Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

Aniquilação (2018)

Por André Dick

Alguns anos atrás, Alex Garland surgiu à frente da direção de Ex Machina, ficção científica bastante cultuada e premiada com um (inexplicável) Oscar de efeitos visuais. Ele regressa em Aniquilação, desta vez uma produção conturbada, que a Paramount não quis lançar nos cinemas mundialmente (nos Estados Unidos, chegou a estrear na rede) e estabeleceu parceria com a Netflix para que isso acontecesse.
Uma professora de biologia celular da Universidade Johns Hopkins, Lena (Natalie Portman), é recrutada pelo governo dos EUA para visitar uma determinada área X, onde se encontra o que se chama de “O brilho”, uma redoma com cores psicodélicas que cerca um determinado espaço, a partir de um farol da costa, de onde nenhuma equipe militar volta. Lena é casada com Kane (Oscar Isaac), que participou de uma dessas missões, e é recrutada também por ter sido uma militar. Ela parte numa peregrinação com a psicóloga Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh), a física Josie Radeck (Tessa Thompson), a geomorfologista Cass Sheppard (Tuva Novotny) e a paramédica Anya Thorensen (Gina Rodriguez). Enquanto isso, no presente, a personagem central é interrogada por um cientista (Benedict Wong).

Garland cria uma atmosfera muito interessante na primeira meia hora da narrativa, com ecos claros de A chegada (inclusive com o mesmo uniforme laranja) e Stalker (de Tarkovsky), mas inegável interesse particular, com idas e vindas no tempo. As personagens também interessam, a começar por Lena, numa bela atuação, mais uma vez, de Portman. Há uma sequência envolvendo um crocodilo mutante que demarca a qualidade até então do filme. No entanto, a história precisa ser desenvolvida e, como em Ex Machina, é aqui que Garland se perde um pouco. Baseado em obra de Jeff VanderMeer (que não li), a trama não apresenta muitas novidades além daquelas que vemos num gênero. De maneira geral, Garland tem certo interesse pela influência da tecnologia na vida do ser humano, e as implicações que ela traz para a sobrevivência de quem realmente somos. Se em Ex Machina ele visualizava isso de maneira sob certo ponto de vista pessimista, não o é muito diferente em Aniquilação: para ele, as falhas da humanidade se voltam contra ela.
Em termos visuais, as influências são claras quando a violência se intensifica, remetendo a momentos de Jurassic Park e O enigma de outro mundo. É estranho Aniquilação ser tão bem recebido por um público e crítica tão avessos a Alien: Covenant, muito mais impactante e com estilo e temática arriscada. E os efeitos visuais… se começam bem (exceção feita à redoma de “O brilho”), aqueles do terceiro ato desviam o espectador da narrativa de tão mal elaborados. Uma pena que, neste caso, a Paramount pareça ter estabelecido uma qualidade de filme B, sobretudo para seu desfecho, capaz de desinteressar mesmo quem estava gostando da premissa.

Além disso, os personagens, se pareciam interessantes, principalmente a de Dra. Ventress (por causa do desempenho competente de Jason Leigh), apenas se reduzem a figuras cercadas por um mistério. Do mesmo modo, mesmo que isso na verdade não importe tanto numa mescla entre fantasia, terror e ficção científica, a função de cada integrante na equipe não fica esclarecida, parecendo que suas escolhas são aleatórias, e em determinado momento se percebe que isso joga contra o roteiro adaptado por Garland. Como grande atriz que é Portman, vinda de dois filmes excepcionais de Terrence Malick e de uma atuação irretocável em Jackie (que deveria ter lhe rendido o segundo Oscar de melhor atriz, depois de Cisne negro) oferece credibilidade a cada cena, assim como Isaac (presente na obra anterior de Garland) cria impacto nas poucas cenas em que aparece, no entanto a sensação ao final é de ter se visto um remake de O predador (em especial a segunda versão lançada na década passada, com Adrien Brody) e não muito bem solucionado. Pelo filme de estreia e este subsequente, não parece haver dúvida de que Garland é bastante estimado pela crítica; só ela poderia alçar esse trabalho a um status de cult, quando fez uma severa avaliação há menos de um mês uma ficção científica substancialmente superior da Netflix (Mudo).

Annihilation, EUA/Reino Unido, 2018 Diretor: Alex Garland Elenco: Natalie Portman, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny, Oscar Isaac Roteiro: Alex Garland Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Ben Salisbury e Geoff Barrow Produção: Scott Rudin, Andrew Macdonald, Allon Reich, Eli Bush Duração: 115 min. Estúdio: Skydance Media, DNA Films, Scott Rudin Productions Distribuidora: Paramount Pictures (América do Norte e China) e Netflix (International)

Thor: Ragnarok (2017)

Por André Dick

O terceiro filme da Marvel/Disney este ano, depois de Guardiões da galáxia Vol. 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar, traz de volta o personagem Thor, o Deus do Trovão, tendo atrás das câmeras Taika Waititi. Se o humor e a ação funcionavam realmente nesses dois filmes, a expectativa era que funcionasse ainda mais no principal (pelo menos em termos de chamariz) deles. O diretor se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade. Em seguida, ele fez Hunt for the wilderpeople, conhecido no Brasil como A incrível aventura de Rick Baker ou Fuga para a liberdade. Se O que fazemos nas sombras tinha uma produção modesta, o segundo possuía uma fotografia extraordinária, com uma sucessão de gags interessante em meio a um drama familiar, influenciado por Wes Anderson, a mesma referência em Loucos por nada, filme de Waititi de uma década atrás.

Thor: Ragnarok, pelos prognósticos, se tornaria aquilo que impediram Homem-Formiga de ser: um filme autoral, por causa justamente de Waititi. Ele mostra Thor (Chris Hemsworth) precisando salvar Asgard de uma nova e terrível ameaça, Hela (Cate Blanchett). Ao lado do irmão, Loki (Tom Hiddleston), ele tem um breve encontro com outro personagem conhecido da Marvel, antes de se depararem com o pai, Odin (Anthony Hopkins). Thor vai parar no planeta de Sakaar, onde vira prisioneiro de Valquíria (Tessa Thompson), sempre uma dose etílica acima do esperado, que o entrega ao Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Esta parte do filme é a que melhor funciona, com Taika Waititi apresentando diálogos ágeis e situações cômicas no ponto exato, brincando com a cultura nórdica e a mitologia de Asgard (além da participação especialíssima, e engraçada, de um ator conhecido na reprodução de uma peça teatral), e tanto Hemsworth quanto Goldblum se destacam, além de Thompson valer cada cena em que aparece.
Em 2011, Thor teve uma transposição assinada por Kenneth Branagh, mais conhecido por suas adaptações para o cinema de obras de Shakespeare. Era este justamente o diferencial dessa produção: o herói dos quadrinhos tem, em grande parte, uma profusão de diálogos que lembram uma peça de teatro, mas sem cair no forçado ou pretensioso. Branagh mesclava a comédia com drama nos pontos certos, principalmente quando o herói cai numa cidade do deserto do Novo México, encontrando um grupo de cientistas, liderado por Jane Foster (Natalie Portman), ajudada por Darcy Lewis (Kat Dennings) e pelo Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), ausentes dessa continuação.

Havia sequências bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida numa lanchonete ou as pessoas desconfiadas de seu figurino. A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) misturava o tom do deserto com a profusão de cores de Asgard, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte multicolorida, com as galáxias ao fundo. Estranhamente, este filme de Branagh foi rechaçado em geral pelo público e recebido com certa indiferença pela crítica. Mais ainda: entende-se que ele não teria o bom humor agora utilizado.
Talvez porque Waititi esteja com mais nome do que Branagh se tenha criado o fato de que Thor: Ragnarok em algum momento está à altura de uma sátira à space opera como sua principal influência, Flash Gordon, dos anos 80, e que seu visual traga algo de espetacular. “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, um diálogo com a trilha do Queen para a obra de Mike Hodges, funciona, assim como as cores são fiéis aos quadrinhos, com o auxílio da fotografia de Javier Aguirresarobe. Porém, não há comparação no resultado. Mesmo o segundo filme, Thor – O mundo sombrio, possuía um design de produção mais interessante, assim como um humor bem explorado no seu ato final. Aqui, Waititi se concentra muito em objetos com superfície real e amontoados de coisas que lembram restos de sucata, por causa do planeta que serve de locação principal. Para quem fez filmes com direção de arte irretocável como Hunt for the wilderpeole e Loucos por nada, poderia ser melhor. O figurino se sente criativo, mas leve demais e com pouca diversidade, assim como as batalhas de naves se assemelham em demasia às do segundo filme para ter uma real distinção e todo o arsenal de raios de luz se sente um pouco exagerado, mesmo sendo esta a finalidade, quando, na verdade, o roteiro funciona melhor em sua simplicidade: um dos personagens se comparar a Tony Stark é uma boa referência ao restante do universo e não se sente ultrajante, e uma torcida desfilando pelas ruas de Sakaar com cartazes de um determinado super-herói é suficientemente criativo.

Além disso, Waititi interrompe dois atos de comédia leve e calibrada, sua especialidade, e repassa suas cargas para um filme previsível de ação (com montagem confusa), tentando dar dramaticidade para a qual não havia despertado anteriormente. É difícil, mesmo que seja esta a pretensão, adentrar no drama depois de dois atos dedicados, de forma promissora, a uma sucessão de sequências divertidas e diálogos com duplo sentido (e a verve de Hemsworth já foi provada nas refilmagens de Férias frustradas e Caça-fantasmas). A graça da narrativa era justamente desconsiderar a pompa shakesperiana oferecida por Branagh, mesmo com bom humor em determinados trechos, e fazer uma sátira espacial. O roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost insere o personagem de Bruce Banner (Mark Ruffalo) e, consequentemente, de Hulk de forma desajeitada. Funciona num primeiro momento, mas no final se sente vazio, como se fosse apenas um espaço para um personagem que não aparecia desde Os vingadores – Era de Ultron. Cate Blanchett tem um ótimo início e seu papel dá a entender que teremos uma vilã inesquecível, junto com o comandado Skurge (Karl Urban). No entanto, algo se perde, e as cenas de ambos se tornam muito distantes do restante da história. Thor: Ragnarok sofre um conflito inevitável, que leva a um impasse capaz de transformá-lo no que não era em seus dois primeiros atos, pela tentativa de Waititi em explorar novas nuances desse universo: uma obra até determinado ponto comum.

Thor: Ragnarok, EUA, 2017 Diretor: Taika Waititi Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Cristopher Yost Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Kevin Feige Duração: 130 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Creed – Nascido para lutar (2015)

Por André Dick

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Sequências e refilmagens têm se proliferado em Hollywood há décadas, e nos últimos anos não é diferente. Enquanto há obras que conseguem trazer acréscimos ou mesmo renovar a versão antiga, há aquelas que se mostram mais pendentes a ter como objetivo uma homenagem ao elenco e ao diretor da franquia. Diante disso, nem toda a expectativa diante do filme poderia indicar o resultado emocional que Creed – Nascido para lutar proporciona, mas, sobretudo, para quem é admirador da série Rocky (mesmo daqueles filmes considerados mais pop, embora o quinto tenha deixado especialmente a desejar). Para esta continuação indireta da série, pois muda o protagonista, Stallone convocou Ryan Coogler, o diretor do belo Fruitvale Station, sobre um acontecimento trágico num metrô de Nova York. Já naquele filme, a competência de Coogler na condução de uma narrativa curta se mostrava com grande relevância, assim como a empatia do seu protagonista, interpretado por Michael B. Jordan, que regressa aqui como Adonis, um rapaz que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa de seu pai, Mary Anne (Phylicia Rashad), já que ele é filho de um caso extraconjugal.

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É uma semelhança importante com Fruitvale Station, no sentido de que o personagem inicia numa situação difícil; porém, a partir da adoção, a vida de Adonis se transforma. Trabalhando já adulto numa empresa, seu maior desejo é ter uma carreira de pugilista, tendo lutas escondidas em Tijuana, México. Também não quer ser associado à figura do pai, a fim de não receber favores indesejados. Ele decide se mudar de Los Angeles para a Filadélfia, atrás da figura de Rocky Balboa.
Se lhe dissessem que uma continuação para a história de Rocky mostraria o filho de Apollo Creed, talvez você imaginasse apenas um motivo para caça-níqueis, mas não com Jordan e Coogler, e um Stallone no auge de sua trajetória. Difícil imaginar que Stallone não tenha seu momento dramático mais intenso, mesmo em comparação com seus filmes anteriores da série, principalmente o primeiro, Rocky II e o ótimo Rocky Balboa. Ele está realmente excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa de treinar o filho de seu melhor amigo e que o recuperou para a carreira depois da morte de Mickey em Rocky III. As nuances que Stallone entrega para seu personagem contrastam, por exemplo, de Rocky Balboa, em que ele se mostrava mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; aqui ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino – e também Stallone se dissocia, pelo menos no título, de uma de suas séries favoritas, ao lado de Rambo. Vejamos apenas as cenas mais discretas do personagem, como aquelas em que ele divide o espelho da academia com Creed para ensinar os golpes ou quando ele, numa situação delicada, precisa apoiar o jovem treinado a continuar na sua trajetória. Stallone parece, por meio do filme, ter consciência do legado desse personagem não apenas para sua trajetória (independente de se gostar ou não dele, de respeito) como da própria história do cinema.

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No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca, que é conquistada por Creed. Há uma humanidade em ambos os personagens que poucas vezes vimos nesse tipo de história, tanto pela presença de Jordan como de Thompson. É certo que o romance entre eles remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca, embora numa participação talvez não tão merecedora do que deveria ganhar, é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire. Em termos de roteiro, ambos conseguem traduzir as falas de maneira fluente, sendo o primeiro filme da série não roteirizado por Stallone, e sim por Coogler e Aaron Covington.
Se há uma queda na narrativa, ela acontece um pouco entre o segundo e o terceiro atos, mas Coogler traz uma hora final emotiva, com um poder muito grande de estabelecer a ligação emocional entre os personagens, e Stallone mais uma vez se destaca: a sua figura envelhecida e sábia é como se fosse o retrato de Mickey mais uma vez à tona. Contudo, em se tratando de uma visão de sabedoria, é Coogler que estabelece uma relação entre a Filadélfia dos anos 70 e dos anos 2010, não apenas pela atmosfera, como também pela trilha sonora. Coogler consegue captar um movimento de transformação do bairro, já antecipado por Stallone em seu belo Rocky Balboa de 2006.

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Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores. Também não há nenhum material que deseje se aproximar de um Touro indomável, no tom ou maneira de se filmar (levando em conta que Scorsese inovou na maneira de captação das lutas). A referência, no universo do boxe, é realmente a série Rocky, da qual o diretor se teria dito fã a Stallone antes de colocar o projeto em prática. E, sem dúvida, há um contato direto com a obra original de Stallone, vencedor merecido do Globo de Ouro de coadjuvante (e, espera-se, também do Oscar). Quando a figura de Adonis se mescla com a de Apollo e com a de Rocky, sabemos que Coogler acerta em cheio no drama e na preferência de quem sempre gostou desses personagens. Creed se sente, desse modo, como uma continuidade de algo importante, mas também como algo independente, com seus próprios contornos e motivos. B. Jordan, nos minutos finais, assim como o filme de Coogler, é digno de premiações.

Creed, EUA, 2015 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Graham McTavish, Madeira Harris, Andre Ward, Gabe Rosado Roteiro: Aaron Covington, Ryan Coogler Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: David Winkler, Irwin Winkler, Kevin King Templeton, Robert Chartoff, Sylvester Stallone, William Chartoff Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas