De olhos bem fechados (1999)

Por André Dick

Último filme de Stanley Kubrick, que faleceu sem vê-lo lançado depois da censura causada pelas cenas de nudez, De olhos bem fechados se baseia no livro Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler, com uma carga de tensão dramática, de thriller quase fantasmagórico e uma fotografia surpreendente de Larry Smith. Kubrick, aqui, está interessado numa estética noturna, do cotidiano, mas com um clima onírico, sem a tentativa de fazer cenas antológicas situadas de forma isolada (de agora em diante, possíveis spoilers).
Um médico, Bill Hadford (Tom Cruise), é casado com Alice (Nicole Kidman), e Kubrick já inicia o filme mostrando ambos indo a uma festa. Nela, Bill fica ao lado de duas modelos (Louise J. Taylor e Stewart Thorndike), enquanto sua mulher conversa com um húngaro, Sandor Szavost (Sky Dumont). A pedido do dono da festa, seu cliente Ziegler Victor (Sydney Pollack), o médico é chamado para atender, com urgência, uma modelo com overdose, Mandy (Julienne Davis). Em determinado momento, Bill se depara com um amigo pianista de jazz, Nick Nightingale (Todd Field), que fala de uma festa proibida no qual toca, e Kubrick compõe essa longa sequência com uma direção de arte composta por luzes de Natal e um brilho que tenta realçar, por um lado, cada um do casal sendo abordado por pessoas diferentes, e a maneira como a possível traição se coloca.
No dia seguinte à festa, Alice conta sobre uma fantasia sexual que teve com um oficial da Marinha, enquanto Bill é chamado para atender o pai de uma mulher, Marion (Marie Richardson), que, mesmo casada, o beija e lhe diz que o ama. No entanto, ele está perturbado com o que a mulher lhe contou, e, vagando pela noite, procura novamente Nick, que toca piano num bar à noite e lhe revela o que precisa para ir à festa de máscaras.

De olhos bem fechados.Filme 3

De olhos bem fechados.Filme 4

De olhos bem fechados.Filme 5

Kubrick está interessado nessa atração do ser humano pelo sexo e pelo proibido – justamente porque é difícil entendê-los quando cercado de vozes e situações incomuns – a partir do choque causado pelo passado e pela morte do presente (não por acaso, depois de visitar o paciente que acabou de morrer, o único pensamento de Cruise seja na relação com a esposa). Muitas vezes, incorre em metáforas, mas a verdade é que o clima criado durante todo o filme é onírico, fiel ao romance, e mostra a descoberta de um mundo que o médico não conhecia, como quando conhece o dono de uma loja de fantasias, Milich (Rade Sherbedzija), que cuida de uma menina (Leelee Sobieski), soando a presença de Lolita. Tom Cruise, com seu aspecto ingênuo, e ainda sem ficar conhecido pelos filmes de ação, cabe muito bem nesse papel, assim como Sydney Pollack, o amigo misterioso. A máscara que o personagem Bill precisa comprar para ir à festa representa as diversas personae que acaba tendo de adotar, a fim de que não seja descoberto.
Há um interesse evidente de Kubrick nessa odisseia pelos espelhos, e os personagens estão sempre à frente deles, sendo vistos ou se olhando, como na conversa que o casal tem, antes de começar a divagar justamente sobre suas repressões. Estamos diante da odisseia de um homem comum, assim como Ulysses cambaleando por Dublin, ou como Lynch tornaria sua personagem Rita em Cidade dos sonhos descendo a Mulholland Drive (uma inspiração de Kubrick em Lynch, para retribuir Eraserhead em O iluminado). Lynch compreende, como Kubrick, que um filme transita por vários gêneros, ou seja, há, em De olhos bem fechados, tanto um drama de costumes quanto uma atmosfera de terror e suspense, e elementos de comédia, tragédia e distração.
No entanto, esta odisseia, assim como pode terminar numa resolução e no encontro do personagem com uma pretensa verdade que pode resguardá-lo de uma verdade maior, também concede uma espécie de visto para uma realidade escondida ao sonho que Bill imagina viver a partir de determinado momento, quando passa a ser seguido pela rua, por pessoas que desconhece, ou quando descobre que o amigo sofreu uma violência.

De olhos bem fechados

De olhos bem fechados.Filme

De olhos bem fechados.Filme 9

A festa com cenas de sexo é mostrada de maneira muito discreta, por meio da brilhante fotografia de Smith, parecendo mais uma espécie de anexo às imagens enquadradas de Barry Lindon, para serem vislumbradas como pinturas, mas é através dela que Bill se coloca em meio à cena central, quando cobrado por sua presença. Isto faz com que Kubrick retome a primeira parte do filme, quando os personagens estão numa festa e seguem caminhos diferentes, embora ambos ilusórios.
Kubrick novamente dispõe seus personagens em cenários assépticos, limpos (mesmo na festa da orgia, que lembra filmes que focam o século XIX), pois construiu um Greenwich Village nos estúdios Pinewood, da Inglaterra. O resultado é que poucos filmes conseguem retratar o ambiente noturno como De olhos bem fechados, e quando o personagem central vaga pela cidade é como se Kubrick conseguisse ingressar o espectador em cada ambiente, seja de festa (como o clube), de terror (o encontro secreto), de alegria estranha (a loja de fantasias, com o nome sugestivo de “Rainbow”, como se remetesse ao universo paralelo de Oz) ou de melancolia (a casa de Domino, uma prostituta pelo qual Bill se interessa, interpretada por Vinessa Shaw). E focaliza sempre a estranheza e o amor entre os personagens num distanciamento provocado por eles mesmos. Isso se deve à interpretação tanto de Cruise quanto de Kidman, que à época formavam um dos casais mais conhecidos de Hollywood e que, de certo modo, expõem a si mesmos por meio dos personagens, embora sempre com um determinado limite, sem nenhuma tendência a algo explícito (o sexo, aqui, sem dúvida não tem a mesma presença daquela que vemos, por exemplo, em Laranja mecânica). Kubrick tinha a noção exata de que, para que o filme rendesse na medida certa, o casal precisaria ser de verdade – e o que eles falassem transpareceria, em algum sentido, o conhecimento da plateia. Tende-se a dizer que as cenas de sexo tão excessivamente assépticas, mas parece se encontrar aí um dos méritos do diretor: as cenas evocam um universo de máscaras, e nada se revela nele. No sexo mostrado de De olhos bem fechados, todos são escondidos.

De olhos bem fechados.Filme 6

De olhos bem fechados.Filme 7

De olhos bem fechados.Tom Cruise

Ou seja, De olhos bem fechados quer adentrar a noite como se adentra em personagens densos e provocativos, a começar por Bill, que não enlouquece como outros personagens de Kubrick (o computador de 2001, Jack de O iluminado e o soldado de Nascido para matar), mas porque simplesmente não entende que está acordado. Para Kubrick, a noite e a relação se compara a uma divagação, a um elemento cercado de onirismo, que pode atender ou não por segurança e amor. Interessante, nesse sentido, quando Bill volta à casa de Domino e encontra uma colega, que lhe conta um segredo sobre a amiga, fazendo com que a satisfação de Bill acabe perpassada pelo sentimento de perda – tanto da pessoa quanto da noite anterior, que lhe trouxe o que até então desconhecia. Mesmo com as luzes acesas, e há luzes espalhadas ao longo de todo o filme, seja as de Natal, época em que se passa o filme, seja as das festas que acontecem, é difícil ver os personagens. Resta a perambulação na noite, até um encontro com o segredo, em meio a uma música soturna. E o personagem está sempre acompanhado, na busca de sua fantasia, pelo espectro da morte, que o impede de realizá-la. Depois de diversas obras-primas, De olhos bem fechados é outro filme de Kubrick que atinge notas altas.

Eyes wide shut, EUA/ING, 1999 Diretor: Stanley Kubrick Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Rade Serbedzija, Marie Richardson, Thomas Gibson, Leelee Sobieski, Vinessa Shaw, Todd Field  Roteiro: Stanley Kubrick, Frederic Raphael Fotografia: Larry Smith Trilha Sonora: Jocelyn Pook Produção: Brian W. Cook, Stanley Kubrick Duração: 160 min. Estúdio: Hobby Films / Warner Bros. Distribuidora: Warner Bros.

 

De olhos bem fechados (1999)

Por André Dick

De olhos bem fechados.Stanley Kubrick

Último filme de Stanley Kubrick, que faleceu sem vê-lo lançado depois da censura causada pelas cenas de nudez, De olhos bem fechados se baseia no livro Breve romance de sonho, de Arthur Schnitzler, com uma carga de tensão dramática, de thriller quase fantasmagórico e uma fotografia surpreendente de Larry Smith. Kubrick, aqui, está interessado numa estética noturna, do cotidiano, mas com um clima onírico, sem a tentativa de fazer cenas antológicas situadas de forma isolada (de agora em diante, possíveis spoilers).
Um médico, Bill Hadford (Tom Cruise), é casado com Alice (Nicole Kidman), e Kubrick já inicia o filme mostrando ambos indo a uma festa. Nela, Bill fica ao lado de duas modelos (Louise J. Taylor e Stewart Thorndike), enquanto sua mulher conversa com um húngaro, Sandor Szavost (Sky Dumont). A pedido do dono da festa, seu cliente Ziegler Victor (Sydney Pollack), o médico é chamado para atender, com urgência, uma modelo com overdose, Mandy (Julienne Davis). Em determinado momento, Bill se depara com um amigo pianista de jazz, Nick Nightingale (Todd Field), que fala de uma festa proibida no qual toca, e Kubrick compõe essa longa sequência com uma direção de arte composta por luzes de Natal e um brilho que tenta realçar, por um lado, cada um do casal sendo abordado por pessoas diferentes, e a maneira como a possível traição se coloca.
No dia seguinte à festa, Alice conta sobre uma fantasia sexual que teve com um oficial da Marinha, enquanto Bill é chamado para atender o pai de uma mulher, Marion (Marie Richardson), que, mesmo casada, o beija e lhe diz que o ama. No entanto, ele está perturbado com o que a mulher lhe contou, e, vagando pela noite, procura novamente Nick, que toca piano num bar à noite e lhe revela o que precisa para ir à festa de máscaras.

De olhos bem fechados.Filme 3

De olhos bem fechados.Filme 4

De olhos bem fechados.Filme 5

Kubrick está interessado nessa atração do ser humano pelo sexo e pelo proibido – justamente porque é difícil entendê-los quando cercado de vozes e situações incomuns – a partir do choque causado pelo passado e pela morte do presente (não por acaso, depois de visitar o paciente que acabou de morrer, o único pensamento de Cruise seja na relação com a esposa). Muitas vezes, incorre em metáforas, mas a verdade é que o clima criado durante todo o filme é onírico, fiel ao romance, e mostra a descoberta de um mundo que o médico não conhecia, como quando conhece o dono de uma loja de fantasias, Milich (Rade Sherbedzija), que cuida de uma menina (Leelee Sobieski), soando a presença de Lolita. Tom Cruise, com seu aspecto ingênuo, e ainda sem ficar conhecido pelos filmes de ação, cabe muito bem nesse papel, assim como Sydney Pollack, o amigo misterioso. A máscara que o personagem Bill precisa comprar para ir à festa representa as diversas personae que acaba tendo de adotar, a fim de que não seja descoberto.
Há um interesse evidente de Kubrick nessa odisseia pelos espelhos, e os personagens estão sempre à frente deles, sendo vistos ou se olhando, como na conversa que o casal tem, antes de começar a divagar justamente sobre suas repressões. Estamos diante da odisseia de um homem comum, assim como Ulysses cambaleando por Dublin, ou como Lynch tornaria sua personagem Rita em Cidade dos sonhos descendo a Mulholland Drive (uma inspiração de Kubrick em Lynch, para retribuir Eraserhead em O iluminado). Lynch compreende, como Kubrick, que um filme transita por vários gêneros, ou seja, há, em De olhos bem fechados, tanto um drama de costumes quanto uma atmosfera de terror e suspense, e elementos de comédia, tragédia e distração.
No entanto, esta odisseia, assim como pode terminar numa resolução e no encontro do personagem com uma pretensa verdade que pode resguardá-lo de uma verdade maior, também concede uma espécie de visto para uma realidade escondida ao sonho que Bill imagina viver a partir de determinado momento, quando passa a ser seguido pela rua, por pessoas que desconhece, ou quando descobre que o amigo sofreu uma violência.

De olhos bem fechados

De olhos bem fechados.Filme

De olhos bem fechados.Filme 9

A festa com cenas de sexo é mostrada de maneira muito discreta, por meio da brilhante fotografia de Smith, parecendo mais uma espécie de anexo às imagens enquadradas de Barry Lindon, para serem vislumbradas como pinturas, mas é através dela que Bill se coloca em meio à cena central, quando cobrado por sua presença. Isto faz com que Kubrick retome a primeira parte do filme, quando os personagens estão numa festa e seguem caminhos diferentes, embora ambos ilusórios.
Kubrick novamente dispõe seus personagens em cenários assépticos, limpos (mesmo na festa da orgia, que lembra filmes que focam o século XIX), pois construiu um Greenwich Village nos estúdios Pinewood, da Inglaterra. O resultado é que poucos filmes conseguem retratar o ambiente noturno como De olhos bem fechados, e quando o personagem central vaga pela cidade é como se Kubrick conseguisse ingressar o espectador em cada ambiente, seja de festa (como o clube), de terror (o encontro secreto), de alegria estranha (a loja de fantasias, com o nome sugestivo de “Rainbow”, como se remetesse ao universo paralelo de Oz) ou de melancolia (a casa de Domino, uma prostituta pelo qual Bill se interessa, interpretada por Vinessa Shaw). E focaliza sempre a estranheza e o amor entre os personagens num distanciamento provocado por eles mesmos. Isso se deve à interpretação tanto de Cruise quanto de Kidman, que à época formavam um dos casais mais conhecidos de Hollywood e que, de certo modo, expõem a si mesmos por meio dos personagens, embora sempre com um determinado limite, sem nenhuma tendência a algo explícito (o sexo, aqui, sem dúvida não tem a mesma presença daquela que vemos, por exemplo, em Laranja mecânica). Kubrick tinha a noção exata de que, para que o filme rendesse na medida certa, o casal precisaria ser de verdade – e o que eles falassem transpareceria, em algum sentido, o conhecimento da plateia. Tende-se a dizer que as cenas de sexo tão excessivamente assépticas, mas parece se encontrar aí um dos méritos do diretor: as cenas evocam um universo de máscaras, e nada se revela nele. No sexo mostrado de De olhos bem fechados, todos são escondidos.

De olhos bem fechados.Filme 6

De olhos bem fechados.Filme 7

De olhos bem fechados.Tom Cruise

Ou seja, De olhos bem fechados quer adentrar a noite como se adentra em personagens densos e provocativos, a começar por Bill, que não enlouquece como outros personagens de Kubrick (o computador de 2001, Jack de O iluminado e o soldado de Nascido para matar), mas porque simplesmente não entende que está acordado. Para Kubrick, a noite e a relação se compara a uma divagação, a um elemento cercado de onirismo, que pode atender ou não por segurança e amor. Interessante, nesse sentido, quando Bill volta à casa de Domino e encontra uma colega, que lhe conta um segredo sobre a amiga, fazendo com que a satisfação de Bill acabe perpassada pelo sentimento de perda – tanto da pessoa quanto da noite anterior, que lhe trouxe o que até então desconhecia. Mesmo com as luzes acesas, e há luzes espalhadas ao longo de todo o filme, seja as de Natal, época em que se passa o filme, seja as das festas que acontecem, é difícil ver os personagens. Resta a perambulação na noite, até um encontro com o segredo, em meio a uma música soturna. E o personagem está sempre acompanhado, na busca de sua fantasia, pelo espectro da morte, que o impede de realizá-la. Depois de diversas obras-primas, De olhos bem fechados é outro filme de Kubrick que atinge notas altas.

Eyes wide shut, EUA/ING, 1999 Diretor: Stanley Kubrick Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Rade Serbedzija, Marie Richardson, Thomas Gibson, Leelee Sobieski, Vinessa Shaw, Todd Field Produção: Brian W. Cook, Stanley Kubrick Roteiro: Stanley Kubrick, Frederic Raphael Fotografia: Larry Smith Trilha Sonora: Jocelyn Pook Duração: 160 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Hobby Films / Warner Bros.

Cotação 5 estrelas

Terapia de risco (2013)

Por André Dick

Terapia de risco.Filme

Há alguns anos, o diretor Steven Soderbergh vem comentando sobre o interesse em se aposentar, apesar de ser um dos cineastas mais produtivos de Hollywood. Desde 2011, ele realizou, entre outros, A toda prova, Contágio, Magic Mike, Behind the Candelabra (exibido no último Festival de Cannes) e este Terapia de risco. Conhecido por sua multiplicidade, capaz de fazer filmes esteticamente diferentes, como Traffic, e ganhar no mesmo ano o Oscar de melhor diretor pelo linear Erin Brockovich, passando por aqueles destinados aos multiplex, como a série Onze homens e um segredo, até os dois filmes sobre Che Guevara, Soderbergh talvez seja o que mais pretende: uma incógnita. Não é exatamente Terapia de risco que vai ajudar a esclarecer sua trajetória, iniciada com uma Palma de Ouro em Cannes por sexo, mentiras e videotape. O que se destaca é como ele, aqui, traz elementos que o assemelham a David Fincher. Com os filtros amarelados, as lâmpadas fosforescentes, abajures bem situados e o céu sempre ameaçando com temporais, e ainda com Rooney Mara no elenco (ela fez Millennium), Terapia de risco parece um suspense que parte de Hitchcock, mas com a maneira de filmar de Fincher.
Mara interpreta Emily Taylor, que recebe o marido, Martin (Channing Tatum, com a disponibilidade de atuação de quem está em visita às filmagens), depois de anos na cadeia, de volta à sua casa. Ela parece apresentar, no entanto, um quadro depressivo. Depois de tentar o suicídio, é atendida por um psiquiatra, Jonathan Banks (Jude Law), que, interessado no seu histórico, resolve tratar seu caso com atenção, receitando alguns remédios e indo consultar sua psiquiatra anterior, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). No início, eles parecem ajudá-la, inclusive a retomar seu relacionamento com o marido, até o dia em que, sem nenhuma explicação, acontece uma reviravolta. Imagina-se que o comportamento de Emily seja explicado pelo remédio recomendado para tratamento, o fatídico Ablixa, capaz de, ao mesmo tempo, despertar a sexualidade e causar sonambulismo. Banks começa a se ver prejudicado tanto no trabalho quanto com sua família, com a mulher, Deirdre (Vinessa Shaw), e um filho. Depois de um início trepidante e indefinido, Soderbergh vai apresentando os personagens e seus conflitos, a sua busca pela melhora através do tratamento, mas a questão é saber até que ponto tudo segue realmente a ordem que se imagina. Soderbergh, nesse ponto, estaria fazendo uma crítica à indústria farmacêutica ou às pessoas que dela se utilizam? Terapia de risco acaba sendo uma concentração interessante, em doses controladas, de um thriller que vai tomando forma, ficando grande, interessante, até optar em ter vários direcionamentos.

Terapia de risco

O elenco é apto para isso. Jude Law parece ter saído diretamente de Closer e, embora não apresente a mesma interpretação de Anna Karenina, uma surpresa em sua trajetória, consegue desenvolver bem seu psiquiatra. O mesmo se diz para as coadjuvantes Catherine Zeta-Jones (que trabalhou com Soderbergh em Traffic e na série Onze homens e um segredo) e Vinessa Shaw. Rooney Mara, no entanto, não consegue repetir sua atuação excelente de Millennium, e parece pouco encaixada no papel, também porque o roteiro dá alguns saltos de comportamento e extrai o clímax de cada cena a partir da parte final. Isso tira um pouco a consistência de algumas passagens de Terapia de risco. No entanto, trata-se de uma atriz que tem presença de cena. Desde sua participação inicial em A rede social, ela certamente é uma persona excêntrica, talvez à espera de um roteiro que, como o de Millennium, possa extrair o seu potencial.
O que mais se destaca em Terapia de risco (daqui em diante, possíveis spoilers) é sua aproximação com outros filmes do gênero, que retrata a relação entre psiquiatra e paciente. Já vimos o mesmo em Instinto selvagem e Desejos, dos anos 90, que acabaram, de alguma maneira, expandindo suas referências para o gênero no universo contemporâneo. Soderbergh abraça os caminhos do gênero, e, ao deixar os personagens, em determinados momentos, flutuando, torna sua finalidade menos oportuna. Em termos de atmosfera, de qualquer modo, também pela influência visível de Fincher, há uma espécie de atração, de clima indefinido entre os personagens, como o em que vemos em alguns filmes de Soderbergh, principalmente os despretensiosos, como Irresistível paixão (com George Clooney e Jennifer Lopez) e O desinformante (com Matt Damon). O diretor consegue atrair o espectador para sua narrativa sobretudo no meio do filme, em seu núcleo, quando o comportamento dos personagens mantém sempre um mistério incômodo, assim como a trama policial que se estabelece.

Terapia de risco.Filme 2

Ao mesmo tempo em que essa trama se estabelece, de qualquer modo, Soderbergh vai se desinteressando pela questão da crítica à indústria farmacêutica, tornando os remédios mais como uma espécie de motivação para a ameaça e mesmo para desvendar uma verdade, e criando comportamentos que se justificam apenas para o espectador – nesse sentido, os personagens agem como se representassem para a plateia, e não conforme tenderiam a agir, dentro do filme (como a cena em que Emily, numa festa, se observa no espelho). Todos os personagens, de certo modo, estão inseridos nessa utilização do medicamento, com a finalidade certa ou errada. O diretor considera que a parte interessante do seu thriller são as reviravoltas a partir do uso dele, deixando de lado a discussão sobre a ética e o comportamento de quem lida com a medicina e com o equilíbrio orgânico de seus pacientes. Não que esse fosse o caminho mais adequado, mas, diante da maneira como o filme se apresenta em sua metade final, possivelmente teria uma abrangência mais interessante. Nesse sentido, alguns personagens, como o de Victoria Siebert, não chegam a ser desenvolvidos de maneira a provocar uma tensão maior e ressente-se, nesse sentido, justamente de uma metragem maior, tão importante para Fincher. Para que se crie uma história de suspense, e haja descobertas pouco a pouco, é preciso de tempo para que se analise o que viu. Os efeitos colaterais são sentidos, e a parte final nega o que Soderbergh constrói com competência nas duas primeiras partes. Não torna Terapia de risco dispensável, mas menos interessante do que poderia.

Side effects, EUA, 2013 Direção: Steven Soderbergh Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Vinessa Shaw, Polly Draper, David Costabile Roteiro: Scott Z. Burns Produção: Gregory Jacobs, Lorenzo di Bonaventura, Scott Z. Burns Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 114 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Di Bonaventura Pictures / Endgame Entertainment

Cotação 3 estrelas