Killer Joe – Matador de aluguel (2012)

Por André Dick

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Desde o ano passado, Killer Joe vem se destacando como o filme que marca a volta de William Friedkin ao cinema. Diretor que recebeu o reconhecimento principalmente na década de 70, com Operação França e O exorcista, ele é visto como um daqueles que se mantiveram à margem, depois da Nova Hollywood. Por isso, é sempre importante destacar sua importância no cenário. E Killer Joe, adaptado da peça de Tyler Bates, é um filme com a atmosfera e o estilo que sempre se fizeram presentes em seus filmes, com a diferença de soar inevitavelmente mais contemporâneo, trazendo elementos de diretores como Tarantino e David Fincher. Não que Friedkin fosse um diretor asséptico, mas é visível que sua mistura visual tem elementos do diretor de Pulp Fiction – sobretudo de Cães de aluguel –, com a violência de alguns filmes de Fincher (especificamente O quarto do pânico e Clube da luta) e dialoga com outro realizado no mesmo ano, Drive, de Nicolas Refn. Refn, Fincher e Tarantino também podem ter se baseado em Friedkin, mas o fato é que Killer Joe apresenta uma carga dramática e sonora que bebe do cinema feito nos últimos 20 anos, do qual Friedkin esteve, infelizmente, quase ausente, com a exceção de poucos projetos.
Há duas maneiras de entendê-lo: uma é visualizar que todos os personagens situados nele são alegorias; a outra é ignorar a violência que há por trás de ações e palavras para entender os motivos de Friedkin em intensificá-la. Em muitos momentos do filme (possíveis spoilers a partir daqui), é visível a necessidade de Friedkin em se utilizar de uma fotografia bela (os personagens estão, recorrentemente, embaixo de um céu azul) de Caleb Deschanel, com a claridade de cenários, e também de apresentar cenários soturnos, à beira da estrada ou simplesmente sujos e cobertos de lama. O personagem de Joe Cooper (Matthew McConaughey), um policial procurado por Chris Smith (Emile Hirsch) para matar a própria mãe, é esta alegoria exata do cenário. Com um chapéu de caubói, ele transita como se fosse uma espécie de criminoso dentro da polícia, realizando serviços que ninguém sabe, mesmo porque ele pode investigar o crime que cometeu. Sem dinheiro para pagar uma dívida, Chris precisa convence o pai, Ansel (Thomas Haden Church), que a mãe precisa ser morta para que se obtenha um dinheiro e que Joe, para realizá-lo, possa ter relações com sua irmã ainda menor de idade, Dottie (Juno Temple). Sempre bem arrumado e cuidadoso com os gestos, ele pretende ser o primeiro homem dela. Esta espécie de Lolita controversa é o único indício de pureza do filme de Friedkin e o interesse do diretor é sempre contrapô-la tanto ao pai quanto ao irmão e à madastra, Sharla (Gina Gershon).

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Friedkin, apesar do domínio que tem sobre os cenários e a atmosfera, e mesmo apresentando boas sequências, em meio a uma montagem ágil, não desenha esses personagens além da alegoria, tanto é que ela e Joe desaparecem um bom tempo da narrativa e seu impasse não é articulado. Se a trama que mostra o interesse de Chris em dar cabo de sua mãe supera o dilema de Antes que o diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet (um filme, aliás, superior), Killer Joe não consegue estabelecer, de maneira desenvolta, os seus exageros.
Chris está sendo perseguido porque deve um dinheiro a agiotas. O pai está sempre ausente, não se envolvendo em nenhuma questão, e a irmã é apenas um motivo para que eles possam ganhar uma oportunidade de receber um dinheiro. Desse modo, Friedkin quer tratar de uma espécie de inferno e purgatório na Terra. A família que ele mostra dificilmente consegue carregar valores e a bandeira dos Estados Unidos colocada em frente ao trailer onde ela mora, assim como o crucifixo na parede, leva a crer que o Estado e a religião não conseguem atenuar essa violência familiar. Nisso, os cenários são sempre recorrentes a ambientes que seriam, para o diretor, a representação disso. Se pai e filho saem para conversar, eles vão para uma boate de striptease; se o jovem precisa de dinheiro, ele vai apostar em cavalos e tentar vender drogas; e se na TV aparecem Bruce Lee lutando e desenhos animados brigando, é preciso desligá-la para implementar a violência de verdade. Se um cachorro late, à noite, embaixo de uma tempestade, que não cessa, significa algo pior ainda: que todos ali condenados.
Não fica bem claro, a partir desses elementos remotamente desgastados, o que Friedkin gostaria de apresentar, pelo menos até os 20 minutos finais, quando, na verdade, Killer Joe, numa espécie de encenação teatral perversa, levada a um realismo minucioso, no comportamento um tanto obsessivo dos personagens em chamarem a atenção para o que estão querendo significar, se mostra de forma mais aberta e compreensível.

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Friedkin reverte o que havia apresentado numa estética situada no desespero dos personagens e no isolamento a que eles se propõem por obrigação. É uma espécie de encantamento pela tristeza em ritmo de humor exagerado, que Lumet consegue elucidar, no seu filme citado anteriormente, de maneira mais eficiente. Há, como consequência, uma espécie de fetiche pelo próprio discurso que se tenta atacar: para Friedkin, a família, em Killer Joe, representa apenas uma pressão e isolamento, e todos nela, se não tentarem fugir, estão fadados a enfrentar o pior. Para cada traição, por sexo e dinheiro, deve estar reservada uma loucura de alguém que pode tentar implementar a normalidade à base da força, mas esta, na verdade, se revela um tanto irreal.
Nesse sentido, Killer Joe, em sua tentativa de desestruturar o moralismo, acaba sendo, em certa medida, problemático, tanto pela personificação unidimensional dos personagens (eles estão na trama apenas para cumprir um significado externo ao que se desenrola, do diretor) quanto na sua ultraviolência como modo de apaziguar as coisas ou centralizá-las no meio do caos. Os personagens, sem exceção – ao contrário dos filmes de Tarantino e Fincher –, estão procurando não ver a própria entrega nem se resolver, o que repercute nos personagens e atores. Como Chris, Emile Hirsh (que fez o bom Na natureza selvagem) tem uma performance deliberadamente exagerada até o último ponto, esboçando trejeitos – e sua presença em cena soa cansativa –, embora McConaughey, com sua super-representação, e mesmo coragem para algumas cenas mais delicadas, tenha realmente uma desenvoltura melhor, sobretudo àquela já apresentada em outros filmes, e Thomas Haden Church seja sempre um ator expressivo (mesmo quando precisa ser o contrário, como aqui), além de Juno Temple compor um papel difícil. Há quem entenda o filme, inclusive mesmo como possuidor de laivos de comédia. Isso é possível, mas não parecem laivos combinados com suas premissas semiescondidas por Friedkin até o último momento.
Há uma bela cena em que o jovem Chris deve caminhar com sua irmã nos trilhos – o único momento em que ele caminha nos trilhos – depois de gritar desaforos contra o Texas, para ele a terra de ninguém onde mora, e sua tristeza está ligada, sem dúvida, ao desfecho da noite anterior, quando, afinal, sabe que nada almeja a tranquilidade e a serenidade. E, antes do final, inevitavelmente, parece que mesmo Friedkin quer se livrar de Killer Joe.

Killer Joe, EUA, 2011 Diretor: William Friedkin Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon Produção: Nicolas Chartier, Scott Einbinder Roteiro: Tracy Letts Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Tyler Bates Duração: 102 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Voltage Pictures / Worldview Entertainment / ANA Media

Cotação 2 estrelas e meia