Trilogia das Cores: A liberdade é azul (1993), A igualdade é branca (1994) e A fraternidade é vermelha (1994)

Por André Dick

Nos anos 1980, Krzysztof Kieslowski foi responsável por uma das obras mais respeitadas já feitas, o Decálogo. Exibido em alguns festivais, com 10 capítulos, dois deles viraram filmes independentes: Não matarás e Não amarás, consolidando o cineasta polonês como um dos mais importantes da história do cinema. Em seguida, entre 1993 e 1994, ele faria, a partir das cores da bandeira francesa, a Trilogia das Cores, com um trio de atrizes referencial: Irène Jacob (que havia trabalhado com ele A dupla vida de Véronique), Juliette Binoche e Julie Delpy (ambas presentes na obra-prima Sangue ruim, de Leos Carax, de 1986). Mais do que dialogar com “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, lema da Revolução Francesa, ou antecipar a franca decadência da Europa por uma crise existencial do indivíduo ou do que se entende como aproximação e distanciamento, a trilogia de Kieslowski corresponde a um mosaico de situações que não contêm o ritmo e o nervosismo de um Short Cuts, de Robert Altman, mas em sua lentidão programada consegue retomar ideias novas e uma nova forma de cinema, que influenciou bastante o cinema iraniano que passou a se destacar nos anos 90.

Em A liberdade é azul, o primeiro filme da trilogia, Julie de Courcy (Juliette Binoche) sofre um acidente, o mesmo em que seu marido Patrice, um músico reconhecido, e sua filha vêm a falecer. Sozinha na antiga casa da família, ela acaba passando uma noite com Olivier (Benoît Régent), companheiro de trabalho do marido, mas deseja se manter sozinha e afastada do mundo, indo morar num apartamento modesto, sem avisar para ninguém o seu paradeiro. Neste apartamento, a cena mais notável é quando ela precisa lidar com um rato que deu crias, o que a faz pedir um gato a seu vizinho. É um dos momentos mais notavelmente solitários do cinema. O mesmo se diz para sua amiga Lucille (Charlotte Véry), que trabalha como prostituta e stripper. Nadando nos horários de folga, ela tenta recompor sua vida com breves caminhadas pela rua. O maior conflito surgirá quando a sinfonia que estava sendo composta pelo marido poderá ser completada justamente por Olivier.

Em A igualdade é branca, o segundo filme, temos Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), um imigrante polonês que se casa com Dominique (Julie Delpy), uma francesa. A história tem início no tribunal, quando ambos estão pedindo a separação. Dominique tenta se livrar não apenas de Karol Karol, mas o impede de entrar na sua antiga moradia. Isso o deixa na rua, tendo de pedir ajuda a  Mikołaj (Janusz Gajos), um homem que conhece no metrô. De volta a Polônia, marcada pela unificação da Europa e pós-comunismo, num grande chiste de Kieslowski, ele passa a modificar totalmente sua vida. Seu objetivo é reconquistar Dominique, por meio da obtenção de ganhos para a construção de um grande negócio. Trata-se de um momento menos melancólico da trajetória de Kieslowski, com um certo humor involuntário, mas de qualidade. A igualdade é branca costuma ser visto como o ponto fraco da trilogia, mas pode-se dizer também que ele é o mais ligado a uma situação do cotidiano, menos incorporado numa certa metafísica que os outros dois possuem, com sua inter-relação entre pessoas enigmática e profundamente densa. Isso, no entanto, não o diminui, muito em razão da presença de Zamachowski,um excelente ator, e sua química com Julie Delpy.

Este segundo filme anuncia bem A fraternidade é vermelha, considerado o melhor da trilogia e possivelmente o mais tocante, embora haja o primeiro. Valentine Dussaut (Irène Jacob) é uma modelo que, em determinado dia, encontra um cão atropelado na rua e vai atrás de seu dono. Ela se depara com Joseph Kern (Jean-Louis Trintignant), um juiz aposentado, que parece esconder alguns segredos. O maior deles é ouvir conversas entre os vizinhos. Valentine tenta persuadi-lo a não fazer isso, e o ponto que o toca vai envolver a relação entre um casal. É difícil ver uma interação melhor, num filme, do que aquela que mostra Jacob com Trintignant, sobretudo numa conversa depois de um desfile num teatro vazio com as cadeiras vermelhas. Esses personagens parecem esquecidos pelo amor, mas o encontro os leva tanto para o passado quanto para o futuro – e Valentine perguntar sobre o sonho que teve Kern em relação a uma vida amorosa é absolutamente marcante. De qualquer modo, os elementos que realmente chamam a atenção, neste episódio de Kieslowski, sejam  a fotografia e o roteiro, indicados ao Oscars, assim como Kieslowski foi lembrado na categoria de diretor. A paleta de cores de Piotr Sobociński é bastante inesquecível neste filme, e o uso que ele faz das ambientações, alternando entre as mais claras e aquelas mais escuras (a casa de Kern) é decisiva para a concretização das ideias.

O conjunto visual reunido por Kieslowski em sua trilogia é um dos maiores momentos do cinema, acompanhado por uma trilha sonora arrebatadora de  Zbigniew Preisner. A garrafa-d’água em A fraternidade é vermelha, o torrão de açúcar branco dissolvendo no café em A liberdade é azul, assim como a predominância de cores em cada um: as joias azuis de A liberdade é azul, as flores, roupas, automóveis, cadeiras vermelhas em A fraternidade é vermelha; o espasmo e as lágrimas brancas de A igualdade é branca. Todas as cores, embora haja a predominância de cada uma no filme ao qual dá título, também se espalham ao longo da obra, criando uma unidade não apenas visual, como também temática. Kieslowski tem um grande talento tanto na observação desses personagens quanto na condução de cada um em um panorama mais amplo e confortador. A solidão é o mote principal para cada uma das histórias, desde Julie separada de uma ideia familiar, até Karol procurando, de forma isolada, retomar uma ideia de casamento, até a modelo Valentine, que se preocupa em passar a vida sem conhecer a pessoa amada. Todas as mulheres procuram no relacionamento o encontro consigo mesmas, mas também no isolamento, diante do fato de que são conduzidos a ele, um motivo para amadurecerem. Se em A igualdade é branca esta ideia parece se conjugar com uma boa dose de bom humor, não é menos impactante, sobretudo por seu final, em que o espasmo e as lágrimas podem significar a proximidade do sentimento pelo outro. Deve ser lembrada também a importância do telefone para a narrativa dos três filmes: os personagens estão quase sempre distantes uns dos outros, como Valentine em relação ao homem ao qual pede para que diga se a ama ou não, e o telefone busca esta aproximação, inclusive na possibilidade, em A liberdade é azul, de terminar uma sinfonia já iniciada ou, em A igualdade é branca, de se retomar um amor que pode não existir mais.

E Kieslowski certamente conseguiu o grande acerto para transformar a trilogia em algo de mais qualidade do que era esperado: mesmo que o elenco de atores seja talentoso em cada um dos capítulos, as atrizes selecionadas conseguem revitalizar cada parte da trama. Binoche já mostrava ser uma das maiores atrizes surgidas a partir dos anos 80, com uma atuação discreta e misturando força e insegurança com notável equilíbrio; Delpy, apesar de aparecer menos, mostra ser adequadamente um meio-termo para a vida de Karol; e Irène Jacob é a principal explicação para os enigmas de A fraternidade é vermelha, assim como em A dupla vida de Véronique: lamenta-se que seja a que não conseguiu estabelecer uma trajetória no cinema, embora se possa dizer que não possui a qualidade dramática de Binoche e Delpy. São essas atrizes, junto com elos simbólicos (como o da sinfonia do primeiro filme que dialoga com a unificação europeia abordada pelo segundo filme e finalmente o encontro desses personagens ao final do terceiro filme, numa situação em que a sobrevivência do amor também significa escapar a um desastre iminente), que transformam a Trilogia das Cores numa das obras mais inesquecíveis dos anos 1990 e da história do cinema.

Trois couleurs: bleu, FRA/POL/SUI, 1993 Diretor: Krzysztof Kieslowski Elenco: Juliette Binoche, Benoît Régent, Emmanuelle Riva, Florence Pernel Roteiro: Agnieszka Holland, Edward Zebrowski, Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz, Slawomir Idziak Fotografia: Slawomir Idziak Trilha Sonora: Zbigniew Preisner Produção: Marin Karmitz Duração: 100 min. Estúdio: Eurimages, France 3 Cinéma, Canal+ Estúdio: MK2 Diffusion (França), Miramax (EUA)

 

Trois couleurs: blanc, FRA/POL/Reino unido/SUI, 1994 Diretor: Krzysztof Kieslowski Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz Fotografia: Edward Klosinski Trilha Sonora: Zbigniew Preisner Produção: Marin Karmitz Duração: 91 min. Estúdio: France 3 Cinéma, Canal+ Estúdio: MK2 Diffusion (França), Miramax (EUA)

 

Trois couleurs: rouge, FRA/POL/SUI, 1994 Diretor: Krzysztof Kieslowski Elenco: Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz Fotografia: Piotr Sobocinski Trilha Sonora: Zbigniew Preisner Produção: Marin Karmitz Duração: 99 min. Estúdio: France 3 Cinéma, Canal+ Estúdio: MK2 Productions