Midsommar – O mal não espera a noite (2019)

Por André Dick

No ano passado, tivemos uma estreia marcante do diretor Ari Aster à frente do filme de terror Hereditário. Com um padrão autoral e um modo de filmar com características singulares, fazendo de maquetes a própria estrutura da casa mostrada na história, Aster agora regressa com seu segundo projeto, Midsomar – O mal não espera a noite, distribuído pela mesma A24, de filmes independentes.
A jovem Dani Ardor (Florence Pugh) recebe uma notícia perturbadora relacionada à irmã e aos seus pais e pede a ajuda de seu namorado, Christian Hughes (Jack Reynor), estudante de antropologia. Este, no entanto, com o apoio de seus amigos Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren), parece querer distância dela. Segundo os amigos, ela é psicologicamente instável. O amigo sueco, Pelle, convida a todos para ir à sua comunidade de origem na Suécia, durante o solstício de verão. É um lugar adequado para Christian fazer uma pesquisa para seu trabalho acadêmico.

O mais interessante é como Aster mostra, antes da chegada, o carro levando os amigos e a câmera se inverte na estrada: é a entrada num universo à parte. É o que parece a princípio. Com o uso de um psicotrópico, Dani tem a sensação primeiro de uma vegetação crescer em seu pé e depois de que pessoas da comunidade, os Hårga, estarem rindo dela, até se trancar numa cabana e daí sair correndo floresta afora. Aster corta a sequência e já mostra o grupo chegando ao núcleo de habitações da comunidade. A partir daí, será tudo realidade ou a imaginação da personagem central?
Esta comunidade afastada é filmada por Aster com toques de um surrealismo remetendo à parte da filmografia de Alejandro Jodorowsky, principalmente A montanha sagrada (há realmente um urso trancado numa jaula?). Todos na comunidade vestem branco (com bordados floridos) e as mulheres, guirlandas, e brincam pelo espaço, dançam ou ficam estendidos em gramados, numa espécie de paraíso afastado da barbárie. Mas também participam de cerimônias estranhas, não raramente sob efeito de alguma bebida feita com poções indefinidas – e estão interessados mesmo em observar algum tipo de sacrifício que possa justificar sua existência. Lá o grupo de norte-americanos também conhece um casal, Connie (Ellora Torchia) e Simon (Archie Madekwe), levado pelo irmão de Pelle, Ingemar (Hampus Hallberg).

Como em Hereditário, Aster não está muito preocupado em esclarecer para o espectador se o que está assistindo é real ou fruto de uma alucinação – aqui literalmente. Essa comunidade tem galpões com histórias contadas por meio de desenhos, assim como tapeçarias adiantando pontos da trama e um senso de humor peculiar – em determinado momento, uma integrante da comunidade pergunta ao grupo se deseja assistir a Austin Powers. Aster, obviamente, não está interessado em provocar sustos ou simplesmente amedrontar. Por meio de um design de produção fabuloso de Henrik Svensson e efeitos sonoros que lembram as obras de David Lynch, ele faz uma espécie de análise sobre a culpa da personagem principal em relação à família e à comunidade como sua possível substituta.
Como os amigos de Christian não gostam dela, com exceção de Pelle (ironicamente, o nome do personagem da peça de Bille August vencedor do Oscar de filme estrangeiro pela Suécia em 1989), que sofreu um abalo na vida parecida com o dela, Dani se sente sempre deslocada – e esse deslocamento a faz pensar que nenhum deles pode substituir sua vontade de estar estruturada por uma ideia de união familiar e a busca do indivíduo é pelo entendimento alheio de sua dor, mesmo que a “ajuda” possa vir de lugares terrivelmente estranhos e de comportamentos indefiníveis. Para isso, Pugh consegue superar sua ótima atuação de Lady Macbeth e se mostra uma das melhores atrizes da nova geração, com um misto de insegurança, desconfiança e aversão ao que acontece a seu redor, principalmente nas atitudes do namorado. Aster utiliza as imagens mais como metáforas de uma trama do que propriamente para contar uma narrativa. As roupas floridas das mulheres da comunidade, assim como a carruagem que leva Dani, enfeitada por flores, são complementares.

Os diálogos quase não importam e as ações dos personagens são quase sempre previsíveis: o filme contado por Aster, como em Hereditário, não está nos diálogos e sim nas imagens. E é nelas que, como em sua estreia, Midsommar adquire um impacto imprevisto. Pode haver em alguns momentos o predomínio da estética sobre o conteúdo, mas é uma estética elaborada em minúcias. Iniciando numa paisagem invernal e soturna, a obra se transfere para o dia tão iluminado que parece brilhar, no entanto ele não parece ser o mais propício para os rumos da narrativa. A própria maneira como o diretor colhe pontos de O homem de palha, por exemplo, é justificada pelo contexto, sem nunca, no entanto, parecer uma diluição. O seu desinteresse em mostrar os integrantes da comunidade é justamente para causar um impacto nos momentos necessários. A claridade da fotografia de Pawel Pogorzelski, o mesmo de Hereditário, se justifica em todos os seus pontos e ajuda a contar a história de maneira decisiva. E é por meio dela que Midsommar adquire outro estágio no ato final, quando os personagens vão se dispersando para, na verdade, concentrar o relato num só olhar. É uma sucessão de sequências raramente permitidas em Hollywood e que fazem o gênero de terror adentrar no campo indefinido da arte mais subjetiva possível.

Midsommar, EUA, 2019 Diretor: Ari Aster Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Bobby Krlic Produção: Lars Knudsen e Patrik Andersson Duração: 147 min. Estúdio: Square Peg, B-Reel Films Distribuidora: A24 (Estados Unidos) e Nordisk Film (Suécia)

Paterson (2016)

Por André Dick

Esta nova experiência de Jim Jarmusch na direção vem na sequência de seu filme cult de vampiros, Amantes eternos. Desta vez, o criador de obras singulares como Estranhos no paraíso, Daunbailó, Dead man e Flores partidas mostra a trajetória de Paterson (Adam Driver), motorista de ônibus da cidade de New Jersey com o mesmo nome seu. Ele escreve versos num caderno secreto e é ainda admirador especial de William Carlos Williams, que nasceu na cidade, trabalhou como médico e escreveu o longo poema intitulado Paterson.
Quando chega em casa, o poeta-motorista sempre leva o buldogue da sua amada Laura (Golshifteh Farahani), chamado Marvin, para passear. No trajeto, ele descansa num bar cujo proprietário é Doc (Barry Shabaka Henley), fã de Lou Costello, onde também conhece alguns outros frequentadores, inclusive o ator Everett (William Jackson Harper), que tenta reconquistar a ex-namorada, Marie (Chasten Harmon), evocando algo de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Também se depara, em alguns passeios, com um rapper (Cliff Smith, também conhecido como Method Man) e uma jovem poeta (Sterling Jerins), que lhe pergunta se gosta de Emily Dickinson depois de ler um poema no qual faz uma analogia entre a chuva e os cabelos de uma jovem.

Para quem não gosta de narrativas lentas, Paterson, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes do ano passado, se torna especialmente difícil, mas Jarmusch consegue ser tão humano e sensível que se torna difícil não aceitar que é um dos maiores acertos de sua filmografia já rica. Há algo de estranho na relação entre Paterson e Laura: ela é uma sonhadora, que deseja seguir carreira de cantora country, mas, ao mesmo tempo, quem o prende à realidade. Querendo fazer também cupcakes, ela se transforma na referência dele para os horários marcados do cotidiano: seu interesse pela decoração da casa é um complemento a isso – e a atuação excepcional de Golshifteh Farahani, também música na vida real, colabora definitivamente para o andamento da narrativa.
Paterson retrata como as revelações do cotidiano, as simples perguntas feitas (“Como vai?”), as aspirações divididas, um encontro para jantar ou no cinema e a tentativa de descobrir por que a caixa de correio se encontra da mesma maneira todos os dias constituem um universo poético. Do mesmo modo, o personagem central se interessa em ouvir as conversas de seus passageiros: em determinado momento, aparecem Kara Hayward e Jared Gilman, o casal de Moonrise Kingdom. Neste filme de Wes Anderson, seus personagens tratavam de poesia e de rimas, o que acontece aqui quando Paterson dialoga com a menina que escreve versos em um livreto.

A maneira como o diretor mostra os poemas criados pelo motorista de ônibus (criações de Jarmusch e do poeta Ron Padgett) vai se mesclando ao seu dia a dia repetitivo, e Driver tem a melhor atuação de sua trajetória, depois de viver o vilão Kylo Ren do Star Wars de Abrams, mostrando um crescimento desde os filmes realizados com Baumbach (sobretudo em relação à performance falha em Enquanto somos jovens): fazendo um homem tranquilo e gentil, trata-se da liderança do filme e conduz tudo com rara eficácia. Ele se sente gentil, contudo não de maneira simplista, e generoso, sem aparentar um exagero. Num determinado momento decisivo, ele olha para a capa de um de seus livros preferidos, imaginando possivelmente seu poema junto dele. Em outro, ele visualiza o nome de uma marca de fósforos, Ohio Blue Tip, gravado na caixinha, e começa a selecionar a partir dessa imagem palavras para um poema. As palavras e os versos são retratados como parte de um mesmo ciclo: o dia e a noite, o trabalho e o descanso, o volante e a biblioteca; tudo recomeça novamente a partir da imaginação.
Aliado a essa simplicidade do personagem, Jarmusch trabalha de maneira interessante a ambientação do filme, seja nos locais por onde Paterson passa com seu ônibus quanto pelo bar que frequenta, com uma fotografia delicada de Frederick Elmes, colaborador de David Lynch em Veludo azul e Coração selvagem, por exemplo, assim como de Jarmusch, em Uma noite sobre a terra e Flores partidas.

Além disso, quando caminha por ruas vazias, sente-se a solidão do personagem: não tendo com quem falar sobre poesia, ele apenas tenta vivenciá-la por meio da experiência com os outros. Esta é uma característica pouco presente não apenas no cinema norte-americano, como também europeu: Paterson não se sente de nenhum lugar, sendo quase de um gênero à parte, indefinido. Tão interessante que acaba criando suspense sobre a possível publicação dos poemas do motorista de ônibus. Laura insiste que ele deve fazer uma cópia para que outros possam conhecer o que realiza.
É muito difícil haver um filme que não busca desvios na trama ou grandes acontecimentos para simplesmente acontecer diante dos olhos do espectador. Sempre foi uma característica de Jarmusch extrair momentos interessantes do lugar-comum, especialmente nos seus filmes dos anos 80, no “faroeste” Dead man, em que Johnny Depp fazia uma espécie de fantasma de um caubói, e em Flores partidas, mas talvez porque esteja mais amadurecido nunca as passagens que pareceriam tão modestas para o olhar do espectador se tornam tão intensas. No filme anterior a este, Amantes eternos, uma relação era estabelecida por séculos e as citações literárias se proliferavam, mas o resultado não era, na prática, tão interessante. Além disso, em alguns outros filmes Jarmusch estava mais interessado no tema da globalização, como em Os limites do controle e Trem mistério, o que o fazia perder por vezes o foco em que se sai melhor: o de pessoas que parecem pertencer a um bairro comum e universal. Paterson representa bem a temporada de filmes indicados para o Oscar em 2017 ou que fizeram campanha (como ele): notáveis, em qualidade de direção, elenco e roteiro. É um verdadeiro manifesto em prol da afetividade e do amor.

Paterson, EUA/FRA, 2016 Diretor: Jim Jarmusch Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Chasten Harmon, William Jackson Harper, Method Man, Jared Gilman, Kara Hayward Roteiro: Jim Jarmusch Fotografia: Frederick Elmes Produção: Carter Logan, Joshua Astrachan Duração: 113 min. Estúdio: Amazon Studios / Animal Kingdom / K5 Film