Sand castle, ING, 2017 Diretor: Fernando Coimbra Elenco: Nicholas Hoult, Henry Cavill, Logan Marshall-Green, Tommy Flanagan, Glen Powell, Beau Knapp, Neil Brown Jr. Roteiro: Chris Roessner Fotografia: Ben Richardson Trilha Sonora: Adam Peters Duração: 113 min. Produção: Mark Gordon, Justin Nappi, Ben Pugh Estúdio: 42, Treehouse Pictures Distribuidora: Netflix

Vida (2017)

Por André Dick

Qualquer filme situado no espaço sideral com uma ameaça iminente de um ser indefinido remete a Alien, o clássico de Ridley Scott. A obra de Scott foi tão definidora para o gênero que todas que tentam repeti-la – inclusive o diretor, em Prometheus – são criticadas, com exceção de John Carpenter em O enigma de outro mundo, embora baseado numa ficção dos anos 50 e localizado numa estação da Antártida. Quando se trata de um filme que inicia uma sequência sem cortes mostrando astronautas em uma estação espacial, uma homenagem a Emmanuel Lubezki, pode-se perceber que a outra influência é mais clara ainda: Gravidade, de Alfonso Cuarón. Esses dois elementos se reúnem em Vida, dirigido pelo sueco de ascendência chilena Daniel Espinosa. E apenas essa mescla serviu para que a crítica em geral demitisse o filme ou o classificasse como sem nenhuma qualidade à vista. Embora não haja como fugir à comparação, não há por que destituí-lo de qualidades por causa justamente disso.
Seu roteiro mostra inicialmente a rotina de seis membros da Estação Espacial Internacional: o diretor médico David Jordan (Jake Gyllenhaal); a oficial britânica Miranda North (Rebecca Ferguson); o engenheiro de sistemas Rory Adams (Ryan Reynolds); o piloto japonês Sho Murakami (Hiroyuki Sanada); o biólogo britânico Hugh Derry (Ariyon Bake); e a comandante russa Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya).

Essa equipe multiétnica aguarda uma sonda que volta de Marte com uma pequena amostra do solo capaz de trazer alguma evidência de que há vida no planeta vermelho. Estudada por Hugh, ela logo se torna um organismo complexo, embora mais parecido com uma folha de planta em movimento saída de alguma animação da Pixar, e recebe o apelido de “Calvin”. Pode-se perceber o diálogo com outro biólogo que habitou o planeta, justamente o personagem de Matt Damon em Perdido em Marte. Por sua vez, Reynolds, que trabalhou com o diretor em Protegendo o inimigo, ao lado de Denzel Washington, mostra uma composição dramática eficiente que faz lembrar um de seus melhores momentos como ator, em À procura, e Gyllenhaal, dentro do que se propõe, entrega a ênfase necessária para seu personagem. No entanto, de todos no elenco, são Rebecca Ferguson e Ariyon Bake que mostram a sensação própria que caracteriza a obra de Espinosa: esta parece uma cápsula congelada na qual o espectador adentra com certa resistência.
O que aproxima Vida ainda mais é o fato de que o filme não se passa num futuro longínquo e sim com matéria atual, em que os personagens veem a Terra da estação sideral e querem trazer para a ciência a descoberta de algo novo: eles não estão em busca de minério, como a nave de Alien, e sim à espera do que anuncia Marte (cada vez mais em voga). Junto a essa visão de uma equipe com pessoas de vários países, Vida se sente mais realista do que uma ficção científica concebida para fugir ao gênero: o que vai acontecendo surge com o choque de partir de elementos reais ou que tentam se aproximar mais da realidade. Como no projeto de Cuarón, esses homens e mulheres podem estar em qualquer estação espacial fora da Terra.

Com uma fotografia excepcional de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright, e uma trilha imponente de Jon Ekstrand, Vida poderia ser apenas mais um genérico. No entanto, em seus elementos de produção, ele não fica nada a dever aos melhores filmes de ficção científica. A direção de arte de Steven Lawrence (Rogue One e Batman – O cavaleiro das trevas) e e os efeitos visuais são excepcionais, principalmente quando mostra os personagens fora da estação ou percorrendo seus túneis. Mais: se Espinosa não traz questionamentos existenciais, o seu suspense não fica a dever para os melhores de seu gênero, principalmente no sentido de criar sustos. O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, parceiros também em Deadpool e Zumbilândia, mescla um senso de espaço e de desespero depois de meia hora que poucas vezes se vê em filmes ambientados no espaço, mesmo porque quase inexistem. Se há algum problema se encontra no prólogo dado aos personagens antes de desencadear a situação-chave, nunca devidamente interessante: o espectador é apresentado muito rapidamente a cada personagem, vendo suas características básicas, embora mesmo assim nos interessemos por cada um deles, por causa das atuações, muitas delas minimalistas dentro do contexto em que são oferecidas, mas verossímeis, com envolvimento em cada cena.

Ao mesmo tempo, Vida causa um desconforto não apenas em relação ao isolamento dessas figuras no espaço quanto a real claustrofobia de se encontrar numa situação bastante inesperada. O diretor utiliza o capacete dos astronautas para acentuar esse ambiente sufocante com extrema eficácia. Isso é visto poucas vezes no cinema de maneira tão clara – a última vez foi exatamente em Gravidade. Se no filme de Cuarón a saudade da astronauta feita por Sandra Bullock era da Terra, aqui se pensa em apenas uma coisa: em evitar que qualquer ameaça de fora chegue ao planeta. Essa batalha é travada com diálogos suficientemente angustiantes para dar à história um tom de perplexidade. Que o baixo orçamento desse filme (58 milhões), um pouco mais do que metade daquele de Gravidade, mais do que visíveis na tela, tenha retornado tão pouco em termos de bilheteria até agora (68 milhões), é de se lamentar. Vida é um exemplar que se insere num padrão esperado e ainda assim consegue ser mais do que eficiente.

Life, EUA, 2017 Diretor: Daniel Espinosa Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare, Olga Dihovichnaya Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Jon Ekstrand Produção: Bonnie Curtis, Dana Goldberg, David Ellison, Julie Lynn Distribuidora: Sony Pictures / Sony Pictures Home Entertainment Estúdio: Columbia Pictures / Skydance Media / Sony Pictures Entertainment (SPE)