John Wick – Um novo dia para matar (2017)

Por André Dick

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Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. A crítica e o público o elegeram como um destaque, fazendo com que houvesse logo essa continuação. John Wick – Um novo dia para matar já começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história.
Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão e a ajuda de Aurelio (John Leguizamo), para arrumar seu carro, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro de Derek Kolstad tem a qualidade de apresentar os personagens com agilidade e, mesmo que não saibamos muito sobre eles, as principais características estão desenhadas e se pode focá-las com evidência.

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Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, onde o primeiro filme tinha cenas substanciais, lembra a Wick que ele não pode rejeitar o medalhão, pois senão estará colocando em risco sua figura no submundo. D’Antonio quer que Wick mate sua irmã Gianna (Claudia Gerini), em Roma, para que possa ingressar numa espécie de alto conselho da criminalidade. Ares (Ruby Rose) é uma guarda-costas de D’Antonio que segue o assassino profissional, e Cassian (Common) também segue em seu encalço, sem a princípio o espectador entender o motivo. Gianna é uma das personagens mais marcantes num filme de ação, apesar da breve presença, porque parece retratar todo o mistério desse submundo que persegue o personagem central, do qual ele não consegue se desvencilhar em nenhum momento, precisando estar sempre preparado para o combate. Gerini contribui com uma cena verdadeiramente impactante.
Desta vez, o diretor Chad Stahelski mostra um personagem envolvente e cenas de ação que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Wong Kar-Wai ou um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta (e Refn de certo modo já fez uma de forma mais simbólica, Apenas Deus perdoa, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons). E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick – Um novo dia para matar parece envolver mais bom humor embutido na tragédia.

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Desde o início, quando o personagem sai com seu carro capenga do confronto com os inimigos, isso fica bastante claro, mas se acentua ainda mais na ida para Roma, onde vira uma espécie de perseguido pelas ruas. Há algo de engraçado e trágico, ao mesmo tempo, na figura do personagem central, e Keanu Reeves consegue desenvolvê-lo com rara perspicácia. As cenas são coreografadas de maneira espetacular e talvez aqui estejam algumas das melhores cenas de embate filmadas neste século.
O primeiro filme ficou conhecido como aquele em que um homem se vingava daqueles que mataram seu cão, e aqui John Wick parece estar mais associado a uma espécie de linhagem da qual não consegue se livrar e, ao contrário do original, cada cena segue outra com grande naturalidade.
E, naturalmente, surge uma aproximação com James Bond num encontro num museu de Wick com D’Agostino, que remete a uma conversa entre o agente inglês e Q (Ben Widshaw) em 007 – Operação Skyfall. Com isso, há uma tentativa de tornar o personagem praticamente invencível, uma espécie de Matrix.

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Não são poucas vezes que se lembra da trilogia das hoje irmãs Wachowski, não apenas porque Reeves está à frente em cada cena, e sim porque o jogo que se desenha por trás de sua presença perturbadora é bastante focada numa mitologia, embora aqui, claro, mais real, em locações de Roma. Também há uma longa sequência numa estação de trem que recorda tanto elementos de Brian De Palma em O pagamento final e Um tiro na noite, como, exatamente, Neo em Matrix reloaded e Matrix revolutions, quando ficava preso entre mundos diferentes.
Nisso, há uma espécie de lembrança da saga O poderoso chefão, com seu punhado de personagens envolvidos em tragédias passadas em escadarias. É natural, ao longo da narrativa, o jogo de espelhos do filme, pelo visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que trabalhou para Del Toro no fantástico A colina escarlate), e pela maneira que o próprio personagem se vê, sempre preso dentro de si mesmo, do seu próprio labirinto. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Isso é um dos mistérios de John Wick e, pelo que se percebe, com sua recepção, dessa franquia.

John Wick – Chapter 2, EUA, 2017 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Common, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, John Leguizamo, Ian McShane, Bridget Moynahan, Lance Reddick, Thomas Sadoski, David Patrick Kelly, Peter Stormare Roteiro: Derek Kolstad Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Joel J. Richard, Tyler Bates Produção: Basil Iwanyk Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / PalmStar Media / Thunder Road Pictures

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Livre (2014)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor canadense Jean-Marc Vallée teve grande sucesso com seu filme Clube de compras Dallas, bem aceito pelo público e pela Academia de Hollywood, recebendo três Oscars, inclusive os de ator (McConaughey) e ator coadjuvante (Jared Leto). Em Livre, ele mostra as memórias de Cheryl Strayed, interpretada por Reese Whiterspoon, que decide sair em viagem pelos Estados Unidos, passando por paisagens desertas, estradas sem nenhum movimento, estabelecimentos quase abandonados: essa viagem era feita pelos beatniks nos anos 60, sobretudo partindo de San Francisco, mas Cheryl está mais interessada em rever e refletir sua vida até então.
Whiterspoon havia desaparecido das premiações desde o excelente Johnny & June, pelo qual havia ganho o Oscar de melhor atriz. Depois de sua imagem ter ficado colada a Legalmente loira, ela foi perdendo a referência de atriz indie, conquistada com muito esforço no curioso A vida em preto e branco, no ótimo Eleição e na vingança pop baseada em Ligações perigosas, Segundas intenções. Aqui ela tenta, como nos recentes Amor bandido e Sem evidências, uma espécie de regresso àquela época em que era um rosto do cinema independente, fazendo um papel muito mais físico e talvez mais difícil. Ainda assim, algo de sua empatia – que seria essencial para Livre – acabou se perdendo; ela parece de fato uma atriz que não consegue transpor para as telas o drama existencial do papel.

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Desde o início, com a personagem caindo na estrada, o filme tem uma atmosfera que remete a uma das obras mais melancólicas deste século, Na natureza selvagem, de Sean Penn. No entanto, logo se percebe que a obra de Vallée não procura exatamente o mesmo que a de Penn: Cheryl não está em viagem para exatamente fugir dos preceitos e exigências sociais; ela viaja para esquecer seu próprio passado, em que há um risco moral permanente por causa de suas escolhas. Vallée vai introjetando, a cada sequência de Livre, flashbacks da vida anterior de Cheryl. Esta escolha, sendo consciente, pois costura toda a narrativa, parece ser o que atrai o interesse para o material adaptado pelo escritor Nick Hornby das memórias de Cheryl. Como os escritos de Hornby, a personagem terá contato com poemas de Emily Dickinson e outras leituras. Mas Cheryl é uma personagem, mais do que o de Chris McCandless, em Na natureza selvagem, permanentemente solitária – e o espectador, convidado a participar de sua viagem, em nenhum momento parece se sentir próximo a ela.
Livre é uma espécie de filme-conceito em que a liberdade é representada por ficar presa a lembranças permanentes, que perseguem a personagem principal de maneira contínua, não havendo respiros para o espectador. Nesse sentido, o diretor adota uma montagem arriscada: enquanto acompanhamos a viagem de Cheryl, na verdade pouco interessa nela, pois tudo se concentra em flashes do passado. Com isso, o filme, numa espécie de montanha-russa da montagem, vai e vem no tempo sem nunca estar exatamente em algum lugar – e, apesar de Vallée imaginar que isso traria originalidade, acaba por arrastá-lo a um beco sem saída. Ou seja, as paisagens imensas e o ar livre, a atmosfera de liberdade, de contato com os animais e a natureza, representa, na verdade, uma imersão no que a personagem considera sua melancolia: a vida familiar e o apego à mãe (Laura Dern, uma excelente atriz prejudicada pela montagem e incluída no Oscar desta vez de modo injusto, quando havia Jessica Chastain em O ano mais violento). Tudo o que significa sua liberdade desse contexto remete a livros lidos à luz de velas, e é para isso que serve a literatura, afinal, segundo Hornby e Vallée: para que o contato com a natureza se materialize numa estética.

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Desse modo, Livre acaba sendo quase todo uma viagem de estética: de estética para vermos as paisagens fotografadas quanto para acompanharmos o esforço físico da personagem. Mas nunca estamos de fato com os pensamentos nela; há algo nesses pensamentos um tanto desgovernados e um incapazes de prender a atenção do espectador, levado a navegar entre vários até que todos desapareçam finalmente. Livre acaba trazendo um cansaço que, longe de ser o mesmo da viagem que retrata, é desanimador de algum modo, pois entende-se que a personagem está em permanente infelicidade sem sabermos exatamente o que a levou a tal condição, até que vamos montando as peças. Essas se mostram, enfim, bastante previsíveis, como se Vallée quisesse deixar sofisticado um drama, apesar de comovente, bastante simples – e esta simplicidade faria bem à narrativa. Ou seja, parece um filme que foi definido na sala de montagem, e o diretor quis fazer algo diferente (além de extremamente longo). Além disso, a personagem, de fato, quer conviver com sua solidão, e o espectador, ao acompanhá-la, parece na verdade importuná-la. Os únicos momentos em que o espectador se sente mais próximo é quando Cheryl se interessa em conversar com seres humanos, pois é justamente esses que a levam nessa jornada. No entanto, como ela constantemente presa ao passado e às ausências que ele proporciona, é como se não nos interessássemos também pelo presente que ela vivencia. Para Hornby, assim, a natureza não traria nenhuma saída, e com isso o sentimento é de dupla tristeza, pela personagem e pela narrativa. No entanto, Livre é, acima de tudo, um filme que depende muito da simpatia que o espectador tem pela personagem: Witherspoon, apesar de tentar um papel difícil, particularmente, não parece a escolha adequada. Era preciso uma atriz que trouxesse mais dor real ao personagem e uma mistura de sensações. A única sensação é de que o espectador não se sente livre ao vê-la se perder nessas paisagens, ou seja, nos últimos anos, Whiterspoon, exceto em Sem evidências e no recente Vício inerente, pelo qual, este sim, poderia ter sido lembrada pelo Oscar, não consegue passar uma variedade de conflitos. O olhar dela é sempre o mesmo do início, e nisso Vallée acaba perdendo boa parte de sua história.

Wild, EUA, 2014 Diretor: Jean-Marc Vallée Elenco: Reese Witherspoon, Michael Huisman, Gaby Hoffmann, Laura Dern, Thomas Sadoski, Kevin Rankin, Brian Van Holt, Charles Baker, W. Earl Brown, Cliff De Young Roteiro: Cheryl Strayed, Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Produção: Bruna Papandrea, Reese Witherspoon Duração: 116 min. Distribuidora: Fox filmes Estúdio: Fox Searchlight Pictures

Cotação 2 estrelas