Dersu Uzala (1975)

Por André Dick

O diretor japonês Akira Kurosawa não estava conseguindo financiamento para novos projetos depois do fracasso financeiro de Dodeskaden e de ter sido demitido da direção de Tora! Tora! Tora! quando lhe foi oferecida a oportunidade de adaptar um romance de origem russa, escrito por Vladimir Arsenyev. O produtor Yoichi Matsue e seu assistente Teruyo Nogami foram procurados pelo estúdio soviético Mosfilm e interesse entre as ambas as partes se concretizou, apenas sendo solicitado que Kurosawa tivesse liberdade artística. As locações do filme são nas florestas da Sibéria, no entanto a obra, de ponta a ponta, ressoa uma espécie de sabedoria milenar oriental, além de uma lentidão que só ajuda a ressoar melhor cada momento.
A narrativa mostra uma expedição que busca fazer a topografia da região Ussuri, em 1902, comandada pelo capitão Arseniev (Yury Solomin), que acaba encontrando um peregrino, da tribo Goldi, chamado Dersu Uzala (Maximu Munzuk), o qual passa a servir de guia. A princípio visto como uma curiosidade, Dersu vai conquistando o respeito dos soldados, principalmente ensinando como viver em dificuldade em meio à mata selvagem – e se destaca uma cena em que todos praticam tiro contra um determinado alvo – ou em meio ao deserto.

Kurosawa mostra aqui um poder muito grande para captar a essência de um personagem gentil e generoso. Quando ele e o capitão Arseniev se veem ameaçados pela morte, sobre um lago congelado prestes a ser atingido por uma forte nevasca, Dersu precisa colocar em prática uma ação de sobrevivência que ressalta seu contato intrínseco com a natureza. Impressiona como o sol serve como um companheiro neste momento de sobrevivência. Este poder de imagens desempenhado por Kurosawa em seu melhor é uma antecipação não apenas de Kagemusha e Ran, com sua direção de arte e figurino suntuosos, como também de personagens icônicos de Star Wars, a saga de Lucas, a exemplo de Yoda (certamente inspirado por Dersu), e de momentos de dificuldade, como a passagem pelo planeta Hoth. Kurosawa consegue, por meio de uma fábula sobre a amizade, antecipar e criar traços precursores de boa parte dos cineastas contemporâneos quando em contato com a natureza selvagem, a exemplo de Iñárritu em O regresso. Como o diretor mexicano faria em sua obra-prima, Kurosawa confunde a localização do ser humano: ele não se sente pleno nem junto à natureza nem distante dela. É como se não houvesse um meio-termo que pudesse tranquilizá-lo.

Quando há o afastamento do capitão da figura de Dersu, e este contato é retomado em 1907, numa nova expedição, Kurosawa trata não apenas da mudança de tempo como do envelhecimento de um homem e sua tentativa de se manter à frente de sua natureza. Dersu, depois de atirar num tigre, passa a se sentir ameaçado pelo fantasma dele, mesmo que o capitão lhe diga que não conseguiu acertar o alvo. No entanto, é como se ele tivesse cometido um pecado contra a natureza, na qual sempre viveu: matar um tigre, para Dersu, é matar um homem, é desrespeitar a própria condição. A maneira como Dersu muda nesses poucos anos é resultado da própria maneira com que Kurosawa visualiza a passagem de tempo. O personagem, apesar de envelhecido, continua tendo como característica acentuada a sua generosidade, e o capitão o enxerga verdadeiramente como um amigo. Dersu não quer deixar a natureza, enquanto o capitão tenta levá-lo para viver com sua família na cidade grande, criando um contraste ainda maior entre dois ambientes distintos e a inadequação à vida moderna.

Vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 1976 – o segundo do diretor, tendo sido Rashomon o primeiro –, Dersu Uzala é uma das peças mais interessantes da filmografia de Kurosawa e talvez seu principal estudo sobre um personagem, apoiado na belíssima fotografia de Asakazu Nakai (o mesmo de Ran, Trono manchado de sangue e Os sete samurais), Fyodor Dobronravov e Yuriy Gantman – a filmagem foi em 70mm – com uma reflexão incessante sobre a posição do homem diante das mudanças em sua vida. As suas três partes se sentem interligadas de maneira que nunca se facilita a visão de Kurosawa: ele evidentemente utiliza o romance de Arsenyev para traçar sua própria personalidade. Esta mesma personalidade ele mostraria no belíssimo Madadayo, já nos anos 90 e que abre um diálogo claro com esse filme. Mas certamente Dersu Uzala não seria um clássico se não fossem as atuações na medida certa de Yury Solomin e Maximu Munzuk, entre a discrição e uma faceta arrebatadora nos diálogos que travam. O mais interessante é que nunca sentimos que há um confronto entre duas culturas, e sim que elas são complementares: uma não vive sem a outra. É uma espécie de abertura para entender melhor esta obra de Kurosawa, capaz de colocar o espectador em análise essencial sobre seu posicionamento no mundo.

ス ル ス · ウ ザ ー ラ, JAP/União Soviética, 1975 Diretor: Akira Kurosawa Elenco: Aleksandr Pyatkov, B. Khorulev, Dmitri Korshikov, Maksim Munzuk, Mikhail Bychkov, Nikolai Volkov, Sovetbek Dzhumadylov, Suimenkul Chokmorov, Svetlana Danilchenko, Vladimir Kremena, Yuri Solomin Roteiro: Akira Kurosawa, Yuri Nagibin Fotografia: Asakazu Nakai, Fyodor Dobronravov, Yuri Gantman Trilha Sonora: Issak Shvarts Produção: Nikolai Sizov, Yoichi Matsue Duração: 141 min Estúdio: Atelier 41 / Daiei Motion Picture Company / Mosfilm