X-Men – Fênix Negra (2019)

Por André Dick

É preciso estar atento que X-Men – Fênix Negra está conseguindo ter uma aprovação de pouco mais de 20% no Rotten Tomatoes, o agregador de críticas que alguns utilizam para decretar a qualidade de um filme e não conseguem expor exatamente o motivo, a não ser o simples fato de que em algum lugar possa se encontrar uma opinião “consensual”, mesmo que cada espectador tenha motivos para pensar justamente o contrário. Isso parece prenunciar um desastre no mínimo constrangedor para o último filme realizado ainda na Fox do universo da Marvel, já que ela foi incorporada pela Disney, agora sua distribuidora.
A história inicia em 1975, mostrando Jean Grey (Summer Fontana) com oito anos de idade, no carro de seus pais, Elaine (Hannah Emily Anderson) e Dr. John (Scott Shepherd) quando há uma interferência de sua telecinesia na viagem. O resultado do acontecimento a leva para a Escola do professor Charles Xavier, em Westchester County, New York, destinada a crianças e jovens com habilidades especiais ligadas ao cérebro.

Transportada para 1992, a história acompanha os X-Men que estão para salvar um ônibus espacial, Endeavour, do desastre. Liderados por Xavier, Grey (Sophie Turner), agora conhecida como Fênix Negra, acaba por absorver os resíduos de uma explosão, tornando-se mais forte, para preocupação do mestre. Ficam sabendo disso após uma análise de Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult). Grey namora Scott Summers/Ciclope e é amiga próxima de Raven Darkhölme/Mística (Jennifer Lawrence). Essas relações já são desenhadas no filme X-Men – Apocalipse, quando Summers é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers) para a escola de Xavier, assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Aparecem de relance Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters) e Ororo Munroe/Tempestade (Alexandra Shipp) e Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee).
Grey não sabe que destino exatamente teve seus pais e passa a ficar preocupada com o que pode ter acontecido a ela. Isso a leva para uma tentativa de reencontrar seu pai em Red Hook, Nova York e ir atrás da ajuda de Erik Lehnsherr/Magneto (Michael Fassbender). Enquanto isso, segue em seu encalço a enigmática Vuk (Jessica Chastain).

Se a nova fase de X-Men teve uma trilogia dirigida inicialmente por Matthew Vaughn e continuada por Bryan Singer, e seus destaques sejam Primeira classe e Apocalipse, a criticada sequência com um dos melhores desenvolvimentos de personagens da série, este episódio dedicado à figura de Fênix Negra talvez seja o derradeiro no estilo desses personagens na Fox antes de ser vendida para a Disney. E, não contando com Singer na direção, mais afeito a um tratamento pop, embora de qualidade, apresenta no comando Simon Kinberg, que estreia como diretor, mas tem no currículo o roteiro dos dois episódios anteriores dessa nova fase de X-Men, além de X-Men – O confronto final (da primeira fase, dos anos 2000), com pontos parecidos com o desta nova obra no desenvolvimento da saga de Fênix Negra, além de trabalhos ótimos, como Sherlock Holmes, de Guy Ritchie. É curioso também que ele tenha produzido inúmeros filmes (a exemplo de Logan e Deadpool2) e escreva X-Men – Fênix negra. Nada – nem mesmo Vingadores – Ultimato – tem um ritmo tão contemplativo no universo Marvel quanto este episódio para uma figura feminina de destaque. Há um peso para as ações de cada personagem, um sentimento de culpa envolvendo lembranças familiares e ser aluno de um mestre. Esse ritmo vem acompanhado de ótimas atuações, como as de McAvoy, Fassbender, Turner e, principalmente, Jessica Chastain, além da trilha sonora de Hans Zimmer, capaz de dar profundidade a sequências de ação e explosões, aqui com ótimos efeitos visuais, sobretudo no terceiro ato.

Como no filme anterior, subestimado, Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas que havia lá – e que não se repete aqui – é que os personagens quase não possuíam cenas em conjunto. Agora essa aproximação dos alunos de Xavier mostra, ao mesmo tempo, uma tentativa de independência, assim como a tentativa do professor em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado no embate continue. Se o duelo masculino prossegue entre eles, Fênix Negra e Vuk protagonizam o duelo feminino, ligado a uma figura do passado da personagem central. O roteiro não trabalha com os excessos de tramas de Apocalipse e prefere focar bem em alguns personagens. Desse modo, em X-Men – Fênix Negra novas surpresas ocorrem nesse campo de ligações anteriores e com uma dose a mais de introspecção, não notada desde Logan pelo menos entre as produções da Marvel ligadas inicialmente à Fox. É justamente essa característica que torna o filme tão interessante do ponto de vista do desenvolvimento e, justamente ao contrário da obra com Hugh Jackman, o que surpreendentemente suscita tantas críticas injustas.

Dark Phoenix, EUA, 2019 Diretor:  Simon Kinberg Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Sophie Turner, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Jessica Chastain, Summer Fontana Roteiro: Simon Kinberg Fotografia: Mauro Fiore Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Simon Kinberg, Hutch Parker, Lauren Shuler Donner Duração: 114 min. Estúdio: 20th Century Fox, The Donners’ Company, Marvel Entertainment, TSG Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Jogador Nº 1 (2018)

Por André Dick

Há sete anos, Steven Spielberg realizou seu primeiro desenho animado, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerraLincoln e Ponte dos espiões, ele regressou com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. No ano passado, Spielberg fez o “Oscar bait” The Post – A guerra secreta, chegando, talvez, a seu limite como realizador de obras guiadas por fatos, através de um veículo com o objetivo de buscar nomeações a prêmios e sem a devida autenticidade.

Menos de meio ano depois, ele regressa ao universo pop com Jogador Nº 1, baseado em romance de Ernest Cline. A história mostra o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), que vive a maior parte do tempo em seu avatar, Parzival, dentro da realidade virtual intitulada Oasis, criada por James Haliday/Anorak (Mark Rylance), com a ajuda de Ogden Morrow (Simon Pegg). Morando em Columbus, Ohio, ele está interessado por uma garota participante do jogo, chamada Art3mis, ou melhor, Samantha Cook (Olivia Cooke), que o ajuda numa missão determinada com amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), em busca de um “easter egg”, e pretende descobrir o que pretende Nolan Sarrento (Ben Mendelsohn). Sarrento quer ter o domínio sobre Oasis, com a colaboração direta do monstro i-R0k (TJ Miller). A história se passa em 2045, quando toda a terra parece ter sido erguido sobre favelas – embora os primeiros momentos lembrem mais Speed Racer, das irmãs Wachowski, e uma estranha movimentação de edifícios lembre A origem, de Nolan.

Se O bom gigante amigo trazia imagens que mesclavam as árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau, Jogador nº 1 é uma coleção de referências cinematográficas diversas. O início remete a De volta para o futuro (com Watts num DeLorean) e King Kong, além de i-R0K ter um peito em forma de caveira, aquela da caverna de Indiana Jones e o templo da perdição, e há uma passagem fantástica (spoiler a seguir) que insere o espectador nos corredores e quartos do Overlook de O iluminado. Trata-se de um alívio, pois finalmente se sabe onde Spielberg estava nas filmagens de The Post: filmando na verdade Jogador Nº 1.
À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar de maneira brilhante, Spielberg desenha um universo atrativo. Jogador Nº 1, ao contrário dos cenários pálidos dos últimos filmes do cineasta, é um primor de concepção visual e remete ao melhor da configuração em video game já mostrada no cinema, a de Tron. A ambientação da casa de Wade Watts – que diz ter sido assim batizado como um Peter Parker ou Bruce Banner – lembra as de Minority Report e A.I., misturando cores soturnas e uma conjunção de imagens computadorizadas. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, ele localiza aqui a de solidão não da infância, como em Império do sol, e sim da adolescência. Em seu roteiro, os jovens não têm praticamente uma “vida real”: eles sobrevivem por meio do jogo. Nisso, os anos 80 povoam o imaginário do filme, também musicalmente, com “Jump”, do Van Halen, por exemplo, assim como numa festa temos New Order.

Misturando imagens de video game e atores reais – que lembra em alguns instantes o subestimado Warcraft –, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, Jogador Nº 1 não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. Graças às atuações de Sheridan e Cooke, o cineasta consegue entregar certa dramaticidade a partir dessa ideia, embora não extraia notas diferenciadas de Mendelsohn (praticamente o vilão do cinema atual) ou Pegg (um pouco subaproveitado). Talvez se lamente que os atores não apareçam tanto como suas peças virtuais, pois todos exercem uma química em conjunto. Ao contrário do que demonstra no quase desastroso The Post, Spielberg se sente à vontade de regresso à cultura pop que ele ajudou a organizar, desta vez com a colaboração na trilha de Alan Silvestri no lugar de John Williams, que já concede um ritmo diferente – e faz várias referências a seu trabalho em De volta para o futuro. As cenas de ação se sentem vívidas, como aquelas de As aventuras de Tintim, com um senso de realismo mesmo na irrealidade representada.

Talvez ele tenha sido aqui o que menos se revela ultimamente: um autor até discreto. Em poucos momentos, ele homenageia a si mesmo. Ele prefere fazer reverência aos filmes oitentistas de John Hughes, Robert Zemeckis (um de seus “alunos”) e coloca O gigante de ferro, da animação dos anos 90 de Brad Bird, como uma espécie de exterminador do futuro de James Cameron. Em termos conceituais, o roteiro de Zak Penn não traz nada de especialmente relevante, com uma mensagem até previsível, porém Spielberg não se mostra aberto ao excesso de sentimentalismo que por vezes desconcerta sua obra, principalmente ao final. Ele prefere se basear na ideia de um universo múltiplo, uma espécie de Avatar adolescente, para retomar elementos que foi esquecendo ao longo dos últimos anos, praticamente desde o contestado Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Há uma certa despretensão bem-vinda, com uma intensidade notável até a primeira parte, que conduz tudo a um desfecho direto e sem contorcionismos para enfeitar esse universo.

Ready player one, EUA, 2018 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller Simon Pegg, Mark Rylance Roteiro: Zak Penn Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger Duração: 140 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, Village Roadshow Picture, De Line Pictures, Farah Films & Management Distribuidora: Warner Bros. Pictures

X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia

 

Lugares escuros (2015)

Por André Dick

Lugares escuros.Filme 5

No ano passado, David Fincher adaptou com ótima recepção de público e crítica o suspense Garota exemplar, escrito por Gillian Flynn. Apesar de Flynn colaborar diretamente no roteiro, a partir de determinado momento é possível que seu estilo é substituído claramente pelo de Fincher, na maneira de conduzir a narrativa e os personagens, em parte resultando numa decepção, pois em seus projetos anteriores o diretor havia conseguido um notável equilíbrio. Pouco tempo depois (o romance original é de 2009), Flynn tem outro romance adaptado para as telas do cinema, Lugares escuros. Como em Garota exemplar, trata-se de uma trama de mistério e de indagações, relacionadas desta vez a um passado um pouco mais longínquo.
Libby Day (Chalize Theron) é sobrevivente de um massacre ocorrido em 1985, em Kinnakee, no Kansas, no qual parte de sua família terminou morta. Desde então, ela tem conseguido vários ganhos financeiros a partir desse acontecimento, seja por meio de livros, seja por meio de programas de TV, porém chega-se ao limite, e suas economias cessaram. Ela é procurada por Lyle Wirth (Nicholas Hoult), líder do Kill Club, formado por integrantes obcecados por assassinatos e crimes nunca solucionados devidamente. Lyle é dono de uma lavanderia, mas decide dar a Libby todo o custo financeiro cobrado para ela cobaborar com novas informações para saber se o que aconteceu ou não no Kansas corresponde às informações das autoridades. Segundo a mesma Libby declarou aos 8 anos de idade, tudo aconteceu da forma como relatado à época. A partir daí, Libby decide visitar o irmão acusado pelos assassinatos, condenado à prisão, Ben (Corey Stoll).

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Ao mesmo tempo, a narrativa começa a lançar os flashbacks sobre sua vida familiar numa fazenda do interior. Nela, sua mãe, Patty (Christina Hendricks) convive com os problemas conflituosos de Ben (Tye Sheridan), aos 15 anos, e ainda Michelle (Natalie Precht) e Libby (Sterling Jerins). Esta tem um bom relacionamento com o irmão, que se vê envolvido com Diondra Wertzner (Chloë Grace Moretz) e Trey (Shanon Kook), integrantes de uma estranha seita. Decisivamente, Libby está interessada em remontar essa história como um quebra-cabeças, vendo inclusive onde entram seu pai, Runner (Sean Bridgers) e Krissi (Addy Miller), uma menina que, à época, teria acusado Ben de tê-la molestado – fazendo a notícia se espalhar por toda a escola. Há vários temas em Lugares escuros: hipotecas de fazendas, crianças ameaçadas e jovens desgovernados. E há o Kill Club, embora apenas no início, pouco explicado pela narrativa e com uma ideia severamente desperdiçada.
O diretor francês Gilles Paquet-Brenner faz uma sucessão de idas e vindas no tempo para entendermos a presença de Libby no dia do massacre, e para isso ele tem o auxílio da fotografia de Barry Ackroyd. Responsável por trabalhos de filmes com movimentação de câmera contínua, como Guerra ao terror e Capitão Phillips, Ackroyd tenta dar uma motivação a todos os momentos de Lugares escuros, com êxito em alguns momentos, e em outros nem tanto. Não há um grande alento nas imagens de Lugares escuros, mas, de algum modo, este clima oferecido pelo filme leva todos os personagens a uma espécie de afastamento da realidade.

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Tanto quanto o clube coordenado por Lyle – em mais uma boa atuação de Hoult, que também divide a cena de Mad Max com Theron –, essas figuras estão dominadas por uma faceta noturna. Libby se movimenta com dificuldade, sempre associada ao massacre, enquanto o irmão está na prisão. As lembranças da mãe não são menos pesadas, e Hendricks mais uma vez consegue atuar bem  num papel de determinado modo limitado. No entanto, é Sheridan e Moretz que conduzem o filme para o foco do mistério e se mostram mais uma vez bons atores, sobretudo Sheridan, depois de Amor bandido e Joe (uma grande falha com Nicolas Cage, quase salva por ele). Theron, por sua vez, tem uma boa presença de cena, embora seu personagem não seja muito diferente daqueles que já protagonizou: em muitos momentos, a gelidez de Libby impede o espectador de uma aproximação maior, como se ela fosse a responsável pela nave de Prometheus. Em parte, isso é necessário para o papel, contudo Theron exagera por vezes, repetindo alguns maneirismos de amargura já entrevistos em Jovens adultos; Hoult ao aparecer em cena, como em Mad Max, consegue recompor a narrativa, apesar de nunca usado como deveria.
Entende-se que Gillian Flynn teria feito um romance com acontecimentos improváveis, mas isso já transparecia em Garota exemplar, cuja parte final é próxima do desastroso. Se Paquet-Brenner não tem nem um traço do talento para o visual de Fincher, pode-se dizer que sua trama é mais árida e concentrada, ao contrário daquela apresentada em Garota exemplar.

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Esses personagens, a começar por Libby, não têm exatamente uma polidez: há um universo encoberto e mesmo sujo aqui, e Paquet-Brenner consegue retratá-lo com uma atmosfera por vezes assustadora, tendo como base a música de Gregory Tripi. Temos imagens da cidade grande e de clubes noturnos (inclusive o Kill Club) e elas não são diminuídas pelas imagens bucólicas do interior: nessas, pelo contrário, existe ainda uma ameaça maior, como se o lado campestre estivesse sempre em união com o urbano, nunca trazendo alívio aos personagens; a sua atmosfera é quase inabitável e habilmente incômoda. O espectador nunca se sente à vontade com sua variação de cenários, aparentemente sempre com o objetivo de cada um parecer preso à sua forma de agir. As improbabilidades do que acontece, reservadas a um suspense e a um thriller, não jogam o filme na vala comum; antes, fazem parte apenas do gênero, e o diretor consegue fazer uma sucessão contínua de novas informações se sobrepondo junto com a recuperação do passado. Uma pena o filme falhar em seus instantes finais, quando o diretor deixa as descobertas subentendidas e não recompõe a importância de cada personagem para o contexto. Ainda assim, Lugares escuros lança o espectador em meio a uma narrativa capaz de atrair a atenção e não aponta a necessidade de uma resolução definitiva para aquilo que aos poucos também se desmantelou na memória de Libby.

Dark places, FRA/EUA, 2015 Diretor: Gilles Paquet-Brenner Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Christina Hendricks, Tye Sheridan, Corey Stoll, Drea de Matteo, Natalie Precht, Sean Bridgers, Shannon Kook, Sheri Davis, Sterling Jerins Roteiro: Gilles Paquet-Brenner Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Gregory Tripi Produção: Charlize Theron, Peter Safran, Stéphane Marsil Duração: 114 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Cuatro Plus Films / Da Vinci Media Ventures / Denver and Delilah Productions / Exclusive Media Group / Hugo Productions / Mandalay Vision

Cotação 3 estrelas e meia

Amor bandido (2012)

Por André Dick

Amor bandido.Filme 5

Há muito tempo o cinema de Hollywood tem se afastado de histórias simples ou visto com certa desconfiança aquelas que têm um certo tom de descoberta juvenil num cenário real, preferindo se concentrar em produções com o objetivo de alcançar um público que prefere esses mesmos elementos com mais ação. Nos anos 80, tínhamos filmes como Conta comigo, em que uma turma, caminhando por um trilho de trem, ia em busca de um corpo desaparecido. Baseada em Stephen King, a história apresentava elementos, como este recente Amor bandido, de Mark Twain e Charles Dickens. O novo filme de Jeff Nichols, recém-saído do sucesso de crítica O abrigo, com Michael Shannon, que regressa aqui num pequeno papel, e Jessica Chastain inseridos numa parábola sobre o fim do mundo, procura encontrar este síntese, apresentando a história de um menino, Ellis (Tye Sheridan), que vê o casamento de seu pai, Senior (Ray McKinnon, num diálogo visual direto com o personagem de Harry Dean Stanton em Paris, Texas), e de sua mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), se desintegrar lentamente. Eles vivem no Rio Mississippi, na altura do Arkansas, em uma casa flutuante, deixada pela família de Mary Lee. Quando se separarem, o governo destruirá a propriedade. Desde o início, Nichols consegue inserir o espectador neste ambiente, criando uma atmosfera sólida, com a fotografia particularmente acertada de Adam Stone, sustentada por um extraordinário design de som, capaz de captar a natureza. E avisa: este é um filme naturalmente acessível, composto por pedaços de narrativa reconhecíveis e ainda assim naturalmente emotivos e cuja ressonância é sincera.

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Ellis está em conflito existencial e, numa das peregrinações pelo rio, com o amigo Neckbone (Jacob Lofland), descobre um barco pendurado numa árvore em uma pequena ilha abandonada da região, deparando-se, logo em seguida, com Mud (traduzindo literalmente, Lama), que pede por comida, uma situação que contrasta com sua camisa impecavelmente branca, da qual não se livraria, como ele diz, nem antes de sua arma. Diz que morou no Rio quando era criança e está ali à espera de uma moça. Este fragmento de história é suficiente para que Ellis se interesse em ajudá-lo. Adentrando na adolescência e sem a idealização do amor em sua rotina, interessado por colegas mais velhas que se reúnem em frente a postos de gasolina, principalmente May Pearl (Bonnie Sturdivant), ele se sente deslocado e sem ter alguém para dividir seus conflitos. Embora Neckbone não se interesse muito pela história, ambos passam a ter um vínculo com Mud, que pede a eles para procurar um homem da região, Tom Blankenship (um contido e excelente Sam Shepard), com a franca possibilidade ajudá-lo, enquanto o tio de Neckbone, Galen (Michael Shannon), se mostra preocupado com o que possa estar ocorrendo.
Nichols começa aí sua espécie de conto moral sobre como um menino pode, ao mesmo tempo, buscar o perigo para recuperar aquilo que perdeu com o passar da idade. Quando entra em cena Juniper (Reese Whiterspoon, tentando fugir da imagem deixada por comédias), surgem novos conflitos e é preciso, mais do que desafiar a si mesmo, tentar substituir as próprias escolhas para investir numa história que pode ser diferente da sua. Mud, para Ellis, não pode ter uma história como a sua: por meio dele, é possível recuperar a ideia de uma certa unidade familiar, capaz de trazer ainda conforto e certeza. E a figura da mulher é associada a uma entrada na maturidade, tanto para compreender as escolhas familiares quanto aquelas que irão definir as reuniões no colégio. Em correspondência direta com esta definição, existe a reconstrução do barco para que se possa abandonar o cenário longínquo de uma infância não mais possível de ser alcançada.

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É interessante como Amor bandido se constrói em cima de uma base muito simples e direta, sem colocar histórias paralelas a fim de impedir a naturalidade da narrativa. Isso, no cinema atual, pode ser visto até mesmo como uma espécie de conservadorismo e retomada de uma certa ideia clássica. Mas quanta diferença pode fazer não apenas um diretor competente, como Nichols é, como também um elenco à altura. Depois de Killer Joe, McConaughey entrega a sua grande atuação do ano, um personagem com variações de tom. Com poucos diálogos, mas uma composição de personagem sólida, ele é apoiado pela figura de Tye Sheridan, um ator excepcional, conhecido do público desde A árvore da vida, e por Jacob Lofland, que sempre entra em cena para conseguir sustentá-la e aparar as arestas, assim como Joe Don Baker tem uma presença assustadora. Há algumas sequências que só possuem vitalidade pela interação do elenco, quando a história parece escapar para saídas mais rotineiras, sobretudo em seu terceiro ato, embora ainda com impacto e narrativa fluente. No entanto, Nichols filma tudo com uma habilidade própria e a colaboração fundamental de Julie Monroe na montagem de suas peças que Amor bandido parece transparecer uma espécie de clássico perdido, de uma história tantas vezes contada que parecemos às vezes esquecer de como ela é vital.

Mud, EUA, 2012 Direção: Jeff Nichols Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon, Sarah Paulson, Ray McKinnon, Sam Shepard, Michael Shannon, Bonnie Sturdivant, Paul Sparks, Joe Don Baker Roteiro: Jeff Nichols Fotografia: Adam Stone Trilha Sonora: David Wingo Produção: Aaron Ryder, Lisa Maria Falcone, Sarah Green Duração: 135 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Everest Entertainment / FilmNation Entertainment

Cotação 4 estrelas