Duna (1984)

Por André Dick

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Este texto é dedicado à minha mãe, Cenira Dias Dick, admiradora da obra de David Lynch

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento, além de Jodorowsky, o que rendeu um documentário recente sobre como seria sua versão). Anos atrás, o diretor Peter Berg (de Hancock, Battleship…) teria desistido de uma nova versão, considerando uma obra infilmável, mesmo avaliando que a versão de Lynch não tinha a ação que ele imaginava quando leu Duna, o que é estranho, já que o romance de ficção científica de Herbert pode ser considerado mais psicológico do que propriamente de aventura – e é difícil pensar que Berg conseguiria realizar um trabalho como o de Lynch.
Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, embora tenha se tornado, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).
A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
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Cheguei ao romance por meio do filme e é comum se dizer que Lynch não explica nada. Esqueçamos, inicialmente, a montagem imposta pelos De Laurentiis. Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, entretanto a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.
A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho, que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.

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Comenta-se que o filme é confuso por já começar explicando o que acontecerá dali em diante. Se formos ao livro de Frank Herbert, veremos, ao longo dele, trechos do diário da Princesa Irulan (Virginia Madsen), que conta o que acontece com os personagens. Lynch acerdatamente começa com essa narração e, mesmo seguindo quase fielmente as sequências do livro, reordena de forma com que o filme vá ganhando um tom crescente (não por acaso, a câmera se afastando do olhar de Irulan para mostrá-la contra o espaço sideral cria um contraponto ao final com a câmera se aproximando dos olhos de Paul Atreides), Herbert tem um estilo interessante de apresentar os personagens, mas o filme não pode entrar no universo sem antes tentar explicá-lo.
Identifica-se também como um problema os pensamentos em off dos personagens. Lynch não é Malick, contudo o fato é que aqui também ele é fiel ao livro. Os pensamentos parecem óbvios, mas tanto no livro quanto no filme criam um elemento de onirismo (os personagens não estão completamente acordados).
Ao mesmo tempo, o vocabulário seria complicadíssimo (quando passou nos cinemas dos Estados Unidos, parece que os espectadores recebiam uma espécie de manual para acompanhar a história!). Tratando-se de uma ficção científica mitológica, não parece haver obrigação de Lynch explicar o sentido de cada termo dado por Herbert, nem de, por respeito aos fãs do livro, escondê-lo.

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E os personagens, também no livro, são diversificados, surgem e desaparecem em alguns casos, ou seja, algumas vezes não desenvolvidos suficientemente. Quase não há ação ou humor – costuma-se comparar O senhor dos anéis com Duna, mas são, afora o universo mitológico, muito distintos, cada um possui qualidades específicas –, e sim muitos diálogos sobre intrigas de poder e política, com um tom, ao mesmo tempo, ecológico e religioso, quase teatral e profético. Há uma espécie de tensão de domínio entre os personagens (o Barão cujo destino está nas mãos das reverendas; o adolescente que precisa despertar para seu destino e salvar seu pai; a relação estranha entre o Barão e seu sobrinho; a tentativa de subjugar o povo Fremen). Além disso, no filme, Lynch tenta equilibrar, levantando uma tensão a respeito do anel que carrega o Duque Leto e é cobiçado pelo Barão Harkonnen, assim como guarda um mistério sobre quem pode ser o traidor infiltrado entre os Atreides (algo que se revela de início no livro). Alguns personagens de destaque no livro, como Dr. Kynes, Guy Halleck, Shadout Mapes e pai de Paul Atreides, aparecem mais na versão do filme feita para a TV. Outros, como o Imperador Shadam IV e a reverenda que o acompanha, pouco aparecem no livro, entretanto Lynch tenta destacá-los nas versões existentes do filme.
Já  alguns personagens têm suas características acentuadas, como o do próprio Barão, que no livro não parece ter toda a perversidade imaginada por Lynch.
Talvez Lynch tenha se equivocado com a inserção dos módulos de destruição, efetuados por meio da sonoridade da voz, o que é elementar em seu cinema (o poder do som), mas não existe no livro e não encaixa bem na história, sobretudo sem mostrar como são construídos, mesmo Paul Atreides tendo sua planta. Ainda assim, esses módulos de voz têm a ver com sua obra cinematográfica, em que o som humano sempre exerce um poder (não por acaso, a ação de Veludo azul é desencadeada depois da descoberta de uma orelha num capinzal).

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A maior falha do filme Duna, porém, é que depois de 90 minutos de filme (na versão mais curta; quase duas horas depois na versão estendida), a trama passa a ganhar um ritmo mais intenso, impedindo que conheçamos melhor os personagens. Muitos acontecimentos se sucedem em poucos minutos (por isso, a versão estendida é curiosa). Na parte que precede seu final, está a maioria das cenas deletadas de Duna (o duelo entre Paul Atreides e um fremen; a conversão de um corpo em líquido; o nascimento da irmã de Paul; a perseguição de Rabban aos fremen no deserto; a descoberta de como é produzida a Água da Vida). Raffaella De Laurentiis, filha de Dino, acrescenta que isso se deu, também, porque foi pedido a Lynch que fizesse sete cenas em apenas uma, o que prejudicaria um projeto como este, elaborado em três anos e meio. Também, claro, porque a montagem final não foi a desejada por Lynch. Raffaella explica que a Universal, depois, tentou fazer uma versão estendida, embora Lynch não tenha participado, sem explicar se era opção do diretor, dela ou da Universal. O fato é que até hoje Lynch se nega a falar do filme, e a revisitá-lo, sobretudo porque foi feita essa versão de três horas para a TV sem a sua autorização.
De qualquer modo, Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.

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Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
O elenco, apesar de a maioria ter participações rápidas, é muito bem escolhido, sobretudo Jürgen Prochonow e Francesca Annis, como os pais de Paul Atreides, Max von Sydow, na pele de um Fremen, Sian Phillips, no papel da reverenda ameaçadora, Brad Dourif e Kenneth McMillan – como harkonnens – e Sting (numa participação curta e eficiente). A atriz Sean Young, como Chani, namorada de Atreides, acaba tendo uma boa presença plástica, embora o roteiro não permita mais participação, e a meia hora final é muito bem pensada – com uma cena surpreendente, que suplanta alguns efeitos especiais mais precários (não se sabe se as naves são mais estáticas para ser uma contraposição à movimentação de Star Wars, pois Lynch pediu a todos que não queria um ar de ficção científica em sua obra, preferindo um futurismo passadista, e já que Duna é mais uma ficção psicológica, entretanto na maior parte das vezes não convencem, servindo mais como imagens pictóricas). Nesse sentido, o filme consegue retratar melhor as batalhas na areia e dos vermes do que revelar imagens de naves espaciais, ainda mais diante das ficções científicas de destaque feitas anteriormente (como 2001, Star wars e Blade Runner) e, sobretudo, posteriormente – embora sua direção de arte de Anthony Masters (de Lawrence da Arábia e 2001), as maquetes perfeitas de Emilio Ruiz del Río, e as imagens dos vermes (criados por Carlos Rambaldi, o mesmo responsável pela concepção de E.T. e do King Kong de 1976) compensem isso, criando um universo muito mais amplo do que 2001 e Blade Runner, situados em lugares definidos.

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Nesse sentido, há boas cenas de ação (como aquelas que mostram os vermes gigantes) e, no plano técnico, direção de arte, maquiagem e figurino notáveis, além da fotografia do mesmo Freddie Francis de O homem elefante. Destaque-se que Duna concorreu apenas ao Oscar de melhor som. Nessas categorias referidas, talvez ele tivesse como concorrente, em 1984, apenas Amadeus e 2010 – sendo, a meu ver, superior em todas essas categorias em relação a esses dois, sobretudo por criar um universo, e não simplesmente recriar um já existente. No prêmio Saturn Awards, mais importante da ficção científica, ele foi reconhecido com indicações (melhor filme, melhor maquiagem, melhores efeitos especiais) e recebeu um (melhor figurino, Idade Média e futurismo, foi feito de forma notável por Bob Ringwood (responsável pelos figurinos de Excalibur, Império do sol e Batman).
Impressiona como Lynch, reunindo uma grande equipe em estúdios do México, em 1983, conseguiu reproduzir o universo imaginado por Herbert, sobretudo nas cavernas e palácios, inclusive porque o romance não descreve detalhadamente os cenários, preferindo concentrar-se nos personagens. Esses cenários como que simbolizam os personagens, frios e simétricos, esperando um sentido para a Água da Vida. Consequentemente, cada planeta de Duna corresponde a uma concepção visual: Caladan tem mares e chuva, com plantas, vento e umidade; Gied Prime tem um ambiente de máquinas, correntes, fios e iluminações futuristas, além de uma cor verde doentia nas paredes; Arrakis tem o clima de deserto, com coloração amarela, e cavernas escuras; e Kaitain, onde fica a sede do imperador, tem edifícios tecnológicos.

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Não há dúvida de que a concepção de Masters, baseada em muitos desenhos de Lynch, cria um universo magnífico.Eu diria que vale a pena conhecê-lo, pois tem imagens notáveis, que lembram pinturas – sua força é, sem dúvida, pictórica e sonora –, explicando o fato de Lynch ter preferido fazer este filme a dirigir O retorno de Jedi, fazendo com que não desenvolva alguns aspectos, que soariam repetitivos, e o cineasta não queira mais, hoje, falar do filme em entrevistas. Além disso, tenho especial apreciação pela trilha de Toto, misturando um tom épico com algumas sonoridades dos anos 80, mas sem ficar datado. Lynch construiu a maior ficção científica com elementos do rock no figurino e na música.
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas. Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

Cotação 5 estrelas

Joy – O nome do sucesso (2015)

Por André Dick

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Nos últimos anos, o diretor David O. Russell se tornou uma aposta praticamente certa para o Oscar. Ele conseguiu que três filmes seguidos seus – O vencedor, O lado bom da vida e Trapaça – fossem indicados ao Oscar de melhor filme e de melhores atuações principais, pouco lembrando o início de sua carreira, quando fez projetos mais independentes – embora com elencos estelares – como Três reis, uma sátira de guerra, e Huckabees – A vida é uma comédia. Tudo indicava que com sua estrela favorita, Jennifer Lawrence, e seu ator favorito, Bradley Cooper, com Robert De Niro de coadjuvante, também presente em seus filmes mais recentes, Joy – O nome do sucesso se tornasse novamente um candidato para a Academia de Hollywood.
Não foi o que aconteceu. Lawrence foi indicada ao Oscar de atriz, mas nas categorias restantes há uma ausência absoluta de seu novo filme. Por um lado, é explicável: Joy é talvez a peça mais incomum, e menos propensa à Academia de Hollywood, desde Huckabees, com uma narrativa, desde o início, bastante estranha e mesmo confusa, mesmo partindo de personagens reais. Parece que O. Russell estava indefinido com o gênero do filme, e também com a ordem em que montaria sua narrativa.

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Nesse sentido, Joy se sente inicialmente como uma peça inacabada. Ele mostra a história de Joy Mangano (Jennifer Lawrence), mãe de dois filhos, que mora com os pais, Rudy (Robert De Niro) e Terri (Virginia Madsen), e o marido, um músico de pouco sucesso, Tony Miranne (Édgar Ramírez). À sua volta, circulam também a avó, sua melhor amiga, Jackie (Dascha Polanco) e a nova mulher do pai, Trudy (Isabella Rossellini), uma viúva italiana bastante envolvida com negócios. Joy também possui uma meia-irmã, Peggy (Elisabeth Röhm). Se Rossellini e Diane Ladd são presenças de Coração selvagem no filme de O. Russell, pode-se dizer que Joy é uma das obras mais distintas do ano que passou, não apenas pela temática como pela disposição de cenários.
A história contada por O. Russell em parceria com Annie Mumolo mostra que Joy, depois de tentar limpar uma sujeira em casa, acaba desenhando o que seria um esfregão mais acessível para uso e pretende vendê-lo em larga escala. Ela acaba conseguindo contato com o executivo da QVC Neil Walker (Bradley Cooper), com poder também dentro de uma emissora de televisão capaz de ajudar na venda de produtos.
Joy é, de certo modo, tão otimista quanto os dois últimos filmes de O. Russell, mais especificamente O lado bom da vida – que cresce a cada nova visualização –, mas com a mesma aura de melancolia e nostalgia do interessante Trapaça. O. Russell é um bom diretor de atores, tem inegável domínio sobre as propriedades narrativas, é ousado o bastante para apresentar uma narrativa diferente, e ainda parece sempre faltar algo em suas histórias. Trapaça, por exemplo, tentava mesclar o estilo de Scorsese com o de séries televisivas dos anos 70 e esbarrava, por vezes, no excesso de diálogos. Joy parece mais acabado nesse sentido, embora o elenco pareça ter participado dele em momentos de folga na agenda, apesar de todos se mostrarem excelentes.

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Nenhum personagem, a não ser Joy, é muito trabalhado, e lamenta-se a pouca participação de Walker, uma bela criação de Cooper (ausente da temporada de premiações justamente por um papel de pouca extensão). O. Russell, no entanto, simboliza a personagem central pelos cenários: sua casa está sempre repleta de gente, com pouco espaço, e quando ela vai para a televisão parece que há uma ampliação e se abre uma paisagem invernal com muitos anúncios e neons chamativos. A família diante da TV esperando o aparecimento do produto é um registro quase de Frank Capra. Também a admiração de sua mãe por novelas. Há algo de uma reconstituição de época que remete a Grandes olhos, de Tim Burton, no sentido de que Joy faz parte daquele sonho tão pronunciado na América de independência – e o encontro no qual mostra a funcionalidade do esfregão para Walker é numa sala asséptica, totalmente iluminada, um ambiente onírico, como transparece ao longo do filme. Os personagens parecem vagar entre a realidade e o sonho, a exemplo da mãe de Joy, totalmente desconectada, e o pai e Trudy, a nova namorada, parecem mais propensos a reuniões que lembra um clã, uma máfia – mesmo porque De Niro é visto sempre assim, e Rossellini também se mostre assustadora, embora sem esse objetivo. Todas as imagens que remetem a Joy acabam tendo esse aspecto, seja seu encontro com Tony ou quando caem flocos de gelo sobre seu cabelo diante de uma vitrine. O. Russell torna o personagem quase sempre uma pose de algo interno.

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Há, igualmente e em maior ou menos intensidade, algo dos irmãos Coen aqui, mais especificamente de Gosto de sangue, Arizona nunca mais e Onde os fracos não têm vez, uma espécie de procura pela presença da mulher num universo puramente masculinizado – embora todas estejam ao redor de Joy e ela seja a grande figura a ser seguida – e mais ao final há ecos de Estrela solitária, de Wenders. Muito curioso é um momento (talvez spoiler para alguns) em que Joy sai do seu trabalho e chega até um vizinho que lhe entrega uma arma e ela passa a atirar, como se precisasse incorporar a violência associada ao homem para ter sucesso. É um conto bastante simples de superação – superação mais empreendedora do que psiquiátrica, como vimos em O lado bom da vida – e que recorre quase sempre aos atores para ter um motivo maior.
Joy, de certo modo, é o filme menos pretensioso de O. Russell desde Huckabees, e por isso sua importância. Inicialmente cotado para premiações, ele não mostra em nenhum momento as características para ser lembrado, ou seja, sua temática parece absurdamente comum, quando, na verdade, conta parte da história que possui a mulher na construção da América. Lawrence, como em outros papéis, está excelente, e dispensa-se de comentar sua química habitual com Cooper e De Niro. Além disso, os quesitos de produção são, do mesmo modo que em outros filmes do diretor, ótimos, principalmente o figurino e a fotografia. Chama mais atenção realmente por que O. Russell deixa algumas pontas soltas em seu filme e não o encerra da maneira mais apropriada com o material que tinha às mãos. O que se diria é que Joy merece uma visão, apesar de todas as críticas negativas pelas quais foi cercado desde seu lançamento.

Joy, EUA, 2015 Diretor: David O. Russell Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Elisabeth Röhm, Édgar Ramírez, Virginia Madsen, Dascha Polanco, Isabella Rossellini, Diane Ladd, Jimmy Jean-Louis Roteiro: Annie Mumolo, David O. Russell Fotografia: Linus Sandgren  Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: John Davis, John Fox, Jonathan Gordon, Ken Mok, Megan Ellison Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Annapurna Pictures / Davis Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia