Nascido para matar (1987)

Por André Dick

Este texto contém spoilers

Em 1986, foi premiado pelo Oscar um filme marcante sobre a Guerra do Vietnã, Platoon, com direção de Oliver Stone e ótimos atores (destaques para Tom Berenger e Willem Dafoe). Pouco fica a dever para Apocalypse now, de Coppola. Stone serviu de fato na guerra (ele faz uma ponta no filme) e seu retrato é bastante realista, sem discursos patrióticos ou cenas piegas. Há sequências fortes, como a dos soldados colocando fogo numa vila, sob o olhar de um jovem, Chris (Charlie Scheen), que se alista para ir ao Vietnã, pois seu avô e seu pai também serviram na guerra. No front, depara-se com um comandante bom, Elias (Dafoe), em que encontra a figura de sua infância, e um paranoico (Berenger, com maquiagem pesada), além da presença de amigos (como aquele feito por Forest Whitaker. Depois de Platoon, gostando-se ou não da visão de Stone, seria difícil tratar novamente da guerra sob um enfoque original.

A forma com que Kubrick conduz a história e a falta de emoção talvez, sob certo ponto de vista, poderiam prejudicar Nascido para matar, justamente depois de Platoon (lançado apenas um ano antes). Mas, o que é impressionante, não o diminui em relação à obra de Stone e a Apocalypse now – um filme de ruptura. Quanto às imagens, por exemplo, o diretor de 2001 e Laranja mecânica continua especial. Ele adapta, em parceria com Michael Herr, um conto de Gustav Haford para mostrar, em sua primeira parte, um pelotão de fuzileiros sendo treinado por um sargento sádico, Hartman (R. Lee Ermey), tendo um dos jovens como algoz para seu trato mais do que rígido. Trata-se de um soldado, Leonard “Pyle” Lawrence (Vincent D’Onofrio), que sempre fica para trás nos exercícios e costuma fazer várias ações de guerra de modo equivocado, tornando-se odiado pelos colegas (há uma cena noturna de vingança coletiva).
No entanto, como se vivesse uma espécie de reação inconsciente, ele passa a demonstrar competência com armas e se torna um atirador ágil. Ao mesmo tempo, isso vai despertando a loucura, como se estivesse no hotel abandonado de Jack Torrance, em O iluminado. Esta primeira parte do filme tem uma carga de tensão muito grande, mesmo com as várias músicas de corrida entoadas por Hartman e sua implicância com Pyle ser tão exagerada que parece até às vezes caricata, e encerra-se de forma trágica, depois de Hartman distribuir as funções para cada um e gritar com Joker(Matthew Modine (um ator bastante frio, o que prejudica a empatia do espectador),: “Você é um assassino, não um escritor”, quando ele é destacado para trabalhar na área jornalística da guerra. Kubrick, no entanto, neste treinamento, quer mostrar, como em outros filmes seus – a começar pelo principal, 2001 –, a solidão do ser humano, sobretudo quando diante de situações adversas e num lugar desconhecido e árido. Além disso, as atuações de Ermey (única indicação do filme ao Oscar, como atriz coadjuvante) e D’Onofrio são extraordinárias.
Na segunda parte, integrantes do pelotão treinado por ele, tendo à frente o personagem Joker, que fazia parte da tropa de Hartman e de Pyle e agora está no front da batalha do Vietnã, trabalhando como jornalista no periódico Stars and Stripes, ao lado do fotógrafo Rafterman (Kevyn Major Howard). No entanto, ele é chamado para o campo de batalha, onde poderá reencontrar seu amigo Cowboy (Arliss Howard).

Tendo no capacete o dizer “Born to kill” e um símbolo da paz grudado no colete, ele é advertido a responder se ele leva a sério aquilo. Ele diz se tratar do retrato da dualidade humana, de acordo com as teorias junguianas. Ele também é obrigado a conviver finalmente com a loucura que chegou a Pyle antes do ingresso na guerra e passa a integrar a tropa a partir de determinado momento coordenada pelo amigo Cowboy, na qual há o provocador Animal Mother (Adam Baldwin), que chega a uma cidade em ruínas, onde os soldados estão sendo mortos por um atirador isolado.
Apesar da falta de ação no entreato do filme – em que se mistura uma narração jornalística, com pelo menos uma sequência que lembra M.A.S.H., de Robert Altman, mostrando o absurdo da guerra –, a meia hora final possui certo suspense, que o torna brilhante – com uma feroz ironia na canção lembrada pelos soldados sobre as ruínas vietnamitas. Além de cenas de impacto (como a invasão de um homem-bomba em determinado momento, ou um soldado norte-americano que mata vietnamitas a esmo em um helicóptero e ainda quer matéria da revista). Síntese de um diretor que realiza imagens emocionantes e opta muitas vezes, pela falta de diálogos – o que ajudaria num filme de guerra como este. Pauline Kael falou que o espectador não fica estupefato com a visão de Kubrick sobre a guerra,  mas com o vazio dessa visão, e ela tem razão nesse sentido em alguns momentos (embora no mesmo ano ela elogiasse Esperança e glória, interessante, destituído de ritmo). Parece não haver, a princípio, uma clara ponte de ligação entre a primeira e a segunda partes. No entanto existe. Hartman, no início, debocha de seus novos soldados, com referências depreciativas à figura da mulher e a atiradora que encurrala a tropa de Cowboy e mata dezenas de soldados norte-americanos não deixa de ser uma resposta, para Kubrick, à linguagem de Hartman e, posteriormente, dos soldados.

Do mesmo modo, Joker é obrigado, como no momento em que Pyle toma a atitude no fim da primeira parte, a encarar a morte de frente, em outra situação, e ouvir uma pergunta que não conseguiu fazer quando ameaçado por aquele que o via como amigo. A direção de arte é outro elemento que ao mesmo tempo aproxima e afasta as duas partes. Se a primeira parte tem ambientes simétricos, como o local em que ficam os soldados, com as camas armadas paralelamente, e os lençóis devem ser alinhados perfeitamente, a dispersão e o caos sobrepujam qualquer outra coisa. Também não parece deliberado que Kubrick coloque a única cena em que os personagens estão reunidos, demonstrando alguma emoção, mesmo que seja de raiva, ao final, diante da atiradora vietnamita. O que eles aprendem no quartel é justamente esquecerem qualquer emoção – no entanto, a morte impede que isso aconteça.
Kubrick é um hábil artesão e ele não dispõe as peças dessa forma sem um motivo considerável. Seus personagens são arquétipos de uma guerra enlouquecedora, e o vazio que se abate sobre eles é a representação mais contundente da falta de escape daquele universo, no qual podem para sempre se perder.

Full metal jacket, EUA, 1987 Diretor: Stanley Kubrick Elenco: Matthew Modine, Adam Baldwin, Vincent D’Onofrio, R. Lee Ermey, Dorian Harewood, Arliss Howard, Kevyn Major Howard, Ed O’Ross, John Terry, Kieron Kecchinis, Kirk Taylor, Jon Stafford, Ian Tyler, Papillon Soo, Bruce Boa Roteiro: Gustav Hasford, Michael Herr, Stanley Kubrik Fotografia: Douglas Milsome Trilha Sonora: Vivian Kubrik Produção: Jan Harlan, Michael Herr Duração: 117 min. Estúdio: Natant e Harrier Films Distribuidora: Warner Bros.

Alien – A ressurreição (1997)

Por André Dick

Muito criticado, Alien 3 veio no rastro do sucesso de Aliens e dirigido pelo talentoso estreante David Fincher (que faria depois, entre outros, SevenO curioso caso de Benjamin Button e A rede social), antes dele responsável por clipes de Madonna e Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção. No papel da tenente Ellen Ripley, Sigourney transforma-se, aqui, numa espécie de fuzileira naval. Ela volta a enfrentar um alien, muito mais veloz, num planeta-prisão, habitado por homens que seguem uma religião medieval e foram aprisionados ali por serem loucos ou psicopatas. O diretor soube criar uma atmosfera vazia e com clima claustrofóbico, tal como o primeiro da trilogia, mas com o suspense do segundo.
O fator que diferencia este Alien dos outros é a temática existencial, assinada por Vincent Ward (diretor de Navigator). Os personagens nunca agem de maneira previsível, principalmente, sobretudo os de Dance (o médico) e Dutton (o braço direito do líder da religião) e, claro, de Sigourney, emprestando um lado verossímil a um personagem que combate um monstro quase sem armas – ao contrário do segundo filme, ou seja, aproximando-se mais do original. Tem muita ação, muitos movimentos de câmera (para mostrar as perseguições), excelente maquiagem, uma boa dose de humor e apenas um problema: a curta duração.  No entanto, o final indica um desfecho para a série. Como contornar esse fato?

A resposta é dada em Alien – A ressurreição. Além de trazer de volta a tenente Ellen Ripley, interpretada por Sigourney Weaver, os produtores da Fox chamaram o francês  Jean-Pierre Jeunet para o cargo de diretor do novo Alien. Se ele era elogiado por Delicatessen e Ladrão de sonhos, requintes de apuro visual – exigência para ser diretor da série, a julgar por Scott, Cameron e Fincher –, e viria a dirigir a obra-prima O fabuloso destino de Amélie Poulain, em sua estreia de Hollywood não se deu bem. Apesar do filme ter o seu registro visual e cenários fantásticos, superiores a qualquer ficção científica atual, Alien – A ressurreição tem uma predileção pelo exagero. Isso se mostra não apenas na maneira como Ripley reaparece – e a versão estendida, com 13 minutos de cenas acrescidas ou modificadas é vital para estabelecer seu contato novamente com Newt, a menina de Aliens. A partida da história mostra cientistas numa nave espacial em 2379, a  USM Auriga, clonando a tenente Ripley, conseguindo extrair dela o embrião da rainha alien, para reprodução.

Enquanto a clone tem uma força incomum, proporcional ao do alien, os monstros da nova ninhada se rebelam contra os cientistas que os pesquisam, entre os quais Dr. Mason Wren.(JE Freeman) e Dr. Jonathan Gediman (Brad Dourif). Na nave, chega um grupo de mercenários que traz humanos para pesquisas: Ron Johner (Ron Perlman), Gary Christie (Gary Dourdan), Sabra Hillard (Kim Flowers),, Annalee Call (Winona Ryder) e Dom Vriess (Dominique Pinon).
Em alguns momentos, também no elenco – com a inclusão de Perlman e Pinon –, este Alien dialoga com o filme anterior de Jeunet, Ladrão de sonhos, com seu clima claustrofóbico e esfumaçado, como se ocorresse numa penumbra, assim como traz gráficos de experimentos laboratoriais que remetem à mesma obra.
Com um festival de mortes e violência, carrega na atmosfera, um híbrido entre gosma e pesadelo, exibindo monstros estraçalhando humanos – o que se via apenas de forma discreta, sobretudo no terceiro e, infelizmente, não o último capítulo –, seres mutantes e uma nova rainha alien, que dá a luz a um rebento assustador.

O interessante, mais de mais de 20 anos depois, é ver como alguns lances do roteiro de Joss Whedon – que havia ajudado a escrever Toy Story dois anos antes – antecipam as ideias de Prometheus, na fusão entre aliens e humanos. Embora o espectador precise obrigatoriamente aceitar a ideia de que Ripley agora é um clone com uma força descomunal, ele pode aceitar a ideia de sua amizade com Call como reflexo da lembrança que tem de Newt, o que a versão estendida do filme provoca. Isso dá razão a uma conversa mais longa entre elas depois de um embate bastante interessante da equipe contra aliens embaixo d’água, filmada com rara competência por Jeunet numa profusão visual intensa. Os casulos também parecem mais realistas neste episódio de Alien, e os monstros com um aspecto mais aterrorizante. De certa maneira, é o mais próximo do episódio inicial de 1979, com elementos do segundo de Cameron.
A fotografia de Darius Khondji  (que havia feito a da obra anterior de Jeunet, Ladrão de sonhos), os efeitos especiais e os cenários do novo filme são irrepreensíveis, assim como os outros do diretor. Na versão estendida, a curiosidade é seu final estabelecer uma ligação principalmente com Delicatessen, numa marca autoral interessante. De modo geral, sua versão estendida melhora uma produção que não foi tão recebida e merece um reconhecimento: dentro do que se propõe é uma das melhores.

Alien: resurrection, EUA, 1997 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Gary Dourdan, Michael Wincott Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: John Frizzell Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Duração: 109 min. (Versão teatral); 116 min. (Versão estendida) Estúdio: Brandywine Productions/ Twentieth Century Fox Film Corporation Distribuidora: Twentieth Century Fox Film Corporation

Destacamento Blood (2020)

Por André Dick

O diretor Spike Lee vem conseguindo manter uma média de filmes muito boa desde sua estreia em Ela quer tudo, em 1986. Depois do grande sucesso de Faça a coisa certa três anos depois, principalmente no Festival de Cannes, ele encadeou obras significativas para os anos 90, Mais e melhores blues, Febre da selva e Malcolm X. No entanto, a partir de meados dessa década, mesmo que tenhamos Irmãos do sangue e O verão de Sam, até o final dos anos 2000, Lee, refinando sua estética, basicamente reprisou os temas desses filmes, com uma breve interrupção no ótimo A última noite, sobre os efeitos do 11 de setembro. Depois de sua refilmagem mal-recebida de Oldbboy – com Josh Brolin –, ele voltou a fazer bastante sucesso com Infiltrado na Klan. Este novo filme seu, Destacamento Blood, lançado pela Netflix, vem exatamente reafirmar este novo momento.

Certamente interessado em recuperar vestígios de uma Guerra do Vietnã pouco abordada por cineastas negros, Spike Lee consegue situar os personagens de modo simples e eficiente.  Quatro veteranos de guerra afro-americanos, Paul (Delroy Lindo), intranquilo e às vezes agressivo, o tranquilo Otis (Clarke Peters), mais Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.). estão em Ho Chi Minh, Vietnã, para uma missão: recuperar barras de ouro perdidas durante a guerra, quando se envolveram numa batalha ao lado de Stormin ‘Norman (Chadwick Boseman), que não está mais entre eles. Otis reencontra uma amante dos tempos de guerra, Tiên Luu (Y. Lan), enquanto Paul recebe a visita inesperada de seu filho David (Jonathan Majors). Depois de um encontro com um francês, Desroche (Jean Reno), negociante que pode ajudá-los a esconder o valor do ouro em contas no exterior, eles partem na missão com a ajuda de Vinh (Johnny Tri Nguyen)  – que não sabe exatamente o que estão fazendo ali. No caminho para o lugar almejado, David conhece um grupo formado por Bouvier (Mélanie Thierry), Simon (Paul Walter Hauser) e Seppo (Jasper Pääkkönen).

Destacamento Blood usa diferentes tipos de formato de tela: um para representar a pré-missão, quando os amigos saem inclusive para uma discoteca com um grande painel ao fundo de Apocalypse now, de Francis Ford Coppola, homenageado também quando embarcam numa navegação por um rio ao som de “Cavalgada das Valquírias”, outro quando mostra o passado, com o grupo no campo de batalha do Vietnã; e outro no presente quando estão em missão, quando o formato de tela se preenche totalmente. O talento da fotografia de Newton Thomas Sigel, acompanhado por uma trilha sonora de Terence Blanchard e canções de Marvin Gaye, evita com que isso pareça um mero maneirismo, fazendo bem o contraponto entre a tonalidade das imagens atuais e as dos anos 70 (granuladas, em 16mm), quando lembram uma espécie de documentário, na linha de Corações e mentes. É um trabalho brilhante em alguns momentos, esteticamente apurado e bem inserido.
O início do filme é repleto de informações históricas, uma característica de Spike Lee, mas aqui, embora ele tenha sempre uma certa vontade de trabalhar suas ideias políticas, ele parece liberar um lado mais humano desses personagens, sem exatamente escondê-los por trás de um discurso.

Com uma luz natural, ele parece se inspirar na filmografia do tailandês Apichatpong Weerasethakul para mostrar uma selva vietnamita ameaçadora, mas ao mesmo tempo com templos; ainda presa ao passado, mas já com vontade de esquecer a tragédia. Porem, para Spike Lee, o que esse grupo vai procurar não é exatamente o ouro e sim o acerto de contas com seu passado. Parecem atraídos pelo sentimento de culpa, que a selva não ajuda a atenuar. E o ouro, sobretudo a partir de determinada sequência, é uma extensão da perda, do que já não pode ser recuperado – um passado feito de discursos, ouvidos no início e no final. Isso é feito sobretudo pela figura de Paul, numa atuação magnífica de Delroy Lindo, e sua relação conflituosa com o filho. Apesar de Lee não consiga trabalhar da melhor maneira os outros personagens, é possível visualizar neles de fato um grupo efetivo, com verdadeiras ligações.
Destacamento Blood é um filme raro sobre a Guerra do Vietnã porque faz dele uma espécie de memória viva de seus personagens, e nunca torna os personagens estáticos: eles mudam conforme o grau de tensão do qual vão se aproximando. Nesse sentido, se eles chegam ao Vietnã apenas com o ouro em mente, aos poucos eles vão se deparando com os efeitos da guerra também nas pessoas que ali moram – e uma discussão entre Paul e um vendedor num barco é emblemática disso. A violência vivenciada pelos negros provoca uma reação de quem também a sofreu, e a culpa parece compartilhada. Para os integrantes do grupo, a guerra foi traumatizante: eles a levaram embora, mas também mantiveram seus resquícios ali. Lee trabalha isso de maneira interessante, tornando os diálogos fluidos e as situações bastante realistas.

Se em Infiltrado na Klan havia uma certa homenagem singela ao cinema dos anos 70, aqui o objetivo não é o mesmo e, com elementos pop, o antigo companheiro é visto como uma espécie de Pantera Negra, não à toa interpretado por Chadwick Boseman, fazendo da selva uma espécie de mapa da insegurança. Pode também o efeito da “febre do ouro”, e Lee introduz isso de maneira curiosa, com uma espécie de quebra da quarta parede e alguns monólogos explicando reações anteriores.
De modo geral, Destacamento Blood é uma grande realização na trajetória desse cineasta e, se o fim não faz jus ao restante, como já havia acontecido em Infiltrado na Klan, tentando reduzir uma história complexa por meio de uma síntese de palavras e declarações excessivamente rápidas, é bem verdade que talvez seja isto que atraia os olhares para o cinema de Spike Lee. Como em Faça a coisa certa, parece que o melhor do cinema dele é o conflito. Não é. Quando o espectador percebe que ele trata de um universo mais denso, é interessante voltar a ele: há algo profundamente humano e inexplicado por qualquer discurso no roteiro de Destacamento Blood.

Da 5 Bloods, EUA, 2020 Diretor: Spike Lee Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr, Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Jean Reno, Chadwick Boseman Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Spike Lee, Kevin Willmott  Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: Terence Blanchard Produção: Jon Kilik, Spike Lee, Beatriz Levin, Lloyd Levin Duração: 155 min. Estúdio: 40 Acres and a Mule Filmworks, Rahway Road, Lloyd Levin/Beatriz Levin Production Distribuidora: Netflix

Melhores filmes de 2020 (até agora)

Por André Dick

O Cinematographe publica uma lista pessoal dos melhores filmes até agora lançados internacionalmente em 2020, nos cinemas, VOD e streaming. Não inclui filmes lançados internacionalmente em 2019 e que chegaram ao Brasil este ano. Não sabia se seria possível fazer uma lista antecipada por motivos evidentes, como é de costume a cada ano neste espaço. São incluídos dois curta-metragens, um de David Lynch e outro de Olivia Wilde, pela qualidade. A lista será atualizada à medida que forem sendo vistas novas produções, algumas delas lembradas abaixo, se não houver novos adiamentos.

1. Pinóquio (Matteo Garrone)
2. Wendy (Benh Zeitlin)
3. Capone (Josh Trank)
4. Má educação (Cory Finley)
5. O chalé (Veronika Franz e Severin Fiala)
6. A vastidão da noite (Andrew Patterson)
7. Devorar (Carlo Mirabella Davis)
8. Emma (Autumn de Wilde)
9. Vivarium (Lorcan Finnegan)
10 Dois irmãos – Uma jornada fantástica (Dan Scanlion)
11. A última coisa que ele queria (Dee Ress)
12. Ya no estoy aquí (Fernando Frias)
13. Aves de Rapina – Arlequina e sua emancipação fantabulosa (Cathy Yan)
14. O caminho de volta (Gavin O’Connor)
15. O pássaro pintado (Václav Marhoul)

Menções honrosas: 16. Troco em dobro (Peter Berg) 17. O chamado da floresta (Chris Sanders) 18. Big time adolescence (Jason Orley) 19. Wake up (Olivia Wilde) 20. Maria e João – O conto das bruxas (Osgood Perkins) 21. Um crime para dois (Michael Showalter) 22. What did Jack do? (David Lynch) 23. Sonic – O filme (Jeff Fowler) 24. Ameaça profunda (William Eubank) 25. SCOOBY! O filme (Tony Cervone)

Filmes a serem vistos: Mulan (Niki Caro), Duna (Denis Villeneuve), Mulher-Maravilha 1984 (Patty Jenkins), Amor, sublime amor (Steven Spielberg), The French dispatch (Wes Anderson), Destacamento Blood (Spike Lee), Tenet (Christopher Nolan), Viúva Negra (Cate Shortland), Top Gun: Maverick (Joseph Koskinki), The new mutants (Josh Boone), Um lugar silencioso – Parte II (John Krasinski), Greyhound (Aaron Schneider), Free Guy – Assumindo o controle (Shawn Lewy), Soul (Pete Docter, Kemp Powers), Mank (David Fincher), 007 – Sem tempo para matar (Cary Joji Fukunaga), The last planet (Terrence Malick)

A vastidão da noite (2020)

Por André Dick

Lançado pela Amazon Prime, A vastidão da noite acompanha dois personagens desde o momento em que estão no ginásio da pequena cidade onde moram, Cayuga, nos anos 50, na qual vai acontecer um jogo de basquete: a operadora de telefonia Fay Crocker (Sierra McCormick) e o DJ de rádio Everett (Jake Horowitz). Eles saem para seus respectivos trabalhos em seguida. Surge um som estranho tanto na mesa de telefonia quanto na rádio, ao mesmo tempo que acontece um jogo de basquete. O diretor estreante Andrew Patterspn situa a história como um episódio de  Paradox Theatre , uma série de TV nos moldes de Além da imaginação, ou seja, seu filme parte da ideia de que estamos vendo um episódio independente, apostando numa certa metalinguagem.

Nesse sentido, A vastidão da noite é um filme para quem gosta de experimentos na linha dessa série antológica e de Histórias maravilhosas, a série de Spielberg, assim como No limite da realidade, versão em longa-metragem da primeira série. É conciso, bem escrito e tem ótima atmosfera, com o acréscimo de uma movimentação de câmera notável Começa de maneira lenta, acompanhando esses dois personagens caminhando pelas ruas da cidade quando cada objeto luminoso, principalmente as lâmpadas da rua, parecem lembrar OVNIs. Nesse ritmo, Patterson vai construindo uma atmosfera acolhedora e, ao mesmo tempo, ameaçadora, assim como lida muito bem com certo design de época, que remete a Loucuras de verão de George Lucas e Zodíaco, de Fincher. Os personagens falam sobre assuntos triviais, mas o espectador tem sempre a sensação de algo está para acontecer.

Vai crescendo com sucessão de referências a um acontecimento numa cidadezinha, mas tudo muito íntimo, nada espetacular. A primeira conversa de Everett com um senhor que diz que sabe de histórias relacionadas a disco voadores é, em sua simplicidade, uma grande arte na maneira de prender o espectador a um tema já explorado quase de forma incansável em outros filmes – e o primeiro que vem à mente é justamente Contatos imediatos do terceiro grau. Num momento também em que mistérios ligados ao espaço sideral já foram todos trabalhados por uma série como Arquivo X, A vastidão da noite injeta nessa simplicidade, sem grandes adereços, justamente sua personalidade.
O uso de efeitos sonoros e da trilha sonora de Erick Alexander e Jared Bulmer é bem feito, moldando momentos de tensão que parecem surgir do nada. Trata-se de uma obra que pode ser prejudicada pelo hype inicial que está tendo, mas, dentro do que se propõe, é efetiva. Lembra um cinema mais modesto, sem grande orçamento, baseado em pequenos gestos e truques de iluminação, quase caseiro em alguns momentos, sem deixar de ser rico no design de produção. Passado no Novo México e com referência à rua Sicômoro, típica de Twin Peaks, de David Lynch, onde mora uma senhora que também tem informações sobre possíveis criaturas do espaço, Não entraria em detalhes sobre aspectos da trama; o que se pode dizer é que o cineasta consegue, por meio de vários monólogos, extrair uma trama e uma tentativa de explicação para os fatos encadeados.

A vastidão da noite pode ser também entendido sob a luz do episódio 8 magnífico do retorno da série do cineasta de Cidade dos sonhos. Nesse episódio 8, que contava, depois da explosão de uma bomba atômica no deserto, vinham almas do espaço (ou do além) abordar uma rádio – afetando os habitantes de uma cidadezinha apenas por meio do que uma delas dizia no microfone da rádio. Patterson utiliza essa ideia de Lynch para expandir seu universo e também se pode, no ato final, lembrar de certos elementos de Veludo azul, na figura curiosa de Kyle MacLachlan sobre o que acontece em sua cidadezinha Lumberton; Não apenas uma sequência passada num carro lembra isso, como também uma que se desloca para o meio de uma floresta. É interessante imaginar como seria se Lynch voltasse a fazer uma ficção científica, como realiza no episódio 8 inspirador de Twin Peaks – O retorno, sem a grandiosidade de Duna dos anos 80, mais introspectiva. Se não vemos isso, pelo menos conhecemos algo parecido: o que Patterson faz, com inegável brilho, numa estreia mais do que promissora.

The vast of night, EUA, 2020 Diretor: Andrew Patterson Elenco:  Sierra McCormick, Jake Horowitz, Gail Cronauer, Bruce Davis, Cheyenne Barton, Gregory Peyton, Mallorie Rodak, Mollie Milligan, Ingrid Fease, Pam Dougherty Roteiro: James Montague e Craig W. Sanger Fotografia: M.I. Littin-Menz Trilha Sonora: Erick Alexander e Jared Bulmer Produção: Andrew Patterson, Melissa Kirkendall, Adam Dietrich Duração: 88 min. Estúdio: GED Cinema Distribuidora: Amazon Studios

Superman II – Corte de Richard Donner (2006)

Por André Dick

Neste momento em que Zack Snyder vai conseguir finalmente trazer à cena sua versão original para Liga da Justiça, que teve, depois de um afastamento conturbado seu, uma finalização de Joss Whedon, o diretor de Os vingadores, é interessante lembrar do caso de Superman II. Ele foi feito por Richard Donner ao mesmo tempo que o primeiro, lançado em 1978, mas sua versão de fato não foi lançada nos cinemas em 1980. Em razão de os produtores Alexander e Ilya Salkind não pretenderem pagar um acréscimo financeiro para Marlon Brando, que fazia o pai de Superman, Jor-El, que já tinha feito cenas para o segundo, Donner não aceitou sua exclusão, foi afastado e substituído por Richard Lester, que, para poder assinar o filme, teve de realizar ou refazer ao menos 51% das cenas dele. A versão de Donner foi lançada apenas em 2006 em Blu-ray e DVD, incluindo as cenas com Brando e, apesar de conter quase todas as cenas da versão do cinema, não têm algumas acrescentadas por Lester e possui outras que mudam o significado.
Donner é uma diretor especialista em filmes de ação com drama e comédia, o que pode ser constatado em filmes como Os GooniesMáquina mortífera. Em Superman, ele estabelece um padrão para o que viria na década seguinte, com o Batman, de Tim Burton, e com certo bom humor recente e vertiginoso de Os vingadores, de Joss Whedon. O Superman de Reeve, e isso se deve sobretudo à visão de Donner, é, sobretudo, alguém indefinido entre tempos diferentes: ao mesmo tempo em que conserva um ar dos anos 40, 50, ele consegue efetuar uma transição para os momentos em que precisa enfrentar seu maior inimigo, Luthor,de maneira plausível.

Na versão de Donner para Superman II, é estabelecida uma conexão diretamente com o final do primeiro. Se na versão de Lester Zod (Terence Stamp), Non (Jack O’Halloran) e Ursa (Sarah Douglas ), expulsos de Krypton no início do original, eram libertados de sua prisão numa espécie de espelho gigante pela explosão de uma bomba tirada pelo Superman da Torre Eiffel, na versão de Donner eles já se libertam com a explosão do míssel teleguiado por Lex Luthor levado ao espaço sideral pelo super-herói antes de fazer o tempo voltar. A versão de Donner reprisa também mais claramente a expulsão de Zod, Non e Ursa por Kal-El (Marlon Brando), enquanto na versão de Lester era mais rápida e quase incompreensível.
Por sua vez, as cenas iniciais no Daily Planet são muito mais interessantes na versão de Donner, não apenas pela fotografia de Geoffrey Unsworth, como pela tentativa de Lois (Margot Kidder) descobrir se Clark Kent (Christopher Reeve) é Superman, primeiro pintando uma foto do super-herói com os óculos e terno do parceiro de trabalho e depois jogando-se do prédio – o que inexiste na versão exibida nos cinemas. Clark está cada vez mais próximo de Lois e ambos, inclusive, vão viajar juntos para as cataratas do Niágara. Na versão de Lester, este trecho se prolonga; com uma cena buscando comicidade na figura de um funcionário do hotel onde se hospedam, na de Donner é mais sintética. No filme assinado por Lester, é quando Lois tenta provar que Clark é Superman, atirando-se nas águas do Niágara. Ele está cansado de ser herói, deseja ser humano, e, para isso, volta às suas origens, à Fortaleza da Solidão, em que está a explicação do seu passado, para tentar ser igual aos demais seres humanos.

Lá estiveram antes Luthor e sua assessora Eve Teschmacher (Valerie Perrine) – na versão de Lester conversando com a mãe, Lara (Sussanah York), de Superman; na de Donner, com seu pai. No entanto, chegam os três criminosos à Terra depois de uma passagem pela Lua (que aparece nas duas versões): coronel  Zod, Non e Ursa, mandados embora de Krypton no início do primeiro filme, condenados por Jor-El, e eles vão querer perturbar a população, sobretudo o filho de quem os mandou embora, tendo como aliado Lex Luthor. Luthor tenta chegar às origens do herói, a fim de tentar encobri-lo com sua tentativa de romper o mundo. Mas sua relação com Superman é estranha: ao mesmo tempo que proporciona doses de violência, sobretudo moral, ele não consegue se posicionar como um vilão todo o tempo, e tenta disfarçar com uma ironia seca seu objetivo (e Hackman não quis refazer nenhuma de suas cenas com Lester; aquelas em que aparece foram todas filmadas por Donner).
A questão é como o herói voltará a ser como era antes. Como observa Pauline Kael, “as transições de Clark Kent para Super-Homem e vice-versa agora são números cômicos bem acabados”. Nesse sentido, se a versão de Lester é mais cômica, a de Donner é mais séria, com a presença de Marlon Brando e sequências mais impressionantes (como a inicial). Donner dosa a humanidade de Clark sem torná-la superficial ou maniqueísta (na interpretação talentosa de Reeve). É interessante como os vilões também conseguem ficar no limite do bom humor aceitável, principalmente em sequências com duelos militares e na famosa invasão da Casa Branca -os primeiros numa cidade do interior feitas exclusivamente por Lester.

Há muitas cenas de ação de destaque, efeitos especiais melhores do que o primeiro, e no todo trata-se de uma continuação divertida, apoiado novamente num roteiro de Mario Puzo (criador de O poderoso chefão), com a colaboração de David e Leslie Newman. E a versão de Donner conta com a fotografia de Geoffrey Unsworth, que fez a do primeiro e faleceu em 1979; as cenas modificadas ou acrescentadas por Lester têm a fotografia de Robert Paynte, não tão talentoso. Não existe também, na versão de Lester, a melancolia impregnada por Donner nas bordas de suas versões: o seu Superman é, ao mesmo tempo, um herói e alguém realmente trágico, não com rompantes para o humor exagerado. A maneira como Clark recupera seus poderes com a ajuda do pai é definitiva. Jor-El parece abandoná-lo quando surge do além e lhe transmite os poderes de volta. Não que Lester não perceba a essência dele, mas é certo que Donner consegue desenhá-la de maneira mais adequada, assim como sua relação conflituosa com o pai que não conheceu e com a dualidade entre alguém de outro planeta e o humano. Se eu fosse indicar uma versão do filme, seria a de Donner lançada em 2006.

Superman II – The Richard Donner Cut, ING/EUA, 2006 Diretor: Richard Donner Elenco: Christopher Reeve, Gene Hackman, Marlon Brando, Ned Beatty, Jackie Cooper, Sarah Douglas, Margot Kidder, Valerie Perrine, Susannah York, Terence Stamp, Jack O’Halloran Roteiro: Mario Puzo, David e Leslie Newman Fotografia: Geoffrey Unsworth e Robert Paynte Trilha Sonora: John Williams  Produção: Pierre Spengler e Michael Thau Duração: 117 min. Distribuidora: Warner Bros.

300 (2006)

Por André Dick

Na virada do século, o filme Gladiador, de Ridley Scott, retomou a ideia de um cinema épico baseado na ideia de homens lutando em arena. O personagem principal, Maximus, cujo intérprete, Russell Crowe (ganhador do Oscar de ator), faz crer numa volta a um tempo clássico, de Spartacus, é um fiel seguidor de Marcus Aurelius (Richard Harris), imperador de Roma, mas é traído e se torna um gladiador. Roma passa a ser governada por um tirano, Commodus (Joaquin Phoenix), o filho de Marcus Aurelius. Ridley Scott consegue transformar o argumento em imagens antológicas de lutas em arenas, com atuação eficiente de todo o elenco (cada personagem é tratado de forma nada unidimensional). A direção de arte e os efeitos especiais também são de muita consistência, sobretudo porque estamos diante de um filme de época, que leva o espectador por algumas horas numa volta a um tempo histórico, com uma trilha sonora magnífica de Hans Zimmer e Lisa Gerrard, além da fotografia irretocável de John Mathieson.

Em Madrugada dos mortos, a refilmagem do clássico dos anos 70 dirigido por George Romero, que marca a estreia na direção de Zack Snyder, baseado num roteiro de James Gunn, que viria a dirigir Guardiões da galáxia, o diretor não mostra completamente seu estilo, no entanto consegue extrair situações interessantes de um panorama caótico. Seu real estilo viria a partir de 300, que ingressou exatamente nesse universo suscitado por Scott, remetendo também a Os 300 de Esparta.
A mitologia greco-romana sempre atraiu o olhar de cineastas com interesse pelo trabalho narrativo e pela questão visual: tivemos nos anos 80 Fúria de titãs, precursor de muitos elementos do campo de efeitos visuais, assim como sua refilmagem nos anos 2010, e Tróia, o grandioso experimento de Wolfgang Petersen.
Snyder adaptou 300 com fidelidade à HQ de Frank Miller, e o elenco oferece um desempenho dedicado. O filme inicia mostrando a infância do rei Leônidas: aos 7 anos, é afastado de sua mãe para iniciar o agogê, período de privações a que os cidadãos de Esparta são levados.

Depois de 30 anos, um mensageiro persa (Peter Mersah) chega a Esparta falando que Xerxes I (Rodrigo Santoro) quer dominar a território – assim como outros povoados gregos à época. Leônidas (Gerard Butler), casado com a Rainha Gorgo (Lena Headey), decide aniquilar toda a comitiva. Sendo período da festa de Carneia, ele seleciona 300 homens de sua guarda para enfrentar os invasores da Pérsia – levando-se em conta que em Esparta os homens eram treinados para lutar em batalhas. A seu lado, estão Stellios (Michael Fassbender), Dilios (David Wenham), Capitão Artemis (Vincent Regan) e seu filho Astinos (Tom Wisdom). Mas contra está o político Theron (Dominic West). Tudo tem como centro a Batalha das Termópilas de 480 a.C.
Com poucos diálogos (sendo uma obra essencialmente de batalhas) e trama não trabalhada de forma suficiente, na qual o rei Leônidas enfrenta, com seus homens, o exército persa de Xerxes. 300 se sente, mais do que outros filmes de Snyder acusados disso, mais estilo do que substância. A violência prepondera do início até o fim, principalmente na segunda metade em larga escala, e Snyder usa e reusa a câmera lenta para criar cenas de impacto – e ainda assim muitas sem o peso emocional necessário. Há uma tentativa de traçar duelos políticos e uma certa privação da mulher num universo predominantemente masculino, e Snyder faz isso ligando os personagens a uma certa tentação pelo que pode levá-los à queda. O rei Xerxes – com uma voz acentuadamente estranha de Rodrigo Santoro – é o símbolo de uma espécie de avanço do pecado contra uma comunidade que, longe de ser ingênua, ainda tenta conservar seus integrantes.

Como no seu filme de estreia, Snyder tem noção de cenas de ação e da potência dos embates, além do cuidado uso de efeitos sonoros capazes de amplificar a atmosfera, mas ainda lhe falta uma certa reflexão que viria com Watchmen, em sua lentidão. Ainda assim, é um estilo único, e pode-se dizer que os quadrinhos de Miller são traduzidos em perícia visual de um modo que dificilmente seria visto novamente, nem mesmo em sua sequência, quase uma década mais tarde, com Eva Green como a grande vilã. Isso se deve também ao trabalho de fotografia de Larry Fong, que voltaria a trabalhar com Snyder em Batman vs Superman, utilizando os recursos do CGI para iluminar cada cena de maneira grandiosa e tentando buscar comparações diretas da pintura. É aí que a obra de Snyder cresce em retrospectiva, aliando atuações boas num cenário de batalha devastador que não faz o espectador esquecer daquilo pelo qual esses homens estão lutando, colocando em questão diálogos sobre honra, traição, fidelidade e amor cercado pela morte.

300, EUA, 2006 Diretor: Zack Snyder Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West Roteiro: Zack Snyde, Kurt Johnstad, Michael B. Gordon Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Gianni Nunnari, Mark Canton, Bernie Goldman Jeffrey Silver Duração: 116 in. Estúdio: Legendary Pictures, Virtual Studios, Atmosphere Pictures, Hollywood Gang Productions
Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Má educação (2020)

Por André Dick

Em 2017, o diretor Cory Finley se destacou no cinema independente com Puro-sangue, um duo entre duas ótimas atrizes, Olivia Cooke e Anya Taylor-Joy, como figuras que pretendiam concretizar um plano capaz de assustador mesmo o espectador mais exigente. Em 2020, estreou no Festival de Tribeca Má educação – mesmo nome de um filme de Pedro Almodóvar, de 2004 –, que tem como espaço principal a Roslyn High School.
Baseado numa história real, com roteiro de Mike Makowsky a partir do livro “The Bad Superintendent”, de Robert Kolker, Finley utiliza seu mesmo talento para a composição de imagens de seu filme anterior, mas amplia o escopo ao introduzir uma série de personagens que acabam formando um grande panorama. Desde o início, ele acompanha Francis A. Tassone (Hugh Jackman), superintendente do Roslyn High School. Ele recebe em sua sala uma aluna, Rachel Bhargava (Geraldine Viswanathan), que trabalha para o jornal de estudantes, liderada por Nick Fleischman (Alex Wolff).

A menina se mostra despretensiosa e ouve um conselho dele: transformar sua matéria em algo mais instigante do que pretende. Esse início demonstra exatamente o que Má educação acaba se transformando: a princípio um retrato normal de um local onde circulam jovens alunos, mistura-se depois a uma visão sobre como o ensino interfere na vida deles, mesmo que de forma indireta e com detalhes financeiros.
Tassone é muito amigo de sua assistente Pamela Gluckin (Alisson Janney), que, no entanto, esconde um segredo. Tasssone e  Big Bob Spicer (Ray Romano) tentam a princípio abafar a questão, no entanto ela é incontornável para que a escola continue buscando uma boa pontuação e levando cada vez mais seus alunos a universidades de respeito. Com isso, Tasson busca uma saída para o problema com o auditor (Jeremy Shamos), enquanto Glummick tem problemas com o filho James D. McCarden (Jimmy Tatro), que deixa rastro de algo comprometedor. A aluna Bhargava passa a investigar o que está sendo investido e descobre uma passarela milionária, enquanto o prédio tem goteiras. Isso é uma ideia inicial da teia que alimenta uma série de comportamentos questionáveis.

Tassone se mostra um ex-professor dedicado ao ofício e preocupado, quando também reencontra um antigo aluno Kyle Contreras (Rafael Casal ) numa viagem a Las Vegas. A partir daí, Finley ingressa numa espécie de estudo de personagem. O roteiro de Mike Makowsky colabora para atingir o objetivo – tendo sido ele, inclusive, aluno da Roslyn High School quando aconteceu o que Má educação revela.
Para que este estudo se concretize, Hugh Jackman parece mostrar a grande atuação de sua carreira, um pouco além de outras, como aquela de Os miseráveis. Há uma série de modulações em seus gestos e tom de voz que captam cada objetivo do diretor a fim de que a narrativa se destine a pontos até então imprevistos. Jackman, em parceria com Janney e Romano, também, mostra como um ator pode se moldar a seu tempo, apresentando um talento às vezes insuspeito em outros papéis. Mais conhecido por ter interpretado Wolverine, Jackman atinge a maturidade de sua trajetória, não temendo se mostrar envelhecido e num papel polêmico.

Muitas vezes inspirado na filmografia de Alexander Payne, especialmente Eleição, no qual um professor tinha problemas exatamente com alunos candidatos a liderar seus colegas numa escola, Má educação mostra a ambição num universo visto como de respeito e dedicação ao ensino – e lida com os personagens e seus erros de maneira humana, sem impedir o espectador de acessar o sentimento deles, de os outros perceberem suas trapaças ou simplesmente a angústia provocada pela situação em que se envolveram. Esses professores se dedicam à escola, querem torná-la respeitada, tanto pelos alunos quanto pelo corpo de pais, no entanto isso a custo de uma ambiguidade manifesta nos diálogos de Mike Makowsky. Como lidar com figuras tão contraditórias é uma questão que permeia a narrativa, com uma indefinição entre tentativa de alcançar a felicidade ou apenas sentir um alívio diante da culpa pelos atos. Há uma sensibilidade latente no conjunto de cenas entre Jackman e Janney, por exemplo, quando suscitam uma amizade que pode ser emperrada por algo maior. Finley constrói alguns planos simetricamente, como fazia em Puro-sangue, mas sem tantos maneirismos, embora continue utilizando a trilha sonora para pontuar bem suas escolhas. Como um filme que poderia ficar restrito a um universo mais indie, Má educação atinge o público de maneira universal a partir do espaço de uma escola.

Bad education, EUA, 2020 Diretor: Cory Finley Elenco: Hugh Jackman, Allison Janney, Geraldine Viswanathan, Alex Wolff, Rafael Casal, Stephen Spinella, Annaleigh Ashford, Ray Romano Roteiro: Mike Makowsky Fotografia: Lyle Vincent Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Fred Berger, Brian Kavanaugh-Jones, Julia Lebedev, Mike Makowsky, Oren Moverman, Eddie Vaisman Duração: 108 min. Estúdio: Automatik, Sight Unseen, Slater Hall Distribuidora: HBO Films

Jerry Maguire (1996)

Por André Dick

O diretor Cameron Crowe vinha de uma juventude trabalhando como repórter de música da Rolling Stone quando teve um roteiro seu filmado por Amy Heckerling em Picardias estudantis. Em Digam o que quiserem, ele estreou como diretor, mostrando uma história interessante sobre um jovem (John Cusack) que se apaixonava por uma colega de escola, enfrentando uma situação inusitada quando o pai dela se envolvia em problemas. Seu segundo passo foi o curioso Vida de solteiro, situado na cena grunge de Seattle dos anos 90; Finalmente, em 1996, ele deu o passo adiante em sua trajetória com Jerry Maguire. Indicado aos Oscars de melhor filme, roteiro original, ator (Tom Cruise) e edição e que proporcionou a estatueta de melhor coadjuvante ao ótimo Cuba Gooding Jr. Seu diretor, Cameron Crowe, já havia prestado uma homenagem à juventude descompromissada em Vida de solteiro e acerta, neste filme, no coração juvenil americano, com uma história ao mesmo tempo simples e exagerada (spoilers a partir daqui).

O agente esportivo Jerry Maguire (Cruise) redige um manual endereçado aos colegas de profissão, em que pede que os atletas em geral sejam mais valorizados. A princípio aplaudido, ele logo é despedido de sua agência por um colega inescrupuloso, Bob Sugar (Jay Mohr), que acaba roubando também sua agenda de esportistas que agencia. Na despedida do emprego, uma moça, Dorothy Boyd (Renée Zellweger) decide acompanhar Maguire em carreira solo. Namorado de Avery Bishop (Kelly Preston), uma mulher ambiciosa, o cliente que lhe resta é um jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba), mas ainda tenta se manter agente de  Frank “Cush” Cushman (Jerry O’Connell), influenciado por seu pai, Matthew (Beau Bridges). Mãe solteira, Dorothy vai se interessar por Maguire e, a partir daí, o filme se torna, além de bem-humorado, romântico. O filho de Dorothy, Raymond (Jonathan Lipnicki) começa a gostar de Maguire como o pai que lhe faltava. No entanto, a irmã de?Dorothy, Laurel (Bonnie Hunt), está com receio do envolvimento dela com o novo chefe.

Ela costuma se reunir com amigas em sua sala de casa para falar sobre problemas que tiveram com seus parceiros – e Maguire parece como um intruso nesse cenário. Afogado em dívidas, ele é traído várias vezes, mas sabe que tem o perfil da superação.  Com intervalos pop, muito bem feito. Maguire e Dorothy se aproximam de Rod e sua mulher, Marcee (Regina King), tornando-se amigos e dividindo os problemas.
Jerry Maguire possui quase todos os elementos da filmografia de Crowe, cada vez mais usuais em Quase famosos, Compramos um zoológico e Sob o mesmo céu. Mesmo não sendo o melhor personagem de Cruise no cinema (que continua sendo Ron Kovic, de Nascido em 4 de julho), Maguire ainda assim é uma composição interessante que dá valor especial a esta obra de Crowe. Sua parceria com Zellweger, além disso, é muito boa, e funciona principalmente nos momentos de comicidade, auxiliado, às vezes, por uma ótima Regina King. No mesmo caminho, o trabalho de fotografia de Janusz Kamiński, hoje habitual colaborador de Steven Spielberg, faz uma mescla entre a iluminação de manhãs e uma atmosfera acolhedora noturna, quando, por exemplo, Maguire se prepara para ir a um restaurante com Dorothy. São momentos que Crowe sublinha com sua insuspeita em mostrar um mundo positivo, mesmo com personagens em meio a dificuldades. Cada um deles vai tentando estabelecer relações em meio a um cenário no qual os valores determinam seguir um rumo diferente, porém Crowe nunca perde de vista a humanidade investida em pequenas ações e gentilezas que movem a narrativa.

Em meio a isso, cresce o dueto de Cruise com Cuba Gooding Jr., um dos mais expressivos da década de 90 – principalmente manifestos em diálogos sobre a superação e especialmente nos bastidores de um comercial do jogador.. Há uma notável agilidade na maneira como Crowe utiliza esse personagem para visualizar o sonho americano, reproduzido tanto por Maguire como agente quanto por Rod como jogador e Dorothy como uma mulher que pretende criar independência estabelecendo laços. Há um romantismo dos anos 99 na história que em parte se perdeu a partir deste século, muitas vezes ingênuo, mas nunca menos do que autêntico. Crowe também possui uma tendência a relatar histórias otimistas, como mostra com o universo do rock em Quase famosos, sempre fazendo seus personagens atuarem com um elo de ligação muito claro com seu público.

Jerry Maguire, EUA, 1996 Diretor: Cameron Crowe  Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr, Renée Zellweger, Kelly Preston, Regina King, Jerry O’Connell, Jay Mohr, Bonnie Hunt, (Jonathan Lipnicki, Beau Bridges Roteiro: Cameron Crowe Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Nancy Wilson Produção: Cameron Crowe, James L. Brooks, Laurence Mark, Richard Sakai Duração: 139 min. Estúdio: TriStar Pictures, Gracie Films, Vinyl Films Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Encontros e desencontros (2003)

Por André Dick

No seu segundo filme, Encontros e desencontros, Sofia Coppola tenta fazer uma comédia agridoce depois de seu vital As virgens suicidas – que consegue contrabalançar as estranhezas com magníficas atuações de Kirsten Dunst e James Woods – e consegue, tornando-se uma referência, que manteria com Maria Antonieta e Um lugar qualquer (que se parece com este em sua estrutura de tédio). Enquanto o casal do filme combina, mesmo bastante diferente (Bill Murray e Scarlett Johansson), o roteiro, também escrito por Sofia, em grande parte, encadeia uma sucessão de momentos soltos da vida de ambos. O filme parece entrar na onda de seu título original (“Perdido na tradução”) e tenta dar a impressão apenas do deslocamento de um ator de Hollywood, Bob Harris (Bill Murray), que está no Japão para rodar um comercial de uísque por 2 milhões de dólares, e Charlotte (Scarlott Johansson), que faz pós-graduação em Filosofia pela Yale e é abandonada no hotel por seu marido, John (Giovanni Ribisi), fotógrafo de moda.

A realização tenta ser contemporânea: nunca vemos os personagens em situações forçadas e a trilha (com elementos indie e dos anos 80) remete a um sentimento de existência solitária numa cidade grande. Esta grande qualidade do filme acaba sendo também seu lado menos atrativo: o espectador não é atraído por nenhum conflito; pelo contrário, a experiência de assisti-lo parece ser a mesma dos personagens que perambulam por ele, em busca de uma razão para entender o outro e o diferente. Murray tem grande tendência para atuações patéticas, e neste filme ele tenta sublimá-las com seu melhor momento, sobretudo num momento em que tenta correr na esteira. As cenas em que filma a propaganda sem entender japonês é divertida e constrangedora por causa dele (embora saibamos que um astro como ele andaria com um tradutor, ou seja, há buracos substanciais no roteiro, que, no entanto, conseguem fornecer um certo aspecto indeterminado).

Bob conhece Charlotte no bar do hotel e logo fazem amizade. Quando voltam a se encontrar nas noites seguintes, ela o convida para participar de uma festa com outros jovens. Em clima de melancolia e de crise da meia idade, Bob Harris cria um interesse platônico por Charlotte. Isso se costura mais por meio de imagens do que palavras, e certamente é esta saída que deu a Sofia o Oscar de melhor roteiro original.
No seu livro referencial sobre o Japão, O império dos signos, e entendo que Sofia o leu antes de escrever o roteiro, Roland Barthes escreve – e poderia servir para o casal formado por Bob e Charlotte e suas peregrinações: “A cidade de que falo (Tóquio) apresenta este paradoxo precioso: possui certamente um centro, mas esse centro é vazio. A cidade toda gira em torno de um lugar ao mesmo tempo proibido e indiferente, morada escondida pela vegetação, protegida por fossos de água, habitada por um imperador que nunca se vê, isto é, literalmente, por não se sabe quem. Diariamente, em sua circulação rápida, enérgica, expeditiva como a linha de um tiro, os táxis evitam esse círculo, cuja crista baixa, forma visível da invisibilidade, oculta o ‘nada’ sagrado. Uma das duas cidades mais poderosas da modernidade é, portanto, construída em torno de um anel opaco de muralhas, de águas, de tetos e de árvores, cujo centro nada mais é do que uma ideia evaporada, subsistindo ali não para irradiar algum poder, mas para dar a todo o movimento urbano o apoio de sue vazio central, obrigando a circulação a um perpétuo desvio. Dessa maneira, dizem-nos, o imaginário se abre circularmente, por voltas e rodeios, ao longo de um sujeito vazio” (Tradução de Leyla Perrone-Moisés, p. 46)

É em meio a esse “anel opaco de muralhas, de águas, de tetos e de árvores” que transcorre o filme de Sofia. A distância que Bob sente da jovem pelo qual é atraído, de qualquer modo, é a mesma que ele tem por esse país distante: a vontade de tocá-la é a mesma de esquecer que está distante, mas que quer voltar, pela liberdade que ele concede. O casal vai a um karaokê, anda por Tóquio animado (num momento indie), a uma boate, com seus neons, volta ao quarto de hotel, apanhando um elevador e dorme abraçado, introspectivamente. O que importa a eles é a companhia, nada mais, por isso tanta densidade nessa aproximação. Mesmo a amiga de Bob, a atriz de Hollywood Kelly (Anna Faris), não a traz para um interesse do cenário.
São belas, também as cenas em que Charlotte, solitária – e sua personagem é o alter ego de Sofia –, caminha pelo parque Hyatt. Como escreve Barthes: “Da encosta das montanhas ao canto do bairro, tudo aqui é habitat, e estou sempre no cômodo mais luxuoso desse habitat: esse luxo (que é alhures o dos quiosques, dos corredores, das casas de prazer, dos gabinetes de pintura, das bibliotecas privadas) vem do fato de esse lugar não ter outro limite senão seu tapete de sensações vivas, de signos resplandecentes (flores, janelas, folhagens, quadros, livros); não é mais o grande muro contínuo que define o espaço, é a própria abstração dos pedaços vistos (de ‘vistas’) que me cercam: o muro está destruído sob a inscrição, o jardim é uma tapeçaria mineral de pequenos volumes (pedras, rastros do ancinho sobre a areia), o local público é uma série de acontecimentos instantâneos, que chegam ao notável num brilho tão vivo, tão tênue, que o signo se abole antes de qualquer significado ter tido o tempo de ‘pegar’”.

O filme trata da imersão desses personagens num cenário estranho, do qual não fazem parte, porém que, aos poucos, começa a impregná-los. Os letreiros em movimento da cidade e as longas ruas e passarelas lembram uma efusão constante de pessoas, muitas sem uma direção definida. Sofia consegue desenhar, com isso, um elemento de reflexão sobre aquilo que parece não permanecer em meio a uma paisagem grandiosa, que é exatamente o da reflexão sobre os pequenos gestos – e adormecer no ombro alheio passa a carregar toda uma mudança de percepção cultural.
Na verdade, Encontros e desencontros é um produto acabado dos anos 2000, com sua espécie de síntese entre o sentimento de vazio do indivíduo e sua tentativa de compreendera paisagem que o cerca – e a cidade de Tóquio se presta com perfeição a isso. Não há dúvida de que Sofia, com sua sensibilidade particular, anuncia aqui o que expandiria ainda mais em Maria Antonieta.

Lost in translation, EUA, 2003 Diretor: Sofia Coppola Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris, Fumihiro Hayashi Roteiro: Sofia Coppola Fotografia: Lance Acord Produção: Sofia Coppola, Ross Katz Duração: 105 min. Estúdio: American Zoetrope e Elemental Films Distribuidora: Focus Features (Estados Unidos), Tohokushinsha Film (Japão)