Teoria sobre o episódio 18 de Twin Peaks – O retorno (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers sobre os episódios 17 e 18, o filme Twin Peaks – Fire walk with me e Duna

O final de Twin Peaks deixou uma proliferação de teorias para o espectador. Tanto no Brasil quanto no exterior muitas delas são extremamente criativas. Neste texto, apenas tento elaborar as pistas por meio de algumas sequências (com imagens legendadas pela Netflix, onde a terceira temporada está disponível) e analisar as informações de forma que elas realmente independam de uma quarta temporada (embora eu apreciasse um novo retorno).
A resolução de Twin Peaks se inicia logo depois que a figura de Mr. C é derrotada. Quando Naido se transforma em Diane (Laura Dern) diante de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), eles olham para o relógio da delegacia, que está marcando 2:53, o mesmo horário determinado pelo Major Briggs para que Truman (Robert Forster), Bobby Briggs (Dana Ashbroock), Andy (Harry Goaz) e Hawk (Michael Horse) pudessem acessar o White Lodge no bosque de Twin Peaks, no episódio 14. Lá Andy teria informações visuais sobre um plano do Bombeiro (Carel Struycken). É hora de Dale Cooper dizer o que disse Phillip Jeffries (David Bowie) na visita em sonho que fez ao FBI, quando falou de Judy e a data de morte de Laura Palmer: “Vivemos dentro de um sonho”. Exatamente às 2:53 Jeffries conversa com Gordon Cole (David Lynch), Agente Cooper e Albert Rosenfield (Miguel Ferrer). E o sonho principal de Cooper é evitar o assassinato de Laura. Pelo que Cooper pergunta a Diane: “Você se lembra de tudo?”, com a concordância dela, ele já conseguiu mudar a linha de tempo (como veremos no final do episódio 17 e no episódio 18).

Isso está de acordo com o que diz a Senhora do Tronco (Catherine E. Coulson) a Hawk (Michael Horse) no episódio 10: “É o que é [o assassinato de Laura Palmer] e o que não é [a versão alterada do tempo]”.

Por meio da chave do 315, Dale Cooper, Diane e Gordon Cole (David Lynch) seguem pelo subterrâneo do Greath Northern, até chegar a uma porta, que abre para a Loja de Conveniência, onde Cooper encontrará o Homem de um Braço Só (Al Strobel) e, em seguida, Phillip Jeffries em forma de sino/chaleira. Ele é transportado para a data em que morrerá Laura Palmer, 23 de fevereiro de 1989, conforme Phillip havia dito no sonho passado no escritório do FBI. Ele faz a viagem no espaço e no tempo, quando o Homem de um Braço Só diz: “Eletricidade”, assim como Paul Atreides (interpretado pelo mesmo MacLachlan) conseguia fazer em Duna (quarta imagem abaixo), dirigido por David Lynch.

Podemos retroceder ao início da terceira temporada, quando Cooper está com o Bombeiro num lugar naquele momento indefinido (agora se entende que seja o White Lodge), enquanto sai um som estranho de um gramofone, ao que tudo indica o mesmo em que Leland Palmer, pai de Laura, ouvia suas músicas nas primeiras temporadas. O Bombeiro fornece algumas pistas: “Ouça os sons”; “Ele está na nossa casa agora”; “430”; “Richard e Linda”; “Dois passarinhos com uma pedra só”.

Destaca-se que o som ouvido por Cooper é o mesmo que ele ouvirá no episódio 17 quando está conduzindo Laura Palmer para o White Lodge, alterando a linha do tempo e impedindo sua morte. Quando surge esse som, logo depois de Sarah Palmer quebrar o retrato dela, ou seja, tentando impedir sua não morte, Laura desaparece e Cooper ouve um grito ao longe no bosque. A frase “Ela está na nossa casa agora” remete, por sua vez, ao que diz o neto dos Tremond/Chalfont no filme Twin Peaks – Fire walk with me, quando ele alerta Laura Palmer que Bob está embaixo do elevador de sua casa e ela descobre que se trata de Leland. Quem está na casa agora é Judy, a presença maligna referida por Gordon Cole no início do episódio 15 e a qual Mr. C buscava no episódio 15. As pistas do Bombeiro remetem ao futuro, no entanto. São essenciais para estabelecer uma ligação do primeiro com o último episódio. É o plano do Bombeiro para salvar Laura.
No segundo episódio da terceira temporada, Cooper encontra o Homem de um Braço Só, que lança a pergunta “É o futuro ou é o passado?”. No episódio 17, Cooper vai para o passado; no episódio 18, ele vai para o futuro (o presente, em relação a 1989).

O Homem de um Braço Só desaparece e surge Laura Palmer, que lhe pergunta: “Você me reconhece?”. Cooper pergunta: “Você é Laura Palmer?”. Ela lhe responde: “Eu sinto que a conheço, mas às vezes meus braços dobram para trás” (o que ela dizia no sonho da primeira temporada). Cooper novamente pergunta: “Quem é você”, e ela finalmente responde: “Laura Palmer”. Cooper retrocede: “Mas Laura está morta”, ao que Laura responde: “Eu estou morta, mas ainda vivo”, tirando seu rosto e dando espaço a uma claridade. Em seguida, ela levanta, vai até Cooper e o beija, como no sonho da primeira temporada. Em seguida, sussurra um segredo em seu ouvido. Na série dos anos 1990 ela contava quem era o seu assassino. Neste episódio da terceira temporada, algo acontece e Laura desaparece no espaço, ao som de seu grito. O que ela contou e a ele? Tudo indica que contou sobre Judy, a ameaça referida por Gordon Cole (David Lynch) no início do capítulo 17. Laura é enviada para uma realidade alternativa. Esta sequência já não aparece no episódio 18, pois Laura não se encontra mais no Black Lodge. Cooper olha assustado, as cortinas vermelhas parecem balançar com vento e surge um cavalo.

O cavalo é uma pista para a empreitada que Cooper terá no episódio 18, depois de salvar Laura no episódio 17, mas ela escapar de suas mãos, levada para um outro lugar que ainda ele desconhece. Nesse episódio final, Cooper, depois de sair do Black Lodge, e Diane viajam por uma estrada deserta. Exatamente no número de km 430 (número oferecido pelo Bombeiro), ele para de carro na beira da estrada e enxerga torres de eletricidade, onde se demarca uma passagem para outra dimensão. É dia e, quando a ultrapassam, fica noite.

A torre de eletricidade lembra a imagem que aparecia na mensagem do Major Briggs (embaixo do pico da direita) no episódio 9 e no mapa de Hawk (Michael Horse) no episódio 11. Quando Frank Truman (Robert Forster) pergunta o que ela significa, Hawk responde que ele não vai querer saber. Tudo indica que essa imagem remete a Judy.

O carro que utilizam também não é aquele com que Cooper chega a Twin Peaks no piloto da série de 1990. Parece um mais antigo.

Cooper se hospeda num hotel de beira de estrada com Diane, lembrando A estrada perdida. Ambos fazem amor tendo como música de fundo “My praier”, dos The Platters, a mesma do episódio 8, transportando a série para o mesmo dilema (a luta do bem contra o mal). É como se Diane reproduzisse, em sua imaginação, a relação que teve com Mr. C disfarçado de Cooper. É como se, por meio do ato, Cooper se transportasse para o universo de Judy disfarçado um pouco de Mr. C (por isso ele pede a ela que apague a luz do quarto), para não ser impedido, daí sua ausência completa de paixão. Diane, ainda traumatizada pelo que Mr. C fez a ela, cobre o rosto de companheiro. No dia seguinte, Cooper acorda num hotel da cidade, com um bilhete deixado por Diane, que se intitula agora Linda e o chama de Richard.

São os nomes dados pelo Bombeiro no início da temporada. Cooper (ou Richard?) tem agora, no estacionamento de outro hotel, um carro do mesmo modelo utilizado por Mr. C no terceiro episódio:

Ele está em Odessa, Texas, mas numa espécie de linha temporal diferente ou universo paralelo. O ano, no entanto, é 2017: a população da placa que aparece é a atual:

Para toda uma disposição cênica que Lynch tem em seus episódios, mas sobretudo neste, chama a atenção um poste de luz com um globo branco ao lado de uma árvore que lembra aquela que fica na entrada do White Lodge, em frente ao hotel onde Cooper acorda. Podemos lembrar de como a esfera, na trajetória de Lynch, remete a um universo onírico: em Coração selvagem, a Bruxa Boa (Sheryl Lee) aparecia numa esfera voando; em O homem elefante, John Merrick imaginava sua mãe nas estrelas; e no episódio 8 desta temporada de Twin Peaks vemos Laura Palmer sendo criada dentro de um globo dourado. No entanto, aqui, é um globo ligado a um poste de luz, corriqueiro, que pode estar dizendo que estamos mais na realidade do que a aparência demonstra.

Cooper finalmente chega à Cafeteria Judy (justamente uma cafeteria, oferecendo o que Cooper mais gosta), onde trabalharia quem ele busca; ao fundo há postes de eletricidade e à frente um cavalo branco de carrossel. Este cavalo branco aparece em visões de Sarah Palmer na série e no filme antes de Bob surgir. Também faz parte da mensagem do episódio 8 do woodsman e surge no Black Lodge, no segundo episódio desta temporada, como referido anteriormente.

Apesar de aparentar não ser totalmente ele, Cooper enfrenta cowboys na cafeteria e coloca suas armas no óleo onde estavam as batatas fritas (e óleo queimado remete ao Black Lodge, na segunda temporada e em Twin Peaks – Fire walk with me). Cooper encontra Carrie Page (Sheryl Lee), o duplo de Laura Palmer, perdida num bairro inóspito, com um homem baleado no sofá e uma metralhadora no chão da sala de estar. Nisso, ao mesmo tempo, pergunta-se como Carrie Page (nome sugestivo já pelo sobrenome, indicando uma página a ser escrita, como qualquer pessoa) abre a porta de sua casa tão rapidamente quando Cooper se anuncia como do FBI, estando envolvida com crimes.

Não teria tido também um sonho com o agente, assim como Laura confessa ter tido ao encontrá-lo no bosque, quando ele tenta salvá-la? O fato é que Cooper parece acordar quando a vê, perguntando se ela tem um pai chamado Leland (ela consente) e uma mãe chamada Sarah (que a deixa intrigada, o que se entende que é o nome de sua mãe também). Repare-se que na parede da casa há um pequeno cavalo branco e o corte de cabelo de Carrie Page é o mesmo que usa Laura Palmer quando conversa no segundo episódio desta temporada com o agente Cooper no Black Lodge.

Sabemos agora que ela é a garçonete da Cafeteria desaparecida há três dias, segundo a colega, numa semelhança com Teresa Banks, a primeira vítima de Bob em Twin Peaks – Fire walk with me e o poste com o número 6 que remete ao parque de trailers de Carl Rodd (e onde morava Teresa) nesse filme também existe à frente de sua casa. Lembremos que na investigação do filme Chester Desmond (Chris Isaak) e Sam Stanley (Kiefer Sutherland) se deparavam (na época, o espectador não sabia) com woodsmen, no Hap’s Diner, onde Teresa trabalhava:

No caminho para Twin Peaks, ela diz “Naquela época eu era muito jovem para saber”. Eles param num posto de gasolina com uma Loja de Conveniência (a estrada escura no enquadramento faz com que a Loja de Conveniência pareça estar no segundo andar, onde são os encontros dos integrantes do Black Lodge segundo informações anteriores), mas, ao mesmo tempo, é de uma marca atual, a Valero (será o lugar onde passam finalmente para a realidade não alternativa, assim como os postes demarcavam a passagem para a realidade alternativa?), e são seguidos por um carro até determinado trecho, num misto de suspense e paranoia (lembrando o Homem de um Braço Só atrás do carro de Leland no filme de 92). Vejamos a maneira como Lynch filma os faróis do carro que segue: parecem os olhos de uma coruja (elas não são o que parecem ser). Há um mal à espreita querendo sempre impedir a volta dos personagens a uma normalidade, com um ritmo lento e fascinante, talvez o melhor cinema “clássico” que Lynch fez desde Veludo azul.

Para recuperarmos informações importantes antes de seguir adiante, no episódio 8, Lynch conta o surgimento do Black Lodge, quando, no Novo México, explode a primeira bomba atômica, com acompanhamento de  “Threnody to the victims of Hiroshima”, de Krzysztof Penderecki. Essa bomba dá origem exatamente à figura de Bob – dentro de um ovo – e Lynch se desloca para uma Loja de Conveniência no deserto. A Loja de Conveniência é onde Bob, segundo o Homem de Um Braço Só, habita. À frente dessa Loja de Conveniência, perambulam os woodsmen que apareceram na primeira parte do episódio e voltam a aparecer nos episódios 11 (na Zona investigada por William Hustings) e 15. E Bob sendo criado em meio ao fogo da bomba atômica dá outro significado a “Fire walk with me”. Lembremos o que contava o Major Briggs na segunda temporada por meio das imagens abaixo:

O Major descreve uma caminhada em meio às chamas, que remetem justamente à bomba atômica de 1945 e, ao final, recorda a aparição de uma coruja gigante, o que remete à simbologia do anel e do Black Lodge.
No episódio 8, depois da detonação da bomba, deve-se lembrar que Lynch se desloca para um castelo em alto-mar, no mesmo ambiente em que Cooper no episódio 3 era transportado para um cubo pendurado no espaço sideral. A sequência remete imediatamente ao lar dos Atreides em Duna, onde estão Señorita Dido (Joy Nash) e o Bombeiro (Carel Struycken), ao lado de um sino – parecido com aquele que Cooper vislumbra no terceiro episódio.

Ele parece receber um chamado e se desloca, por uma escadaria, para um teatro, onde se projeta, na tela, a imagem da bomba atômica seguida pela de Bob. O Bombeiro se eleva no ar, aos olhos de Señorita Dido, e sai dele uma luz amarela que chega à mulher como uma bola dourada: dentro dela, está a imagem de Laura Palmer (Sheryl Lee). Esse amarelo é o ouro que se encontra na entrada do White Lodge no bosque de Twin Peaks, nos episódios 14 e 17 (lembrando que na entrada do Black Lodge há uma espécie de óleo escuro).

Esta bola é lançada no ar e entra numa espécie de gramofone gigante, direcionando-se à Terra. Laura estaria sendo enviada à Terra para enfrentar Bob? É um episódio que se sente quase à parte de toda a série – inclusive as duas primeiras temporadas – e que, de certo modo, pretende contar a origem da maldade humana e daquilo que pode combatê-la – na figura de Laura Palmer – de forma antológica. Esse episódio traz ainda mais significado à figura do anjo no final de Twin Peaks – Fire walk with me aparecendo para Laura Palmer como se fosse a sua salvação (imagem que Andy visualiza quando vai ao White Lodge no episódio 14). No oitavo, é como se Laura fosse a alma que poderia fazer frente a Bob, que utiliza como hospedeiro seu pai, Leland, mas também, pelas informações do fim da terceira temporada, a Judy. Para cada maldade, Lynch expõe aquilo que pode enfrentá-la de fato. Twin Peaks sempre tratou do amor e da salvação.

Mas quem é Judy?
Se no episódio 12, Sarah Palmer (Grace Zabriskie) começava a gritar numa loja de conveniência “Eles estão vindo” e, ao ser visitada por Hawk (Michael Horse), podia-se ouvir barulhos dentro de sua casa, no episódio 14, a acompanhamos entrando num bar para pedir um Bloody Mary quando é abordada por um homem. Pedindo que ele saia, sem ser atendida, Sarah retira seu rosto – como Laura faz no Black Lodge – e, ao invés de vermos luz, há uma escuridão. Ela mata o homem com uma mordida que lembra A hora do espanto, mas sem deixar rastro. Uma atmosfera aterradora e se pode notar que Sarah tem mais proximidade dos woodsmen do que imaginávamos.

Mas há um senão nessa possível teoria: Sarah foi sempre Judy (se realmente ela é um hospedeiro dela, como Leland era de Bob)? Acredita-se que não: Judy, na verdade, tenta dominá-la nesses anos em que está solitária porque Laura pode ameaçá-la. Ela se nutre da mãe dela como Bob de Leland. Na série original, Sarah, com suas visões, dava pistas de como apanhar o assassino. Ela sempre pareceu uma vítima de Leland, tanto quanto Laura, embora muitas vezes se notasse que ela fingia tragicamente não enxergar o que estava acontecendo. Um dos momentos mais interessantes nesse sentido está em As peças que faltam, quando ela chega a Laura no momento em que esta se encontra hipnotizada pelas hélices do ventilador (que indicam a proximidade de Leland/Bob), e se comporta de maneira estranha.

Sua maior proximidade seria o uso de cigarros, que na série a ligam à figura do woodsman de 1956 (“Gotta light?”). Em As peças que faltam, sua primeira aparição é carregando um pacote com várias embalagens de leite, o mesmo que Leland lhe dá para que durma e não veja o que faz. De qualquer modo, delimitemos que Sarah não era Judy, e sim passou a ser dominada por ela. A explicação de que Judy deu origem a Bob é parte também de uma suposição, pois nada comprova isso mesmo a partir de informações do episódio 8.

Judy é confundida com uma figura que aparece nos episódios 15 (quando o woodsman acessa a corrente de eletricidade) e 17 (quando desce a escadaria em que Cooper e o Homem de um Braço Só sobem), associada a um dos integrantes da reunião na Loja de Conveniência testemunhada por Phillip Jeffries em Twin Peaks – Fire walk with me: nela, aparecem os woodsmen (1, 2 e 3) e os Tremond/Chalfont (4) na terceira figura abaixo.

No segundo episódio da terceira temporada, Sarah já mostrava um comportamento no mínimo estranho ao ver uma cena violenta de animais, refletindo no espelho atrás de seu sofá (o que recorda justamente Leland olhando-se nele e visualizando Bob).

Um dos woodsman dizia numa cena incluída em Twin Peaks – As peças que faltam (extras de Twin Peaks – Fire walk with me), na reunião da Loja de Conveniência, algo que remete a esse comportamento: “Vida animal”:

Que Sarah é Judy parece ficar finalmente claro com uma pista deixada por Phillip Jeffries a Mr. C no episódio 15. Quando ele pergunta quem é ela, Jeffries diz que Mr. C já a conheceu (como Mr. C esconde Bob, isso se esclarece).

E quando pela fumaça da chaleira revela números de onde se encontraria essa figura são muito próximos dos da casa de Sarah Palmer (708): aparece uma profusão de números, de forma destacada 408.

Lembremos que o Bombeiro oferece várias visões a Andy no episódio 14, inclusive sobre o momento em que Lucy terá de decidir se vai atirar ou não no Mr. C depois de atender ao telefone. As imagens mostradas a Andy reproduzem o fato de, conforme diz a Senhora do Tronco no episódio 10, Laura ser a escolhida:

Há, inclusive, a indicação do poste com o número 6, que há em frente à casa de Carrie Page. É Page, justamente uma espécie de duplo de Laura (como foi Dougie de Cooper), que pode reestabelecer o equilíbrio. Por isso, o Bombeiro quer que Cooper a encontre no universo onde Judy tentou escondê-la, em Odessa. Ela já o era no final do filme Twin Peaks – Fire walk with me, iluminada:

Laura Palmer é escondida por Judy em Odessa justamente depois de revelar o segredo a Cooper na sala vermelha, por isso soa seu grito como no final do episódio 17, no momento em que está mudando a linha temporal. Não foi o White Lodge que levou Laura a Odessa, pois ela some um pouco antes exatamente de Cooper chegar ao White Lodge na floresta de Twin Peaks. Ao ouvir os sons que o Bombeiro disse que ele escutaria (de um gramofone, e lembremos que no White Lodge há um gigante para transportar as pessoas a diferentes lugares), Cooper, até então com Laura Palmer, conseguindo mudar seu curso, a perde e se ouve o grito no bosque. O grito acontece, ao mesmo tempo, no Black Lodge, por Sarah/Judy em 2017 e no passado, em 1989.

Recuperando uma informação do primeiro parágrafo: pouco antes vemos Sarah/Judy quebrando o retrato dela, como se quisesse impedi-la de viver outra vida (enviando-a, por fim, a Odessa). Em seguida, corta para a mesma sequência do segundo episódio, com o Homem de um Braço Só:

Desta vez, Cooper se levanta e segue até o Braço que lhe pergunta se esta é a história da menina que mora no fim da rua (numa ligação com o filme de Jodie Foster em que ela interpreta uma menina que sofre abuso sexual, como Laura). Não há mais a parte em que conversa com Laura; ela não está mais com ele. Em seguida, Cooper vai até o pai de Laura, Leland (Ray Wise), que lhe pede: “Encontre Laura”. Fazia parte do plano do Bombeiro destruir Judy e Bob.

Para Lynch, a casa de Laura e Cooper é o espaço conceitual de Twin Peaks, em que, dia a dia, o White Lodge enfrenta o Black Lodge. Quando Cooper, ao final, bate à porta de sua casa, fica claro que Alice Tremond (Mary Reber), a “nova” dona, olha para Laura de maneira que ela constitui uma ameaça ao Black Lodge. Alice é um nome muito sugestivo para um universo paralelo, e os Tremond/Chalfont são do Black Lodge. Eles aparecem no sonho de Laura Palmer em Twin Peaks – Fire walk with me e é embaixo do trailer em que moram no parque administrado por Carl Rodd (Harry Dean Stanton) que desaparece o agente do FBI Chester Desmond (Chris Isaak).

No episódio 12, Sarah avisava, reiteramos, numa loja de conveniência de Twin Peaks: “Eles estão vindo”. Isto não me parece passado nem o futuro; parece o presente. O Black Lodge, agora também na casa dos Palmer, dominou Sarah (por meio de Judy) e é preciso enfrentá-lo novamente mesmo com Mr. C em chamas no início do episódio 18. Judy tentou escondê-la, mas Cooper, por meio das pistas do Bombeiro do White Lodge a descobriu, mesmo a tendo perdido em 1989. E Laura é, afinal, a escolhida: com seu grito, ela é capaz de apagar a eletricidade e, consequentemente, os woodsmen e Judy, apagando, de certo modo, o seu passado. Repare-se que a Casa tem um símbolo sobre o número que lembra chifres de boi, que também havia na Cafeteria Judy.

Ela responde ao que a Senhora do Tronco pergunta a Hawk no episódio 10:

Antes de dizer:

Ao ouvir a voz de sua mãe, ela finalmente acorda do mundo em que estava, aparentemente fora da realidade, em Odessa: acorda para a realidade já alterada. Como Paul Atreides, em Duna, usando o som para disparar os módulos, “O adormecido deve despertar”. No filme de 1984, Atreides também é anunciado como uma espécie de escolhido, quando faz chover sobre o planeta desértico de Arrakis e destrói seu adversário final, Feyd-Rautha (Sting), com o som de sua voz. E Laura desperta. Tanto é que a própria atriz que interpreta Alice Tremond, Mary Reber, é a dona atualmente da casa dos Palmer. Estamos em 2017. Talvez seja a primeira vez que Lynch tenha oferecido uma pista concreta. A série se encerra com Laura sussurrando no ouvido de Cooper. Assim como na primeira temporada ela dizia o nome de seu assassino, aqui ela fala de Judy:

Levando em conta que esta possibilidade indica que não teria havido nunca Twin Peaks, a série, apenas o filme, antes do assassinato de Laura Palmer, pode-se dizer que Lynch aproveita também as duas versões temporais (passado e futuro) para dizer que os traumas não se apagam, que eles voltam sempre (por meio do grito de Laura). Prefiro, ainda assim, esta versão mais otimista, baseando-me na informação da Senhora do Tronco, de que “Laura é a escolhida”, e que o Bombeiro havia traçado um plano que se confirma, e que pode ser aceita, de qualquer modo, não se sabendo se haverá ou não quarta temporada (na qual Cooper poderia estar na cidade por outro motivo). Tudo, afinal, pode ser apenas um sonho do “sonhador” desta série fascinante.