Personal shopper (2016)

Por André Dick

Uma das lendas propagadas por determinada crítica é de que Kristen Stewart se transformou numa boa atriz apenas quando iniciou sua parceria com Olivier Assayas em Acima das nuvens, justamente porque foi a primeira atriz norte-americana a receber o César, o Oscar do cinema francês. Pode-se lembrar, inclusive, das piadas feitas com ela numa cerimônia do Oscar, numa época em que poucos a consideravam como atriz. Outra lenda é de que ela se transformou numa atriz realmente após a série Crepúsculo. São avaliações equivocadas de quem certamente não assistiu a suas atuações em O quarto do pânico, Na natureza selvagemO silêncio de Melinda, feitos antes de Crepúsculo (série na qual tem a mesma base de interpretação, apenas com um roteiro de apelo mais pop), e em The Runaways, O lenço amarelo, Adventureland, Na estradaAmerican Ultra e Café Society, feitos ao mesmo tempo que ou após a série, nos quais apresenta atuações destacadas e de uma atriz que procura caminhos diferentes, embora mantenha um determinado estilo. Diante disso, a constatação é a seguinte: Stewart só teve seu talento valorizado quando destacada pelos franceses, igual a outros artistas desde o século passado.

Em Personal shopper, ela interpreta Maureen Cartwright, que perdeu o irmão gêmeo Lewis e tenta se conectar com ele por meio da mediunidade, elemento que ele também possuía. Ela trabalha exatamente como “personal shopper”, escolhendo roupas para uma celebridade, Kyra (Nora von Waldstätten), cujo namorado é Ingo (Lars Eidinger). O filme de Assayas mostra ela entre a tentativa de contactar o irmão, mas é muito mais sobre a falta de diálogo entre as pessoas vivas. Há um casal de amigos (Audrey Bonnet e Pascal Rambert), interessado em comprar a casa onde ela e Lewis viviam, mas Maureen quer primeiro reencontrar, de algum modo, o irmão. Essa tentativa de voltar à casa onde se morou retoma certamente um dos temas de Assayas em Horas de verão, sobre o reencontro de uma família, e as folhas amarelas de outono que caem na sacada do lugar representam essa mudança existencial.
Situado entre Paris e Londres, Personal shopper tem uma atmosfera muito interessante – uma mistura entre arthouse e obra sobre paranormalidade – e, além da belíssima fotografia de Yorick Le Saux, apresenta uma das melhores atuações de Stewart, atriz que certamente acrescentou a seu repertório um traço de atriz europeia, bem mais arriscado daquele a que o espectador está acostumado. É uma atuação comovente até determinado ponto, pois é sua busca pelo irmão a todo custo e contra qualquer vestígio material, mesmo tentando se manter ligada à ex-namorada dele, Lara (Sigrid Bouaziz).

Vaiado no Festival de Cannes de 2016, onde foi lançado e no qual recebeu o prêmio de melhor diretor (dividido com Cristian Mungiu, do excelente Graduation), Personal shopper talvez seja o filme mais estranho de Assayas. Ele está a todo momento contrapondo mundo material (roupas, joias) ao mundo espiritual (que se reflete em luzes e sombras, principalmente quando Maureen passa a noite numa casa vazia a fim de ver se recebe algum sinal do irmão), assim como usa smartphones e computadores como um meio de estabelecer relações com aqueles que existem (mas também inexistem), a exemplo de seu namorado Gary (Ty Olwin), que trabalha no Oriente Médio, ou não estão presentes e surgem a princípio como curiosidades para se transformarem em stalkers (as conversas durante uma viagem dela a Londres por meio de celular são especialmente bem feitas, utilizadas de maneira realmente funcional como no drama Homens, mulheres e filhos). A relação de Maureen com Kyra é tão fantasmagórica quanto qualquer matéria intangível: ao ser um manequim vivo da celebridade, Maureen vive de reflexos e de uma existência ao mesmo tempo vazia de vínculos. Ela se divide entre um ar resignado e sofrido (da mesma maneira que se apresenta no recente A longa caminhada de Billy Lynn) e procurando uma sexualidade que visualiza em Kyra.

O momento mais contundente neste sentido é quando ela resolve experimentar as roupas de Maureen no apartamento dela: é um diálogo com a tentativa de viver realmente como outra pessoa, embora seu drama pessoal seja não encontrar mais seu irmão. Com toques de suspense e assustador em determinadas sequências, Personal shopper tem características do melhor Assayas, aquele de Boarding gate, que também trazia a imagem de uma mulher solitária num universo do crime, e de Clean, sobre uma junkie que tem uma banda de rock com o marido e, depois de determinado acontecimento, encontra-se solitária. A obra de Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Personal shopper, FRA, 2016 Diretor: Olivier Assayas Elenco: Kristen Stewart, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Pascal Rambert, Lars Eidinger, Nora von Waldstätten, Ty Olwin, Audrey Bonnet Roteiro: Olivier Assayas Fotografia: Yorick Le Saux Produção: Charles Gillibert Duração: 105 min. Estúdio: arte France Cinéma / CG Cinéma / Detailfilm / Poisson Rouge Pictures / Scope Pictures / Sirena Film / Vortex Sutra

Eden (2014)

Por André Dick

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Há inúmeros filmes com a temática musical de fundo, inclusive mostrando uma determinada cena. Cameron Crowe é especialista nesse gênero, o que demonstra em Vida de solteiro, sobre o grunge em Seattle, e Quase famosos, sobre as bandas de rock dos anos 70. Mostrando os mesmos anos 70, temos também The Runaways, sobre o grupo homônimo, e Control, uma cinebiografia em preto e branco de Ian Curtis. Ainda há aqueles filmes que retratam astros tentando se manter depois que o sucesso já diminuiu, como a subestimada comédia romântica Letra e música, traduzindo a influência da música dos anos 80, ou sobre um determinado músico, no caso de Johnny & June, o compositor Johnny Cash, em grande atuação de Joaquin Phoenix.
Eden talvez seja o filme que melhor reproduza a sensação de um músico dividido entre a noite, na qual se abriga, e o dia, no qual tenta apenas conservar os relacionamentos iniciados à noite. Ele surge na persona de Paul Vallée (Félix de Givry), segundo entrevistas o alter ego do irmão da diretora Mia Hansen-Løve, Sven, que coescreveu o roteiro. Ela decidiu contar sua história de forma enviesada, mostrando envolvimento com a house-music e a música eletrônica no mesmo período em que estava surgindo o Daft Punk, nas figuras dos DJs Thomas (Vincent Lacoste) e Guy-Man (Arnaud Azoulay). A cena que começava a emergir em Paris incluía festas em navios ancorados e o que se convencionou chamar de French Touch. Para isso, Vallée se reuniu com o amigo Stan (Hugo Conzelmann), também músico, formando o Cheers, e o desenhista Cyril (Roman Kolinka), que desenhava para sua carreira ao mesmo tempo que criava histórias, e o amigo Arnaud (Vincent Macaigne).

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Conhecido como o filme que trataria do Daft Punk, Eden certamente não se restringe a isso. Nascida no início dos anos 80, Hansen-Løve, depois de Os pais de meus filhos e Adeus, primeiro amor, comprova ser uma cineasta claramente contemporânea: ela não está interessada em tecer elos óbvios entre os personagens, deixando a cargo do espectador selecionar uma narrativa das imagens. Nesse sentido, na primeira parte da história, intitulada “Paradise Garage”, vamos percebendo o interesse de Vallée por Louise (Pauline Etienne), sua relação com uma nova-iorquina, Julia (Greta Gerwig), seus desentendimentos com a mãe (Arsinée Khanjian). Todos esses relacionamentos vão se baseando em jogos aleatórios de montagem, em que cada um vai surgindo sem exatamente chamar a atenção para a sua presença.
O personagem de Vallée nunca se sente completo porque todos parecem estar de passagem – e Hansen-Løve consegue, por meio dessa sensibilidade de visão, colocar o espectador em meio a uma sensação de desamparo. Trata-se de um personagem pouco previsível, e Hansen-Løve mostra seu sonho de ser DJ e de tocar num clube lotado à noite como algo que faz parte de sua tentativa de esquecer não apenas uma vida com compromissos e sua vida acadêmica. No entanto, de forma paradoxal, ao agir dessa maneira Valeé sente exatamente falta do compromisso. Isso se manifesta na relação com Louise e Julia, das quais não consegue se desprender, mesmo que elas venham junto com o fluxo de sua vida conturbada.
Mais do que um filme sobre a cena musical registrada, Eden é retrata as perdas diante de um cenário que parece eterno e pode se mostrar, no fim das contas, efêmero. São notas desiludidas de uma cineasta que viveu o período por meio do envolvimento do irmão, o corroteirista, e tem um apreço por esta história adequado a seu tratamento para o retrato de tal círculo. Esta análise do que não é visto como espetacular no momento de sua criação ganha um diálogo com a presença de Arnaud, que mostra aos amigos o filme Showgirls, de Paul Verhoeven, bastante criticado à época de seu lançamento e que foi adquirindo, com o passar dos anos, um status de cult.

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É como se esses personagens, embora não tão considerados, fossem também parte da memória particular das pessoas. Se a trilha sonora traz composições como “One more time”, do Daft Punk, o que fica é justamente essa tentativa de o artista compor músicas entre a alegria e a melancolia, como diz Vallée em determinado momento. Associado a Inside Llewyn Davis por alguns, Eden é um filme que captura realmente a sensação de um período, e não se associa apenas a uma galeria de arte, com a obra dos irmãos Coen.
Há uma necessidade um pouco deslocada de Hansen-Løve separar o que considera alta e baixa cultura (a literatura e a música, neste caso), quando as artes, na verdade, se completam (o nome do personagem central lembra Paul Valéry), mas ela inegavelmente faz uma obra completamente imersiva. Talvez o espectador não seja especial admirador desse gênero musical (como é o meu caso); dito isso, ele traz a atmosfera exata de um lugar em que esta música soa, muito em razão do trabalho de fotografia de Denis Lenoir, e sabe, como Kechiche, em Azul é a cor mais quente, deixar o fluxo da narrativa levar seus personagens, embora sem a mesma sucessão de diálogos. Toda a parte do filme passada em Nova York, sobretudo no conhecido MoMA PS1, espaço para DJs, possui uma montagem ágil e, ao mesmo tempo, reflexiva, quando coloca os personagens de Vallée e Louise numa legítima crise de relacionamento, sem nenhuma espécie de exagero ou comedimento por parte de Hansen-Løve.
Não chegamos a ter simpatia especial pelas figuras apresentadas, mantendo-nos a distância; ainda assim, elas soam tão reais que essa distância parece diminuir, sugerindo uma proximidade. Isso proporciona uma sensação de passagem da juventude para a vida adulta de forma um tanto amarga – de qualquer modo, excepcional. Como Azul é a cor mais quente, a narrativa também utiliza saltos temporais, que pegam o espectador desprevenido e, não tendo visto soluções anteriores para as questões, acumula-se uma espécie de desapontamento temporal, sendo, por isso, a narrativa um pouco melancólica. Para isso, a atuação de Givry, central, é excelente, no entanto não ficam longe Kolinka, Etienne e Gerwig, bastante convincente como a amante americana de Paul. Não lembro de outra visão da juventude tão despretensiosa e impactante nos últimos anos, exceto, sob outro enfoque, As vantagens de ser invisívelEden tem uma noção muito grande de seu espaço e de sua passagem de anos, além de ver com nostalgia um período em que apenas alguns se destacaram, não diminuindo a importância de quem ajudou a fazer uma determinada cena. É uma obra em que os sentimentos são trabalhados de forma quase inexpressiva para que possam criar um impacto ainda maior no espectador que aceita a proposta de Hansen-Løve.

Eden, FRA, 2014 Diretor: Mia Hansen-Løve Elenco: Félix de Givry, Pauline Etienne, Vincent Macaigne, Roman Kolinka, Hugo Conzelmann, Zita Hanrot, Vincent Lacoste, Arnaud Azoulay, Paul Spera, Hugo Bienvenu, Sébastien Chassagne, Laurent Cazanave, Sigrid Bouaziz, Léa Rougeron, Olivia Ross, Pierre-François Garel, Claire Tran, Arsinée Khanjian, Greta Gerwig, Brady Corbet Roteiro: Mia Hansen-Løve, Sven Hansen-Løve Fotografia: Denis Lenoir Produção: Charles Gillibert Duração: 131 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: CG Cinéma

Cotação 5 estrelas