Psicose (1998)

Por André Dick

Esta refilmagem de Gus Van Sant do clássico de Alfred Hitchcock de 1960, baseado no romance de Robert Bloch, teve uma recepção bastante negativa, principalmente por ousar repetir quase todos as sequências do original de modo a prestar uma homenagem. De certo modo, a franquia também havia entrado num desgaste, principalmente com o terceiro episódio dirigido pelo próprio Anthony Perkins, que fazia o psicopata ameaçador, Norman, e era uma tortuosa trama de culpas mal conduzida. Como no original (a partir daqui spoilers), o roteiro de Joseph Stefano mostra Marion Crane (Anne Heche), que foge de Phoenix, Arizona, depois de obter 400 mil dólares, deixando o namorado Sam Loomis (Viggo Mortensen). Na estrada, ela para no Bates Motel, onde o proprietário, Norman (Vince Vaughn), mostra um comportamento estranho. Além deles, Julianne Moore surge como Lila Crane, irmã de Marion, e William H. Macy como Milton Arbogast, um detetive.

Todos os elementos do Psicose original estão dispostos aqui, com uma fotografia espetacular de Christopher Doyle, habitual colaborador de Wong Kar-Wai, que destaca, ao contrário do original, todas as cores possíveis. Ao transportar a história dos anos 60 para 1998, Van Sant faz uma reavaliação histórica: o comportamento dos personagens parece o mesmo do original (mais ingênuo), no entanto o cenário é tipicamente dos anos 90, com destaque para os neons do motel e uma luz solar que se contrapõe ao lado soturno do personagem de Norman. Ele tem uma certa influência do subestimado Psicose II, colhendo um ar diurno intenso em contraposição à narrativa que se passa mais à noite.
A carga de suspense elaborada por Hitchcock no original não é repetida aqui, mas Van Sant tem uma condução competente do elenco, a começar por Heche, realmente bem, embora tão criticada, e Vince Vaughn, convincente, como se fosse uma espécie de criança aprisionada pelo passado. Com certos maneirismos que reproduziria em sua trajetória como ator cômico, Vaughn aproveita algumas características de Anthony Perkins e incorpora as suas, como o olhar vago e a tentativa de tratar tudo como uma brincadeira.

O remake de Psicose ainda traz a trilha sonora de Bernard Herrmann adaptada por Danny Elfman e Steve Bartak, fazendo com que a clássica cena do chuveiro se repita com uma intensidade que não deixa a desejar ao original. Ao não utilizar uma fotografia em preto e branco, o filme cria seu próprio estilo. É certamente por utilizar as cores não usadas antes por Hitchcock que passamos a ver dentro de uma faceta iluminada o que antes parecia imperturbavelmente estabelecido num cinema clássico. O espectador vê os personagens tendo as mesmas ações, entretanto as cores que os cercam dizem deles (inclusive a do figurino) muitas vezes mais que o roteiro, como o figurino rosa que Marion utiliza, como um contraponto aos pássaros empalhados de Norman, ou o sanduíche que ele prepara para ela, lembrando aquele do início, com o vermelho do tomate e de uma bebida, além do ketchup.
Van Sant utiliza a cor verde para compor um universo de cores parecido com um jogo sobre a existência humana. Ele faz um zoom sobre uma mosca logo no início do filme, tendo por trás um fundo verde, e depois volta a utilizar essa cor no figurino de Marion Crane, no letreiro da sala de Norman e no uniforme do policial. Em determinado momento, uma senhora que “os insetos, como os humanos, merecem uma morte não dolorosa”. Quando Van Sant faz um zoom no olhar esverdeado de Marion depois de sua morte, enquanto o olhar do assassino escurece (como as nuvens da tempestade), ou quando Norman observa uma mosca voando na última sequência é como se Van Sant comparasse a existência humana, para um psicopata, como a de um inseto, que, por sua vez, sequer deve ser empalhado. Esse detalhe que percorre a obra, essencial para entendê-la, inexiste no original de Hitchcock.

Perceba-se também o uso dos abajures e da claridade do banheiro (completamente branco), em contraponto ao escuro das nuvens sobre a casa de Bates no alto da colina; a cor do chapéu do detetive e a luminosidade da cabine telefônica em contraponto à sala de recepção do hotel, além do céu nebuloso como oposição ao banheiro branco do Bates Motel. Os personagens e suas ações são definidos pela cor utilizada em cada ocasião, especialmente o detetive feito por William H. Macy, cercado por uma cor azul, melancólica, antecipando o que vai lhe acontecer. Van Sant, nos momentos mais assustadores, ao visualizar nuvens escuras no céu e uma estrada tempestuosa, remete a suas peças posteriores, como Elefante, Gerry e Últimos dias. Os faróis dos carros na estrada quando Marion Crane está fugindo antecipam o que acontece na icônica sequência do chuveiro e com o detetive Milton Arbogast, com uma sensação de violência iminente. Nesse sentido, o cineasta, depois de fazer obras sobre jovens abalados pela droga (Drugstore Cowboy e Garotos de programa), e do sucesso de Gênio indomável, indicado a vários Oscars, inclusive o de filme, utiliza Psicose para tratar do próprio cinema e das possibilidades de linguagem de uma história, antecipando também elementos que utilizaria em sua fase mais experimental, principalmente até Paranoid Park. Isso proporciona ao espectador um bom caminho para se comparar duas versões que parecem iguais e se diferem em detalhes substanciais.

Psycho, EUA, 1998 Diretor: Gus Van Sant Elenco: Vince Vaughn, Anne Heche, Julianne Moore, Viggo Mortensen, William H. Macy Roteiro: Joseph Stefano Fotografia: Christopher Doyle Trilha Sonora: Bernard Herrmann, Danny Elfman e Steve Bartek Produção: Gus Van Sant e Brian Grazer Duração: 104 min. Estúdio: Imagine Entertainment Distribuidora: Universal Pictures

Até o último homem (2016)

Por André Dick

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Depois de 10 anos ausente da direção, ou seja, desde o impactante Apocalypto, Mel Gibson regressa ao posto com este filme de guerra. Para um astro que recebeu o Oscar de diretor em sua segunda obra, Coração valente, ter quase desaparecido do meio cinematográfico, cercado de polêmicas, não deve ter sido exatamente fácil. E esta volta surge com um filme bem orçado em 40 milhões que vem conseguindo uma bilheteria boa para seus padrões de exigência e êxito em indicações a prêmios importantes, como o Oscar.
Em Até o último homem, ele mostra a trajetória de Desmond Doss (Andrew Garfield), que cresce em Lynchburh, Virginia, e se torna seguidor do Antigo Testamento após passar por algumas experiências em família. Doss salva um homem ferido e, no hospital, acaba se apaixonando por Dorothy Schutte (Teresa Palmer). No entanto, assim como seu irmão, Hal (Nathaniel Buzolic), ele se alista para Segunda Guerra Mundial. A memória que ele tem do irmão é talvez a parte mais comovente da história, principalmente quando lembra dos passeios pelas montanhas da região. Isso vai contra seu pai, Tom (Hugo Weaving, excelente), um veterano da Primeira Guerra Mundial, ainda atormentado, enquanto sua mãe Bertha (Rachel Griffiths) apenas não quer se envolver em conflitos.

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Doss, porém, deseja atuar como médico na guerra. Indo para o treinamento, ele conhece o sargento Howell (Vince Vaughn) e o Capitão Glover (Sam Worthington), que não conseguem convencê-lo a treinar com armas como os demais de seu pelotão. Este é o mote para Mel Gibson mostrá-lo como um homem que resiste às intempéries. Esta parte do treinamento lembra bastante Nascido para matar, com Vince Vaugh atuando bem como uma espécie de R. Lee Ermey, mas é Teresa Palmer, como o interesse amoroso do personagem central, que é o elo de ligação dele com a possível volta da guerra e o faz com a tranquilidade que ela exibe em obras como Cavaleiro de copas e Quando as luzes se apagam. Todos esses personagens que cercam Desmond parecem falar mais dele do que de si próprios: eles querem ou aceitar a maneira do jovem agir, no caso de sua namorada, ou modificar os seus conceitos sobre a vida. Ele não é simplesmente um deslocado, como Mel Gibson gostaria de interpretar, a exemplo de personagens de sua carreira, como Martin Riggs ou Mad Max, e sim alguém pronto para provar que sua visão sobre a vida deve ser respeitada. Andrew Garfield, depois de uma trajetória exitosa iniciada principalmente a partir de A rede social, já interpretou o Homem-Aranha em um momento irregular do personagem e aqui apresenta a melhor atuação que teve até hoje, superior àquela que apresenta em Silêncio.

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Gibson, quando parte para a guerra, não evita mostrar uma sequência de batalhas espetaculares, feitas com raro esmero técnico que ele sempre mostrou como diretor, auxiliado pela fotografia excepcional de Simon Duggan. Se havia uma faceta espetacular na maneira como Spielberg fez toda a sequência de abertura de O resgate do soldado Ryan, pode-se dizer que Gibson a potencializa em Até o último homem. As imagens do filme são terrivelmente fortes em certos momentos, mostrando literalmente a barbárie de uma guerra. O roteiro de Andrew Knight e Robert Schenkkan não chega a aproveitar totalmente seu potencial, principalmente na segunda metade e quando há alguns flashbacks, mas Garfield supera tudo com um desempenho extraordinário. Seu personagem passa por um sofrimento físico que Gibson mostrou em A paixão de Cristo e em Apocalypto, além de, claro, em Coração valente. E por trás há o fundo religioso e a tentativa de o personagem realmente enfrentar a guerra sem fazer nenhum disparo com armas, apenas auxiliando os colegas a enfrentarem a dor no campo de batalha. Ele também sofre a desconfiança de alguns colegas de companhia, a começar por Smitty (Luke Bracey), previsivelmente desrespeitoso, e tenta resistir até o limite diante da convicção que o move. Quando o cenário de guerra se expande a seu redor, pode-se ver que Gibson procura não a lentidão sóbria de um Cartas a Iwo Jima, de Clint Eastwood, e sim uma certa adrenalina, como se o espectador estivesse em meio ao combate.

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Existe algo em Até o último homem que evoca Overlord, filme dos anos 70 sobre um jovem que ia para a guerra e conhecia uma moça durante ela, e Invencível, experimento de Angelina Jolie subestimado. Na sua primeira parte, é visível a tendência de Mel Gibson em querer equivaler a narrativa que apresenta com alguns clássicos de guerra dos anos 50, quando mostra a relação entre os irmãos caminhando juntos pelas montanhas Blue Ridge em 1929, de uma família prestes a aceitar os dois filhos na guerra. Temos também, ao mesmo tempo, uma história quase paradoxal: nunca uma mensagem pacifista foi registrada com tantos recursos de violência e impacto visual sobressalente. Pode-se, em alguns instantes, na reprodução seca, lembrando quase um estilo documental, o excepcional Além da linha vermelha, de Malick. Contudo, Até o último homem segue linhas básicas de direção, evocando relações num tempo conturbado e às vezes parece ter uma mensagem muito objetiva. No entanto, é por meio dela que Gibson eleva seu material a um patamar de grandiosidade histórica.

Hacksaw ridge, EUA/AUS, 2016 Diretor: Mel Gibson Elenco: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Vince Vaughn, Sam Worthington, Rachel Griffiths, Teresa Palmer, Luke Bracey Roteiro: Andrew Knight, Robert Schenkkan Fotografia: Simon Duggan Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Bill Mechanic, Brian Oliver, Bruce Davey, David Permut, Paul Currie, Terry Benedict, William D. Johnson Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Argent Pictures / Cross Creek Pictures / Demarest Media / Hacksaw Ridge Production / Icon Productions / Pandemonium / Permut Presentations / Vendian Entertainment

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