Projeto Gemini (2019)

Por André Dick

Projeto Gemini é uma espécie de mistura entre thriller e ficção científica na qual Will Smith interpreta Henry Brogan, um experiente assassino do governo dos Estados Unidos, que precisa matar um homem identificado como terrorista num trem bala. Essa cena inicial é tão parecida com aquela que introduz Floyd Lawton, o Pistoleiro, em Esquadrão suicida, também interpretado por Smith, que se pode lembrar que Ang Lee trabalhou no gênero de adaptações de quadrinhos com Hulk. Trata-se da sequência mais tensa do filme, com uma agilidade de enquadramento e de disposição dos elementos em cena.pela fotografia de Dion Beebe, responsável pelos trabalhos de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi e No limite do amanhã, duas peças de ação compacta.

E este é o ponto de partida de uma obra que vai levar Brogan a conhecer Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), que trabalha alugando barcos, antes de saber que a pessoa que ele matou era inocente. Ele se torna um alvo pelo ocorrido, inclusive de Clay Varris (Clive Owen), responsável por uma unidade secreta de biotecnologia que atende pelo nome Gemini. O nome, propriamente, é um aviso: há uma figura gêmea na história, a partir do DNA. Para ajudá-los, aparece Baron (Benedict Wong).
Lee sempre foi um exímio diretor de cenas de ação, como vemos em O tigre e o dragão e, mais recentemente, no ótimo e menosprezado A longa caminhada de Billy Lynn. Também é um diretor que concentra talento para interações dramáticas, desde Tempestade no gelo, passando por O segredo de Brokeback Mountain, até As aventuras de Pi. Lee se destacou no campo da fantasia justamente com Pi e depois disso quis jogar com o 3D em Billy Lynn e a movimentação maior de 120 quadros por segundo, o que se repete aqui (mas em raríssimos cinemas mesmo nos Estados Unidos; no Brasil pode-se encontrar versões com até 60 quadros por segundo).

Nada disso indica que o roteiro, inexplicavelmente rodando em Hollywood desde o final dos anos 90, deveria ser colocado em segundo plano, pois ainda estamos tratando de um filme e não de um experimento puramente técnico – e mesmo este não se dá pela velocidade da imagem e sim pelo talento do diretor de fotografia em reunião com o diretor, ou seja, se um filme precisa de uma determinada composição para ser bom ele, definitivamente, não é. Não se está aqui menosprezando a técnica e sim a sua aceitação como ponto primordial para que outros elementos de uma obra não sejam desenvolvidos. Se muitos viram em Gravidade apenas um experimento de efeitos visuais, talvez não foram receptivos à ideia de que a história mostra, de maneira enfática, a aceitação de uma mulher no espaço sobre as perdas em sua vida e o possível reencontro com uma nova oportunidade. Em Projeto Gemini, Lee pode estar ecoando ainda certos temas de seu filme anterior, sobre um jovem soldado, mostrando que a guerra humana se reciclasse sem interrupção, inclusive em seres humanos completamente idênticos. Há algumas mudanças de cenário próprias de uma obra que pretende inaugurar uma franquia, porém sem o devido interesse estético, mesmo com as boas locações. Em meio a isso, o interesse em contar uma história de maneira autoral parece menos interessante a Lee.

Assinado por David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke, este é o elemento mais complicado de Propjeto Gemini. Se Smith até consegue transparecer um certo conflito no papel central, finalizando seu bom ano iniciado pela atuação como Gênio em Aladdin, mas a boa atriz Mary Elizabeth Winstead se mostra um pouco deslocada e a figura mais jovem de Brogan – um Will Smith rejuvenescido por computador e com uma certa ênfase em maneirismos que poderia lembrar Zoolander (o melhor rejuvenescimento do cinema ainda é o de Robert Downey Jr. em Capitão América – Guerra civil, e que O irlandês traga boas novas) – não tem muito a fazer, além de o vilão ser esquecível. Falta um tratamento dramático, mesmo inserido na ação, capaz de oferecer a Smith a oportunidade de entregar uma atuação como a de Beleza oculta. A tentativa de desenvolver um romance entre Henry e Danny se sente, a partir de determinado momento, apenas para preenchimento de diálogos soltos. No entanto, Lee é um hábil diretor de imagens requintadas, e Projeto Gemini se sente o tempo todo um thriller elegante, com certas cenas de ação que remetem a Matrix reloaded, no entanto que no fim das contas são boas e efetivas embora sem o mesmo realismo do mais recente Missão: impossível, por exemplo. Do mesmo modo, há algumas boas ideias sobre clonagem de humanos, ainda que sem o desenvolvimento necessário para que o roteiro se desprenda da ideia de ser mais uma obra de ação contemporânea sem uma proposta exatamente nova.

Gemini man, EUA, 2019 Diretor: Ang Lee Elenco:  Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Jerry Bruckheimer, David Ellison, Dana Goldberg, Don Grangerim Squyres Duração: 117 min. Estúdio: Skydance Media, Jerry Bruckheimer Films, Fosun Pictures, Alibaba Pictures
Distribuidora: Paramount Pictures

Aladdin (2019)

Por André Dick

Lançado em 1992, Aladdin é um dos desenhos animados de maior bilheteria de todos os tempos. Embora não tenha repetido o feito de ser indicado ao Oscar de melhor filme, como A bela e a fera um ano antes, trata-se de uma grande diversão, sobretudo pela presença de Robin Williams no papel do Gênio da Lâmpada.
Em seu live-action, dirigido por Guy Ritchie, ele conta basicamente a mesma história: Aladdin (Mena Massoud) é um jovem que vive nas ruas do reino de Agrabah, em meio ao deserto, com o macaco Abu, seu melhor amigo. Seu objetivo é casar com a princesa do reino, Jasmine (Naomi Scott), filha do Sultão (Navid Negahban) e cuja melhor amiga é a criada Dalia (Nasim Pedrad). O pai quer casá-la com o Príncipe Anders (Billy Magnussen). Antes, contudo, precisa enfrentar Jafar (Marwan Kenzari), que, sempre com seu papagaio, controle o reino por meio de seus poderes hipnóticos. Ele pretende se transformar no homem mais temido do mundo e deseja encontrar o Gênio da Lâmpada (Will Smith) na Caverna das Maravilhas. Ele pode ser o meio de Aladdin se transformar num príncipe.

No filme de 1992, Jafar não é tão divertido quanto Aladdin, que se transformava em qualquer coisa para aparecer, lembrando um showman, mas tinha grande presença, o que seu intérprete no filme não consegue lamentavelmente repetir. É importante lembrar o quanto Guy Ritchie, em Snatch – Porcos e diamantes, trazia uma espécie de miscelânea de gêneros ligados ao mundo da máfia, com todos os maneirismos possíveis de sentido pop e violência influenciada visivelmente por Tarantino. Ritchie parecia um bom cineasta, mas ainda tateando, em busca de uma personalidade. Ele não conseguiu isso em projetos como Destino insólito (com sua ex-mulher, Madonna), mas são os elementos que já apareciam em Snatch que fizeram funcionar tão bem nos dois Sherlock Holmes, em O agente da U.N.C.L.E e em Rei Arthur – A lenda da espada.

Neles estão os elementos que já se encontravam em Snatch: uma espécie de necessidade de destacar os movimentos de câmera, lembrando às vezes um videoclipe, o visual carregado e o elenco fazendo soar o máximo uma espontaneidade teatralizada. Nesta adaptação com atores de Aladdin, Ritchie não emprega visualmente seu estilo – mais soturno –, apanhando um colorido capaz de remeter ao cinema de Bollywood, mas, principalmente, a The fall, de Tarsem Singh. Mesmo assim, ele consegue mostrar sua personalidade num certo humor agridoce trazido pelo Gênio da Lâmpada, numa das melhores atuações de Will Smith em sua carreira – e o filme diminui de tamanho quando em determinados momentos ele sai de cena. De algum modo, ele ainda está lá, por trás do estilo imposto pela Disney, capaz de tirar algumas vezes o mérito de diretores à frente de outras obras nesses moldes, a exemplo de A bela e a fera.
O filme de Ritchie não tem objetivo de respeitar algum molde clássico, como todos os projetos do cineasta: é um espetáculo em movimento quase de videoclipe, com uma montagem por vezes confusa, mas sem tanto, como ele gosta, idas e vindas no tempo e cortes para evitar excessivo material expositivo – uma das suas qualidades. O roteiro dele em parceria com John August (autor de vários filmes de Tim Burton, como Peixe grande e Sombras da noite), baseado no original de 1992, assinado por Ron Clements, John Musker, Ted Elliott e Terry Rossio, tenta mesclar as partes musicais, com danças, inclusive, com uma atmosfera de obra infantojuvenil que possa dialogar também com os adultos.

Nesse sentido, um dos destaques do live-action é novamente a trilha sonora brilhante de Alan Menken (o mesmo de A pequena sereia), com a parceria de Howard Ashman, que tem pelo menos três canções antológicas e um som de inegável qualidade. Não à toa, o desenho animado ganhou dois Oscars neste campo e rendeu muitos frutos. Os diálogos que a narrativa empresta ao Gênio são muito bons, embora a porção romântica entre Aladdin e Jasmine se realize mais no visual do que exatamente nas atuações um pouco deslocadas de Massoud e Scott, embora nenhuma diminua o material e sempre evoquem a animação. Apenas chama a atenção como este live-action é aquele mais realista já feito pela Disney, sem recorrer tanto a CGI (os efeitos visuais, inclusive, são ótimos, como os do tigre e do macaco) e adotando uma fotografia com várias tomadas destacando um design de produção real, assim como em seus figurinos ultracoloridos. Há também, como diferença em relação ao original, uma nova canção, “Speechless”, dos oscarizados Benj Pasek e Justin Paul, responsáveis pela belíssima “City of stars” de La La Land, e uma certa modulação no roteiro visando algumas temáticas atuais. Nada se sente forçado como poderia se imaginar inicialmente de um cineasta tão pouco provável para este material. Mesmo não alcançando a magia do original, este Aladdin consegue às vezes alçar voos altos.

Aladdin, EUA, 2019 Diretor: Guy Ritchie Elenco: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Marwan Kenzari, Navid Negahban, Nasim Pedrad, Billy Magnussen Roteiro: John August e Guy Ritchie Fotografia: Alan Stewart Trilha Sonora: Alan Menken Produção: Dan Lin e Jonathan Eirich Duração: 128 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Rideback, Marc Platt Productions Distribuidora: Walt Disney Studios

Beleza oculta (2016)

Por André Dick

beleza-oculta-14

Depois de dois sucessos de bilheteria, O diabo veste prada e Marley e eu, o diretor David Frankel se tornou uma espécie de representante daquele nicho que mistura drama e comédia, potencializando essas características em Um divã para dois, com Meryl Streep, Tommy Lee Jones e Steve Carell em ótimas atuações. Talvez por isso ele tenha desapontado tanto a crítica em geral quando resolveu ingressar no drama em Beleza oculta, visto em geral como um filme que desperdiça seu grande elenco.
A história de Beleza oculta apresenta um publicitário, Howard Inlet (Will Smith), em dificuldades pessoais depois de perder a sua filha ainda criança. Seus parceiros Whit Yardshaw (Edward Norton), Claire Wilson (Kate Winslet) e Simon Scott (Michael Peña) não se preocupam apenas com Howard, mas com o destino da agência onde trabalham, na qual ele só aparece para montar dominós em escala gigante. Os três decidem contratar uma detetive particular, Sally Price (Ann Dowd), para colher provas de que Howard está mentalmente desequilibrado.
A investigadora descobre que ele escreve cartas para o Amor, o Tempo e a Morte, conceitos com que lidava na agência durante seu período mais tranquilo. Então, seus colegas contratam três atores – Raffi (Jacob Latimore), Brigitte (Helen Mirren) e Amy (Keira Knightley) – para atuarem como Tempo, Morte e Amor, respectivamente. Amy está especialmente em dúvida se seguirá o que estão solicitando, mas é Brigitte que toma a dianteira para tentar provar que, além do dinheiro a ser recebido, este pode ser um real trabalho de interpretação.

beleza-oculta-16

beleza-oculta-5

beleza-oculta-3

Whit, Claire e Simon também enfrentam seus problemas pessoais: Whit quer estabelecer uma ligação com sua filha Allison Yardshaw (Kylie Rogers), Simon tem um segredo sobre sua vida; e Claire está atrás de doadores para que possa engravidar. Enquanto isso, Howard não sabe se frequenta um grupo de apoio, em que Madeleine (Naomie Harris) é a organizadora. Ele simplesmente não consegue dizer o nome da filha nem elaborar o que aconteceu a ela com os amigos. Frankel coloca os três colegas de Howard dando conselhos aos atores para que possam interpretar seus papéis de maneira convincente. Mais do que Howard, é eles, por outro lado, que necessitam dos conselhos do Tempo, do Amor e da Morte – e nisso o filme se justifica, colocando-os em diferentes situações.
São justamente esses personagens que gostariam que sua vida fosse transportada para o teatro, a fim de que não precisassem enfrentar a realidade, que inclui a depressão de Howard. Todos, de certa maneira, enfrentam o luto em suas vidas de algum sonho não realizado, e a agência de publicidade se projeta como o símbolo disso. Você vai ver Kenneth Lonergan trabalhar isso de maneira crua em Manchester à beira-mar; aqui, o tratamento é claramente apelando para a fuga da realidade.

beleza-oculta-7

beleza-oculta-12

beleza-oculta-6

Esta é uma história claramente implausível, feita em cima de conceitos sobre a vida, mas Frankel não deixa de colocar um interesse em cada ação dos personagens e faz atingir um sentido de grandeza em muitos momentos. Assim como em seus outros filmes, ele sabe construir uma atmosfera, e em Beleza oculta o pano de fundo é a época natalina, uma época justamente em que vêm à tona lembranças familiares mais do que em outros períodos. Os seus personagens interagem com esse ambiente: por exemplo, mesmo enfrentando essa fase difícil em sua vida, Howard tenta se reanimar pedalando por Nova York, na contramão de carros ou sobre pontes. Registrada pela fotografia excelente de Maryse Alberti (responsável por dois ótimos trabalhos, em Creed e A visita), a atmosfera contrasta com os sentimentos dele, que não consegue nunca ser colocados à prova. Pode-se dizer, por um lado, que ele é discreto ao revelar sentimentos dos personagens, mas, ao mesmo tempo, contundente: sobretudo quando coloca Helen Mirren na figura da Morte.
De qualquer modo, é Will Smith, do elenco, que apresenta a melhor atuação, como em Esquadrão suicida: apesar de seu personagem ter alguns comportamentos estranhos, o ator estabelece um padrão interpretativo que lembra seus melhores momentos em Ali. Pode-se sentir a angústia de Howard por causa de Smith, mas num nível mais extremo daquele que vemos em À procura da felicidade e mais efetivo do que em Um homem entre gigantes, quando tentava emular um sotaque etíope e muitas vezes não dava certo. Ele não seria também individualista e egoísta vendo seus amigos numa situação complicada? Smith trabalha essa faceta muito bem. Não muito longe, fica Naomie Harris, de Moonlight, no papel da delicada Madeleine.

beleza-oculta-2

beleza-oculta-11

beleza-oculta-9

Apesar do tom francamente dramático, não escapa à narrativa certo senso de humor, por exemplo na conversa de elevador que Whit procura ter com ele ou naquele momento em que Howard quer desvencilhar do Tempo, e Jacob Latimore aparece para importuná-lo. Helen Mirren tem uma atuação também comovente como a atriz que interpreta a Morte, embora Knightley e Norton sejam especialmente subaproveitados numa ligação cuja intensidade fica subentendida e logo é deixada de lado por Frankel e pelo roteiro.
Em alguns momentos, Beleza oculta evoca Simplesmente amor, pela ligação entre os personagens, mas sua proximidade é maior de filmes de James L. Brooks, principalmente Como você sabe, principalmente pelos cenários nova-iorquinos. E, claro, não é isento de falhas: em algumas resoluções simplistas, na tendência, algumas vezes, a querer que o espectador se comova, independente do que está assistindo. Ainda assim, ele possui uma humanidade interessante e particularmente tocante, mais do que outros projetos que se alimentam dessa ideia. Não é mais tão comum mais obras que tratam da sensibilidade em relação aos outros e das oportunidades que surgem e devem ser seguidas: Beleza oculta é uma delas.

Collateral beauty, EUA, 2016 Diretor: David Frankel Elenco: Will Smith, Edward Norton, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Kate Winslet, Jacob Latimore, Ann Dowd Roteiro: Allan Loeb Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Allan Loeb, Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes Duração: 97 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Anonymous Content / Likely Story / Overbrook Entertainment / PalmStar Media / Village Roadshow Pictures

cotacao-4-estrelas

Esquadrão suicida (2016)

Por André Dick

Esquadrão suicida 32

Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Esquadrão suicida se transformou na obra que poderia salvar a Warner/DC de novas críticas obtidas em larga escala por Batman vs Superman – o que, pela recepção em geral, acabou não acontecendo. O chamariz principal era a participação de Jared Leto, vencedor do Oscar de coadjuvante por Clube de compras Dallas, como Coringa, embora estejam no elenco nomes como Will Smith, Viola Davis e Margot Robbie.

Esquadrão suicida 27

Esquadrão suicida 20

Esquadrão suicida 11

O roteiro de David Ayer, diretor de Corações de ferro, coloca Amanda Waller (Viola Davis) como aquela que irá reunir, com o apoio do presidente – isso em razão do destino de um dos personagens de Batman vs Superman –, uma equipe de criminosos: Pistoleiro (Will Smithy), o ex-gângster El Diabo (Jay Hernandez), o monstruoso Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), o mercenário Amarra (Adam Beach), e Arlequina (Margot Robbie), ex-psiquiatra do Asilo Arkham. Eles estão na penitenciária de Belle Reve, onde são reunidos por Rick Flag (Joel Kinnaman). Uma das figuras que Waller também seleciona é a Dra. June Moone (Cara Delevingne), que é possuída por uma bruxa, “Magia”, capaz de colocar Midway City em polvorosa com um grupo enorme de monstros. O grupo, Esquadrão Suicida, é vigiado por Katana (Karen Fukuhara), com uma espada, e, enquanto o Pistoleiro se lembra do passado com sua filha, sua real ponte com a humanidade, Arlequina só tem a se lamentar que não viu mais seu amado Coringa (Jared Leto) depois que foi presa. Curioso como um grupo de ameaças à sociedade acaba constituindo um filme, sinal de tempos em que Norman Bates é mostrado ainda adolescente ou Hannibal se transforma em peça-chave de uma série. No entanto, pode-se dizer que nenhum do Esquadrão suicida é tão ameaçador quanto foi Lex Luthor, interpretado por Jesse Eisenberg em Batman vs Superman.

Esquadrão suicida 3

Esquadrão suicida 24

Esquadrão suicida 23

Ayer, que escreveu o roteiro de um dos melhores filmes policiais deste século, Dia de treinamento, com Ethan Hawke e Denzel Washington, imprime uma sequência caótica de imagens nos primeiros 40 minutos eletrizantes de Esquadrão suicida. Nessa introdução, há direito a chamadas de personagens que parecem dialogar com a pop art, entregando o mínimo de diálogos a cada um, mas com um sentido muito grande para a ação que remete a quadrinhos – e (spoiler) as participações de Batman são as melhores – e uma influência clara de Watchmen, de Snyder nas transições de cena e mesmo no uso de câmera lenta para dar dramaticidade, além de um uso impactante de flashbacks para demarcar a condição de cada um. E, mais do que a trilha pop que reúne, por exemplo, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, mais tensa é a trilha de Steven Price, o mesmo de Gravidade.
Quando o grupo se reúne, Ayer parte para uma homenagem evidente a Fuga de Nova York, de John Carpenter, com o uso do cenário urbano de forma incontestavelmente bem situado e um sentido de ameaça à espreita com os monstros que devem ser combatidos pelo esquadrão. O interessante do roteiro de Ayer é que os personagens não se sentem obviamente fazendo um favor à humanidade, apenas a si mesmos, e nisso não perdem, de qualquer modo, a referência que os une, principalmente nos casos do Pistoleiro e de Arlequina. Tanto por causa da atuação de Smith quanto pela de Robbie – uma parceria já exitosa em Golpe duplo –, eles entregam o que há de melhor em Esquadrão suicida, junto com Viola Davis, com o talento habitual, e mesmo Kinnaman (o novo RoboCop).

Esquadrão suicida 30

Esquadrão suicida 9

Esquadrão suicida 2

E a tão falada atuação de Leto é visivelmente prejudicada pela montagem. Sua presença em cena é quase divida em vinhetas, mas Leto não entrega um Coringa óbvio: com seu ar de gângster, correntes e tatuagens, ele é ameaçador dentro do tempo que lhe permitiram, afastando-se tanto de Jack Nicholson quanto de Heath Ledger (que praticamente eram os personagens principais dos filmes em que apareciam) e fazendo algo mais estilizado e influenciado pelos quadrinhos. Pelo desinteresse de Ayer em desenhar uma violência explícita, o Coringa se sente às vezes excessivamente contido e sem ser agraciado por falas bem-humoradas, certamente um equívoco do roteiro. Há uma cena num clube que ele posa de Scarface, servindo praticamente de cafetão de Arlequina. De qualquer modo, a cena que melhor o representa é quando salta num caldeirão das indústrias Acme (onde se dá sua criação no Batman de Tim Burton), junto com Arlequina e as cores de ambos, diluídas, vão se misturando – enquanto em outra cena, de helicóptero, ele também homenageia o Coringa de Nicholson. O que se pode dizer é que Cara Delevingne prejudica terrivelmente Magia, com sua falta de senso interpretativo, disfarçada em Cidades de papel pela atuação excelente de seu parceiro de cena.
Porém, há um certo desvio de Ayer no terceiro ato, um problema de vários filmes de super-heróis e, aqui, de anti-heróis: a violência é incessante e caótica, sem um direcionamento definido, e se perde a tensão que havia até a sequência anterior, que acontece num lugar mais calmo, mesmo que a qualidade da fotografia de Roman Vasyanov seja preservada e o design de produção continue elaborado.

Esquadrão suicida 29

Esquadrão suicida 22

Esquadrão suicida 25

Não há nenhuma influência, como vem se considerando talvez por se tratar de personagens à margem da lei, de Guardiões da galáxia: tudo é muito soturno, como na maior parte das vezes acontece em filmes da DC Comics (é difícil saber em que momento pode ter havido alguma refilmagem, como se comentou depois do lançamento, pois o filme tem o mesmo tom desde o início), e o gráfico de algumas cenas é às vezes mesmo desagradável para crianças. Dos anti-heróis, o mais assustador é Crocodilo, no entanto é El Diablo que coloca uma horda de inimigos em estado de combustão impressionante, remetendo a David Cronenberg. A Arlequina serve como um alívio cômico, embora mais trágico – e sua prisão é uma referência a Hannibal Lecter de O silêncio dos inocentes –, enquanto o Pistoleiro é realmente aquele que tenta sobreviver no cárcere guardando uma ideia de família, sustentada pela atuação de Smith, melhor do que no recente Um homem entre gigantes, prestando no início uma breve homenagem ao papel que interpretou em Ali. É interessante como ele visualiza em Arlequina apenas uma vítima, tão solitária como a sua filha, embora escondida por uma máscara de resistência e entregue feliz à psicopatia de Coringa. Se Esquadrão suicida não se equivale ao acerto Batman vs Superman, também por seu objetivo ser outro, ele consegue, de maneira ágil, apresentar esses personagens sem recorrer a diluir a essência deles na tentativa de agradar de maneira fácil. Dentro do que se propõe, é convincente e vigoroso.

Suicide squad, EUA, 2016 Diretor: David Ayer Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Cara Delevingne Roteiro: David Ayer Fotografia: Roman Vasyanov  Trilha Sonora: Steven Price Produção: Charles Roven, Richard Suckle Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures

Cotação 4 estrelas

Depois da terra (2013)

Por André Dick

Depois da terra

Depois do sucesso de O sexto sentido, e indicações ao Oscar principal e de direção, o cineasta M. Night Shyamalan teve ainda uma boa recepção, inclusive nas bilheterias, com Corpo fechado e Sinais. A partir de A vila, os elogios começaram a ficar escassos, desaparecendo quase por completo depois de A dama na água (filme que ainda parece o pior de sua carreira) e, sobretudo, O último mestre do ar, uma tentativa de adaptação dos desenhos, com o apoio da Nickelodeon e um desinteresse visível do diretor, embora ainda apresente uma série de ligações com sua obra anterior, inclusive com Fim dos tempos, suspense que fascina em alguns momentos, com o domínio da natureza sobre a vontade do homem.
De qualquer modo, parece que suas referências, ainda hoje, são dois filmes: O sexto sentido e A vila. No primeiro, Bruce Willis interpreta um psiquiatra, que vai sempre à casa de um menino (Haley Joel Osmont, excepcional), filho de uma mãe dedicada (Toni Collette), para tentar descobrir o que o perturba. É apenas motivo para o diretor encadear uma sequência de imagens assustadoras, que remetem, muitas delas, a O iluminado, de Kubrick. O menino tem visões estranhas e o espectador as compartilha, ganhando o seu mesmo sofrimento que vemos enfrentar na escola, com Shyamalan dosando bem todos os elementos e as reviravoltas, e, sobretudo, dá destaque aos enquadramentos. Quando o menino se esconde numa barraca dentro da sala, sabemos que ele enfrentará algo desconhecido – e o que tememos se materializa em imagens perfeitamente montadas. Depois de Corpo fechado e Sinais, Shyamalan realizou A vila, novamente com a tentativa de fazer um final surpresa, ao qual ficou preso durante toda sua carreira (em Fim dos tempos, ele tentaria repetir). Trata-se de um suspense com grande elenco e um tom de fábula contínuo, mostrando pessoas que moram numa comunidade campestre e não podem sair, cercada por grandes cercas e vigias, pois monstros podem, a qualquer momento, atacá-la. Para solucionar um problema, uma jovem se disponibiliza a sair da vila para buscar remédios, embrenhando-se na floresta assustadora. William Hurt e Sigourney Weaver, como os mandantes desta vila, esforçam-se ao máximo para dar credibilidade aos diálogos, e temos aqui uma das melhores atuações de Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix.

Depois da terra.Filme.Ficção

Depois da terra tem, por um lado, a relação paterna que vemos em O sexto sentido (Bruce Willis, como psiquiatra, substituindo a figura do pai) – e continuaria em Corpo fechado e Sinais – e o tom de fábula que vemos em A vila, com alguns elementos de suspense e mesmo sustos. Para Shyamalan, a família é sempre um ponto de referência: o personagem destinado a ser o Avatar de O último mestre do ar desiste, em determinado momento, dos ensinamentos porque não poderia constituir família, e em Fim dos tempos, um grupo de pessoas errantes, tentando fugir do mal que atinge a todos, vaga sem rumo, tentando, porém, manter um vínculo familiar. É esse conceito que Shyamalan deposita numa espécie de relação à distância, passada no planeta Nova Prime – para onde os humanos foram depois de a Terra se tornar inabitável, uma espécie de Marte de O vingador do futuro de Verhoeven com casas em forma de tendas – sem nenhuma presença de afeto, entre o General Cypher Raige (Will Smith) e Kitai (Jaden Smith), que não foi escolhido para ser um Ranger e recebe o consolo da mãe, Faia (Sophie Okonedo). Cypher não convive com sua família e age em tempo integral como se estivesse a serviço. Com receio de não conseguir atender à sua função, ele decide levar seu filho numa missão (daqui em diante, possíveis spoilers). No trajeto, entretanto, acontece um problema e a nave é obrigado a fazer um pouso forçado exatamente na Terra, onde, segundo Cypher, todos animais existem para destruir o homem. Dali em diante, Kitai terá de mostrar se realmente foi um acerto não ser escolhido como Ranger, colocando-se à prova do medo (que parece dialogar com as toxinas das plantas de Fim dos tempos).
Para uma superprodução, Depois da terra deixa a desejar, em alguns momentos, no designer de produção (das espaçonaves) e na conclusão de algumas tomadas que poderiam ser espetaculares. O seu acerto é justamente aquilo que causava desconforto em Oblivion, ficção científica com Tom Cruise. Se o filme de Kosinski era robótico como as atitudes dos personagens, e havia nele uma aspiração a sintetizar a ficção científica dos últimos 40 anos, com uma série de referências cansativas, não apenas conceituais, mas incorporando diretamente a narrativa, Depois da terra está longe de ser original, e podemos ver referências claras a Avatar e O senhor dos anéis. No entanto, tem sensibilidade para remeter a dois filmes referenciais do gênero dos anos 80: O retorno de Jedi (as locações lembram aquelas da Lua de Endor) e Duna (no figurino de sobrevivência de Kitai, praticamente idêntico ao que se usava no planeta Arrakis, do filme de Lynch). E, como esses dois filmes, Depois da terra é uma ficção científica, mas ao mesmo tempo tem características tribais, do início dos tempos.

Depois da terra.Filme 3

Depois da terra.Filme 2

Do mesmo modo, ao contrário de Oblivion, Depois da terra deseja, com sua irreguralidade, apresentar uma espécie de tom de fábula, e a ligação familiar existente nos outros filmes de Shyamalan não transparece apenas na evidente ligação entre Cypher e Kitai, mas em várias referências. Os animais que Kitai precisa enfrentar ao longo do filme estão sempre em grupo, e quando o personagem, em determinado momento, precisa se esconder, ele acaba caindo numa caverna com desenhos rupestres e uma serpente, que remete diretamente ao símbolo que, segundo o relato bíblico, provocou a Queda do Paraíso. Os personagens de Depois da terra já sofreram esta queda há muitos anos, e com ela também se foi a ligação provocada pelos relatos de livros (no caso Moby Dick, de Melville), sempre existindo, por meio dela, um afastamento sentimental entre os personagens. E Shyamalan, como em seus outros filmes, só evidencia uma possibilidade de haver essa aproximação, que é justamente a crença em alguma fábula e alguma história que possa salvar os personagens, seja dos mortos (em O sexto sentido), dos extraterrestres (em Sinais), da realidade do vilão (em Corpo fechado), do apocalipse final (em Fim dos tempos) e do animal que ronda uma piscina (em A dama na água). Para ele, não existe a continuidade, seja da vida ou da civilização, num escopo maior, sem essa dedicação dos personagens a um determinado imaginário. O duelo final de Kitai remete a essa capacidade tanto de retomada da fantasia quanto do enfrentamento da morte passada, de sua irmã Senshi (Zoë Kravitz), que pode ter transformado sua vida e oferece bons sustos. Esta ficção de Shyamalan se ajusta dentro de um moldes previsto, e se a sua proposta poderia ser melhor desenvolvida não é pelo fato de não trazer elementos interessantes.
Seria injusto classificar as atuações de Will e Jaden Smith como as piores da sua carreira. Smith praticamente repete os trejeitos que já mostrou com força em filmes mais dramáticos, atenuados quando envereda pelo humor da série Homens de preto, e Jaden não tira a dramaticidade das sequências de ação, mesmo que seja um ator visivelmente em formação e talvez não tão adequado ao papel. Shyamalan, por sua vez, consegue, aqui, obter uma clareza maior da montagem, que é tão complicada em seus filmes iniciais (sempre com algum comportamento abrupto demais ou desfecho confiando na aceitação imediata do espectador, como em Corpo fechado), entregando, a partir dos 40 minutos finais, um crescente que não se configura morno, com a fotografia excelente, especificamente nas cenas de voo, de Peter Suschitzky (habitual colaborador de David Cronenberg e de duas ficções cult dos anos 80, cujos cenários lembram alguns deste filme de Shyamalan, O império contra-ataca e Krull) e a trilha sonora sensível de James Newton Howard (da série O senhor dos anéis). Apesar de sua irregularidade, sobretudo na metade, e do epílogo desnecessário, espantosamente simplista,  Shyamalan entrega, em Depois da terra, uma ficção científica interessante e capaz de criar diálogos.

After earth, EUA, 2013 Direção: M. Night Shyamalan Elenco: Will Smith, Jaden Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz Produção: Caleeb Pinkett, James Lassiter, Will Smith Roteiro: Gary Whitta, Stephen Gaghan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 100 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blinding Edge Pictures / Gary Whitta

Cotação 3 estrelas