A favorita (2018)

Por André Dick

O melhor de O sacrifício do cervo sagrado, filme imediatamente anterior de Yorgos Lanthimos ao mais recente A favorita, era a sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes pode desconstruir em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Em O sacrifício, ele se limitava a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Ainda utilizando uma espécie de estilo de teatro filmado com diálogos lentos e atores quase estáticos, esses elementos não se encontram em A favorita.

Vendedor do Grande prêmio do júri e de melhor atriz (Olivia Colman) no Festival de Veneza e com várias indicações ao Oscar, A favorita se passa na Inglaterra, no início do século XVIII, quando a rainha Anne (Colman) tem uma amiga, Sarah Churchill (Rachel Weisz), governando na realidade em seu lugar. Surge uma nova serva, Abigail Masham (Emma Stone), que é prima de Sarah e passa a ser a nova favorita da rainha. Em linhas gerais, a narrativa foca na relação de inimizade entre Sarah e Abigail, mas se estende também à tentativa de Robert Harley (Nicholas Hoult) influenciar nas decisões relacionadas à política e à guerra com a França. Essas relações, no entanto, servem mais a exibir como uma rainha entra num jogo de espelhos com duas mulheres que desejam conquistar o poder, cada uma à sua maneira. Sarah manipula Anne para que seu marido, Lorde Marlborough (Mark Gatiss), se destaque à frente da guerra. Por sua vez, Abigail flerta com Samuel Masham (Joe Alwyn). Esse flerte, porém, é gélido, quase como a relação do personagem de Nicole Kidman com seu marido médico em O sacrifício do cervo sagrado.

O design de produção de Fione Crombie é fabuloso, lembrando Barry Lindon e Maria Antonieta, o figurino de Sandy Powell notável e a fotografia de Robbie Ryan usa a lente olho de peixe, como Emmanuel Lubezki nos trabalhos de Iñárritu e Malick, para captar uma certa grandeza palaciana, em contraposição aos humanos mesquinhos e reduzidos quase a indivíduos sem nenhuma personalidade. Lanthimos sempre foi muito próximo da ideia de um estilo estranho e em A favorita ele consegue, de certo modo, inserir elementos de humor onde costuma não haver. No entanto, parte de sua estranheza é evidentemente tornada mais popular e palatável, para que o público possa se aproximar mais dos personagens. Enquanto Stone opta por uma variação de humor correspondente ao roteiro que recebe, sendo de fato a intérprete principal (embora na temporada de premiações seja incluída como coadjuvante), Weisz se comporta como na maior parte de sua filmografia recente, não chegando a ter uma grande interpretação, no entanto com sua habitual competência, enquanto Colman aparece bem em seu papel, principalmente na sua demonstração de desgaste com a dor física imposta por problemas de saúde.

Com roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara, o primeiro filme de Lanthimos sem trabalhar sua própria história, A favorita flutua entre episódios distintos, quase como contos da realeza, e corridas de pato em meio a punições a criadas que ousam buscar um tratamento médico para os problemas de saúde da rainha. Suas características podem ser descobertas em meio aos percalços existenciais de cada um e na futilidade de Sarah, atendida prontamente por todos. Lanthimos insere mais suas propriedades quando transforma Abigail no centro da história, e Stone consegue reproduzir sua estranheza de maneira por vezes impactante. A utilização dos cenários para representar os sentimentos de cada uma dessas mulheres constrói um contraste interessante. O Palácio de Kensington representa uma redoma de solidão e, ao mesmo tempo, de lugar onde muitas personalidades vão se revelar de modo contundente. Se no início o humor está mais presente (com uma personagem, por exemplo, sendo jogada de uma carruagem diretamente na lama), a dramaticidade e mesmo certos elementos soturnos aos poucos vão consumindo a história, chegando a um último ato anticlimático, em relação à filmografia de Lanthimos, embore funcione simbolicamente. Ainda assim, a figura do homem, como aquela vista por meio do primeiro-ministro Sidney Godolphin (James Smith), é, não raras vezes, patética.

Volta e meia, Lanthimos faz com que os cenários sejam escuros, quase como se tudo fosse um subterfúgio, assim como deixa as luzes das janelas em determinados momentos fazerem o contrário. Os bastidores se aproximam da realidade e o que se mostra diante dos olhos de todos lembra mais uma peça teatral encenada, em que as personagens precisam disfarçar aquilo que realmente pensam. Quando a rainha brinca com os dezessete coelhos que possui, eles estão na parte iluminada do seu quarto, ao contrário de quando ela precisa esconder sua sexualidade. Whit Stillman havia tentado alguns desses movimentos em Amor & amizade, sem a concretização vista aqui. Para Lanthimos, esconder a sexualidade faz parte da própria ordem do poder enfocado por A favorita. Este, no entanto, atua como um eixo de coordenação entre figuras que podem ser vistas como vítimas, no caso de Abigail, e extremamente poderosas, no caso da rainha. É aí que o diretor conduz tudo a uma espécie de tragédia geral: a história se repete mesmo que sejam figuras diferentes a vivê-la.

The favourite, EUA/IRL/ING, 2018 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz, Nicholas Hoult, Joe Alwyn Roteiro: Deborah Davis, Tony McNamara Fotografia: Robbie Ryan Produção: Ceci Dempsey, Ed Guiney, Lee Magiday, Yorgos Lanthimos Duração: 120 min. Estúdio: Scarlet Films, Element Pictures, Arcana, Film4 Productions, Waypoint Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight PicturesRelease date

O sacrifício do cervo sagrado (2017)

Por André Dick

O diretor grego Yorgos Lanthimos, depois dos exitosos Dente canino e Alpes, ingressou na indústria de cinema norte-americana com o estranho O lagosta, uma espécie de crítica corrosiva de uma vida em comunidade num futuro não longínquo, na qual o indivíduo escolhia seu modo de vida e sua amada baseado em conceitos deslocados do senso comum. Agora, ele regressa com um elenco novamente de atores americanos em O sacrifício do cervo sagrado. Na história, o cirurgião Steven Murphy (Colin Farrell) tem um casamento tranquilo com Anna (Nicole Kidman) e um casal de filhos, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Alcóolatra, Steven fica amigo de Martin (Barry Keoghan), filho de um paciente dele que morreu na sala de cirurgia. Martin o visita frequentemente e quer que ele tenha um caso com sua mãe (Alicia Silverstone). No início, essa relação não fica muito clara, o que torna ainda mais perturbadora a narrativa. O espectador não possui informações do motivo pelo qual Murphy perambula com Martin por ruas e cafés, sabendo-se imediatamente que ele não é parte da família.

O roteiro de Lanthimos e Efthymis Filippou aposta no mistério dessa figura que age como intrusa numa família a princípio bem composta. Mas as coisas não são bem assim, e tudo na filmografia de Lanthimos prova isso. Se o elenco é excelente (principalmente Farrell, Kidman e Keoghan, este um dos integrantes da equipe de resgate em Dunkirk), as soluções visuais da fotografia de Thimios Bakatakis são ainda melhores. O hospital onde Steven trabalha parece uma extensão do comportamento desses personagens, tanto no que se refere ao afastamento quanto à ausência de cores abundantes. O uso das lâmpadas nos tetos dialoga com o estilo de Stanley Kubrick, mesmo na maneira de filmá-las: a impressão é que o espectador se encontra num túnel em que desconhece a saída, como os personagens apresentados. Nesse sentido, explica-se por que boa parte dos diálogos definidores se dão nos corredores do hospital onde Steven trabalha. Tudo, de qualquer modo, esconde um enigma: como pode acontecer o que acontece com os filhos desse casal? O núcleo da história parece se basear no seguinte conceito: enquanto o filho tem uma certa inclinação científica, talvez como o pai, a menina tem uma predisposição para a arte e para a música. O que acontece a eles se estende aos pais. Lanthimos mistura sentimentos de culpa e aflição com notável habilidade, nunca deixando os diálogos frios, vitais para que haja uma estranheza adicional no comportamento já estranho desses personagens, interromperem a atuação notável do elenco.

Mais do que um diálogo com Dente canino e O lagosta, O sacrifício se corresponde com Alpes, filme excelente de Lanthimos de 2011. Nele, a enfermeira “Monte Rosa” (Aggeliki Papoulia) se encontra num universo pré-determinado pelo cansaço da linguagem e das situações. Mais do que surrealista, o roteiro nunca permite nenhuma explicação clara ao espectador, e a composição de imagens pela fotografia de Christos Voudouris (Antes da meia-noite) realmente é atrativa, com uma certa simetria já existente em Dente canino, com o acréscimo de uma maior variação, também em razão dos temas oferecidos por Lanthimos. Os diálogos da nova obra do cineasta grego se assemelham muito em termos de ritmo dessa obra. Quando o médico, por exemplo, se deita com a esposa logo no início do filme, ela se comporta como se estivesse anestesiada: o médico não age por paixão e sim por meio de certa frieza. Não apenas a interpretação de Nicole Kidman é excepcional, como Lanthimos desenha uma ligação imediata da rotina do personagem central com sua vida em casa, igualmente deslocada de qualquer normalidade. Depois, quando ela precisa conversar com Matthew (Bill Camp), um colega do marido, dentro de um carro, sua reação se aproxima justamente desta cena.

O melhor desse filme em relação aos anteriores de Lanthimos é sua compreensão de atmosfera, apostando tudo num sentimento de obra de terror, sem cair num humor corrosivo que por vezes desconstrói em demasia a narrativa. Em Dente canino e O lagosta, o excesso de estranheza por vezes distanciava o espectador, como se inserido num surrealismo desmesurado. Quem conhece o trabalho do diretor sabe que ele privilegia a construção das imagens, sempre impactantes, em detrimento de uma explicação narrativa (que na maioria das vezes não importa para seu interesse). Aqui ele se limita a algumas bordas, e apara as arestas de maneira mais reflexiva e contundente, construindo uma mistura de gêneros efetiva e surpreendente. Levemente inspirado na peça de origem grega Iphigenia em Aulis, de Eurípedes, tratando do sacrifício de um determinado familiar para que permaneça uma “harmonia” dos integrantes que restam, O sacrifício do cervo sagrado se constitui num dos filmes mais originais dos últimos anos, em que a realidade do personagem central vai se mesclando à realidade, ou seja, o universo hospitalar vai tomando também o espaço de seu comportamento e de sua casa. O porão, neste caso (spoiler), se torna o espaço para que o cirurgião possa expor seu verdadeiro instinto, tanto no que se refere à sobrevivência dos filhos quanto à sua ideia de unidade familiar. Lanthimos faz isso de maneira tanto convincente quanto voltado a um olhar sobre a própria história dos gêneros que mistura de maneira tão bem acabada.

The killing of a sacred deer, EUA/IRL/Reino Unido, 2017 Diretor: Yorgos Lanthimos Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Alicia Silverstone, Bill Camp Roteiro: Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou Fotografia: Thimios Bakatakis Produção: Ed Guiney, Yorgos Lanthimos Duração: 121 min. Estúdio: Film4, New Sparta Films, HanWay Films, Bord Scannán na, hÉireann/The Irish Film Board, Element Pictures, Limp Distribuidora: A24, Curzon Artificial Eye