A cura (2017)

Por André Dick

Os gêneros de suspense e terror têm cada vez se limitado mais a produções que visam estabelecer apenas franquias, com doses de sustos e exageros usuais em quase todas os experimentos, a fim de contentar a plateia de forma mais objetiva. Por isso, é uma raridade quando surgem obras como Corra!, de Jordan Peele, que insere humor e críticas sociais em sua narrativa, e A cura. Esta mescla entre suspense e terror é idealizada por Gore Verbinski, cineasta que se tornou conhecido inicialmente por O chamado, sucesso de 2002, com Naomi Watts no papel de uma mulher que investigava a influência de uma menina na gravação de uma fita de vídeo com um recado nada animador para seus espectadores. Em seguida, ele iniciou a série Piratas do Caribe, na qual lançou Johnny Deep como um astro de blockbuster e com ele fez alguns episódios, antes de vencer um Oscar de melhor animação, com o interessantíssimo Rango, e se arriscar com a superprodução de faroeste O cavaleiro solitário, talvez seu filme mais fraco.

Não era de se esperar, principalmente depois de O cavaleiro solitário, que Verbinski conseguisse se relançar no gênero que o fez conhecido, mostrando a história de um jovem, Lockhart (Dane DeHaan, ótimo), que é enviado aos Alpes para trazer de volta o dono milionário da empresa onde trabalha, Roland Pembroke (Harry Groenr), em vista de um grande negócio. O milionário se encontra num centro de bem-estar, localizado no alto de uma montanha, quase inacessível, onde várias pessoas da terceira idade procuram uma determinada “cura”, e as imagens de Verbinski capturam o tamanho magistral da mansão como faz Kubrick com seu Hotel Overlook em O iluminado. Cada quadro do filme parece uma pintura, com cuidado e sofisticação no uso de cores, um trabalho primoroso de Bojan Bazelli. Assustador é o momento em que, chegando no vilarejo aos pés do castelo, o carro é atacado por jovens. Há lendas na região, segundo o motorista, sobre o lugar. Chegando a ele, logo Lockhart percebe que há algo estranho, quando dificultam o seu acesso a Premboke, inclusive um dos médicos. Acaba voltando ao carro que o espera e pede para que siga até o hotel no vilarejo, quando ocorre uma capotagem. Quando acorda, o jovem está sendo cuidado num quarto, com a perna quebrada. Então, tudo começa a soar mais estranho ainda.

Verbinski utiliza o design de produção para mostrar essas pessoas de terceira idade nadando, fazendo exercícios, com um estilo que remete ao filme A juventude, de Paolo Sorrentino. E Lockhart se torna um prisioneiro do local. Depois de encontrar o milionário Premboke e saber que ele quer sair daqui, Lockhart prepara a partida, no entanto acontece um novo incidente e ele é atendido pelo responsável principal, Dr. Heinreich Volmer (Jason Isaacs). Este é pai de Hannah (Mia Goth), uma jovem, que se encontra no local porque seria um caso raro, a ser investigado. Tudo visa a estudar o ser humano com a influência da água em seu corpo e sua constituição.
O interessante é a maneira como Verbinski vai costurando essas informações de trama, a princípio levemente previsíveis, com a simbologia da água e de enguias que surgem, ao que tudo indica, no inconsciente do personagem principal. Do mesmo modo, as peregrinações que ele faz pelo lugar têm um certo ar de Arthur Conan Doyle, e não é difícil perceber uma clara influência especialmente de A colina escarlate –  a maneira como Verbinski usa os espaços lembra como Guillermo del Toro os usou em sua obra –, Suspiria e Ilha do medo, este pelos temas psiquiátricos. No entanto, se em Scorsese os experimentos com pacientes tinha, em razão dos flashbacks, uma certa pretensão que fugia à forma, o mesmo não ocorre em A cura: esta é uma obra sobre a loucura que  se inspira mais em elementos de Além da imaginação e nos contos de assombração de aldeia. Quando Lockhart está percorrendo o vilarejo que fica aos pés do castelo, isso é evidente: parece que o espectador está voltando à Alemanha antiga, da época nazista, e o centro de bem-estar retrata a mesma psicopatia em se querer uma raça pura, longe de qualquer perturbação de saúde – e muitos elementos remetem ao thriller setentista Maratona da morte, com Dustin Hoffman.

Verbinski lida com essas ideias de maneira às vezes subjetiva, mas que conferem poder de fôlego, mesmo no final do terceiro ato, quando tudo é impulsionado a um gênero que mais parece dialogar com as fitas de terror de Roger Corman, quase se transformando num exemplo de cinema dos anos 50 sob o olhar contemporâneo. Pode-se dizer que, com esse intuito, Verbinski desenha um cinema que parte dos anos 40 e chega aos dias atuais, utilizando molduras já usadas com outras verdadeiramente inovadoras, sempre inovando com um design de produção no qual mergulha literalmente tanto os personagens quanto os espectadores. Há um senso de realidade permanente nas passagens do lugar sendo descobertas e é como se fossem pinturas vivas. A ligação de Lockhart com os pais também se desenha nesse meio tempo, com os símbolos da bailarina e da queda na água de um determinado personagem, e Verbinski traça um paralelo entre as imagens da velhice e da juventude por meio de imagens com um cuidado raramente visto num cineasta contemporâneo. Daí vem o êxito de seu filme, uma peça realmente espetacular, subestimada e recebida com indiferença (26 milhões de bilheteria para 40 de orçamento), mas que o tempo possivelmente vai conceder sua devida importância.

A cure for wellness, EUA, 2017 Diretor: Gore Verbinski Elenco: Dane DeHaan, Jason Isaacs, Mia Goth, Celia Imrie, Adrian Schiller, Lisa Banes, Carl Lumbly, Susanne Wuest, Magnus Krepper, Natalia Bobrich, Eric Todd, Ivo Nandi, Johannes Krisch Roteiro: Justin Haythe Fotografia: Bojan Bazelli Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Arnon Milchan, David Crockett, Gore Verbinski Duração: 146 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Regency Enterprises

 

 

Boa noite, mamãe (2015)

Por André Dick

Filme de terror

O gênero de terror sofreu uma transformação principalmente com certa presença de diretores europeus que o mesclaram com o gênero dramático de maneira que houve uma dissolução entre campos habitualmente vistos como diferentes. Os diretores Severin Fiala e Veronika Franz trabalham sobre seu próprio roteiro neste terror que em alguns pontos parece emular Michael Haneke, a começar por Funny games. Haneke é também austríaco e serve como referencial, desde O vídeo de Benny, como um cineasta que transforma o terror e o suspense em elementos de dialogar com uma atmosfera europeia bastante comedida. No filme de Fiala e Franz, são dois garotos gêmeos de 9 anos, Elias (Elias Schwarz) e Lucas (Lucas Schwarz), que estão desconfiados que a mãe (Susanne Wuest), depois de voltar de uma cirurgia plástica com o rosto coberto por ataduras, não é a mesma pessoa. Eles moram numa casa afastada, com uma arquitetura moderna e cercada por um verde de florestas. E a história inicia com os dois correndo em um milharal; crianças correndo num milharal não podem indicar exatamente tranquilidade.
Boa noite, mamãe é o tipo de filme que se assiste com apreensão, e pode-se dizer que pelo menos sua meia hora inicial, também por causa da fotografia de Martin Gschlacht e do design de produção meticuloso, trabalhando com cada detalhe de onde se passa a história, é absolutamente notável. Os diretores criam um suspense que prende o espectador apenas por meio de silêncios e passos nesta casa distante da civilização.

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Elias e Lucas, mais do que nomes com peso religioso, são referências de uma infância também afastada de tudo. É como se tudo trouxesse uma sensação de algo idílico, mas que pode indicar o início de um pesadelo. Eles ficam passeando pelos arredores da casa, procurando novos lugares, e também pela casa, principalmente quando desconfiam que sua mãe voltou para casa ou se é outra pessoa. Nessa espécie de transformação depois da cirurgia, a mãe se transformou numa fantasma? É ela mesma? Como ela seria antes desse momento? As informações passadas pela dupla de diretores é de que ela trabalha como apresentadora de TV, mas não há uma explicação para o fato de ter deixado os filhos em casa, sem ninguém para cuidar. Quem seria a pessoa que dorme no quarto ao lado? Há muitos símbolos espalhados pelo cenário: além do corpo, os insetos (a exemplo das baratas) podem cercar o ser humano e torná-lo mais assustador, como David Cronenberg faria. Talvez a sutileza mais inteligente seja dispor imagens da mãe pela casa, ao mesmo tempo que há imagens de moda constituídas por sombras e uma planta de vaso alta como uma labareda. Mais ainda: seu rosto coberto por ataduras lembra o de uma múmia, que está tentando se conservar viva num ambiente ameaçador. Lançado no Festival de Veneza de 2014 e representante na Áustria ao Oscar de filme estrangeiro em 2015, como outras obras, ele não foi selecionado, certamente pelo material devastador, pouco afeito à Academia. É uma obra estranha: se por um lado parece bela e lírica, tem momentos bastante desagradáveis e até repulsivos.
É aí que Fiala e Franz não controlam os impulsos e se afastam do habitual comedimento de Haneke (não menos assustador). Há uma torção que, mesmo dentro da imponderabilidade a que se permite o filme, faz a narrativa tender a um certo fluxo de opressão exagerado. Ainda assim, se visto dentro do gênero, esse fluxo não deixa de ser menos impactante.Obviamente, o segredo que ele guarda não é aquele que todos imaginam – revelado aos 10 minutos –, ou seja, os diretores não queriam fazer surpresa nesse sentido, mas sim mostrar o comportamento frio diante de uma pressão psicológica incontrolável.

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O talento dos diretores é contrapor uma determinada situação a uma espécie de imaginário de medo ligado à infância, com a figura das árvores, de um bosque onde podem surgir não criaturas, mas uma figura humana sem rosto definido – num dos momentos possivelmente mais assustadores da narrativa. A mãe não vai ao quarto contar fábulas para as crianças: elas a observam com medo, observando na porta. Tudo tem um clima onírico de conto, não exatamente de fadas, e sim de terror mais extremo. Não se sabe o que ela traria de ameaçador, no entanto os irmãos gêmeos têm certeza de que sua mãe não faria as imposições da pessoa que voltou, nem os obrigaria a manterá s cortinas fechadas enquanto ela se recuperasse. Também não há a presença paterna na casa nem se sabe o que aconteceu com ele, e desse modo as crianças procuram um padre na igreja mais próxima. Em outro momento, eles ficam diante de uma imagem religiosa. Ou seja, a analogia entre a paternidade e a figura religiosa é colocada num dos momentos mais significativos de Boa noite, mamãe: quando há o início de uma chuva e finalmente a casa então idílica se mostra mais isolada. O design de som do filme é de um absoluto cuidado, separando cada ação, cada passo dos personagens, e talvez não se exagere quando se vê nele quase um personagem à parte. O que mais chama atenção nesse cuidado com o som e a fotografia é justamente como os diretores contrapõem o escuro e a claridade. No escuro, pode não haver tantos sustos como na claridade, assim como o fogo pode existir sob um céu azul quanto numa noite obscura. E os sonhos de um dos irmãos se constitui nessa revelação de um universo fantasioso dentro da realidade em que estão inseridos. Não sei se eu veria de novo, pela parte final, mas Boa noite, mamãe evoca uma faceta assustadora. Dentro do que se propõe, difícil afirmar que não atende aos requisitos.

Ich seh, ich seh, AUS, 2015 Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz Elenco: Susanne Wuest, Lukas Schwarz, Elias Schwarz  Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz  Fotografia: Martin Gschlacht Trilha Sonora: Ekkehart Baumung Produção: Ulrich Seidl Duração: 100 min. Distribuidora: Playarte Pictures Estúdio: Ulrich Seidl Film Produktion GmbH

Cotação 4 estrelas