Millennium – A garota na teia de aranha (2018)

Por André Dick

O diretor uruguaio Fede Alvarez chegou a Hollywood com a exitosa refilmagem de Evil Dead, um filme mais assustador do que o original dos anos 80, de Sam Raimi, e em seguida fez o sucesso de bilheteria O homem nas trevas. Estranhamente, este segundo, mesmo com suas limitações narrativas, teve uma extraordinária recepção crítica. Imagine-se o que pensa agora Alvarez com a recepção dada à sequência de Millennium – Os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher, intitulado A garota na teia de aranha. A sua estreia se deu no Festival de Veneza e desde então tem enfrentado comentários pouco elogiosos no que se refere a seu desenvolvimento.
Pode-se dizer que, por anos, se achou estranho que Daniel Craig e Rooney Mara, os astros do original de 2011, e David Fincher nunca se interessaram pela continuação da história escrita por David Lagercrant, com base em personagens criados por Stieg Larsson. No entanto, busca-se, neste novo filme, dar continuidade à trajetória de Lisbeth Salander, com Claire Foy (The crown e mais recentemente em O primeiro homem) no papel que era de Mara, a hacker de computador que se mostra mais uma vez como justiceira contra homens que agridem mulheres.

Depois de um início forte, em que ela enfrenta um homem que bate em prostitutas – o que dialoga com o episódio anterior –, Salander é procurada por Frans Balder (Stephen Merchant), funcionário da NSA e criador do Firefall, um programa que fornece acesso a códigos nucleares espalhados pela Terra. Ele quer destruir o programa, mas sua preocupação central é com a segurança do filho August (Christopher Convery). Em meio a tudo, ela pede ajuda novamente ao jornalista do Millennium, Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason), que tem um relacionamento com sua editora, Erika Berger (Vicky Krieps, de Trama fantasma), enquanto Edwin Needham (Lakeith Stanfield) também está no alcanço de Salander, sendo especialista de segurança da NSA.
Lvarez, de forma apropriada, no entanto, coloca como principal flashback da vida de Salander a menina Camila (Carlotta von Falkenhayn), sua irmã, abalada por problemas que moldariam a própria personalidade dela e que também dialogam com a obra de Fincher. Na verdade, A garota na teia de aranha é uma continuação que se autossustenta e, ao mesmo tempo, expande os temas do anterior de modo eficaz, apostando numa trilha sonora incisiva e uma fotografia extraordinária de Pedro Luque, que, apesar de lembrar aquela do Millennium de 2011, não chega a ser tão intimista.

No filme anterior Blomkvist forma parceria com Lisbeth, sob a tutela do Estado desde os 12 anos e que, sem nenhum tipo de estudo, conseguiu se tornar numa investigadora perita. O jornalista é chamado por um ricaço, Henrik Vanger (Christopher Plummer), de um clã que mora numa ilha, para, além de escrever uma biografia sobre ele, buscar a solução para o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, desde 1966. Ele mora num vilarejo da Suécia, quase sem contato com os familiares. A recompensa seria dar ao jornalista algumas informações sobre Wennerstrom na justiça. Depois de se instalar numa pequena casa à beira de um lago, onde tem como companhia apenas um gato, Blomkvist inicia o processo de entrevistas com familiares, tentando descobrir sobretudo o que aconteceu com Harriet, num passo a passo lento e investigativo. Nada disso há nessa sequência de Alvarez, muito mais parecido com um thriller policial, em que Krieps em determinado momento evoca uma femme fatale e a vice-diretora do Serviço Secreto Sueco Gabriella Grane (Synnove Macody Lund) observa uma silhueta feminina num restaurante.

Como no primeiro,  o enfoque em Lisbeth é sempre misterioso. Com vários piercings e tatuagens (a garota com a tatuagem de dragão do título original), ela atua como um hacker, invadindo os computadores das pessoas que pretende investigar. É uma personagem situada entre a infância – na obra anterior, está sempre com algum lanche para crianças por perto – e o mundo conturbado em que se inseriu desde cedo. Em nenhum momento, no entanto, é uma figura completamente autônoma ou responsável por tudo o que faz e, quando age violentamente, no filme, é para se vingar do que cometem com ela.
Sua parceria com Blomkyvist não se dá com a mesma intensidade, e Sverrir Gudnason mal tem chance de aparecer, como em Borg vs McEnroe, no qual fazia um tenista com grande competência, também não possuindo o talento interpretativo de Craig. Talvez, no entanto, o que mais funcione seja uma dupla feminina: Gabriella Grane e uma personagem interpretada com raro talento por Sylvia Hoeks (tão bem quanto em Blade Runner 2049), que confere à obra de Alvarez uma perturbação existente no ato final do original de Fincher, mesclando traumas de infância e violência incontida. A mulher representa aqui justiça, perversão e traição, não necessariamente nessa ordem, e tudo produzido pela figura do homem, tal como na obra de Fincher. A personagem de Hoeks lembra, em determinado momento, pelo próprio figurino, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho às avessas, representando o próprio lobo em meio a paisagens gélidas da Suécia, ecoando o subestimado Boneco de neve. Alvarez tinha tudo para sucumbir ao estilo de Fincher extremamente forte. Suas composições são belas, inserindo os personagens em quadros, sem jamais perder a essência deles. Por causa das escolhas narrativas e principalmente em razão de Claire Foy, A garota na teia de aranha é uma sequência muito interessante.

The girl in the spider’s web, CAN/ALE/SUE/EUA/ING, 2018 Diretor: Fede Alvarez Elenco: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield, Sylvia Hoeks, Stephen Merchant, Vicky Krieps, Synnove Macody Lund, Christopher Convery Roteiro: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight Fotografia: Pedro Luque Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Ole Søndberg, Søren Stærmose, Amy Pascal, Elizabeth Cantillon Duração: 115 min. Estúdio: Columbia Pictures, Metro-Goldwyn-Mayer, Regency Enterprises, Scott Rudin Productions, Yellow Bird, The Cantillon Company, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Logan (2017)

Por André Dick

Desde a trilogia X-Men, iniciada por Bryan Singer no início dos anos 2000, até a mais recente, com um elenco jovem, passando pelos filmes de Wolverine, a Fox sempre apostou nesses personagens da Marvel com um apuro temático e visual, tentando criar novas referências para o gênero, com maior ou menos êxito. O personagem estrelado por Hugh Jackman ganhou um filme solo em 2009, com um primeiro ato muito bem feito, para se perder depois em tramas paralelas que não correspondiam à expectativa. A continuação se deu em 2013, com um trabalho visual que remetia a Refn, pelo trabalho com cores e o cenário oriental. Agora, o mesmo James Mangold propõe um encerramento para a trilogia de Wolverine com uma homenagem ao gênero do faroeste. Se A qualquer custo era quase um filme de assalto no qual poderia aparecer Clint Eastwood como justiceiro, Logan homenageia o gênero com seus cenários isolados e empoeirados, que ganham destaque na fotografia de John Mathieson, colaborador de Ridley Scott em obras como Gladiador, Cruzada e Robin Hood e que trabalhou em X-Men – Primeira classe.
O filme se passa em 2029, quando os mutantes estão quase extintos. James “Logan” Howlett, mais conhecido como Wolverine, está morrendo devido ao adamantium em seu organismo. Trabalhando como motorista de uma limousine no Texas, ele vive na fronteira mexicana numa fábrica abandonada, onde também se encontram o mutante albino Caliban (Stephen Merchant) e o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), cuja idade faz com que ele não tenha mais domínio sobre seus poderes telepáticos. Caliban precisa se manter afastado dos raios de sol e, com seu rosto protegido, ele parece mais alguém preparado para assaltar uma diligência.

Certo dia, Logan se depara com uma moça, Gabriela Lopez (Elizabeth Rodriguez), que trabalhou num projeto chamado Transigen, em que conheceu a menina Laura (Dafne Keen). Logo se colocam em seu encalço, sem saber exatamente os motivos, Donald Pierce (Boyd Holbrook), com os Reavers, seus agentes, e Zander Rice (Richard E. Grant), o criador de Transigen.
Este é o mote inicial para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características que remetem, aqui, igualmente a George Miller, de Mad Max, com sua crueza na abordagem das perseguições de carro e nas cenas de violência. Impressiona o quanto Mangold não evita o traço de violência, embora Wolverine – O filme fosse igualmente impactante nesse quesito.
O roteiro, escrito por Mangold em parceria com Scott Frank e Michael Green, é inteligente ao mostrar o Professor Xavier na posição de um pai de Wolverine e, sobretudo, ao desenvolver sua relação com Laura. Desta vez, Wolverine parece uma espécie de Josey Wales (embora em determinado momento Mangold use imagens de Os brutos também amam, faroeste dos anos 1950), personagem de Eastwood dos anos 70, perseguido depois de perder toda sua família.

Seu sentimento em relação à família obviamente está comprometido pela passagem dos anos e por todos os acontecimentos que o cercaram, mas é quando ele precisa de demonstrar afeto que surge a atuação notável de Hugh Jackman, seu melhor momento no cinema ao lado de Os miseráveis. Não ficam para trás Stewart, numa atuação exemplar, e a menina Dafne Keen, ótima em uma atuação minimalista.
É de se lamentar, perto dessas atuações, que aquelas dos vilões feitos por Holbrook e Grant se sintam tão esvaziadas e com poucas cenas para realmente contribuir com um embate entre partes completamente distintas, que poderia render momentos mais épicos. Tendo sido um apreciador do normalmente menosprezado X-Men – Apocalipse, do ano passado, tende-se a ver Logan apenas por suas indiscutíveis qualidades, sem ao certo ver que ele estabelece um novo parâmetro para esses personagens que não necessariamente está de acordo com o universo em geral da Marvel (a HQ em que o filme se baseia em parte tem personagens como Hulk, que não puderam ser utilizados), o que pode se constituir numa qualidade e num problema.
Logan tem um início extremamente violento – num estacionamento – que logo anteciparia uma adaptação radical dos quadrinhos e, ao longo da narrativa, não atenua seu ímpeto, quebrado apenas por algumas passagens mais demoradas. As garras do “super-herói” estão afiadas como a sua vontade de encontrar uma saída para a situação em que se encontra, e ela pode existir tanto em si quanto nas pessoas que o cercam. Em determinado momento, ele é impelido a buscar o “Éden”, um lugar onde se esclareceriam algumas questões – e este “Éden” parece uma impossibilidade diante de seus percalços.

Curioso como Mangold também insere as histórias em quadrinhos na explicação da narrativa do filme, buscando um interessante contraponto entre “ficção” e “realidade”, um traço metalinguístico, apesar de em nenhum momento escolher um design de produção que proporcione algum elemento de fantasia, sendo justamente sua tentativa a de trazer a fantasia para um espaço visto como plenamente real.
A menina Laura acaba proporcionando uma viagem nos moldes do recente Destino especial, de Jeff Nichols, em que a infância se misturava a poderes não explicados pelo olhar comum, com um intervalo que dá espaço a uma família tendo à frente Will (Eriq LaSalle) e Kathryn Munson (Elise Neal), com inevitável empatia junto ao espectador. Mangold, no entanto, centraliza essa busca com um apelo dramático dificilmente encontrado em filmes que adaptam quadrinhos e, quando tentam fazê-lo, são vistos como inevitavelmente soturnos. A paisagem solar do Texas não esconde a vulnerabilidade do personagem central desde o início: ele parece escondido por trás das paisagens que se erguem no deserto como sucata, sendo a sua limousine um contraponto a essa decadência que observa neste futuro que habita. É ele, no entanto, que de algum modo ainda se sente próximo de algo a ser reencontrado além das montanhas que evocam o seu início em 2009, quando trabalhava numa madeireira canadense, com a possibilidade de se proliferar novamente para que uns se sintam menos afastados dos outros, carregando um verdadeiro sentido de família.

Logan, EUA, 2017 Diretor: James Mangold Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Richard E. Grant, Boyd Holbrook, Stephen Merchant Roteiro: James Mangold, Scott Frank, Michael Green Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Hutch Parker, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 135 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Twentieth Century Fox Animation