Legítimo rei (2018)

Por André Dick

Depois do sucesso crítico de A qualquer custo, indicado ao Oscar principal, o diretor escocês David Mackenzie volta à cena, desta vez com um filme histórico baseado na constituição de sua terra natal. É de se esperar uma obra que respeita os dados históricos, sem verter em demasiada liberdade, e é isso realmente o que acontece. Legítimo rei conta a trajetória de Robert the Bruce (Chris Pine), o homem que liderou os escoceses contra os ingleses na Primeira Guerra da Independência do seu país.
Se no início o seu pai entra em acordo com a Inglaterra por meio de um casamento arranjado de Robert com Elizabeth de Burgh (Florence Pugh), depois de tratativa com Edward I (Stephen Dillane), em frente ao castelo sitiado de Stirling, em 1304 d.C., logo Mackenzie mostra esse personagem em permanente rebelião contra o sistema.

Depois de dois anos, vendo o efeito da administração dos ingleses sobre o povo escocês, e após a morte de William Wallace (personagem representado por Mel Gibson em Coração valente), ele começa seu embate com John Comyn (Callan Mulvey) e se manifesta exatamente novamente aquele personagem que Pine interpretou em A qualquer custo: a família, aqui, precisa ser mantida e respeitada em nome de um ideal maior (nesse sentido, explica-se o título original, de um “rei fora da lei”). Este ideal pode colocar em perigo a sua filha e a própria esposa, mas confere a Bruce um papel histórico. A união a princípio desconfortável com Elizabeth logo é superada, e a mulher representa aqui um sentimento de desafio às leis e às regras, bem esclarecido pela atuação dedicada de Pugh, que no ano passado se revelou em Lady Macbeth. Ela oferece a Robert o sentimento de união familiar que parece lhe faltar com a ausência especialmente de um ente querido. Tanto é que uma das sequências mais impressionantes do filme mostra a preocupação de fuga da amada, em meio a labaredas de fogo. E os papéis de combate se estabelecem. Contra ele estão Edward, o Príncipe de Gales (Billy Howle), além de Aymer de Valence (Sam Spruell), e a seu lado lutam Angus Macdonald (Tony Curran) e James Douglas, numa atuação histriônica de Aaron Taylor-Johnson. Conhecido por ser um dos irmãos com superpoderes de Vingadores – A era de Ultron e por um papel excêntrico em Animais noturnos, Taylor-Johnson quase não possui diálogos, porém sua presença é destacada.

Antes que tudo se dirija à grandiosa Batalha de Loudon Hill, Mackenzie mostra Bruce como um homem errático, graças à boa atuação de Pine, mesmo que não lhe sejam dadas as devidas matizes e nuances psicológicas para que seja visto como alguém complexo. No entanto, Pine, por sua despretensão, alcança exatamente a configuração de um indivíduo falho e muitas vezes ingênuo diante dos percalços a serem superados. Seu estilo de atuação bastante conhecido desde que encarnou o capitão Kirk em Star Trek se baseia em poucos movimentos e tonalidades, entretanto se revela consistente na busca de diálogo com seus inimigos e na liderança de seu exército.
A direção, baseada num figurino e desenho de produção dedicados, deposita nas cenas de ação e batalhas seu maior atrativo, ao contrário, por exemplo, de uma linha mais poética medieval, a exemplo do que víamos no clássico Excalibur. É muito mais realista do que o Rei Arthur de Guy Ritchie, seguindo mais a linha de Cruzada, de Ridley Scott, com alguns toques da versão de Robin Hood desse diretor e do seu clássico Gladiador (na apresentação das figuras paternas), sem nunca deixar de apostar na sua linha de frente: roteiro e atuações calibradas. Além disso, a fotografia de Barry Ackroyd, habitual colaborador de Paul Greengrass e Kathryn Bigelow, insere o espectador no escopo da batalha, captando de maneira inegavelmente competente o desespero no rosto dos homens com a vida por um triz. Por vezes, Mackenzie renova a brutalidade da Idade Média com imagens de tirar o fôlego, compostas com certo enquadramento funcional e um jogo de luzes por vezes pictórico, aliado às cores de cada figurino belíssimo.

Lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Legítimo rei talvez seja a peça, até agora, mais ousada, em termos de produção, da Netflix. Resta saber se sua parte inicial, um pouco titubeante, numa apresentação apressada de determinados personagens e pouco desenvolvimento, se deve ao corte feito pelo diretor na metragem: foram dispensados 23 minutos de trama. Há, sem dúvida, cortes abruptos, passagens que não se esclarecem com a devida ênfase e pouca necessidade de levar os personagens a um termo em comum, parecendo mais dispersos. Se a sequência inicial sem cortes durante oito minutos pode lembrar um De Palma ou, mais recentemente, o estilo de Iñárritu, principalmente o de Birdman e O regresso, em seguida tudo, diante disso, parece, em termos técnicos, mais comportado. Mackenzie, de qualquer maneira, não desiste; sua narrativa segue num crescendo. E, nisso, o espectador não deve se enganar: mesmo que o desenvolvimento dos personagens não seja o forte de Legítimo rei, está aqui um filme com a intensidade de um épico tão em falta no cinema contemporâneo.

Outlaw king, EUA/ING, 2018 Diretor: David Mackenzie Elenco: Chris Pine, Aaron Taylor-Johnson, Florence Pugh, Billy Howle, Tony Curran, Callan Mulvey, Stephen Dillane Roteiro: David Mackenzie, Bathsheba Doran, James MacInnes, Mark Bomback, David Harrower Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Tony Doogan, Lucie Treacher Produção: David Mackenzie, Gillian Berrie, Richard Brown Steve Golin Duração: 121 min. Estúdio: Sigma Films, Anonymous Content Distribuidora: Netflix

O destino de uma nação (2017)

Por André Dick

Uma das curiosidades de O destino de uma nação é ser lançado no mesmo ano de Dunkirk, de Nolan. Se este filme conta a história das tropas inglesas presas em Dunkirk por causa de aviões alemães, a obra de Joe Wright conta, digamos assim, seus bastidores. Para um diretor que já havia mostrado uma sequência sem cortes passada na praia francesa em Desejo e reparação, indicado ao Oscar de melhor filme como O destino, não se trata de nada surpreendente. Naquela produção de 2008, Wright se situava entre uma história familiar e uma tragédia de guerra; ele não deixa de fazer o mesmo aqui, embora sem tanto espaço para as nuances familiares.
O destino de uma nação começa em maio de 1940, quando o Reino Unido e França são aliados na Segunda Guerra Mundial. O Partido Trabalhista da Oposição no Parlamento inglês pede que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) renuncie, por ser considerado muito hesitante. No entanto, Neville consegue fazer com que Halifax (Stephen Dillane), seu braço direito, continue num posto do governo.

Para seu lugar, é escolhido Winston Churchill. Casado com Clementine (Kristin Scott Thomas) e tendo como secretária Elizabeth Layton (Lily James), Churchill precisa enfrentar justamente a crise em Dunkirk, com suas tropas ameaçadas pela morte. Ele mantém contato com quem o escolhe para o cargo, rei George VI (Ben Mendelsohn), mas o enfoque de Wright se dá nos discursos e conversas de rotina sobre a guerra entre Churchill e figuras próximas. Todos parecem querer que ele entre, por causa da situações das tropas na praia francesa, em acordo com a Alemanha nazista, por meio da Itália, em relação ao qual ele reluta.
Depois dos criticados injustamente Anna Karenina (uma releitura belíssima de Dostoiévski) e Peter Pan, duas adaptações literárias multicoloridas, Wright escolhe em seu novo filme uma paleta fotográfica assinada por Bruno Delbonnel, baseada no lado soturno da políticas, com fachos de luz entrando pelas janelas. Trata-se de um trabalho de Delbonnel que remete ao que ele fez em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, e um pouco de Sombras da noite, de Burton. Não é muito atrativo à primeira vista, contudo ajuda a contar a história de um período nebuloso para a Inglaterra e a solidão de um homem que deve tomar decisões que envolvem milhares de pessoas.

Oldman faz Churchill com notável empenho e, apesar de ser ajudado por uma maquiagem fantástica, é ele que consegue atribuir nuances ao personagem, com alguns maneirismos que o tornam reconhecível logo depois de meia hora. Sua relação de amizade com a secretária é o que mais aproxima o espectador do filme e Lily James está bem, mas é em seus rompantes de bom humor que a narrativa cresce. Oldman concede uma faceta humana e cotidiana ao grande líder, baseado num roteiro interessante, embora às vezes apegado demais aos fatos históricos, no seu andar, passo a passo. Há dois momentos tremendamente emocionais no filme e se aproximam de conversas mais íntimas de Churchill: aquele no qual conversa por telefone com Franklin Roosevelt e outro que resulta de uma conversa com o Rei, fazendo o personagem se misturar a quem deve perguntar pelo verdadeiro destino de uma nação. Deve-se lembrar também um diálogo decisivo que ele tem com o Rei George VI, já mostrado em O discurso do rei, de Tom Hooper, no qual Mendelsohn mostra sua excelência como ator e diante do qual se lamenta o pouco tempo de tela, pois teria muito a acrescentar em termos de nuances históricas.

O roteiro assinado por Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, pode às vezes ser previsível em alguns tópicos autobiográficos, porém ainda assim os discursos e as relações de Churchill com a mulher e o rei resultam eficazes para o resultado final. Tem-se a impressão que Wright não se sente mais tão à vontade no formato histórico depois de seus filmes mais fantasiosos (incluindo o interessante Hanna, com uma jovem Saoirse Ronan, que Wright ajudou a revelar). Mesmo em Anna Karenina, no qual ele misturou elementos teatrais com um multicolorido de cenários e figurinos que evocavam Wes Anderson, Wright já havia feito uma obra diferenciada dos filmes anteriores, e talvez por isso mesmo não tenha sido bem recepcionado. Isso faz com que O destino de uma nação não se sinta tão bem resolvido às vezes, pois não é tão eficaz quanto aquele em nenhum momento em termos de narrativa (nem mesmo como Peter Pan). De qualquer modo, ainda é um retrato histórico atrativo e que merece ser visto por sua competência e construção cuidadosa.

Darkest hour, ING, 2017 Diretor: Joe Wright Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Dario Marianelli Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski Duração: 125 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films Distribuidora: Focus Features