Sucker Punch (2011)

Por André Dick

Sucker Punch

Há alguns filmes que não recebem a merecida atenção quando são lançados e outros que, comemorados à primeira vista, alguns anos depois são quase esquecidos. Por vezes, um determinado diretor é visto como apenas um burocrata da indústria, a serviço de grandes estúdios, e faz um material a princípio superficial, que se pode esquecer o quanto é possível que ele traga algo verdadeiramente novo, mesmo que não aparente como a crítica exige. Nesse sentido, é tão evidente o talento de Zack Snyder para compor imagens impressionantes que se lamenta o quanto se diz que ele só faz CGI. Se o seu filme 300 era ainda prejudicado por uma excessiva fidelidade aos quadrinhos, sem que ele pudesse movimentar suas ideias, o mesmo não pode ser dito dos seus projetos seguintes: Watchmen era uma peça de inegável originalidade dentro do universo dos super-heróis, uma espécie de referência potencial para qualquer filme que mesclasse diferentes personagens. Em seguida a ele, havia o projeto pessoal de Snyder, Sucker Punch (sem Mundo surreal, o dispensável subtítulo em português), escrito em parceria com Steve Shibuya, que acabou se transformando num fracasso de bilheteria (renda de 89 milhões de dólares para um orçamento de 82) e de crítica.
Este conto ultramoderno, passado nos anos 1960, mostra uma menina, Babydoll (Emily Browning), que sofre nas mãos de um padrasto abusivo (Gerard Plunkett), depois da morte da mãe, e é levada para um sanatório, a Casa Lennox, sendo entregue a Blue Jones (Oscar Isaac) e à psiquiatra Vera Gorski (Carla Gugino).

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Imediatamente, num procedimento de lobotomia, a menina passa a imaginar outra vida no lugar: para ela, o cenário não é de um hospital psiquiátrico e sim uma espécie de cabaret, nos moldes daquele de Bob Fosse. “Where is my mind” é a música do Pixies que soa ao fundo, mostrando que a mente pode vagar entre lugares e realidades paralelas. A cada vez que ela dança (e o espectador nunca a vê de fato dançando), para contentar o patrão, que pretende vender a sua virgindade e é o mesmo Blue Jones, mas com um estilo gângster, e a professora de dança, que é a psiquiatra, ela passa a conviver, na verdade, por meio de sua imaginação, com cenas de batalha, ao lado de suas amigas, Amber (Jamie Chung), Blondie (Vanessa Hudgens), Rocket (Jena Malone), e sua irmã, Sweet Pea (Abbie Cornish).
Se o início é bastante intrigante, aos poucos, a história passa a integrar simbologias interessantes, como do enfrentamento aos samurais, a passagem pela Segunda Guerra e o combate a um dragão. É como se o mundo fantasioso pudesse salvar Babydoll de uma realidade difícil de ser enfrentada. No entanto, mesmo nesse mundo, sob as ordens de um guardião (Scott Glenn), ela atravessa o risco de morrer a cada vez que precisa enfrentar uma missão, a fim de coletar cinco itens:  um mapa, fogo, uma faca, uma chave e um “sacrifício profundo”.  Percebe-se que Babydoll e suas amigas se tornam peças-chave em universos diferentes e nos quais o homem é sempre visto como o principal combatente, principalmente quando enfrentam soldados de guerra, ou, especificamente a personagem central, um trio de samurais gigante. Snyder mostra essas imagens como um delírio visual, e apenas se lamenta o quanto elas possuem um ritmo determinado, sem grandes sobressaltos.

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Em meio a tudo, Azul informa Babydoll que sua virgindade será vendido a um cliente conhecido como o High Roller (Jon Hamm), exatamente o homem que faz a lobotomia no início do filme. Nessas idas e vindas, entre a realidade encenada – a dança – e a fantasia buscada – por meio da qual se descobrem armas para obter a liberdade –, Sucker Punch se constrói como um dos filmes mais estranhos dessa década. Sua reconstrução dos anos 60, especificamente, é fabulosa, com um cuidado extremo com os figurinos e cenários. Esse design de produção esplendoroso (alguns gráficos são como molduras e o trabalho de cores é destacado) e a fotografia de Larry Fong, além das ótimas atuações de Emily Browning, Carla Gugino, Abbie Cornish e Oscar Isaac, levam o filme a um patamar de cult, rejeitado em seu tempo e aos poucos reconhecido. A passagem de Snyder de 300 para Watchmen e em seguida para este Sucker Punch anunciam a Batman vs Superman. Se Sucker Punch, como em geral a obra de Snyder, é visto como estilo sobre substância, é feito com rara dedicação.
Mas não apenas isso. É natural que se diga que ele se apoia na misoginia, que explora as atrizes em trajes mínimos e tudo não passa de uma espécie de painel da Comic-Con, fazendo alusão a uma variedade de estilos, uma espécie de Kill Bill agitado dentro de um videogame, buscando diálogo ainda com a franquia Matrix. Invariavelmente, Snyder pretende apenas mostrar uma violência desenfreada nas peças de ação e um estilo nos moldes de uma animação para adultos. Porém, existe, certamente, um outro caminho para que se entenda a narrativa: diante do abuso do padrasto e da situação de estar sendo lobotomizada, a menina se impõe – e imagina as amigas do mesmo modo – como um grupo a ser temido e cuja natureza se afasta da frieza e distanciamento do mundo em que ela se coloca. O filme é uma vingança das mulheres por meio da imagem que certo universo masculino faz delas.

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A personagem se imagina como alguém que realmente pode dar fim àquele espaço em que se encontra. Ela, então, imagina não apenas uma figura paterna (representada por Scott Glenn), como aquele que oferece os desafios de sua jornada, como repudia aquela figura que lembra seu padrasto e se reproduz exatamente na figura do Dr. High Roller. Snyder consegue contar uma história em camadas diferentes tanto de pensamento quanto de cenários, com uma grande eficácia: ele não entrega o roteiro de forma linear ou coloca imagens em sequência sem nenhum atrito, mas tenta fazer com que o espectador reflita sobre a dualidade em que vive a personagem.
Nesse sentido, como em Watchmen e Batman vs Superman, ele aborda de forma muito sutil os temas da solidão e do confronto entre pessoas num determinado ambiente, um confronto que não visa apenas a uma reunião de amigos e sim a um atrito existencial. A ameaça da morte pode ser presente e não sentimos que a personagem central está segura, como não estão nunca seus heróis de Watchmen ou Batman vs Superman. Se (a partir daqui spoilers) Sucker Punch se abre com a morte e se encerra, em parte, com a morte (mas não completa, porque há a libertação de uma personagem-chave e Babydoll sorri), pode-se dizer que é o mesmo movimento de Snyder em Batman vs Superman: começa com a morte dos pais de Batman e se encerra com a de Superman, com um prenúncio de que ela pode não ser definitiva (para não falar em Watchmen, cujo início acontece depois da morte do Comediante para se descobrir, ao final, que o grupo pode não voltar à ativa de qualquer modo). Para Snyder, são seus personagens, vivos ou não, que colocam tudo em movimento. No entanto, mais do que a trama em si, seus personagens vivem num universo em que tentam reconstruir, mesmo que arrisquem a vida, um novo caminho. Para Snyder, se não morrer a imaginação, eles continuam vivos. É isto mais exatamente que diferencia o diretor de outros que lidam com blockbusters: tudo neste universo é instável e agradar ou não ao espectador depende apenas do que este quer (ou imagina) receber.

Sucker Punch, EUA, 2011 Diretor: Zack Snyder Elenco: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Jon Hamm, Scott Glenn Roteiro: Steve Shibuya, Zack Snyder Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Marius De Vries, Tyler Bates Produção: Deborah Snyder, Zack Snyder  Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Cruel & Unusual Films / Legendary Pictures / Lennox House Films / Warner Bros

Cotação 4 estrelas

 

Spring breakers – Garotas perigosas (2013)

Por André Dick 

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Harmony Korine, que está por trás do projeto Spring breakers – Garotas perigosas, escreveu o polêmico Kids com apenas 19 anos, e Ken Park, ambos de Larry Clark, com narrativas envolvendo adolescentes. Também diretor de alguns longas sem grande repercussão, mas respeitáveis, domina a esse universo como poucos, e Spring breakers guarda alguns trunfos: um deles é a estética, com a colaboração na fotografia de Benoît Debie (que fez um trabalho semelhante em The Runaways) e a trilha magnetizante de Cliff Martinez, habitual colaborador de Refn (Drive), com Skrillex. Há, inclusive, semelhanças entre este filme e o recente Only God forgives, no trato visual, embora com encaminhamentos diferentes.
Aqui, três meninas, colegas de faculdade, Candy (Hudgens), Brit (Benson), e Cotty (Rachel Korine, esposa do diretor), querem juntar dinheiro para que possam sair nas férias de primavera na Flórida – que guarda o imaginário de consumo delas. A elas se junta Faith (Gomez), que participa de reuniões religiosas, em frente a um vitral ultracolorido – a porção Terrence Malick desta festa juvenil. Nos Estados Unidos, parece haver uma profusão neste sentido durante a primavera: os jovens vão para as praias e se jogam não no mar, mas numa piscina de som, sexo e drogas, de todos os tipos. É o que Spring breakers retrata em detalhes: esta seria a média da juventude norte-americana, aponta Korine, como em Kids. Ele filma tudo com cuidado especial pelo ritmo (em certas partes, parece que estamos diante de um videoclipe) e com riscos de voice overs soltas, ao longo da metragem, parecendo se tratar de um filme experimental. O jogo de cores (sobretudo o vermelho e o verde) ajuda a acentuar esta primavera, embora o clima de pôr do sol esteja mais para pesadelo do que para sonho.

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Desde a visão de salas da aula da faculdade, em que as meninas trocam rabiscos em cadernos apontando para as férias de primavera, até o momento em que elas precisam criar uma saída para arranjarem dinheiro, o clima de Spring breakers guarda uma espécie de clima amargo: os corredores azulados e cinzas são a antecipação do que as espera, e a personagem de Faith caminhando numa rodovia indica uma solidão em meio às imagens de festa à beira da praia, repetidas como um comercial de TV. E não deixa de ser irônico que, mesmo nas situações mais delicadas, ela e suas amigas estejam de biquínis coloridos, assim como Faith diga, em suas conversas familiares, que todos que elas encontram são simpáticos e generosos (numa narração às avessas do que acontece), ao mesmo tempo em que cria certo impacto o modo como Korine transforma momentos que parecem lidar com o prazer de forma tão desagradável e afastada de qualquer ideia de verão alegre (spoilers daqui em diante).
Se as jovens precisam chegar ao limite para conseguir o dinheiro das férias, não menos elas fazem quanto estão na praia: elas encontram, em determinado momento, o rapper Alien (James Franco, finalmente à vontade depois de estar deslocado em inúmeros filmes e arriscando sua carreira com vontade), que se apaixona à primeira vista por Faith. É esta personagem que reúne a tentativa de respeitar a religião com a vontade de participar de festas, e a dúvida existencial, e, diante dos projetos cinematográficos anteriores, Selena Gomez realmente está bem no filme, que piora sensivelmente com sua saída.
O seu primeiro encontro com Alien, além de ser a cena mais tensa, bem dirigida por Korine, pois é um embate entre duas personalidades e não estereótipos, revela uma espécie de encontro com uma entidade maligna, que precisa afastar suas amigas caso queira sair ilesa. Suas amigas, no entanto, ficam fascinadas pelo estilo de vida de Alien, com seus carros, dinheiro, pistolas e metralhadoras na cama com neon, e ouvem dele uma análise sobre os tubarões da costa – que parecem falar mais de si próprio e dos amigos. Elas não querem que as férias terminem e para isso resolvem se afastar da vida que as espera na faculdade. E ainda: Alien é inimigo de Archie (Gucci Mane), com quem compete pelo território, fazendo as meninas imaginarem que pode haver mais crimes. O que antes eram festas com drogas e relações sexuais se torna numa espécie de vingança contra um universo que não aceita as mulheres.

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Korine, ao mesmo tempo em que parece mostrar que este é o “sonho americano”, como o de Alien, querendo parecer com Al Pacino em Scarface – e os cenários da praia lembram o filme de De Palma, mais estilizados –, também representa seu lado mais cruel, apontando sua história contra padrões do que é vendido como universo jovem. O momento mais exemplar é quando Alien canta uma música de Britney Spears, “Everytime”, em seu piano à beira de uma piscina. Enquanto ele toca, vão desenrolando imagens de assaltos cometidos por ele e as meninas, em slow motion, com um cuidado não apenas fotográfico, mas sonoro. Estamos não apenas diante de uma ironia – o romantismo pop de Britney Spears inspira jovens como aqueles mostrados pelos filmes, e representa parte deste “sonho americano” –, mas de uma cena que parece definir Spring breakers: há imagens e sensações inocentes, como aquelas que se produzem numa canção, cortadas pela violência da realidade. Ainda assim isso parece previsível, pois a crítica é tão direta e Korine considera que chegou ao ponto-chave sem concluir que seu filme tem os mesmos problemas.
Esta comparação direta parece ter algo que desequilibra Spring breakers: ela remete ao universo da repetição cultural. Assim, a partir da metade final, principalmente, o belo estilo empregado por Korine na hora inicial pende um pouco mais para a exaustão, com frases sendo reelaboradas continuamente por Alien e as meninas em cena sem desenvolverem uma personalidade própria (elas servem, no fim, apenas como símbolos para um clima justificado de prazer por drogas e justificativa para o clímax). Desse modo, aos poucos, e não sem certo desalento, o filme de Korine trata de uma embalagem prometida e se configura como uma ácida crítica ao estilo de vida de uma parcela dos jovens e o sonho utópico de, numa temporada, mudar o que não pode ser esquecido. Korine não consegue realizar a travessia de uma obra provocante para uma obra densa, como parecia anunciar pelas cenas iniciais, entrecortadas com as imagens das festas na praia, também em razão de logo afastar a personagem que poderia causar um atrito neste universo e não explorar aquelas figuras com quem lida da metade para o final. O que Korine revela com qualidade é o pôr de sol de uma juventude, mas sua obra promissora se configura como uma surpresa que não convence.

Spring breakers, EUA, 2013 Diretor: Harmony Korine Elenco: Vanessa Hudgens, Ashley Benson, James Franco, Rachel Korine, Selena Gomez, Gucci Mane Produção: Charles-Marie Anthonioz, Chris Hanley, David Zander, Jordan Gertner Roteiro: Harmony Korine Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Cliff Martinez, Skrillex Duração: 92 min. Estúdio: Division Films / Iconoclast / Muse Productions / O’Salvation / Radar Pictures

Cotação 2 estrelas e meia