Melhores filmes 1980-1989

Por André Dick

Melhores filmes.1980.1989.Cinematographe.Imagens Com o intuito de organizar uma seleção de filmes dos anos 1980, é apresentada, aqui, uma lista de melhores a cada ano, de 1980 a 1989, cada uma seguida por menções honrosas. As listas, como sempre, são um recorte de um determinado período e podem se transformar ao longo dos anos. Filmes dos anos 80, especificamente, já fazem parte de uma vida toda, vistos ou revistos, e guardam ainda o peso da nostalgia. Alguns estão ligados a outros elementos além do cinema: as primeiras idas ao cinema. Mas, ainda assim, todos aqui, revisitados, se mostraram ainda atuais. Muitos anos possuem mais destaque do que outros, por isso o número de menções honras varia (e a ordem delas é aleatória). E os cinco primeiros filmes de 1980, um dos melhores anos da história, são referenciais para toda a década, caracterizada pelas produções sobre jovens e crianças, assim como por fantasias e ficções científicas e filmes de grande produção e risco, a exemplo de O portal do paraíso, O fundo do coração e Duna. É uma década que marca o encontro entre diretores como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, David Cronenberg, Ridley Scott, Woody Allen, Oliver Stone e Michael Cimino, reafirmando as suas trajetórias iniciadas nos anos 6o ou 70,  e nomes vindos da Europa, da Rússia, da Austrália, do Oriente, como Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder, Elem Klimov, Nagisa Oshima, Werner Herzog, Jean-Jacques Annaud, Giuseppe Tornatore, Bille August, Krzysztof Kieślowski, Wolfgang Petersen, Russell Mulcahy, Samuel Fuller, Eric Rohmer, Leos Carax, Peter Weir, Peter Greenaway e Jean-Jacques Beineix. Pedro Almodóvar faria diversos filmes, mas minha apreciação é por seu trabalho a partir dos anos 90 e, sobretudo, nos anos 2000. Também marca os primeiros filmes de Tim Burton, James Cameron, Spike Lee, Gus Van Sant, Jim Jarmusch, Joel e Ethan Coen, Sam Raimi e Steven Soderbergh. É ainda a década de alguns dos melhores filmes feitos por Martin Scorsese, de obras quase finais ou derradeiras de Akira Kurosawa, Ingmar Bergman, Andrei Tarkovsky e Stanley Kubrick, e de alguns diretores que se afirmam em produções de Spielberg (Joe Dante, Robert Zemeckis, Barry Levinson). Do ponto mais alto da carreira de John Carpenter. Da visão sobre a juventude de John Hughes. Das animações infelizmente um tanto esquecidas de Don Bluth. Das comédias de Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. E grandes filmes de David Lynch. Finalmente, o apreço pelo filme. Alguns filmes que não agradam na primeira visão se mostram interessantes e até mesmo indispensáveis quando revisitados. Do mesmo modo, outros que a princípio parecem indispensáveis, com o passar dos anos parecem ter o impacto reduzido e se tornam menos importantes. A premissa de que um filme é bom ou fraco muitas vezes varia, mas a distância dos anos parece ser a melhor maneira de constatar isso. Os anos de cada filme estão de acordo com o IMDb, com raras exceções. Duas produções não foram inseridas nas listas por terem sido feitas originalmente como minisséries de TV: Berlin Alexanderplatz (de Rainer Werner Fassbinder) e Decálogo (de Krzysztof Kieślowski), que chegaram a ser exibidas em circuito restrito ou em festivais. O filme Não amarás, versão estendida de um dos episódios de Decálogo e lançada nos cinemas, foi inserido na lista de 1988. O filme Fanny e Alexander, de Bergman, inicialmente minissérie de TV, entra por sua versão lançada nos cinemas. Importante lembrar que são inseridas nas listas de melhores filmes as versões estendidas de O barco, Vidas sem rumo, Era uma vez na América, Betty BlueA lendaAliens, o resgate e O siciliano (lançada em 2016). A versão de Duna é a mais curta, lançada nos cinemas e assinada por David Lynch, e a versão de Blade Runner é a original, de 1982. Espera-se que as listas levem você, cinéfilo e leitor, a rever ou descobrir alguns desses filmes.

Observações: na lista de 1981, Carruagens de fogo passou para a 4ª posição, deixando Fuga de Nova York em 5º, e Grito de horror entrou na 8ª colocação, deixando de fora A morte do demônio; na lista de 1982, O cristal encantado ocupou o lugar de O estado das coisas; na lista de 1983 Os embalos de sábado à noite continuam ocupou o lugar de Fome de viver; na lista de 1984, Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva ocupou o lugar de Crimes de paixão; na lista de 1985, a versão estendida de A lenda ocupou o lugar de Depois de horas; na lista de 1987, houve mudanças em relação à primeira versão. Império do sol passou de 5º para 3º, ocupando o lugar de RoboCop; Abaixo de zero passou a ocupar a 7ª posição, e A festa de Babette deu lugar a O siciliano na 10ª colocação.

1. O portal do paraíso (Michael Cimino)
2. O iluminado (Stanley Kubrick)
3. Touro indomável (Martin Scorsese)
4. O homem elefante (David Lynch)
5. Vestida para matar (Brian De Palma)
6. Fama (Alan Parker)
7. O império contra-ataca (Irvin Kershner)
8. Pixote (Hector Babenco)
9. Popeye (Robert Altman)
10. Meu tio da América (Alain Resnais)

Menções honrosas: Os irmãos cara-de-pau (John Landis), Flash Gordon (Mike Hodges), A última cruzada do fusca (Vincent McEvetty), Kagemusha – A sombra do samurai (Akira Kurosawa), Parece que foi ontem (Jay Sandrich), A recruta Benjamin (Howard Zieff), Fog – A bruma assassina (John Carpenter), Como eliminar seu chefe (Colin Higgins), Alligator (Lewis Teague), Brubaker (Stuart Rosenberg), Melvin e Howard (Jonathan Demme), Cowboy do asfalto (James Bridges), Em algum lugar do passado (Jeannot Szwarc), Superman II (Corte de Richard Donner), Apertem os cintos, o piloto sumiu (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Agonia e glória (Samuel Fuller), A menina que viu Deus (Gilbert Cates), O último metrô (François Truffaut)

1. A mulher do aviador (Eric Rohmer)
2. O barco (Wolfgang Petersen)
3. Os caçadores da arca perdida (Steven Spielberg)
4. Carruagens de fogo (Hugh Hudson)
5. Fuga de Nova York (John Carpenter)
6. O dragão e o feiticeiro (Matthew Robbins)
7. Ausência de malícia (Sydney Pollack)
8. Grito de horror (Joe Dante)
9. Os bandidos do tempo (Terry Gilliam)
10. O buraco da agulha (Richard Marquand)

Menções honrosas: Scanners (David Cronenberg), A morte do demônio (Sam Raimi), Outland – Comando Titânio (Peter Hyams), Pague para entrar, reze para sair (Tobe Hooper), Mad Max II (George Miller), Cavaleiros de aço (George A. Romero), Condorman (Charles Jarrott), Fúria de titãs (Desmond Davis), Dinheiro do céu (Herbert Ross), Amor sem fim (Franco Zeffirelli), Excalibur (John Boorman), 007 – Somente para seus olhos (John Glen), A guerra do fogo (Jean-Jacques Annaud), Halloween II (Rick Rosenthal), O cão e a raposa (Ted Berman, Richard Rich, Art Stevens), Os saltimbancos trapalhões (J.B. Tanko), Lola (Rainer Werner Fassbinder), Reds (Warren Beatty), Eu, Christiane F. – 13 anos, drogada e prostituída (Uli Edel), Diva (Jean-Jacques Beineix), S.O.B. (Blake Edwards), Falcões da noite (Bruce Malmuth), 41º DP – Inferno no Bronx (Daniel Petrie), Testemunha fatal (Peter Yates), Galipolli (Peter Weir), A história do mundo – Parte 1 (Mel Brooks)

1. E.T. – O extraterrestre (Steven Spielberg)
2. Fanny & Alexander (Ingmar Bergman)
3. O fundo do coração (Francis Ford Coppola)
4. Tootsie (Sydney Pollack)
5. Blade Runner – O caçador de androides (Ridley Scott)
6. Poltergeist – O fenômeno (Tobe Hooper)
7. Hammett (Wim Wenders)
8. O mundo segundo Garp (George Roy Hill)
9. A ratinha valente (Don Bluth)
10. O cristal encantado (Jim Henson e Frank Oz)

Menções honrosas: O estado das coisas (Wim Wenders), Tex – Um retrato da juventude (Tim Hunter), Cliente morto não paga (Carl Reiner), A marca da pantera (Paul Schrader), Rambo – Programado para matar (Ted Kotcheff), Um cara muito baratinado (Richard Benjamin), Jornada nas estrelas II – A ira de Khan (Nicholas Meyer), Annie (John Huston), Fitzcarraldo (Werner Herzog), Banana Joe (Steno), Tron – Uma odisseia eletrônica! (Steven Lisberger), O desespero de Veronika Voss (Rainer Werner Fassbinder), Apertem os cintos, o piloto sumiu! – 2ª parte (Ken Finkleman), O enigma de outro mundo (John Carpenter), Cão branco (Samuel Fuller), O veredito (Sidney Lumet), Creepshow (George A. Romero), Vincent (Tim Burton)

1. O rei da comédia (Martin Scorsese)
2. Os eleitos (Phillip Kaufman)
3. O retorno de Jedi (Richard Marquand)
4. Scarface (Brian De Palma)
5. Furyo – Em nome da honra (Nagisa Oshima)
6. Nostalgia (Andrei Tarkovsky)
7. Cujo (Lewis Teague)
8. A balada de Narayama (Shohei Imamura)
9. Vidas sem rumo (Francis Ford Coppola)
10. Os embalos de sábado à noite continuam (Sylvester Stallone)

Menções honrosas: Fome de viver (Tony Scott), O selvagem da motocicleta (Francis Ford Coppola), Laços de ternura (James L. Brooks), Momento inesquecível (Bill Forsyth), Flashdance (Adrian Lyne), O dia seguinte (Nicholas Meyer), Jogos de guerra (John Badham), Krull (Peter Yates), 007 – Nunca mais outra vez (Irvin Kershner), O negócio é sobreviver (Michael Ritchie), Christine – O carro assassino (John Carpenter), Sob fogo cerrado (Roger Spottiswoode), A maldição da pantera cor-de-rosa (Blake Edwards), No limite da realidade (Joe Dante, John Landis, Steven Spielberg, George Miller), O reencontro (Lawrence Kasdan), As loucuras de Jerry Lewis (Jerry Lewis), Pauline na praia (Eric Rohmer), O regresso do corcel negro (Robert Dalva), Psicose II (Richard Franklin), Johnny – O gângster (Amy Heckerling), E la nave va (Federico Fellini), Os lobos nunca choram (Carroll Ballard), Uma história de natal (Bob Clark), Férias frustradas (Harold Ramis), Trocando as bolas (John Landis), A hora da zona morta (David Cronenberg), De volta para o inferno (Ted Kotcheff), Koyaanisqatsi (Godfrey Reggio), 007 contra Octopussy (John Glen)

Melhores filmes.1984.Cinematographe 2

1. Amadeus (Milos Forman)
2. A história sem fim (Wolfgang Petersen)
3. Paris, Texas (Wim Wenders)
4. Duna (David Lynch)
5. Gremlins (Joe Dante)
6. Era uma vez na América (Sergio Leone)
7. Estranhos no paraíso (Jim Jarmusch)
8. Karatê Kid (John G. Avildsen)
9. Boy meets girl (Leos Carax)
10. Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva (Hugh Hudson)

Menções honrosas: Os caça-fantasmas (Ivan Reitman), Crimes de paixão (Ken Russell), Um tira da pesada (Martin Brest), Um espírito baixou em mim (Carl Reiner), 2010 – O ano em que faremos contato (Peter Hyams), O céu continua esperando (Paul Bogart), Starman – O homem das estrelas (John Carpenter), Top Secret! (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Moscou em Nova York (Paul Mazursky), Gatinhas e gatões (John Hughes), Amanhecer violento (John Milius), Quilombo (Cacá Diegues), Os heróis não têm idade (Richard Franklin), Cotton Club (Francis Ford Coppola), Indiana Jones e o templo da perdição (Steven Spielberg), Footloose (Herbert Ross), O exterminador do futuro (James Cameron), O corte da navalha (Russell Mulcahy), Os gritos do silêncio (Roland Joffé), Tudo por uma esmeralda (Robert Zemeckis), Frankenweenie (Tim Burton), Stop Making Sense (Jonathan Demme), Dublê de corpo (Brian De Palma), Splash – Uma sereia em minha vida (Ron Howard)

Melhores filmes.1985.Cinematographe 3

1. Vá e veja (Elem Klimov)
2. Minha vida de cachorro (Lasse Hallström)
3. A cor púrpura (Steven Spielberg)
4. Os Goonies (Richard Donner)
5. O beijo da mulher-aranha (Hector Babenco)
6. A testemunha (Peter Weir)
7. De volta para o futuro (Robert Zemeckis)
8. Ran (Akira Kurosawa)
9. O clube dos cinco (John Hughes)
10. A lenda (Ridley Scott)

Menções honrosas: Depois de horas (Martin Scorsese), Marcas do destino (Peter Bognadovich), O enigma da pirâmide (Barry Levinson), Ladyhawke – O feitiço de Áquila (Richard Donner), Os aventureiros do bairro proibido (John Carpenter), Inimigo meu (Wolfgang Petersen), O primeiro ano do resto de nossas vidas (Joel Schumacher), Férias frustradas na Europa (Amy Heckerling), A joia do Nilo (Lewis Teague), Viagem ao mundo dos sonhos (Joe Dante), O ano do dragão (Michael Cimino), As grandes aventuras de Pee-Wee (Tim Burton), O mundo mágico de Oz (Walter Murch), A hora do pesadelo 2 – A vingança de Freddy (Jack Sholder), 007 – Na mira dos assassinos (John Glen), A floresta das esmeraldas (John Boorman), A marvada carne (André Klotzel), Admiradora secreta (Robert Greenwalt), Viagem clandestina (Jeremy Kagan), Cocoon (Ron Howard), Procura-se Susan desesperadamente (Susan Seidelman), Brazil – O filme (Terry Gilliam), Competição de destinos (John Badham), Minha adorável lavanderia (Stephen Frears), D.A.R.Y.L. (Simon Wincer), A hora do espanto (Tom Holland), Remo – Desarmado e perigoso (Guy Hamilton), Quase igual aos outros (Lisa Gottlieb), O sol da meia-noite (Taylor Hackford), Mala noche (Gus Van Sant)

Melhores filmes.1986.Cinematographe

1. Veludo azul (David Lynch)
2. Sangue ruim (Leos Carax)
3. A inocência do primeiro amor (David Seltzer)
4. A missão (Roland Joffé)
5. Aliens, o resgate (James Cameron)
6. Betty Blue (Jean-Jacques Beineix)
7. Platoon (Oliver Stone)
8. Hannah e suas irmãs (Woody Allen)
9. O sacrifício (Andrei Tarkovsky)
10. O nome da rosa (Jean-Jacques Annaud)

Menções honrosas: Jornada nas estrelas IV – A volta para casa (Leonard Nimoy), Por favor, matem a minha mulher (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker), Curtindo a vida adoidado (John Hughes), A pequena loja dos horrores (Frank Oz), Totalmente selvagem (Jonathan Demme), De volta às aulas (Alan Metter), Histórias reais (David Byrne), Labirinto (Jim Henson), A mosca (David Cronenberg), Daunbailó (Jim Jarmusch), O massacre da serra elétrica 2 (Tobe Hooper), Um vagabundo na alta roda (Paul Mazursky), Conta comigo (Rob Reiner), Fievel – Um conto americano (Don Bluth), Crocodilo Dundee (Peter Faiman), O destemido senhor da guerra (Clint Eastwood), Invasores de Marte (Tobe Hooper), A morte pede carona (Robert Harmon), A garota de rosa shoking (Howard Deutch), O castelo no céu (Hayao Miyazaki), O raio verde (Eric Rohmer), Momo e o senhor do tempo (Johannes Schaaf), A noite das brincadeiras mortais (Fred Walton), Jean de Florette (Claude Berri)

Melhores filmes.1987.Cinematographe 9

1. Os intocáveis (Brian De Palma)
2. Baleias de agosto (Lindsay Anderson)
3. Império do sol (Steven Spielberg)
4. Nascido para matar (Stanley Kubrick)
5. RoboCop (Paul Verhoeven)
6. Arizona nunca mais (Joel e Ethan Coen)
7. Abaixo de zero (Marek Kanievska)
8. Asas do desejo (Wim Wenders)
9. Adeus, meninos (Louis Malle)
10. O siciliano (Michael Cimino)

Menções honrosas: A festa de Babette (Gabriel Axel), Os garotos perdidos (Joel Schumacher), Bom dia, Vietnã (Barry Levinson), A ladrona (Hugh Wilson), Wall Street (Oliver Stone), Presente de grego (Charles Shyer), Roxanne (Fred Shepisi), Máquina mortífera (Richard Donner), Tal pai, tal filho (Rod Daniel), Feliz ano velho (Roberto Gervitz), Te pego lá fora (Phil Joanou), S.O.S. – Tem um louco solto no espaço (Mel Brooks), Alguém muito especial (Howard Deutch), Feitiço da lua (Norman Jewison), O milagre veio do espaço (Matthew Robbins), Uma noite alucinante II (Sam Raimi), Barfly (Barbet Schroeder), Atirando para matar (Roger Spottiswoode), Mestres do universo (Gary Goddard), Bagdad Café (Percy Adlon), Ishtar (Elaine May), A grande cruzada (Franklin J. Schaffner), O escondido (Jack Sholder), As amazonas na lua (Joe Dante, Carl Gottlieb, Peter Horton, John Landis, Robert K. Weiss, Robert Weiss), O predador (John McTiernan), Os rivais (Barry Levinson), Terror na ópera (Dario Argento), Uma janela suspeita (Curtis Hanson), A hora do pesadelo III – Os guerreiros do sono (Chuck Russell), As bruxas de Eastwick (George Miller), Uma noite de aventuras (Chris Columbus), Antes só do que mal acompanhado (John Hughes), O último imperador (Bernardo Bertolucci), Um hóspede do barulho (William Dear), A era do rádio (Woody Allen)

Melhores filmes.Cinematographe.1988 1. Pelle, o conquistador (Bille August)
2. Cinema Paradiso (Giuseppe Tornatore)
3. O elo perdido (David Hughes e Carol Hughes)
4. Willow (Ron Howard)
5. O urso (Jean-Jacques Annaud)
6. Não amarás (Krzysztof Kieślowski)
7. Clara’s heart (Robert Mulligan)
8. Para sempre na memória (Marisa Silver)
9. Uma cilada para Roger Rabbit (Robert Zemeckis)
10. Uma secretária de futuro (Mike Nichols)

Menções honrosas: A última tentação de Cristo (Martin Scorsese), Duro de matar (John McTiernan), O preço do desafio (Ramón Menéndez), Os safados (Frank Oz), O grande mentecapto (Oswaldo Caldeira), Mississipi em chamas (Alan Parker), Palco de ilusões (David Seltzer), As aventuras do Barão de Münchausen (Terry Gilliam), Tucker – Um homem e seu sonho (Francis Ford Coppola), Ligações perigosas (Stephen Frears), O jovem Einstein (Yahoo Serious), Loucas tentações (William Schreiner), A bolha assassina (Chuck Russell), Os fantasmas contra-atacam (Richard Donner), Far North (Sam Shepard), Rain Man (Barry Levinson), Os fantasmas se divertem (Tim Burton), Na montanha dos gorilas (Michael Apted), Corra que a polícia vem aí (David Zucker), Quero ser grande (Penny Marshall), Uma noite com o rei do rock (Chris Columbus), Ela vai ter um bebê (John Hughes), Inferno vermelho (Walter Hill), Gêmeos – Mórbida semelhança (David Cronenberg), Cuidado com as gêmeas (Jim Abrahams), A insustentável leveza do ser (Phillip Kaufman), A hora do espanto 2 (Tommy Lee Wallace), O turista acidental (Lawrence Kasdan), Uma fazenda do barulho (George Roy Hill), Medeia (Lars von Trier), Um príncipe em Nova York (John Landis), Short Circuit II (Kenneth Johnson), Meu amigo Totoro (Hayao Mivazaki), Sorte no amor (Ron Shelton), Heathers – Atração mortal (Michael Lehmann)

1. Batman (Tim Burton)
2. Pecados de guerra (Brian De Palma)
3. O segredo do abismo (James Cameron)
4. Sociedade dos poetas mortos (Peter Weir)
5. Nascido em 4 de julho (Oliver Stone)
6. Faça a coisa certa (Spike Lee)
7. Indiana Jones e a última cruzada (Steven Spielberg)
8. Drugstore cowboy (Gus Van Sant)
9. Meu mestre, minha vida (John G. Avildsen)
10. De volta para o futuro II (Robert Zemeckis)

Menções honrosas: Santa Sangre (Alejandro Jodorowsky), Conduzindo miss Daisy (Bruce Beresford), Tempo de glória (Edward Zwick), O tiro que não saiu pela culatra (Ron Howard), Máquina mortífera 2 (Richard Donner), Faca de dois gumes (Murilo Salles), Não somos anjos (Neil Jordan), Jesus de Montreal (Denys Arcand), Harry & Sally – Feitos um para o outro (Nora Ephron), Digam o que quiserem (Cameron Crowe), Os caça-fantasmas 2 (Ivan Reitman), A pequena sereia (Ron Clements, John Musker), Vítimas de uma paixão (Harold Becker), Um toque de infidelidade (Joel Schumacher), Shirley Valentine (Lewis Gilbert), Campo dos sonhos (Phil Alden Robinson), Festa (Ugo Giorgetti), Flores de aço (Herbert Ross), 007 – Permissão para matar (John Glen), Meu pai – Uma lição de vida (Gary David Goldberg), O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (Peter Greenaway), Meu pé esquerdo (Jim Sheridan), Dias melhores virão (Cacá Diegues), Meus vizinhos são um terror (Joe Dante), Ilha das flores (Jorge Furtado), Além da eternidade (Steven Spielberg), Sexo, mentiras e videotape (Steven Soderbergh)

Visite a página do Cinematographe no Facebook para acompanhar as novidades.

Twin Peaks – Fire walk with me (1992)

Por André Dick

A série Twin Peaks foi um grande sucesso quando lançada nos Estados Unidos, criando uma verdadeira febre. Ao final da primeira temporada, em que o agente Cooper viajava à cidade de Twin Peaks para investigar a morte da rainha da escola Laura Palmer, envolvendo-se com inúmeros personagens, que mostravam a verdadeira face de um lugar tranquilo, havia muito interesse pela série, resultando mesmo em livros (com o diário de Laura e das gravações do agente Dale Cooper). O piloto foi um dos maiores acontecimentos da televisão: um thriller excepcionalmente dirigido e narrado, que teve uma versão internacional (com, em torno, de 20 minutos a mais, em que se revelava a imagem do assassino, mas sem explicá-lo totalmente). Com o início da segunda temporada, o interesse foi diminuindo, até a descoberta da identidade do assassino de Laura. Depois, a série se tornou mais uma investigação de Cooper e da polícia local para achar o Black Lodge, lugar na floresta de Twin Peaks com passagem para um universo negativo, e da caverna da coruja (símbolo do mal da série). A segunda temporada intensifica um humor negro próprio de Lynch, embora insira personagens e diálogos inferiores aos da primeira temporada. No entanto, o interesse se mantém e alguns episódios (sobretudo aqueles dirigidos por Lynch) são tão bons quanto alguns dos primeiros.
Quando a segunda temporada terminou, a série não teve sua renovação para a terceira temporada, deixando várias perguntas sem resposta. Não é o filme Twin Peaks – Fire walk with me (no Brasil, Os últimos dias de Laura Palmer) que solucionará todas as dúvidas, mas o objetivo, em parte, é este (a partir daqui há spoilers, caso não se queira saber de detalhes do filme). Lançado no Festival de Cannes de 1992, foi inicialmente muito criticado, entretanto, com o passar dos anos, foi sendo reavaliado de modo vital. É a melhor obra de Lynch e aquela que antecipa seus filmes mais recentes (como A estrada perdida, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), sendo menos hermético do que todos eles. É, no entanto, o cineasta em estado bruto, uma paranoia visual em vermelho, com contrastes de verde, amarelo e azul.

Começa com a viagem do detetive Chester Desmond (o cantor Chris Isaak) para Deer Meadow, com seu parceiro, Sam Stanley (Kiefer Sutherland), a fim de se investigar a morte de Teresa Banks. Ela foi morta com um taco de beisebol (o filme abre com uma televisão sendo quebrada) e o assassino deixou uma letra embaixo de uma de suas unhas, além de tê-la embrulhado num plástico (igual ao início da série de TV). Numa das sequências mais improváveis e divertidas de todos os filmes de Lynch – a dificuldade de dialogar com a políciade Deer Meadow, que não quer a presença do FBI, ou seja, é o contrário da de Twin Peaks –, depois de a moça vestida de vermelho, Lil (Kimberly Anne Cole) – contra um aeroplano amarelo –, acompanhada de Gordon Cole (David Lynch), dar informações codificadas sobre o que seria o caso e alertando que ele poderia pertencer aos casos da “rosa azul” (que traz em seu vestido), o filme se encaminha para uma lanchonete típica da região, Hap’s Diner – com a imagem em néon de um palhaço chorando -, em que os agentes ficam sabendo que, dias antes de sua morte, o braço de Teresa havia ficado imobilizado e que ela estava envolvida com drogas. Ambos vão ao lugar onde ela vivia, num trailer, tendo Harry Dean Stanton, ótimo, como o zelador Carl Rodd, do qual aceitam um café que os desperta – como se diz, um “Good morning, America” – em meio a retratos de Teresa com um anel verde e a uma senhora que se aproxima do trailer tampando o olho e sem saber aonde ir. Já sabemos, a partir daí, que Lynch vai esconder mais do que relevar, sobretudo quando Desmond, ao chegar ao trailer dos Tremond, e encontrar embaixo dele o mesmo anel que viu na foto de Teresa, passa para outro universo (outro simbolismo: o mesmo do final do filme e que carregava Teresa Banks, e uma referência também ao anel que pode representar o poder ou a morte do Duque Leto, de Duna, assim como o despertar do adormecido. Este é o anel da coruja, e todos que o seguram são, no filme de Twin Peaks, mortos, como vemos em parte da simbologia em relação a essa ave).
Os Tremond não existem: eles são uma velhinha (Frances Bay, de Veludo azul) e seu neto (interpretado na série pelo filho de Lynch, Austin Jack Lynch; no filme, por Jonathan  J. Leppell), que fazem parte também, como outros personagens de Twin Peaks (como o anão e o gigante), de um universo paralelo. Aparecem no segundo capítulo da segunda temporada, de forma meio displicente, quase sem chamar a atenção, quando Donna Hayward, que substitui Laura Palmer na entrega de refeições da lanchonete, leva comida à senhora Tremond, e ela pergunta se há cereal de milho em seu prato. Primeiro há; depois, não: o neto fez com que desaparecesse, reaparecendo em sua mão, pois seria um mágico.

Não surpreendentemente, depois de um encontro onírico com um agente desaparecido, Phillip Jeffries (um David Bowie  envolto em névoas de TV, numa participação verdadeiramente surreal), Dale Cooper surge para investigar o desaparecimento de Desmond e ele se depara, na volta do lugar onde desaparecera Chester, com uma inscrição em seu carro: “Let’s rock” (a frase dita pelo anão da série), e alerta que o crime se repetiria, pois é um personagem – sabemos pela série – que acredita sobretudo no imponderável.
O espectador é transportado para o ano seguinte, para a cidade de Twin Peaks, em que vemos a rainha Laura Palmer (Sheryl Fenn, em atuação vigorosa), indo com a amiga Donna (aqui Moira Kelly, substituindo Laura Flynn Boyle e trazendo um ar mais juvenil, puro, à personagem) para o colégio, em meio a uma calçada arborizada, na tentativa de mostrar um lado idílico da cidade (numa sequência igual àquela de Jeffrey Beaumont em Veludo azul, antes de se encontrar com Sandy). Logo se estabelece sua relação dupla com James Hurley (James Marshall) e Bobby Briggs (Danna Aschbrook). Depois, passamos a acompanhar, de forma substancial (pouquíssimo esclarecida na série), o relacionamento problemático de Laura com o pai, Leland (Ray Wise, em ótimo momento), sobretudo por causa da ausência de sua mãe. E as refeições são um pesadelo, afinal o pai precisa olhar suas unhas, para ver se elas estão sujas, antes das refeições – e o pai simboliza toda a perda de referências da personagem.

Há dois momentos que demarcam facetas diferentes de Laura. Em um resquício de inocência, ela entrega refeições da lanchonete. Num dos dias recebe um quadro, com uma fotografia, dos Tremond, que aparecem e desaparecem, lembrando antes que alguém está mexendo no diário dela. À noite, quando ela dorme, passa a sonhar que está dentro do quadro, onde encontra o anão do Red Room (o brilhante Michael Anderson) e o agente Cooper, que pede para que ela não segure o anel da coruja dado pelo anão (aquele que diz, ao contrário: “Let’s rock”). Ela sente o braço adormecer, como aconteceu com Teresa Banks e, quando acorda, vê Annie Blackburn ao seu lado (Annie é a namorada de Dale Cooper na série, a qual ele tenta resgatar do Black Lodge), assim como o anel em sua mão (num close exatamente igual, em sua mão ao que Lynch faz na mão de Paul Atreides quando este segura o anel deixado pelo pai em Duna). Toda essa parte simboliza, não há dúvida, numa tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que, no futuro, investigará sua morte – e, como a primeira parte, é uma pintura visual.

Em outro momento, na ida ao clube noturno de Twin Peaks, Laura encontra a Senhora do Tronco, que fala que a sua pureza está indo embora. Essa perda da pureza de Laura é simbolizada de forma impactante por Lynch, com ela entrando no clube e vendo, contra uma cortina vermelha, Julee Cruise cantando sob uma iluminação azul (remetendo à Isabella Rosselini em Veludo azul), criando um diálogo com o Jeffrey Beaumont de Veludo azul. Na verdade, se Laura gostaria de sair do universo estranho em que está inserido, Jeffrey gostaria de despertar nele – são opostos que se equivalem, também como em toda a filmografia de Lynch.

A sequência deste momento – a ida de Laura e Donna com caminhoneiros para uma boate do Canadá – é ainda mais impactante, pois Lynch a filma com um vermelho explosivo, das lâmpadas, do vermelho da rosa pendurada na porta do quarto de Laura, do coração na porta da casa dos Palmer, assim como dispõe um grupo de pessoas estranhas (algumas com chapéu de caubói, remetendo a Cidade dos sonhos). É uma viagem para a perdição, para onde Laura deseja ir com ansiedade, rompendo a ligação com Jeffrey – o emblema das marcas de cerveja se transformam em garrafas e cigarros espalhados pelo chão (numa aproximação que remete a Coração selvagem e Veludo azul) – e onde ela reencontra Ronette Pulaski (Phoebe Augustini) e Jacques Renault (Walter Olkewicz). No entanto, ela quer deixar Donna, sua melhor amiga, da porta para fora – e clarões de luz se pronunciam em seu rosto quando surge o arrependimento, pois Lynch preenche sua Laura desse sentimento. Trata-se de uma sequência, acima de tudo, extraordinária.
Deve-se destacar, também, nesse sentido, a cena em que Laura acompanha Donna até sua casa e mais tarde é buscada pelo pai, que relembra de um dia decisivo, cujo desfecho mostra o garoto Tremond, com sua máscara, pulando ao som de um barulho que remete ao anão do Red Room e que surge também quando Dale Cooper olha para o poste perto de onde morava Teresa Banks no início do filme. E Lynch mostra a paranoia de Laura sob os efeitos de drogas, mas sem nunca cair numa psicodelia visual ou forçada e passa a colocar o anel como o signo capaz de ameaçá-la. Igual à sua mãe, em determinado momento, ao tomar leite, tem uma visão que evoca “The blank shake”, pintura de Magritte, explorando ainda mais o aspecto pictórico do filme e sua ligação com a floresta.

Laura Palmer é o foco deste filme, ao contrário da série, em que havia inúmeros personagens, e talvez esta seja a principal distância que o filme mantém da série (já que a fotografia de Ron García e a música arrebatadora de Angelo Badalamenti continuam iguais, senão melhores). Não há o hotel Great Northern, ou seja, não há também cenas de humor ou de encontros de estrangeiros pelos corredores do hotel; os conflitos da madeireira, os discursos estranhos do prefeito, também não vemos os relacionamentos amorosos do xerife e do dono do hotel ou as inúmeras passagens na lanchonete, onde aconteciam alguns dos momentos mais divertidos da série; nem tanta presença de Dale Cooper, cujo bom humor certamente mantinha boa parte da série; ou seja, de certo modo, é outra coisa (cenas extras com alguns desses personagens foram cortadas, e comenta-se que teriam até uma hora, que há anos se promete serem lançadas).

Todavia, o clima da série está todo lá, com a inserção de jovens que tentam lidar com a proximidade de Laura com a morte (Bobby e James, seus amantes), o homem perturbado que guarda o diário de Laura (e que na série mora ao lado dos Tremond, suicidando-se em sua estufa); o cafetão Jaques Renault; a misteriosa casa de Laura Palmer; a dança do anão e a sala vermelha; os semáforos noturnos impedindo a passagem ou não dos motoqueiros; e mais: há um plano em negativo que conduz a outro universo, desencadeando um universo bom. O universo do filme se reduz especificamente à trajetória de Laura, à sua solidão; por isso, para uma série tão expansiva, cheia de personagens, fica um vazio, mas é o vazio a ser completado com a história dela, para que entendamos o que vem depois. Desse modo, o filme se sustenta sozinho, também pela qualidade da narrativa e a direção excepcionalmente concentrada de Lynch.
É importante dizer que o cineasta transforma vários símbolos (o anão, Bob, Mike) em figuras importantes para tentar esclarecer este filme. O sangue, ao final, transformando-se em cereal de milho mostra a “garmonbozia” (mistura de dor e sofrimento) do anão e toda a simbologia da série – do menino Tremond, passando pela cena do jantar e do café da manhã na casa dos Palmer, até o menino atrás da máscara (o mesmo menino Tremond), comendo o cereal.

É como se o mundo se alimentasse também dessa dor e através desse alimento nativo, de séculos. A floresta de Lynch representa séculos de simbologia – nela, esconde-se algo sempre estranho, uma ameaça. E os clarões na floresta, onde mora a velha com o tronco, iluminam, na verdade, os personagens do outro mundo, que não existem. A cena em que Laura e Bobby recebem drogas no meio do bosque – do mesmo policial de Deer Meadow, que tenta impedir o acesso do agente Chester Desmond ao xerife – representa esse prenúncio de perigo. Laura vê as árvores, a floresta, como uma representação deste subterfúgio e de seu desaparecimento.
Do mesmo modo, entrar num quadro ou num sonho pode ser um perigo iminente em um universo onde se busca os amigos para fugir de casa, do sonho de vida. Lynch quer desenhar esta pintura, porém não especifica as cores, deixando que façamos a própria mistura.
E, ao fazer reaparecer o anjo que some num quadro de Laura Palmer – com o qual ela sonha, como John Merrick sonhava em dormir normalmente, ao olhar pinturas de seu quarto, em O homem elefante –, ao final, Lynch encerra a série e o filme com uma nota otimista, do encontro da personagem com a luminosidade e uma divindade.

Ela alcança o White Lodge, o lugar investigado também por Cooper na série, em que estão as criaturas do bem (como o velho atendente do hotel, o gigante). Neste ponto, o final se diferencia daquele exibido na série. No último capítulo, Cooper entra no Black Lodge para resgatar sua namorada. Lá, ele encontra Window Earle, um ex-agente federal que enlouquece e cujo fogo é capturado por Bob. Encontra Laura e seu pai, e o lado ruim de Cooper. A série se encerra melancolicamente, com Bob possuindo o agente Cooper. No filme, esta ideia é suplantada, e Laura ganha a liberdade definitiva, após a punição do assassino (flutuando no ar, como o Barão Harkonnen de Duna). Seu corpo boia para ser descoberto pelos policiais da cidade, mas seu espírito está liberto. Na verdade, Twin Peaks se encerra com uma simbologia transcendental, própria de Lynch. Mais do que em Veludo azul ou no piloto da série e em seus melhores episódios, existe, aqui, uma trajetória em queda e, depois, em subida; existe o sonho de normalidade do personagem. Para ele, um personagem como Laura, com duas personalidades, aluna comportada de dia e que se prostitui à noite, que finge uma pureza, mas é viciada em drogas, quando se encontra com Cooper em sonho (também na série), é um encontro sobretudo com a normalidade, apesar de estar imersa na estranheza. E, ao não se render à figura de Bob, ou seja, ao Black Lodge, consegue escapar dessa floresta estranha e perturbadora. Na série, Cooper só se entrega a ele para salvar sua amada, ou seja, acima de tudo, a série e o filme de David Lynch tratam do amor mais intenso.

Twin Peaks – Fire walk with me, EUA/FRA, 1992 Diretor: David Lynch Elenco: Sheryl Lee, Ray Wise, Dana Ashbrook, Madchen Amick, James Marshall, Heather Graham, David Bowie, Chris Isaak, Kiefer Sutherland, Kyle MacLachlan Produção: Francis Bouygues, Gregg Fienberg Roteiro: David Lynch, Robert Engels Fotografia: Ronald Víctor García Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 135 min Estúdio: CiBy 2000 / New Line Cinema

Cotação 5 estrelas

Veludo azul (1986)

Por André Dick

Lynch recebeu uma segunda indicação ao Oscar por este trabalho polêmico e considerado impecável pela crítica em geral, logo depois de Duna e produzido pelo mesmo Dino de Laurentiis (estava no contrato que eles fariam dois filmes juntos, e um seria de escolha pessoal do diretor). Novamente, ele utiliza a dupla personalidade de seus personagens para trabalhar sua narrativa (daqui em diante, spoilers, inclusive nas imagens).
Já começa mostrando a cidadezinha de Lumberton (algo como cidade da madeira serrada), uma prévia de Twin Peaks, com imagens idílicas (rosas vermelhas contrastando com o céu azul, homens num carro de bombeiros, crianças atravessando a rua), ao som de “Blue velvet”, de Bobby Vinton, até focar o pai de Jeffrey Beaumont (MacLachlan, excelente) regando a grama e tendo um ataque do coração. Em seguida, a câmera acompanha uma movimentação no gramado, de insetos uns em cima dos outros, revelando o subterrâneo, com a atmosfera sombria que Lynch pretende mostrar, e fazendo uma analogia direta com alguns personagens. E com o capinzal, em que Jeffrey passa para ir ao hospital para visitar o pai, mas encontra uma orelha, também coberta de formigas – Lynch e sua ligação potencial com o som -, e resolve investigar sua origem. Esta parte inicial mostra o que Lynch já anunciava numa matéria em que promovia Duna:  “Minha infância foi […] Elegantes casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras. Era um mundo de sonho […] Mas […], sempre há formigas vermelhas por baixo”.

Com a ajuda de uma garota, Sandy Williams (Laura Dern, que voltaria a trabalhar com o diretor em Coração selvagem e Império dos sonhos e compõe com exatidão uma jovem de família discreta), pelo qual está apaixonado, ele desenha a ligação, numa típica lanchonete de Lynch, entre alguns personagens, que levam à casa de uma cantora Dorothy Vallens (Isabella, no papel que a consagrou) e se depara com um mundo que não conhecia: de traficantes, prostitutas, psicopatas. Nesse sentido, Veludo azul se divide entre ser um mapa da tragédia humana – localizada em personagens a princípio simples – e o filme policial (já que Sandy é filha do agente Williams, feito por George Dickerson).
A figura mais estranha é a de Frank Booth (Dennis Hopper), com complexo de Édipo e que usa um inalador quando deseja fazer sexo, e a trilha sonora, dos anos 60, é um alívio para os ouvidos: a música-título, em especial, é perturbadora no contexto em que se insere. Embora Lynch às vezes exagere na passagem da cidade tranquila do dia para a cidade perturbada da noite, ele nos entrega um filme que atinge pelo sensorial (e Dorothy cantado à frente de cortinas vermelhas, com uma iluminação azul em seu rosto, dialogando com o clube de Twin Peaks e Julee Cruise inclinada a desaparecer para dar lugar a gigantes), Veludo azul é a viagem de um jovem para fora da adolescência e o ingresso num mundo que cultiva o submundo, e todas as paisagens agradáveis, idílicas, que vemos no início do filme logo se desfazem com um corpo de alguém regando a grama caindo e nessa descoberta do sexo.

Contudo, Lynch filma tudo com o cuidado de um esteta: mesmo as garrafas de Heineken, os caminhões laranja, o clube noturno, com luminosos, os abajures e as lâmpadas pelas paredes formam um conjunto para o qual o espectador é convidado a olhar. A fotografia de Frederick Elmes (de Eraserhead) é de uma exatidão poucas vezes vista, sendo aquele que melhor conseguiu traduzir o ambiente de artes plásticas do cinema de Lynch. E o cinema norte-americano não seria mais o mesmo depois desse ingresso de Lynch na saída da adolescência. Podemos ver indícios de Veludo azul presentes numa obra como Beleza americana (na lista recente da Sight & Sound, seu diretor, Sam Mendes, coloca Veludo azul como uma das obras mais importantes da história) ou nos jardins verdejantes de Donnie Darko, querendo encobrir qualquer anormalidade, no David Cronenberg definitivo de Marcas da violência, com seu adolescente sendo incomodado por valentões no vestiário e seu pai atendendo numa lanchonete como se não estivesse ligado a um passado obscuro e contrário à tranquilidade da cidadezinha interiorana, no reality show em que o céu azul é tão verdadeiro quanto os gramados bem aparados de O show de Truman, e quem sabe no caminhão de bombeiros perseguido por garotos em A árvore da vida.

A personagem da cantora Dorothy faz essa ponte entre o dia e a noite desejada por Lynch. O namoro de portão, consequentemente, com a garota que ama, está ameaçado por todo um universo com que se depara, e pelo qual mostra uma atração imediata, ou seja, Jeffrey não é uma vítima, pois ela procura a desestabilização de sua rotina. A cena em que ele se esconde no armário para observar a chegada da cantora Dorothy em seu apartamento, além de empregar um estilo voyeurista, buscado em Janela indiscreta, de Hitchcock, sintetiza o talento de Lynch para ações passadas em lugares fechados (o espectador se coloca no lugar de Jeffrey, sentindo-se, tanto quanto ele, um observador, um intruso), assim como as menções ao fogo, sempre ligado ao corpo. Além disso, Dorothy é mais um diálogo que Lynch estabelece com o clássico O mágico de Oz: era o nome da garota levada pelo vendaval (em Twin Peaks, o agente David Bowie desaparece num mundo de sonho atrás de uma certa Judy, que remete a Judy Garland, a intérprete de Dorothy) e em Coração selvagem a mãe de Lula aparece como a bruxa da história. Dorothy representa um ingresso numa espécie de pesadelo (ou sonho, dependendo do ponto de vista) tão aos moldes de Lynch.

Ao ver Frank com o inalador atrás de Dorothy, Jeffrey sabe que suas ilusões românticas estão se perdendo, mesmo atenuado pela beleza do veludo azul que ela veste nos encontros, contrastando com os lábios vermelhos e  a pele quase pálida, lembrando uma personagem que vive à margem da luminosidade, expondo sua fragilidade de maneira decisiva (comenta-se que Lynch era um misógino ao expor Rossellini a tal papel, mas a questão é que ele torna qualquer olhar de brutalidade contra a mulher em uma questão absurda, como no comportamento de Frank).  Assim como a sequência em que Frank leva Jeffrey para dar um “passeio” com seus amigos também retrata o ingresso na noite (entre eles, estão os atores Jack Nance e Brad Dourif) e a ida para ao bordel de Ben (Dean Stockwell), que canta feito um crooner – e nunca antes “In dreams”, de Roy Orbison, foi tão perturbadora – em meio a personagens decadentes. Ela só existe ainda na tentativa de Jeffrey recuperar o mundo que sonha, ao lado da amada e do protótipo de xerife que pode solucionar um caso. Ou quando ele rega a grama de óculos escuro, a fim de esconder as marcas da noite anterior. Jeffrey sabe que a vida não voltará a ser a mesma, mesmo ajudando Dorothy a encontrar seu filho ou acomodando uma roupa sobre ela desnuda – no momento mais intenso do filme. Nem que seja para, ao final, Jeffrey ver um passarinho no galho da árvore e no parapeito da janela da cozinha, com um verme na boca, evocando o poema “A Daphne e Virginia”, de William Carlos Williams: “We are not chickadees / on a bare limb / with a worm in the mouth” e continuar achando o mundo estranho – um mundo que ele, na verdade, passou a conhecer. A cidade de Lumberton, para Lynch, não precisa mudar – precisa ser entendida em sua complexidade e no seu subterrâneo, ao som da excepcional trilha de Angelo Badalamenti.

Blue velvet, EUA, 1986 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle McLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, George Dickerson, Hope Lange, Brad Dourif Produção: Fred Caruso Roteiro: David Lynch Fotografia: Frederick Elmes Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 120 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

Cotação 5 estrelas

Especial David Lynch

Por André Dick

O cineasta David Keith Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946 em Missoula, Montana, filho de um cientista, Donald Walton Lynch, que servia o Departamento de Agricultura dos EUA, e de uma professora de inglês, Edwina “Sunny” Lynch. Depois de uma infância com várias mudanças de cidade, Lynch, em 1964, começou seus estudos na School of the Museum of Fine Arts, Boston. Voltando de uma viagem à Europa, foi estudar pintura, em 1965, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia, onde conheceu sua primeira esposa, Peggy Reavey, com quem teve Jennifer Lynch. Sua carreira teve início com a realização de dois curtas-metragens: Six figures getting sick (1966) e The Alphabet (1968), cuja protagonista era Peggy, o que lhe permitiu o ingresso no American Film Institute (AFI), fazendo com que ganhasse uma bolsa para rodar o curta de animação The grandmother, em 1970. Com ele, entrou, em 1971, no Centro de Estudos Avançados do Cinema de Los Angeles. Depois, novamente com a ajuda do AFI, iniciou a rodagem de seu primeiro longa, Eraserhead, em 1972. No meio do caminho, em 1974, rodou outro curta-metragem, The amputee, sobre uma mulher com as pernas amputadas (sua filha Jennifer estrearia na direção com Encaixotando Helena, um filme com ideia semelhante). Terminado em 1976 e lançado em 1977, Eraserhead, por sua vez, considerado uma de suas obras-primas e por Stanley Kubrick, seu filme favorito. Como ele surgiu? “Some years ago, I lived in a rotten house with twelve rooms in a poor quarter of  Philadelphia.  Degeneration – the streets filled with garbage and fear. Little girls crying, bringing home their drunk fathers, people being kidnapped out of driving cars, rats, three times my house broken into, permanent fear of being mugged. From this ‘paranoid beauty’, as one reviewer put it, ‘Eraserhead’ was born”(http://www.davidlynch.de/duneinttrans.html).
Foi por meio de Eraserhead que o produtor – e mais conhecido como comediante – Mel Brooks o escolheu para dirigir O homem elefante. Este chamou a atenção de Dino de Laurentiis, que estava querendo produzir o épico de ficção científica Duna.
Numa entrevista dada ao Roda Viva, em 2008, quando veio lançar no Brasil o livro Em águas profundas e falar sobre a meditação transcendental, Lynch afirmou, quando perguntado se poderíamos esperar um corte seu para o filme Duna, respondeu que não, pois “não havia naquelas imagens nada que pudesse transformá-las no filme que eu queria fazer”.

É curioso quando Lynch trata disso, pois se sabe – sobretudo em razão dos extras que vemos na edição não assinada por Lynch da superprodução – que ele participou ativamente da confecção de cenários e imagens do filme. Num certo momento, é como se o próprio Lynch acompanhasse a equivocada opinião de Roger Ebert, para quem o filme é feio. Duna é um dos filmes que mais evocam a pintura já realizados, e as imagens dele como se reproduzem na filmografia de Lynch: desde o anel do Duque Leto – que cria um diálogo com o anel de Laura Palmer no filme de Twin Peaks para o cinema –, até a caixa de Bene Gesserit – que cria um diálogo com a caixa de Cidade dos sonhos. A mão do adormecido é também a mão dormente de Laura Palmer, que segura o anel que a ameaça. E, se os personagens dos filmes de Lynch sonham ou parecem estar dentro de um sonho – conscientemente ou não –, o Paul Atreides de Duna muito mais. Na caixa da Bene Gesserit, também está o fogo, que queima a mão de Paul Atreides apenas em sua mente – sendo desafiado. Fogo que se espalha de Veludo azul – no romance entre Sailor e Lula em Coração selvagem, de Jeffrey com Dorothy em Veludo azul – nos cigarros – e em Twin Peaks – também nos cigarros e no próprio subtítulo: “fire walk with me”. E também nos filmes exclusivamente oníricos (Cidade dos sonhos e Império dos sonhos).

Ele quer fazer, como diz em entrevistas, “pinturas em motivos”. Em Lynch, e vale também para Duna, as imagens valem por si e se autoexplicam. Em The alphabet, ele se baseia em pinturas de René Magritte. Se em Veludo azul e Twin Peaks, as imagens evocam as pinturas de Edward Hopper; em O homem elefante e Império dos sonhos, podemos ver Francis Bacon. E a cortina é um elemento-chave, pictórico: para revelar a mulher misteriosa de Eraserhead, ou para revelar as apresentações de Isabela Rossellini, como a cantora Dorothy Vallens, em Veludo azul, de Julee Cruise, em Twin Peaks, e de Rebekha del Rio, em Cidade dos sonhos, por exemplo, no Club Silencio (Lynch, inclusive, projetou um lugar com este nome em Paris, inaugurado em 2011).

Há algumas tomadas de Twin Peaks, sobretudo da parte externa do Double R, quando passam caminhões com toras, que lembram pinturas em movimento de Edward Hopper.

Isso quando não são quase iguais: o posto de Big Ed (personagem de Twin Peaks) dialoga diretamente com a pintura “Gas”, de Hopper:

Além disso, entre 1982 e 1983, fez a história em quadrinhos intitulada O cão mais raivoso do mundo. Numa entrevista ao The Guardian, explica: “I always say Philadelphia, Pennsylvania is my biggest influence. But for painters, I like many, many painters but I love Francis Bacon the most, and Edward Hopper. Both really different, but Edward Hopper makes us all dream, take off from a painting. Magical stuff. And Bacon for a whole bunch of reasons, but those two are big, big, big inspirations”. Perguntado por Ana Maria Bahiana (em entrevista intitulada “David Lynch, diretor, roteirista e escoteiro”, Revista SET, ed. 41, nov. 1990) por que faz filmes, David Lynch respondeu: “Bom, eu queria ser pintor e cheguei aos filmes através das pinturas, porque eu queria que as pinturas se mexessem. E eu ouvia pequenos sons vindos da tela, enquanto pintava, daí resolvi fazer filmes, em vez de pintar”.
Especificamente de René Magritte, difícil não perceber que Lil, que vem explicar, por meio de Gordon Cole, o modo como o agente do FBI Chester Desmond deve se comportar na cidade em que investigará o assassinato de Teresa Banks, no filme de Twin Peaks, é uma pintura em movimento de “Le tombeau des lutteurs”.

E a conversa de Chester Desmond e Sam Stanley com Irene no Hap’s Diner Café remete à pintura “Nighthawks”, de Edward Hopper. Como Hopper, Lynch retrata aquilo que era seu objetivo no início da carreira: falar da vida do interior norte-americano e o que se esconde sob ela.

Na versão para o cinema de Twin Peaks, Laura sonha e entra no quadro dado de presente pelos Tremond. Dentro do quadro, surgem, exatamente, a velhinha Tremond e o neto Tremond, fazendo um passe de mágica. Ela, então, encontra o anão do Red Room e o agente Cooper, que pede para que ela não segure o anel da coruja dado pelo anão (aquele que diz, ao contrário: “Let’s rock”). Ela sente o braço adormecer, como aconteceu com Teresa Banks e, quando acorda, vê Annie Blackburn ao seu lado (Annie é a namorada de Dale Cooper na série, a qual ele tenta resgatar do Black Lodge), assim como o anel. Depois, ela acorda dentro do sonho e vai até a porta; virando-se para trás, vê sua própria imagem à porta dentro do quadro; em seguida, realmente acorda. Perceba-se que na primeira imagem há o cenário do quarto dela por trás, mas, na última imagem desta sequência, aparece a cortina vermelha do Red Room, do seu sonho. Toda essa parte simboliza uma tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que investigará sua morte – mas sobretudo com a pintura e com os sonhos.

Podemos estabelecer entre relação entre a representação existente na pintura e a realidade da pintura “La condition humaine”, de Magritte, em que a janela é ao mesmo tempo uma pintura:

Vejamos um link para a exposição de quadros de David Lynch que aconteceu entre 6 de março e 14 de abril deste ano na Tilton Gallery.
Inevitável ver nessas imagens alguns dos elementos de filmes como O homem elefante, no uso de figuras disformes em preto e branco (nas pinturas 4, 5, 6 e 7), e Twin Peaks, no vermelho, no fogo e no peixe emoldurado (nas pinturas 2 e 9). Este peixe lembra aquele que está emoldurado atrás do casal com quem Chris Isaak e Kiefer Sutherland conversam em Twin Peaks – Fire walk with me. Há também uma colagem, a partir de uma ideia de pop art, e alguns simbolismos e palavras em algumas telas, aproximando-se de versos rápidos.

Veludo azul, filme seguinte a Duna, estabelece os elementos da filmografia sua de modo geral. Segundo Benjamin Albagli Neto (Cinemin, n. 66, nov. 1990): “É nele que Lynch desenvolve suas ideias de amor, enquadramento, montagem, efeitos sonoros, música, interpretação dos atores, criando um estilo e temáticas bem pessoais, em que, se a presença de elementos pictóricos é relevante, também não faltam referências a mestres do cinema: Buñuel (o imaginário surrealista das imagens dentro da orelha), Hitchcock (a utilização da música lancinante que acompanha o ritual sexual de Frank Booth – Dennis Hooper – e Dorothy Vallens – Isabella Rossellini), Kubrick (o bando de Frank, no carro a toda velocidade, é reminiscente da gangue de Laranja mecânica)”.
Nesse sentido, entre os filmes e diretores preferidos de Lynch, por sua vez, estão Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder), Persona (Ingmar Bergman), Lolita (Stanley Kubrick), As férias do sr. Hulot (de Jacques Tati), Oito e meio, Na estrada da vida e Os boas-vidas (Federico Fellini). Talvez seja interessante pensar como o John Merrick de O homem elefante tem uma trajetória como a de Gelsomina, em Na estrada da vida. Já Oito e meio e Crepúsculo dos deuses têm relação com os filmes Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, pela metalinguagem, apesar de tons diferentes. Vemos o surrealismo de Persona em muitas imagens de Lynch. E o drama de Nabokov adaptado por Stanley Kubrick, que admirava Eraserhead, é, sem dúvida, uma referência para personagens de Twin Peaks.
Os personagens de David Lynch estão também colocados em desafio: precisam descobrir seu eu interior, subjetivo, psicológico e mental, assim como John Merrick, de O homem elefante; como Paul Atreides de Duna; Jeffrey Beaumont, de Veludo azul; Sailor e Lula, de Coração selvagem; Dale Cooper e Laura Palmer, de Twin Peaks; Alvin Straight, de História real; Betty e Rita, de Cidade dos sonhos; e a Nikki de Império dos sonhos. Os personagens não podem ficar como estavam: eles precisam viajar para dentro de si e descobrir no desconhecido uma fonte para sua própria compreensão.

Do mesmo modo, vivem uma dualidade, a começar pelos personagens de Twin Peaks e Veludo azul. Mas a personagem de Patricia Arquette em A estrada perdida certamente remete à dupla Betty e Rita, de Cidade dos sonhos, e aos elementos oníricos de Nikki de Império dos sonhos. Um personagem mudar de rosto também é especialidade de Lynch, como o Leland Palmer, de Twin Peaks, ou o Fred e Renee de A cidade perdida, a Nikki de Império dos sonhos; novamente a dupla de Cidade dos sonhos. E há mesmo imagens semelhantes como nos filmes Duna, Twin Peaks e A estrada perdida, em que os personagens centrais olham para algo que se revela acima delas (no caso de Paul Atreides, a lua que se corresponde com seu futuro; no caso de Laura, a ameaça; e no caso de Fred Madison, a eletricidade que irá definir uma mudança na narrativa):

Os projetos do diretor também surgem como que por imposição de suas escolhas pessoais, ao mesmo tempo que por parcerias. Se O homem elefante parece ter existido porque Mel Brooks havia visto Eraserhead e se Dino De Laurentiis, por sua vez, vira O homem elefante, a fim de chamá-lo para dirigir Duna. Veludo azul estava no contrato feito com De Laurentiis, de Lynch fazer um filme pessoal depois de Duna. Conseguiu realizá-lo podendo fazer o corte final na montagem, o que não foi possível em Duna, quando os produtores decidiram, em uma reunião perto do final das gravações, que o filme deveria ter até no máximo 2 horas (Lynch conseguiu alguns minutos a mais, o que não impediu a sua insatisfação e não escondeu o fato de que o filme precisaria ter pelo menos 3 horas de duração). Depois, fez para a TV Twin Peaks e American chronicles, surgidos da parceria de Lynch com Mark Frost – a primeira série teve uma primeira temporada de grande sucesso, enquanto Coração selvagem e A estrada perdida, de uma parceria com Barry Gifford. Não gostou, inicialmente, da ideia de realizar História real, mas o fez depois de se interessar profundamente pela história – de qualquer modo, com a possibilidade de colocar seu universo nela. Fez Cidade dos sonhos primeiro como piloto para uma nova série de TV, entretanto, quando viu o projeto cancelado, foi atrás dos direitos sobre o filme e convidado pelo Studio Canal, da França, a transformá-lo em filme. Anteriormente, já havia se decepcionado com o desfecho da série Twin Peaks, quando, obrigado pelos produtores, precisou revelar o assassino de Laura Palmer, o que tiraria audiência para os capítulos derradeiros – uma nova intromissão, como em Duna, sem impedimento de Lynch. O filme da série feito para o cinema não resultou num sucesso de bilheteria, mas estreou no Festival de Cannes, em 1992. Um dos integrantes do júri, Pedro Almodóvar, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.

No início dos anos 1980, foi convidado por George Lucas para fazer O retorno de Jedi, porém não aceitou, pois não poderia acrescentar seu universo pessoal. Em todos os seus filmes, além disso, Lynch estabelece parcerias com determinados nomes que se repetem, de filme para filme, mesmo de atores que mais trabalham com ele do que com outros, como Grace Zabriskie (a mãe de Laura Palmer, também presente em Coração selvagem e Império dos sonhos), Laura Dern (presente em Veludo azul, Coração selvagem e Império dos sonhos), Harry Dean Stanton (Coração selvagem, Twin Peaks, História real, Império dos sonhos), Jack Nance (Eraserhead, Duna, Veludo azul, Coração selvagem, Twin Peaks, A estrada perdida), Sheryl Lee e Sherilyn Fenn (Coração selvagem e Twin Peaks) e Justin Theroux (Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), além de Kyle MacLachlan, que aparece em Duna, Veludo azul e Twin Peaks, e depois desaparece da filmografia de Lynch (talvez por ter relutado em participar da versão para o cinema de Twin Peaks).

Se alguns críticos reconhecidos não apreciam a maior parte dos trabalhos de Lynch – como Roger Ebert, que criticou O homem elefante, Duna, Veludo azul e Coração selvagem, elogiando apenas História real e Cidade dos sonhos –, outros, desde seu início, como Pauline Kael, reconheciam seu talento. Sobre Eraserhead, escreve: “Parece ter reinventado o movimento do cinema experimental; vendo este filme de ousada irracionalidade, com seu interesse pela lógica dos sonhos, quase sentimos estar vendo um gótico vanguardista europeu da década de 20 ou do início de 30. Há imagens que lembram M de Fritz Lang, Sangue de um poeta de Cocteau e Um cão andaluz de Buñuel e, no entanto, vemos uma sensibilidade de todo nova em ação”. Sobre O homem elefante: “Cena por cena, não sabemos o que esperar; vemos uma coisa nova – material subconsciente mexendo-se dentro do formato de uma narrativa convencional”. E sobre Veludo azul: “A carregada atmosfera erótica faz da obra algo assim como um transe, mas também o humor de Lynch sempre irrompe. […] o uso de material irracional funciona como deve; em algum nível não de todo consciente, lemos suas imagens”. Seria redundante dizer o quanto Pauline Kael sintetizou em poucas palavras o universo de Lynch, sobretudo quando trata do material do subconsciente, a imprevisibilidade e uma sensibilidade nova em ação – mesmo às vezes dentro de uma narrativa mais convencional, como a de O homem elefante.
Lynch recebeu três indicações ao Oscar de melhor diretor, por O homem elefante, Veludo azul e Cidade dos sonhos, além de ter recebido a Palma de Ouro de melhor filme por Coração selvagem e de melhor diretor por Cidade dos sonhos. Por sua vez, O homem elefante concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme dramático, de diretor, ator e roteiro; Cidade dos sonhos concorreu ao Globo de Ouro também de melhor filme dramático, diretor e de roteiro, e Veludo azul, de melhor diretor.

A partir de hoje, trataremos, em Cinematographe, de cada longa-metragem realizado por David Lynch.

* Não foi possível abarcar todas as facetas de Lynch, aqui, digamos algumas mais pop: como a de idealizador do Club Silencio, em Paris, o mesmo nome do clube de Cidade dos sonhos, ou a de músico em Crazy Clown Time – levando adiante as experiências sonoras da trilha para o cinema de Twin Peaks, da qual participou diretamente com Angelo Badalamenti –, ou a de diretor de filmagem de shows de Duran Duran. Mas é bom dizer que, em se tratando de parte do design do Club Silencio, não iríamos muito longe – e talvez Lynch discordasse – da sala do trono do Imperador Shaddam IV, de Duna:

Referências bibliográficas

BEYLIE, Claude. As obras-primas do cinema. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
FILHO, Rubens Ewald. Dicionário de cineastas. São Paulo: Companhia Nacional, 2002.
KAEL, Pauline. 1001 noites no cinema. Seleção de Sérgio Augusto. Tradução de Marcos Santarrita e Alda Porto. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MÜLLER, Jürgen (Ed.). Lo mejor del cine de los 70. Barcelona: Taschen, 2003.
_______. Los mejor del cine de los 80. Barcelona: Taschen, 2005.
_______. Los mejor del cine de los 90. Barcelona: Taschen, 2005.

Site de David Lynch

www.davidlynch.com/

Indicações de textos em sites

LynchNet
35 years of David Lynch