Três anúncios para um crime (2017)

Por André Dick

Visto como um dos grandes favoritos ao Oscar depois de ser escolhido como melhor filme no Festival de Toronto, Três anúncios para um crime estende aos Estados Unidos a trajetória de seu diretor britânico, Martin McDonagh, mais conhecido por Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shih tzu. McDonagh tem um certo estilo situado entre o humor corrosivo e o policial, fazendo de certos artifícios previsíveis uma possibilidade de rever certa tradição dentro de gênero. Em seu novo filme, ele mostra uma mãe divorciada, Mildred Hayes (Frances McDormand), que, descontente com o fato de que nunca descobriram o responsável pelo assassinato de sua filha adolescente, Angela (Kathryn Newton), decide alugar três outdoors com Red Welby (Caleb Landry Jones), com um recado para a polícia de Ebbie, Missouri, onde mora. Ela vive com o filho Robbie (Lucas Hedges) e se desentende constantemente com o ex-marido, Charlie (John Hawkes). Sua melhor amiga é Denise (Amanda Warren). Todos parecem entendê-la; ela também entende a todos, mesmo que não queira deixar isso claro. Ao mesmo tempo, joga sinuca às vezes com James (Peter Dinklage, ótimo). Sua maior qualidade não é exatamente a simpatia, e McDormand parece não mostrar aqui as qualidades que lhe deram o Oscar de melhor atriz em Fargo e sim os sentimentos de secura encontrados em sua personagem, por exemplo, de Moonrise Kingdom.

Por meio do protesto, o principal alvo é o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson, entre o ingênuo e o patético, com grande eficácia), sempre acompanhado pelo oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Este é acusado de castigar afrodescentes na delegacia, no entanto McDonagh não chega a mostrá-lo fazendo isso, tentando capturar uma ambiguidade que certamente leva a muitas reclamações em relação ao roteiro. Enquanto Bill vive com a mulher, Anne (Abbie Cornish), e as duas filhas, numa fazenda com estábulos e muitos cavalos, Jason vive com sua mãe (Sandy Martin), com problemas visíveis de saúde, embora tão problemática quanto seu filho.
Se os dois primeiros atos mesclam drama e humor de maneira adequada – e o personagem de Dixon é o principal motivo para sustentar a combinação –, parece que o grande momento do filme é a partir da meia hora final, e ela acaba oferecendo mais sentido a toda a narrativa de McDonagh. Visivelmente influenciado pelos irmãos Coen, a personagem Mildred é desagradável, graças a uma performance fria de McDormand, mas tem um clímax bem desenvolvido. E, pelo menos antes, há uma sequência magnífica em que ela avista um cervo perto de um dos outdoors, que parece mesclar exatamente o passado e o presente. Harrelson e Rockwell não chegam a ter um roteiro em conjunto, mas, separados, conseguem render bons momentos, sobretudo na leitura de uma determinada carta, condicionando o espectador a uma cena típica dos irmãos Coen e realizada com grande êxito em termos de timing. Há algumas gags envolvendo o personagem de Dinklage que funcionam por exatamente não aplicar o politicamente correto, embora em nenhum momento sigam um caminho de desconsideração a certos comportamentos. A nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving), representa bem isso.

O mais interessante é como McDonagh mostra a reação dos personagens ao protesto de Mildred. O xerife tem um certo problema de saúde e faz chantagem emocional com ela, no que não tem êxito, e sua relação com a mulher tem uma emoção calibrada (Cornish também atua bem). Uma determinada sequência passada no estábulo de sua fazenda é cortante, tanto pela atuação de Harrelson quanto pela atmosfera campestre de afastamento de tudo. Já Dixon tem uma reação exasperada ao ver os cartazes e completamente descontrolado e desligado de qualquer racionalidade. Por isso, o que acontece a ele revela não a tentativa de transformá-lo em outra figura e sim numa espécie de símbolo de certo desconhecimento de si mesmo. McDonagh, de maneira bem-humorada, inclui tanto uma carta quanto uma briga de pub convincente para acordá-lo.
Desse modo, o roteiro de McDonagh trata da raiva internalizada e a passividade de personagens. Em meio a um cenário perdido no meio do nada, destacado pela trilha sonora de Carter Burwell, parece um faroeste fora de época e possui cenas de violência bem inseridas no contexto. As feridas dos personagens, antes nunca expostas, começam a se avolumar com uma contundência fora de série. Quem com ferro fere, com ferro será ferido, parece estar inscrito nas iniciais desses personagens.

Nisso, Mildred é a representação da mudança que deseja inserir movimento numa paragem quase em forma de natureza morta, destacando-se nisso a atuação de Rockwell, no final de contas talvez a mais expressiva depois de um começo mais caricato. Para isso, a fotografia de Ben Davis colabora de maneira decisiva. Ebbing é vista como uma cidade idílica; por baixo, ela esconde problemas que caracterizam muitas cidades grandes. A violência gera violência nesse lugar afastado de tudo, porém pode apaziguar a transmissão dessa violência para outros lugares. No entanto, ao mesmo tempo, para McDonagh, não há reais mudanças, o que não equivale a dizer que elas não devem ser procuradas. A boa impressão em relação a Três anúncios é de que ele é absolutamente estranho, no mínimo original, e, apesar de não parecer a aclamada obra-prima como foi recebido, é um dos melhores momentos do cinema norte-americano nos últimos anos.

Three billboards outside Ebbing, Missouri, EUA/ING, 2017 Diretor: Martin McDonagh Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Amanda Warren, Sandy Martin, Samara Weaving, Kathryn Newton Roteiro: Martin McDonagh Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh Duração: 115 min. Estúdio: Blueprint Pictures, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions, Cutting Edge Group Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi (2017)

Por André Dick

Depois de estar à frente de Pariah (muito elogiado no Festival de Sundance) e Bessie, a diretora Dee Rees traz a Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, produção da Netflix, baseada no romance de Hillary Jordan, o que se esperava: uma espécie de encontro de A cor púrpura com 12 anos de escravidão, mas com características próprias. Esses são dois filmes basilares para o conhecimento da história dos afrodescendentes nos Estados Unidos, sobretudo no que se refere à sua dificuldade de inserção e à tragédia da escravidão, que perpassou gerações. O que Rees faz não é simples: ela traz ao mesmo âmbito de obras consagradas um novo olhar sobre a tentativa de domínio do homem branco, sem abdicar de uma visão humana sobre aqueles que ousaram, diante disso, fazer diferente.

A narrativa do filme começa com a imagem de uma cova sendo cavada em meio a uma terrível tempestade. Do que se trata? Rees não esclarece e se volta a alguns anos antes, para acompanhar a história de Laura (Carey Mulligan), que se casa com Henry McAllan (Jason Clarke) e se muda para o Mississipi, junto com as duas filhas pequenas. Lá, eles conhecem a família de Hap Jackson (Rob Morgan), casado com Florence (Mary J. Blige). O filho deles, Ronsel (Jason Mitchell), vai servir na Segunda Guerra Mundial, assim como o irmão de Henry, Jamie (Garrett Hedlund). Temos ainda uma vizinha, Vera (Lucy Faust), acometida pelos problemas financeiros e as infidelidades de seu marido. Nesta construção, percebe-se um estilo de relato próximo ao épico ou à de passagem de gerações, afastadas pelo tempo: mesmo que haja muita informação na primeira parte, ela nunca é menos do que indispensável para que se crie uma sensação de tempos mesclados e figuras crescendo em conjunto ou separadamente.
Embora com um pai racista, Pappy (Jonathan Banks), Henry tenta se adaptar à comunidade que o cerca e fazer amizade, embora sem o espectador saber ao certo se é verdadeira ou falsa, com Hap e sua família. O fato de suas filhas ficarem doentes faz com que ele precise da ajuda de Florence para cuidá-las. Mudbound trata dessa proximidade dos brancos de afrodescendentes com o intuito de, primeiramente, manter tudo como está e, depois, como tentativa de conciliação.

Baseada em um romance de Hillary Jordan, Rees entrega uma adaptação feita com Virgil Williams com um ritmo próprio decisivo para sua concretização. Com belíssima fotografia de Rachel Morrison (a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria), Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi mostra em paralelo a rotina de Henry e Hap nas plantações do lugar onde vivem e a rotina na guerra de Ronsel e Jamie. O mais notável é que a direção de Rees costura tudo com uma fluidez rara, não havendo um choque entre perspectivas, mas um complemento. Isso se dá apoiado nos personagens e atuações extraordinárias de todo o elenco, sem exceção. Hedlund (depois de já se mostrar grande ator em Na estrada e Invencível) e Mulligan (um pouco ausente depois de O grande Gatsby), particularmente, nunca estiveram tão bem, e Mitchell é uma ótima revelação. Além disso, temos Blige, que acabou sendo a escolhida do elenco para representar o filme em premiações, como coadjuvante, com um certo estilo que faz lembrar a grandiosa atuação de Whoopi Goldberg em A cor púrpura.

O tom do filme possui certa melancolia, mas ela nunca é utilizada para uma certa comoção pré-programada e sim como um elo entre esses personagens. O Mississipi é uma paisagem que serve de pano de fundo para os conflitos, no entanto vai, aos poucos, se integrando a cada uma dessas figuras, como se existisse para elas. O tom dado pela fotografia – que remete à terra – segue desde o início seu estilo eficaz. Esse tom não está apenas na própria ambientação, como no horizonte e nos figurinos dos personagens. Rees mostra a dificuldade que era construir uma família e uma casa nesse período com rara eficácia: ela visualiza o trabalho da fazenda como uma espécie de tentativa de o ser humano não ter mais do que outro, e sim poder ter direito de dizer que a terra é mais sua do que do outro.
Outro detalhe que funciona para a história se sentir próxima do espectador é o uso da narração em off de personagens diferentes, não causando confusão e sim um tom de agregação interessante. Quando os personagens partem para a guerra, a visão vai se modificando e o espectador se torna parte dessas famílias. Além disso, Rees não se torna apaziguadora da história: aqui já existe o que seria premissa básica para outro filme baseado nessa localidade, Mississipi em chamas, dos anos 80. Mudbound é realmente notável, possivelmente o melhor já lançado pela Netflix (seguido por Os Meyerowitz) e que promete, pelas indicações ao Oscar (quatro no total), a eliminação definitiva entre filme feito para as grandes telas (é a primeira obra da companhia lançada nos cinemas do Brasil) ou para streaming, pois o mais importante é a preocupação com a qualidade narrativa, da direção e do elenco. Esses elementos decisivamente não faltam à obra de Rees.

Mudbound, EUA, 2017 Diretora: Dee Rees Elenco: Carey Mulligan, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jonathan Banks, Garrett Hedlund Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Tamar-kali Produção: Carl Effenson, Sally Jo Effenson, Cassian Elwes, Charles King, Christopher Lemole, Kim Roth Tim Zajaros Duração: 134 min. Estúdio: Elevated Films, Joule Films Distribuidora: Netflix

O que te faz mais forte (2017)

Por André Dick

O espectador deve se lembrar do ataque terrorista que ocorreu durante a maratona de Boston, nos Estados Unidos, em 2013, quando diversos civis foram atingidos. No ano passado, Peter Berg focou o acontecimento em O dia do atentado, com Mark Wahlberg, com um viés mais policial e de investigação. O diretor David Gordon Green mostra essa história a partir de um jovem, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), que estava no local para assistir à ex-namorada Erin Hurley (Tatiana Maslany) correndo, ela com o objetivo de ajudar o hospital onde trabalha.
Jeff mora com a mãe, Patty (Miranda Richardson), separada de seu pai Jeff (Clancy Brown), num apartamento de dois quartos, e tem sua vida totalmente transformada pelo acontecimento, à medida que os médicos precisam amputar suas pernas devido aos ferimentos causados pela bomba.

Ele conta aos familiares que viu o responsável pela bomba antes da explosão, e se torna não apenas o retrato da resistência local como uma espécie de herói para os demais habitantes. É disto que O que te faz mais forte trata em linhas gerais. No entanto, não apenas: ele trata da guerra sendo trazida para dentro dos Estados Unidos. Se A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, mostra um jovem soldado sendo homenageado por uma situação de guerra (no Iraque), e Thank you for your service (com Miles Teller) um grupo traumatizado pelo campo de combate, aqui a figura proeminente é um cidadão até então desconhecido. No momento em que por exemplo leva a bandeira dos Estados Unidos antes de um jogo dos Bostons Bruins, diante de uma multidão e de flashes sucessivos, há uma lembrança decisiva para o personagem central, como se o caos da sociedade alimentasse o momento definidor para ele. A pressão de Jeff não é apenas suportar o que lhe aconteceu, mas o que a sociedade espera dele, como uma espécie de testemunha e sobrevivente desse terrível acontecimento. O roteiro de John Pollono baseado no livro de Jeff Bauman e Bret Witter revela soluções para o encadeamento das ações, nunca se transformando apenas numa cinebiografia e sim ressaltando os elementos universais que coexistem na narrativa de modo intenso.

Tendo tido algumas das melhores atuações nos últimos anos, em filmes como O homem duplicado, O abutre, Demolição e Animais noturnos, Gyllenhaal se recupera muito bem do seu terrível overacting em Okja. Trata-se de uma atuação comovente na medida certa, em seus conflitos com Erin e sua mãe, Patty, assim como os momentos de reconciliação. Jeff começa a se mostrar justificadamente abalado e atraído pela bebida para tentar esquecer sua situação. No entanto, o que o diretor Green faz é muito mais eficaz: ele mostra como um determinado acontecimento lida não apenas com o extremo da pessoa visivelmente atingida como aqueles familiares que o cercam, do mesmo modo que os amigos próximos. Maslany, como a namorada de Jeff, tem uma atuação extraordinária, assim como Carlos Sanz na pele de Carlos Arredondo e Richardson como sua mãe. São os coadjuvantes que ajudam Gyllenhaal a ter uma atuação ainda melhor e indicar momentos que talvez não fossem tão intensos, a exemplo da discussão que se dá num pub com homens desconfiados de que Jeff teria participado de algo combinado de antemão, numa paranoia extrema.

O que te faz mais forte tem elementos que lembram Sully, o filme de Clint Eastwood sobre  o piloto de avião que aterrissou no Rio Hudson, talvez pela simplicidade narrativa e por acreditar na força de seu personagem central para contar uma história decisivamente humana. Quando Jeff Bauman precisa lidar com sua condição nas primeiras vezes, é o retrato contundente de uma superação na qual a construção da família se torna outro pilar para se mostrar sempre aguerrido. Sua reaproximação da antiga namorada se dá de maneira sinuosa, sem uma predisposição dramática intensa e sim uma tranquilidade de que a mudança deve se mostrar mais efetiva.
Diretor de obras indies respeitadas (George Washington, Contra corrente), Gordon Green nos últimos anos se situou entre comédias desconexas (Sua alteza), retratos de um homem comum (Joe) e uma análise semidocumental das eleições (Especialista em crise, uma espécie de No com Sandra Bullock), mas volta a mostrar seu melhor em O que te faz mais forte. Isso inclui diálogos críveis e uma montagem suficientemente atraente para que não esqueçamos da importância de cada personagem e do drama existencial maior que cerca cada pessoa. Seu filme comove do melhor modo e dá a importância adequada aos acontecimentos enfocados.

Stronger, EUA, 2017 Diretor: David Gordon Green Elenco: Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Clancy Brown, Carlos Arredondo Roteiro: John Pollono Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Michael Brook Produção: Jake Gyllenhaal, Michel Litvak, Scott Silver, Todd Lieberman, David Hoberman Duração: 119 min. Estúdio: Bold Films, Mandeville Films, Nine Stories Productions Distribuidora: Lionsgate, Roadside Attractions

Sem amor (2017)

Por André Dick

Depois do excelente Leviatã, um dos melhores filmes desta década, o diretor russo Andrey Zvyagintsev voltou a Cannes para mostrar este novo projeto. Reconhecido por obras que descontentam ao governo de seu país, Zvyagintsev tenta obter financiamento por empresas independentes dele. Ter sua segunda obra indicada ao Oscar de filme estrangeiro mostra como ele está conseguindo projetar internacionalmente seu cinema.
Sem amor mostra um casal em crise, Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin), que está para se divorciar, mas ainda não contou para o filho, Alyosha (Matvey Novikov), um menino de 12 anos, que sofre escondido e determinado dia foge de casa. Enquanto os pais já organizam uma nova vida com seus respectivos novos amores, ele está absolutamente sozinho. Zvyagintsev evita mostrar Alyosha falando, apenas as reações faciais ao casamento dos pais em dissolução. Mais do que qualquer coisa, ele é outra metáfora para o cineasta falar da Rússia. E se corresponde principalmente com o filme que tornou o diretor reconhecido, o levemente distante e sem emoção O retorno, no entanto com qualidades interessantes.

Ao contrário do que mostra em Leviatã, a simetria das imagens não serve à narrativa de modo eficaz em alguns momentos. Embora no início o espectador fique interessado pelo potencial da história, aos poucos ela vai perdendo impacto, tanto pela fraqueza emocional do casal quanto por nunca conhecermos suficientemente esses personagens para obter um envolvimento. Ao mesmo tempo, isso pode ser a representação mais próxima de uma frieza familiar que o cinema tem em muito tempo, e Maryana Spivak (que lembra plasticamente a atriz Annette O’Toole) e Rozin são muito verossímeis. Mesmo os relacionamentos novos de cada um demonstram aquilo que eles não oferecem ao filho: Zhenya busca segurança num homem de mais idade, Anton (Andris Keishs), que possui uma filha que mora em outro país, e Boris apenas estabelecer uma ponte com a nova amante, Masha (Marina Vasilyeva), já à espera de outro filho. Ainda assim, não há nenhuma emoção nem traços de humor, mesmo que pudessem ser leves, pelo próprio tema que cerca tudo. É curioso como o diretor mostra o casal, cada qual com seu novo par, em cenas discretas de sexo, mas que contrariam exatamente a relação que eles ainda possuem em casa: enquanto há prazer com os novos parceiros, habitar a mesma casa do outro se torna uma angústia, que vai atingir exatamente o filho pequeno, para o qual dirigem pouco mais do que poucas palavras. O contraste é claro quando Zhenya vai a um salão de beleza e seu corpo é visualizado como parte de uma luxúria que se perdeu no relacionamento.

Conceitualmente, o filme funciona como poucos; na prática, é bastante difícil de ser enfrentado, muito mais do que o já impactante Leviatã. O diretor se pergunta o que esses personagens têm a oferecer. Ele responde: praticamente nada, daí a angústia do momento em que descobrimos o lugar onde Alyosha costumava ir com um amigo fora dos períodos de escola: um lugar com sofás, contudo abandonado, como ele sente a própria casa. A maneira como o diretor filma esse lugar abandonado, na periferia da cidade, é cortante e direta. Não precisamos saber muito da história de Alyosha para sabermos que ninguém realmente o conhecia ou se interessava por ele. Nesse caso, justifica-se o título, exprimindo uma grande dor. Nesse sentido, Sem amor trata muito das relações existentes numa família constituída na Rússia, embora não se possa, claro, generalizar: ele ajuda a mostrar como uma sociedade se edifica por meio de um completo isolamento da realidade (as regras da empresa de Boris são no mínimo excêntricas) e como a polícia reage ao desaparecimento de uma criança e de como tenta encontrá-la. Quando o filme se transforma numa história de busca, ele tem muito não apenas de Os suspeitos, de Villeneuve, como de Garota exemplar, a obra de Fincher em que uma caçada por bosques se torna preponderante diante de tudo.

O coordenador de buscas, Ivan (Aleksey Fateev), tenta se manter como um esteio entre a família e a realidade, mas esta última passa a existir apenas como hipótese. Os pais não estão interessados mais pelo filho e sim no que eles podem preencher finalmente suas existências. A mais dura sequência talvez seja aquela em que Zhenya reencontra a mãe, Mat Zheni (Natalya Potapova, excelente), que não via há muito tempo e cuja casa fica bastante afastada da cidade. Em alguns minutos, temos a compreensão abrangente de tudo que ocorreu na vida desses personagens. Analisando seu percurso, o diretor deseja revelar o sentimento pouco emotivo que tem em relação a seu país na sequência final, de um impacto tenso e vigoroso.

Loveless/Нелюбовь, Rússia, 2017 Diretor: Andrey Zvyagintsev Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Matvey Novikov, Marina Vasilyeva, Andris Keišs Roteiro: Oleg Negin Fotografia: Mikhail Krichman Trilha Sonora: Evgueni Galperine e Sacha Galperine Produção: Alexander Rodnyansky, Sergey Melkumov, Gleb Fetisov Duração: 128 min. Estúdio: Arte France Cinéma, Why Not Productions Distribuidora: Walt Disney Studios, Sony Pictures Releasing, Sony Pictures Classics, Altitude Film

O sacrifício do cervo sagrado (2017)

Por André Dick

O diretor grego Yorgos Lanthimos, depois dos exitosos Dente canino e Alpes, ingressou na indústria de cinema norte-americana com o estranho O lagosta, uma espécie de crítica corrosiva de uma vida em comunidade num futuro não longínquo, na qual o indivíduo escolhia seu modo de vida e sua amada baseado em conceitos deslocados do senso comum. Agora, ele regressa com um elenco novamente de atores americanos em O sacrifício do cervo sagrado. Na história, o cirurgião Steven Murphy (Colin Farrell) tem um casamento tranquilo com Anna (Nicole Kidman) e um casal de filhos, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Alcóolatra, Steven fica amigo de Martin (Barry Keoghan), filho de um paciente dele que morreu na sala de cirurgia. Martin o visita frequentemente e quer que ele tenha um caso com sua mãe (Alicia Silverstone). No início, essa relação não fica muito clara, o que torna ainda mais perturbadora a narrativa. O espectador não possui informações do motivo pelo qual Murphy perambula com Martin por ruas e cafés, sabendo-se imediatamente que ele não é parte da família.

O roteiro de Lanthimos e Efthymis Filippou aposta no mistério dessa figura que age como intrusa numa família a princípio bem composta. Mas as coisas não são bem assim, e tudo na filmografia de Lanthimos prova isso. Se o elenco é excelente (principalmente Farrell, Kidman e Keoghan, este um dos integrantes da equipe de resgate em Dunkirk), as soluções visuais da fotografia de Thimios Bakatakis são ainda melhores. O hospital onde Steven trabalha parece uma extensão do comportamento desses personagens, tanto no que se refere ao afastamento quanto à ausência de cores abundantes. O uso das lâmpadas nos tetos dialoga com o estilo de Stanley Kubrick, mesmo na maneira de filmá-las: a impressão é que o espectador se encontra num túnel em que desconhece a saída, como os personagens apresentados. Nesse sentido, explica-se por que boa parte dos diálogos definidores se dão nos corredores do hospital onde Steven trabalha. Tudo, de qualquer modo, esconde um enigma: como pode acontecer o que acontece com os filhos desse casal? O núcleo da história parece se basear no seguinte conceito: enquanto o filho tem uma certa inclinação científica, talvez como o pai, a menina tem uma predisposição para a arte e para a música. O que acontece a eles se estende aos pais. Lanthimos mistura sentimentos de culpa e aflição com notável habilidade, nunca deixando os diálogos frios, vitais para que haja uma estranheza adicional no comportamento já estranho desses personagens, interromperem a atuação notável do elenco.

Mais do que um diálogo com Dente canino e O lagosta, O sacrifício se corresponde com Alpes, filme excelente de Lanthimos de 2011. Nele, a enfermeira “Monte Rosa” (Aggeliki Papoulia) se encontra num universo pré-determinado pelo cansaço da linguagem e das situações. Mais do que surrealista, o roteiro nunca permite nenhuma explicação clara ao espectador, e a composição de imagens pela fotografia de Christos Voudouris (Antes da meia-noite) realmente é atrativa, com uma certa simetria já existente em Dente canino, com o acréscimo de uma maior variação, também em razão dos temas oferecidos por Lanthimos. Os diálogos da nova obra do cineasta grego se assemelham muito em termos de ritmo dessa obra. Quando o médico, por exemplo, se deita com a esposa logo no início do filme, ela se comporta como se estivesse anestesiada: o médico não age por paixão e sim por meio de certa frieza. Não apenas a interpretação de Nicole Kidman é excepcional, como Lanthimos desenha uma ligação imediata da rotina do personagem central com sua vida em casa, igualmente deslocada de qualquer normalidade. Depois, quando ela precisa conversar com Matthew (Bill Camp), um colega do marido, dentro de um carro, sua reação se aproxima justamente desta cena.

O melhor desse filme em relação aos anteriores de Lanthimos é sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes desconstrói em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Aqui ele se limita a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Levemente inspirado na peça de origem grega Iphigenia em Aulis, de Eurípedes, tratando do sacrifício de um determinado familiar para que permaneça uma “harmonia” dos integrantes que restam, O sacrifício do cervo sagrado se constitui num dos filmes mais originais dos últimos anos, em que a realidade do personagem central vai se mesclando à realidade, ou seja, o universo hospitalar vai tomando também o espaço de seu comportamento e de sua casa. O porão, neste caso (spoiler), se torna o espaço para que o cirurgião possa expor seu verdadeiro instinto, tanto no que se refere à sobrevivência dos filhos quanto à sua ideia de unidade familiar. Lanthimos faz isso de maneira tanto convincente quanto voltado a um olhar sobre a própria história dos gêneros que mistura de maneira tão bem acabada.

The killing of a sacred deer, EUA/IRL/Reino Unido, 2017 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Alicia Silverstone, Bill Camp Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou Fotografia: Thimios Bakatakis Produção: Ed Guiney, Yorgos Lanthimos Duração: 121 min. Estúdio: Film4, New Sparta Films, HanWay Films, Bord Scannán na, hÉireann/The Irish Film Board, Element Pictures, Limp Distribuidora: A24, Curzon Artificial Eye

O destino de uma nação (2017)

Por André Dick

Uma das curiosidades de O destino de uma nação é ser lançado no mesmo ano de Dunkirk, de Nolan. Se este filme conta a história das tropas inglesas presas em Dunkirk por causa de aviões alemães, a obra de Joe Wright conta, digamos assim, seus bastidores. Para um diretor que já havia mostrado uma sequência sem cortes passada na praia francesa em Desejo e reparação, indicado ao Oscar de melhor filme como O destino, não se trata de nada surpreendente. Naquela produção de 2008, Wright se situava entre uma história familiar e uma tragédia de guerra; ele não deixa de fazer o mesmo aqui, embora sem tanto espaço para as nuances familiares.
O destino de uma nação começa em maio de 1940, quando o Reino Unido e França são aliados na Segunda Guerra Mundial. O Partido Trabalhista da Oposição no Parlamento inglês pede que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) renuncie, por ser considerado muito hesitante. No entanto, Neville consegue fazer com que Halifax (Stephen Dillane), seu braço direito, continue num posto do governo.

Para seu lugar, é escolhido Winston Churchill. Casado com Clementine (Kristin Scott Thomas) e tendo como secretária Elizabeth Layton (Lily James), Churchill precisa enfrentar justamente a crise em Dunkirk, com suas tropas ameaçadas pela morte. Ele mantém contato com quem o escolhe para o cargo, rei George VI (Ben Mendelsohn), mas o enfoque de Wright se dá nos discursos e conversas de rotina sobre a guerra entre Churchill e figuras próximas. Todos parecem querer que ele entre, por causa da situações das tropas na praia francesa, em acordo com a Alemanha nazista, por meio da Itália, em relação ao qual ele reluta.
Depois dos criticados injustamente Anna Karenina (uma releitura belíssima de Dostoiévski) e Peter Pan, duas adaptações literárias multicoloridas, Wright escolhe em seu novo filme uma paleta fotográfica assinada por Bruno Delbonnel, baseada no lado soturno da políticas, com fachos de luz entrando pelas janelas. Trata-se de um trabalho de Delbonnel que remete ao que ele fez em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, e um pouco de Sombras da noite, de Burton. Não é muito atrativo à primeira vista, contudo ajuda a contar a história de um período nebuloso para a Inglaterra e a solidão de um homem que deve tomar decisões que envolvem milhares de pessoas.

Oldman faz Churchill com notável empenho e, apesar de ser ajudado por uma maquiagem fantástica, é ele que consegue atribuir nuances ao personagem, com alguns maneirismos que o tornam reconhecível logo depois de meia hora. Sua relação de amizade com a secretária é o que mais aproxima o espectador do filme e Lily James está bem, mas é em seus rompantes de bom humor que a narrativa cresce. Oldman concede uma faceta humana e cotidiana ao grande líder, baseado num roteiro interessante, embora às vezes apegado demais aos fatos históricos, no seu andar, passo a passo. Há dois momentos tremendamente emocionais no filme e se aproximam de conversas mais íntimas de Churchill: aquele no qual conversa por telefone com Franklin Roosevelt e outro que resulta de uma conversa com o Rei, fazendo o personagem se misturar a quem deve perguntar pelo verdadeiro destino de uma nação. Deve-se lembrar também um diálogo decisivo que ele tem com o Rei George VI, já mostrado em O discurso do rei, de Tom Hooper, no qual Mendelsohn mostra sua excelência como ator e diante do qual se lamenta o pouco tempo de tela, pois teria muito a acrescentar em termos de nuances históricas.

O roteiro assinado por Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, pode às vezes ser previsível em alguns tópicos autobiográficos, porém ainda assim os discursos e as relações de Churchill com a mulher e o rei resultam eficazes para o resultado final. Tem-se a impressão que Wright não se sente mais tão à vontade no formato histórico depois de seus filmes mais fantasiosos (incluindo o interessante Hanna, com uma jovem Saoirse Ronan, que Wright ajudou a revelar). Mesmo em Anna Karenina, no qual ele misturou elementos teatrais com um multicolorido de cenários e figurinos que evocavam Wes Anderson, Wright já havia feito uma obra diferenciada dos filmes anteriores, e talvez por isso mesmo não tenha sido bem recepcionado. Isso faz com que O destino de uma nação não se sinta tão bem resolvido às vezes, pois não é tão eficaz quanto aquele em nenhum momento em termos de narrativa (nem mesmo como Peter Pan). De qualquer modo, ainda é um retrato histórico atrativo e que merece ser visto por sua competência e construção cuidadosa.

Darkest hour, ING, 2017 Diretor: Joe Wright Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Dario Marianelli Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski Duração: 125 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films Distribuidora: Focus Features

Todo o dinheiro do mundo (2017)

Por André Dick

No ano em que completou 80 anos, o diretor Ridley Scott lançou a sequência de Prometheus, colaborou no roteiro de Blade Runner 2049 sem ser creditado, ajudou a produzir Assassinato no expresso do Oriente e finalmente, diante de várias denúncias de assédio contra Kevin Spacey, que participava de seu novo filme, Todo o dinheiro do mundo, resolveu refilmar todas as cenas em que ele aparecia, trocando-o por Christopher Plummer. O resultado em termos financeiros e de crítica foram irrisórios, mas a nova obra de Scott tem uma história muito interessante, baseada em fatos reais.
Tudo começa em 1973, quando JP “Paul” Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado em Roma por um grupo. Ele é um jovem de 16 anos, neto de J. Paul Getty (Christopher Plummer), magnata do petróleo e o homem mais rico daquela época. Os sequestradores exigem 17 milhões de dólares como resgate. Sabemos por meio de flashbacks que os pais do adolescente, Gail Harris (Michelle Williams) e John Getty Jr. (Andrew Buchan), se divorciaram quase uma década antes e ela não recebe nenhuma pensão alimentícia para ter a custódia dos filhos. E que John Getty se entregou às drogas.

Ela fica desesperada e pede o dinheiro ao ex-sogro, que coloca Fletcher Chase (Mark Wahlberg), negociador do Getty Oil, a empresa de Getty, para cuidar do caso. Sem querer dar o montante em dinheiro requisitado, Getty quer que seu assessor, também ex-integrante da CIA, investigue onde pode estar o neto. Este se encontra num cativeiro no interior da Itália, vigiado por, entre outros, Cinquanta (Romain Duris).
A história parece previsível, porém a maneira como Ridley Scott a conduz tem a voltagem de um thriller americanos em terra italiana, com um bom contraste entre a cidade e a área rural e entre o desespero de uma mãe e o luxo de um milionário pouco emotivo. De forma indireta ou direta, Todo o dinheiro do mundo trata da constituição de uma família e de como um sobrenome pode pesar ou significar em momentos que se tornam nebulosos ou perturbadores diante de uma realidade mais angustiante.

Williams apresenta uma atuação discreta e ainda notável, seguida pela de Plummer, num registro muito mais expansivo do que pareciam indicar as refilmagens. O personagem dele realmente serve de guia para o filme, com uma presença estranhamente maligna, embora, mais ao início, sua participação seja um pouco entrecortada pelas idas e vindas no tempo. Sua reação ao sequestro do neto reserva um comportamento dúbio: se, por um lado, ele parece se preocupar com o que acontece a ele, por outro há uma frieza. Ele lembra do neto principalmente criança, e quando Scott mostra os dois caminhando em ruínas do Coliseu (seus semblantes lembram de Chaplin e o menino em O garoto) parece que ele quer entrelaçar passado e frente para dizer que o personagem está em outra dimensão, junto com sua concepção de dinheiro. E Romain Duris apresenta uma atuação muito convincente como um dos sequestradores que deseja pôr fim à situação o quanto antes. A atuação de Charlie Plummer (nenhum parentesco real com Christopher) é surpreendente, mesmo com pouco roteiro, e Wahlberg é competente, mesmo com uma figura escrita com menos ênfase, principalmente levando em conta a função que poderia ter.

A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a criar uma atmosfera que mescla alguns dos melhores momentos da trajetória de Scott, fazendo a história dialogar com Gladiador, Hannibal e O conselheiro do crime, além de Um bom ano: Scott é quase um cidadão italiano por seu interesse pelo país. Desde O poderoso chefão III, no cinema norte-americano ou inglês, não se tinha uma visão geral do interior desse país tão aproximada, com suas cidades de becos apertados e fazendas como pontos de encontro entre mafiosos. Ele tem uma obsessão por esculturas e estátuas do universo romano, e aqui mostra literalmente como alguns privilegiam essas peças do que o corpo humano e seu sentimento. Há uma concepção muito interessante do filme sobre a arte ser considerada uma riqueza e um passo para um indivíduo se sentir atemporal e acima de seus semelhantes. Isso se manifestava no início de Alien: Covenant, por exemplo, quando vemos Peter Weyland e David numa sala com a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, ao fundo. Aqui, surge outra obra de arte como significado para as perturbações de Getty. Em outro momento, é oferecida uma quantia de dinheiro para que possa aproveitar de forma jornalística uma informação referente ao neto. Scott evita uma manipulação dramática e concede à sua narrativa uma visão moderna de que todos desejam tirar algo dessa situação.

Os sequestradores não podem ter seu rosto revelado, mas em nenhum instante vemos também Getty se revelar. Em Todo o dinheiro do mundo, o rosto habita as notas de dinheiro e as esculturas, não os humanos. Esses se escondem sempre por trás de suas decisões meramente pessoais. Não existe em Getty, por exemplo, a visão que Scott lançava em O gângster, sobre como um homem crescia por meio da máfia, porém a maneira com que ambos se distanciam da realidade é semelhante. Não imagino o impacto que terá para o espectador que sabe da história real. Evitei ter informações antes de assisti-lo e, mesmo com alguns traços recorrentes de narrativa de sequestro, teve uma certa surpresa.
O roteiro de David Scarpa, adaptado do livro Painfully rich: The outrageous fortunes and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty, é muito conciso e funcional, não havendo nenhum excesso, com auxílio da montagem agilíssima, e Scott entrega sua melhor direção desde O conselheiro do crime, com grande domínio sobre os espaços e elenco. Que este filme não esteja entre os indicados principais ao Oscar é um mistério tão grande quanto se achar que a última grande obra de Scott é Blade Runner. Todo o dinheiro do mundo é excepcional.

All the money in the world, EUA/ING, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Charlie Plummer, Andrew Buchan Roteiro: David Scarpa Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh Duração: 135 min. Estúdio: Imperative Entertainment, Scott Free Productions Distribuidora: TriStar Pictures

 

A forma da água (2017)

Por André Dick

O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre esteve entre os principais nomes situados entre a fantasia, o terror e o suspense. Nos últimos anos, ele entregou dois filmes completamente distintos: Círculo de fogo, uma ficção científica mais pop, mostrando a invasão de monstros (kaijus), na Terra, e A colina escarlate, com uma história mais clássica, sempre com uma parte técnica irretocável. E, apesar de se inspirar muitos em fábulas e lendas populares, ele sempre foi reconhecido pela originalidade. Por isso, a polêmica que surgiu de que seu novo filme, A forma da água, fosse inspirado sem dar crédito à peça teatral Let Me Hear You Whisper, do ganhador do Pulitzer Paul Zindel, surgida na semana passada, talvez coloque seu favoritismo ao Oscar ameaçado. Se a premissa de seu filme é igual à da peça (que também virou filme, em menor escala, nos anos 90), ainda assim a obra de Del Toro pode ser vista como, mais do que uma relação estranha, um retrato de época. Diretor também dos dois primeiros Hellboy e um dos roteiristas da trilogia O hobbit, o mexicano é uma referência do gênero de fantasia, no sentido mais épico.

A forma da água conta a história da faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha num laboratório governamental secreto no início dos anos 1960, durante a Guerra Fria, e tem como melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer). Neste laboratório, ela conhece uma estranha criatura aquática (Doug Jones), que está sendo investigada pelo coronel Richard Stricklandor (Michael Shannon) e pelo Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).
Elisa tem como melhor amigo o companheiro de prédio Giles (Richard Jenkins, em ótimo momento), sendo que moram em cima de um cinema, Orpheum. Este nome é a senha para o filme mostrar algo que lembra a mitologia grega de Orfeu e Eurídice: o monstro representa aquela figura que deve ser resgatada. Num diálogo com outro filme, há muito de O fabuloso destino de Amélie Poulain aqui, inclusive na trilha sonora notável de Alexandre Desplat, assim como de Splice, produzido por Del Toro e que mostra uma relação estranha como a desse filme, embora com mais violência e voltada mais ao plano da sexualidade. Em O labirinto do fauno, também havia a história de uma menina inserida num mundo histórico em transformação (a Guerra Civil Espanhola), que se refugiava na fantasia.

Não precisaríamos ir muito longe para ver as influências de Del Toro: sendo a figura aquática da Amazônia, certamente Del Toro conhece a lenda do boto que deu origem a um filme com Carlos Alberto Riccelli nos anos 80, e mesclou essa lenda ao seu arsenal de estranhezas. Del Toro possui um talento raríssimo para compor uma reconstituição de época da Guerra Fria de modo perfeito, com ambientes externos e internos feitos com esmero por Paul D. Austerberry, começando pelo início que estabelece como fonte A árvore da vida, de Malick. O visual insere o espectador na história, que, mais do que sobre a aproximação de uma humana de uma criatura, trata de temas como o subúrbio norte-americano de Baltimore, do american way of life, o preconceito contra os negros e gays, contra hispânicos, sem nunca destoar de uma história baseada no fantástico nem parecer pouco orgânico. É uma cidade em composição e decomposição, como vemos por meio de Stricklandor. Del Toro demonstra seu amor por filmes através do cinema Orpheum, localizado embaixo do apartamento de Elisa, com imagens de uma plasticidade bem dosada, com a fotografia de Dan Laustsen. Assim como por meio de Giles, que é pintor e faz cartazes para filmes.

O vilão feito por Shannon em determinados momentos se sente um pouco caricato pelo rumo oferecido pelo roteiro, mas o ator entrega, por outro lado, uma de suas melhores composições, e há um momento do segundo ato em que a história se dispersa um pouco, sem que Del Toro deixe a narrativa cair em gestos banais, respeitando uma certa poeticidade que dialoga com o ambiente enfocado, com seu verde que remete ao musgo da água original, de onde veio a estranha criatura. Sally Hawkins tem uma atuação excelente, assim como Spencer se mostra novamente uma coadjuvante bastante especial, numa história que consegue sintetizar o melhor de Del Toro num formato que se contrabalança entre o fantástico e a visão romântica sobre o mundo do cinema (spoiler: não por acaso, em determinado momento há uma cena musical que remete tanto a O artista quanto a La La Land). O trabalho dele por vezes registra um grau inusual de violência perto de produções típicas de Hollywood, mas em A forma da água ele não parece tão interessado em mostrá-la, o que poderia prejudicar o tom de sua história.

Mais do que sobre uma paixão extraordinária, A forma da água é uma lembrança de Del Toro do poder do cinema sobre a personagem central, quando conversa com seu vizinho vendo filmes na TV, mas estabelece vínculo mesmo com os experimentos de Spielberg no âmbito dos anos 80 (a exemplo de E.T.) e John Carpenter (Starman). O filme trata exatamente da solidão desses personagens, em vínculo com a da sala de cinema, com poucos espectadores, assim como com a música, na impossibilidade do diálogo. Há alguns elementos que Del Toro colocou anteriormente em sua trajetória, contudo são melhor resolvidos aqui. Mesmo em relação ao A colina escarlate, subestimado, A forma da água se sente com temas mais complexos e distribuídos em camadas iguais. E a água é, afinal, o símbolo da libertação da narrativa. Todas as sequências que a envolvem dão uma sensação de que a opressão causada por determinados humanos é colocada em segundo plano e os personagens encontram a sua essência. Em A colina escarlate, já havia uma metáfora da terra. Além disso, como em A espinha do diabo e O labirinto do fauno, Del Toro faz com que seus personagens em transformação também combatam a guerra que há nos bastidores de suas existências.

The shape of water, EUA, 2017 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: J. Miles Dale e Guillermo del Toro Duração: 123 min. Estúdio: TSG Entertainment, Double Dare You Productions Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Artista do desastre (2017)

Por André Dick

Trabalho mais recente de James Franco na direção, Artista do desastre vem sendo muito associado a Ed Wood, de Tim Burton, tratando de uma produção conhecida pela estranheza e pela precariedade de atuações e de acabamento, The room, de Tommy Wiseau, lançado em 2003. Quem já viu esse filme sabe do quanto podemos ter um outro nível de entendimento sobre o que seriam boas atuações e uma narrativa calibrada: The room é tão estranho (no bom ou mau sentido, dependendo de cada espectador) que chega por vezes a ser engraçado.
É justamente Wiseau que o também diretor James Franco interpreta aqui. Ele conhece em 1998 o aspirante a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James na realidade), numa aula de teatro, quando nenhum consegue se destacar. No entanto, Wiseau se mostra um ator que, na falta de expressão melhor, se arrisca no tablado. Os dois se mudam para Los Angeles, a fim de tentarem uma carreira e se tornarem estrelas. Apesar de Greg conseguir uma agente, Iris Burton (Sharon Stone), e uma namorada, Amber (Alison Brie), nenhum deles é reconhecido. Wiseau decide escrever, produzir e dirigir um filme, exatamente The room. Os momentos em que ele está escrevendo o roteiro são alguns dos mais cômicos da história, justamente pela despretensão do ator-diretor.

Desde o início, é evidente que Franco está levando o personagem a sério, mas ao mesmo tempo não está: em determinados momentos, sua obra se sente como uma reunião de amigos no fim de semana. Mas, se há reuniões dele que resultam em filmes pouco interessantes (É o fim, por exemplo), outros se sentem realmente instigantes, como este. Artista do desastre, à sua maneira, é uma homenagem a Hollywood, que certamente nunca levou Wiseau em consideração – e Franco, pelas acusações que teve de assédio depois de ganhar seu Globo de Ouro, parece ir por outro caminho, embora não com o mesmo grau de impacto que as que atingiram Kevin Spacey e Harvey Weinstein.
O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis por (500) dias com ela, A culpa é das estrelas e O maravilhoso agora, adaptado de um livro sobre as filmagens de The room, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, tenta capturar o momento da criação. Artista do desastre lida com a imagem de quem tenta se inserir no meio artístico (no caso, o cinema) com as condições que tem à mão. No entanto, a arte é visualizada mais como um descompromisso do que como um dever de mostrar uma certa sofisticação.

As filmagens conturbadas do longa são bem calibradas pela atuação de James Franco, fazendo um personagem excêntrico, mas, principalmente, pela do irmão, Dave, com uma ressonância que é quase inexistente em trabalhos recentes. Em filmes como The little hours, em que faz um homem que vai parar num convento, Dave Franco já mostra um talento inabitual para a sátira que se leva a sério. Aqui não é diferente e ele até emociona como alguém que realmente tenta ser amigo de Wiseau. Há uma sequência em que ambos compartilham a admiração por James Dean (o qual James interpretou num telefilme em 2001) e tanto Artista do desastre quanto The room possuem um visual, algumas vezes, de Juventude transviada, clássico dos anos 50. No filme de Wiseau, o CGI do alto do prédio normalmente se confunde com tomadas perdidas de clássicos, embora o roteiro seja tão desencontrado que as semelhanças interrompem aí. Que Franco tenha escolhido seu irmão para interpretar o papel do melhor amigo de Wiseau é uma homenagem à própria inserção de ambos no universo cinematográfico.

Embora ele tenda a romantizar excessivamente o personagem que retrata e muitas vezes anule uma complexidade maior, que poderia ser melhor trabalhada em pontos, também atinge de certo modo o público: sua figura atrai o interesse do espectador e o conduz durante todo o filme. O modo como ele recupera os trejeitos do verdadeiro Wiseau é realmente convincente e as filmagens, com a presença do assistente de roteiro e direção Sandy (Seth Rogen), são perturbadas de modo divertido, com uma série de participações especiais (Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson, para citar alguns). Depois de atuações como as de 127 horas, Milk, Oz – Mágico e poderoso e na série Freaks and geeks, Franco já mostrou um talento para a composição de personagens dos mais variados. Que ele responda pelas acusações gravíssimas de assédio (o que vem tentando fazer nas últimas semanas) e Desastre do artista não seja também aquele filme que interrompa sua carreira.

The disaster artist, EUA, 2017 Diretor: James Franco Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Zac Efron, Sharon Stone Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber Fotografia: Brandon Trost Trilha Sonora: Dave Porter Produção: James Franco, Vince Jolivette, Seth Rogen, Evan Goldberg, James Weaver Duração: 103 min. Estúdio: New Line Cinema, Good Universe, Point Grey Pictures, Rabbit Bandini Productions, Ramona Films Distribuidora: A24, Warner Bros. Pictures

The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

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