Querido menino (2018)

Por André Dick

Baseado em dois livros, Beautiful Boy: A Father’s Journey Through His Son’s Addiction, de David Sheff, e Tweak: Growing Up on Methamphetamines, de Nic Sheff, Querido menino é justamente a reunião de duas perspectivas. Steve Carell interpreta David Scheff, jornalista do The New York Times, um pai que se separou de Vicki (Amy Ryan) e casou novamente com Karen Barbour(Maura Tierney), tendo dois filhos. No entanto, ele traz do casamento anterior com Vicki seu primeiro filho, o jovem Nicholas (Timothée Chalamet). O problema é que este possui problemas graves com as drogas. Dirigido pelo belga Felix Van Groeningen, de Alabama Monroe, Querido menino é um dos filmes mais interessantes já surgidos sobre o tema.
Se a maior parte das narrativas costuma atenuar o problema do vício na adolescência, Querido menino aposta exatamente nas consequências que ele acarreta para elaborar uma trama que se constrói por meio de lembranças do pai de momentos-chave da relação com seu filho. Com um quarto que reúne pôsters de Nirvana e de David Bowie, Nic é infuenciado claramente pela figura do pai. Este é como se fosse uma representação de um período de sua vida em que, justamente, ele era mais inocente e apegado a temas do cotidiano que não misturassem a busca incessante pelas drogas.

Sob certo olhar, Querido menino trata principalmente do recomeço das trajetórias de determinadas pessoas dentro da mesma vida. Se David parece se recolher do mundo externo em uma casa confortável, afastada da cidade, quase uma chácara, Nic procura nas drogas um refúgio para fases que não quer enfrentar, principalmente o estudo na universidade e o compromisso. Chalamet havia sido muito elogiado por seu papel em Me chame pelo seu nome, mas é aqui que ele se mostra um ator fora de série. Sua atuação é tão melhor que a de qualquer coadjuvante deste ano que sua ausência do Oscar soa quase um boicote da Academia a momentos de real afeto cinematográfico.
Sua transição do Nic envolvido com drogas para o Nic buscando uma vida normal é dolorosa e emocional no sentido exato, nunca deixando espaço para exageros de abordagem ou manipulação com os sentimentos do espectador. E ele, ao trabalhar com o tema, é claro sobre o que quer dizer: os possíveis prazeres e distanciamento da realidade dura do personagem, por meio das drogas, nunca o levam mais do que a oscilações e retrocessos em sua vida, embora sejam eles que podem, depois de sofrer, levá-lo adiante. Não é verdade que este filme traga soluções óbvias ou lugares-comuns; sua base narrativa é de alto significado. A luta do pai para entender o filho é a luta deste para entender sua compreensão (ou falta de) da vida. Não por acaso, a narrativa inicia com David consultando o Dr. Brown (Timothy Hutton), querendo adentrar no campo do autoconhecimento.

Da relação dele com o pai, Felix Van Groeningen extrai uma história agridoce, situada entre um lado trágico – o périplo de Nic por casas de recuperação é o principal elemento disso –, e nunca pendendo para o uso do vício em drogas como um traço pop, o que vemos em certo cinema de Danny Boyle, sem deméritos para o olhar que este lança. Ele se lança mais no terreno que era desbravado por Trier em Oslo, 31 de agosto: o sentimento inescapável de alguém sentir-se sozinho e sem apoio, mesmo tendo opções para contornar seu rumo. Há uma dramaticidade decisivamente corrente no roteiro do diretor em parceria com Luke Davies, sem apelar a um excesso de situações que mostrem o jovem usando drogas, e sim seus efeitos em relações sociais. A atmosfera de solidão e dificuldade de inserção de Nic não raramente reproduzem cenários constantemente desabitados, só preenchidos por sentimentos perdidos no tempo.

É desse modo que o diretor acolhe flashbacks pontuais e canções bem encaixadas (“Territorial pissings”, do Nirvana, e “Heart of Gold”, de Neil Young, por exemplo), reproduzindo determinadas sensações dos personagens em épocas diferentes e como elas, na verdade, se completam, mesmo que algumas num momento mais puro e em outro mais ruidoso. Carell, nesse sentido, entrega uma de suas melhores atuações, mais exatamente numa cena em que se despede do filho, ainda pequeno, antes de ele fazer uma viagem de avião. Em outro momento, ele visualiza um encontro perfeito com Nic num restaurante, querendo apenas compartilhar uma refeição, não fosse o comportamento irreconhecível daquele que criou. Um encontro na casa de recuperação traz o olhar incrédulo do pai em relação à impossibilidade de o filho conseguir enfrentar seu vício. Já Nic tenta se estabelecer num romance com Lauren (Kaitlyn Dever), não fosse ele ao mesmo tempo autodestrutivo, e Dever repete sua competência dramática já mostrada em Homens, mulheres e filhos e Outside in. Van Groeningen se mostra um diretor muito acima do que já demonstrava ser, trazendo um dos trabalhos mais belos do cinema nos últimos anos e subestimado como os grandes filmes costumam ser antes do reconhecimento.

Beautiful boy, EUA, 2018 Diretor: Felix Van Groeningen Elenco: Steve Carell, Timothée Chalamet, Maura Tierney, Amy Ryan, Kaitlyn Dever Roteiro: Luke Davies e Felix Van Groeningen Fotografia: Ruben Impens Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Brad Pitt Duração: 120 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Big Indie Pictures Distribuidora: Amazon Studios

Vice (2018)

Por André Dick

Em 2015, ao oferecer um movimento ininterrupto, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas, A grande aposta acabava apresentando uma dissolução interessante de gêneros. Além disso, tinha um elenco estelar em grande forma (Ryan Gosling, Brad Pitt, Christian Bale e Steve Carell, entre outros), apesar de alguns nomes não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro dos Estados Unidos em 2008 e suas consequências eram mais importantes para o espectador ter consciência sobre o tema. Seu diretor Adam McKay, mais conhecido por sua parceria com Will Ferrell em comédias, tornava esse assunto complexo e delicado numa bateria de imagens que pareciam mesclar ficção e documentário com a mesma intensidade, apoiado também em Margin Call, de alguns anos antes. Trata-se de um caminho muito difícil e que descontenta, de certo modo, ao público que aguarda mais “fatos reais” e aquele que aguarda mais “ficção”; é uma dosagem complicada para se atingir.

Em Vice, chamado antes da estreia de Backseat, o foco passa a ser a política norte-americana a partir principalmente de meados da década de 1960, com McKay lançando as luzes sobre a figura de Dick Cheney. Ele foi o vice-presidente dos Estados Unidos nas duas gestões de George W. Bush, e McKay quer mostrar seu início de trajetória no Wyoming, quando passou a namorar Lynne (Amy Adams). Depois de conhecer Donald Rumsfeld (Steve Carell), Cheney se incorporou aos republicanos. Como em A grande aposta, a grande virtude de Vice é sua montagem frenética, fazendo com que o espectador não perceba direito a passagem de tempo. No entanto, aqui, por mostrar uma figura política de destaque por várias décadas, parece que McKay procura abraçar mais do que pode.
Ao construir um panorama de Cheney nos bastidores, sua chegada à Casa Branca ainda na gestão de Nixon, depois sua importância nos bastidores nos governos de Reagan e Bush pai, por exemplo, McKay quer mostrar sua ação entre 2001 e 2009, quando esteve por trás da política de tortura contra presos em Guantánamo, principalmente terroristas. Porém, McKay se situa muito na superfície, mesmo que tenha propositadamente um sentido documental. Ou seja, o personagem de Cheney é visto com certo humor, apoiado na atuação de Christian Bale, com contundência, no entanto não são passados dados suficientes desta figura para que procuremos analisar as informações dispostas ou que alguns espectadores já tem previamente.

É curioso, nessa linha, que Cheney passe de uma espécie de ingênuo beberrão nos anos 60 para alguém capaz de influenciar e ditar estratégias para os presidentes. O problema de filmes que criticam uma determinada figura é saber exatamente como seguir esse rumo sem parecer exagerado. Vice não quer evitar o exagero, no entanto ele se apoia demasiadamente na ideia de que Cheney era apenas um desequilibrado: ele, ao fazer isso, evita analisar exatamente como foi proporcionado espaço a esse desequilíbrio e os motivos, mesmo que não explicáveis. Usando a voz que deu conhecimento a sua versão de Batman, Bale se esconde por trás de uma pesada maquiagem (aliás, impecável) e com maneirismos na maneira de falar, tentando copiar Cheney, que podem ser vistos como perfeitos, não incorressem não raramente num overacting bastante cansativo com o passar do tempo. Esse, contudo, não é o problema: Vice não consegue reunir as boas atuações de Adams e Carell, além de Rockwell, num conjunto que ressoe para o espectador. Eles oferecem bons momentos, mas estão ligeiramente dispersos na narrativa. Como não se trata exatamente de um documentário, não basta apresentar imagens soltas deles, como fazia Michael Moore em Fahrenheit 11/9, e sim buscar uma estrutura narrativa.

McKay poderia ter tornado Vice num grande filme, assim como a fotografia de Greig Frasier, de A hora mais escura, é notável, melhor característica da narrativa. Sua tentativa de expandir o estilo de Oliver Stone dos anos 90, mesclando imagens e sobrepondo estilos, além de trechos de telejornais (em que Naomi Watts é a apresentadora, numa participação que lembra a de Margot Robbie em A grande aposta), como víamos em obras como JFK, Um domingo qualquer e Reviravolta, além de Nixon, é claro e muitas vezes efetivo, fazendo de sua peça uma espécie de reunião de camadas sonoras e visuais. Imagine-se, portanto, o que Stone faria com esse material no melhor momento de sua trajetória. Também há uma certa influência na movimentação de câmera de David O. Russell, aquele especificamente de Trapaça. Ainda assim, quando ele precisa mostrar um certo aprofundamento na composição da narrativa, não consegue inserir do melhor modo a figura do personagem de Jesse Plemmons, por exemplo, e acaba por perder o fio da meada. Isso, no entanto, não tira de seu filme um certo atrativo de ambientação (poucas vezes a Casa Branca teve um design de produção tão realista no cinema), assim como ele mostra a política com um aspecto de noite contínua, em que personagens sobem e descem de helicópteros para decidir o que o povo deve, enfim, seguir. Talvez por lidar com temas polêmicas, McKay prefira brincar mais com uma cena de créditos antes do seu momento do que tratar de seus personagens, ainda vivos e que podem muito bem processá-lo por qualquer ideia mais densa, digamos assim. Nesse sentido, o diretor prefere planar sobre os assuntos, mantendo-se a distância, sobretudo quando adentra a Guerra do Iraque, e fazendo dessa o seu modo de criar um “ataque”. Na verdade, porém, McKay não ataca e se resguarda por trás de uma visão de que o establishment norte-americano está a serviço de pessoas incapazes para seus postos, contudo sem querer trabalhar exatamente os motivos, o que apontaria entender seu público (e este inclui mesmo aqueles que não concordam com sua visão sobre os fatos). Quando a resposta parece evidente, apenas parece: ele quer, antes de tudo, emular Stone e David O. Russell e ser indicado ao Oscar.

Vice, EUA, 2018 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Alison Pill, Lily Rabe, Jesse Plemons Roteiro: Adam McKay Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Will Ferrell, Adam McKay Duração: 132 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Gary Sanchez Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

A melhor escolha (2017)

Por André Dick

Depois de Boyhood e Jovens, loucos e mais rebeldes!!, o imprevisível Richard Linklater volta seu olhar para a Guerra, seja a do passado, seja a do presente, em A melhor escolha. Para isso, adapta um romance de Darryl Ponicsan, com a ajuda do próprio autor, relatando a história de Larry “Doc” Shepherd (Steve Carell), que primeiro vai ao encontro de um antigo amigo com quem serviu no Vietnã, Sal Nealon (Bryan Cranston), atualmente dono de um bar. Ambos viajam para encontrar outro companheiro, Richard Mueller (Laurence Fishburne), que se transformou num pastor. Num jantar na casa de Mueller, onde conhece a esposa dele, Ruth (Deanna Reed-Foster), Doc revela que precisará da ajuda emocional dos dois para que possa enterrar seu filho, que acabou de perder na Guerra do Iraque. Para isso, eles precisam ir para uma base aérea localizada em Dover. Doc pretende se insurgir contra a ideia de uma homenagem militar nos moldes padronizados antecipadamente.

Linklater utiliza um argumento bastante simples para mostrar a complexidade do sistema norte-americano, voltado a uma tradição de guerra, e seu filme é quase um complemento de A longa caminhada de Billy Lynn, de Ang Lee, além de travar um diálogo com A última missão, de Hal Ashby, dos anos 70, adaptado de um livro também de Ponicsan e que serve como prelúdio desta história. Em 2017, o roteirista de Sniper americano, Jason Haal, também dirigiu o interessante Thank you for your service, ainda inédito no Brasil, com Miles Teller, sobre três jovens que regressam da Guerra do Iraque com traumas em suas vidas, e também esta obra pode dialogar com o de Linklater.
A melhor escolha cresce quando mostra Charlie Washington (J. Quinton Johnson), o amigo do filho de Doc, que está presente na chegada do corpo e tem revelações a fazer sobre o que teria acontecido, contra a vontade do tenente coronel Willits (o ótimo Yul Vazquez), mas ainda mais mostra seu êxito com a química entre Carell (ator múltiplo, capaz de na mesma temporada entregar essa atuação e a de A guerra dos sexos), Fishburne e Cranston, os três extraordinários, que valeriam o filme por si só. Interessante como Linklater mostra os militares norte-americanos, longe do bom humor com que normalmente revela em suas peças sobre a juventude. Também não há nenhum sinal de suas experimentações com o universo da animação ou alguma nostalgia romântica que vemos em sua trilogia com Hawke e Delpy. E, embora Boyhood tenha inclinações políticas bastante claras, elas eram sobrepujadas pela narrativa existencial. A interação entre esses personagens lembra os melhores momentos de qualquer obra de Linklater, seja em seu descompromisso, seja em seu rigor com um certo sentimento perdido no tempo.

O filme poderia muito bem ficar numa certa teatralidade, com um número considerável de diálogos, mas o elenco exerce um atrativo muito grande e consegue tornar os temas mais evocativos do que se imaginava. Os companheiros são diferentes e complementares: Doc é discreto, Sal é um falastrão e Richard não tem praticamente nenhuma característica de quando os conheceu. O passado aqui se repete em ações e sob um céu soturno, que abre, no entanto, espaço para uma amizade que foge aos limites de tempo. Há um aproveitamento de cenários internos como se vê em poucos filmes, assim como uma espécie de transição entre lugares diferentes que remete também ao modo como os personagens se sentem, um tanto desamparados, com o auxílio de Shane F. Kelly, habitual diretor de fotografia de Kelly.
Os conflitos no que se refere a questões cotidianas, sociais ou políticas se concentram na humanidade que muitas vezes passa sem que se note. Nesse sentido, A melhor escolha trabalha uma visão social sobre a sociedade dos Estados Unidos, em suas angústias e expectativas diante de uma tradição de guerra. Os personagens parecem resistir para passar esse bastão adiante, também por meio de seus filhos, e é quando o filme de Linklater talvez melhor se expresse em sua visão sobre a solidão de oportunidades para uma reconciliação. Possivelmente é o momento mais político do diretor ao lado de Nação fast food – A rede de corrupção, na qual mostrava como a indústria de carne se fazia no interior dos Estados Unidos. Essas duas obras dialogam não exatamente pelo tema e sim por seus personagens em busca de uma explicação para sua existência, o que traz sempre um material muito amplo no caso de um cineasta talentoso e que apenas nesta década entregou uma obra-prima como Boyhood. A melhor escolha foi um dos filmes mais subestimados da temporada do Oscar, um verdadeiro encontro entre amigos que precisam redescobrir seu rumo.

Last flag flying, EUA, 2017 Diretor: Richard Linklater Elenco: Steve Carell, Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Deanna Reed-Foster, J. Quinston Johnson,Yul Vazquez Roteiro: Richard Linklater e Darryl Ponicsan Fotografia: Shane F. Kelly Trilha Sonora: Graham Reynolds Produção: Ginger Sledge, John Sloss Duração: 124 min. Estúdio: Amazon Studios, Big Indie Pictures, Detour Filmproduction Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

Café Society (2016)

Por André Dick

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Escolhido para abrir o Festival de Cannes em 2016, Café Society traz mais uma vez a marca de Woody Allen, que vem fazendo um filme a cada ano, em grande regularidade. Nesta década, especialmente, ele tem colhido elogios, por obras como Meia-noite em Paris, Blue Jasmine, Magia ao luar e Homem irracional. Em Café Society, Allen parece assumir algumas características não tão visíveis. Ele sempre procura mostrar pares românticos em suas histórias, em que a mulher normalmente costuma prender o homem a uma expectativa, e aqui não é tão diferente. Allen, ainda assim, consegue inovar dentro de seu roteiro padrão.
Jesse Eisenberg faz Bobby Dorfman, que sai de Nova York, nos anos 1930, para Los Angeles, a fim de trabalhar com o tio Phil Stern (Steve Carell), casado com Karen (Sheryl Lee, com pouca chance), um agente de talentos cada vez mais reconhecido. Ele segue para lá por indicação de sua tia, Rose (Jeannie Berlin), deixando para trás sua irmã Evelyn (Sari Lennick), casada com um professor de colégio, Walt (Richard Portnow), seu pai joalheiro, Marty (Ken Stott), e sua mãe, Rose (Jeannie Berlin). Phil pede que sua secretaria Veronica/Vonnie (Kristen Stewart) apresente Los Angeles a Bobby. Ela é o contrário de todos que conhece na cidade, uma jovem que está em busca de uma vida simples.

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No entanto, quando ele demonstra interesse, ela diz que tem um namorado jornalista, Doug. Bobby continua fazendo trabalhos para o tio, frequentando festas com estrelas, enquanto tem os olhos voltados apenas para Vonnie. As conversas incluem Judy Garland, Billy Wilder, DW Griffiths, Barbara Stanwyck e James Cagney, entre outros, bastante ágeis, graças à competência habitual de Allen em mesclar fantasia e realidade, o humor judaico e referências artísticas diversas.
A partir daí, há uma surpresa na narrativa e Allen mostra as desilusões e conquistas desse casal. Também surgem com mais definição na trama um irmão gângster de Bobby, Ben (Corey Stoll), que lembra exatamente um determinado personagem de Tiros na Broadway, e Veronica Hayes (Blake Lively, a revelação de Águas rasas).
As referências do diretor ao cinema dos anos 30 são apaixonadas, com uma trilha sonora embalada pelo jazz e um trabalho espetacular de fotografia de Vittorio Storaro, que remete aos melhores momentos de O conformista, dos anos 70 (quando mostra clubes noturnos e pistas de dança), e O fundo do coração (quando algumas situações ganham colorações diferentes), um desenho de produção belíssimo de Santo Loquasto, além do figurino brilhante e minucioso de Suzy Bezinger. Várias sequências lembram igualmente New York, New York, de Scorsese, dos anos 70. Storaro ilumina as passagens filmadas em Los Angeles, com uma alegria antes captada apenas em Barton Fink (em sua porção fora do hotel), enquanto Nova York se torna mais cinza e azulada, fora de um determinado clube noturno onde a história guarda seus momentos. Se pudesse haver um correspondente direto deste filme é Era uma vez em Nova York, com a diferença de a obra de Allen ser mais despretensiosa e bem construída.

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A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris).
Com um custo de 30 milhões, alto para os padrões de Allen, é lamentável que ele não tenha retornado em boa bilheteria (arrecadou apenas 20 até agora), mesmo trazendo uma dupla (Eisenberg e Stewart) que já deu certo em outros filmes, a exemplo de Adventureland e American Ultra. Outra vez a química do casal é excelente, e Café Society deve alguns de seus melhores momentos a essa interação.
Talvez esta bilheteria também se deva ao fato de Café Society não apresentar a mesma melancolia alegre do diretor e ator, nem exatamente seu melhor bom humor. Apesar de Eisenberg se esforçar em ser um Woody Allen na tela, e ele é realmente um grande ator, e Stewart oferecer certa graciosidade à sua personagem (sendo filmada por Allen e Storaro como uma diva dos anos 30), além de estar cada vez mais desenvolta (comprovando o talento que já exibe desde O silêncio de Melinda, em 2004), o filme se mantém num plano quase decepcionado diante da vida e dos possíveis sonhos de Los Angeles.

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Neste ponto, ele parece dialogar com um universo de sonhos não concretizados, e igualmente pouco amargo e sim otimista, mais no sentido de Blue Jasmine do que de Magia ao luar, por exemplo. Lively e Carell trazem boas atuações complementares, embora o segundo se sinta um pouco deslocado (ele substituiu Bruce Willis um pouco antes do início das filmagens) e sua ligação com o contexto nunca fique devidamente trabalhada, em razão da pressa narrativa com seu personagem. Eisenberg, sob esse ponto de vista menos afeito à carreira do diretor (que aqui atua como narrador também), mostra uma insuspeita melancolia, que faz com que tudo a seu redor se transforme em algo menos previsto do que ele gostaria, exibindo a versatilidade já exibida este ano ao interpretar o vilão de Batman vs Superman, Lex Luthor. Ele lida com um personagem que simplesmente vai amadurecendo, com a companhia de amigos como o casal Rad (Parker Posey) e Steve Taylor (Paul Schneider), sem exatamente mudar, e Allen, por meio de uma montagem ágil em todos os aspectos, emprega sua presença como aquela que imagina ser a de um jovem em plena época da depressão, com sua vontade de se transformar em alguém. Entre sonhos na capital do cinema e dedicação ao universo gângster, Café Society mostra que todos os personagens estão à procura de si mesmos. Não é algo novo na filmografia de Allen, contudo é mais denso do que poderia ser um retrato apenas bem-humorado dos anos 30.

Café Society, EUA, 2016 Diretor: Woody Alllen Elenco: Jesse Eisenberg, Steve Carell, Kristen Stewart, Corey Stoll, Blake Lively, Paul Schneider, Parker Posey, Ken Stott, Jeannie Berlin, Paul Schackman, Sheryl Lee Roteiro: Woody Allen Fotografia: Vittorio Storaro Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gravier Productions

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A grande aposta (2015)

Por André Dick

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Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

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Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

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O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (2014)

Por André Dick

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Depois de sua estreia no Festival de Cannes de 2014, Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo tem feito uma trajetória à altura do que se esperava para uma obra de Bennett Miller, o mesmo de Capote e O homem que mudou o jogo, filmes com atuações memoráveis de Philip Seymour Hoffman (que lhe rendeu o Oscar) e Brad Pitt e Jonah Hill, respectivamente. Miller sempre esteve preocupado com o discurso referente aos Estados Unidos – e foi assim que construiu seu início de trajetória e foi premiado como melhor diretor em Cannes. Mas Foxcatcher traz uma história, embora sobre esportes, como O homem que mudou o jogo, muito diferente: há algo nele que tenta se estabelecer para longe do discurso que adota em sua narrativa.
Baseado em fatos reais, já no início vemos os dois personagens vitais para a narrativa, os irmãos Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), treinando luta greco-romana. Mark  vive solitário, enquanto David tem mulher, Nancy (Sienna Miller) e filhos. Depois de ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984, Mark ainda vai a colégios tentar incentivar crianças a adotarem o esporte. Certo dia, o milionário John Du Pont (Steve Carell) o procura. Ele pretende treiná-lo para que possa competir nas Olimpíadas de Seul em 1988, e Mark precisa ir morar na sua mansão, chamada Foxcatcher e afastada de tudo. Du Pont é um indivíduo que vai se mostrando cada vez mais estranho – sempre em busca de um domínio sobre os esportistas que treina, no grupo que denomina também Foxcatcher, e por meio dos quais não quer descontentar sua mãe Jean (Vanessa Redgrave). No entanto, ele não consegue obter a participação de Dave, com quem Mark consegue treinar no seu máximo. Esta é uma história aparentemente excepcional e chama a atenção como Miller no início obtém uma transformação dos atores, principalmente Tatum, que sempre pareceu um ator intruso, e tem aqui, na primeira hora, seu melhor momento no cinema.

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Depois dessa primeira hora interessante, Foxcatcher passa a criticar o patriotismo americano muitas vezes de maneira deslocada, como se quisesse adotar um tom de autoimportância – mas filmes não são bons porque são patrióticos ou antipatrióticos, e o de Miller atesta isso. Se no início Du Pont representa a chance do “sonho americano” ser concretizado, aos poucos a sua mansão vai adquirindo uma ambientação mais fúnebre, com o cenário sempre cinza, o céu encoberto, como se os personagens estivessem num universo à parte, em que não pudessem nunca se sentir felizes, e a relação de Du Pont e Mark vai se intensificando com um comportamento misterioso e não solucionado por Miller em nenhum momento. De todos os motivos, o principal no fundo é o seguinte: Du Pont poderia ser feliz, mas não é, porque carrega os males da América, a ganância, o desejo de superar qualquer outro. E carrega a tradição de sua família, o peso de sua vida. Há uma crítica a este “sonho americano” sobretudo porque Du Pont não é exatamente o que mostra ser, repetindo isso várias vezes em seu helicóptero para que o espectador não esqueça. De qualquer modo, o filme está sempre em busca da quebra de ritmo dos personagens, e a passagem dos anos nunca fica muito clara, fazendo com que não seja bem calculada por Miller, pelo menos para o êxito da trama. Para isso, Miller se apoia no trabalho de fotografia de Greig Fraser, que fotografa o filme com os mesmos tons que adotou para o bosque de Branca de Neve e o caçador, desta vez como se estivessem infiltrados numa espécie de pesadelo e não de fábula.
Os personagens de Foxcatcher em nenhum momento esboçam uma tranquilidade ou um alívio; não raramente, servem como símbolos do que o diretor pretende dizer, e isso vem acontecendo muito desde O homem da máfia, também com Pitt: a sociedade norte-americana não pode mais ser salva, e é isso que Foxcatcher tenta reafirmar a cada instante. Se há uma espécie de glorificação do esporte nos Estados Unidos, Miller alerta para o fato de que ele pode esconder apenas seres tristes e autoconcentrados. As lutas, mesmo nas Olimpíadas, parecem não representar o esporte, sendo apenas uma antecipação para um cortejo fúnebre. O sentimento em relação ao filme pesa como chumbo, com o objetivo de fazer o espectador se sentir claustrofóbico em meio a todas as situações mostradas, sem nunca conseguir se aproximar de suas figuras. Enquanto criticam Angelina Jolie pela direção “conservadora” de Invencível, Miller ganhou em Cannes e foi indicado ao Oscar por um estilo que tenta emular o de cineastas europeus e produções da Nova Hollywood dos anos 70, porém naquela época era sinal de termos Michael Cimino, um criador de atmosferas poucas vezes visto.

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Depois de um início bastante promissor, mesmo surpreendente, Steve Carell, ao longo do filme, tenta equilibrar a prótese em seu nariz colocando sua cabeça para trás em poltronas, sofás e cadeiras, indo nisso boa parte da energia para compreender seu personagem. Aos poucos, é possível perceber que não há um minuto de espontaneidade na sua interpretação, baseada de modo fundamental no Don Corleone de O poderoso chefão, sobretudo pelos gestos mínimos e pela maneira de olhar as pessoas sem necessariamente falar, como se estivesse ameaçando. O espectador muitas vezes se sente intimidado e fica surpreso de ver o mesmo ator de O virgem de 40 anos e Amor a toda prova com um ar tão grave e comedido – a pergunta é onde estaria esse ator antes e a resposta certamente seria: em algum lugar onde não estivesse pensando em ser indicado ao Oscar. Carell é um excelente ator, mesmo com elementos dramáticos, como já mostrou em Pequena miss Sunshine, Um divã para dois e Procura-se um amigo para o fim do mundo, mas o excesso de destaque dado a ele também prejudica o filme, pois é difícil ver qualquer naturalidade em seu comportamento: o ator é mecânico em suas variações e sentimentos em relação aos demais personagens, tentando evidenciar que está representando uma persona e de como ela seria difícil de ser reproduzida. Tatum e Ruffalo poderiam oferecer essa tonalidade mais humana (ambos estão muito bem), no entanto Miller os emprega de maneira equivocada no terceiro ato, longo e monocórdio, como se tudo estivesse antecipando o clímax moral a ser atingido pelo diretor. Em vez de analisar também a relação entre os irmãos, a parcela certamente mais sensível do filme, Miller quer apenas destacar sua crítica ao sistema.
Foxcatcher, nesse sentido, é melancólico como a atuação propositadamente grave de Carell: não há nada no filme que busque compreender esses personagens, pois Miller está interessado exclusivamente nessa crítica ao establishment norte-americano. No entanto, ele, ao mesmo tempo, duvida da inteligência do espectador, colocando constantemente símbolos dos Estados Unidos: bandeiras, águias etc. para onde quer que sua câmera aponte. Esta crítica adquire, aos poucos, um tom de impropriedade, e mina toda a estrutura do roteiro, que já carece de entendimento e desenvolvimento.
Os personagens estão à deriva porque Miller, na verdade, como um diretor de dentro da indústria, não quer se comprometer: ele deixa o terceiro ato todo de Foxcatcher transcorrer em silêncio e comportamentos ambíguos porque não quer assumir de fato o seu discurso. Ele parece ter certo receio de chocar o espectador com alguma revelação que possa abalar o público a que se destina – predominantemente norte-americano – e esconde seus personagens por trás de silêncios que, ao contrário do que vemos nos filmes que inspiram Miller, os europeus, não dizem substancialmente algo de importante. O que mais Foxcatcher consegue ser é uma infalível isca para o Oscar: ele teve cinco nominações (melhor direção, ator, ator coadjuvante, roteiro original, maquiagem e cabelo), mas não a principal, de melhor filme. Talvez Foxcatcher se sinta excluído por pensar dizer alguma verdade incômoda sobre a sociedade dos Estados Unidos; mais provável é que se trata de um filme infelizmente pouco marcante. É Miller quem ao final gostaria de estar gritando: “USA! USA!”. Afastado de tudo e de todos, Du Pont tem as mesmas características deste cinema, que se afasta do espectador para tentar ser diferente, mas carrega consigo todos os clichês imaginados. E quer soar poderoso, mesmo que não seja mais do que parte do mundo, nem mais nem menos.

Foxcatcher, EUA, 2014 Diretor: Bennett Miller Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Mychael Danna, Rob Simonsen Produção: Anthony Bregman, Bennett Miller, Jon Kilik, Megan Ellison Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Likely Story / Media Rights Capital

Cotação 2 estrelas e meia

 

Amor a toda prova (2011)

Por André Dick

Amor a toda prova

É muito raro, no cinema recente, existirem comédias românticas que não sejam apenas passatempo, em que o espectador se sente envolvido com os personagens e com a narrativa. Por isso, Amor a toda prova é uma alternativa bastante interessante, sobretudo em razão do elenco (Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Kevin Bacon, Marisa Tomei…), que torna sua história menos previsível e mais próxima da humanidade, com a colaboração decisiva do trabalho de fotografia de Andrew Dunn (As vantagens de ser invisível), contrastando lugares claros e escuros, como a situação de cada personagem. Cal Weaver (Carell) e Emily (Moore) são casados, mas, logo no início, ela lhe pede o divórcio, pois o teria traído com um companheiro da empresa, David Lindhagen (Bacon). Desolado, ele leva a babá de seus filhos, Jessica (Analeigh Tipton), para casa. Ela gosta dele, sem saber que na família Weaver já há quem goste dela, Robbie (Jonah Bobo), um dos filhos. Cal vai para um bar tentar esquecer o que aconteceu.
Já neste momento, percebemos que o filme tem um elemento dramático, ou seja, ele não deseja mostrar relacionamentos da maneira mais debochada, como em O virgem de 40 anos (com o próprio Carell) ou Missão madrinha de casamento (que, de qualquer modo, insere sensibilidade em meio às piadas). Tudo direciona Amor a toda prova para um meio-termo entre gêneros. Em seguida, ao conhecer um rapaz, Jacob (Gosling), no bar, que pretende transformá-lo novamente em alguém capaz de conquistar as mulheres, há um momento de Hitch (com Will Smith), entretanto o filme não se mantém nessa linha, o que faria com que se perdesse. Gosling não tem uma tendência para o humor mais óbvio; é mais discreto, e seu personagem acaba oscilando entre a necessidade de companhia incessante e a solidão de sua grande mansão. Carell segue o mesmo caminho; é um ator de comédia que possui talento quando precisa se envolver numa situação dramática, como Jim Carrey de O show de Truman e O mundo de Andy (não parece por acaso que ambos fizeram a franquia Todo poderoso). Nesse sentido, apesar de ser uma situação estranha, nem Gosling nem Carell a transformam em algo previsível ou banal. Eles podem ter até um material não tão bom às mãos, e ainda assim conseguem jogar com as cenas.

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O filme prefere se concentrar mais na dificuldade de amor entre idades diferentes, como aquele do menino Robbie pela babá. Enquanto isso, ela pede conselhos a uma colega mais experiente de como sair com homens mais velhos. Já Cal está perdido num universo no qual não se sente mais à vontade: da conquista. E, mesmo assim, ele se envolve com Kate (Marisa Tomei), durante uma noite, o que mais adiante resultará em uma surpresa. É interessante que o filme mostre a ex-mulher de Cal como uma pessoa ainda insegura, diante de um possível compromisso com o colega de trabalho. Julianne Moore é uma atriz que mostra, como poucas, a vulnerabilidade. Sabemos, ao olhar seus gestos, que ela está sofrendo com determinada circunstância, nunca deixando seus personagens caírem no lugar-comum (a cena em que ela liga para Cal, inventando que precisa de ajuda, enquanto ele está no pátio e consegue vê-la pela janela, é muito bem interpretada).
Ainda assim, a interpretação de Jonah Bobo é a melhor do elenco, pois ele justapõe essa ligação entre gerações – o momento em que tenta se declarar para a babá no colégio é um dos melhores – e coloca em dúvida a ideia de que um adulto entenderia melhor uma questão amorosa por ser mais velho. Trata-se, claro, de um elemento clichê, que os diretores Glenn Ficarra e John Requa conseguem traduzir em humanidade. Da mesma maneira, quando mostra a jovem Hannah (Emma Stone), que sonha em ser pedida em casamento pelo namorado e reluta em se envolver com Jacob, e quando os dois vão para casa dele se brinca com Dirty Dancing, dos anos 80, mostrando uma ingenuidade da conquista.
Neste sentido, Amor a toda prova mostra a dificuldade de se fugir à rotina – Cal volta às noites para casa, sem que a família veja, para poder molhar a grama –, de uma maneira bastante sensível, sem nunca colocar os personagens em descrédito. É evidente que, como em outras comédias românticas, em alguns pontos o filme não consegue sair da previsibilidade (o desfecho talvez seja ligeiro demais), mas, ao mesmo tempo, o espectador não se sente assistindo a apenas uma história em que homens e mulheres tentam se entender – ele consegue transformar a loucura e a estupidez do amor do título original em um encontro para a compreensão entre gerações.

Crazy, stupid, love, EUA, 2011 Diretor: Glenn Ficarra, John Requa Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Steve Carell, Kevin Bacon, Julianne Moore, Marisa Tomei, Jonah Bobo, John Carroll Lynch, Josh Groban Produção: Steve Carell, Denise Di Novi Roteiro: Dan Fogelman Fotografia: Andrew Dunn Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Carousel Productions

Cotação 4 estrelas

Um divã para dois (2012)

Por André Dick

A realização de filmes que mesclam drama com elementos de humor é cada vez mais difícil no cinema atual. Temos alguns filmes que conseguem realizar essa mistura de maneira efetiva, como Melhor é impossível e Alguém tem que ceder, ambos com Jack Nicholson. Este tipo de narrativa depende muito dos atores envolvidos: qualquer um que fuja à caracterização pretendida faz a história se perder. A dependência dos atores é visível em Um divã para dois: o casal, interpretado por Meryl Streep e Tommy Lee Jones, é totalmente crível. Ao assisti-los em cena, não temos dúvida de que eles realmente vivem num casamento (embora melancólico). Ele interpreta um contador, Arnold Soames, que repete a rotina todos os dias: antes de sair pela manhã para o trabalho, aguarda sua mulher, Kay, colocar na mesa o prato com bacon e ovo frito e abre o jornal, sem dizer “bom dia”; quando chega, vai jantar e vê um jogo de golfe, dormindo em frente à TV, para ser acordado e ir para a cama – num quarto separado. Repentinamente, Kay decide que seu casamento não pode ficar nesta situação e vai à livraria procurar uma obra de autoajuda. Acaba encontrando uma escrita por Bernie Feld (Steve Carell) e, no dia seguinte, resolve comprar um pacote de terapia de casais justamente para consultar o médico. No entanto, ele se encontra em Hope Springes, cidade fictícia do Maine, e Arnold é pressionado a ir junto. Daí em diante, nas mãos de um diretor ruim e de um elenco comum, o filme certamente se perderia. Mas, com a direção de David Frankel – que realizou o divertido O diabo veste prada e o irregular Marley e eu –, isso não acontece: ele consegue dosar justamente o drama do casal que não consegue se entender com elementos de humor.
Chegando a Maine, Arnold reclama dos valores a serem pagos em lanchonetes e cafés. Piora a situação quando conhece, com Kay, Bernie Feld, e este os impele a discutir temas ligados ao relacionamento, tendo sempre como mote a relação sexual. No papel de Bernie, Steve Carell mostra seu talento para papéis comedidos e excêntricos. Ele já mostrava bastante talento em outros filmes, como Amor a toda prova (em que contracenava com Ryan Gosling). Mas, como melhor ator ainda, ele serve de escada para os personagens de Arnold e Kay discutirem a vida. Tanto Tommy Lee Jones quanto Meryl Streep estão excelentes em seus papéis – ao mesmo tempo convincentes e afinados –, e as situações em que são provocados pelo terapeuta valem o filme, passando boa parte da metragem no sofá dele, o que exige dos atores uma minúcia para gestos corporais e uma fala quase teatral, com poucos movimentos.

Pode ser que algumas vezes o diálogo se traduzam em algo previsível – renderia, talvez, melhor com roteiro de Woody Allen –, contudo os atores, mostrando vulnerabilidade, tornam uma obra que poderia ser previsível em uma narrativa humana. Esse casal circula ao redor de Bernie, da paisagem de Home Springs – uma cidade do interior que ganha profundidade com a fotografia de Florian Ballhaus – e pouco lida com outros personagens – Elisabeth Shue aparece perdida em uma ponta, indigna do seu talento, que já conhecemos desde Despedida em Las Vegas –, em torno do afastamento que procuraram em suas vidas. A insegurança de Tommy Lee Jones rende alguns de seus melhores momentos como ator. Estamos acostumados a vê-lo em papéis de xerife (como em Onde os fracos não têm vez), militares (em Capitão América) ou de agente do futuro mau humorado (na série Homens de preto), mas é em Um divã para dois que, seguindo o modelo de Jack Nicholson, ele se reinventa e sai do estereótipo ao qual é associado durante sua trajetória. O momento em que ele planeja um jantar com ela é significativo para mostrar o que ele chama, mais adiante, de “raros momentos felizes”, esperando que tudo volte ao normal (e talvez neste ponto o filme acabe diminuindo sua intensidade ao final). E uma sequência que se passa justamente num cinema mostra que só uma atriz como Meryl Streep se sairia bem dela sem chamuscar sua carreira. Inegável o talento da atriz em aproveitar situações corriqueiras para mostrar insegurança, como nos momentos em que ouve o marido contar sobre desejos que tem ao terapeuta. Por seu potencial dramático, os olhares que ela faz para ele e o terapeuta mostram as contradições de uma vida toda, assim como a sequência inicial, em que ela se prepara para ir ao quarto dele.
Bernie tem, ao longo do filme, a função de provocar os personagens, para que eles saiam da comodidade e é interessante que o diretor não queira mostrá-lo em sua própria vida cotidiana, ou seja, só o vemos dentro da sala, para a terapia de casal. É uma escolha inteligente do diretor, pois mostra que esses personagens precisam se reconciliar a partir dos encontros com ele e sua presença não é inserida no cotidiano até o último momento.
A dificuldade de relacionamento, situada muitas vezes pelo olhar de Bernie durante algumas discussões e falta de soluções para o afastamento do casal, se corresponde diretamente com Alguém tem que ceder, que mostra uma dramaturga (Diane Keaton) que se apaixona por um empresário da música (Jack Nicholson): ela, afastada de relacionamentos; ele, só querendo sair com mulheres jovens. Também lembra Melhor é impossível, sobretudo numa cena de jantar em que o casal tenta se reconciliar. Em Um divã para dois, essa complicação do relacionamento quando ele já se estabeleceu – Arnold e Kay são casados há mais de 30 anos – é mostrada de forma vigorosa durante todas as cenas, sem cair em algo forçado ou vulgar, mesmo quando os temas constrangem os personagens. E há uma cena específica que define o grande talento de Jones e Streep: quando, aconselhados por Bernie, eles precisam voltar a se abraçar. A dificuldade com que Arnold faz isso é ao mesmo tempo engraçada e trágica. Sentimos, nele, o peso de vários anos de fuga da relação, e nela o sofrimento por não conseguir reatar o relacionamento. É uma cena simples, que seria esquecível com outros atores, mas se mostra íntima, melancólica e surpreendente, como Um divã para dois.

Hope Springs, EUA, 2012 Diretor: David Frankel Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elisabeth Shue, Jean Smart, Susan Misner, Marin Ireland, Ben Rappaport, Brett Rice, Daniel Flaherty, Kayla Ruhl, Jamie Christopher White Produção: Todd Black Roteiro: Vanessa Taylor Fotografia: Florian Ballhaus Trilha Sonora: Theodore Shapiro Duração: 100 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Escape Artists / Mandate Pictures / Management 360

Cotação 3 estrelas e meia