Os Goonies (1985)

Por André Dick

Os Goonies.Filme 2

Durante a década de 1980 – mais especificamente entre 1984 e 1985 –, Steven Spielberg, além de ter realizado filmes antológicos, produziu peças únicas. São filmes que remetem aos recentes Super 8 e Cowboys e aliens, mas com um fôlego mais remanescente. Apesar de ter produzido outros sucessos naquela década, como Poltergeist (1982), Fievel (1986), Uma cilada para Roger Rabbit (1988) e Querida, encolhi as crianças (1989), foi nesses anos que Spielberg compôs, e que faria acréscimo a E.T., uma espécie de imaginário da infância e da adolescência, referenciado em cidadezinhas dos Estados Unidos ou em microcosmos de um detetive antológico.
Em 1984, ele produziu Gremlins, por exemplo, em que se mostra uma cidadezinha do interior sendo invadida por monstrinhos. Em 1985, por sua vez, em O enigma da pirâmide, o diretor Barry Levinson (Rain man), juntou-se com Spielberg para fazer uma adaptação juvenil das histórias de Sherlock Holmes e seu fiel companheiros das histórias de Conan Doyle, Watson, na qual se revela como eles se conheceram num colégio de Londres e como se deu seu primeiro caso, envolvendo casos estranhos, relacionados com um dardo venenoso que leva as vítimas a terem alucinações, e reunidos numa diversão que, à época, não teve grande público, mas acabou se tornando cultuada, também em razão de sua qualidade visual e de trama bem construída.
Entre a cidadezinha escondida de Gremlins (mas não devemos esquecer aquela em que mora Marty McFly em De volta para o futuro) e o lado detetivesco de Sherlock Holmes (mas também das histórias de capa e espada de Errol Flynn), tivemos finalmente Os Goonies, com roteiro do mesmo Chris Columbus de Gremlins e O enigma da pirâmide, pode ser vista a marca do produtor Steven Spielberg: elenco, roteiro e fotografia. Ainda tem como diretor Richard Dooner, capaz de fazer quase sempre diversões inteligentes (como Superman, Ladyhawke e a série Máquina mortífera). Com muita ação, elenco de crianças, canção marcante dos anos 80 (a cargo de Cindy Lauper) e uma história de mapa do tesouro, remetendo à infância, Os Goonies pode ser facilmente confundido como uma espécie de montanha russa, que hoje poderia vender muitos bonecos. No entanto, a nostalgia dele é mais intrínseca.

Os Goonies.Imagem 7

Os Goonies.Filme 3

Depois de uma abertura dinâmica, em que os personagens são apresentados ao mesmo tempo em que acontece a perseguição da polícia a um mafioso que está fugindo da cadeia com a ajuda da mãe e do irmão, chegamos à casa de Mikey (Sean Astin), um garoto asmático, irmão de Brandon (Josh Brolin), que não conseguiu tirar sua carteira de motorista. No sótão de sua casa, Mikey encontra um mapa de tesouro, com inscrições em espanhol, do pirata Willy Caolho, junto com sua turma: há um minigênio, Dado (Quan), um gordinho, Bolão (Cohen), e um mentiroso compulsivo, Bocão (Feldman). Eles vivem nas Docas Goon, de Astoria, e, como suas famílias serão em breve despejadas de casa por não pagarem os impostos, eles resolvem procurar o tesouro. Em sua jornada, eles encontram duas meninas, Andy (Kerri Green) e Stef (Martha Plimpton), que entram sem querer na busca e enfrentam uma família de criminosos, justamente aquela que estava sendo perseguida nos primeiros minutos, os Fratelli (tendo a excelente Anne Ramsey como mãe e líder e os filhos interpretados por Robert Davi e Joe Pantoliano). Eles escondem, no porão de uma restaurante abandonado à beira da praia, além de uma máquina para falsificação de dinheiro, um irmão que tentam ignorar, Sloth (John Matuszak), alimentado com pratos de comida indesejáveis. Para essa casa, o grupo de jovens se dirige, sem saber, claro, que ela esconde também uma passagem para o tesouro que procuram, com catacumbas cheias de morcegos e passagens imprevisíveis. Os Fratelli acabam aprisionando Bolão e, depois de um interrogatório, conseguem obter a informação de que é procurado um tesouro.
No entanto, essa jornada também reúne outros componentes: um é, claramente, a despedida da infância, no interesse de Mike por Andy, pretendida pelo irmão, e de Bocão por Stef (este mais subentendido), e as confusões entre os personagens no que dizem respeito a abandonar o local de origem e à despedida da bomba de ar. Não há dúvida de que Donner sucumbe, em muitos momentos, a uma espécie de Indiana Jones e o templo da perdição mais infantojuvenil (mesmo pela presença de Dado, o Short Round) e com picos de 007, pela bugiganga de invenções que carrega. Ainda assim, onde inicia o exagero, ele consegue logo encadear uma diversão, como naquele momento em que eles passam por baixo de um banheiro do clube pertencente às famílias ricas da cidade – as quais também querem despejá-los –, representadas por Troy (Steve Antin), e seu pai, Elgin Perkins (Curtin Hanson), ou embaixo de uma fonte dos desejos, em que as moedas são vistas como moeda de troca para que as casas dos pais não sejam vendidas e, irremediavelmente, ninguém se mude e a infância possa ganhar mais um tempo adiante. Os Fratelli, em determinado momento, passam a se encarregar da parte ao mesmo tempo assustadora. É evidente que em muitos momentos a vilania deles é exagerada, parecendo uma condescendência com o universo infantojuvenil, e que alguns personagens soam um tanto esquemáticos em algumas situações.

Os Goonies.Filme 7

Os Goonies.Imagem 9

De qualquer modo, Os Goonies consegue estabelecer um padrão de qualidade principalmente porque nenhum dos personagens chega a ser estereótipo. Donner sabe delinear cada um com determinada personalidade e sempre estamos diante de crianças, e não de miniadultos repetitivos, mesmo que cercados de pais um tanto desligados, e a peregrinação de Bocão com a mãe de Mikey (Mary Ellen Trainor) no início do filme, com a empregada que fala apenas espanhol (Lupe Ontiveros), é um exemplo, como caberia bem igualmente num filme de John Hughes.
Também por causa do elenco. Destaque-se que, além de atores conhecidos nos anos 80, como Feldman e Ke Quan, Os Goonies apresentou nomes que acabaram se mantendo, como os de Sean Astin (que faria Sam, em O senhor dos anéis), Brolin (de inúmeros filmes, a exemplo de Onde os fracos não têm vez e Wall Street – O dinheiro nunca dorme) e Plimpton (que estrela a série de TV Raising Hope).
Nesse sentido, como poucos filmes, Os Goonies tem o intuito de retratar uma determinada geração, como Spielberg tinha a sua. Lá estão as nostalgias dos filmes de piratas, monstros e a ação como em uma parque assustador, com catacumbas se abrindo e as crianças fugindo para um lugar onde os pais não representam a referência imediata, e sim a fantasia. É difícil negar o interesse que Os Goonies desperta sobretudo a partir dessas nostalgias, com sua vista para o mar num dia de inverno, árvores se agitando, bicicletas em curvas sinuosas de uma estrada à beira de uma baía, o acolhimento num esconderijo que pode causar também outros direcionamentos para a jornada, os sustos e os enfrentamentos com quem deseja, de algum modo, interromper a infância em curso. Há algo nele que é substancialmente ingênuo e essencial para a compreensão das próprias histórias, reais ou inventadas.
Daí, para Spielberg, e esses filmes esclarecem bem, as aventuras maiores estão concentradas em personagens que moram em cidades distantes ou para as quais ainda não há espaço – como as descobertas detetivescas de Sherlock Holmes. Depois delas, é certo que se abriu um nicho para novas produções, mas dificilmente com a mesma autencidade.

The Goonies, EUA, 1985 Diretor: Richard Donner Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Mary Ellen Trainor, Lupe Ontiveros Produção: Harvey Bernhard, Richard Donner Roteiro: Chris Columbus Fotografia: Nick McLean Trilha Sonora: Dave Grusin Duração: 115 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment

Cotação 5 estrelas


Lincoln (2012)

Por André Dick

Lincoln.Spielberg

Desde o ano passado, Spielberg vem tentando voltar à forma dos dramas que apresentou com talento nos anos 80 e nos anos 90, apenas repetida recentemente em Munique. No entanto, em Cavalo de guerra, era impedido por uma necessidade de soar emocionante, o que bloqueava qualquer tentativa de ser efetivo no seu objetivo de mostrar a amizade entre um menino e um cavalo que partia para a guerra. Ficou a sensação, também com As aventuras de Tintim, de que Spielberg é um diretor especialista mesmo em aventura e diversão, nunca descartável. Este ano, já com todas as críticas feitas, e mesmo com a indicação ao Oscar de melhor filme de Cavalo de guerra, Spielberg tenta apresentar sua faceta mais comedida. Nunca se viu, em toda sua trajetória, um filme tão sóbrio quanto Lincoln, e John Williams, que colocou sua orquestra em vigília em Cavalo de guerra, aqui tenta, no máximo, dar um acompanhamento sonoro muito discreto às imagens. É visível ser um projeto planejado por Spielberg durante muito tempo. Um cineasta com capacidade de selecionar e abandonar projetos, mas nunca esquecê-los totalmente, ele se baseia desta vez num roteiro de Tony Kushner e se envolve num tema muito difícil em sua filmografia: a política. Se em Soldado Ryan, há um pouco de discurso patriótico, e em A lista de Schindler uma compreensão histórica do Holocausto, a política podia ser vista como elemento mais significativo apenas no subestimado Munique.
Já na sequência inicial, com Lincoln perguntando a dois soldados negros sobre a trajetória deles, Spielberg anuncia que o presidente norte-americano pretende tanto ouvir quanto, principalmente, fazer-se ouvir. O que se passa em quase duas horas e meia seguintes é justamente isso. Na persona de Abraham Lincoln, Daniel Day-Lewis é um ator novamente extraordinário, embora, importante lembrar, aqui não alcance Joaquin Phoenix, em O mestre. Habituado a compor tipos específicos (ganhou o Oscar por Meu pé esquerdo e Sangue negro, tendo sido indicado, entre outros, pelo açougueiro de Gangues de Nova York), Day-Lewis consegue transformar o presidente republicano num homem ao mesmo tempo humano e falho, mas decidido a aprovar a 13ª emenda, que trata da abolição dos escravos, esclarecido já num diálogo inicial com sua esposa, Mary Todd (a não menos notável Sally Field). Nesse sentido, Spielberg coloca o personagem num momento decisivo para o destino dos Estados Unidos: a Guerra Civil Americana traz milhares de mortos e sabe-se que é preciso terminar com ela e evitar que os estados escravistas se sobressaiam com algum recurso.

Lincoln 5

As reuniões de gabinetes, com conselheiros e integrantes do governo, têm o intuito de conseguir votos da oposição no Congresso para que se concretize a aprovação da 13ª emenda. Obviamente, trata-se de uma prática de persuasão e de favores, e Spielberg consegue elaborar isso de maneira incisiva e que não coloca o ex-presidente norte-americano simplesmente com sua imagem mítica. Com a colaboração decisiva do secretário de estado William Seward (David Strathairn), e do deputado Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones, cuja interpretação, apesar de boa, não se equivale às de Cristoph Waltz e Phillip Seymour Hoffman), que representa o discurso pelo abolicionismo, Lincoln apresenta, em seus bastidores, também outro caminho. Do outro lado, os democratas são representados primeiramente por Fernando Wood (Lee Pace) e George H. Pendleton (Peter McRobbie), e revelam a faceta menos convicente de Lincoln: um certo maniqueísmo de que os vilões são maquiavélicos e despreparados para qualquer reviravolta.
Há alguns homens, não aproveitados na medida certa, que percorrem os balcões dos deputados atrás da aprovação e não podem ser descobertos (John Hawkes, Tim Blake Nelson e um quase irreconhecível James Spader), e, enquanto Lincoln tenta convencer sobre a importância da mudança histórica, temos seu filho, Robert (Joseph Gordon-Levitt), que pretende participar a todo custo da guerra, em conflito com a indiferença paterna, com suas atenções para o filho pequeno, Tad (Gulliver McGrath). Há, no relacionamento de Lincoln tanto com a mulher, conflituoso, em razão da morte de outro filho, por febre tifoide, quanto com Robert uma espécie de diálogo de Spielberg com outras obras suas.  No entanto, alguns filmes dele tratavam o tema com autoindulgência, como Hook – A volta do Capitão Gancho, Inteligência artificial e Guerra dos mundos. O que se sobressai, sob outro ponto de vista, é a necessidade de Lincoln demonstrar sua retórica. No momento em que dialoga com Taddheus, representante do governo a respeito da emenda, num porão, ele ingressa nas decisões políticas, mas em outros momentos ele quer se mostrar a todos. Insistentemente, quase não há emoção, e mesmo se tem uma espécie de frieza, o que não impede de Spielberg fazer uma aproximação do rosto do presidente, como se outro discurso a ser ouvido fosse se sobressair. A emoção, neste caso, acaba sendo substituída pelo maneirismo e cansando, mas sem prejudicar a atuação de Day-Lewis. Desta vez, Spielberg evita o que mostrava de modo excessivo em Cavalo de guerra, ao mesmo tempo em que é um cineasta notável quando quer, com suas características bem dosadas, como em A cor púrpura.

Lincoln.Daniel Day-Lewis.Sally Field

Spielberg

Lincoln também evita mostrar a situação dos escravos, concentrando-se nas relações travadas pelo presidente para que sua emenda fosse aprovada. Isso acaba conferindo, em parte, uma agilidade nas discussões, entretanto, pelo excesso de cenas dentro de salas, gabinetes e da Câmara dos deputados, sem espaço para as cenas de batalha (vistas de maneira distanciada), parece que a vida íntima ou política está distanciada da realidade, que, para Lincoln, ao que se parece, pelo menos nos quatro meses retratados no filme (o que não o torna um registro exatamente biográfico), se encerra na ópera. Também há cenas que poderiam ser expandidas e relacionamentos melhor trabalhados, como o dele e seu filho. Pelo contrário, Spielberg, aqui, acaba afastando-se completamente de qualquer tentativa, como se soubesse que, penetrando esse terreno, poderia voltar a seus excessos. Quando precisa conversar sobre a vontade de o filho se alistar na guerra, Lincoln é incapaz de um gesto que estende a outras pessoas. Ou quando conversa com Elizabeth Keckley (Gloria Reuben), que assessora a sua mulher, com sua pontada antirromântica e melancólica, não menos perdida do que aquela que mostra quando procura alguns deputados. Trata-se, particularmente, de um caminho interessante: para Spielberg, inserido em meio a reviravoltas históricas, querendo atenuá-las com piadas e casos, Lincoln também tinha necessidade de se afastar da realidade. Só isso explica o paradoxo de falar numa democracia que foge ao caos depois de tudo o precisou fazer e antes de passar por soldados mortos em batalha. Esse afastamento da realidade, porém, atinge o filme de Spielberg: em alguns momentos, os personagens são arquétipos e as situações (como algumas ocorridas na Câmara), simplesmente forçadas demais, como se alguns estivessem prontos para finalmente reconhecer as pretensões de Lincoln (“Sim, ele tinha razão!”), sob a contagem dos votos da primeira dama em seu caderno, o que soa, em certa medida, desnecessário.
Mesmo assim, e com sua excessiva frieza, Lincoln é uma visão histórica que merece respeito. Difícil imaginar outra produção com uma reconstituição de época tão detalhada, e isso vai do figurino, passando pela direção de arte, até a fotografia mais uma vez brilhante de seu habitual colaborador, Janusz Kaminski. O modo como ele apresenta a paleta de cores própria do filme, fazendo a cor da terra dialogar com a do céu e os uniformes dos personagens, assim como a luz vazando pelas janelas ou atravessando a cortina, remetendo ao trabalho de Vilmos Szigmond em O portal do paraíso, torna-se, em certa medida, um dos principais motivos do êxito dramático de Lincoln. Spielberg aproveita este elemento para tornar algumas imagens muito próximas de uma pintura histórica, como aquela em Lincoln e sua esposa estão conversando na sala, à noite, ou quando o seu filho caminha para se deparar com uma cena revoltante e o sol ilumina o prédio por trás dele. Grande parte dessa relevância histórica se deve, em igual intensidade, ao respeito evidente de Day-Lewis pelo personagem. Sabe-se que ele não havia aceitado inicialmente a proposta de participar do projeto por não se considerar à altura, tendo sido convencido por Spielberg. É realmente um acerto a sua presença e passa a ser difícil imaginar outro Lincoln como ele. A maneira como ele fala ou caminha, com o corpo um tanto curvado, com poucos gestos, empresta humanidade ao filme. A conversa que ele tem com outros dois telégrafos, além de nunca se repetir com o filho, também é primorosamente contida pela fala de Day-Lewis, mas ao mesmo tempo demonstra um deslocamento por acreditar numa espécie de mudança que escapa à sua presença e deve ser interpretada como histórica. Figuras como Lincoln acabam tendo uma espécie de sobrevida justamente pelo caminho que apontaram, nem que não sejam tão importantes, para os que estavam em torno, como a medida histórica que os cercava. Um homem incapaz de solucionar o que está em torno e precisa abraçar o filho olhando um livro infantil parece ser a premissa de Lincoln e seu sentido não apenas de grandiosidade, e para isso não precisa ser um mito, como também de recolhimento.

Lincoln, EUA, 2012 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, David Strathairn, Michael Stuhlbarg, Jackie Earle Haley, Gloria Reuben, Adam Driver, Jared Harris, James Spader, Lee Pace, Gulliver McGrath, Walton Goggins, John Hawkes, David Oyelowo, Hal Holbrook, Tim Blake Nelson, Peter McRobbie Produção: Steven Spielberg, Kathleen Kennedy Roteiro: Tony Kushner, John Logan, Paul Webb, baseado na obra de Doris Kearns Goodwin Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 150 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Amblin Entertainment / DreamWorks SKG / Imagine Entertainment / Reliance Entertainment / Participant Media / The Kennedy/ Marshall Company / Twentieth Century Fox Film Corporation / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia

As aventuras de Tintim (2011)

Por André Dick

As aventuras de Tintim 4

Tintim é um menino repórter com característica detetivesca, enquanto Indiana Jones era um arqueólogo. Foi justamente depois de Os caçadores da arca perdida que Spielberg tomou conhecimento do personagem de Hergé, ao qual compararam Indiana (em 1983, Spielberg iria conhecer Hergé durante as filmagens de Indiana Jones e o templo da perdição quando este veio a falecer). Spielberg, no entanto, havia prometido ao criador do Tintim que adaptaria as aventuras do personagem para o cinema. O resultado é surpreendente, com potencial para resultar em várias imitações e continuações (apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos). A animação é feita sobre atores reais, mas nem por isso deixa de ser animação: pelo contrário, parece ser uma animação ainda mais densa (não lembro de outro desenho que tenha tanta profundidade nas imagens, quanto aos detalhes e à ambientação). Não há como comparar Tintim com desenhos recentes e sem o mesmo toque de criatividade, apenas tentando ingressar no que a Pixar e a Disney entregaram em momentos altos.
Os caçadores, como se sabe, é a aventura que consagrou o arqueólogo Indiana Jones como o herói da década de 1980, uma espécie de 007 sem sustentação política que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula, ele vai em busca da arca perdida, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês Belocq, ele ainda arranja tempo para namorar a divertida heroína (Karen Allen, que regressaria em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), que reencontra num bar com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas. As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina e, por isso, apesar de parecer simples, é um personagem complexo. Ele e, claro, seus medos: de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda.

As aventuras de Tintim

As aventuras de Tintim 2

Tão bom ou melhor que os antigos seriados de TV, arrebatou cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de George Lucas e Phillip Kaufmann, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e músico (mais um trabalho irrepreensível de John Williams).
Tintim (Jamie Bell), que para Spielberg é um reingresso naquele universo de Os caçadores da arca perdida (e não tanto da série Indiana Jones subsequente), para descobrir um mistério relacionado à réplica em miniatura de um galeão, vai até um navio de verdade, com seu cão Milu, encontrando o capitão Haddock (com movimentos de Andy Serkis captados para a transformação em desenho), que passa quase o tempo todo sem sobriedade alguma. Além do seu humor, Haddock é a peça-chave para conectar o passado e o presente, histórias de piratas e tripulações, mas, sobretudo, de um mistério familiar. Depois, enfrentam o mar e o deserto, além do vilão Sackharine (Daniel Craig). A maneira como Spielberg lida com a amizade de Tintim e Haddock é, aliás, exemplar. Ambos os personagens mostram as aspirações deste universo entre o desconhecido e o real, e representam parte da trajetória de Spielberg: entre o menino curioso em descobrir detalhes que possam levá-lo a um tesouro (o que já vimos em Os Goonies) e um personagem como Haddock, que precisa encontrar seu passado e sua herança familiar para, enfim, conseguir mais clareza em sua trajetória, o que acontece numa fabulosa viagem pelo Saara, com uma ação inesgotável.
Enquanto os personagens centrais vão parar em lugares diferentes, uma dupla de detetives, Dupond e Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), em Bruxelas, investiga quem pode ser um batedor de carteiras. Esta faceta de humor é dificilmente encontrada na trajetória de Spielberg (apenas quando o roteiro não costuma ser dele, como na série Indiana Jones ou em E.T. – O extraterrestre). Contudo, lá está Milu, um cãozinho com destreza capaz de dialogar com aquele que desconfia da presença do extraterrestre na casa de Elliott. E lá estão os vilões que não querem deixar o personagem sossegar e, muito mais, como a família Fratelli, em Os Goonies, não estão para brincadeira.

As aventuras de Tintim 5

Há, também, uma parte do filme passada no Marrocos que evoca a parte de Os caçadores passada no Egito, inclusive com a cenografia semelhante, captada pela fotografia notável do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, e a trilha de John Williams (que ressoa a de Prenda-me se for capaz).
Além do humor, seu excesso de ação garante boa diversão – é de se lembrar, também, a presença de Peter Jackson, de O senhor dos anéis, na produção. Alguns reclamam que o personagem principal não tem vida, ou não se tem nenhuma informação sobre sua família, ou o que a ação é absolutamente inverossímil, mas na verdade se esquece que estamos diante de uma fantasia, em que os personagens de Hergé ganham vida em estilo adequado e, embora não totalmente fiel (pois Spielberg também emprega suas características na montagem da narrativa), ainda assim adequado. Talvez nenhum outro cineasta conseguiria adaptar tal personagem como o faz Spielberg. Como Indiana Jones em 1981 – cujo lado familiar só viria mais à cena em Indiana Jones e a última cruzada.
Excetuando algumas sequências de maior violência para as crianças, este filme de Spielberg é um dos seus melhores nos últimos anos (talvez encontre correspondência apenas com suas peças dos anos 80, excetuando, recentemente, Prenda-me se for capaz). Além disso, para quem pode assisti-lo em 3D, pôde ver o quanto ele foi bem utilizado, ao contrário de em outros filmes, visando apenas o comércio. É impressionante como Spielberg consegue converter em espetáculo o que costuma ser apenas um acréscimo, e como consegue ser mais efetivo do que em Cavalo de guerra, com seu classicismo mal elaborado e mesmo, sem soar pejorativo, antiquado, e como lida melhor com a aventura do que em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Tintim representa o reencontro de Spielberg com a vertente que o tornou conhecido e reconhecido.

The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA/Nova Zelândia, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes Produção: Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 108 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / The Kennedy/Marshall Company / WingNut Films / Columbia Pictures / Paramount Pictures / Nickelodeon Movies / Hemisphere Media Capital

Cotação 4 estrelas

 

Super 8 (2011)

Por André Dick

Produzido por Spielberg e assinado por J.J. Abrams, Super 8 tem o intuito de mostrar proximidade com os filmes juvenis do primeiro dos anos 80 (E.T., Os Goonies, Gremlins), sob um olhar contemporâneo. Abrams, conhecido por ser o criador de Lost, mas também principal responsável pela retomada de Jornada de estrelas (com um filme melhor do que a série de cinema dos anos 1970-1980) e da terceira parte, subestimada, de Missão impossível, não consegue transformar o monstro que os meninos do filme perseguem num personagem à parte – ele não é o foco, e sim o que desencadeia a ação –, entretanto é certo que sua maneira de filmar e lidar com os personagens tem muitas qualidades.
Os meninos que ele mostra no filme realmente têm vida e se movimentam numa fábula adulta sustentada pelos efeitos especiais competentes e algumas cenas semelhantes às de de Jurassic Park, em alguns momentos, mais do que de outros filmes de Spielberg, mas situados numa cidade de interior do Ohio, Lillian, em 1979, onde quase nada acontece – a não ser o que mais importa para uma turma de crianças.
Ou seja, Super 8 é bem melhor do que se poderia esperar do que é apontado como uma diluição. Sobretudo porque deseja contar, por meio de uma narrativa que mescla ficção e realidade, sobre a perda, situando-se nos anos 1970, quando uma cor amarela em triste tom, melancólica, predominava – e ele aparece na cor do carros, jaquetas, no luminoso de um posto de gasolina, no uniforme de um eletricista – e ao ritmo de “My Sharona”, de The Knack. O menino Joe Lamb (Joel Courtney, em atuação natural e destacada) – que evoca, talvez, Joe Dante, diretor de destaque dos anos 80, de filmes como Gremlins e Viagem ao mundo dos sonhos – acaba de perder sua mãe e vive com seu pai Jack (Kyle Chandler), policial que não consegue superar o fato. A mãe de Joe teria morrido porque um funcionário, Louis (Ron Eldard), faltou a seu turno e ela o substituiu. O velório acontece no inverno. Pai e filho não têm boa relação, e depois de 4 meses, já no verão, Jack quer enviá-lo a uma colônia de férias e para afastá-lo dos amigos que só pensam em fazer filmes sobre zumbis, como ele diz.
Os amigos são Charles (Riley Griffiths), que deseja ser um cineasta, Cary (Ryan Lee) e Martin (Gabriel Basso), além da menina Alice Dainard (Elle Fanning, excelente) – filha de Louis.

Numa noite, escondido do pai, Joe Lamb recebe contato de Charles, às 12:02 da madrugada (os números não são deliberados: eles correspondem à data de aniversário de Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos, que lutou contra a escravidão e teve a Guerra Civil Americana como um dos acontecimentos de seu governo).
Quando eles estão filmando, com super 8, uma cena numa estação de trem, acontece o descarrilamento dele e a escapada de uma estranha criatura – que, a princípio, eles não veem. Esta cena é uma das mais bem feitas dos últimos tempos – uma explosão sonora e de imagens que realmente impressiona. Os meninos passam a querer descobrir o que havia exatamente no trem, pois um professor deles, Woodword, foi quem causou o acidente e o exército invade o local, tendo à frente a figura de Nelec (Noah Emmerich).
Joe acaba se apaixonando por Alice, que no filme interpreta uma moça que virou morta- viva e é ela que estabelece o elo entre a perda de Joe, a culpa de seu pai – que quer cuidar da cidade, embora não consiga, de fato, cuidar do seu único filho – e uma renovação. Neste ponto, há uma revalorização da família, as lembranças da mãe do menino, o encontro do primeiro amor adolescente e a tentativa de lidar tanto com a perda da mãe quanto o que se denomina de amor infantojuvenil – em meio a acontecimentos estranhos na cidade (como o desaparecimento de cães, do delegado, depois de um ataque num posto de gasolina), explosões e fogos que evocam outro acontecimento marcante dos anos 70, a Guerra do Vietnã, encerrada quatro anos antes de quando se passa Super 8 (cuja narrativa inicia no inverno e salta para o verão, exatamente quatro meses depois) mas cujas cicatrizes, naquele momento, ainda eram recentes.
Se é verdade que esses garotos passam quase todo o tempo falando de como farão seu filme, discutindo efeitos especiais com trens de brinquedo, e sobre a maquiagem dos mortos-vivos (uma expressão mais adequada do que “zumbis”, apesar da homenagem clara a George Romero), Abrams quer mostrar um mergulho desse universo tranquilo, de uma cidade pacata, na violência da guerra que já terminou, ainda que continue presente – para capturar um monstro, os militares não hesitam em invadir a cidadezinha de Lillian e mesmo incendiar árvores, fingindo um desastre da natureza. Em certo momento, Jack, pai de Joe, dirige-se a outro personagem: “Foi um acidente”, repetindo, em seguida, a mesma frase. Não dá a impressão de que isso acontece à toa e não é simplesmente referência a algo que aconteceu no filme: para os Estados Unidos, assim como o descarrilamento do trem, com sua pirotecnia de explosões e vagões voando pelos ares, a invasão ao Vietnã – que ajudou a extrair momentos de mais tranquilidade nos subúrbios americanos – é vista como tal (as únicas menções ao Vietnã surgem no curta-metragem que os garotos gravam, quando Joe Lamb atua como um oficial que chama outro porque teriam servido juntos no Vietnã, uma “época difícil”). Numa reunião comunitária, depois dos acontecimentos estranhos, uma mulher afirma que só pode ser “uma invasão dos russos”.

Ver a realidade, nos anos 70, era, sem dúvida, se deparar com uma guerra distante que afetou de sobremaneira os Estados Unidos. E, no caso de Joe, é recordar a morte de sua mãe. Nesse sentido, o monstro é uma metáfora desta tentativa de despedida do personagem para superar seja a perda pessoal ou histórica: Abrams o coloca no subterrâneo de uma cabana localizada num cemitério. Joe precisa superar o medo de outra perda e resgatar quem lhe dá acesso a uma nova camada de vida.
Esta divisão entre o universo das filmagens e o da realidade é o que move Super 8. Os personagens querem se relacionar, porém essa relação se dá sobretudo em frente ao projetor de filmes e à televisão: especificamente, em três situações – quando Joe e Alice conversam sobre o que aconteceu à mãe dele e quando Joe e seu amigo descobrem que as imagens gravadas na plataforma de trem guardam mais do que eles haviam imaginado até então. Ou quando Charles está vendo o noticiário sobre o descarrilamento de trem e se vira para Joe: “Se noticiaram, é real”, como se tudo pelos quais eles passam tivesse de ter uma conotação cinematográfica. Assim, o filme de Abrams questiona a própria realidade fora do filme que esses garotos estão fazendo – e vemos ela se desenhar nos pôsteres de Star Wars do quarto de Joe Lamb. Eles estão sempre visando a fantasia, ao contrário de algumas figuras mais velhas, como o delegado, que não se interessa na novidade que lhe é mostrada pelo funcionário da loja de conveniência de um posto de gasolina: o toca-fitas em que toca “Heart of glass”, de Blondie, banda típica desse período.
Consequentemente, os personagens de Super 8 parecem estar em busca de um novo mundo, ao mesmo tempo que querem manter a segurança de suas vidas – e, mesmo que alguns deles não sejam desenvolvidos da maneira mais apropriada, nos interessamos no andamento. O novo mundo é representado pelo cinema de forma definitiva: Joe, em seu quarto, cria bonecos e um universo à parte. A maneira que se aproxima de Alice é ao conseguir fazer a maquiagem nela – e convencê-la a participar de toda a realização do filme. Isso, no entanto, a partir de determinado momento, não é mais possível – não tanto pelas crianças terem perdido seus sonhos, mas porque, afinal, é preciso, de um modo ou de outro, crescer (todas elas, nesse sentido, têm muito de Elliott, o personagem de E.T.), sem perder o ímpeto da descoberta. Do mesmo modo, a movimentação em torno da família é resquício de uma época mágica – como correr em torno da televisão ou montar maquetes pelo simples motivo de vê-las em pé, mesmo sem funcionamento. Para Abrams, porém, em algum momento deve-se saltar da tela para a realidade.
Com uma reconstituição perfeita dos anos 1970, montagem acelerada, trilha sonora de qualidade de Michael Giacchino (sobretudo nas escalas mais sentimentais), e poucos closes no monstro, para encobrir do que se trata – o monstro, na verdade, sai à noite, e entendemos ao final o motivo –, é um filme que cumpre o que promete. Abrams não engana o espectador ao recontar, em Super 8, a história de toda uma geração e de uma história que, afinal, perderia o encanto.

Super 8, EUA, 2011 Diretor: J. J. Abrams Elenco: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler, Ron Eldard, Noah Emmerich, Joe Courtney, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills Produção: J. J. Abrams, Bryan Burk, Steven Spielberg Roteiro: J. J. Abrams Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 112 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Amblin Entertainment / Bad Robot / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

Cavalo de guerra (2011)

Por André Dick

Conhecido por entreter as plateias, seja com drama, seja com aventura, seja com humor e suspense, Steven Spielberg é um dos maiores cineastas da história. Sua lista de acertos – também como produtor – excede qualquer quantidade de falhas (são poucas, mas das mais variadas formas). É inevitável pensar o que pode ter atraído um nome como ele para este projeto Cavalo de guerra, baseado em livro de Michael Morpurgo (publicado em 1982, mesmo ano em que o diretor realizou sua obra máxima, E.T. – O extraterrestre), que parece ter sido filmado nos períodos de folga de As aventuras de Tintim – ou seja, sem a mesma dedicação dada a este. Certamente, trata-se de uma história que renderia bons momentos, lembrando O corcel negro, por exemplo, se o cineasta estivesse interessado. Estão lá vários elementos: o conflito com a família, o encontro com um ser que pode mudar a vida do personagem, a separação e o possível reencontro. Nesse sentido, com todos elementos de que gosta, surpreende ver um Spielberg tão desinteressado e desinteressante, incapaz de mostrar uma cena sequer de simpatia entre os personagens, um de seus elementos fortes, mesmo quando a história costuma se encaminhar para o sentimentalismo. Parece uma espécie de Spielberg genérico, produzido pelos estúdios Disney, tentando retratar um universo que já lhe interessou em outros momentos – e ainda interessa, quando pretende desenvolvê-lo – e mesmo incapaz de fazer o que mais é de seu talento: desenvolver uma história envolvente.
Em Cavalo de guerra, a começar pelo astro juvenil, Jeremy Irvine, inexpressivo (difícil imaginar por que Spielberg, especialista em apresentar atores jovens, o escolheu), o elenco não consegue se sobressair em grande parte. Possivelmente seja porque a história em momento algum se sustente. Trata de um jovem, Albert Narracott (Irvine), que mora com a mãe, Rose (Emily Watson, uma ótima atriz, aqui apenas deslocada), e o pai alcóolatra, Ted (Peter Mullen, sem chance de aparecer). Este acaba comprando um cavalo por um preço acima do normal, a fim de que ele faça a aragem da fazenda. Ameaçado pelo dono de casa, Lyons (David Thewlis), de ser expulso, ele a princípio tenta matar o cavalo rebelde, que começa a ser chamado de Joey, mas seu filho o convence de que devem ficar com o animal. O cavalo acaba fazendo o trabalho, porém, quando inicia a I Guerra Mundial, é vendido para um oficial inglês, capitão Nicholls (Tom Hiddleston, de Meia-noite em Paris e Os vingadores, sem dúvida o melhor do elenco e um sinal do que o filme poderia ter sido). Ele promete à Jeremy que vai cuidar do cavalo, o que prometeria boas cenas de expectativa de um possível reencontro ou não – embora, digamos, que essa ligação seja logo rompida, fazendo Spielberg se perder completamente.

O filme, daí em diante, torna-se episódico, passado em lugares diferentes, com personagens distintos, e talvez esta seja sua grande falha. Não há nenhum envolvimento com a ação e com os personagens, pois não temos tempo necessário (mesmo com a metragem excessiva) de conhecê-los, e o roteiro é de uma limitação bastante surpreendente. Sejam os irmãos desertores, seja o avô que vive com a neta numa fazenda, tentando esconder os horrores da guerra que está iniciando, os personagens não adquirem, em momento algum, vida, mesmo em contato com Joey – o símbolo da natureza em meio a uma época bélica, de tanques e armas –, o que era de se esperar do cineasta que lida com eles, e não é possível responsabilizar, nesses casos, o elenco, mas os diálogos, a trama propriamente dita.
Sabemos que Spielberg recorre a sínteses em seus filmes: os personagens de repente passam a agir de determinada maneira porque o filme se encaminha para o final, e o diretor não quer mostrar seus conflitos. Em Cavalo de guerra, isso acontece exatamente o tempo todo, desde o início, quando o vilão é de um maniqueísmo sem sentido e o jovem que quer ensinar o cavalo é apenas um sonhador em meio a uma paisagem bucólica. Isso não seria um problema, se soubéssemos algumas de suas motivações. Pelo contrário, Spielberg não as explica e fica bastante incomodado de precisar contar uma história em que, pelas imagens, parece desacreditar. Ao mesmo tempo, quando acompanhamos o destino de Joey, o destino de seu antigo dono, Albert, é simplesmente esquecido, chegando ao ponto de, em certa altura, quase esquecermos do personagem ou de sua pretendida relevância para a narrativa. Tanto que sua ligação conturbada com o pai não tem o propósito adequado diante do restante da narrativa.
A reconstituição de época – sobretudo da fazenda da família de Albert – e a fotografia de Janusz Kaminski parecem os grandes destaques, mas em se tratando de um filme de Spielberg é muito pouco, até porque são detalhes muito referenciais a um cinema clássico (como em determinado momento em que é copiado o plano de …E o vento levou). Mesmo a trilha sonora de John Williams é um dos trabalhos mais fracos de sua carreira. Já no início, não entendemos por que, quando a história recém inicia, há escalas musicais de épico, quando as cenas não correspondem ao que é sonorizado. Junto a isso, Spielberg usa a fotografia para disfarçar as limitações da história, o que nunca é um bom prenúncio. Há sequências, claro, de acordo com o talento do cineasta: a primeira batalha entre ingleses e alemães é impressionante pelo nervosismo que Spielberg coloca quando faz close em alguns personagens, e a batalha em que o cavalo fica preso num arame farpado lembra os melhores momentos de O resgate do soldado Ryan (justamente as cenas de batalha bastante verossímeis); também a cena do primeiro arado, excluindo o seu contexto.
O problema é que, excetuando esta última parte, não vemos Joey, o cavalo do título, como o centro da ação, como deveria acontecer, sendo ele um símbolo da resistência desse animal na I Guerra Mundial. Spielberg parece indeciso entre fazer um filme para crianças e jovens – com um selo dos estúdios Disney – e enfocar a história de maneira mais contundente, como já demonstrou fazer no citado Soldado Ryan. De modo que essa indecisão acaba pesando bastante no resultado final, tirando a energia que poderia existir em Cavalo de guerra.

War horse, EUA/Reino Unido, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Jeremy Irvine, Tom Hiddleston, David Thewlis, Emily Watson, Benedict Cumberbatch, Toby Kebbell, Peter Mullan, David Kross, Eddie Marsann, Geoff Bell, Niels Arestrup Produção: Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Lee Hall, Richard Curtis Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 145 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: DreamWorks SKG / Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Reliance Entertainment / The Kennedy/ Marshall Company

2  estrelas

 

E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre diferente de todos que haviam aparecido no cinema, um arquétipo para o imaginário da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de John Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas.
Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais fácil, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estreou um êxito) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa, são, em grande parte, ameaçadores. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore, que se tornaria uma estrela adulta), a caçula. Sua mãe (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos de 3º grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar).
Na versão comemorativa de 20 anos, em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do ET tomando banho numa banheira, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 é sem retoques. Assumido conto de fadas, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures 

Cotação 5 estrelas