Até o último homem (2016)

Por André Dick

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Depois de 10 anos ausente da direção, ou seja, desde o impactante Apocalypto, Mel Gibson regressa ao posto com este filme de guerra. Para um astro que recebeu o Oscar de diretor em sua segunda obra, Coração valente, ter quase desaparecido do meio cinematográfico, cercado de polêmicas, não deve ter sido exatamente fácil. E esta volta surge com um filme bem orçado em 40 milhões que vem conseguindo uma bilheteria boa para seus padrões de exigência e êxito em indicações a prêmios importantes, como o Oscar.
Em Até o último homem, ele mostra a trajetória de Desmond Doss (Andrew Garfield), que cresce em Lynchburh, Virginia, e se torna seguidor do Antigo Testamento após passar por algumas experiências em família. Doss salva um homem ferido e, no hospital, acaba se apaixonando por Dorothy Schutte (Teresa Palmer). No entanto, assim como seu irmão, Hal (Nathaniel Buzolic), ele se alista para Segunda Guerra Mundial. A memória que ele tem do irmão é talvez a parte mais comovente da história, principalmente quando lembra dos passeios pelas montanhas da região. Isso vai contra seu pai, Tom (Hugo Weaving, excelente), um veterano da Primeira Guerra Mundial, ainda atormentado, enquanto sua mãe Bertha (Rachel Griffiths) apenas não quer se envolver em conflitos.

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Doss, porém, deseja atuar como médico na guerra. Indo para o treinamento, ele conhece o sargento Howell (Vince Vaughn) e o Capitão Glover (Sam Worthington), que não conseguem convencê-lo a treinar com armas como os demais de seu pelotão. Este é o mote para Mel Gibson mostrá-lo como um homem que resiste às intempéries. Esta parte do treinamento lembra bastante Nascido para matar, com Vince Vaugh atuando bem como uma espécie de R. Lee Ermey, mas é Teresa Palmer, como o interesse amoroso do personagem central, que é o elo de ligação dele com a possível volta da guerra e o faz com a tranquilidade que ela exibe em obras como Cavaleiro de copas e Quando as luzes se apagam. Todos esses personagens que cercam Desmond parecem falar mais dele do que de si próprios: eles querem ou aceitar a maneira do jovem agir, no caso de sua namorada, ou modificar os seus conceitos sobre a vida. Ele não é simplesmente um deslocado, como Mel Gibson gostaria de interpretar, a exemplo de personagens de sua carreira, como Martin Riggs ou Mad Max, e sim alguém pronto para provar que sua visão sobre a vida deve ser respeitada. Andrew Garfield, depois de uma trajetória exitosa iniciada principalmente a partir de A rede social, já interpretou o Homem-Aranha em um momento irregular do personagem e aqui apresenta a melhor atuação que teve até hoje, superior àquela que apresenta em Silêncio.

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Gibson, quando parte para a guerra, não evita mostrar uma sequência de batalhas espetaculares, feitas com raro esmero técnico que ele sempre mostrou como diretor, auxiliado pela fotografia excepcional de Simon Duggan. Se havia uma faceta espetacular na maneira como Spielberg fez toda a sequência de abertura de O resgate do soldado Ryan, pode-se dizer que Gibson a potencializa em Até o último homem. As imagens do filme são terrivelmente fortes em certos momentos, mostrando literalmente a barbárie de uma guerra. O roteiro de Andrew Knight e Robert Schenkkan não chega a aproveitar totalmente seu potencial, principalmente na segunda metade e quando há alguns flashbacks, mas Garfield supera tudo com um desempenho extraordinário. Seu personagem passa por um sofrimento físico que Gibson mostrou em A paixão de Cristo e em Apocalypto, além de, claro, em Coração valente. E por trás há o fundo religioso e a tentativa de o personagem realmente enfrentar a guerra sem fazer nenhum disparo com armas, apenas auxiliando os colegas a enfrentarem a dor no campo de batalha. Ele também sofre a desconfiança de alguns colegas de companhia, a começar por Smitty (Luke Bracey), previsivelmente desrespeitoso, e tenta resistir até o limite diante da convicção que o move. Quando o cenário de guerra se expande a seu redor, pode-se ver que Gibson procura não a lentidão sóbria de um Cartas a Iwo Jima, de Clint Eastwood, e sim uma certa adrenalina, como se o espectador estivesse em meio ao combate.

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Existe algo em Até o último homem que evoca Overlord, filme dos anos 70 sobre um jovem que ia para a guerra e conhecia uma moça durante ela, e Invencível, experimento de Angelina Jolie subestimado. Na sua primeira parte, é visível a tendência de Mel Gibson em querer equivaler a narrativa que apresenta com alguns clássicos de guerra dos anos 50, quando mostra a relação entre os irmãos caminhando juntos pelas montanhas Blue Ridge em 1929, de uma família prestes a aceitar os dois filhos na guerra. Temos também, ao mesmo tempo, uma história quase paradoxal: nunca uma mensagem pacifista foi registrada com tantos recursos de violência e impacto visual sobressalente. Pode-se, em alguns instantes, na reprodução seca, lembrando quase um estilo documental, o excepcional Além da linha vermelha, de Malick. Contudo, Até o último homem segue linhas básicas de direção, evocando relações num tempo conturbado e às vezes parece ter uma mensagem muito objetiva. No entanto, é por meio dela que Gibson eleva seu material a um patamar de grandiosidade histórica.

Hacksaw ridge, EUA/AUS, 2016 Diretor: Mel Gibson Elenco: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Vince Vaughn, Sam Worthington, Rachel Griffiths, Teresa Palmer, Luke Bracey Roteiro: Andrew Knight, Robert Schenkkan Fotografia: Simon Duggan Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Bill Mechanic, Brian Oliver, Bruce Davey, David Permut, Paul Currie, Terry Benedict, William D. Johnson Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Argent Pictures / Cross Creek Pictures / Demarest Media / Hacksaw Ridge Production / Icon Productions / Pandemonium / Permut Presentations / Vendian Entertainment

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Cavaleiro de copas (2015)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil se separar quem é admirador de Terrence Malick e por isso gosta de seus filmes de quem se afasta totalmente deles para tentar examinar cada obra sua como uma peça única. Parece ser esta a questão: nenhum filme de Malick responde por si só. Ele é como se fosse uma nova peça que explicasse melhor escolhas dos filmes anteriores, sobretudo A árvore da vida e Amor pleno, com uma autoconsciência dispersa. Em Cavaleiro de copas, que foi, de forma surpreendente, lançado pela Netflix, sem passar pelos cinemas brasileiros (o que mostra o estado atual de coisas, em que comédias sem valor estreiam com divulgações especiais), ele mostra o universo de Hollywood por meio de um roteirista, Rick (Christian Bale), e utiliza a fotografia de Emmanuel Lubezki para um panorama detalhado e desesperançoso da cidade de Los Angeles. Onde Drive, de Refn, é fantasioso, apesar de violento, Cavaleiro de copas ingressa numa espécie de personagens sem um direcionamento claro, inclusive todos aqueles que se atravessam no caminho de Rick, como o pai, Joseph (Brian Dennehy), e o irmão, Barry (Wes Bentley).

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Esta parte dialoga muito com Amor pleno e a história pessoal de Malick, já exposta de maneira clara em A árvore da vida: sua culpa em relação à morte do irmão e o peso do pai sobre seus ombros. É a matiz dramática mais esclarecida de Cavaleiro de copas, enquanto a vida entre festas e caminhadas na praia de Rick não sossega nem com a presença de Helen (Freida Pinto), Della (Imogen Poots), Karen (Teresa Palmer), Nancy (Cate Blanchett) e Elizabeth (Natalie Portman). Que o elenco feminino é fantástico em termos de atuação, principalmente Blanchett e Teresa Palmer, não é novidade na trajetória de Malick, mas quem realmente oferece uma grande atuação, depois de anos, é Dennehy, como o pai do personagem principal, apesar de sua brevidade na narrativa.

Se havia algum filme anterior que encantava com o glamour de Hollywood, com exceção de Cidade dos sonhos, Cavaleiro de copas dispara na direção de que este universo está previamente condenado, pela figura de Rick e sua trajetória vaga e sem nenhuma possibilidade de encontro, pelo menos aparente. É notável como, por meio, novamente, de pensamentos soltos, e um fio de ligação muito tênue entre os personagens, que Malick mostre um personagem tão solitário e trágico como o de Rick, e Bale faz por merecer uma interpretação quase sem falas e ainda assim impressionante.

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O misto entre a infância – logo no início – e as tentativas de Rick em reencontrá-la, seja por meio de uma visita a um aquário gigantesco, seja pelos encontros conflituosos com o pai (no qual visualiza o temor de também ter um filho), se mostra principalmente por suas caminhadas pela praia, à noite ou de dia. Há um sentido cósmico e religioso como no personagem de Affleck em Amor pleno, entremeado aqui por cartas e símbolos do tarô (e lances de cultura oriental). De qualquer modo, Cavaleiro de copas se sente ainda com uma narrativa mais fina do que a de Amor pleno, no sentido de que deixa ao espectador amarrar totalmente as pontas, ao som de uma trilha perturbadora e bela de Hanan Townshend.

Nisso, há o visual situado entre um presente amargamente solitário e um futuro que aparenta calmaria no tamanho imponente das casas envidraçadas e nos enormes salões e casas pelas quais Rick passa (inclusive pela mansão de Tonio, o alter ego de Antonio Banderas). Este personagem pouco tem daqueles que Antonioni mostrava em seu cinema, ou de qualquer metalinguagem: ele é simplesmente um roteirista que não vê razão em nada ao redor, mas procura, de fato, descobrir algo que o faça emergir. Malick não está oferecendo nenhuma resposta quando mostra esse personagem entre paisagens urbanas e paisagens naturais, assim como num carro pela estrada ( e a direção de arte do habitual colaborador de Malick, Jack Fisk, é extraordinária).

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Há cenas absolutamente belas, como aquelas em que mostra Portman e Bale indo a uma galeria de arte e depois a uma plataforma marítima. Malick, por outro lado, joga essas belas imagens com uma sede de repetição constituindo a rotina exasperante de Rick, como se a novidade só pudesse ser oferecida por um terremoto assustador ou por idas a clubes noturnos de mulheres (em certos momentos, ele lembra o personagem de Sam Shepard em Estrela solitária, de Wim Wenders).

Malick, ao transformar seu filme num certo momento numa sessão de fotografias, faz uma crítica não apenas a seu universo como a sua obra, que precisa dessa beleza aparentemente atordoante para poder se representar, fora a rotina que carrega em cada palmo da história. Nessa rotina Malick, ingressa símbolos enigmáticos e divinos, também representados pela figura do Fr. Zeitlinger (Armin Mueller-Stahl).

A montagem elíptica e mais lenta do que a de Amor pleno, feita a oito mãos (A.J. Edwards, Keith Fraase, Geoffrey Richman e Mark Yoshikawa), concede à fotografia de Lubezki e ao roteiro de Malick uma espécie de segunda camada: as cenas de água, recorrentes, parecem contrastar com os edifícios e as estradas com o asfalto rachado pelo sol, assim como parecem indicar o nascimento dos personagens. Depois de receber os Oscars por Gravidade, Birdman e O regresso, Lubezki revela mais uma vez seu poder de visualizar o universo de maneira irretocável e criar quase um à parte, dentro do cotidiano a que estamos acostumados.

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É muito comum se dizer que não há nada verdadeiramente humano nos experimentos mais recentes de Malick, apenas uma sequência de imagens belas. Isso certamente não corresponde à verdade, e o que Cavaleiro de copas mais apresenta é certamente uma sensação vaga referente a todos os personagens assim como o cenário que os rodeia: tudo é tão imenso que parece impalpável e do mesmo jeito o espectador se sente em relação às suas ações, como se elas fizessem parte de uma rotina pré-programada e sem novidades. Desde o início, numa narração em voice over, o personagem busca o sentido da vida como, numa história infantil, um príncipe busca sua “pérola”. Esta pérola pode ser encontrada em vários rostos, mas Rick não parece querer permanecer com eles, assim como o personagem de Affleck no filme anterior.

Mas, ao contrário de A árvore da vida  e Amor pleno, este filme parece menos esperançoso no sentido de que Malick empresta a esta palavra principalmente desde Dias de paraíso, ou seja, ele concede uma determinada abertura ao final que parece manter certas dúvidas. Há um sentimento constante de perda e de isolamento em relação ao personagem de Rick e, se não soubesse que Malick é um cineasta que costuma se esconder de eventos, eu poderia imaginar que é um alter ego dele. Eis uma Hollywood com todos os brilhos e luz intensa do sol, mas, ao mesmo tempo, sem brilhos ou sol, pois a vemos apresentada pelos olhos de Rick. É um dos filmes definitivos sobre a cidade, sobre o que ela esconde (principalmente) ou revela, da maneira como apresenta seus espaços e estúdios a céu aberto, em meio a rochedos que poderiam capturar algo da velha Hollywood (do faroeste nostálgico) e, no entanto, só trazem um pouco mais de indefinição para o personagem central.

 

Knight of cups, EUA, 2016 Diretor: Terrence Malick Elenco: Christian Bale, Brian Dennehy, Wes Bentley, Cate Blanchett, Natalie Portman, Imogen Poots, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Freida Pinto, Antonio Banderas, Nick Offerman, Jason Clarke, Joel Kinnaman, Kevin Corrigan, Cherry Jones, Armin Mueller-Stahl Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Hanan Townshend Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green, Ken Kao Duração: 118 min. Distribuidora: Broad Green Pictures

 

cotacao-5-estrelas

Quando as luzes se apagam (2016)

Por André Dick

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Foi James Wan, roteirista do primeiro Jogos mortais e produtor da série, além de diretor dos dois Invocação do mal, quem deu oportunidade, com um orçamento de 5 milhões de dólares, para que o diretor sueco David F. Sandberg adaptasse seu curta-metragem de 3 minutos Lights out, lançado em 2013, para um longa de 80 minutos. O resultado é Quando as luzes se apagam, que expande o conceito do curta, no qual um duplo susto era capaz de instigar o espectador a ver mais, mesmo que seja excessivamente rápido. De qualquer modo, como a adaptação do curta Pixels feita por Chris Columbus este filme se transformou num grande sucesso de bilheteria, atingindo até agora em torno de impressionantes 98 milhões de dólares.
O início é numa fábrica de manequins, na qual uma funcionária, Esther (Lotta Losten, que estrela o curta), é a primeira a ver o espectro ameaçador do filme. Em seguida, o roteirista Eric Heisserer trabalha a história de uma mãe, Sophie (Maria Bello), que, na incapacidade de criar seu filho, Martin (Gabriel Bateman), em razão de problemas de depressão, vê sua filha, Rebecca (Teresa Palmer), assumi-lo, sob observação da assistente social Emma (Andi Osho). O menino, afinal, está traumatizado com o comportamento estranho em sua casa, em que sombras parecem adquirir novas formas.

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Sophie também vê pessoas mortas e, quando acontece algo com o padrasto de Rebecca, Paul (Billy Burke), esta se vê na tarefa de reorganizar a família. O problema é existir (ou seria apenas um espectro?) Diana (Alicia Vela-Bailey), que pode ter uma ligação pouco esclarecida com Sophie. Rebecca tem como namorado Bret (Alexander DiPersia), e mora em cima de um estúdio de tatuagem, cujo neon fica piscando intermitentemente, mas sua relação com a mãe é conturbada e ela nunca tem certeza sobre se deve namorar ou não alguém.
Em primeiro lugar, Quando as luzes se apagam é, em parte previsível, no entanto o cuidado de produção, a partir da fotografia de Marc Spicer, destaca-se em meio às produções do gênero. Em razão do elenco, de Palmer (uma atriz cada vez melhor, já presente este ano em Cavaleiro de copas, de Malick) e Bello à frente, o filme tem uma consistência dramática a partir do ponto em que as coisas se complicam e as indagações aumentam. Tudo é muito ligeiro, bem editado e leva o espectador a prestar atenção sem exatamente elaborar sobre o que está acontecendo. A figura do espectro tem uma história que leva à compreensão do motivo pelo qual só aparece na escuridão.

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É muito interessante a maneira como Sandberg o retrata e a maneira como ele ilumina cada cômodo da casa em que aparece: primeiro, em meio a um vermelho, com clara influência do Argento de Suspiria e do Gaspar Noé de Enter the void, depois na escuridão e, finalmente, perto do desfecho, à luz de uma cor azul. Ele está na trama para que justamente seja estabelecida essa relação entre mãe e filha, que repercute na vida de Martin. Em vários filmes de terror, as crianças são ameaçadas, e aqui não é diferente. Por outro lado, parece haver aqui uma necessidade intensa de mostrar que a criança não se tornará a salvadora do espectro e sim representa aquela que precisa ser recuperada em detrimento de uma possibilidade de entender questões enigmáticas.
Quando as luzes se apagam algumas vezes pode se sentir como um episódio estendido da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80, mas se sustenta mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar que ecoa em traços sobre a depressão. Esses traços dialogam não apenas com a fábrica de manequins em que se passa a primeira sequência da história (como se as pessoas fossem apenas moldes de outra, no caso de Sophie em relação ao espectro) como com as formas de luz que a obra vai apresentando: lâmpadas, velas, faróis de carro, neons, luzes da janela ou de abajures. Porém, sua principal essência está na maneira como trata da depressão. Em muitos filmes de terror e suspense, figuras assustadoras surgem da imaginação ou de presenças que já percorrem determinados ambientes (como no clássico Poltergeist).

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Em Quando as luzes se apagam, é como se o espectro mostrado fosse resultado de um processo de depressão e ficar na claridade fosse a única saída para não se deparar com ele. Sandberg trabalha essa premissa de maneira eficaz até determinado ponto, embora não a explore da maneira como poderia, optando por caminhos duvidosos de análise, e como permitiriam as atuações de Bello e Palmer. A ressalva maior é que o espectro nunca se torna tão ameaçador quanto de fato o do curta-metragem que inspirou o filme. Isso talvez se deva justamente a Sandberg querer equivaler sua presença a uma espécie de sombra que pode atormentar uma criança, efetivamente bem representada por Gabriel Bateman, ou seja, é notável como Quando as luzes se apagam é feito também para um público jovem, com a tentativa de agradá-lo. Ele tem alguns diálogos, a partir disso, com A visita, de M. Night Shyamalan, em que a infância é colocada à prova numa casa com indivíduos de comportamento assustador. Ao contrário de Shyamalan, Sandberg opta por um diálogo maior com o terror oriental, de produções como Pulse e Medo e tem uma sofisticação visual que poucas vezes se vê em diretores do gênero, mesmo em Wan. Ele trabalha também com uma certa ideia de união familiar, de processo de luto quando é impossível ignorá-lo, e do quanto se fortalece uma amizade entre irmãos quando é necessário dar uma resposta a ameaças incompreensíveis. Não por acaso, o roteiro é de Eric Heisserer, o mesmo da versão mais recente de A hora do pesadelo, que trabalha de maneira intensa o plano familiar, em relação aos originais dos anos 80 e 90. Se ele não consegue se sobrepor, algumas vezes, a suas limitações, é um projeto que cria interesse para o espectador.

Lights out, EUA, 2016 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Teresa Palmer, Gabriel Bateman, Maria Bello, Alexander DiPersia, Alicia Vela-Bailey, Billy Burke, Andi Osho Roteiro: David F. Sandberg, Eric Heisserer Fotografia: Marc Spicer Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Eric Heisserer, James Wan, Lawrence Grey Duração: 82 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atomic Monster / Grey Matter Productions / New Line Cinema

Cotação 3 estrelas e meia