Fullmetal alchemist (2018)

Por André Dick

Dirigido por Fumihiko Sori a partir de um mangá de Hiromu Arakawa (que já ultrapassou a venda de 70 milhões de exemplares, além de ter animações para a TV), Fullmetal alchemist é uma produção totalmente japonesa com uma tentativa de avançar no terreno da fantasia cinematográfica. O filme inicia mostrando os irmãos Edward e Alphonse Elric, que moram com a mãe na cidade rural de Resembool. Depois da morte dela (e o enterro dialoga com a ambientação do terror Medo), eles tentam usar a alquimia para trazê-la de volta, mas um dos irmãos fica gravemente ferido, perdendo seu braço para salvar a alma do seu irmão, que é transposta para uma armadura medieval. Eles violam leis que envolvem a transmutação humana.
Anos depois, Edward (Ryosuke Yamada) quer recuperar o corpo do irmão (Atomu Mizuishi) por meio de uma procurada pedra filosofal e para isso tem a companhia de Winry Rockbell (Tsubasa Honda), que repara os estragos que costumam acontecer com seu braço e perna, e a ajuda do coronel Roy Mustang (Dean Fujioka), que faz parte de um grupo do Estado especializado em alquimia.

Logo em seguida a uma perseguição a Padre Cornello (Kenjirou Ishimaru), que pode ter uma pedra filosofal, ele terá de enfrentar uma trupe chamada de Homúnculos, composta por Lust (Yasuko Matsuyuki), Envy (Kanata Hongo) e Gluttony (Shinji Uchiyama), ao mesmo tempo que tem o auxílio do capitão Hughes (Ryuta Sato) e do professor Shou Tucker (Yo Oizumi). Em meio a tudo, ele tem experiências com o Portal da Verdade, à procura do corpo de seu irmão.
No início do filme, é bem mais fácil que o espectador acostumado às animações consiga encaixar melhor as informações passadas pelo diretor num ritmo rápido e de quem conversa diretamente com os fãs. Porém, com o desenrolar da narrativa, o espectador vai se acostumando às referências e ao imaginário enfocado. Se houve muitas reclamações em relação à adaptação de Death Note no ano passado, sobretudo pela mudança dos personagens para os Estados Unidos, sob a direção de Adam Wingard, talvez Fullmetal alchemist não passe pelo mesmo problema: não apenas pelos atores, pela linguagem e pelo visual entre uma época passada e futura, ele parece respeitar mais o original.

Fullmetal alchemist possui um visual interessante e efeitos especiais em CGI que não ficam a dever para uma produção do gênero norte-americana com orçamento muito maior. Filmado na Itália, possui belas paisagens naturais e um trabalho de figurino competente. Como no mangá e nos animes, há um certo envolvimento com os personagens e uma trama de mistério que conduz a algumas soluções interessantes, outras nem tanto. O design de produção mistura traços europeus e orientais, dialogando, em alguns momentos, com Mistérios de Lisboa, principalmente nas mansões campestres. A fotografia de Keiji Hashimoto conserva um aproveitamento de uma cor amarelada para imagens que remetem ao passado ou mais tranquilas (a cena do jantar) com uma cor mais natural (quando os personagens estão ao ar livre) e uma mais esbranquiçada ou soturna (quando a ação atravessa para outra dimensão ou implica o aparecimento de criaturas).

Percebe-se a inexperiência do diretor, no entanto há uma busca por uma fotografia que alia tecnologia e um universo rural, com referências visuais claras a obras como Prometheus e ao thriller de suspense A criada. Eu tenho muitas dúvidas quando há críticas pesadas a este tipo de filme, que traz um novo mercado para o gênero de fantasia, e críticas enaltecendo filmes que não possuem peso dramático mesmo quando procuram por isso. Fullmetal alchemist falha algumas vezes na transição de cenas, contudo procura uma conexão humana e personagens menos unidimensionais. O dilema de Eric querer encontrar o corpo do irmão e o que isso implica nas suas ações é bem trabalhado, mesmo que a atuação de Yamada não seja a melhor possível e a personagem de Winry seja subaproveitada. A crítica norte-americana não vai tecer muitos elogios porque significa outro mercado surgindo para competir com o cinema de Hollywood. De qualquer modo, ficando no plano da diversão de qualidade, esta obra de Sori traz elementos muito interessantes.

鋼の錬金術師, JAP, 2018 Diretor: Fumihiko Sori Elenco: Ryosuke Yamada, Tsubasa Honda, Dean Fujioka, Ryuta Sato, Jun Kunimura, Fumiyo Kohinata, Yasuko Matsuyuki Roteiro: Fumihiko Sori e Takeshi Miyamoto Trilha Sonora: Reiji Kitasato Fotografia: Keiji Hashimoto Produção: Yumihiko Yoshihara Duração: 135 min. Estúdio: Oxybot Inc., Square Enix Distribuidora: Warner Bros. Pictures/Netflix